Origem Africana da Civilização – Cheikh Anta Diop

African capa cheikh inteiraAfrican Origin civilization cheikh capaOrigem Africana da Civilização Cheikh anta diop

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A Origem African cheikh                            contra capa - cheikh anta diop - african origin civilization

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Tabela de Conteúdo

PREFÁCIO O Significado do Nosso Trabalho ………………………… xii

CAPÍTULO 1

O que eram os Egípcios?  ……………………………………… 1

CAPÍTULO II

Nascimento do Mito do Negro……………………………. 10

CAPÍTULO III

Moderna Falsificação da História ………………………… 43

CAPÍTULO IV

Pode a Civilização Egípcia Ter …………………………….. 85
Se Originado no Delta?

CAPÍTULO V

Pode a Civilização Egípcia Ser……………………………. 100
de Origem Asiática?

CAPÍTULO VI

A Raça Egípcia Como Vista e …………………………….. 129
Tratada por Antropologistas

CAPÍTULO VII

Argumentos Suportando uma Origem Negra ……….. 134

CAPÍTULO VIII

Argumentos Opondo-se a uma Origem Negra ……….. 156

CAPÍTULO IX

Povoamento de África a partir do Vale do Nilo ………. 179

CAPÍTULO X

Evolução Social e Política do Egito Antigo …………….. 204

CAPÍTULO XI

Contribuições da Etiópia-Núbia e Egito ………………… 230

CAPÍTULO XII

Resposta a uma Crítica ……………………………………….. 236

CAPÍTULO XIII

Primitiva História da Humanidade:
Evolução do Mundo Preto ………………………………….. 260

CONCLUSÃO …………………………………………………….. 276

NOTAS …………………………………………………………….. 278

NOTAS SOBRE TERMOS ARQUEOLÓGICOS
USADOS NO TEXTO …………………………………………… 297

BREVES NOTAS BIBLIOGRÁFICAS …………………….. 300

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA ………………………….. 305

ÍNDICE ……………………………………………………………. 313

………………………………………………………………………………


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Pg 7
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                                   Lista de Ilustrações

  1. A Esfinge …………………………………………. Frontispício
  2. Considerável Africano do Leste ………………………… 8
  3. O Deus Osiris ………………………………………………… 11
  4. Senhor Tera Neter …………………………………………. 12
  5. Narmer (or Menes) ……………………………………….. 13
  6. Djoser [Zoser] ………………………………………………. 14
  7. Quéops [Cheops] …………………………………………… 15
  8. Miquerinos [Mycerinus] e a Deusa Hator ………….. 16
  9. Mentuhotep I ………………………………………………… 17
  10. Sesostris I …………………………………………………….. 18
  11. Ramses II e um Moderno Watusi ……………………… 19
  12. Tutmés III [Tutmosis III] ……………………………….. 20
  13. Taharqa ……………………………………………………….. 21
  14. Mulher Egípcia ……………………………………………… 29
  15. A Senhora com Túmulos ………………………………… 30
  16. Mulher Fazendo Perfume ……………………………….. 31
  17. Tempo Clássico [Vintage Time] ……………………….. 32
  18. Soldados Sudaneses ………………………………………. 33
  19. Egípcios Pescando …………………………………………. 34
  20. Cabeças Egípcias [Egyptian Heads] ………………….. 35
  21. Um Cozinheiro ……………………………………………… 36
  22. Terra Cota Nok ……………………………………………… 37
  23. Camponeses Pretos Prisioneiros ……………………… 38
  24. Princesa e Garotas Senegalesas ……………………….. 39
  25. Djimbi e Djeré ………………………………………………. 40
  26. Penteados Totêmicos ……………………………………… 41
  27. Patesi, Rei de Lagash ……………………………………… 42
  28. A Famosa Cor Vermelho Escuro ………………………. 44
  29. Prisioneiros de Abu Simbel …………………………….. 60
  30. Ariano, Líbio e Semítico Cativos ………………………. 61
  31. Paleta de Narmer [Narmer’s Tablet] …………….. 80 – 81
  32. Uma Rainha Preta do Sudão ……………………………. 96
  33. Deidades Totêmicas Egípcias …………………………… 99
  34. A Torre de Babel ……………………………………………. 171
  35. Falcão e Crocodilo …………………………………………. 172
  36. Zimbabwe Architecture …………………………………… 173
  37. Bugiganga Máscara Suíça ………………………………… 174
  38. Máscara Cubista Congolesa ……………………………… 175
  39. Cabeça de Ife (Nigéria) ……………………………………. 176
  40. Cabeça de Bronze do Benin ……………………………… 177
  41. A Mesquita de Gao …………………………………………. 178
  42. O Tipo Peul …………………………………………………… 202
  43. Ramses II como um menino ……………………………. 203
  44. A Esfinge e a Grande Pirâmide ………………………… 227
  45. Templo Mortuário de Djoser [Zoser] ……………….. 228
  46. Influência Egípcia sobre a Arte Cretense …………… 229
  47. Três Crânios …………………………………………………. 269
  48. A Vênus Hotentote ………………………………………… 270
  49. Crânio Aurignaciano ……………………………………… 271
  50. Pintura em Caverna no Sahara: Mulher Negra……. 272

            ………………………………………………………..

Pg. 12.

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                                                               PREFÁCIO

                                              O Significado do Nosso Trabalho  

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Eu comecei minha pesquisa em setembro de 1946; por causa da nossa situação colonial na época, o problema político dominava todos os outros. Em 1949, a RDA *

[nota* Assembléia Democrática Africana  (Democratic African Rally), a RDA. Fundada em 1946, “foi o primeiro movimento internacional na África Ocidental Francesa, criada antes que partidos em outros territórios além de Senegal ou Costa do Marfim tivessem criado raízes.” Ruth S. Morgenthau, Partidos Políticos na África francófona Ocidental. Oxford: Clarendon Press, 1964, p. 302.] *

a RDA estava passando por uma crise. Eu senti que a África devia mobilizar toda a sua energia para ajudar o movimento a virar a maré da repressão: assim fui eleito Secretário-Geral dos estudantes da RDA em Paris e servi de 1950 a 1953.

Em 04 – 08 de Julho de 1951, teve lugar em Paris o primeiro, pós-guerra, congresso político Pan Africano de Estudantes, com a União Estudantil do Oeste Africano (de Londres) bem representada por mais de 30 delegados, incluindo a filha do Oni de Ifé, a falecida senhorita Aderemi Tedju.

Em fevereiro de 1953, a primeira edição do Voie de l’Afrique Noire apareceu; este era o órgão dos estudantes da RDA. Nele eu publiquei um artigo intitulado “Rumo a uma ideologia política na África Preta.” [“Toward a Political Ideology in Black Africa.”].Este artigo contém um resumo de Nações Negras [Nations Nègres], o manuscrito o qual já estava concluído.

Todas as nossas idéias sobre a história Africana, o passado e o futuro de nossas línguas, a sua utilização nos domínios científicos mais avançados como na educação em geral, os nossos conceitos sobre a criação de um futuro Estado federal, continental ou subcontinental, nossos pensamentos sobre as estruturas sociais Africanas, sobre estratégia e táticas na luta pela independência nacional, e assim por diante, todas essas idéias foram claramente expressas no referido artigo. Como seria posteriormente visto, no que diz respeito ao problema da independência política do continente, os políticos Africanos de língua Francesa levaram seu próprio bom tempo antes de admitirem que este fosse o caminho político certo a seguir.

No entanto, os alunos da RDA se organizaram em uma federação dentro da França e politizaram círculos de estudantes Africanos popularizarizando o slogan da independência nacional para a África do Sahara até o Cabo e do Oceano Índico até o Atlântico, como a nossa revista [periódico] atesta.

Os arquivos da FEANF (Federação de Estudantes Africanos em França) indicam que ela não começou a adotar posições anti-colonialistas até que foi dirigida por estudantes da RDA. Nós enfatizamos o conteúdo cultural e político que nós incluímos no conceito de independência, a fim de obter o último adotado na África francófona: já esquecida está a amarga luta que tinha de ser travada para impô-lo a círculos estudantis em Paris, por toda a França, e até mesmo dentro das fileiras dos estudantes da RDA.

O conceito cultural especialmente irá reclamar a nossa atenção aqui; o problema foi colocado em termos de restauração da personalidade Africana coletiva nacional. Foi particularmente necessário evitar a armadilha da facilidade.Poderia parecer muito tentador iludir as massas envolvidas em uma luta pela independência nacional, tomando liberdades com a verdade científica, revelando um mítico, passado embelezado. Aqueles que nos seguiram em nossos esforços por mais de 20 anos sabem agora que este não foi o caso e que esee medo permaneceu sem fundamento.

É certo que três fatores concorrem para formar a personalidade coletiva de um povo: um fator psíquico, passível de uma abordagem literária; este é o fator que em outros lugares poderia ser chamado de temperamento nacional, e que os poetas da Negritude têm super-enfatizado, Além disso, há o fator histórico e o fator lingüístico,ambos suscetíveis de serem abordados cientificamente. Estes dois últimos fatores têm sido o assunto dos nossos estudos; temos nos esforçado para permanecer estritamente em bases científicas.

Têm os intelectuais estrangeiros, que desafiam as nossas intenções e acusam-nos de todos os tipos de motivos ocultos ou idéias ridículas, procedido de forma diferente?

Quando eles explicam seu próprio passado histórico ou estudam suas línguas, aquilo parece normal. No entanto, quando um Africano faz o mesmo para ajudar a reconstruir a personalidade nacional de seu povo, distorcida pelo colonialismo, que é considerado ultrapassado ou alarmante.

Defendemos que um estudo como esse é o ponto de partida para a revolução cultural devidamente compreendida. Todas as fugas precipitadas de certos esquerdistas infantis que tentam contornar este esforço podem ser explicadas por inércia intelectual, inibição, ou incompetência. A eloqüência pseudo-revolucionária mais brilhante ignora esta necessidade que deve ser cumprida se os nossos povos estão para renascer cultural e politicamente. Na verdade muitos Africanos acham esta visão bonita demais para ser verdade; não há muito tempo atrás alguns deles não poderiam romper com a idéia de que os Pretos são inexistentes cultural e historicamente. Era necessário colocar-se com o clichê de que os Africanos não tinham história e tentar começar a partir daí a construir algo modestamente! As nossas investigações nos convenceram de que o Ocidente não tem sido calmo o suficiente e objetivo o suficiente para nos ensinar corretamente a nossa história sem falsificações grosseiras.

Hoje, o que mais me interessa é ver a formação de equipes, não de leitores passivos, mas de, ousados pesquisadores honestos, alérgicos à complacência e ocupados comprovando e explorando idéias expressas em nosso trabalho, tais como:

1.    O Antigo Egito foi uma civilização Negra. A história da África Preta permanecerá suspensa no ar e não pode ser escrita corretamente até que historiadores Africanos se atrevam a conectá-la com a história do Egito. Em particular, o estudo das línguas, instituições, e assim por diante, não podem ser tratados adequadamente; em uma palavra, será impossível construir ‘Humanidades’ Africana, um corpo de ciências humanas Africano, desde que essa relação não apareça legítima.

O historiador Africano, que evita o problema do Egito não é nem modesto nem objetivo, nem imperturbável; ele é ignorante, covarde, e neurótico. Imagine, se você puder, a desconfortável posição de um historiador ocidental que fosse escrever a história da Europa sem se referir a Antiguidade Greco-Latina e tentasse passar por fora daquilo como uma abordagem científica.

Os antigos egípcios eram Negros. O fruto moral da sua civilização deve ser contado entre os espólios do mundo Preto. Em vez de apresentar-se a história como um devedor falido, este mundo Preto é o próprio iniciador da civilização “ocidental” ostentada diante de nossos olhos hoje.

Matemática de Pitágoras, a teoria dos quatro elementos de Tales de Mileto, o materialismo epicurista, o idealismo Platônico, o Judaísmo, o Islamismo, e a ciência moderna estão enraizados na cosmologia e ciência Egípcia.

É preciso apenas meditar sobre Osíris, o deus-redentor, que se sacrifica, morre e é ressuscitado para salvar a humanidade, uma figura essencialmente identificável com Cristo. Um visitante de Tebas, no Vale dos Reis, pode ver o inferno Muçulmano em detalhe (no túmulo de Seti I, da Décima – Nona Dinastia), 1.700 anos antes do Alcorão.

Osiris no tribunal dos mortos é de fato o “senhor” de religiões reveladas, sentado entronizado no Dia do Julgamento, e nós sabemos que certas passagens Bíblicas são praticamente cópias de textos morais Egípcios.

Longe de mim confundir este breve lembrete com uma demonstração. É simplesmente uma questão de fornecer alguns pontos de referência para persuadir o leitor Preto Africano incrédulo a trazer a si mesmo para verificar isto. Para sua grande surpresa e satisfação, ele vai descobrir que a maioria das idéias utilizadas hoje para domesticar, atrofiar, dissolver, ou roubar a sua “alma”, foram concebidas por seus próprios ancestrais.

Para tornar-se consciente de si mesmo; sem isto, a esterilidade intelectual é a regra geral, ou então as criações suportam, Eu não sei o quê, de cunho subumano. Em uma palavra, devemos restaurar a consciência histórica dos povos Africanos e reconquistar uma consciência Prometéia [Promethean consciousness].

2.    Antropologicamente e culturalmente falando. O mundo semítico nasceu durante os tempos proto-históricos a partir da mistura de pessoas de pele branca e de pele negra na Ásia ocidental. É por isso que e compreensão do mundo semítico mesopotâmico, Judaico ou Árabe, requer constante referência à realidade Preta subjacente. Se certas passagens Bíblicas, especialmente no Velho Testamento, parece absurdas, isso ocorre porque os especialistas, inchados com preconceitos, são incapazes de aceitar evidências documentais.

3.   O triunfo da tese monogenética da humanidade (Leakey), mesmo na fase de “Homo sapiens sapiens”, obriga a admitir que todas as raças descendem da raça Preta, de acordo com um processo de filiação que a ciência um dia irá explicar {*} [Nota {*} Cf. Cheikh Anta Diop, “L’Apparition de l’homo-sapiens,” Bulletin de l’IFAN, XXXII, Series II, number 3, 1970. -, “La Pigmentation des anciens Egyptiens. Test par la mélanine,” Bulletin de l’IFAN, 1973 (in press).].

4.   Em África Preta Pré-colonial [L’Afrique Noire Précoloniale] (1960), eu tinha dois objetivos:

(1) demonstrar a possibilidade de escrever uma história da África Preta livre de mera cronologia dos acontecimentos, como o prefácio para esse volume indica claramente;

(2) definir as leis que governam a evolução das estruturas sociopolíticas Africanas, a fim de explicar o sentido que a evolução histórica têm tomado na África Preta; Portanto, tentar a partir de agora a dominar com maestria esse processo histórico pelo conhecimento, ao invés de simplesmente se submeter a ele.

Estas últimas questões, como aquelas sobre as origens (Egito), estão entre os problemas chave; uma vez que eles são resolvidos, um estudioso pode proceder para escrever a história da África. Por conseguinte, é evidente por isso que estamos prestando especial atenção à solução de tais problemas e de tantos outros que transcendem o campo da história.

O padrão de pesquisa inaugurado por África Preta Pre-Colonial [L’Afrique Noire Precoloniale] sobre o plano sócio-histórico, não o etnográfico,  já foi desde então utilizado por muitos pesquisadores. Isso, eu suponho, é o que os levou a descrever a vida cotidiana dos Congoleses ou ampliar sobre as várias formas de organização política, econômica, social, militar e judiciária na África. 5.  Definir a imagem de uma África moderna reconciliada com seu passado e se preparando para o seu futuro. {*}

[Nota {*} Cf. Cheikh Anta Diop, Les Fondements culturels et d’un industriels futur Etat fédéral d’Afrique Noire.]

6.  Uma vez que as perspectivas aceitas até agora pela ciência oficial têm sido revertidas, a história da humanidade se tornará clara e a história da África poderá ser escrita. Mas qualquer empresa neste campo que adote comprometer, como seu ponto de partida, como se fosse possível, dividir a diferença, ou a verdade, em duas metades, correria o risco de produzir nada além de alienação. Apenas uma leal, determinada luta para destruir a agressão cultural e trazer a verdade, seja ela qual for, é revolucionária e consonante com o progresso real; é a única abordagem que se abre para o universal.

Declarações Humanitárias não são chamadas para isso e não acrescentam nada ao progresso real. Da mesma forma, não é uma questão de olhar para o Negro sob uma lente magnificente quando se varre o passado; um grande povo não tem nada a ver com história mesquinha, nem com reflexões etnográficas extremamente em necessidades de renovação. Pouco importa que alguns indivíduos Pretos brilhantes possam ter existido em outros lugares. O fator essencial é traçar a história de toda a nação. O contrário é o mesmo que pensar que, para ser ou não ser dependentes de se é ou não conhecido na Europa. O esforço é corrompido na base pela presença do próprio complexo que se espera erradicar. Por que não estudar a aculturação do homem branco em um ambiente Preto, no Egito antigo, por exemplo?

7.     Como é possível que toda a literatura Preta moderna tenha se mantido menor, no sentido de que nenhum autor ou artista Negro Africano, que eu saiba, tenha ainda colocado o problema do destino do homem, o tema principal das letras humanas?

8.   Em A Unidade Cultural da África Preta [L’Unité de l’Afrique Culturelle Noire], tentamos identificar as características comuns à civilização Negro Africano.

9.   Na segunda parte de Nações Negras [Nations Nègres], demonstramos que as línguas Africanas podem expressar pensamento filosófico e científico (matemática, física, e assim por diante) {*}

[Nota {*} em Nações Negras, Dr. Diop traduz uma página da teoria da Relatividade de Einstein em wolof, a principal língua Senegal.] e que as culturas Africanas não serão levadas a sério até que a sua utilização na educação se torne uma realidade. Os acontecimentos dos últimos anos provam que a UNESCO aceitou essas idéias.

* [* Bamako 1964 colóquio sobre a transcrição das línguas Africanas, várias medidas tomadas para promover as línguas Africanas, e assim por diante.].

10.    Eu estou muito contente de saber que uma idéia proposta em África Preta Pré-Colonial [L’Afrique Noire Précoloniale] – as possibilidades de relações pré-Colombianas entre África e América – foi tomada por um estudioso Americano. Professor Harold G. Lawrence, da Universidade de Oakland, está, de fato, demonstrando com uma abundância de prova a realidade dessas relações que eram meramente hipotéticas no meu trabalho. Se a soma total de seus argumentos impressionantes resiste ao teste da cronologia, se pode ser provado na análise final que todos os fatos notados existiram antes do período da escravidão, sua pesquisa terá certamente contribuído sólido material para o edifício do conhecimento histórico.

Eu gostaria de concluir, exortando os jovens estudiosos Americanos de boa vontade, ambos Pretos e Brancos, para formar equipes universitárias e se envolverem, como o professor Lawrence, no esforço para confirmar várias idéias que eu tenho avançado, em vez de limitarem-se a um negativo, estéril ceticismo, eles logo se deslumbrarão,  se não cegarão, à luz de suas futuras descobertas. Na verdade, a nossa concepção da história Africana, como exposta aqui, praticamente triunfou, e aqueles que escrevem sobre a história Africana agora, voluntariamente ou não, basear-se-ão em cima dela. Mas a contribuição Americana para esta fase final pode ser decisiva. Cheikh Anta Diop Julho 1973

A Orgigem Africana da Civilização – 
Cheikh Anta Diop – 
Capítulo I – 
O Que Eram Os Egípcios –


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Pg.1
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O que eram os Egípcios

Em descrições contemporâneas dos antigos Egípcios, esta questão nunca é levantada. Testemunhas oculares desse período formalmente afirmam que os Egípcios eram Pretos. Em várias ocasiões, Heródoto insiste no caractere Negro dos Egípcios e até mesmo usa isto para demonstrações indiretas. Por exemplo, para provar que as inundações do Nilo não podem ser causadas por neve derretida, ele cita, entre outras razões que ele considera válidas, a seguinte observação:

“É certo que os nativos do país são negros com o calor… [A História de Heródoto [The History of Herodotus], traduzido por George Rawlinson, New York: Tudor, 1928, p 88..]. Para demonstrar que o oráculo Grego é de origem Egípcia, Heródoto avança outro argumento:  “Por fim, por chamar a pomba de preta, eles [os Dodonaeanos] indicavam que a mulher era Egípcia. [Ibid., p. 101.].

As pombas em questão simbolizam duas mulheres Egípcias alegadamente seqüestradas de Tebas para fundar os oráculos de Dodona e Líbia. Para mostrar que os habitantes da Cólquida [Colchis] eram de origem Egípcia e tinham de ser considerados uma parte do exército de Sesostris, que havia se instalado na região.

Heródoto diz: “Os Egípcios disseram que consideravam os Cólquidas [Colchians] sendo descendentes do exército de Sesostris. Minhas próprias conjecturas foram fundadas, em primeiro lugar, sobre o fato de que eles são de pele preta e tem cabelo lanoso [Ibidem, p. 115.]. Finalmente, com relação à população da Índia, Heródoto distingue os Pandaeans e outros Indianos, descrevendo-os como segue: “Todos eles também têm o mesmo tom de pele, que se aproxima dos Etíopes.” [Ibid., p. 184]. Diodoro da Sicília escreve: Os Etíopes dizem que os Egípcios são uma das suas colônias, que foi levada para o Egito por Osíris. Eles ainda alegam que este país era originalmente debaixo da água, mas que o Nilo, arrastando muita lama que emanava da Etiópia, havia finalmente preenchido e feito uma parte do continente. . .

Eles acrescentam que a partir deles, como a partir de seus autores e ancestrais, os Egípcios obtiveram a maioria de suas leis. É a partir deles que os Egípcios aprenderam a honrar reis como deuses e enterrá-los com tanta pompa; escultura e escrita foram inventadas pelos Etíopes. Os Etíopes citam evidências de que eles são mais antigos do que os Egípcios, mas é desnecessário relatar aqui.

[Histoire Universelle, traduzido por Abbé Terrason. Paris, 1758, Bk. 3, p.341.].

Se os Egípcios e os Etíopes não eram da mesma raça, Diodoro teria enfatizado a impossibilidade de se considerar os primeiros como uma colônia (ou seja, uma fração) destes últimos e a impossibilidade de vê-los como antepassados dos Egípcios. Em sua Geografia [Geography], Estrabão mencionou a importância das migrações na história e, acreditando que esta migração particular tinha procedido do Egito para a Etiópia, observa: “Egípcios estabeleceram Etiópia e Cólquida.” [Bk. 1, cap. 3. par. 10] Mais uma vez, é um Grego, apesar de seu chauvinismo, que nos informa que os Egípcios, Etíopes, e Cólquidas [Colchis] pertencem à mesma raça, confirmando assim o que Heródoto tinha dito sobre os Cólquidas. *

[* Os Cólquidas [Colchians] formaram um grupo de Negros entre populações brancas perto do Mar Negro; é por isso que o problema de sua origem intrigou estudiosos durante a Antiguidade. Alguém poderia supor que “preto” tinham um significado enfraquecido aqui para denotar a tonalidade “semítica” do Egípcio. Mas então surge a seguinte pergunta: Por que os Gregos reservam o termo “Negro” somente para os Egípcios, entre todos os semitas? Por que eles nunca aplicam-no aos Árabes, que são Semitas por excelência? Será que os Egípcios apresentam características “semitas” tão próximas de outros Negros Africanos que os Gregos acharam natural confundi-los usando exclusivamente o mesmo termo étnico (melanos), o mais forte existente em Grego para designar um Preto? Esta é a raiz usada ainda hoje, sempre que se quer indicar um tipo Negro sem ambigüidade. Exemplo: melanina, pigmentação que colore a pele de um Preto; Melanésia, um grupo de ilhas habitadas por Negros. De fato, os Gregos eram muito sensíveis à nuances de cor e as distinguiam claramente onde quer que elas existiam. Na mesma época, eles designaram os antigos Cananeus, então fortemente misturados, pelo termo Fenício que provavelmente significava vermelho e era, assim, talvez uma palavra étnica. Estrabão vai ainda mais longe em sua Geografia e tenta explicar por que os Egípcios são mais Pretos do que os Hindus (a famosa raça vermelho escuro dos modernos). Evidentemente, então, os Antigos Egípcios e Etíopes distinguidos dos Semitas e então-chamadas raças vermelho-escuro. Nenhuma interpretação acadêmica dos termos nos permite escapar da verdade conscientemente obscurecendo o que é óbvio. Entregando-se a tais acrobacias para evitar aceitar fatos simples,  alguém levanta dificuldades intransponíveis sem perceber.]

A opinião de todos os escritores antigos sobre a raça Egípcia é mais ou menos resumida por Gaston Maspero (1846 – 1916): “Pelo testemunho quase unânime dos historiadores antigos, eles pertenciam a uma raça Africana [leia-se: Negra], a qual primeiro se estabeleceu na Etiópia, no Médio Nilo, seguindo o curso do rio, eles gradualmente atingiram o mar. . .

Além disso, a Bíblia diz que Mesraim, filho de Ham, irmão de Chus (Kush), o Etíope, e Canaã, vieram da Mesopotâmia para se estabelecer com seus filhos sobre as margens do Nilo [Gaston Maspero, Histoire ancienne des peuples de l’Orient . Paris: Hachette, 1917, p. 15, 12 ed. (traduzido como: The Dawn of Civilization, Londres, 1894 ; reimpresso, New York: Frederick Ungar, 1968)] Segundo a Bíblia, o Egito foi povoado por descendentes de Ham, ancestral dos Pretos: “Os descendentes de Ham são Chus, Mesraim, Phut e Canaã Os descendentes de Chus são Saba, Hevila, Sabatha, Regma e Sabathacha. . . . Chus foi o pai de Nemrod, ele foi o primeiro a ser conquistador sobre a terra. . . .

Mesraim tornou-se o pai de Ludim, Anamim, Laabim, Nephthuhim, Phethrusim, Chasluhim. . . . Canaã tornou-se o pai de Sid, seu primogênito, e Heth. . . . “[Gênesis, X, 6-16, Nova Edição Católica da Bíblia Sagrada, Nova York, 1953.] Para os povos do Oriente Próximo, Mesraim ainda designa o Egito; Canaã, toda a costa da Palestina e Fenícia; Sennar, que era provável o local a partir do qual Nemrod deixou para a Ásia Ocidental, ainda indica o reino da Núbia. Qual é o valor dessas declarações? Vindo de testemunhas oculares que dificilmente poderia ser falsas. Heródoto pode ser confundido quando ele relata os costumes de um povo, quando ele raciocina mais ou menos inteligentemente para explicar um fenômeno incompreensível em seu dia, mas é preciso admitir que ele era pelo menos capaz de reconhecer a cor da pele dos habitantes dos países que ele tinha visitado. Além disso, Heródoto não era um historiador crédulo que registrava tudo sem verificar; ele sabia como pesar as coisas. Quando ele relaciona uma opinião a qual ele não compartilha, ele sempre tem o cuidado de anotar o seu desacordo. Assim, referindo-se aos costumes dos Citas  [Scythians] e Neurianos [Neurians], ele escreve a propósito dos últimos: “parece que essas pessoas são ilusionistas, pois ambos os Citas e os Gregos que moram na Cítia [Scythia ]dizem que cada Neuriano [Neurian] uma vez por ano se transforma em lobo por um alguns dias, no final dos quais ele é restaurado para sua boa forma. Não que eu acredite nisso, mas eles constantemente afirmam que é verdade, e estão mesmo dispostos a suportar a sua afirmação com um juramento. ” [Heródoto, p. 236].

Ele sempre distingue cuidadosamente entre o que ele havia visto e aquilo que lhe havia sido dito. Depois de sua visita ao Labirinto, ele escreve: Existem dois tipos diferentes de câmaras em todo – metade sob a terra, metade acima do solo, estas últimas construídas sobre as primeiras; o número total dessas câmaras é de três mil, quinhentas de cada tipo. As câmaras superiores Eu mesmo passei por elas e vi, e o que eu digo a respeito delas é de minha própria observação; sobre as câmaras subterrâneas Eu só posso falar a partir de relatos, pois os guardiões do edifício não poderiam se permitir mostrá-las, uma vez que elas continham, como eles disseram, os sepulcros dos Reis que construíram o Labirinto, e também aqueles dos crocodilos sagrados. Assim, é a partir de boatos somente que eu posso falar das câmaras inferiores. As câmaras superiores, no entanto, eu vi com meus próprios olhos e as encontrei como ultrapassando a todas as outras produções humanas. [Ibid., Pp. 133-134].

Era Heródoto um historiador privado de lógica, incapaz de penetrar fenômenos complexos? Pelo contrário, a sua explicação das inundações do Nilo revela uma mente racional buscando razões científicas para fenômenos naturais: Talvez, depois de censurar todas as opiniões que foram apresentadas sobre este assunto obscuro, deve-se propor uma teoria da própria. Portanto, vou continuar a explicar o que eu penso ser a razão da inundação do Nilo no verão. Durante o inverno, o sol é dirigido para fora de seu curso habitual pelas tempestades, e remove-se para as partes superiores da Líbia. Este é inteiro o segredo com o menor número possível de palavras; pois ele sustenta para a razão que o país para o qual o deus-Sol mais se aproxima, e que ele passa mais diretamente sobre, será escasso de água, e que aqui os córregos que alimentam os rios vão encolher mais. Para explicar, no entanto, mais em pormenor, este é o caso. O sol, em sua passagem através das partes superiores da Líbia, os afeta da seguinte forma. Como o ar nestas regiões é constantemente claro, e o país aconchegado através da ausência de ventos frios, o sol em sua passagem através atua sobre eles exatamente como ele está acostumado a atuar em outros lugares no verão, quando o seu caminho é no meio do céu – ou seja, ele atrai a água. Depois de atraí-la, novamente a repele e a reduz em um vapor, de onde naturalmente vem a acontecer que os ventos que sopram a partir deste trimestre – o sul e sudoeste – são de todos os ventos os mais chuvosos. E a minha opinião é que o sol não se livra de toda a água que ele atrai de ano para ano a partir do Nilo, mas mantém alguma sobre ele. [Ibidem, 88 pp. 88-89].

Estes três exemplos revelam que Heródoto não era um passivo repórter de contos incríveis e bagatelas, “um mentiroso”. Pelo contrário, ele foi bastante escrupuloso, objetivo, científico para a sua época. Por que deveria alguém procurar desacreditar tal historiador, para fazê-lo parecer ingênuo? Por que “re-fabricar” história, apesar de sua evidência explícita? Sem dúvida, a razão básica para isso é que Heródoto, após relatar seu testemunho ocular nos informando que os Egípcios eram Pretos, então, demonstrou, com honestidade rara (para um Grego), que a Grécia tomou emprestado do Egito, todos os elementos de sua civilização, mesmo o culto dos deuses, e que o Egito foi o berço da civilização. Além disso, as descobertas arqueológicas continuamente justificam Heródoto contra seus detratores. Assim, Christiane Desroches-Noblecourt escreve sobre recentes escavações em Tanis *

[* Tanis, a Zoan bíblica, na foz do ramo oriental do Delta do Nilo.]:

“Heródoto tinha visto os edifícios exteriores destes sepulcros e os tinha descrito. [Este foi o Labirinto discutido acima.] Pierre Montet acabou provando mais uma vez que “o pai da história não mentiu.” “[Sciences et Avenir, No. 56, em outubro de 1951.].

Pode-se objetar que, no século V a.C. quando Heródoto visitou o Egito, a sua civilização já tinha de mais de 10.000 anos de idade e que a raça que a havia criado não era necessariamente a raça Negra que Heródoto encontrou lá.

Mas a inteira história do Egito, como veremos a seguir, mostra que a mistura da primeira população com elementos nômades brancos, conquistadores ou comerciantes, tornou-se cada vez mais importante como o fim da história Egípcia se aproximou. Segundo Cornelius de Pauw, na época baixa o Egito foi quase saturado com colônias brancas forasteiras: Árabes em Coptos, os Líbios sobre o futuro local de Alexandria, Judeus abaixo de Memphis , “Troianos fugitivos” na área das grandes pedreiras a leste do Nilo, Carianos [Carians] e Jônicos [Ionians] sobre o ramo Pelúsio. Psammetichus (fim do século VII) coroou esta invasão pacífica, confiando a defesa do Egito para mercenários Gregos.

“Um enorme erro do Faraó Psammetichus foi confiar a defesa do Egito para as tropas estrangeiras e introduzir várias colônias formadas pela escória das nações.” [Cornelius de Pauw, Recherches sur les philosophiques Egyptiens et les Chinois. Berlim, 1773, II, 337.], Sob a última dinastia Saíte, os Gregos foram oficialmente estabelecidos em Naucratis, o único porto onde os estrangeiros eram autorizados a se envolver no comércio. Após a conquista do Egito por Alexandre, sob os Ptolemaicos, o cruzamento entre Gregos brancos e Egípcios pretos floresceu, graças a uma política de assimilação: “Em nenhum lugar Dionísio foi mais favorecido, em nenhum lugar foi ele louvado mais adoravelmente e mais elaboradamente do que pelos Ptolemaicos, que reconheceram  seu culto como um meio especialmente eficaz de promover a assimilação dos conquistadores Gregos e sua fusão com nativos Egípcios “.

[J. J. Bachofen, Pages choisies par Adrien Turel, “Du Règne de la mère au patriarcat.” Paris: F. Alcan, 1938, p. 89.]

Estes fatos provam que, se o povo Egípcio tinha sido originalmente branco, ele poderia muito bem ter permanecido assim. Se Heródoto o encontrou ainda Preto depois de tanto cruzamento, ele deve ter sido basicamente Preto no início. Na medida em que evidência Bíblica é concernida, alguns detalhes estão em ordem. Para determinar o valor da evidência Bíblica, devemos examinar a gênese do povo Judeu.

O que, então, era o povo Judeu? Como ele nasceu? Como foi que ele criou a Bíblia, na qual os descendentes de Ham, ancestrais dos Negros e Egípcios, seriam assim malditos; O que pode ser a razão histórica para essa maldição? Aqueles que se tornariam os Judeus entraram no Egito contando 70 rudes, pastores medrosos, afugentados da Palestina pela fome e atraídos por esse paraíso terrestre, o Vale do Nilo. Embora os egípcios tivessem um horror peculiar à vida nômade e pastores, esses recém-chegados foram recebidos calorosamente primeiro, graças a Joseph. De acordo com a Bíblia, eles se estabeleceram na terra de Goshen e tornaram-se pastores do rebanho do Faraó. Após a morte de José e do Faraó “Protetor”, e frente à proliferação dos Judeus, os Egípcios cresceram hostis, em circunstâncias ainda mal definidas. A condição dos Judeus tornou-se mais e mais difícil. Se quisermos acreditar na Bíblia, eles foram empregados em obras de construção, servindo como operários na construção da cidade de Ramsés. Os Egípcios tomaram medidas para limitar o número de nascimentos e eliminar bebês do sexo masculino, para que a minoria étnica não evoluir para um perigo nacional que, em tempo de guerra, poderia aumentar as fileiras inimigas. [Cf. Exodus, 1, 7-14, 16-17.] Então começaram as perseguições iniciais pelas quais o povo Judeu permanece marcado ao longo de sua história.

A partir de agora, a minoria judaica, retirada dentro de si, se tornaria Messiânica pelo sofrimento e humilhação. Tal terreno moral de miséria e esperança favoreceu o nascimento e desenvolvimento do sentimento religioso. As circunstâncias eram as mais favoráveis, porque esta raça de pastores, sem indústria ou organização social (a única célula social era a família patriarcal), armados apenas com paus, não poderiam prever nenhuma reação positiva para a superioridade técnica do povo Egípcio.

Foi para atender a essa crise que Moisés apareceu, o primeiro dos profeta Judeus, que, depois de minuciosa elaboração da história do povo Judeu desde as suas origens, a apresentou em retrospecto sob uma perspectiva religiosa. Assim, ele levou Abraão a dizer muitas coisas que o mesmo não poderia ter previsto: por exemplo, os 400 anos no Egito. Moisés viveu na época de Tell el Amarna *

[* Tell el Amarna, uma cidade construída 190 milhas acima Cairo em 1396, como a nova capital do império de Akhnaton.], Quando Amenófis IV (Akhnaton, cerca de 1400) estava tentando reviver o primitivo monoteísmo que tinha até então sido desacreditado pela ostentação sacerdotal e a corruptividade dos sacerdotes. Akhnaton parece ter tentado reforçar o centralismo político em seu recém conquistado imenso império através de centralismo religioso; o império precisava de uma religião universal. Moisés foi provavelmente influenciado por esta reforma.

Daquele momento em diante, ele defendeu o monoteísmo entre os Judeus. Monoteísmo, com toda a sua abstração, já existia no Egito, que o havia tomado emprestado do Sudão Meroítico [Meroitic Sudan], a Etiópia dos Antigos. “Embora a Divindade Suprema, vista na mais pura das visões monoteístas como o “único gerador no céu e na terra que não foi engendrado. . . O único deus vivo em verdade. . .”

Amon, cujo nome significa mistério, adoração, um dia encontrou-se  a si mesmo rejeitado, ultrapassado por Ra, o Sol, ou convertido em Osiris ou Horus “. [D. P. de Pedrals, Arqueologia de lafrique Noire. Paris: Payot, 1950, p. 37.].

Dada a atmosfera insegura em que o povo Judeu se encontrava no Egito, um Deus prometendo certos amanhãs foi um apoio moral insubstituível. Depois de alguma reticência no início, este povo que, aparentemente, não tinha conhecido monoteísmo anteriormente – ao contrário da opinião daqueles que o creditam como o inventor [do monoteísmo] – que, no entanto, o levaram a um grau bastante notável de desenvolvimento. Ajudado pela fé, Moisés conduziu o povo Hebreu para fora do Egito. No entanto, os Israelitas rapidamente de cansaram dessa religião e apenas gradualmente  voltou ao monoteísmo. (O Bezerro de Ouro de Aarão no sopé do Monte Sinai.) Tendo entraram no Egito como 70 pastores agrupadas em 12 famílias patriarcais, nômades sem indústria ou cultura, o povo judeu deixou o Egito, 400 anos mais tarde, 600.000 fortes, depois de adquirir a partir dele todos os elementos de sua futura tradição, incluindo o monoteísmo. Se os Egípcios perseguiram os Israelitas, como diz a Bíblia, e se os Egípcios eram Negros, filhos de Ham, como a mesma Bíblia diz, não podemos mais ignorar as causas históricas da maldição sobre Ham – apesar da lenda da embriaguez de Noé.

A maldição entrou literatura Judaica bem mais tarde do que o período de perseguição. Assim, Moisés, no Livro de Gênesis, atribuiu as seguintes palavras para o Deus Eterno, dirigida a Abraão, em um sonho: “Saiba ‘com certeza que a sua posteridade será peregrina em uma terra que não é deles, pois eles devem ser submetidos a escravidão e será afligida por quatrocentos anos. ” [Gênesis, XV, 13. Se a versão Bíblica é pelo menos um pouco precisa, como poderia o povo Judeu ser livre de sangue Negro? Em 400 anos cresceu de 70 para 600 mil pessoas no meio de uma nação Negra, que os dominou durante todo esse período. Se os traços Negróides dos Judeus são menos pronunciadas hoje, isso é muito provável devido ao seu cruzamento com elementos Europeus desde sua dispersão.

Atualmente, parece quase certo que Moisés era um Egípcio, portanto, um Negro.] Aqui nós chegamos ao fundo histórico da maldição sobre Ham. Não é por acaso que esta maldição sobre o pai de Mesraim, Phut, Kush, e Canaã, caiu apenas sobre Canaã, que morava em uma terra que os Judeus haviam cobiçado ao longo da sua história.

De onde veio esse nome Ham (Cham, Kam)? Onde poderia Moisés tê-lo encontrado?

Exatamente no Egito, onde Moisés nasceu, cresceu e viveu até o Êxodo. Na verdade, sabemos que os Egípcios chamavam seu país de Kemit, que significa “Preto” em sua língua. A interpretação segundo a qual Kemit designava o solo preto do Egito, preferencialmente ao homem preto e, por extensão, a raça preta do país dos Pretos, decorre mais de uma distorção gratuita por mentes conscientes do que uma interpretação exata desta palavra faria implicar. Por isso, é natural encontrar Kam em hebraico, significando calor, preto, queimado. [Pedrals, op. cit., p. 27. Aqui, ele está citando Louis J. Morie.]. Sendo assim, todas as aparentes contradições desaparecem e a lógica dos fatos aparece em toda a sua nudez. Os habitantes do Egito, simbolizados pela sua cor preta, Kemit ou Ham da Bíblia, seriam amaldiçoado na literatura das pessoas que eles tinham oprimido.

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Figura 2 –  Considerável Tipo Hamítico do Leste Africano (de Nelle Puccioni “Ricerche antropometriche sui somali,” Archivio per l’antropologia, 1911; citado por Seligman em Egito e África Negra). Para apreciar totalmente a piada, substituir a redação de Seligman acima pela interpretação “oficial” : ‘Considerável Tipo Paleo-Mediterrânico da raça branca ao qual devemos todas as civilizações Pretas, incluindo a do Egito’.

Podemos ver que esta maldição Bíblica sobre a descendência de Ham teve uma origem bem diferente daquela geralmente dada hoje sem o menor fundamento histórico. O que não podemos entender, no entanto, é como tem sido possível ‘fazer’ uma raça branca de Kemit: Hamita, preto, ébano, etc. (mesmo em Egípcio).

Obviamente, de acordo com as necessidades da causa, Ham é amaldiçoado, enegrecido, e feito o ancestral dos Negros. Isto é o que acontece sempre que alguém se refere à relações sociais contemporâneas. Por outro lado, ele é ‘branqueado’ sempre que se busca a origem da civilização, pois lá está ele habitando o primeiro país civilizado do mundo. Então, a idéia de Hamitas orientais e ocidentais é concebida – nada mais do que uma invenção conveniente para despojar os Pretos da vantagem moral da civilização Egípcia e outras civilizações Africanas, como veremos. A Figura 2 permite-nos perceber a natureza tendenciosa dessas teorias.

É impossível relacionar a noção de Hamita, enquanto trabalhamos para compreendê-lo nos livros didáticos oficiais, com a mínima realidade histórica, geográfica, lingüística ou étnica. Nenhum especialista é capaz de identificar o local de nascimento dos Hamitas (cientificamente falando), a língua que falavam, a rota migratória que seguiram, os países que eles se estabeleceram, ou a forma de civilização que eles deixaram. Pelo contrário, todos os especialistas concordam que este termo não tem um conteúdo sério e, no entanto, nenhum deles deixa de usá-lo como uma espécie de chave-mestra para explicar a menor evidência de civilização na África Preta.


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                                                      CAPÍTULO II

                                         Nascimento do Mito do Negro

Quando Heródoto o visitou, o Egito já havia perdido a sua independência um século antes. Conquistado pelos Persas em 525, a partir de então, ele foi continuamente dominado pelos estrangeiros: depois dos Persas vieram os Macedônios sob Alexandre (333 a.C.), os Romanos, sob Júlio César (50 a.C.), os Árabes, no século VII, os Turcos no século XVI, os Franceses com Napoleão, e então os Ingleses no final do Século Dezenove. Arruinado por todas estas invasões sucessivas, o Egito, o berço da civilização por 10.000 anos, enquanto o resto do mundo estava mergulhado na barbárie, deixaria de desempenhar um papel político. No entanto, ele iria continuar por muito tempo a iniciar os povos mais jovens do Mediterrâneo (Gregos e Romanos, entre outros) para o esclarecimento [enlightnenment] da civilização.

Durante toda a Antiguidade permaneceria a terra clássica para onde os povos do Mediterrâneo iriam em peregrinação para beber na fonte do conhecimento científico, religioso, moral, e social, o mais antigo tal conhecimento que a humanidade já havia adquirido. Assim, por todo o em torno da periferia do Mediterrâneo, novas civilizações foram construídas, uma após a outro, beneficiando-se das muitas vantagens do Mediterrâneo, uma verdadeira encruzilhada na melhor localização do mundo. Estas novas civilizações evoluíram principalmente em direção ao desenvolvimento materialista e técnico. Como a origem dessa evolução, devemos citar o gênio materialista dos Indo -Europeus: Gregos e Romanos. O ímpeto pagão, que animou a civilização Greco-Romana, morreu por volta do Quarto Século. Dois novos fatores, o Cristianismo e as invasões bárbaras, se intrometeram no antigo terreno da Europa Ocidental e deram à luz a uma nova civilização que, hoje, por sua vez, apresenta sintomas de exaustão. Graças a contatos ininterruptos entre povos, esta última civilização, a qual herdou todo o progresso técnico da humanidade, já estava suficientemente equipada, por volta do século XV (1400’s), para mergulhar na descoberta e conquista do mundo. E assim, tão cedo quanto o Século XV (1400’s), os Portugueses desembarcaram na África através do Atlântico; eles estabeleceram os primeiros contatos modernos, desde então não quebrados, com o Ocidente. O que eles encontraram, então, na África?

figura 3. O Deus Osiris Museu Arte 2

,

Figura 4 - Senhor Tera Neter

,

figura 5. Narmer ou Menes

,

figura 6 - zozer djoser

,

figura 8 Cheops

,

figura 8 Miquerinos

,

figura 9 Faraó Mentuhotep I b

,

Figura 10 Faraó Sesostris b

,

figura 11 farao e watusi 3 virada

,

figura 12 Tutmosis III b

,

figura 13 faraó Taharqa

,

. . . . . . . . . .

Quais os povos que eles encontraram?

Haviam estes estado lá desde cedo na Antiguidade ou haviam apenas migrado?

Qual era o seu nível cultural, o seu grau de organização social e política?

Que impressão poderia o Português ter tido dessas populações?

Que idéia eles poderiam obter de sua capacidade intelectual e aptidão técnica?

Que tipo de relações sociais estaria para existir entre a Europa e África a partir desse momento?

A resposta a estas perguntas diferentes irá explicar totalmente a atual lenda do Negro primitivo. Para responder a essas perguntas, é necessário voltar para o Egito no momento em que caiu sob o jugo do estrangeiro. A distribuição dos negros no continente Africano, provavelmente, passou por duas fases principais.

É geralmente aceito que, por volta de 7000 a.C., o Sahara tinha secado. A África Equatorial era provavelmente ainda uma zona de floresta muito densa para atrair os homens. Conseqüentemente, os últimos Pretos que viviam na Sahara agora presumivelmente o deixaram migrando em direção ao Alto Nilo, com a possível exceção de alguns pequenos grupos isolados no resto do continente, que ou haviam migrado para o sul ou tinham se dirigido para o norte. *

[nota, * O que nós encontramos no Sahara mostra que foi habitada por Negros: “Corpos femininos Esteatopígicos, como dizem os etnólogos. Como Jean Temporal os descreve, ‘com partes traseiras bastante cheias e redondas’. “Théodore Monod, Méharées, exploration au vrai Sahara (Paris: Ed.” Je Sers “, 1937, p. 108).. “Camponeses, talvez camponeses Negros, inumerável bois, campos de painço [millet], panelas feitas de terracota, peixe fresco, uma abundância de atividades, uma paisagem verde, e canoas solidamente construídas, tudo muito bem. Mas isso não era para durar. O período úmido havia sido precedido por um interlúdio quente, estéril, que seria gradualmente substituído por uma nova dessecação.O deserto reconquistou seu reino, drenando lagos, secando grama, obliterando o campo. e o que dizer das pessoas? Tempos difíceis para eles e sérios debates no Parlamento: deviam eles permanecer lá e deixar-se morrer, ou migrar ou adaptar? Ninguém optou pelo suicídio, a adaptação não conseguiu um único voto, a escolha unânime foi o êxodo “. ( Ibid., p. 128) esqueletos pré-históricos encontrados no deserto do Saara são do tipo Negro: o homem Asselar, ao sul do Saara]. Talvez o primeiro grupo encontrou uma população Preta indígena na região do Alto Nilo, Seja qual for o caso, foi a partir da gradual adaptação às novas condições de vida as quais a natureza permitia a essas várias populações Pretas que o mais antigo fenômeno de civilização surgiu. Esta civilização, chamada de Egípcia em nosso período, desenvolveu-se por um longo tempo em seu primitivo berço; em seguida, ela desceu lentamente o Vale do Nilo para se espalhar em torno da bacia do Mediterrâneo. Este ciclo de civilização, a mais longa da história, provavelmente durou 10.000 anos. Este é um compromisso razoável entre a longa cronologia (com base em dados fornecidos por sacerdotes Egípcios, Heródoto e Manetho * que colocam o início por volta de 17.000 a.C.) [nota, * Manetho de Sabennytos, um sacerdote Egípcio (século III a.C.), que escreveu uma crônica sobre o Egito em Grego] e a curta cronologia dos modernos – pois os últimos são obrigados a admitir que por 4235 a.C. os Egípcios já haviam inventado o calendário (o que requer, necessariamente, a passagem de milhares de anos). Obviamente, durante esse longo período, os Pretos poderiam ter penetrado mais e mais para o interior do continente para formar núcleos que se tornariam centros da civilização continental analisados no Capítulo VIII. Essas civilizações Africanas seriam isoladas do resto do mundo. Eles tenderiam a viver em isolamento, como resultado da distância enorme separando-os das rotas de acesso para o Mediterrâneo. Quando o Egito perdeu a sua independência, o seu isolamento foi completo. A partir de então, separados do país materno que foi invadido pelo estrangeiro, e retirados em um ambiente geográfico exigindo um mínimo de esforço de ajustamento, os Pretos eram orientados para o desenvolvimento de sua organização social, política e moral, ao invés de em direção de especulativa investigação científica que suas circunstâncias não justificavam, e até mesmo impossibilitavam. A Adaptação ao fértil Vale do Nilo necessitou técnicas especialistas em irrigação e barragens, cálculos precisos para prever as inundações do Nilo e para deduzir as suas conseqüências econômicas e sociais. Ela também necessitou a invenção da geometria para delimitar a propriedade após as inundações obliterando linhas de fronteira. Da mesma forma, o terreno em longas e planas tiras necessitou a transformação da enxada paleo-Negritica em um arado, primeiramente traçado por homens, e posteriormente por animais. Indispensável como tudo o que havia para a existência material do Negro no Vale do Nilo, tornou-se igualmente supérfluo nas novas condições de vida no interior. Desde que a história havia interrompido seu antigo equilíbrio com o meio ambiente, o Preto agora encontrou agora um novo equilíbrio, que difere do primeiro, na ausência de uma não mais vital técnica para a organização social, política e moral. Com recursos econômicos assegurados por meios que não exigiam invenções perpétuas, o Preto tornou-se progressivamente indiferente ao progresso material. Foi sob estas novas condições que o encontro com a Europa se deu. No século XV [1400’s], quando os primeiros Portugueses, Holandeses, Ingleses, Franceses, dinamarqueses, e Bradenburgers começaram a criar postos de comércio na costa Oeste Africana, a organização política dos Estados Africanos era igual, e muitas vezes superior, à de seus próprios respectivos Estados. Monarquias já eram constitucionais, com o Conselho do Povo no qual os diversos estratos sociais eram representados. Ao contrário da ‘lenda’, o rei Negro não era, e nunca foi, um déspota com poderes ilimitados. Em alguns lugares, ele era investido pelo povo, com o Primeiro-Ministro, um intermediário representando os homens livres. Sua missão era servir o povo com sabedoria e sua autoridade dependia de seu respeito pela constituição estabelecida (cf. Capítulo VIII). A ordem social e moral estavam no mesmo nível de perfeição. Em nenhum lugar reinava qualquer mentalidade pré-lógica, no sentido que Lévi-Bruhl entendia, mas não há necessidade de refutar aqui uma idéia que o seu próprio autor rejeitou antes de sua morte. Por outro lado, por todas as razões citadas acima, o desenvolvimento técnico foi menos acentuado do que na Europa. Embora o Negro tivesse sido o primeiro a descobrir o ferro, ele não havia construído nenhum canhão; o segredo da pólvora foi conhecido apenas pelos Sacerdotes Egípcios, que o usaram exclusivamente para fins religiosos em ritos, como os Mistérios de Osiris (cf. Recherches su les Egyptiens et les Chinois, de Cornelius de Pauw). A África era, portanto, muito vulneráveis do ponto de vista técnico. Tornou-se uma presa tentadora, irresistível para o Ocidente, provido com armas de fogo e as marinhas de longo alcance. Assim, o progresso econômico da Europa renascentista estimulou a conquista de África, que foi rapidamente realizada. Passou-se da fase de postos de negociações costeiras para aquela de anexações por acordos internacionais Ocidentais, seguidos pela conquista armada chamada “pacificação”. No início deste período a América foi descoberta por Cristóvão Colombo e a inundação do velho continente foi descarregada sobre o novo. O desenvolvimento de terras virgens necessitava de mão de obra barata. A África indefesa, então, tornou-se o reservatório pré-pronto de onde tirar essa força de trabalho com o mínimo de despesa e risco. O moderno comércio de escravos Negros foi considerado uma necessidade econômica antes do advento da máquina. Este duraria até meados do século XIX [1800’s].

Essa tal inversão de papéis, o resultado de novas relações técnicas, trouxe consigo relações ‘senhor – escravo’ entre Brancos e Pretos no nível social. Já durante a Idade Média, a memória de um Egito Negro, que tinha civilizado do mundo havia sido obscurecida pela ignorância da antiga tradição escondida em bibliotecas ou enterrada sob ruínas. Ela se tornaria ainda mais obscura durante estes quatro séculos de escravidão. Inflados por sua recente superioridade técnica, os Europeus olharam para o mundo Preto e condescenderam em não tocar nada, além de suas riquezas. A ignorância da antiga história dos Pretos, diferenças de costumes e hábitos, preconceitos étnicos entre duas raças que acreditavam estar frente a frente, pela primeira vez, combinados com a necessidade econômica de explorar – tantos fatores predispôs a mente do Europeu para distorcer a personalidade moral do Preto e suas aptidões intelectuais. A Partir de então, “Negro” tornou-se sinônimo de ser primitivo, “inferior”, dotado de uma mentalidade pré-lógica. Como o ser humano está sempre ansioso para justificar sua conduta, eles foram ainda mais longe. O desejo de legitimar a colonização e o tráfico de escravos – em outras palavras, a condição social do Negro no mundo moderno – engendrou toda uma literatura para descrever os então-chamados traços inferiores do Negro. A mente de várias gerações de Europeus seria, assim, gradualmente doutrinada, a opinião Ocidental seria cristalizada e, instintivamente, aceitada como verdade revelada a equação: Negro = humanidade inferior. *

[nota, *  “Negro, Negra (Latin niger : preto), Homem, mulher com pele preta. Este é o nome dado especialmente para os habitantes de alguns países da África, que formam uma raça de homens pretos inferiores em inteligência ao branco ou raça Caucasiana.” Dicionário Larousse – Nouveau Dictionnaire Larousse, 1905, p. 516.] *

Para coroar este cinismo, a colonização seria retratada como um dever da humanidade. Eles invocam a “missão civilizadora” do Ocidente carregado com a responsabilidade de elevar o Africano para o nível de outros homens [conhecida por nós como “o fardo do homem branco”].

A partir de então, o capitalismo teve liberdade para praticar a mais feroz exploração sob o disfarce de pretextos morais. No máximo, eles reconhecem que o Negro tem dons artísticos ligados à sua sensibilidade como um animal inferior. Essa é a opinião do francês Joseph de Gobineau, precursor da filosofia Nazista, que em seu famoso livro sobre a desigualdade das raças humanas decreta que o senso artístico é inseparável do sangue Negro; mas ele reduz a arte a uma manifestação inferior da natureza humana: em particular, o senso de ritmo está relacionado com as aptidões s emocionais do preto.

Esse clima de alienação finalmente afetou profundamente a personalidade do Negro, especialmente o Preto educado que teve a oportunidade de tornar-se consciente da opinião pública mundial sobre ele e seu povo. Muitas vezes acontece que o intelectual Negro perde a confiança em suas próprias possibilidades e nas de sua raça, de tal forma que, apesar da validade das provas apresentadas neste livro, não será surpreendente se alguns de nós ainda formos incapazes de acreditar que os Pretos realmente desempenharam o mais antigo papel civilizador no mundo.

Freqüentemente, Pretos de altas realizações intelectuais permanecem tão vitimados por esta alienação que eles procuram de boa fé codificar essas idéias Nazistas em uma suposta dualidade do sensível, emocional Negro, criador da arte, e o Homem Branco, especialmente dotado de racionalidade. *

[Nota, * – citação de Comte de Gobineau: * “Se, com os Gregos e as autoridades mais competentes sobre o assunto, nós concordamos que a exaltação e entusiasmo são inseparáveis do gênio artístico e que o gênio, quando completo, beira a loucura, não vamos procurar a causa da criatividade em qualquer razoável, bem – organizado sentimento da nossa natureza, mas sim nas profundezas de explosões sensuais, nesses golpes aspirantes, que as levam a misturar o espírito com as aparências, a fim de produzir algo mais agradável do que a realidade… Assim, chegamos a esta conclusão inescapável: que a fonte das artes é estranha para os instintos civilizatórios. Ela está escondida no sangue dos Pretos . . .  Isso, você vai concordar, é uma coroa bastante linda que eu coloco na cabeça deformada do Negro, uma honra muito grande para ele ter o harmonioso Coro das Musas agrupado em torno dele. {no entanto,} a honra não é tão grande. Eu não disse que todos os ‘Pierides’ estão reunidos lá. Os mais nobres estão ausentes, aqueles que dependem de uma reflexão séria , aqueles que preferem a beleza a paixão. . . Deixe-nos traduzir para eles{os para os negros}, versos da Odisséia, especialmente o encontro de Ulisses e Nausicaa, o exemplo mais sublime de inspiração pensativa, e ele vai cair no sono. Pois para a simpatia ser despertada em qualquer ser humano, a sua inteligência primeiro deve ter entendido, e é aí que reside a dificuldade com o Negro. . . Sua sensibilidade artística, embora poderosa além de qualquer expressão, necessariamente continuará a ser limitada aos usos mais miseráveis. . . E assim, de todas as artes que a criatura preta prefere, a música está em primeiro lugar, na medida em que acaricia o ouvido com uma sucessão de sons e não requer nenhuma resposta da parte pensante do cérebro dele. . . . “Imagine um Bambara ouvindo uma das melodias que lhe agrada. Seu rosto se ilumina, seus olhos brilham. Ele ri e sua boca larga, brilhante em seu rosto escuro, mostra seus brancos dentes pontiagudos. Um clímax sexual ocorre… Inarticulados sons tentam escapar de sua garganta, chocado pela paixão, grandes lágrimas escorrem de suas gordas bochechas; um pouco mais e ele gritaria. A música pára; ele está exausto.’ ‘Com os nossos hábitos refinados, nós fizemos da arte algo tão intimamente ligado com sublimes meditações mentais e idéias científicas, que é apenas por abstração e certo esforço que somos capazes de incluir a dança {entre as artes.} Para o Negro, . a dança, junto com a música, é o objeto da paixão mais irresistível. Isto porque sensualidade significa quase tudo, senão tudo, na dança.’ ‘Conseqüentemente, o Negro possui no mais alto grau a faculdade sensual sem a qual nenhuma arte é possível. Por outro lado, a ausência de aptidões intelectuais torna-o completamente impotente para cultivar a arte, mesmo para apreciar o trabalho mais nobre que esta nobre aplicação da inteligência humana pode produzir. Para desenvolver suas faculdades, ele deve se unir com uma raça diferentemente dotada.’ ‘O Gênio artístico, similarmente estranho para os três grandes tipos {raças}, apareceu apenas como resultado da união entre Brancos e Pretos.” – Conde de Gobineau, Comte de Gobineau, Essai sur Pinégalité des races humaines. (Paris: 1853, Bk. 11, Cap. VII, primeira edição)]

Por isso, é de boa fé que um poeta Preto Africano expressou-se em um verso de beleza admirável: “L’émotion est nègre et la raison hellène.” (A Emoção é Negra e a razão Grega.) Pouco a pouco, uma literatura “complementar” Negra apareceu, intencionalmente pueril, bem humorada, passiva, choramingante, resignada. Uma massa de criações artísticas Negras atuais, muito apreciadas por Ocidentais [Westerners], forma um espelho no qual estes ocidentais pode olhar com orgulho, enquanto chafurda em sentimentalismo paternalista enquanto contemplam o que eles acreditam ser a sua superioridade. A reação seria muito diferente se os mesmos juízes fossem confrontados por uma obra Negra perfeitamente composta, que abandonou esse padrão e quebrou com quaisquer reflexos de subordinação, bem como complexos de inferioridade para assumir um lugar natural em um nível de igualdade.

Tal obra certamente arriscaria parecer pretensiosa e pelo menos irritante para algumas pessoas. A memória da recente escravidão a qual a raça Preta foi sujeitada, claramente mantida viva na mente dos homens e, especialmente, nas mentes Pretas, muitas vezes, afeta negativamente a consciência Preta. Pois daquela recente escravidão foi feita uma tentativa de construir – apesar de toda a verdade histórica – uma lenda de que o Preto havia sempre sido reduzido à escravidão pela superior raça Branca com a qual ele viveu, onde quer que possa ter sido. Isto permite aos Brancos facilmente justificar a presença de Negros no Egito ou na Mesopotâmia ou Arábia, decretando que eles eram escravizados. Embora tal afirmação nada mais seja do que dogma concebido para falsificar a história – aqueles que o avançam estão plenamente conscientes de que é errôneo -, apesar disso, contribui para alienar a consciência Preta.

Assim, outro grande poeta Negro, talvez o maior do nosso tempo, Aimé Césaire, escreve, em um poema intitulado “Desde Akkad, desde Elam, desde Sumer” [‘Desde Acádia, Desde Elam, Desde Suméria’]: ‘Mestre das três estradas, perante vós está um homem que tem andado muito. Mestre das três estradas, perante vós está um homem que andou sobre as mãos, andou       sobre o pé, andou  sobre sua barriga, andou sobre sua parte traseira, Desde Elam, desde Acádia, desde a Suméria.’ *

[* Aimé Césaire, Soleil cou coupé. Paris: Editions K, 1948, pág. 66.] Em outro lugar, ele escreve: ‘Aqueles que não inventaram nem pólvora nem bússola aqueles que não domaram nem vapor nem eletricidade aqueles que não exploraram nem o mar, nem o céu . . .’ * [* Aimé Césaire, Retorno ao país natal, Return to My Native Land, traduzido por Emile Snyders. Paris: Présence Africaine, 1968, pp. 99 e 101. esta citação não enfraquecer em nada a minha profunda admiração pelo autor].

Ao longo destas transformações nas relações do Negro com o resto do mundo, tornou-se cada vez mais difícil a cada dia e até mesmo inadmissível, para quem não sabe do seu passado de glória – e para os Pretos em si – acreditar que eles podem ter se originado a primeira civilização que floresceu na terra, uma civilização à qual a humanidade deve a maior parte de seu progresso. De agora em diante, mesmo quando as provas são empilhadas diante de seus olhos, os peritos não as vêem, exceto através antolhos [óculos de proteção] e sempre as interpretarão falsamente.

Eles construirão as teorias mais improváveis, uma vez que, para eles qualquer improbabilidade parece mais lógica do que a verdade do mais importante documento histórico atestando o inicial papel civilizador dos Pretos. Antes de examinar as contradições que circulam na era moderna e resultantes das tentativas de provar a qualquer preço que os Egípcios eram Brancos, notemos o espanto de um estudioso de boa-fé, o conde de Constantin Volney [Count Constantin de Volney] (1757-1820). Depois de ter sido imbuído de todos os preconceitos que acabamos de mencionar que dizem respeito ao Negro, Volney foi para o Egito, entre 1783 e 1785, enquanto a escravidão do Negro florescia. Ele relatou o seguinte sobre a raça Egípcia, a própria raça que havia produzido os Faraós: os Coptas. . . .

Todos têm um rosto inchado, olhos inchados, nariz achatado, lábios grossos; em uma palavra, o verdadeiro rosto de um mulato. Fiquei tentado a atribuí-la ao clima, mas quando eu visitei a Esfinge, a sua aparência deu-me a chave para o enigma. Ao ver a cabeça, tipicamente Negra em todas as suas características, lembrei-me da passagem notável, onde Heródoto diz: “Quanto a mim, eu julgo os Cólquidas [Colchians] como sendo uma colônia de Egípcios, porque, assim como eles, são Pretos, com cabelos de lanosos. . . .”

Em outras palavras, os antigos Egípcios eram verdadeiros Negros do mesmo tipo que todos os nativos Africanos. Sendo assim, podemos ver como o seu sangue, misturado durante vários séculos com o dos Romanos e Gregos, deve ter perdido a intensidade de sua cor original, mantendo, no entanto, a marca de seu molde inicial. Podemos até afirmar como um princípio geral que o rosto é uma espécie de monumento capaz, em muitos casos, de atestar ou lançar luz sobre evidência histórica sobre as origens das pessoas.” Depois de ilustrar esta proposição, citando o caso dos Normandos, que ainda se assemelham com os Dinamarqueses [Danes] 900 anos após a conquista da Normandia, Volney acrescenta:  

“Mas voltando ao Egito, a lição que ela ensina para a história contém muitas reflexões para a filosofia. Mas que assunto para meditação! ver a atual barbárie e ignorância dos Coptas, descendentes da aliança entre o profundo gênio dos Egípcios e a mente brilhante dos Gregos! Só de pensar que essa raça de homens pretos, hoje nossos escravos e o objeto de nosso desprezo, é a própria raça à qual devemos as nossas artes, ciências e até mesmo o uso da fala! Imaginem, finalmente, que é do meio de povos que se dizem os maiores amigos da liberdade e da humanidade que se aprovou a mais bárbara escravidão e questionou-se se os homens pretos têm o mesmo tipo de inteligência que os Brancos!” *

[* C. F. Volney, Voyages en Syrie et en Egypte. Paris, 1787, I, 74 – 77.]

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igura 14 - mulher egípcia

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figura 15 - mulher egípcia cpolegares

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figura 19 egípcios pescando

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figura 20 cabeças

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figura 21 cozinheiro

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Figura 22 - terra cota NOK
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figura 23 - Camponeses Prisioneiros

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figura 24 - princesa egípcia e meninas senegalesas 3

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Figura 25 - perucas egípcias e senegalesas

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Figura 26 - penteados totemicos

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                                                          Capítulo III

                                       A falsificação da História Moderna

O problema da mais monstruosa falsificação na história da humanidade pelos historiadores modernos não poderia ter sido mais bem colocado do que o fez Volney. Ninguém foi mais capaz do que ele para fazer justiça à raça negra, reconhecendo o seu papel de guia pioneiro da humanidade no caminho para a civilização.

Suas conclusões deveriam ter descartado a posterior invenção de uma hipotética raça Faraônica branca que alegadamente importou a civilização Egípcia a partir da Ásia no início do período histórico.

Na Verdade, esta hipótese é difícil de ser reconciliada com a realidade da Esfinge, a qual é a imagem de um Faraó tendo a cabeça de um Negro.

Esta imagem está lá para todos verem; dificilmente pode ser descontada como um documento atípico, nem relegada ao depósito de um museu para removê-la da perigosa meditação daqueles suscetíveis de aceitar evidência factual.

Depois de Volney, outro viajante, Domeny de Rienzi, no início do Século Dezenove, chega a conclusões um tanto similares relativas aos Egípcios:

É verdade que, já em um passado distante, a raça vermelho-escura Hindu e Egípcia dominou culturalmente as raças amarelas e pretas, e até mesmo a nossa própria raça branca, então habitando a Ásia ocidental. Naquela época, nossa raça era bastante selvagem e, por vezes, tatuada, como eu a tenho visto retratada sobre o túmulo de Sesostris I, no Vale de Biban El-Moluk [vale dos Reis] em Tebas , a cidade dos deuses. “*

[* L’Océanie. Paris: Coleção l’Univers, 1836, vol. I]

No que diz respeito a raça vermelho-escura, veremos que ele é simplesmente um subgrupo da raça Preta como apresentada nos monumentos daquele tempo. Na realidade, não existe nenhuma raça vermelho-escura; apenas três raças bem definidas existem: o branco, o preto e o amarelo. As chamadas raças intermediárias provavelmente resultam unicamente de cruzamento [crossbreeding]. *

[Nota, * A raça amarela também foi provavelmente o resultado do cruzamento entre Pretos e Brancos em um momento muito antigo na história da humanidade.
Na verdade, os povos amarelos possuem a pigmentação de raças misturadas, tanto assim que a análise bioquímica comparativa seria incapaz de revelar qualquer grande diferença na quantidade de melanina. Nenhum estudo sistemático dos grupos sanguíneos em raças misturadas foi feito até a data. Isto teria permitido uma interessante comparação com aqueles da raça amarela.

As características étnicas dos povos amarelos, lábios, nariz, prognatismo, são aqueles de raça mista. Suas faces (maçãs do rosto salientes, pálpebras inchadas, franzido mongol [mongolian pucker], olhos amendoados, depressão na ponte do nariz) poderiam simplesmente resultar do efeito de milhares de anos em um clima que sopra ventos frios no rosto. A crispação do rosto, como resultado do vento seria suficiente para explicar as maçãs do rosto proeminentes e as pálpebras inchadas [puffed eyelids], que formam dois traços étnicos correlativos.

Batendo contra a face com o tempo frio, o vento pode escapar através do canto do olho somente seguindo um movimento ascendente oblíquo, após as moléculas de ar serem aquecidas. No longo prazo, esta força mecânica poderia produzir uma deformação do olho na mesma direção. Tal ação pelo clima poderia ser ainda mais forte em um organismo jovem como o de uma criança. Esta explicação, obviamente, assume a hereditariedade dos caracteres adquiridos.]

A Figura 28 mostra que a cor vermelho-escuro dos Egípcios não é nada mais que a cor natural da pele do Negro. Se Rienzi fala de uma raça vermelho-escura, em vez de uma raça negra, é porque ele não podia possivelmente se livrar dos preconceitos de sua época. De qualquer forma, suas observações sobre a condição da raça branca, então selvagem e tatuada, enquanto as raças “vermelho-escuras” eram já civilizadas, deveria ter precedido qualquer tentativa de explicar a origem da civilização Egípcia como devida aos brancos.

Champollion expandiu com humilhação na condição retrógrada destes últimos em um momento em que a civilização Egípcia já tinha vários milênios de idade.

 

figura 28 a famosa raça vermelho escuro. 233

Em 1799 Bonaparte empreendeu sua campanha no Egito. Graças à ‘pedra de Rosetta’, hieróglifos foram decifrados em 1822 por Champollion, o Jovem, que morreu em 1832.
Ele deixou como seu “cartão de visita” uma gramática Egípcia e uma série de cartas a seu irmão, Champollion-Figeac, cartas escritas durante a sua visita ao Egito (1828-1829).

Estas foram publicadas em 1833 por Champollion-Figeac.
A partir de então a parede dos hieróglifos foi rompida, descortinando riquezas surpreendentes em seus detalhes mais minuciosos.

Egiptólogos ficaram chocados com admiração pelo passado de grandeza e perfeição então descoberto. Eles gradualmente reconheceram-na como a civilização mais antiga que havia gerado todas as outras.

Mas, o imperialismo sendo o que é, tornou-se cada vez mais “inadmissível” para continuar a aceitar a teoria – evidente até então – de um Egito Negro.
O nascimento da Egiptologia foi assim marcado pela necessidade de destruir a memória de um Egito Negro a qualquer custo e em todas as mentes.

Daí em diante, o denominador comum de todas as teses dos Egiptólogos, sua íntima relação e profunda afinidade, pode ser caracterizada como uma tentativa desesperada de refutar essa opinião. Quase todos os Egiptólogos sublinharam a sua falsidade como uma questão de disciplina. Usualmente, estas tentativas de refutação tomam as seguintes formas:

Incapazes de detectar qualquer contradição nas declarações formais dos Antigos após um confronto objetivo com a total realidade Egípcia, e conseqüentemente incapazes de refutá-la, eles ou davam-lhe o tratamento do silêncio ou a rejeitavam dogmaticamente e indignadamente.

Eles expressam remorso de que pessoas tão normais quanto os antigos Egípcios poderia ter feito um erro tão grave e, assim, criado tantas dificuldades e problemas delicados para os especialistas modernos.  Em seguida, eles tentam em vão encontrar uma origem branca para a civilização Egípcia.

Eles finalmente tornam-se atolados em suas próprias contradições, deslizando sobre as dificuldades do problema após realizar acrobacias intelectuais tão eruditas quanto injustificadas. Eles, então, repetem o dogma inicial, julgando que eles têm demonstrado a todos os povos honoráveis a origem Branca da civilização Egípcia.

Este é o inteiro corpo de teses que eu proponho expor uma após a outra. No interesse da objetividade, eu me sinto obrigado a examinar cada ponto de vista completamente, a fim de ser justo com o autor envolvido e para permitir ao leitor tornar-se diretamente familiarizado com o quaisquer contradições e outros fatos que eu possa referir.

Vamos começar com a mais antiga destas teses, a de Champollion, o Jovem, estabelecida na décima terceira carta a seu irmão.

Esta é referente à baixos-relevos sobre o túmulo de Sesostris I, também visitado por Rienzi. Estes datam do Décimo Sexto Século A.C. (Décima Oitava Dinastia) e representam as raças do homem conhecidas pelos Egípcios. Este monumento é o mais antigo documento etnológico completo disponível. Aqui está o que Champollion diz sobre isso:

“Bem no vale de Biban-el-Moluk [Vale dos Reis], nós admiramos, como todos os visitantes anteriores, o frescor surpreendente das pinturas e das belas esculturas em diversos túmulos. Eu tinha uma cópia feita dos povos representados sobre os baixos-relevos. À princípio eu tinha pensado, a partir de cópias desses baixos-relevos publicadas na Inglaterra, que esses povos de diferentes raças liderados pelo deus Horus segurando o seu bordão de Pastor, eram de fato nações sujeitas ao reinado dos Faraós. Um estudo das lendas me informou que esse quadro tem um significado mais geral. Este retrata a terceira hora do dia, quando o sol está começando a acender os seus raios ardentes, advertindo todos os países habitados do nosso hemisfério. De acordo com a própria lenda, eles queriam representar os moradores do Egito e aqueles de terras estrangeiras. Assim, temos diante de nossos olhos a imagem de várias raças de homem conhecidas pelos Egípcios e nós aprendemos ao mesmo tempo, as grandes divisões geográficas ou etnográficas estabelecidas durante essa época precoce.

Homens liderados por Horus, o pastor dos povos, pertencem a quatro famílias distintas.

O primeiro, aquele mais próximo do deus, tem uma cor vermelho-escuro, um corpo bem proporcionado, rosto amável, nariz ligeiramente aquilino, longos cabelos trançados, e está vestido de branco. As lendas designam esta espécie como
Rôt-em-ne-Rome, a raça dos homens por excelência, ou seja, os Egípcios.

Não pode haver nenhuma incerteza sobre a identidade racial do homem que vem a seguir: ele pertence à raça Preta, designado sob o termo geral Nahasi.

O terceiro apresenta um aspecto muito diferente: sua cor de pele beira ao amarelo ou bronzeado; ele tem um nariz fortemente aquilino, grosso, barba pontuda preta, e veste um curto vestuário de cores variadas; estes são chamados Namou.

Finalmente, o último é o que chamamos de cor de carne [flesh-colored], uma pele branca do tom mais delicado, um nariz reto ou ligeiramente arqueado, olhos azuis, barba loira ou avermelhada, estatura alta e muito magra, vestido em uma aveludada pele de boi, um verdadeiro selvagem tatuado em várias partes do seu corpo; ele é chamado Tamhou.

Eu apressei-me a procurar a imagem correspondente a esta em outros túmulos reais e, na verdade, eu encontrei em vários.
As variações que eu observei me convenceram plenamente que eles tentaram representar aqui os habitantes dos quatro cantos da terra, de acordo com o sistema Egípcio, a saber:

  1. os habitantes do Egito que, por si só, formavam uma parte do mundo. . . ;
  2. os habitantes da África propriamente: Pretos;
  3. Os Asiáticos
  4. Finalmente (e eu tenho vergonha de dizer isso, já que a nossa raça é a último e a mais selvagem nas séries), os Europeus que, nessas épocas remotas, francamente não tinham uma figura muito fina no mundo.Nesta categoria nós devemos incluir todos os louros e as pessoas de pele branca que vivem não só na Europa, mas bem como na Ásia, o seu ponto de partida.

Esta maneira de ver o quadro é ainda mais precisa, porque, em outros túmulos, os mesmos nomes genéricos reaparecem, sempre na mesma ordem.

Encontramos ali Egípcios e Africanos representados da mesma forma * [itálico pelo Dr. Diop.], O que não poderia ser de outra forma; mas os Namou (os Asiáticos) e os Tamhou (Europeus) apresentam variantes significativas e curiosas.

Em vez do Árabe ou Judeu, vestidos de forma simples e representados em um túmulo, os representantes da Ásia em outros túmulos (aqueles de Ramsés II, etc.) são três indivíduos, tez bronzeada, nariz aquilino, olhos negros e barba espessa, mas vestidos com raro esplendor.

Em um deles, eles são, evidentemente, Assírios; seu traje, até ao mais ínfimo detalhe, é idêntico ao de personagens gravados em cilindros assírios.

No outro, são os Medos [Medes] ou antigos habitantes de alguma parte da Pérsia. Sua fisionomia e vestuário se assemelham, característica por característica, àqueles encontrados em monumentos chamados Persepolitanos [Persepolitan].

Assim, a Ásia foi representada de forma indiscriminadamente por qualquer um dos povos que a habitavam. O mesmo é verdade para os nossos bons velhos ancestrais, os Tamhou. Seu traje é por vezes diferente; suas cabeças são mais ou menos peludas e adornadas com vários ornamentos; seu vestuário selvagem varia um pouco em forma, mas a sua tez branca, seus olhos e barba todos preservam o caráter de uma raça à parte.

Eu tinha essa estranha série etnográfica copiada e colorida.
Eu certamente não esperava que, ao entrar Biban-el-Moluk [Vale dos Reis], encontrar esculturas que poderiam servir como vinhetas para a história dos Europeus primitivos, se alguma vez alguém teve a coragem de tentar fazê-lo. No entanto, há algo lisonjeiro e consolador em vê-los, já que eles nos fazem apreciar o progresso que nós temos subseqüentemente alcançado.” *

[nota *, Champollion-Figeac, Egypte ancienne. Paris: Coleção l’Univers, 1839, pp. 30-31.

Os mais antigos monumentos Egípcios que retratam todas as raças da terra – os baixo-relevos de Biban-el-Moluk, por exemplo – mostram que, durante essas épocas iniciais apenas a chamada raça Nórdica era tatuada. Nem Egípcios Negros nem os outros Negros Africanos praticavam a tatuagem, de acordo com todos os documentos Egípcios conhecidos. Originalmente, a tatuagem não fazia sentido, exceto em uma pele branca onde produzia uma diferença de tonalidade. Com os Líbios brancos, ela foi introduzida na África, mas não seria imitada por Negros até muito mais tarde. Uma vez que o azul-branco ou qualquer outro contraste não pode ser realizado em uma pele Negra, eles recorreram a escarificação.

Infelizmente, não nos foi possível publicar uma reprodução dos baixo-relevos de Champollion.]

Por uma razão muito boa, Eu tenho este extrato reproduzido como Champollion-Figeac o publicou, em vez de tomá-lo a partir da “nova edição” das Cartas publicadas em 1867 pelo filho de Champollion, o Jovem (Chéronnet-Champollion). Os originais foram dirigidos a Champollion-Figeac; portanto, sua edição é mais autêntica.

Qual é o valor deste documento para obter informações sobre a raça Egípcia? Por sua antiguidade, constitui um importante elemento de prova, que deveria ter prestado toda conjectura desnecessária. Já naquela época muito antiga, a Décima – Oitava Dinastia (entre Abraão e Moisés), os Egípcios habitualmente representaram, de uma forma que não poderia ser confundida pelas raças branca e amarela da Europa e Ásia, os dois grupos de sua própria raça: os Pretos civilizados do Vale, e os Pretos de determinadas áreas do interior. A ordem em que as quatro raças estão constantemente dispostas em ralação ao deus Horus, confere-lhe o caráter de uma hierarquia social.

Como Champollion finalmente reconheceu, ela também põe de lado qualquer idéia de um retrato convencional que poderia apagar os dois níveis distintos e colocar Horus no mesmo plano que os personagens quando na realidade ele deveria justamente estar na frente de todos eles.

É típico para os Egípcios ser representados em uma cor oficialmente chamada de “vermelho-escuro” [“dark red”]. Cientificamente falando, não existe realmente nenhuma raça vermelho escuro. O termo foi lançado apenas para criar confusão. Não existe nenhum homem realmente preto, no sentido exato da palavra. A cor do Negro, na realidade, beira o marrom; mas isso varia de região para região. Assim, tem-se observado que os Pretos em áreas de calcário são mais claros do que aqueles em outras locais.

Conseqüentemente, é muito difícil captar a cor do Negro na pintura, e alguém se contenta com aproximações. A cor dos dois homens mais próximos ao deus Hórus é meramente a expressão de dois tons Negros. Se hoje um Wolof retratar um Bambara, um Mossi, um Yorubá, um Toucouleur, um Fang, um Mangbetu, ou um Baulé, ele precisaria de muitos, se não até mais tons [hues] do que há nos dois Pretos do baixo-relevo. Será que não seriam o Wolof, Bambara, Mossi, Yorubá, Toucouleur, Fang, Mangbetu e Baulé ainda Negros?

Isto é como a diferença de cor entre os dois primeiros homens nos baixos-relevos deve ser interpretada. Em baixos-relevos Egípcios, é impossível encontrar uma única pintura que retrate Egípcios em uma cor diferente daquela de tais povos Negros como os Bambara, Agni, Yorubá, Mossi, Fang, Batutsi, Toucouleur, etc.

Se Egípcios eram Brancos, então todos esses povos Negros então mencionados e tantos outros em África são também Brancos. Assim, chegamos à conclusão absurda de que os Negros são basicamente Brancos.

Sobre estes numerosos baixos-relevos, vemos que, sob a Décima – Oitava Dinastia, todos os exemplares da raça Branca foram colocados atrás dos Pretos; em particular, a “besta loura” de Gobineau e os Nazistas, um selvagem tatuado, vestido com pele de animal, ao invés de estar no início de toda a civilização, ainda estava praticamente intocado por ela [intocado pela civilização] e ocupava o último escalão da humanidade.

A conclusão de Champollion é típica. Depois de afirmar que estas esculturas podem servir como vinhetas para a história dos primeiros habitantes da Europa, acrescenta, “se alguma vez alguém teve a coragem de tentar fazê-lo.” Finalmente, após esses comentários, ele apresenta o seu parecer sobre a raça Egípcia:

As primeiras tribos que habitavam o Egito, isto é, o Vale do Nilo entre a catarata de Syene e o mar, vieram de Abissínia para o Sennar. Os antigos Egípcios pertenciam a uma raça bastante semelhante aos Kennous ou Barabras, atuais habitantes da Núbia. Nos Coptas do Egito, nós não encontramos nenhum dos traços mais característicos da população Egípcia antiga. Os coptas são o resultado de cruzamentos com todas as nações que têm dominado sucessivamente Egito. É errado para buscar neles as características principais da antiga raça.” *

[*, Champollion-Figeac, ibid., P. 27.]

.
Aqui nós vemos as primeiras tentativas de vincular os Egípcios com um material diferente daquele dos Coptas, como confirmado pelas observações de Volney. A nova origem que Champollion, o filho, pensou que ele descobriu não foi uma escolha mais feliz; em ambos os lados a dificuldade permaneceu a mesma. Fugindo de uma fonte Negra (Coptas) apenas leva a outra, igualmente Negra (Núbios e Abissínios).

Na realidade, as características Negras da raça Etíope ou Abissínia foram suficientemente afirmadas por Heródoto e todos os Antigos; não há necessidade de reabrir o assunto. Os Núbios são os ancestrais aceitos da maioria dos Pretos Africanos, a tal ponto que as palavras Núbio e Negro são sinônimas. Etíopes e Coptas são dois grupos Negros posteriormente misturados com diferentes elementos brancos em várias regiões. Os Negros do Delta cruzaram gradualmente com Brancos do Mediterrâneo que continuamente filtravam para o Egito. Isso formou o ramo Copta, composto principalmente de indivíduos encorpados habitando uma região bastante pantanosa. No substrato Negro Etíope um elemento Branco foi enxertado, composto por emigrantes da Ásia Ocidental, a quem devemos considerar em breve. Esta mistura, em uma região de planalto, produziu um tipo mais atlético.

Apesar destes constantes e muito antigos cruzamentos, as características Negras da raça Egípcia ainda não desapareceram; a cor da pele é obviamente preta e bastante diferente daquela de uma raça misturada com 50 por cento de sangue branco. Na maioria dos casos, a cor não é diferente da dos outros Negros Africanos.

Assim, podemos entender por que os Coptas, e especialmente os Etíopes, têm características ligeiramente desviantes daquelas de Pretos livres de qualquer mistura com raças brancas.
Muitas vezes acontece que seu cabelo é menos crespo. Embora tenham permanecido essencialmente prognatas, um esforço tem sido feito para apresentá-los ambos como pseudo-Brancos, na força de suas características relativamente finas. Eles são pseudo-Brancos quando eles são nossos contemporâneos e quando sua realidade étnica nos impede de considerá-los como Brancos autênticos. Mas os esqueletos dos seus antepassados, encontrados nos túmulos, emergem completamente ‘branqueados’ [whitened] pelas medições dos antropologistas.

Nós veremos como, graças a estas assim chamadas medições científicas, já não é possível distinguir um Etíope, isto é, um esqueleto Negro, daquele de um Alemão. Tendo em vista a distância que separa essas duas raças, percebemos o quão sem fundamento e confusas são tais medições.

A opinião de Champollion sobre a raça Egípcia foi registrada em um livro de memórias preparado para o Paxá do Egito, a quem ele entregou em 1829.

Agora vamos ver se a investigação do irmão de Champollion, o Jovem, Pai da Egiptologia, lançou alguma luz sobre o assunto. É assim que ele introduz o tema:

A opinião de que a antiga população do Egito pertencia à raça Negra Africana, é um erro muito aceito como verdade. Desde a Renascença, viajantes no Oriente, mal capazes de apreciar plenamente as idéias fornecidas pelos monumentos Egípcios sobre esta importante questão, têm ajudado a espalhar essa falsa noção e geógrafos não deixaram de reproduzi-la, mesmo em nossos dias. Uma séria autoridade declarou-se a favor deste ponto de vista e popularizou o erro. Tal foi o efeito do que o célebre Volney publicou sobre as várias raças de homens que ele tinha observado no Egito. Em sua Voyage [Viagem], que está em todas as bibliotecas, ele relata que os Coptas são descendentes dos antigos Egípcios; que os Coptas têm um rosto inchado, olhos inchados, nariz achatado, e lábios carnudos, como um mulato; que se assemelham à Esfinge das Pirâmides, uma distinta cabeça Negra. Ele conclui que os antigos Egípcios eram verdadeiros Negros da mesma espécie que todos os Africanos indígenas. Para sustentar sua opinião, Volney invoca que Heródoto, que, a propósito dos Cólquidas [Colchians], lembra que os Egípcios tinham a pele preta e cabelo lanoso [wooly hair]. No entanto, essas duas qualidades físicas não são suficientes para caracterizar a raça Negra e a conclusão de Volney quanto à origem Negra da antiga civilização Egípcia é evidentemente forçada e inadmissível.” *

[* Champollion-Figeac, ibid., P. 27.]

Após indiretamente expressar pesar de que o livro de Volney seja encontrado em todas as bibliotecas, Champollion-Figeac avança, como um argumento decisivo para refutar a tese daquele estudioso e todos os seus predecessores, que pele preta e cabelo lanoso “não são suficientes para caracterizar a raça Negra.” É a custo de tais alterações nas definições básicas que tem sido possível branquear [whiten] a raça Egípcia. Olhe e veja! Já não é suficiente ser preto da cabeça aos pés e ter o cabelo lanoso para ser um Negro! Alguém poderia imaginar a si mesmo em um mundo onde as leis da física são viradas de cabeça para baixo; em qualquer caso, a pessoa está certamente muito distante da mente analítica cartesiana. Estas, no entanto, foram as definições e as alternações dos dados iniciais que viriam a se tornar pilares sobre os quais a “ciência Egiptológica” seria construída.

O advento da Egiptologia, através da interpretação de erudição científica, é, assim, marcada pelas brutas, falsificações conscientes que acabamos indicar. É por isso que os Egiptólogos tão cuidadosamente evitam discutir a origem da raça Egípcia. Para tratar esta questão hoje, fomos obrigados a desenterrar velhos textos de autores uma vez famosos, mas depois quase anônimos. As alterações de Champollion mostram o quão difícil é provar o contrário da realidade e ainda permanecer inteligível. Onde nós estávamos esperando uma refutação objetiva lógica, nós encontramos a palavra típica, “inadmissível”, que é dificilmente sinônimo com demonstração.

Champollion-Figeac continua:

Reconhece-se hoje que os habitantes da África pertencem a três raças, bastante distintas entre si por todo o tempo:

  1. Negros propriamente, na África Central e Ocidental;
    ,
  2. Cafires [Kaffirs], na costa leste, que têm um ângulo facial menos obtuso do que os Pretos e um nariz alto, mas os lábios carnudos e cabelos lanosos;
    ,
  3. Mouros [Moors], semelhantes em estatura, fisionomia e cabelo às nações mais bem formadas da Europa e da Ásia Ocidental, e diferindo apenas na cor da pele, que é bronzeada pelo clima.A antiga população do Egito pertencia a esta última raça, que é a raça branca. Para nos convencermos disso, só precisamos examinar as figuras humanas representando Egípcios sobre os monumentos e sobre todo o grande número de múmias que foram abertas. Exceto pela cor da pele, enegrecida pelo clima quente, eles são os mesmos homens, como aqueles da Europa e Ásia ocidental: cabelo crespo, lanoso, é a verdadeira característica da raça Negra; os Egípcios, no entanto, tinham cabelos longos, idêntico ao da raça branca do Ocidente.” *

[* Ibid., P. 27.]

Vamos analisar as declarações de Champollion-Figeac, ponto por ponto. Contrariamente à opinião dele, os Cafires [Kaffirs] não constituem uma raça: a palavra Cafir [Kaffir] vem de uma palavra Árabe que significa pagão, o oposto do muçulmano. Quando o Árabe entrou na África via Zanzibar, esta foi a palavra que designava as populações que encontraram lá que praticavam uma religião diferente da deles próprios. Quanto aos Mouros [Moors], eles descendem diretamente dos invasores pós-Islâmicos que, a partir do Iêmen, conquistaram o Egito, África do Norte, e Espanha, entre o Sétimo e Décimo – Quinto Séculos [600 – 1400 D.C.]. Da Espanha eles caíram para trás na África. Assim, os Mouros são, basicamente, os Árabes Muçulmanos cuja instalação em África é bastante recente. Inúmeros manuscritos conservados pelas principais famílias Árabes na Mauritânia hoje, manuscritos em que a sua genealogia é minuciosamente traçada desde a sua saída do Iêmen, testemunham a sua origem. Os Mouros [Moors] são, portanto, um ramo daqueles dos quais é costume chamar de Semitas, O que será dito sobre os Semitas, mais adiante neste volume irá dissipar qualquer possibilidade de torná-los os criadores da civilização Egípcia. Tal como os Berberes, os Mouros são hostis à escultura, ao passo que a cultura Egípcia atribui grande importância a esta manifestação artística.
No mesmo capítulo, a mistura racial do Semita será enfatizada; A isto, em vez de ao clima, deve ser atribuída a cor dos Mouros. Além disso, quer se trate de uma questão de múmias ou pessoas vivas, não há comparação possível entre a cor da pele dos Mouros, mesmo bronzeada pelo sol, e a compleição Negra, preta dos Egípcios.

Ainda para nos convencer, Champollion nos pede para examinar as figuras humanas representando Egípcios sobre os monumentos. A inteira realidade da arte Egípcia contradiz ele. Aparentemente, ele deu pouca atenção às observações típicas de Volney sobre a Esfinge, embora ele tenha acabado de se referir a elas. Por força dessas mesmas ilustrações de que fala, podemos dizer que, em geral, contrário a Champollion-Figeac, quando se procede de Menes para o fim do Império Egípcio e das pessoas comuns ao Faraó, passando em revisão os dignitários da Corte e os altos funcionários, é impossível de encontrar – e ainda manter uma cara séria – um único representante da raça branca ou da raça Semítica. É impossível encontrar alguém lá, exceto Negros da mesma espécie como todos os Africanos indígenas.

As ilustrações neste volume reproduzem uma série de monumentos representativos dos diversos estratos sociais da população Egípcia, incluindo especialmente os Faraós. E eles forçosamente nos levam a observar, curiosamente, que a arte Egípcia é muitas vezes mais Negra do que a própria arte Negra. Ao examinar estas fotos, contrastando-as uma com a outra, nós nos perguntamos como eles poderiam inspirar a noção de uma raça Egípcia branca.

Finalmente, depois de afirmar que pele preta e cabelo lanoso não são suficientes para caracterizar a raça Negra, Champollion-Figeac contradiz a si mesmo 36 linhas após, escrevendo:  “cabelo crespo, lanoso é a verdadeira característica da raça Negra“. *

[*, Figeac não sabia que todo cabelo crespo é lanoso. A Queratina, uma substância química básica para a lã, torna o cabelo crespo. Assim, seu argumento é inútil.]

Ele vai tão longe a ponto de dizer que os Egípcios tinham cabelos longos e que, conseqüentemente, eles pertencem a raça branca. Poderia parecer a partir desse texto que os Egípcios eram Brancos com pele preta e cabelo longo. Embora possamos desconhecer a existência de tais Brancos, nós podemos tentar ver como o autor chegou a essa conclusão.
O que foi dito sobre Etíopes e Coptas mostra que seu cabelo podia ser menos crespo do que a de outros Negros. Além disso, uma raça preta, completamente preta, com cabelos longos, existe: os Dravidianos, considerados Negros na Índia e Brancos na África.

Sobre os monumentos os Egípcios são retratados com penteados artificiais idênticos aos usados em toda a África Preta. Voltaremos a estes em nossa análise da Paleta de Narmer [Narmer’s Tablet]. O autor conclui descrevendo o cabelo do Egípcio como sendo semelhante ao dos Brancos Ocidentais. Não podemos aceitar esta observação. Mesmo quando o cabelo do Egípcio é menos lanoso do que a de outros negros, ele é tão espesso e negro quanto para afastar qualquer comparação possível com o fino, cabelo claro de Ocidentais.

Por fim, é curioso ler sobre Egípcios de cabelos longos quando nós sabemos que Heródoto descreveu seu cabelo como lanoso. Além disso, tão cedo quanto a Décima – Primeira Dinastia, homens de pele Preta, Branca, e Amarela viveram em Tebas, assim como há estrangeiros que residem hoje em Paris.
Quando o Tebano quer um caixão de luxo para sua múmia, um tronco de árvore é escavado e corte em forma humana, com a tampa representando a frente do cadáver. O rosto é escondido sob uma cor amarela, branca ou preta. A escolha de coloração mostra que em Tebas, sob a Décima – Primeira Dinastia, homens amarelos, brancos e pretos viviam, eram aceitos como concidadãos, e admitidos na necrópole Egípcia. *

[*, Marius Fontanes, Les Egyptes (de 5000 à 715). Paris: Ed. Lemerre, n.d,, p. 169.]

Podemos nos perguntar, por que apenas múmias de cabelos compridos tem sobrevivido e por que as múmias Negras citados por Fontanes não são nem mostradas nem mencionadas. O que aconteceu com elas? Declarações de Heródoto não deixam dúvidas sobre a sua existência. Foram elas destruídas ou escondidas em sótãos de museus?
Este é um assunto extremamente grave.

O texto de Champollion-Figeac continua:

O Dr. Larrey investigou este problema, no Egito; ele examinou um grande número de múmias, estudou seus crânios, reconheceu as principais características, tentou identificá-las nas várias raças que vivem no Egito, e conseguiu fazê-lo. Os Abissínios pareceram-lhe combinar todas elas, com exceção da raça Negra. O Abissínio tem grandes olhos, um olhar agradável, . . . maçãs do rosto proeminentes; as bochechas formam um triângulo regular com os ângulos proeminentes do osso maxilar e boca; os lábios são carnudos sem ser revirados como nos Pretos; os dentes são finos, ligeiramente salientes; finalmente, a compleição é somente da cor do cobre; tais são os Abissínios observados pelo Dr. Larrey e geralmente conhecidos como Berberes ou Barabras, habitantes atuais da Núbia.’ *

[*, Champollion-Figeac, ibid., P. 27]

Champollion acrescenta que Frédéric Cailliaud, que tinha visto os Barabras, descreve-os como “industriosos, sóbrios, com humor seco… O seu cabelo é meio crespo, curto e encaracolado, ou trançado como o Egípcio antigo e ligeiramente untado com óleo.” Esta descrição, uma vez mais, parece familiar. Lábios carnudos, dentes ligeiramente salientes – em termos mais claros, prognatismo – cabelo semi-crespo, pele de cobre, são características básicas da raça Negra.

É curioso notar que Champollion-Figeac fala da compleição do Abissínio como sendo “meramente da cor de cobre” No entanto, duas páginas adiante, no mesmo capítulo, ele se refere como segue para as muitas nuances de cores do Negro:

Prolongadas guerras trouxeram o Egito em contato com o interior Africano; Assim, se distingue em monumentos Egípcios várias espécies de Pretos, diferindo entre si nas principais características que os viajantes modernos listaram como dessemelhanças quer no tocante à compleição, que faz os Negros pretos ou cor de cobre, ou com relação a outras características não menos típicas ‘ *

[*, Ibid.]

Esta nova contradição da mesma caneta confirma o que temos dito sobre os dois homens colocados ao lado do deus Horus, ou seja, o Egípcio e o Negro. Estes dois homens pertencem à mesma raça; não há mais diferença de cor entre eles do que entre um Bambara e um Wolof, que são ambos Negros. }

A tão-chamada cor “vermelho escuro” do primeiro, a “meramente cor de cobre” do Abissínio, e a “cor de cobre” do Negro são uma única e mesma. Nós notamos, de passagem, que a descrição do autor se demora sobre detalhes insignificantes, como um “olhar agradável”, e assim por diante.

A confusão sobre o termo Berbere [Berber] deve ser apontada. Esta também é uma palavra indevidamente aplicada a populações do Vale do Nilo que não têm nada em comum com os apropriadamente chamados Berberes e Tuaregues.
Não há Berberes no Egito. Pelo contrário, nós sabemos que o Norte da África foi chamado Berbéria [Barbary], os estados Berbérios [Barbary States]; esta área é o único habitat real dos Berberes. Posteriormente, o termo foi aplicado incorretamente a outras populações. A raiz desta palavra, usada durante a Antiguidade, foi provavelmente de origem Negra, em vez de Indo-Européia. Na realidade, é uma repetição onomatopéica da raiz Ber. Este tipo de intensificação de uma raiz é geral nas línguas Africanas, especialmente na Egípcia.

Além disso, a raiz Bar, em Wolof, significa falar rapidamente, e Bar-Bar designaria um povo que fala uma língua desconhecida, portanto, um povo estrangeiro. Em Wolof, especialmente, e adjetivo indicando nacionalidade é formada por dobrar a raiz: por exemplo, Djoloff-Djoloff, habitantes de Djoloff. *

[*, Djoloff: Uma das sete regiões do Senegal]

Reproduzindo o baixo-relevo de Biban-el-Moluk, de acordo com o desenho de Champollion, o Jovem, Champollion-Figeac não respeita as cores do original. Ele sombreou completamente no corpo do Negro, para nos lembrar de sua cor, mas evitou fazer o mesmo para o Egípcio, que ele deixou sem cor. Esta é talvez uma forma de branquear o último, mas não é consistente com o documento.

Chérubini, companheiro de viagem de Champollion, utiliza o mesmo documento de Biban-el-Moluk para caracterizar a raça Egípcia. Ele insiste com antecedência sobre a anterioridade da Etiópia para o Egito e cita a opinião unânime dos Antigos de que o Egito é apenas uma colônia da Etiópia, isto é, Meroítico Sudanês. Durante toda a Antiguidade, o Sudão Meroítico foi mesmo acreditado por ser o berço da humanidade:

“A raça humana deve ter sido considerada ali como espontânea, tendo nascido nas áreas superiores da Etiópia, onde as duas fontes da vida – calor e umidade – estão sempre presentes. É também nesta região que os primeiros vislumbres da História revelam a origem das sociedades e o lar primitivo da civilização. Na mais remota Antiguidade, antes dos cálculos ordinários da história, uma organização social aparece, totalmente estruturada, com sua religião, leis e instituições.
Os Etíopes se gabavam de ter sido os primeiros a estabelecer a adoração da divindade e o uso de sacrifícios. Ali, também, a tocha da ciência e das artes foi provavelmente pela primeira vez iluminada. À estas pessoas nós devemos atribuir a origem da escultura, o uso de símbolos escritos, em suma, o início de todos os desenvolvimentos que fazem uma civilização avançada.” *

[*, Cherubini, La Nubie. Paris: Collection l’Univers, 1847, pp 2-3.].

. . . “Eles se gabavam de ter precedido os outros povos na terra e sobre a superioridade real ou relativa de sua civilização, enquanto a maioria das sociedades ainda estava em sua infância, e eles pareciam justificar as suas reivindicações. Nenhuma evidência atribuiu a qualquer outra fonte os primórdios da família Etíope. Pelo contrário, uma combinação de fatos muito importantes tende a atribuir-lhe uma origem puramente local, em uma data remota.” *

[* – Chérubini faz alusão a esta passagem de Diodoro da Sicília:


Os Etíopes chamam a si mesmos os primeiros de todos os homens e citam provas que consideram evidentes.
É de consenso geral que, nascidos no interior e tendo vindo de outro lugar, eles devem ser julgados indígenas [indigenous].
E provável que, localizados diretamente sob o curso do sol, eles surgiram da terra antes de outros homens. Pois, se o calor do sol, combinando com a umidade do solo, produzem vida, aqueles locais mais próximos da linha do Equador devem ter produzido seres vivos mais cedo do que quaisquer outros.
Os Etíopes dizem também que eles instituíram o culto dos deuses, festivais, assembléias solenes, sacrifícios; em suma, todas as práticas pelas quais nós honramos os deuses. Por isso eles são considerados os mais religiosos de todos os homens e eles consideram os seus sacrifícios como sendo o mais agradável aos deuses. Um dos mais antigos e mais respeitados poetas na Grécia rende a eles esta homenagem quando ele introduz Júpiter e outros deuses em rota para a Etiópia (na Ilíada) para participar da festa e sacrifícios anuais preparados para todos eles pelos Etíopes:
Júpiter, hoje, seguido por todos os deuses,
Recebe os sacrifícios dos Etíopes. (Ilíada, I, 422)
“Eles alegam que os deuses têm recompensado a sua piedade por bênçãos importantes, como nunca terem sido dominados por qualquer príncipe estrangeiro. Na verdade, graças à grande unidade que sempre existiu entre eles, eles sempre mantiveram sua liberdade. Vários príncipes muito poderosos, que tentaram subjugá-los, falharam nesse esforço. Cambises vieram para atacá-los com numerosas tropas; seus exércitos pereceram e ele correu o risco de perder sua própria vida. Semíramis, a Rainha, conhecida por sua inteligência e explosões, mal tinha entrado na Etiópia, quando ela percebeu que seu plano não poderia ter sucesso. Baco e Hercules, após cruzar toda a terra, abstiveram-se de lutar contra os Etíopes, seja por medo de seu poder ou respeito pela sua piedade. . . .
. ” (Histoire Universelle, Bk. I, 337-341.)]

A Etiópia era considerada como um país à parte.
A partir desta fonte mais ou menos paradisíaca, o início da vida, a origem dos seres vivos, parecia emanar. . . .

Com exceção de alguns dados fornecidos pelo Pai da História sobre os Etíopes conhecidos como Macrobianos [Macrobians], havia uma idéia bastante nebulosa de que a Etiópia produziu homens que ultrapassaram o resto da humanidade em altura, beleza e longevidade. Uma, no entanto, reconheceu duas grandes nações indígenas na África: os Líbios e os Etíopes.
Estes últimos incluíam os mais ao sul povos da raça Preta; eles foram, assim, distinguidos dos Líbios que, ocupando o norte da África, eram menos bronzeadas pelo sol. Tal é a informação que os Antigos têm fornecido. . . . *

[*, Cherubini, ibid., Pp. 28-29.]

É razoável supor que em nenhum outro lugar na terra poderíamos encontrar uma civilização cujo progresso apareceria mais certo e apresentaria tais evidências inquestionáveis de prioridade. . .

Em consonância com os monumentos originais, os escritos da Antiguidade filosófica acadêmica autenticamente testemunham esta anterioridade. Na história de sociedades primitivas, talvez nenhum fato é apoiado por unidade mais completa e mais decisiva. ” *

[*, Ibid., P. 73.]

,
Mais uma vez um moderno lembra-nos que os Antigos, os próprios cientistas e filósofos que transmitiram a civilização atual para nós, de Heródoto a Diodoro, da Grécia a Roma, reconheceram por unanimidade que eles tomaram emprestado aquela civilização dos Pretos nas margens do Nilo: Etíopes ou Egípcios. Este texto indica claramente que os Antigos nunca questionaram o papel do Negro como um iniciador da civilização.

Ainda assim, Chérubini, no entanto, interpreta os fatos como ele deseja. Sobre a força do baixo-relevo de Biban-el-Moluk, depois de Champollion o Jovem, e Champollion-Figeac, ele não fornece nenhum novo elemento relativo à raça Egípcia, com exceção de uma interpretação errada da sua compleição. Ele reporta que se o Rôt-en-ne-Rome (homem por excelência) é retratado em uma cor marrom-avermelhada (!), isto é no sentido de que ele pode ser distinguido do resto da humanidade; assim, é uma escolha puramente convencional:

Nessa classificação de homens da Antiguidade que eles mesmos nos legaram, vemos a população Africana do Vale do Nilo constituindo, por si só, uma das quatro divisões da humanidade e, invariavelmente, ocupando o primeiro lugar ao lado do deus. Esta ordem é observada em vários outros locais e não parece ser devida ao acaso. . . .

Para  tornar a distância que os separa dos outros homens mais prontamente discernível, eles atribuíram a si mesmos, bem como ao deus encarnado em forma humana, uma cor marrom-avermelhado, talvez um pouco exagerada ou até mesmo convencional, que não deixou nenhuma dúvida sobre a originalidade de sua raça. Eles a caracterizaram, além disso, sobre os monumentos da sua civilização, por características especiais as quais divulgariam uma origem Africana inquestionável. *

[*, Ibid., P. 30.]

A cor “marrom-avermelhado” [“reddish-brown”]  que Champollion chama de “vermelho-escuro” [“dark red”] e a qual é pura e simplesmente “Negro de cor” [“Negro colored”], não poderia ser uma cor convencional como Chérubini sugere. Se fosse, ela seria a única cor convencional naquele baixo-relevo, considerando que todas as outras são naturais. Não há dúvida sobre a realidade das roupas brancas usadas pelo primeiro homem, ou a compleição “cor de carne beirando o amarelo” ou tonalidade bronzeada do terceiro, ou a “pele branca do tom mais delicado”, a barba, e os olhos do quarto. Entre tantas cores naturais, por que apenas uma deveria ser convencional? Ainda menos compreensível é que ela deva ser uma cor Negra, em vez de qualquer outra.
De acordo com Chérubini:

Os Egípcios levavam a sua classificação, ou mais precisamente, o seu orgulho racial tão longe como em estabelecer a distinção mais clara entre si e os seus vizinhos Africanos nativos, como as populações Negras com quem eles eram relutantes em se confundir, e quem eles colocaram em uma categoria separada. *

[*, Ibidem].

“Os Egípcios foram ainda mais longe e representaram o seu deus em uma cor Negra, ou seja, à sua própria imagem: preto carvão. A idéia de qualquer coisa convencional está, assim, para ser rejeitada pura e simplesmente. Assim, depois de Champollion-Figeac, é Chérubini quem vê o mesmo documento de Biban-el-Moluk através de antolhos [blinkers].
Neste contexto, podemos apropriadamente repetir o que foi dito anteriormente: Por fugir da evidência de uma origem Negra, os especialistas dividem-se em improbabilidades e contradições sem saída. Somente essa cegueira pode explicar como Chérubini considerou razoável recorrer a uma representação convencional que contradiz a sua própria opinião sobre os Egípcios e que eles, também, teriam achado inadmissível. O autor invoca os baixos-relevos de Abu Simbel (Baixa Núbia), onde prisioneiros, capturados por Sesostris após uma expedição para o sul, são retratados. Chérubini reproduz estes em uma tentativa de demonstrar que os Egípcios e Pretos pertenciam a duas raças diferentes:

Vemos o Rei Sesostris retornando de uma expedição contra esses Sulistas; Vários cativos precedem o seu carro. Mais adiante, o monarca oferece aos deuses locais dois grupos de prisioneiros, evidentemente pertencendo a estas tribos selvagens, uma oferta consagrada aos poderosos protetores da civilização, os quais sorriram sobre a punição dos seus inimigos . . . estes homens, amarrados juntos, quase completamente nus, exceto por uma pele de pantera sobre seus lombos, distinguem-se pela sua cor, alguns inteiramente pretos, outros marrom escuro. O ângulo facial longo, o topo da cabeça bem plano, a combinação de características grosseiras e um corpo geralmente frágil, caracterizam um tipo especial, uma raça no mais baixo degrau da escada humana (fig. 29). As horríveis caretas e contorções que contraem os rostos e membros desses homens revelam hábitos selvagens; a estranheza daquela raça, em que o sentido moral parece quase inexistente, tenderia a colocá-la em um plano mais ou menos intermediário entre o animal e o homem. Esses fatos são ainda mais marcantes quando comparados com a nobre, atitude séria de seus captores Egípcios.
Este contraste impressionante demonstra suficientemente que a antiga população nas margens do Nilo era tão apartada das espécies de Africanos do Sul quanto daquelas dos povos Asiáticos. Ele refuta as teorias que, até agora, tentam estabelecer uma origem puramente Negro para ele.
” *

[*, Ibid., P. 32.]

Desconsiderando os epítetos pejorativos de Chérubini, vamos tentar ver como os prisioneiros que ele descreve diferem etnicamente do Egípcio. Seu relato não contém um único termo científico susceptível de atrair nossa atenção. Pelo contrário, o caráter excessivo dos insultos que formam a maior parte desta descrição – escrita por um representante de um povo cujo senso de proporção tem a fama de ser uma virtude nacional – indica a irritação de uma pessoa incapaz de estabelecer o que ele gostaria de provar. Ele vai tão longe a ponto de esquecer a ordem objetiva seguida no baixo-relevo de Biban-el-Moluk, no qual ele alonga-se. Na realidade, se a raça Preta está “no degrau mais baixo da escada humana,” mesmo assim ela está à frente da “besta loura” de Gobineau neste baixo-relevo, em uma ordem observada consistentemente em todos os monumentos. Em que degrau, então, deveria este último ser colocado?

Reproduzimos aqui o desenho que Chérubini está discutindo. Como poderia alguém reconhecr nos rostos qualquer evidência de degradação moral? Como são essas características diferentes das do Egípcio? Se Chérubini nos diz que a compleição é, por vezes, “marrom escuro” [“dark brown”], em outras palavras, a mesma tonalidade marrom-avermelhado [reddish-brown] dos Egípcios sobre os monumentos. Claramente, a única característica étnica válida que ele cita é comum a ambas as raças.

A cor destes prisioneiros de Abu Simbel refuta a alegação de que os Egípcios não encontraram Negros até a Décima – Oitava Dinastia e descreveram-nos em uma cor diferente da sua; esta afirmação decorre da imaginação, não de provas documentais.

figura 29 - abu simbel prisioners

figura 30 - cativos

Não são estes corpos basicamente atléticos ao invés de frágeis? As “contorções faciais” e “contrações” das pessoas em primeiro plano, a desdenhosa resignação daqueles em volta, sugerem uma elevada concepção de dignidade, ao invés de degradação moral, para o espectador forte o suficiente para interpretá-los objetivamente.

Foi também insinuado que se Sesostris – e os Faraós em geral – combateram as populações Pretas do sul da Etiópia, era porque eles não pertencem à mesma raça. Isto equivale a dizer que desde que César empreendeu expedições na Gália, os Gauleses e Romanos não pertencem à mesma raça branca ou que, se os romanos eram brancos, os Gauleses devem ter sido amarelos ou pretos. Os Negros que viviam no interior Africano eram, por vezes, muito guerreiros e freqüentemente invadiam o território Egípcio. (Cf. nossa seção sobre a Stela de Philae.)

A intervenção de Sesostris, que o baixo-relevo de Abu Simbel comemora, se insere no contexto destas repressões. Além disso, esta expedição ocorreu durante o período posterior do Império Egípcio (Décima – Oitava Dinastia). Foi assim que os filhos de Shem vieram a chamar seus irmãos do sul: “filhos perversos de Kush”. *

[*, Nahas: “bom-para-nada,” em Wolof]
Mas os mais detestados pelos Egípcios foram os pastores Asiáticos de todos os tipos, dos Semitas aos Indo-Europeus. Para estes, nenhum epíteto era insultante o suficiente.
De acordo com Manetho, eles chamaram-lhes: “Asiáticos ignóbeis,” a partir de Hyk = rei, na língua sagrada, e Sos = pastores, na língua popular, surgiu o nome Hicsos [Hyksos] para designar os invasores. Os Egípcios também os chamaram de “malditos” e “pestilentos”, “saqueadores”, “ladrões . . . ” * [*, De acordo com Marius Fontanes, ibid., P. 219.]  Eles também chamaram os Citas [Scythians] de “Praga de Scheto” [“Scheto’s Plague”]

(cf. Chérubini, p. 34.).

O baixo-relevo deixado pelos Egípcios e comemorando expedições Faraônicos contra essas pragas móveis da Ásia retratam personagens cujo contraste étnico com os Egípcios é visível à primeira olhada e, sem qualquer dúvida possível.
Para tornar mais aparente o caractere estrangeiro [alien] destes Semitas, Arianos, inimigos do Egito, nós reproduzimos os cativos Asiáticos e Europeus, gravados sobre as rochas no Sinai e no templo de Medinet-Habu.
Eles contrastam com a similaridade de características observáveis entre os Egípcios e os prisioneiros de Abu Simbel.

Apesar de seus esforços, Chérubini claramente falhou miseravelmente em destruir a tese “que, até agora, vinha tentando estabelecer” a origem puramente Negra dos Egípcios. Pela incoerência e fraqueza dos argumentos que ele considera esmagadores, ele confirmou a origem Negra melhor do que qualquer um.

Em Les Egyptes, um volume publicado por volta de 1880, Marius Fontanes ataca o mesmo problema:

 Uma vez que os Egípcios sempre pintaram a si mesmos de vermelho em seus monumentos, os partidários da “origem sulista” tiveramque apontar um grande número de particularidades interessantes que possam ajudar a resolver o problema etnográfico. Perto do Alto Nilo, hoje, entre os Fulbe, cuja pele é bastante amarela, àqueles a quem os contemporâneos consideram como pertencentes a uma raça pura, são bastante vermelhas; Os Bisharin são exatamente do mesmo tom vermelho-tijolo usado em monumentos Egípcios. Para outros etnógrafos, esses “homens vermelhos” provavelmente seriam Etíopes modificados pelo tempo e clima, ou talvez Negros que tenham atingido a marca da metade do caminho na evolução da negritude para a brancura [blackness to whiteness]. Tem-se observado que, em áreas de calcário, o Negro é menos preto do que em regiões graníticas e plutônicas. Foi mesmo pensado que o tom [hue] mudava com a temporada. Assim, Núbios eram ex-Pretos, mas apenas na cor da pele, enquanto a sua osteologia manteve-se absolutamente Negrítica.
Os Negros representados em pinturas Faraônicos, tão claramente delineadas por gravadores e nomeados Nahasou ou Nahasiou nos hieróglifos, não estão relacionados com os Etíopes, as primeiras pessoas a descer para o Egito. Eram então os últimos atenuados Negros, Núbios?  O Canon de Lepsius [Lepsius’s Canon] * (Richard Lepsius, Egiptólogo Alemão do Séc. XIX, Canon das proporções, p. 117.) dá. . . as proporções do corpo Egípcio perfeito; ele tem braços curtos e é Negróide ou Negritiano [Negritian]. Do ponto de vista antropológico, o Egípcio vem após os Polinésios, Samoiedos, Europeus, e são imediatamente seguidos pelos Negros e Tasmanianos Africanos. Além disso, há uma tendência científica para encontrar na África, após a exclusão de influências estrangeiras, desde o Mediterrâneo até o Cabo, desde o Atlântico até o Oceano Índico, nada além de Negros ou Negróides de várias cores. Os antigos Egípcios eram Negros, mas Negros até o último grau.
*

[*, Fontanes, ibid., Pp. 44. 45.]

A visão de Fontanes, que dispensa comentários, confirma mais uma vez a impossibilidade de escapar da realidade de um Egito Negro, no entanto pouco está disposto a aceitar os fatos. Limitando-se a medições objetivas, Lepsius atinge a formal conclusão principal de que o perfeito Egípcio é Negritiano [Negritian]. Em outras palavras, sua estrutura óssea é Negrítica e isto é o motivo porque os antropólogos dizem pouco sobre a osteologia do Egípcio.

Fontanes, à seguir, considera a alegação de que o Egito foi provavelmente civilizada por Berberes ou Líbios vindos da Europa, através do oeste:

“Se for demonstrado que a civilização se moveu do norte para o sul, do Mediterrâneo para a Etiópia, isso não necessariamente segue que esta civilização seja Asiática; ela ainda pode ser Africana, mas vindo do oeste, em vez do sul. Neste caso, Berberes Norte Africanos poderiam ter “civilizado” o Egito.
Um bom número de Berberes atuais têm uma osteologia essencialmente Egípcia. O antigo Berbere era provavelmente marrom. É à influência da raça Européia, à imigração dos “homens do norte”, que devemos atribuir esta descrição do Tamhou, Líbios da Décima – Nona Dinastia, “com o rosto pálido, branco ou castanho-avermelhado, e olhos azuis “! Estes Brancos, contratados como mercenários pelos Faraós, hibridizaram fortemente o Egípcio e também o Líbio. É, portanto, necessário ignorar isso e voltar para o Líbio marrom, o verdadeiro Berbere, para encontrar as pessoas que provavelmente civilizaram o Antigo Egito. Esta é uma tarefa difícil, pois o Berbere Africano tem se tornado cada vez mais raro na Argélia. No Egito, o tipo Berbere é muito misturado. De acordo com esta teoria, o Berbere Africano do oeste, o Líbio marrom, estabeleceu-se no vale do novo Nilo; mas quase imediatamente, ou pouco depois, uma invasão dos Europeus hibridizou a Líbia Norte Africana. Este sangue misto Líbio “com pele branca e olhos azuis” pode ter modificado o primeiro Egípcio. Por seu sangue Europeu, este Egípcio poderia estar relacionado com a raça Indo-Européia e à Ariana. ”  
*

[*, Ibid, pp. 47 – 48.].

Esta tese é a obra-prima de explicações baseadas em pura imaginação; ela repousa unicamente na emoção. Eu a citei apenas por sua ingenuidade e determinação para ter sucesso a qualquer custo em demonstrar que de uma forma ou de outra os Egípcios tinham algo de Ariano sobre eles. Ariano era a palavra chave que ele tinha que alcançar. Eu citei a passagem porque, ao contrário das teorias anteriores, esta é explícita. É o fruto de suposições infundadas por especialistas convencidos de que qualquer coisa valiosa na vida vem apenas da sua raça e que, se olharmos com cuidado, nós temos a certeza de ser capazes de provar isso. Uma explicação não está completa até ela atingir aquele objetivo. A partir de então, pouco importa se a demonstração é apoiada por fatos. Ela é auto-suficiente; seu critério de validade funde-se com o seu objetivo.

Nós já nos referimos às idéias confusas sobre o Berbere, por isso não há necessidade de voltar a esse assunto. O Líbio marrom, o verdadeiro Berbere, protótipo da raça branca, é tão real como as Sereias. Além disso, se alguém se adere aos documentos arqueológicos, a África do Norte nunca foi o ponto de partida de uma civilização. Ela começou a contar na história somente com a colônia Fenícia de Cartago, quando a civilização Egípcia já tinha vários milênios de idade.

Se a civilização Egípcia tinha vindo do sul da Europa, como Maspero assume, e se ela tinha “escorregado para o vale via oeste ou sudoeste,”  – *

[* – Maspero, Ibid., P. 19. Maspero observa que esta é também a tese de naturalistas e antropólogos como Hartman, Morton, Hamy, e Sergi.]

– para introduzir elementos de civilização, nós não podemos entender por que ela não teria deixado vestígios em sua terra natal ou ao longo do seu percurso. É difícil perceber como esta raça branca, propagadora da cultura, poderia ter deixado a Europa, um meio social [milieu] tão propício para o desenvolvimento da civilização, sem tê-lo criado, como ela cruzou as ricas planícies de Tell e a enorme extensão que separa o Norte da África do Egito – antes daquela extensão se tornar um deserto – ou por que ela teria cruzado a região pantanosa, insalubre do Baixo Egito, atravessado o deserto da Núbia, subido aos elevados planaltos da Etiópia, percorrido milhares e milhares de quilômetros para criar uma civilização em algum capricho em uma tão remota área, de modo que essa civilização pôde mais tarde voltar lentamente pelo Nilo. Partindo do princípio de que este fosse o caso, como podemos explicar que uma fração daquela raça, que ficou em casa, em um ambiente tão favorável para o florescimento de uma civilização permaneceu sem modos [unpolished] até os séculos imediatamente anteriores à era cristã?

Opondo-se a hipótese de que o Norte de África foi habitado desde o início da Antiguidade por uma raça branca, podemos invocar documentos arqueológicos e históricos que atestam, por unanimidade, que esta região foi sempre habitada por Negros. Furon diz-nos que, ao final do Paleolítico, na província de Constantino, na Argélia, foram encontrados cinco camadas de homens fossilizados. Entre estes, “vários Negróides apresentando afinidades com os Núbios do Alto Egito são mencionados.” *

[* – Raymond Furon, Manuel préhistorique d’archéologie, Paris, 1943, p. 178.]

Durante a época histórica, documentos Latinos testemunham a existência de Pretos em todo o Norte da África: “Historiadores Latinos nos deram informações sobre a população, principalmente nomes que significam pouco para nós. Nós devemos lembrar pelo menos uma população Negra de tamanho considerável existia, os Etíopes de Heródoto, cujos descendentes foram, provavelmente, o Haratins do Alto Atlas Marroquino. ” *

[* – Ibid., P. 371.]

Esta última cotação prova que, mesmo agora, há Pretos na área. A única civilização pré-histórica que irradiou a partir dali, mesmo no Egito, foi provavelmente devida aos Pretos.
Durante aquele tempo, na África e no Oriente, que são intocados pelos Solutreanos e Magdalenianos, Negróides Aurignacianos são diretamente continuados por uma civilização chamada Capsiana [Capsian], o centro do que parece ter sido a Tunísia. De lá, ela provavelmente chegou ao resto da África do Norte, Espanha, Sicília e sul da Itália, por um lado, competindo com Caucasianos e Mongolóides pela bacia do Mediterrâneo. Por outro lado, a Líbia, Egito e Palestina. Em suma, sua influência foi sentida a tal extensão no Saara, África Central, e mesmo a África do Sul. Esta civilização Capsiana leva a um florescimento artístico comparável em seus desenhos rupestres ao que os Magdalenianos alcançaram na Europa. Mas a arte Capsiana tende para a abstração, para aquela estilização esquemática de figuras que veio, talvez, a tornar-se a origem da escrita. É verdade, nem todos concordam com a data dos desenhos encontrados em vários lugares do Sahara e até mesmo em Hoggar (Argélia). Alguns os vêem como a expressão de uma civilização Capsiana, enquanto outros atribuem-nos para um período posterior, no Neolítico. . . . *

[* – Ibid., Pp. 14 – 15]

A aparência do carneiro segurando um disco ou uma esfera entre seus chifres ligaria esta civilização do Saara a cultos Egípcios pré-dinásticos. Este é Amon, o deus-carneiro, quem nós vemos criado no Sahara, então habitado por pastores levando suas ovelhas e bois para pastar onde hoje existe apenas um deserto. *

[* – Ibid., P. 15.]
O exame dos documentos, portanto, testemunha, tão remoto quanto em tempos pré-históricos, a presença de uma civilização Negra, no mesmo local reivindicado como o ponto de partida da civilização Egípcia.

Anteriormente, na Capsiana e Magdaleniana, os fatos observados revelariam, ao invés, uma invasão da Eurásia pelos Pretos, que supostamente conquistaram o mundo. Isso é o que Dumoulin de Laplante escreve, referindo-se ao início do Pleistoceno:

‘Uma migração de Negros do tipo hotentote, então, deixando a África do Sul e Central, provavelmente submergiram a África do Norte, Argélia, Tunísia, Egito e, forçosamente, trouxeram uma nova civilização – a Aurignaciana – para a Europa Mediterrânea.
Estes Bosquímanos foram os primeiros a gravar desenhos em rochas e a esculpir figuras de pedra calcária representando mulheres grávidas monstruosamente gordas.  Foi a estes Africanos que a bacia interior Mediterrânica deveu o culto de fertilidade da deusa da maternidade? . . .
Esta hipótese de uma invasão por Negro Africanos em ambas as margens do Mediterrâneo, contudo, com várias objeções. Por que, fugindo do sol, estes homens teriam vindo a procurar o frio? Se aceitarmos a hipótese de uma migração da África, não é surpreendente encontrar ferramentas aurignacianas na França, Itália e Espanha. Mas a presença dessas ferramentas na Boêmia, Alemanha e Polônia,  torna a hipótese mais frágil. Finalmente, ferramentas aurignacianas existem em Java, Sibéria e China. Ou os Pretos tinham conquistado o mundo, ou teríamos que assumir que foram “intercâmbios culturais” entre os diferentes povos do planeta.’
*

[* – Dumoulin de Laplante, Histoire Generale Synchronique. Paris, 1947, p. 13.]

Encarando a mesma evidência arqueológica. Furon adota a idéia de um culto de fertilidade, para evitar chegar às mesmas conclusões. *

[Ct. a passagem de Furon que citamos na nota 26.]

Aceitar aquela teoria é favorecer a hipótese de uma invasão Negra, a qual, na verdade, é apoiada pelos crânios Aurignacianos, os esqueletos Grimaldi.
O papel civilizador da África, mesmo em tempos pré-históricos, é cada vez mais afirmado pelos estudiosos mais ilustres: “Além disso“, escreve Abbé Breuil, “parece cada vez mais provável que, mesmo nos dias antigos de antigas ferramentas de pedra, a África não apenas conheceu estágios de civilização primitiva comparáveis aos da Europa e da Ásia Menor, mas foi talvez a fonte de várias dessas civilizações, cujos enxames conquistaram aquelas terras clássicas para o norte“. *

[Abbé Henri Breuil, “L’Afrique du Sud,” Les Nouvelles littéraires, 5 de abril de 1951.]

A opinião deste grande estudioso vai ainda mais longe. Parece cada vez mais evidente que a humanidade nasceu na África. Na verdade, o mais importante estoque de ossos humanos encontrados até agora tem sido na África do Sul
[nota do tradutor: Ao momento em que essa obra foi escrita, ainda não haviam sido encontrados os Ossos de ‘Lucy’ na Etiópia – em 1974]. Apesar de não ser o local mais extensivamente escavado, é o único lugar no mundo onde os ossos encontrados nos permitem reconstituir a árvore genealógica da humanidade ininterruptamente desde os seus primórdios até hoje.

Embora não esteja no campo da arqueologia, Eu vou primeiro falar sobre o problema da origem do tipo humano. Graças às descobertas do Dr. Raymond Dart em Taung e Makapan, e àquelas do Dr. Robert Broom em Sterkfontein, Kromdraai, e Swartkrans, grandes progressos foram feitos no país. Antes do homem, antropóides de duas pernas de várias formas estavam lá, mas cada vez mais desenvolvendo traços hominídeos, tanto assim que nós podemos começar a acreditar que o tipo humano foi criado lá. A atenção de todos os especialistas está cada vez mais atraída para estas descobertas magníficas que se multiplicam quase todos os meses.’ *

[* -. Abbé Breuil, Ibid.]

Praticamente todos concordam que até a quarta época glacial, Negróides de nariz achatado eram os únicos seres humanos. Um cientista Sul-Africano declarou recentemente que os primeiros homens eram pretos, fortemente pigmentados, de acordo com as provas à sua disposição.
Provavelmente, não foi até a quarta glaciação, que durou 100.000 anos, que a diferenciação da raça Negróide em raças distintas ocorreu, seguindo um longo período de adaptação pela fração isolada e aprisionada pelo gelo: estreitamento das narinas, despigmentação da pele e das pupilas dos olhos.

Um único fato, então, permanece atestado pelos os documentos na tese “Líbia” (Arian, citado por Fontanes): que é a utilização de Brancos, de olhos azuis, loiros tatuados, como mercenários pelos Faraós Negros. Essas tribos, chamadas Líbias, eram hordas selvagens na parte ocidental do Delta, onde a sua presença, historicamente, não é reconhecida até a Décima – Oitava Dinastia. Os Egípcios, que sempre os consideraram como verdadeiros selvagens, tomavam cuidado para não serem confundido com eles. No máximo, eles condescendiam em usá-los como mercenários. Eles nunca deixaram de mantê-los sob controle fora de suas fronteiras por constantes expedições. Não até a época baixa, o Egito foi gradualmente permeado por Líbios domesticados que se estabeleceram na área do Delta.

A descrição de Heródoto mostra que, até o final da história Egípcia, os Líbios permaneceram no degrau mais baixo da civilização. A palavra “civilizado”, no entanto, em sentido geral, não podia ser aplicada a eles. A respeito da tribo Líbia dos Adrimachidas [Adrymachidae], o Pai da História escreveu: “Suas mulheres usam em cada perna um anel feito de bronze; eles deixar o cabelo crescer por muito tempo, e quando eles apanham vermes em sua pessoa, mordem-no e o jogam fora.” *

[* – História de Heródoto, p. 256.]

Conseqüentemente, nós podemos bem estar intrigados com as tentativas de atribuir a civilização Egípcia para os Líbios.

Como um resultado dessa hipótese, foram feitos esforços para relacionar as Línguas Berbere e Egípcia, alegando que a Berbere é a descendente da Líbia. Mas o Berbere é uma língua estranha que pode estar relacionada com todos os tipos de línguas:

Por um lado, semelhanças foram observadas entre Berbere, Gaélico, e Galês [Cymric]. Mas o Berbere usa, como muitos Egípcios como palavras Africanas e, dependendo do ponto de vista de alguém, a base de sua linguagem se torna Indo-Européia, Asiática ou Africana.
As línguas Líbias são, de fato, Africanas.
Através destas línguas Ligurianas e Sículas, ao chegar na Europa pelo Norte da África, provavelmente importaram uma língua Africana, da qual o Basco poderia ser um exemplo. *

[* -. Fontanes, ibid, pp. 60-61.].

O mesmo se aplica à gramática Berbere. Especialistas em Berbere são cuidadosos em não insistir sobre a relação entre Berbere e Egípcio. O professor André Basset, por exemplo, sentiu que fatos mais convincentes deviam ser apresentados antes que pudesse aceitar a hipótese Hamitica-semita (parentesco Berbere-Egípcio, em particular). Ambas formam o feminino adicionando t ao nome, mas o mesmo é verdade para o Árabe. Dado o que se sabe sobre os povos Árabes e Berberes, podemos perguntar junto com Amélineau (Prolégomènes) por que a influência não deve ser considerada por vir da direção oposta, o que estaria de acordo com a relação histórica entre os dois povos.

Essa não é a história inteira. Busca cuidadosa revela que nomes femininos Alemães também terminam em t, e st. Devemos considerar que Berberes foram influenciados pelos Alemães ou o inverso? Esta hipótese não poderia ser rejeitada a priori, pois as tribos Alemãs no século V invadiram o Norte da África através da Espanha, e estabeleceram um império que eles governaram por 400 anos. *

[* – Cf. Hardy, Histoire d’Afrique, pp. 28-29.]

Após esta conquista, os Vândalos que permaneceram lá se misturam com a população. Apenas um segmento, liderado por Genserieo, tentou, sem sucesso, conquistar Roma por atravessando através da Sicília, e provavelmente retornou ao Norte de África.
Além disso, o plural de 50 por cento dos substantivos Berberes é formado pela adição de en, como é o caso com substantivos femininos em Alemão, enquanto 40 por cento formam seu plural em a, como substantivos neutros em Latim. *

[* -. Estas duas formas plurais em n e a também existiam no antigo Alto-Alemão]

Como sabemos que os Vândalos conquistaram o país dos Romanos, por que não deveríamos estar mais inclinados a buscar explicações para os Berberes nessa direção, tanto lingüisticamente quanto em aspecto físico: cabelo loiro, olhos azuis, etc.? Mas não! Desconsiderando todos esses fatos, os historiadores decretam que não houve influência Vândala e que seria impossível atribuir qualquer coisa em Barbárie a sua ocupação.

No entanto, bárbaros eles eram, por mais imperfeita que fosse sua administração, eu não posso acreditar que, tendo em conta o seu número e sua posição como conquistadores, que eles abandonaram espontaneamente a sua linguagem para adotar a dos Berberes; nenhum texto Latim indica isto. Usualmente, as relações sociais são muito mais complexas e a complexidade se reflete em lingüística. Mesmo quando uma língua desaparece isso reage sobre a língua vitoriosa, transformando-a, e esta última deixa de ser exatamente o que era antes. Assim, é difícil entender como o Berbere moderno pode ser livre de qualquer influência Vândala. Ainda mais difícil de entender é que o Berbere moderno não é um descendente dos Vândalos, especialmente quando ele tem olhos azuis e cabelos loiros.

O tratado de Ibn Khaldun sobre o Berbere é meramente uma série de citações em situação irregular. *

[* -. Abderrahman es-Sa’di, Tarikh es-Sudan]

O fato de que não há nenhum Berbere no Egito, exceto alguns imaginários, de que há escassamente alguns na Tunísia, e que o seu número aumenta de leste a oeste para chegar ao seu máximo no Marrocos, parece confirmar a hipótese de uma origem Vândala. Historiadores dão pouca atenção a estes fatos porque é absolutamente necessário tornar o Berbere antigo o suficiente para justificar a civilização Egípcia. No entanto, as 20 sentenças Berberes encontrados em textos Árabes mal remontam ao século XII, ao passo que a escrita “Tifinagh” e os símbolos ainda não decifrados chamados “Líbios” parecem devidos à influência do elemento indígena da colônia Negróide Fenícia de Cartago, antes da chegada dos Vândalos.

Para recapitular, a estratificação da população Norte – Africana, desde os tempos pré-históricos até os nossos dias, seria o seguinte:

Negros e Cro-Magnons (uma raça extinta há 10.000 anos) :

Negros no Capsiano;

Negros durante a época Fenícia;

Indo-Europeus, começando em 1500 A.C. e,
provavelmente, misturada com Negros;

Negros da época dos Romanos, com uma grande
percentagem de mestiços;

Vândalos; e

Árabes.

O que então é mais natural do que aquilo que a base do vocabulário Berbere deve ser, por sua vez, Indo-Européia, semita, ou Africana, dependendo do ponto de vista?

Continuando com o desenvolvimento da Egiptologia, chegamos a Maspero que, no primeiro capítulo de sua Histoire ancienne des peuples de l’Orient [História Antiga dos Povos do Oriente], descreve a origem dos Egípcios;

Os Egípcios parecem bem precocemente terem perdido a memória de seus primórdios. Será que eles vêm da África Central ou do interior da Ásia? De acordo com o testemunho quase unânime dos historiadores antigos, eles pertenciam a uma raça Africana que, primeiramente estabelecida na Etiópia no Médio Nilo, veio gradualmente para baixo em direção ao mar, seguindo o curso do rio.
Para demonstrar isso, alguém invoca as analogias evidentes entre os costumes e religião do reino de Meroë e os costumes e religião dos Egípcios propriamente. Hoje sabemos, sem sombra de dúvida, que a Etiópia, pelo menos a Etiópia conhecida pelos Gregos, longe de ter colonizado o Egito, foi, ela mesma colonizada pelo Egito, iniciando com a Décima – Segunda Dinastia, e foi durante séculos incluída no reino dos Faraós.
” *

[* – Maspero, ibid., P. 15.]

Antes de continuar com a tese de Maspero, devemos observar o que parece já ter sido alterado nestas poucas frases introdutórias. É improvável que os Egípcios alguma vez tenham esquecido a sua origem.
Maspero aparentemente confunde duas noções distintas:
o berço primitivo a partir da qual um povo começou e a origem étnica responsável pela cor da raça.
Os Egípcios nunca esqueceram a última mais do que eles esqueceram o primeiro. *

[* – De acordo com Amélineau, os Egípcios designavam o coração da África pela palavra Amani: terra dos ancestrais; Mamyi: ancestrais, em Wolof].

Os Egípcios nunca esqueceram a última mais do que eles esqueceram o primeiro. Ela é expressa em toda a sua arte, através de toda a sua literatura, em todas as suas manifestações culturais, nas suas tradições e língua. Tanto é assim que até mesmo o seu país foi designado – por analogia com a sua cor, não por analogia com a cor do solo – pelo nome Kemit, que coincide com Ham (Cham), antepassado bíblico dos Pretos. Dizer que Kemit refere-se à cor da terra do Egito, ao invés de designar o país através da cor da raça, poderia inspirar um raciocínio semelhante para explicar as expressões atuais: “África Negra” e “África Branca”
[“Black Africa” and “White Africa”].
Maspero refere-se ao testemunho unânime dos historiadores antigos sobre a raça Egípcia, mas ele omite intencionalmente sua precisão.

O que já sabemos sobre o testemunho dos antigos prova que eles não usam o termo vago, “raça Africana”.
De Heródoto a Diodoro, os quais Maspero cita, sempre que eles mencionaram o povo Egípcio, eles especificaram que uma raça Negra estava envolvida.

Aqui podemos traçar a evolução da gradual alteração dos fatos nos livros didáticos que irá moldar a opinião de estudantes de nível médio e superior. Isto é tanto mais grave porque a grande massa de conhecimento a ser adquirida, no mundo moderno, deixa a geração mais jovem, com exceção dos profissionais, nenhum tempo para consultar fontes originais e apreciar a diferença entre a verdade e o que lhes têm sido ensinado. Pelo contrário, uma certa tendência à preguiça encoraja-os a estar satisfeitos com os livros didáticos e aceitar noções estereotipadas de “autoridade infalível” deles, como se de um catecismo. Se aplicássemos o raciocínio de Maspero para refutar as idéias de Diodoro sobre a Antiquity da Etiópia, nós seríamos capazes de concluir que, uma vez que Napoleão conquistou e anexou a Itália no século XIX, Roma nunca civilizou a Gália – o que seria um erro histórico óbvio.

Além disso, o Bíblia afirma que Mesraim, filho de Ham, irmão de Kush e de Canaã, vieram da Mesopotâmia para se instalar, juntamente com seus filhos, nas margens do Nilo.”*

[* – Maspero, ibid., P. 16]
Maspero não acrescenta que Ham, Canaã, e Kush são Negros, de acordo com essa mesma Bíblia que ele está citando.
Isto significa mais uma vez que o Egito (Ham, Mesraim), Etiópia (Kush), Palestina e Fenícia antes dos Judeus e Sírios (Canaã), Arábia Felix antes dos Árabes (Pout, Hevila, Saba), foram todas ocupadas por Negros que haviam criado civilizações de milhares de anos nas regiões e haviam mantido relações familiares.

Mas então ele continua:

Loudim, o mais velho entre eles, personifica o Egípcio propriamente, o Rotou ou Romitou das inscrições hieroglíficas. Anamim representa a grande tribo dos Anu, que fundou On do norte (Heliópolis) e On do sul (Hermonthis) em tempos pré-históricos.
Leabim é o povo Líbio que vive a oeste do Nilo, Naphtouhim, estabelecidos no Delta, sul de Menfes. Finalmente, Pathrousim (Patorosi, terra do sul) habita a atual Said, entre Menfes e a primeira catarata.
Esta tradição, que traz o Egípcio da Ásia, através do Istmo [Isthmus] de Suez não era desconhecida para autores clássicos. Plínio o Velho, atribui a fundação de Heliópolis para os Árabes; mas isso nunca foi tão popular como o parecer de que eles vieram dos planaltos da Etiópia.
” *

[* – Ibid.]

Esta identificação * [* – tomada emprestado por Maspero de  Recherches sur les monuments qu’on peut attribuer aux six Premières dynasties de Manéthon de Rougé.] é mais ou menos improcedente [unfounded]. Ela se torna contraditória quando liga os Líbios, dito terem olhos azuis e cabelos loiros, com Leabim, filho de Mesraim, ambos Negros. Outra contradição: Maspero parece às vezes aceitar a teoria de uma origem Asiática para os Egípcios e recorda o parecer do Plínio o Velho, que atribui a fundação de Heliópolis para os Árabes.
No mesmo texto, Maspero credita o estabelecimento daquela cidade à Anu, a quem ele identifica com Anamim, filho de Mesraim, um Negro. Os nossos comentários sobre os Árabes em um capítulo posterior irão eliminar qualquer possibilidade de colocá-los na fundação de Heliópolis, especialmente se ela ocorreu nos tempos “pré-históricos”, como o autor afirma.
Nós podemos ver por que a opinião de Plínio não goza da popularidade entre os Antigos que Maspero teria desejado.
Para retornar ao relato de Maspero:

Em nossos dias, a origem e as afinidades etnográficas da população têm inspirado longo debate. Em primeiro lugar, os viajantes dos séculos dezessete e dezoito, enganados pela aparência de certos Coptas mestiços, certificaram que seus antecessores na era Faraônica tinham um rosto inchado, olhos de inseto, nariz chato, lábios carnudos. E que eles apresentavam certos traços característicos da raça Negra. Este erro, comum no início do século, desapareceu uma vez por todas, assim que a Comissão Francesa publicou seu grande trabalho.” *

[* – Ibid., Pp. 16-17.]

Qualquer um lendo essa declaração sem primeiro consultar o testemunho e nota explicativa de Volney sobre os efeitos climáticos sobre a aparência racial . . . pode facilmente ser persuadido de que os viajantes em séculos passados pudessem ter se deixado facilmente enganar pelas aparências. Tendo em mente o que foi dito sobre a gradual infiltração dos Brancos no Egito – especialmente durante a época baixa – no Delta, se houve mestiçagem, só poderia ter resultado em branqueamento da população, não em qualquer Negrificação que poderia tornar ex-Brancos irreconhecíveis por observadores sem preconceitos.

Vamos ver como, se formos acreditar em Maspero, aquele “erro comum” desapareceu uma vez por todas após a publicação da “grande obra” pela Comissão Francesa:

Ao examinar inúmeras reproduções de estátuas e baixos-relevos, reconhecemos que as pessoas representadas nos monumentos, em vez de apresentar peculiaridades e o aspecto geral do Negro, realmente se pareciam com as finas raças brancas da Europa e Ásia Ocidental. Hoje, depois de um século de pesquisas e escavações, nós já não mais achamos difícil de imaginar, não direi Psammetichus e Sesostris, mas Quéops, quem ajudou a construir as Pirâmides. Basta entrar em um museu e examinar as estátuas do estilo antigo lá reunidas. À primeira vista, nós sentimos que o artista procurou reproduzir uma semelhança exata, no retrato fiel de cabeça e membros. Em seguida, deixando de lado as nuances próprias de cada indivíduo, nós facilmente detectamos o caráter geral e principais tipos da raça. Uma delas, pesada e solidamente -definida, corresponde muito bem a um dos tipos predominantes entre os fellahs modernos. Outra, que descreve os membros da classe alta,nos mostra um homem alto e esbelto, com ombros largos e musculosos, peito bem desenvolvido, braços musculosos, mãos pequenas, quadris estreitos, pernas finas. Os detalhes anatômicos de seu joelho e musculo da panturrilha destacam-se, como é o caso com a maioria das pessoas que andam muito. Seus pés são longos, estreitos, achatados no final por hábito de caminhar sem sapatos. Sua cabeça, muitas vezes pesada demais para seu corpo, manifesta instintiva bondade e tristeza. Sua sobrancelha é quadrada, talvez um pouco baixa; o nariz curto e carnudo; seus olhos são grandes e bem abertos; bochechas redondas; seus lábios grossos, mas não revirados; sua boca, esticada um pouco longe demais, mantém um sorriso resignado e quase doloroso. Estas características, comuns à maioria das estátuas do Império Antigo e Médio, persistem através de todas as épocas.
Os monumentos da Décima – Oitava Dinastia, tão inferiores em beleza artística comparados àqueles das Antigos Dinastias, transmitem o tipo primitivo sem alteração apreciável. Hoje, embora as classes mais altas tenham sido desfiguradas pela repetida miscigenação com o estrangeiro, camponeses comuns em quase toda parte conservaram a aparência de seus antepassados. Qualquer fellah pode contemplar com espanto as estátuas de Quéfren ou os colossos de Sanuasrit transportando através do Cairo, depois de mais de 4.000 anos de existência, a fisionomia daqueles antigos Faraós
“. *

[* -. Ibid., Pp. 17-18]

Tal é o centro da demonstração de Maspero. Nós não omitimos uma única palavra. O que isso prova? O que a “grande obra” ensina-nos? O autor nos informa que a Egiptologia já é uma ciência muito antiga; durante um século, especialistas tem escavado e procurado; agora nós conhecemos o protótipo do antigo Egípcio até o menor detalhe étnico.
O artista retratou sua “semelhança exata”. Graças a esta arte realista, podemos reconstituir etnicamente os membros da classe alta. De acordo com as observações de Maspero, eles tinham um “nariz curto e carnudo”, uma “boca esticada um pouco longe demais”, “lábios grossos”, “grandes olhos bem abertos”, “bochechas redondas”, uma sobrancelha “talvez um pouco baixa”, “ombros largos e musculosos”, “mãos pequenas”, “quadris estreitos”, “pernas finas”.
Estas características comuns, perpetuados ao longo dos Reinos Antigo e Médio, “ao invés de apresentar peculiaridades e o aspecto geral do Negro, realmente se pareciam com as finas raças brancas e da Europa e da Ásia Ocidental”.
Esta conclusão não precisa de comentários.

Depois de uma tão solene confirmação da origem Negra por um autor cuja intenção era a de destruí-la, vemos mais uma vez a impossibilidade de provar o contrário da verdade. Gaston Maspero, que se tornou em 1889 o diretor do Museu do Cairo, era um erudito a quem devemos várias traduções de textos Egípcios. Ele teve a preparação técnica necessária para o estabelecimento de tudo o que era demonstrável. A sua falha, apesar daquele conhecimento, como a falha de estudiosos que abordaram este problema antes ou depois dele, constitui, por assim dizer, a prova mais sólida, se não intencional, da origem Negra.

Em seguida, nós viemos para a tese de Abbé Emile Amélineau (1850-1916), um grande Egiptólogo raramente mencionado. Ele escavou em Om El’Gaab, perto de Abydos, e descobriu uma necrópole real, onde ele foi capaz de identificar os nomes de 16 reis mais antigos, talvez, do que Menes. Ele encontrou túmulos de quatro reis: Ka, Den, o Rei Serpente Djet (cuja estela está no Louvre), e outro cujo nome não foi decifrado. Como relata Amélineau, foram feitas tentativas para incluir esses monarcas no período histórico: “Na reunião da Academia das Inscrições e Belas-Letras, o Sr. Maspero tentou colocar esses reis na Décima – Segunda Dinastia . . . em seguida . . . ele os atribuiu à Décima – Oitava . . . ao lado da Quinta . . . e então para a Quarta. . . .” *

[* – Abbé Emile Amélineau, Nouvelles d’Abydos Fouilles Paris: Ed leroux, 1899, p. 248.]

Após refutar seus detratores, Amélineau conclui: “Essas são razões que me parecem não merecer desprezo, mas sim para merecer séria consideração por estudiosos de boa vontade, pois os outros não contam na minha opinião.” *

[* – Ibid., P. 271.]

À Amélineau nós devemos a descoberta da tumba de Osiris em Abydos, graças à qual Osíris não poderia mais ser considerado um herói mítico, mas um personagem histórico, um antepassado inicial dos Faraós, um ancestral Preto, como foi sua irmã, Isis. Assim, podemos entender por que os Egípcios sempre pintaram a seus deuses tão pretos como o carvão, à imagem de sua raça, desde o início até o fim de sua história. Seria paradoxal e incompreensível para um povo Branco nunca ter pintado seus deuses de branco, mas para escolher, pelo contrário, para descrever seus seres mais sagrados na cor preta de Ísis e Osíris em monumentos Egípcios. Este fato revela uma das contradições dos modernos que afirmam dogmaticamente que a raça Branca criou a civilização Egípcia com uma raça Preta escravizada vivendo ao seu lado. A escolha da cor dos escravos, em vez daquela dos mestres e civilizadores deve chocar uma lógica mente objetiva. . . .

Por isso, é que Amélineau, após suas tremendas descobertas e seu estudo em profundidade da sociedade Egípcia, chega à seguinte conclusão da maior importância para a história da humanidade:

A partir de várias lendas Egípcias, eu tenho sido capaz de concluir que as populações estabelecidas no Vale do Nilo eram Negras, uma vez que a deusa Isis foi dita ter sido uma mulher preto-avermelhada [reddish-black].
Em outras palavras, como eu tenho explicado, sua tez é coffee au lait (café com leite), a mesma daquela de alguns outros Negros cuja pele parece emitir reflexões metálicas de cobre.
” *

[* – Amélineau, Prolégomènes à l’étude de la religion égyptienne. Paris: Ed. Leroux, 1916, parte 2, 124.]

Amélineau designa a primeira raça Preta a ocupar o Egito pelo nome de Anu. Ele mostra que ela veio lentamente descendo o Nilo e fundou as cidades de Esneh, Erment, Qouch, e Heliópolis, pois, como ele diz:

Todas estas cidades têm o símbolo característico que serve para indicar o nome Anu *, [* – Hieróglifo: Uma seta com duas penas ou juncos] Está também em um sentido étnico que devemos ler o termo Anu aplicado a Osíris. Na realidade, no capítulo introduzindo hinos em honra de Ra e contendo o Capítulo XV do O Livro dos Mortos, nós lemos: “Salve a Ti, Ó Deus Ani na terra montanhosa de Antem! Ó grande Deus, falcão da dupla montanha solar!” (“Hail to Thee, O God Ani in the mountainous land of Antem! O great God, falcon of the Double solar mountain!”)

Se Osiris era de origem Núbia, embora nascido em Tebas, seria fácil de entender por que a luta entre Set e Horus teve lugar na Núbia. em qualquer caso, é surpreendente que a deusa Isis, de acordo com a lenda, tenha precisamente a mesma cor de pele que os Núbios sempre tiveram, e que o deus Osíris tenha o que me parece um epíteto étnico indicando sua origem Núbia. Aparentemente, esta observação nunca foi feita antes.” *

[* – Amélineau, Prolégomènes, pp. 124-125.]

Se nós aceitarmos a evidência de suas próprias criações, O Livro dos Mortos, entre outros, estes Anu, a quem Maspero tentou transformar em Árabes. . . aparecem essencialmente como Pretos. Em apoio à teoria de Amélineau, pode-se salientar que An significa homem (em Diola).
Assim, Anu, originalmente pode ter significado homens.
(Para outras similaridades, consulte o Capítulo X.)

De acordo com Amélineau, esta raça Preta, o Anu, provavelmente criou, em tempos pré-históricos, todos os elementos da civilização Egípcia que persistem sem alteração significativa ao longo da sua existência. Estes Pretos foram provavelmente os primeiros a praticar agricultura, irrigar o vale do Nilo, construir barragens, inventar ciências, artes, escrita, o calendário. Eles criaram a cosmogonia contida no Livro dos Mortos, textos que não deixam dúvida sobre a Negricidade [‘Negroness’] da raça que concebeu as idéias.

“Estes Anu… Eram um povo agrícola, criando pecuária em grande escala ao longo do Nilo, fechando-se em cidades muradas para fins defensivos. Para este povo podemos atribuir, sem medo de errar, os livros Egípcios mais antigos, O Livro dos Mortos e os Textos das Pirâmides [The Book of the Dead and Texts of the Pyramids], conseqüentemente, todas os mitos ou ensinamentos religiosos. Gostaria de acrescentar quase todos os sistemas filosóficos então conhecidos e ainda chamados Egípcios. Eles evidentemente conheciam os ofícios necessários para qualquer civilização e estavam familiarizados com as ferramentas que esses ofícios necessitavam. Eles sabiam como usar metais, pelo menos metais elementares. Eles fizeram as primeiras tentativas em escrita, pois toda a tradição Egípcia atribui esta arte para Thot, o grande Hermes, um Anu como Osíris, que é chamado de Onian no Capítulo XV de O Livro dos Mortos e nos Textos das Pirâmides . Certamente, as pessoas já conheciam as principais artes, é deixada a prova disso na arquitetura dos túmulos em Abydos, especialmente o túmulo de Osíris, e nesses objetos de sepulcros foram encontrados trazendo o carimbo inconfundível de sua origem – tal como marfim esculpido, ou a pequena cabeça de uma menina Núbia encontrada em um túmulo próximo ao de Osíris, ou os pequenos receptáculos de madeira ou marfim sob a forma de uma cabeça de felino – todos os documentos publicados no primeiro volume da meu Fouilles d’Abydos [Escavações de Abydos].” *

[* – Ibidem, pp. 257-258.]

Formulando sua teoria, Amélineau continua:

“A Conclusão a ser desenhada a partir destas considerações é de que os Anu conquistados guiaram seus conquistadores, pelo menos, ao longo de alguns dos caminhos para a civilização e as artes. Esta conclusão, como pode ser facilmente vista, é da maior importância para a história da civilização humana e a história da religião. Ela Claramente resulta daquilo que tem-se afirmado anteriormente: a civilização Egípcia não é de origem Asiático, mas Africana, de origem Negróide, no por mais paradoxal que isto possa parecer. Nós não estamos acostumados, de fato, para dotar os Pretos ou raças relacionadas com muita inteligência, ou mesmo com inteligência suficiente para fazer as primeiras descobertas necessárias para a civilização. No entanto, não existe nenhuma uma única tribo Africana habitando o interior que não tenha possuído e ainda não possua, pelo menos, uma daquelas primeiras descobertas.” *

[* – Ibid., P. 330.]

Amélineau supôs que um Egito Negro, já civilizado pelos Anu, pode ter sido invadido por uma raça branca grosseira a partir do interior Africano. Gradualmente conquistando o vale tanto quanto o Baixo Egito, esta raça branca inculta foi provavelmente civilizada pelos Pretos Anu, grande número dos quais, no entanto, eles destruíram. O autor baseia esta teoria em uma análise de cenas retratadas na Paleta de Narmer [Narmer’s Tablet], descoberto em Hierakonpolis por James Edward Quibbell (1867-1935) (Fig.31). A opinião corrente reconhece, por unanimidade, que os prisioneiros retratados nesta Paleta, com os seus narizes aquilinos, representam invasores Asiáticos conquistados e punidos pelo Faraó que, naquela época remota, tinha a sua capital no Alto Egito [Upper Egypt].

Esta interpretação é confirmada pelo fato de as pessoas andando adiante do Faraó e pertencendo ao seu exército vitorioso são Núbios, vestindo insígnias Núbias, como o símbolo do Chacal e o Falcão [Sparrow-hawk], que nós poderíamos chamar de totens Núbios. Além disso, os dados arqueológicos não suportam a hipótese de uma raça branca originando no coração da África.

A cauda-do-boi [ox-tail] levada pelo Faraó nesta Paleta, e que Faraós e sacerdotes Egípcios sempre levaram, é ainda obrigatória em cerimônias e funções oficiais por líderes religiosos Nigerianos. O mesmo é verdadeiro para a roupa usada pelo Faraó; o saco cheio de amuletos [amulet-filled sachet] em seu peito está sempre presente ao longo de toda a história Egípcia. Ele é encontrado no peito de qualquer chefe Negro que detém uma posição de responsabilidade; em Wolof, ele é chamado dakk.

O servo está segurando as sandálias do Faraó, idênticas com a voganti dos Negros. Andando atrás do rei e carregando uma chaleira, ele tem a típica atitude do servo Negro moderno, ou bek-neg (comparar com bak, que significa servo em Egípcio). O fato de que o rei retirou as suas sandálias sugere que ele está prestes a realizar um sacrifício em lugar santo, e que ele deve primeiro purificar seus membros com a água na chaleira. Os Egípcios são conhecidos por terem praticado abluções milhares de anos antes do advento do Islã. Assim, a Paleta de Narmer [Narmer’s Tablet] provavelmente retrata uma cena de ritual sacrificial depois de uma vitória. Sacrifícios humanos similares ainda eram praticados na África Preta até tempos muito recentes; No Daomé, por exemplo.

Acima da vítima, a cena representando Horus segurando o que parece ser um cabo que passa através das narinas de uma cabeça amputada, talvez simbolize estas próprias vidas sacrificadas ao deus, escapando através do nariz das vítimas e sendo aceitas por Horus. Esta idéia está em conformidade com a crença Negra de que a vida escapa através das narinas. Vida e nariz são sinônimos em Wolof e muitas vezes utilizados indistintamente.

Qual é a identidade racial das pessoas representadas neste lado da Paleta, que Eu considero a frente ao invés de parte de trás, como é geralmente pensado?

Eu afirmo que todos eles pertencem à mesma raça Preta.
O rei tem lábios grossos, até revirados [everted]. Seu perfil não pode esconder o fato de que seu nariz é carnudo. Isto é verdade para todas as pessoas neste lado, mesmo os cativos na cena abaixo, que estão fugindo. Estes últimos, como as vítimas prestes a ser imoladas, possuem cabelo artificial, dispostos em camadas ou fileiras [layers or tiers], um estilo ainda visto na África Preta. Um penteado semelhante, usados por meninas, é chamado Djimbi; Ligeiramente modificado e usado por mulheres casadas, é chamado o Djéré, que desapareceu da cena Senegalesa a cerca de 15 anos atrás. Muito recentemente, o Islã levou os homens a interromper o costume. Tais penteados não são mais vistos exceto entre os Serer não-Islâmicos antes da circuncisão, e entre os Peul. Uma forma especial destes penteados é chamada Ndjumbal. O Cabelo do rei e aquele de seus servos está oculto por suas boinas; no Egito, o uso de perucas era popular com todas as classes sociais. As boinas do rei ainda são usadas no Senegal por aqueles próximos a serem circuncidados, embora este uso tenda a desaparecer sob o impacto do Islã. Ela [a boina] é feita costurando dois pedaços elípticos de pano branco, com uma extremidade deixada em aberto para a cabeça passar. A armação de bambu dá-lhe a forma de coroa usada pelo faraó do Alto Egito [Upper Egypt]. Quando esta boina é usada por homens maduros, o quadro de bambu é omitido e a parte oblonga é geralmente menor. Isto produz o que tem sido chamado de a forma do barrete Frígio [Phrygian bonnet] que os Gregos estavam para transmitir para o mundo Ocidental. Em Dieu d’eau [Deus de água], Marcel Griaule publicou fotografias destas boinas usadas pelos Dogon.

Pode ser notado aqui que o rei carrega apenas uma maça [porrete] em sua mão direita; Sua mão esquerda, desarmada, segura a cabeça da vítima. A maça [porrete] pode assim ser considerada como um atributo do Alto Egito, assim como era a coroa branca. O rei estava provavelmente iniciando a conquista do vale do Nilo nesta primeira cena. Este foi talvez o momento quando ele estava sujeitando homens de sua própria raça para a sua dominação.

,

A parte traseira da Paleta começa com uma cena típica: a vítima conquistada pertence à cidade dos “Abomináveis”, como indicado pelo hieróglifo apontado por Amélineau.
A cidade fortificada era, provavelmente, uma cidade no Baixo Egito, habitada por uma raça claramente diferente da raça Preta no outro lado: uma raça Asiática branca. O cabelo dos cativos é longo e natural, sem camadas; os narizes excepcionalmente longos e aquilinos; os lábios bastante indistintos. Em suma, todas as características étnicas da raça na parte de trás são diametralmente opostas às da raça na frente. Nós não podemos superenfatizar o fato de que apenas a raça na parte de trás tem características Semitas.

Após esta segunda vitória, a unificação do Alto e Baixo Egito, provavelmente, foi alcançada. Isto foi simbolizado pela cena no meio do lado reverso: a simetria dos dois felinos com ameaçadoras cabeças leoninas, indicando que eles estariam lutando se estivessem livres. Mas eles estarão, doravante, mantidos em cheque e incapazes de ferir um ao outro, graças às cordas amarradas ao redor de seus pescoços e detidas pelos dois personagens simétricos. Isso simboliza a unificação, em linha com uma representação característica comum a Egípcios e Pretos em geral.

Na cena na parte superior, o rei está vestindo a coroa do Baixo Egito, que mostra que ele acabou de o conquistar.  A segunda fase da conquista do vale do Nilo é assim terminada pelo Faraó. Ele agora detém em ambas as mãos o que pode ser considerado como os atributos do Baixo e Alto Egito. Aqui, mais uma vez, o rei retirou suas sandálias. estas são carregadas por seu servo quem, carregando o mesmo receptáculo, anda atrás dele como na cena do lado da frente. Podemos, portanto, supor que o local é sagrado e que as vítimas foram imoladas ritualmente, não massacradas.

Diante do rei estão cinco pessoas, quatro delas seguram bandeiras que ostentam totens. Os dois primeiros – Falcão e Chacal – são claramente do Alto Egito. O último não representa um animal, mas um objeto não identificado, que pode muito bem ser o emblema do Baixo Egito recém conquistado.

Por todas estas razões, as interpretações de Amélineau parecem inaceitávis. A opinião de que todos os prisioneiros retratados são Asiáticos é, aparentemente, uma generalização que negligencia o detalhe da Paleta. Na mesma medida, a explicação de Amélineau, que considera todos os povos conquistados como Núbios, parece errônea. O fato de que os cativos no anverso são realmente Núbios pode tê-lo levado a perder as diferenças étnicas entre estes e a vítima esmagada pelo touro no reverso. De acordo com a reprodução do próprio Amélineau, este último não usa o cabelo em camadas como fazem os Núbios no outro lado. Além disso, ele não tem as outras características étnicas deles. Somente ao ignorar esses detalhes, de boa fé, ele poderia ter chegado à conclusão de que uma raça branca inculta da África Central, provavelmente, conquistou o vale da população Negra Anu.

Na realidade, mesmo se houve infiltração por Asiáticos ou antigos Europeus durante esse período pré-histórico, os Negros Egípcios nunca perderam o controle da situação. Isto também é indicado pelas numerosas estatuetas Amratianas retratando uma raça conquistada de estrangeiros. Em sua Les Débuts de l’art en Egypte, o Egiptólogo Belga Jean Capart reproduz uma estatueta de um cativo ajoelhado branco, as mãos amarradas atrás das costas, cabelo em uma longa trança pendurada nas costas. *

[* – Jean Capart, Les Débuts de l’art en Egypte, Bruxelas: Ed. Vromant, 1904, fig. 14, p.37.]

A partir do mesmo período proto-cariátides também são encontrados, na forma de pedestais móveis, descrevendo o tipo da raça branca conquistada. *

[* – Cf. Amélineau, Prolégomènes, p. 413.]

Por outro lado, vemos Pretos mostrados como cidadãos passeando livremente em torno de seu próprio país:

Aqui vemos quatro mulheres em saias longas, bastante semelhantes à mulheres Pretas representadas em tumbas da Décima–Oitava Dinastia, incluindo a tumba de Rekhmara * – [* – Vizir dos Faraós Tutmés III e Amenhotep II (cerca de 1471-1448 a.C.)].
Embora indistinto, o objeto que elas parecem estar transportando tem sido assumido como sendo um carro de boi! Eu deveria estar inclinado a vê-lo como a primeira aparição da cruz ansata, um símbolo que logo em seguida entrou na semiologia Egípcia e nunca mais a deixou. Isso indica que mulheres Negras estavam bastante em casa no meio de animais de sua própria terra. A questão surge novamente: Como puderam os Egípcios daquela época conhecer animais da África Central, bem como os habitantes da África Central, se essas pessoas fossem Asiáticos ou Semitas penetrando o Vale do Nilo através do istmo de Suez? Não é a presença registrada dos supracitados animais e Pretos sobre as peças de marfim justamente evidência conclusiva de que os conquistadores do Egito vieram da África Central? (Prolégomènes, pp 425 -. 426.)

Contrário à noções geralmente aceitas, é claro que os mais antigos documentos disponíveis na história do Egito e do mundo retratam Pretos como cidadãos livres, senhores [masters] do país e da natureza. Perto deles, os vários protótipos brancos então conhecidos, o resultado de precoce infiltração Européia ou Asiática, são retratados como cativos, com as mãos amarradas atrás das costas, ou então esmagados pela carga de um pedaço de mobília. (Isto, aliás, poderia ser a origem das cariátides de Erecteion, do quinto século, imitadas pelos Gregos milhares de anos mais tarde.)

Pg. 85

                         CAPÍTULO IV

Pode a Civilização Egípcia Ter
Se Originado no Delta?

Para explicar o assentamento e civilização do Egito, especialistas invocam quatro hipóteses, correspondendo aos quatro pontos cardeais [four points of the compass]. A mais natural de todas – uma origem local – é a mais freqüentemente desafiada. Esta última hipótese, por sua vez, pode ser localizada em dois lugares diferentes: Alto ou Baixo Egito.
No caso do Baixo Egito, seria uma questão do que é agora chamado de a “preponderância do Delta”.
Por que um Egiptólogo, apoiando a teoria da origem local, se esforça tanto para provar a “preponderância do Delta”, apesar da falta de qualquer evidência histórica, se isso não fosse uma forma indireta de estabelecer uma origem Branca, Mediterrânea para a civilização Egípcia ?

Este ponto de vista, que é geralmente o de todos aqueles que colocam a civilização Egípcia fora do Egito – seja na Ásia ou na Europa – é compartilhado por Alexandre Moret, quem, no entanto, favorece aparentemente uma origem local, porém, Branca. Para o último, a idéia parece lógica, em certa medida; em sua ânsia por uma explicação razoável, esta é uma afirmação adicionada a outra igualmente desprovida de fundamento histórico. Na verdade, se os pioneiros da civilização vieram do exterior, e se eles foram obrigados pela geografia a atravessar o Delta, é lógico supor que o Delta foi civilizado antes do Alto Egito, e que a civilização irradiou a partir de lá. Se os apoiadores de uma origem externa tivessem sido capazes de demonstrar a reivindicação prévia do Delta com a ajuda de argumentos válidos, a sua tese teria fornecido uma aparência de veracidade para as noções contraditórias que eles propõem.

Na realidade, é impossível, não só para demonstrar aquela teoria, mas mesmo para encontrar registros históricos válidos para apoiá-la. Nenhum documento sugere aquela prioridade. É no Alto Egito, desde o Paleolítico até o presente, que provas materiais têm sido encontradas para atestar as sucessivas fases da civilização: Tasiana, Badariana (cerca de 7471 a.C.?), Amratiana (cerca de 6500 a.C.?), Protodinástica.

Em contraste com o Alto Egito, nenhum traço de evolução contínua existe no Delta. O centro Merimde *1 desapareceu ao fim do Tasiano; não há nada ao norte de Badari. *2 As duas estatuetas de marfim com cabeças triangulares, encontradas na época chamada de Gerzeana (cerca de 5500 a.C.?) correspondem àquelas encontradas em Creta, no tempo de Menes. *3 Estas estatuetas não podem remontar a antes do que a época de Hierakonpolis, que Capart atribui ao período Amratiano.
Entre S.D. 39 e S.D. 79 [Sequence Date], uma civilização Gerzeana alegadamente existiu no Baixo Egito:

Em qualquer caso, o Baixo Egito eventualmente se tornou o assento de uma elevada civilização com afinidades definitivamente Asiáticas, ao contrário de Africanas, e esta civilização por fim dominou o Alto Egito também. Na verdade, apenas é conhecida diretamente a partir desta última área, embora sua presença no Norte possa ser inferida com confiança. No Alto Egito não há nenhuma ruptura drástica entre a civilização Amratiana e a Gerzeana; A última, gradualmente escorreu, misturando-se com, mas dominando, os elementos mais antigos. Novos tipos de vasos, armas com ornamentos nunca intrometeram em número sempre maior até que eles predominaram ou mesmo derrubaram o velho completamente. . . . *4

[*1 – V. Gordon Childe chama Merinde um exemplo típico de “cultura do Neolítica” e localiza este local a dois quilômetros a oeste do ramo Rosetta do Nilo.]

[*2 – Cf. V. Gordon Childe Cf., New Light on the Most East. (Nova luz sobre o mais antigo Oriente), London: Kegan Paul, Trench, Trubner & Co., Ltd., 1934.]

[ *3 -. Capart, ibid.]

[*4 – Childe, ibid., pp.. 85-86.]

É universalmente aceito que os novos elementos que distinguem a nova cultura do Alto Egito na fase Pré-Dinástica Média são derivados do norte ou nordeste. E é quase certo que os autores dessas inovações tinham vivido em contato com o Alto Nilo por um tempo considerável antes de S.D. 39, desde antes desta data, Vasos Decorados têm ocasionalmente encontrado seu caminho para o Alto Egito. *

[* – Ibid., pp. 100-101. (Nas pp. 12-13 deste volume, Childe Explica “S.D.” como Datas de Sequência (Sequence Dates), uma escala numérica elaborada por Sir Flinders Petrie, indo de 30 até 80. O período entre S.D. 30 e S.D.77 é comumente chamado de Pré-dinastico. S.D. 30 é assumido ser igual a 5000 a.C. – ED.).]

Esta civilização Gerzeana, dita por ser Asiática, é conhecida somente através de vestígios encontrados no Alto Egito. Que paradoxal, enquanto é suposta de ter se originado no Baixo Egito! (Além disso, estes vestígios são idênticos àqueles da civilização Amratiana, evoluídos a partir da Badariana que, por sua vez, resultou da Tasiana.)

Ainda assim, embora nenhum vestígio de civilização Gerzeana tenha sido encontrado e embora seja conhecida  “diretamente” somente por vestígios no Alto Egito, “a sua presença no Norte possa ser inferida com confiança” significando a sua presença no Delta. Em termos mais claros, isto é equivalente a dizer: “Tudo o que eu encontro aqui no Alto Egito vem de onde eu não encontro nada ou quase nada (Baixo Egito). Embora eu não posso provar isso e não tenha nenhuma esperança de vê-lo provado, e embora Eu não encontre nada aqui, Eu julgo que é assim.” Esta não é a maneira de escrever a história.

É alegado que o Delta é uma região úmida e preserva materiais pobremente. Ele não pôde tê-los preservado tão mal a ponto de não ter deixado nenhum sinal deles, nem mesmo as protuberâncias disformes resultantes da decomposição química por meio da umidade. Na realidade, o solo do Baixo Egito tem rendido, de certa forma, tudo o que foi confiado a ele: por exemplo, todas aquelas obras, mesmo em madeira, do Império Antigo [Old Kingdom] após a Terceira Dinastia. Se ele não tem produzido documentos mais antigos, nós devemos assumir mais logicamente que ele nunca conteve quaisquer.

Tivesse o Delta realmente desempenhado o papel que eles tentam com tanto esforço atribuir a ele na história Egípcia, seria possível reconhecer isso de maneiras outras. A história do Alto Egito, considerada independentemente do Delta, iria apresentar lacunas; No entanto, este não é o caso. A história do Alto Egito (ou seja, história Egípcia) não apresenta dificuldades insuperáveis. A explicação histórica não se torna impossível exceto quando alguém contende para, na falta de evidência histórica, atribuir ao Delta um papel que ele nunca desempenhou. Este parece ser o caso com Moret, quando ele escreve:

Nós não sabemos nada sobre a história dos primeiros reinos [early kingdoms]. No entanto, a tradição alega que os reis do Norte tiveram uma preeminência sobre o resto do Egito no início do tempo. Nenhum texto nos permite delimitar sua área de influência, mas a religião dos dias posteriores indica que tal influência foi profunda. Isto é explicado pela fertilidade excepcional do Delta.
Assim como poderia ser feito o ajuste para o cultivo por força de terraplanagem e drenagem e irrigação, este trecho de terra, repetidamente renovado pelo lodo do Nilo, ofereceu uma área mais ampla, um solo mais produtivo, e um habitat mais favorável para o crescimento de uma raça prolífica do que o estreito Vale do Alto Egito. O resultado foi um precoce desenvolvimento intelectual e prosperidade material, atestados pelo fato de que os grandes deuses do Delta depois impuseram autoridade sobre o resto do Egito; o sol, Ra, foi primeiro adorado em Heliópolis; Osíris, Isis e Horus são os deuses de Busiris, Mendes, e Buto. A extensão do culto ao longo de todo o vale em tempos muito antigos indica uma correspondente influência política a partir do Delta.
*

[* – Alexandre Moret & Georges Davy, From Tribe to Empire [De Tribo para Império], New York: Cooper Square Publishers, Inc., 1970, pp. 132-133. Esta é a tradução de V. Gordon Childe de Des clans aux empires. Paris: Ed. La Renaissance du Livre, 1923.]

Até este ponto, Moret tem concordado com Maspero. Ele discorda, no entanto, a propósito da rota seguida pelos Shemsu-Hor, a fim de ser totalmente consistente em defender a primazia do Delta. Em seu livro, Le Nil et la civilisation égyptienne [O Nile e a civilização Egípcia] (p. 118), ao contrário de Maspero, que sugere que os Shemsu-Hor (predecessores de Menes) são “ferreiros Negros” [“Negro blacksmiths”] que conquistaram o vale e construíram forjas, tanto longe quanto o Delta, Moret afirma que os “Shemsu-Hor e seus antepassados … vieram a partir do Delta.”
Ele relata uma grande transformação durante a época precedendo Menes, marcada pelo aparecimento de ouro, cobre e, especialmente, escrita. Como essa transformação é evidente apenas no Egito, Moret coloca a questão: “Por Quem foi o Alto Egito influenciado, se não pelo Baixo Egito . . .?” Ele cita a invenção do calendário como provavelmente ocorrendo na área de Memphis. Em outro ponto Moret havia afirmado que os deuses Egípcios, Osíris, Isis e Horus, eram originalmente do Delta. Então, ele usa esse argumento, que ele supõe por ser correto, para pressionar seu ponto:

Outro fato irá apoiar este argumento. Ao longo da Antiguidade, os dias intercalados eram consagrados aos deuses nascidos nos cinco dias adicionais colocados no início do ano (cf. Plutarco). Textos Egípcios e Gregos concordam em chamar estes deuses Osiris e Isis, Set, Nephthys, e Horus. No início do ano, abrindo com o simultâneo nascimento de Sothis, Ra, e o Nilo, Osíris, deus do Nilo e da vegetação, é escolhido como patrono. Ele é considerado por ter nascido no primeiro dos cinco dias suplementares. Nós podemos concluir que os adoradores de Osíris eram poderosos em Heliópolis mesmo ao tempo em que seus astrônomos estabeleceram o calendário. *

[* – Em “Isis and Osiris” [“Isis e Osiris“], Plutarco relatou que Osiris nasceu no primeiro dos dias intercalados, como escreve Moret. Ou seja, no 361º dia do ano, que corresponde à 26 de dezembro, quando nós levamos em conta a reforma do calendário. O Papa Júlio I (século IV), fixou 25 de dezembro como o aniversário de Cristo, mas nós sabemos que Cristo não tinha estatísticas vitais; ninguém sabe a data de seu nascimento. O que poderia ter inpiredo o Papa Júlio I a escolher esta data – apenas um dia removido do aniversário de Osíris – a menos que seja a tradição Egípcia perpetuada pelo calendário Romano? Isto torna-se evidente quando a idéia de uma árvore é associada com o nascimento de Cristo. Isto pareceria arbitrário se nós não soubéssemos que Osíris era também o deus da vegetação. Às vezes, ele era mesmo pintado de verde na imagem daquela vegetação, cujo renascimento ele simbolizava. Seu símbolo era uma árvore com galhos cortados criados para anunciar a ressurreição da vida vegetal. Este era um impressionante rito agrário caracterizando uma sociedade sedentária.
A planta símbolo de Osíris era chamada Djed em Egípcio.
Em Wolof, nós temos: Djed: em pé, ereto, plantado em pé; Djan: vertical; Djed-Djed-âral: muito ereto (intensificação de Djed); Djen: um poste.
Tal, então, poderia ser a origem remota da árvore de Natal. Mais uma vez nós vemos, ao retraçar o curso do tempo, que mais de uma característica da civilização Ocidental, cuja origem tem-se esquecido, perde sua característica enigmática quando ligada com sua fonte Negro-Africana.
Tomando nossa inspiração de Plutarco, poderíamos também estabelecer uma relação entre o nascimento de Nephthys (irmã de Ísis e Osíris) quem entra no mundo através das costelas de sua mãe, e aquele de Eva, criada a partir da costela de Adão.]


Assim, com o calendário, o Baixo Egito Impôs a autoridade de Osíris e Ra, a supremacia do Nilo e do sol, sobre o Alto Egito. Os “civilizados do Delta” tinham conquistado o Alto Egito.
*

[* – Alexandre Moret, Le Nil et la civilisation Égyptienne (O Nilo e Civilização Egípcia), p. 122.]

Quando alguém encontra tais idéias importantes expressas por uma tal autoridade, alguém tende a acreditar que elas são comprovadas por documentos conclusivos. Isso, no entanto, não é verdade quando nós absolutamente examinamos estas declarações. O autor coloca a origem Nórdica de deuses Egípcios como consistente com a tradição Egípcia. Em outras palavras, Osíris, Isis e Hórus eram, todos, deuses do Delta.
A partir disto, ele traça as importantes conseqüências referidas acima, relativas à invenção do calendário e a origem da civilização Egípcia em geral.

O Que, precisamente, somos nós ensinados pela tradição Egípcia, se nós a considerarmos a partir da época mais antiga sobre a qual se pode referir? Essa tradição, expressa no Livro dos Mortos [The Book of the Dead], cuja doutrina é anterior a qualquer história escrita do Egito, ensina-nos que Ísis é uma mulher Negra; Osiris, um homem Negro, um Anu. Assim, nos mais antigos textos Egípcios o seu nome é accompanhado por uma designação étnica para indicar a sua origem Núbia. Isto nós temos conhecido desde Amélineau.

Amélineau nos informa, ainda, que nenhum texto Egípcio lista Osíris e Ísis como tendo nascido no Delta. Consequentemente, quando Moret afirma isto, ele não o faz a partir de qualquer documento. Nós podemos ainda adicionar que a lenda aponta o nascimento de Osíris e Ísis, no Alto Egito: Osíris nasceu em Tebas e Isis em Dendera. A lenda também coloca na Núbia o primeiro local da luta entre Set e Horus. *

[* – Na lenda, Set assassinou seu irmão Osíris. Quando Horus, filho de Ísis e Osíris, cresceu, o fantasma de seu pai apareceu para exigir vingança. Então Hórus e Set lutaram por muitos dias; Ambos ficaram gravemente feridos. Mais tarde, Set atacou Horus nos tribunais como um filho bastardo de Osíris. Thot decidiu o caso em favor de Horus.]

Na Opinião de Amélineau:

As partes da lenda que se relacionam com o Delta foram obviamente adicionadas à versão original, exceto para a permanência de Isis em Buto. De fato, o episódio de Isis em Byblos dificilmente se encaixa com a estadia desta deusa em Buto. Em minha opinião, isto é meramente uma interpretação de origem Grega ou quasi-Grega para explicar a adoção do culto de Osiris em Byblos, ou preferencialmente assemelhando alguma divindade local. Este, aliás, é um dos pontos para os quais os documentos Egípcios nunca referem. Da mesma forma, o caixão de Osíris, trazido pelo Nilo para o mar, e desde o mar até Byblos, parece-me ser uma daquelas impossibilidades óbvias. Eu duvido seriamente que os Egípcios aceitaram isto . . . Porque documentos Egípcios nunca o mencionaram . Nós não devemos esquecer que, com exceção das porções concernindo o Delta e a Ásia Menor, a lenda Osiris foi firmemente estabelecida no Egito antes do tempo de Menes. Por isso, é realmente difícil ver como uma lenda nascida no Delta era quase localizada no Alto Egito e não fez nenhuma referência aparente ao Delta, exceto em algumas passagens que são, claramente, acréscimos posteriores. *

[* – Amélineau, Prolegômenos, p. 203.]

Da mesma forma, se Osíris e Ísis eram nascidos no Baixo Egito, seria difícil de entender como as suas relíquias foram apropriadas por todo o Alto Egito. Todo o esqueleto de Osíris foi tomado por cidades no Alto Egito, tão completamente que nada foi deixado para as cidades do Baixo Egito. Sobre este ponto, Amélineau refere-se ao Dicionário Geográfico de Brugsch [Brugsch’s Geographical Dictionary]. A Rivalidade entre as cidades sobre a atribuição das relíquias causou tanta confusão que à princípio foi difícil determinar qual cidade possuía tal e tal relíquia agora clamada por várias outras cidades. Amélineau sugere ser decidido geralmente em favor do Alto Egito sempre que essa rivalidade oponha cidades do Baixo e Alto Egito: “Eu acredito que um fato inclina a balança a favor do Alto Egito: a atribuição da cabeça de Osíris para o Alto Egito, para a cidade de Abydos. ” *

[* – Ibid., P. 104.]

Esse fato não seria significativo se Amélineau não tivesse descoberto o túmulo de Osíris e a cabeça do ancestral divino em uma jarra. Nós podemos duvidar da autenticidade daquela descoberta; no entanto, Amélineau escreve: “Eu próprio tenho encontrado outros santuários durante as escavações preliminares que culminaram na necrópole real, desenterrando o santuário onde o crânio do deus que eu acreditava ter encontrado estava preservado.” *

[* – Ibid.]

Em seguida, Ele se refere ao papiro no Museu de Leiden, Citado por Brugsch. Este afirma expressamente que a cabeça do deus foi preservada em Abydos, em um local designado no papiro por um nome significando “a necrópolis de Abydos.” Amélineau procurou confirmação de Eugène Revillout sobre a validade deste documento escrito em demótico. Ele recebeu a confirmação de que a cabeça de Osiris era de fato mencionada como estando localizada em Abydos. Garantia adicional veio em 1898, no texto geográfico sobre Edfu no Dicionário de Brugsch: “Lá é afirmado que a cabeça do deus estava no relicário de Abydos.” *

[* – Ibid., P. 105.]

Mas Amélineau observou: “Desde que Brugsch o copiou, o texto desapareceu, se se pode acreditar que a publicação no Templo de Edfu inicia nas Memoirs [Memórias] da Missão Cairo . . . Seria interessante verificar que a inscrição desapareceu completamente. “*

[* – Ibid., P. 106.]

Finalmente, Amélineau registra outro fato significativo: nos Textos das Pirâmides [Texts of The Pyramids], o trono de Osíris é descrito justamente como Amélineau o “encontrou na cama funeral situada na tumba em Abydos.” *

[* – Ibid., P. 102.]

Muito justificadamente, Amélineau pergunta: “Por que tem as cidades do Alto Egito reivindicado a parcela mais significativa do corpo de Osíris, se ele nasceu no Delta, reinou no Delta, morreu no Delta, tem sido o deus local de um minúsculo distrito no Delta? Eu não vejo nenhuma razão para isso. ” *

[* – Ibid.]

Tenha ou não Amélineau realmente descoberto a tumba e cabeça de Osíris não é importante. O fato essencial é que os textos afirmam que aqueles se encontram em Abydos.

Assim, ao contrário da afirmação de Moret, a tradição Egípcia autêntica, tão velha quanto o tempo registrado e escrita nos Textos das Pirâmides e O Livro dos Mortos, ensina-nos em termos inequívocos que as divindades Egípcias pertenciam à raça Preta e nasceram no sul. Além disso, o mito de Osíris e Ísis aponta um traço cultural característico da África Preta: o culto dos ancestrais, a fundação da vida religiosa Negra e da vida religiosa Egípcia, assim como relata Amélineau.

Cada ancestral morto se torna objeto de um culto. Os antepassados mais remotos, cujos ensinamentos na esfera da vida social, isto é, no reino da civilização, têm-se revelado efetivos, gradualmente tornam-se verdadeiros deuses (os ancestrais míticos referido por Lévy-Bruhl). Eles estão totalmente destacados do nível humano, o que não significa que eles nunca existiram. Transformados em deuses, eles são colocados em um plano diferente daquele do herói Grego; isto é o que fez Heródoto pensar que os Egípcios não tinham heróis.*

[* – Mam y alla: Deus Ancestral, em wolof. Embora a palavra árabe alla tenha substituido o termo Africano primitivo, esta frase ainda revela o conceito de um deus ancestral.]

É evidente que o argumento de Moret concernante à invenção do calendário em Memphis é abalado seriamente errado sobre um exame atento. O autor especifica que apenas em Memphis podia-se observar o nascimento helíaco de Sothis. Ele concluiu que o calendário Egípcio, baseado no ciclo daquela estrela (Sirius), cuja ascensão coincidia com a do sol a cada 1.461 anos, foi inventado em Memphis.

[* – Moret gostaria de provar que o calendário Egípcio foi inventado em Heliópolis. Registros existentes demonstram o contrário. “Os sacerdotes de Tebas têm a reputação de serem os mais eruditos em astronomia e filosofia. Eles começaram o costume de dizer o tempo [telling time], não segundo a revolução da lua, mas por aquela do sol. Para doze meses de trinta dias cada, eles acrescentam cinco dias por ano. Uma certa fração de um dia ainda é deixada, de modo a completar a duração do ano, eles formam um período compreendendo um número par de dias . . . : quando as frações extras são adicionadas, elas formam um dia completo.”
(Estrabão, Bk. XVII, Cap. 1, n. 22, 816.)
Esta fração (um quarto de um dia) quando adicionada, equivale a um dia, ao final do qual o ano ordinário começa novamente com o ano solar (ciclo Sótico).]

Mas o calendário estava em uso em 4236, a mais antiga data conhecida com certeza na história do homem. Heródoto nos informa, ainda, que “Memphis foi criada por Menes, após este ter virado o curso do rio e tornado a área enlameada do Baixo Egito mais habitável: Menes, “o primeiro rei, tendo assim, por virando o rio, feito o trato onde ele costumava correr a terra seca, procedeu em primeiro lugar a construir a cidade agora chamada Memphis.” (Op. Cit., p. 113.) Por conseguinte, o local de Memphis estava sob a água antes do advento de Menes. Se aceitarmos o ano de 3200 como o ano do advento, aquela cidade nem mesmo existia quando o calendário foi inventado.

Além disso, ele iria ajudar os defensores da prioridade do Delta se o nascimento helíaco de Sótis pudesse ser observado, não a partir da área de Memphis, mas daquela de Heliopolis, a cidade de Ra, onde por estes mesmos teorizadores toda a astronomia e astrologia Egípcias foram alegadamente nascidas. Mesmo assim, parece que Heliopolis, ou On do Norte [Northern On], foi fundada pelo Anu, cujo nome ela carrega.

Comentários semelhantes poderiam ser feitos sobre o argumento de que o Egito foi civilizado por invasores do norte.
Em Egípcio, o oeste foi designado pela direita, o leste pela esquerda; A partir deste fato, alguém poderia deduzir prova de uma marcha em direção ao sul.
Primeiro de tudo, existem várias maneiras de designar o leste e oeste em Egípcio. . . . Além disso, a arte da divinação levou a uma divisão dos céus em regiões, para fins de observação. Como resultado, uma orientação especial fazia dado ponto cardeal coincidir com a direita ou esquerda. Isto foi praticado no Egito e ao longo do  Mediterâneo Egeu que veio sob a influência Egípcia, especialmente na Etrúria.

A explicação de Edouard Naville é ainda mais edificante:

De que país vieram os conquistadores? Parece-me que, sem dúvida, eles vieram a partir do sul. Se consultarmos a lenda como ela é preservada em uma ampla série de pinturas que adornam um dos corredores do templo de Edfu, e que datam da época Ptolomaica, nós podemos ver que o deus Harmachis reinou na Núbia, rio acima do Egito. Ele partiu de lá com Seu Filho Horus, um deus guerreiro, que conquistou todo o país para ele, tão longe quanto a cidade de Zar, agora Kantarah, uma fortaleza construída sobre o ramo oriental do Nilo. Este foi o ramo Pelusiaco, que bloqueava qualquer chegada da direção da península do Sinai e Palestina. Nas principais cidades Egípcias, os conquistadores governavam o que quer que tivesse a ver com religião. Em várias localidades, Horus estabeleceu seus companheiros, que foram chamados de ferreiros [blacksmiths]. Assim, a introdução do trabalho do metal [metal work] está ligada com a conquista na lenda. . . .
Esta lenda, que deve pertencer a uma tradição antiga, parece-me merecer atenção. Ela concorda completamente com o que os historiadores Gregos disseram-nos, a saber,  que “o Egito era uma colônia da Etiópia. Assim, os Egípcios, ao menos aqueles que se tornaram os Egípcios Faraônicos, provavelmente seguiram o curso do grande rio. Isto é confirmado por algumas características de sua religião ou costumes. O Egípcio têm a sua postura por olhar na direção do sul; o oeste está à direita, o leste do lado esquerdo.
[The Egyptian gets his bearings by looking toward the south; the west is on the right, the east on the left.] Eu não posso acreditar que isso signifique que ele está indo em direção ao sul. Pelo contrário, ele se volta para seu país de origem; ele olha na direção a partir da qual ele pode esperar ajuda. A partir de lá surgiram as forças conquistadoras; de lá também as águas benéficas do Nilo traziam fertilidade e riquezas. Além disso, o sul tem sempre tido precedência sobre o norte. A palavra rei primeiramente significava rei do Alto Egito. O deus deles nos mostra o caminho eles seguiram. A divindade que anda adiante deles tem a forma de um chacal ou um cão: este é o deus Oupouatou, aquele que ele mostra o caminho. *

[* – Edouard Naville, “L’Origine africaine de la civilisation égyptienne” [“A Origem Africana da civilização Egípcia”], Revue archéologiqeu, Paris, 1913.]

Em última análise, para combater as tentativas de apresentar o Delta como uma região mais favorável que o Alto Egito para o florescimento de uma civilização, é importante responder com o que é realmente conhecido sobre o Delta.
O Delta é universalmente reconhecido como o lar permanente da praga no Oriente Próximo [Near East]. Ele tem sido o ponto de partida para todas as epidemias de peste que assolaram naquela região durante todo o curso da história. Sem exagerar, podemos ir mais longe e afirmar que o Delta, como tal, não existia, mesmo na época de Menes, uma vez que Memphis estava na borda do mar. A região do Baixo Egito era naquele tempo completamente insalubre e quase inabitável. Alguém ficaria atolado na lama. Após as obras públicas iniciadas por Menes, ele tornou-se menos insalubre.

Quanto ao Delta ocidental, pode-se perguntar como ele era antes de Menes, pois sabemos que o curso do rio não era o mesmo como é hoje e que o primeiro Faraó lhe deu a presente direção por ter barragens construídas e a terra preenchida. Anteriormente o rio fluia para o oeste:
. . . o rio corria inteiramente ao longo do cume de areia dos montes que contornam o Egito no lado da Líbia. Menes, no entanto, aterrando o rio na curva que ele faz a cerca de cem estádios ao sul de Memphis, deixou o antigo canal seco, enquanto ele cavou um novo curso para o fluxo a meio caminho entre as duas linhas de morros.
Até hoje, a esquina que o Nilo forma no ponto onde ele é forçado de lado para o novo canal é guardada com o maior cuidado pelos Persas, e reforçada a cada ano; pois se o rio irrompesse neste lugar, e despejar sobre o monte, haveria perigo de Memphis ser completamente submergida pela enchente.
*

[ * – História de Heródoto, p. 113.]

Se as barragens quebrassem, Memphis seria submersa pelas águas do Nilo. Isso prova que o local da cidade foi realmente ganho a partir das águas, algo como diques [polders]. A capital do primeiro rei Egípcio foi no sul, em Tebas, e Memphis foi fundada, acima de tudo, para fins militares. era um lugar fortificado na junção das rotas de infiltração para pastores Asiáticos do leste e nômades do oeste, aos quais os Egípcios chamaram de Rebou ou Lebou, daí o nome Líbios (Décima-Oitava Dinastia).

Mais de uma vez esses bárbaros tentaram penetrar o Egito pela força, atraídos por sua riqueza, mas quase todas as vezes eles foram derrotados e empurrados de volta através da fronteira após intensos combates. A natureza dessas coalizões entre povos do norte e do leste na área do Delta, as ferozes batalhas travadas lá, justificam a foudação de Memphis como uma fortaleza avançada. no entanto, não devemos confundir as raças que se enfrentaram uma à outra lá. Como esta passagem de Moret indica, era uma verdadeira confederação de Brancos contra a raça Negra do Egito:
Sobre o mês de abril de 1229 A.C., Merneptah em Memphis soube que o Rei dos Líbios, Merirey, estava vindo da terra de Tehenu com seus arqueiros e uma coalizão de “Povos do Norte”, composta por Shirdanas, Siculanos, Aqueus, Lícios e Etruscos, a elite guerreira de cada país. Seu objetivo era atacar a fronteira ocidental do Egito, nas planícies de Perir. O perigo era todo o mais grave uma vez que a província da própria Palestina foi afetada pela perturbação. Na verdade, parece que os Hititas tinham sido também envolvidos no tumulto, embora Merneptah tenha continuado seus bons ofícios em seu nome, enviando-os trigo através de seus navios na época da seca, para ajudar a terra de Khatti a sobreviver.*

[ * – Moret & Davy, ibid., pp. 338-339.]

Depois de uma batalha furiosa com duração de seis horas, os Egípcios derrotaram completamente aquela coalizão de hordas bárbaras. Sobreviventes lembraram por muito tempo deseu pânico e passaram a memória por gerações.
Merirey fugiu em alta velocidade, abandonando suas armas, seus tesouros, e seu harém. O artista relatou entre os mortos 6.359 Líbios, 222 Siculanos, 742 Etruscos, e Shirdanas e Aqueus por milhares. Mais de 9.000 espadas e pedaços de armadura, e um grande saque foram capturados no campo de batalha. Merneptah gravou um hino de vitória nas paredes de seu templo mortuário em Tebas, no qual ele descreveu o pânico entre os seus inimigos. Os jovens homens Líbios disseram das vitórias: “Nós não tivemos nenhuma desde os dias de Ra”, e o homem velho disse a seu filho: “Ai de mim! pobre Líbia” Os Tehenu foram consumidos em um único ano. E as outras províncias fora do Egito também foram reduzidas à obediência. Tehenu está assolado, Khatti está pacificada, Canaã está pilhada, Ascalon está despojada, Gezer está capturada, Yenoam está aniquilada, Israel está assolada e já não tem quaisquer culturas, Kharu tornou-se como uma viúva (sem suporte) contra o Egito. Todos os países estão unidos e pacificados. *

[ * – Ibid.]

Significativamente, nesta citação, a vitória, embora ganha em Memphis, foi comemorada em Tebas no templo mortuário de Merneptah. isto confirma o que foi dito anteriormente: O Faraó Meneptah residia em Memphis por necessidade militar, mas, como quase todos os Faraós Egípcios, ele iria ser enterrado em Tebas. Mesmo quando um Faraó morria em Memphis, no Baixo Egito, eles tomavam o trabalho de transportar o cadáver para o Alto Egito e enterrá-lo nas cidades sagradas de Tebas: Abydos, Tebas, Karnak. Nestas cidades do Alto Egito, os Faraós tinham suas tumbas ao lado daquelas dos ancestrais; para lá eles sempre enviavam ofertas, mesmo se eles residissem em Memphis.

Após a revolução que terminou o Império Antigo [Old Kingdom], quando as pessoas passaram a ter acesso ao privilégio da morte Osiriana – em outras palavras, a possibilidade de desfrutar da vida eterna no céu (após o julgamento no tribunal de Osíris) – todas as classes sociais foram simbolicamente enterradas na Tebaída, pela construção de um obelisco, em nome do falecido. Assim, para todos os Egípcios, sem exceção, a região sagrada por excelência era a Tebaída, no Alto Egito. Isso teria sido sacrilégio por parte dos Egípcios, se a sua civilização e tradição religiosa tivessem nascido no Delta. Neste caso, as sagradas cidades, túmulos ancestrais e principais locais de adoração e romarias teriam sido localizadas no Delta. estes exemplos devem ser suficientes para desencorajar o apoio de qualquer forma para a primazia da suposta civilização no Delta.

A coligação de povos do Norte e do Leste, ao tempo de Merneptah foi apenas um episódio na história Egípcia. Durante toda essa história, houve guerras semelhantes, mais ou menos importantes, naquela região. Mas, exceto durante o período de baixa, os Negros do Vale do Nilo sempre tiveram a vantagem sobre os bárbaros. Como prova disso, pode-se citar os numerosos baixo-relevos representando prisioneiros, desde os penhascos do Sinai, até tão longe quanto o templo de Medinet-Habu e Tebas (cf. Paleta de Narmer). Em outras palavras, desde o período PréDinástico até a Décima-Nona Dinastia. Pela confissão dos próprios Líbios, se quisermos acreditar nos textos Egípcios, eles nunca obtiveram uma vitória desde o início dos tempos, desde os dias do deus Rá. Nenhum fato, nenhuma evidência, nenhum texto veio à luz para refutar essa afirmação.

figura 32 rainha negra do sudão 32

O próprio Moret escreve:

Contrário ao pano de fundo dos dos férteis barros do vale, estes Líbios e Trogloditas assumem o semblante de famintos saqueadores, sempre à procura de uma oportunidade para atacar o fellah Egípcio, pacífico e absorvido nas tarefas de agricultura. Eles nunca foram uma fonte de perigo real para os Egípcios, pois não tinham ainda nenhuma montaria rápida capaz de suportar cargas; o burro, seu único animal de tração, não pode viajar muito rápido, nem transportar cargas pesadas; o camelo, que dará mobilidade e poder para as tribos do deserto nos dias do Islã, embora não desconhecido, era pouco utilizado. Confrontado com estes nômades, o Egito estava  sempre alerta e em guarda e mantinha operações policiais, nas quais ele empregou próprios Líbios. Várias tribos, como aquela dos Mashauasha, entraram em seu serviço como mercenários. Da mesma forma que ele recrutou excelentes tropas entre os Mazoi. O Faraó achou oportuno, assim, garantir-se contra roubo mediante o pagamento de um prêmio para estes filibusteiros incorrigíveis, sob a forma de salários. Foi apenas nos últimos dias do Império de Tebas que os Líbios, agrupados numa espécie de federação e postos em movimento por uma migração de povos, se tornaram uma ameaça séria para o Egito, que não estaria para ser esconjurada por expedientes improvisados. *

[ * – Ibid., p. 170.]

Esta afirmação resume todo o concreto e tangível conhecido sobre os Líbios. A história ensina que eles eram gaturnos meio-famintos, vivendo na periferia do Egito, na parte ocidental do Delta; que eles serviram como mercenários; que se fixaram no Delta durante o período baixo; que eles eram Brancos, com a excepção do Tehenu *, e, basicamente, refratários à civilização em um tempo em que o mundo Preto já era civilizado. Isso é o que documentos históricos nos ensinamsobre os Líbios, juntamente com a sua distribuição geográfica na costa do norte de África, como relatado por Heródoto.
[ * – O Tehenu ou preto Lebou foi provavelmente o antepassado do moderno Lebou da Península de Cabo-Verde. Os Pretos precederam o Temehou ou Líbios brancos (povo do mar) naquela região do Delta ocidental. A existência desse primeiro habitante preto, o Tehenu, tornou possível para criar confusão com o termo “Líbio marrom” [“brown-Libyan”]. Embora realmente designando o Negro indistinguível, exceto em civilização, de outros Egípcios, ele foi servir em livros didáticos oficiais como um ancestral hipotético do Berbere. . .]

Nós podemos muito bem perguntar que tipo de fabricação levou a atribuir a esses povos, diferentes em todos os aspectos dos Egípcios, a origem da civilização Egípcia. Como uma contradição suprema, eles ainda têm sido apresentados como os chamados primos selvagens ou menos cultos do Egípcios. Estes Líbios estavam para vir para o Delta como Mercenários durante o período baixo [low period] e receber lotes de terra do Faraó. O Egito seria então saturado com estrangeiros. A partir deste entrelaçamento vem a compleição relativamente mais clara dos Coptas.

Assim, o Delta nunca realmente importou na história do Egito até o período baixo [low period]. Se o Egito nunca foi uma potência marítima, isto pode, talvez, ser explicado pelo fato de que sua civilização nasceu no interior do continente, ao contrário daquela de outros povos da periferia do Mediterrâneo. De acordo com Plutarco, em “Isis e Osiris”, os Egípcios consideravam o mar “uma secreção contaminada”. Esta concepção é incompatível com a noção de uma origem ribeirinha [riparian origin].

Figura 33
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Pg. 100 –

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   CAPÍTULO V

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Pode a Civilização Egípcia Ser
de Origem Asiática?

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Aqui, como em tudo o que o precedeu, é importante fazer a distinção entre o que pode ser deduzido a partir de um exame rigoroso dos documentos históricos e o que é reivindicado por e para além desses documentos – contrário ao seu testemunho. Para atribuir a civilização Egípcia uma origem Asiática ou qualquer outra estrangeira que seja, devemos ser capazes de demonstrar a existência prévia de um berço da civilização fora do Egito. No entanto, nós não podemos subestimar o fato de que esta condição básica e indispensável nunca foi cumprida.

Em nenhum outro lugar as condições naturais favoreceram o desenvolvimento de uma sociedade humana para a mesma extensão como no Egito. Em nenhum outro lugar nós encontramos uma indústria Calcolítica comparável em sua perfeição técnica. Além disso, para além de algumas estações de idade incerta na Palestina, nenhum vestígio do homem mais antigo do que 4000 a.C. existe na Síria ou Mesopotâmia.
Por essa data, os Egípcios tinham os pés no limiar de sua própria história. É, então, razoável atribuir esta evolução precoce dos primeiros habitantes do Egito para seu próprio gênio e às condições excepcionais do Vale do Nilo. Nada prova que foi devido à incursão de estranhos mais civilizados. A própria existência de tais, ou pelo menos de sua civilização, continua para ser provada.
*

[* – Moret & Davy, op. cit., p. 122.]

De um modo geral, estas observações por Moret ainda são irrefutáveis hoje. O autor faz alusão à data 4241 A.C.
[4236 depois de uma ligeira correção dos primeiros cálculos], quando o calendário estava definitivamente em uso no Egito. . . . Assim, é no Egito que encontramos, com certeza matemática, a mais antiga data histórica da humanidade. O que encontramos na Mesopotâmia? Nada suscetível de ser datada com certeza. A Mesopotâmia ainda estava construindo com tijolos secados ao sol feitos de barro que a chuva transformava em uma massa de lama.

As pirâmides, templos e obeliscos do Egito, sua abundância de colunas em Luxor e Karnak, suas avenidas de Esfinges, os colossos de Memnon, suas esculturas em rocha, seus templos subterrâneos com colunas proto-Dóricas (Deir-el-Bahari) em Tebas, são uma realidade arquitetural palpável ainda hoje, evidência histórica que nenhum dogma pode explodir no ar.

Em contraste, o que o Irã (Elam) e a Mesopotâmia produziram antes do oitavo século (época dos Assírios)? Somente montes de barro disformes.

Esses montes têm sido proclamados como ruínas de templos e torres em ruínas que se espera restaurar. Assim, um arqueólogo Britânico, Seton Lloyd, está restaurando o interior de um hipotético templo Babilônio do segundo ou terceiro milênio, reproduzido por Breasted. *

[* – James H. Breasted, The Conquest of Civilization (A Conquista da Civilização). New York: Harper & Brothers, 1926, fig. 57.]

Esta restauração está para ser levada a cabo com escavações executadas pelo Instituto Oriental da Universidade de Chicago. Essas restaurações, incluindo a da Torre de Babel, são extremamente graves para a história da humanidade por causa da ilusão que elas podem criar.

“Os restos desses edifícios torre Babilônios são muito escassos, e tem havido muita diferença de opinião quanto à forma adequada de restauração. *

[* – Ibid., p. 128, nota 1.]

No Egito, o estudo da história repousa em grande parte em tais documentos escritos como a Pedra de Palermo, as Tábuas Reais de Abydos [Royal Tablets of Abydos], o Papiro Real de Turin [Royal Payrus of Turim], e a Crônica de Manetho. A estes documentos autênticos, temos de acrescentar todo o corpo de evidências relatadas pelos escritores antigos, de Heródoto a Diodoro, para não mencionar os Textos das Pirâmides, O Livro dos Mortos, e milhares de inscrições nos monumentos.

Na Mesopotâmia, era inútil procurar qualquer coisa similar. As tabuletas cuneiformes em geral carregam nada mais que contas de comerciantes, recibos e contas laconicamente escritos. Os antigos permaneceram em silêncio sobre a suposta cultura Mesopotâmica anterior aos Caldeus. Eles consideraram esta última uma casta de sacerdotes-astrônomos Egípcios, isto é, Negros. *

[* – Cf. Diodoro, Histoire Universelle, Bk. 1, Sec. 1, 56-57.]

De acordo com os Egípcios, relata Diodoro, os Caldeus eram “uma colônia de seus sacerdotes que Belus tinha transportado sobre o Eufrates e organizado no modelo da casta-mãe [mother-caste], e esta colônia continuou a cultivar o conhecimento das estrelas, conhecimento que ela trouxe da pátria.” *

[Ferdinand Hoefer, Chaldée, Assyrie, Medie, Babylonie, Mésopotamie, Phénicie. Paris: Ed. Didot frères, 1852, p. 390.]

Por isso é que “Caldeu” [“Chaldean”] formou a raiz da palavra Grega para astrólogo. A Torre de Babel, uma pirâmide de degraus semelhante à torre de Saqqara, também conhecida como “Birs-Nimroud” e “Templo de Baal”, foi provavelmente o observatório astronômico dos Caldeus.

Isso se encaixa, pois Nimrod (Nemrod), filho de Kush, neto de Ham [Cam], o ancestral Bíblico dos Pretos, é o símbolo do poder mundano: “Ele era um poderoso caçador diante do Senhor, Daí o ditado, ‘Como Nimrod, um poderoso caçador diante do Senhor. O início de seu reino foi Babilônia, Ereque [Arach] e Acádia [Akkad], todos eles na terra de Sennar. Daquela região saiu ele para Assur.” *

[* – Genesis, X, 9-11.]

O que, então, seria mais normal do que a existência de pirâmides de degraus em Saqqara, na Babilônia (cidade Kushita de Bel), na Costa do Marfim (na forma de pesos de bronze), e no México, onde a emigração Negra através do Atlântico é atestada por autores Mexicanos e os próprios arqueólogos?

Uma vez que a Ásia Ocidental foi o berço dos Indo-Europeus, se uma civilização comparável à do Egito houvesse florescido lá, antes do período de Caldeu, a sua memória, não importa o quão vaga, teria sido transmitida a nós pelos Antigos, que formam um ramo dos Indo-Europeus, os mesmos que forneceram tantos depoimentos comprobatórios sobre a cultura Negro-Egípcia.

De acordo com a curta cronologia, a 3200 anos antes de Cristo o Egito foi unificado em um reino sob Menes. Na Ásia Ocidental, nada semelhante ocorreu. Em vez de um poderoso, reino unificado, nós encontramos apenas cidades: Susa, Ur, Lagash, Mari, Suméria, atestadas por vezes por anônimos túmulos que são apelidados de “túmulos reais” sem qualquer prova. Assim são elevadas ao grau de reis pessoas que não eram nem ficticiamente nem meramente patriarcas da cidade ou vila. Hoje, em cada aldeia do Senegal, é possível encontrar uma família que afirma ser sua fundadora. O membro mais velho de uma família muitas vezes é o patriarca da aldeia em questão e o objeto de certa deferência por parte de seus habitantes. No entanto, dois mil anos, portanto, seria absurdo dar-lhe o título de rei e falar do rei de Koki Jad, Koki Guy, Koki Dahar, e assim por diante.

Sobre a importância das então-chamadas tumbas reais de Ur, o Dr. Georges Contenau escreve:

Na presença dos sepulcros reais, podemos perguntar-nos se reis foram realmente envolvidos e se não deveríamos ligar estes túmulos com o culto da fertilidade. Na realidade, o que nos parece é que os ocupantes desses túmulos são, por assim dizer, anônimos. . . .
M. S. Smith acredita que esses túmulos podem conter não verdadeiros reis, mas atores do drama sagrado apresentado em festivais onde o protagonista principal era sacrificado. . . .
O inventor (das tumbas), Sir Leonard Woolley, nega categoricamente. . . .
Descrevendo esta descoberta sensacional dos túmulos reais, salientei, muito naturalmente, que os Citas [Scythians] muito mais tarde praticaram ritos semelhantes. . . .
Embora nós nunca tenhamos tido a sorte de encontrar uma tumba Mesopotâmica intacta, além das tumbas reais de Ur, e, embora nós nunca tenhamos encontrado documentos explícitos sobre a continuidade do ritual fúnebre revelado pelas escavações em Ur, uns poucos tabletes, no entanto, jogam um pouco de luz sobre a persistência algo enfraquecida daquela prática.
Uma carta que data da época Assíria dos Sargonitas [Sargonites] informa-nos que o filho do Governante de Acádia e outros lugares “foi para seu destino”, assim como a senhora do palácio [lady of the palace], e que ambos tinham sido enterrados. *

[Georges Contenau, Manual d’archéologie orientale. Paris: J. Picard, 1947, IV, 1850-1858.]

É lamentável que os vagos documentos disponíveis datem  de um período tão recente (século VIII A.C). Não é menos lamentável que a comparação que vem “bastante naturalmente” à mente é com os costumes Citas [Scythians] como descritos por Heródoto no quinto século. De fato, ao referir às mesmas descrições citadas pelo Dr. Contenau (III, 1556), nós percebemos que é impossível ser mais selvagem e bárbaro do que os Citas. Conseqüentemente, nós estamos longe dos vestígios de uma civilização que poderia ser reivindicada como a mãe da civilização Egípcia.

O termo “inventor”, aplicado à Sir Leonard Woolley quem descobriu estes túmulos, prova que a palavra “real” [“royal”] não podia ser justificada, exceto como uma hipótese de trabalho. Pelo contrário, os mais antigos reis de Elam eram Pretos, sem a menor dúvida, como atestado por monumentos exumados por Dieulafoy:

Muitas outras maravilhas estavam prestes a ser reveladas e nós fomos de uma surpresa a outra. Na demolição de uma parede Sassânida feita dos mais antigos materiais disponíveis localmente, monumentos foram encontrados datando do período Elamita da história de Susa, em outras palavras, mais cedo do que a captura desta fortaleza por Assurbanípal. Mas aqui temos de dar a palavra a Dieulafoy:

“Ao remover uma tumba colocada através de uma parede de tijolos-crus que era parte das fortificações do portão Elamita, os trabalhadores descobriram uma urna funerária. A urna foi envolta em uma cobertura de alvenaria composta de tijolos esmaltados. Estes vieram de um painel representando um personagem soberbamente vestido com uma túnica verde com bordado amarelo, azul, e branco. Ele usava uma pele de tigre e carregava um bordão ou uma lança de ouro. O mais surpreendente de tudo, os personagens cujos maxilares inferiores, barba, pescoço e mãos eu achei eram pretos. Seus lábios eram finos, sua barba espessa; o bordado, de estilo arcaico, parecia ser o trabalho dos artesãos da Babilônia “.

Em outras paredes Sassânidas construídas de materiais anteriores, foram encontrados tijolos esmaltados revelando dois pés calçados em ouro, uma mão em muito-boa forma, um pulso coberto com pulseiras; os dedos seguravam um daqueles longos bastões que se tornaram o emblema do poder soberano sob os Aquemênidas [Achaemenides]. Um pedaço do manto trazia o brasão de armas de Susa, parcialmente escondido sob uma pele de tigre. Finalmente, uma franja florida sobre um fundo marrom. Sua cabeça e pés eram pretos. Era ainda evidente que toda a decoração tinha sido projetada para combinar com a tez escura do rosto. Somente personagens poderosos tinham o direito de carregar longos bastões e usar pulseiras. Só o governador de um posto fortificado poderia ter  sua imagem bordada em sua túnica. No entanto, o proprietário do bastão, o mestre da cidadela era preto. Por isso, é altamente provável que Elam era governada por uma dinastia preta e, a julgar pelas características do rosto já descritas, uma dinastia Etíope. . . . *

[François Lenormant, Histoire ancienne des Phéniciens. Paris: Lévy, 1890, pp. 96-98.]

Meio século depois, as conclusões do Dr. Contenau confirmaram as conclusões de Dieulafoy sobre o papel desempenhado pela raça Preta na Ásia Ocidental. Primeiro, ele recordou a opinião de Quatrefages e Hamy sobre os tipos étnicos representados em monumentos Assírios. Os Susanos [Susian], em particular, “um provável produto de alguma mistura de Kushita e Negro com o nariz relativamente achatado, narinas dilatadas, maçãs-do-rosto proeminentes e lábios grossos, é um tipo racial bem observado e bem representado.” *

[Contenau, ibid., p. 97.]

Em seguida, ele informa a classificação de Houssaye da população atual, provavelmente composta de três camadas, uma das quais é assim descrita:

Ariano-Negróides correspondentes aos antigos Susanos [Susians] que em sua maior parte eram Pretos, uma raça de Negros baixos, com pequena capacidade craniana. Os Ariano-Negróides são braquicéfalos, e não dolicocéfalos como grande parte dos Negros; eles são encontrados no Japão, ilhas da Malásia, nas Filipinas, e Nova Guiné.

Embora esta classificação possa ser ligeiramente modificada, o lugar que ela atribui aos Negros deve ser mantido. Pela sua existência, podemos explicar a presença, entre os arqueiros Persas retratados em tijolos coloridos, de guerreiros pretos que, no entanto, não possuem as características étnicas de Negros. Sem exagerar a importância deste elemento, não parece que a sua presença na Elam antiga possa ser posta em dúvida.” *

[* – Ibid., P. 98.]
O mais antigo pano de fundo Negro da Elam antiga lança nova luz sobre certos versos do Épico de Gilgamesh, um poema Babilônio (Kushita):

Pai Enlil, Senhor dos países,

Pai Enlil, senhor da palavra verdadeira,

Pai Enlil, Pastor dos Pretos . . . *

[ * – Citado por Christian Zervos, L’Art en Mésopotamie. Ed. Cahiers d’Art, 1935. (In Gods, Graves, and Scholars: {New York: Knopf, 1967} C. W. Ceram chama o Épico de Gilgamesh “o primeiro grande épico da história mundial” e cita a partir de seu trabalho “a primeira versão da lenda Bíblica do Dilúvio.”) ED.]

Neste épico, Anu, o deus primitivo, pai de Ishtar, tem o mesmo nome Negro que Osiris o Onian: “A deusa Ishtar tomou a palavra e falou assim ao deus Anu, o pai dela…” (Versos 92-93 ). Já vimos que, de acordo com Amélineau, os Anu foram os primeiros Pretos a habitar o Egito. Um número deles permaneceu na Arábia Pétrea ao longo da história Egípcia.
O Negro Anu é, portanto, um fato histórico, e não um conceito mental ou uma hipótese de trabalho. Nós também podemos relatar a existência, ainda hoje, de um povo Ani (Agni) na Costa do Marfim, os nomes de seus reis são precedidos pelo título Amon, como já foi observado anteriormente.

A cronologia de Viktor Christian, que se baseia nos cálculos astronômicos de Kugler, data o início da primeira dinastia de Ur entre 2600 e 2580, o que seria, portanto, também o período dos chamados túmulos “reais” [“royal” tombs].
A data oficial, adotada até agora sem nenhuma razão especial, oscila entre 3100 e 3000. Na verdade, a escolha de 3100 não resulta de nenhuma necessidade além daquela de sincronizar a cronologia Egípcia e Mesopotâmica. Uma vez que a história Egípcia, de acordo com as estimativas mais moderadas, começa em 3200, torna-se indispensável, “por solidariedade”, fazer a história Mesopotâmica começar em aproximadamente o mesmo tempo, mesmo se todos os fatos históricos conhecidos sobre essa região possam caber em um muito período muito mais curto. Aludindo à estimativa de Christian, Contenau escreve: “O que devemos pensar sobre esses novos números? em si mesmos, eles parecem dar tempo suficiente para os eventos históricos.”
No entanto, ele tem o cuidado de não adotar esta cronologia por duas razões:

A primeira é que o cálculo dos fenômenos astronômicos acima mencionados, o que deveria ser um padrão fixo, está sujeito a variações; . . .

A segunda razão é que a extra-curta cronologia não leva em conta as civilizações vizinhas; é difícil explicar como a civilização Egípcia que os Egiptólogos, nas estimativas mais moderadas, iniciam em cerca de 3100 A.C., poderia ter precedido história mesopotâmica por 600 anos. As relações existentes entre a Ásia e o Egito, na época proto-histórica, são um fato estabelecido; elas se tornam inexplicáveis, assim como o avanço da civilização Minóica (Creta) seria, se esses novos números fossem adotados. A proposta parece pouco aceitável. Eu acredito que o próprio muito interessante estudo do Sr. Christian leva a uma conclusão admissível somente se um estudo paralelo puder causar uma redução similar na data de início das civilizações Egípcia e Egéia. *

[ * – Contenau, ibid., III, 1563.]

Em outro trabalho, publicado em 1934, o Dr. Contenau insiste: “Existe uma solidariedade geral que deve ser levada em conta. O período histórico se abre aproximadamente ao mesmo tempo no Egito e na Mesopotâmia, no entanto, os Egiptólogos geralmente se recusam a fixar a data de Menes, fundador da Primeira Dinastia, em mais tarde do que 3200 A.C.” *

[* – Georges Contenau, La Civilisation des et Hittites et des Mitanniens. Paris: Payot, 1934, I, 49.]

A partir desses textos, é evidente que a sincronização da história Egípcia e Mesopotâmica é uma necessidade resultante de idéias, e não de fatos. A idéia motivante é ter sucesso em explicar o Egito pela Mesopotâmia, ou seja, pela Ásia Ocidental, o habitat original dos Indo-Europeus. O anterior demonstra que, se permanecermos dentro do reino dos fatos autênticos, nós somos forçados a ver a Mesopotâmia como uma filha tardiamente nascida do Egito. As relações da proto-história não implicam necessariamente a sincronização da história nos dois países.

Para concluir esta seção, podemos refletir sobre esta passagem de Lovat Dickson, citada por Marcel Brion: “Há Trinta anos atrás, o nome Suméria não significava nada para o público. Hoje existe algo chamado o problema Sumeriano [Sumerian problem], um assunto para controvérsia e especulação constante entre arqueólogos “. *

[* – Marcel Brion, La Résurrection des villes mortes. Paris: Payot, 1948, p. 65. Translated as The World of Archeology. New York: Macmillan, 1962.]

Referindo-se a monumentos Persas, Diodoro escreve que eles foram construídos por trabalhadores Egípcios levados forçosamente por Cambyses, “o Vândalo.” “Cambyses ateou fogo em todos os templos no Egito, isto foi quando os Persas, transportando todos os tesouros para a Ásia e até mesmo seqüestrando alguns trabalhadores Egípcios, construíram os famosos palácios de Persépolis, Susa, e várias outras cidades na Média.” *

[* – Diodoro, Bk. 1, Sec. 2, 102.]

De acordo com Estrabão, Susa tinha sido fundada por um Negro, Titono [Tithonus], Rei da Etiópia e pai de Mêmnon: “Na verdade, afirma-se que Susa foi fundada por Titono, o pai de Mêmnon, e que sua cidadela teve o nome de Memnonium. Os Susanos [Susians] são também chamados Cissianos [Cissians] e Ésquilo [Aeschylus] chama a mãe de Mêmnon Cissia. ” *

[* – Estrabão, Bk. 15, Cap. 3, 728.]

Cissia nos lembra de Cissé, um nome de família Africano. . . .

Fenícia

O homem encontrado em Canaã, em tempos pré-históricos, o Natufiano [Natufian], era um Negróide. A indústria de ferramentas Capsiana, que, sem dúvida, veio do norte da África para aquela região, era também de origem Negróide. Na Bíblia, quando as primeiras raças brancas chegaram ao local, elas encontraram uma raça preta lá, os Cananeus [Canaanites], descendentes de Canaã, irmão de Mesraim, o Egípcio, e Kush, o Etíope, filhos de Cam [Ham].

O Senhor disse a Abrão: “Saia da sua terra, seus parentes ea casa de teu pai, para a terra que eu te mostrar….” Abrão partiu como o Senhor lhe ordenara, e Ló foi com ele. . . . Abrão levou consigo a Sarai sua esposa, Ló, filho de seu irmão, todos os bens que haviam adquirido e as pessoas que tinham conseguido em Haran e eles partiram para a terra de Canaã. Quando eles vieram para a terra de Canaã, passou Abrão por aquela terra até ao local sagrado em Siquém, perto da planície de mais. Naquela época os cananeus eram om a terra. *

O Senhor disse a Abrão: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. . . .”
Abrão partiu como o Senhor lhe tinha dito, e Lot foi com ele. Abrão tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, assim como todos os bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Harã, e partiram para a terra de Canaã. Ali chegando, Abrão atravessou a terra até Siquém, até o carvalho de Moré. Nesse tempo estavam os Cananeus na terra.

[* – Genesis, XII, 1-6.]

Depois de muitos altos e baixos, os Cananeus e as tribos brancas, simbolizadas por Abraão e seus descendentes (a linhagem de Isaque), misturaram-se para se tornar no tempo o povo Judeu de hoje:
Veio, pois, Hamor e Siquém, seu filho, à porta da sua cidade, e falaram aos homens da sua cidade, dizendo:
“Estes homens são pacíficos conosco; portanto habitem na terra, e negociem nela; a terra é bastante larga para contê-los; recebamos nós as suas filhas por mulheres, e demos-lhes as nossas filhas.*

[* – Ibid., XXXIV, 20-21.]
Estas poucas linhas, que parecem ser um ardil, no entanto revelam os imperativos econômicos que na época estavam para reger as relações entre invasores brancos e Cananeus pretos. A História Fenícia é, portanto, incompreensível apenas se nós ignorarmos os dados Bíblicos, segundo a qual os Fenícios, em outras palavras, os Cananeus, eram originalmente Negros, já civilizados, com quem as nômades, tribos brancas incultas depois se misturaram.

Daquele momento em diante, o termo Leuco-Sírios [Leuco-Syrians], aplicado a certas populações brancas da região, é uma confirmação dos dados Bíblicos, e não uma contradição, como Hoefer acredita: “O nome Sírio parece ter atingido da Babilônia até o Golfo de Isso [Gulf of Issus] e até mesmo do golfo ao Mar Negro [Euxine Sea]. Os Capadócios [Cappadocians], aqueles de Taurus, bem como aqueles do Mar Negro [Euxine Sea], ainda são chamados de Leuco-Sírios [Leuco-Syrians] (Sírios-brancos), como se houvesse também Sírios pretos. ” *

[* – Hoefer, op. cit., pp. 484-486].

Esta é a forma como a aliança duradoura entre Egípcios e Fenícios pode ser explicada. Mesmo durante os períodos mais conturbados de grande infortúnio, o Egito poderia contar com os Fenícios como pode-se contar mais ou menos com um irmão.

Entre as narrativas monumentais gravadas nas paredes de templos Egípcios e referentes às grandes insurreições na Síria contra a hegemonia Egípcia, nós nunca vemos nas listas dos rebeldes e dos vencidos os nomes de Sidônios [Sidonians], de sua capital, ou de qualquer das suas cidades. A mais formidável dessas revoltas, instigada pelos Assírios ou então por Hititas do norte, foram suprimidas por Tutmés III [Tuthmosis III], Seti I, Ramsés II, e Ramsés III. . . .
Um papiro inestimável no Museu Britânico contém o relato ficcional de uma visita à Síria por um funcionário Egípcio no final do reinado de Ramsés II, depois de a paz com os Hititas do norte ser finalmente restaurada. . . . Através da Síria, o viajante estava em solo Egípcio; ele circulava como livremente e em segurança como faria no vale do Nilo, e até mesmo, em virtude de sua posição, exerceria alguma autoridade. *

[* – Lenormant, op. cit., pp. 484-486].

Para ter certeza, não devemos minimizar o papel das relações econômicas entre Egito e Fenícia ao explicar aquela lealdade que parece ter existido. Pode-se também compreender que a religião e crenças Fenícias são, em certa medida, meras réplicas das do Egito. A cosmogonia fenícia é revelada em fragmentos de Sanconíaton [Sanchoniation], traduzidos por Filo de Biblos [Philo of Byblos] e relatado por Eusébio.
De acordo com esses textos, no início havia incriada, caótica matéria, em desordem perpétua (Bohu); A Respiração [Breath] (Rouah) pairava sobre o Caos. A união desses dois princípios foi chamada Chephets, Desejo, que está na origem de toda criação.

O que nos impressiona aqui é a semelhança entre essa Trindade cósmica e aquela encontrada no Egito, conforme relatado por Amélineau em seus Prolégomènes: Na cosmogonia Egípcia também, no início havia caótica, incriada matéria, o primitivo Nun (cf. Nen = nada, em Wolof). Esta matéria primitiva continha, sob a forma de princípios, todos os seres possíveis. Ele também continha o deus desenvolvimento potencial, Khepru. Assim que o nada primitivo criou Ra, o demiurgo, o seu papel terminou. Daí em diante a linha seria ininterrupta até o advento de Osíris, Isis e Horus, antepassados dos Egípcios. A Trindade primitiva, então, mudou-se a partir da escala do universo para aquela do homem, assim como o fez mais tarde no Cristianismo.

Após sucessivas gerações em cosmogonia Fenícia, nós alcançamos os ancestrais dos Egípcios, Misor *

[* -. E ‘Egito’ é nomeado hoje ‘Misr’ em Egípcio],

que vai gerar Taaut, inventor das Ciências e Letras (Taaut não é outro senão o Thoth dos Egípcios). Na mesma cosmogonia, chegamos a Osíris e Canaã, antepassados dos Fenícios (cf. Lenormant, op. Cit., P. 583).

A Cosmogonia Fenícia revela mais uma vez o parentesco de Egípcios e Fenícios, ambos de origem Kushita (Negra).
Este parentesco é confirmado pelas revelações dos textos de Ras Shamra (antiga Ugarit, na costa da Síria), que colocam o habitat original dos heróis nacionais dos Fenícios, no sul, nas fronteiras do Egito:

Os textos de Ras Shamra nos dão uma oportunidade para reexaminar a origem dos Fenícios. Enquanto os tabletes sobre a vida cotidiana levam em conta vários elementos estrangeiros que participaram na rotina diária da cidade, aqueles que apresentam mitos e lendas fazem alusão a um passado bem diferente. Embora eles digam respeito a uma cidade do extremo norte Fenício, eles adotam o extremo sul, o Negeb, como cenário para acontecimentos que descrevem. Para os heróis e antepassados nacionais, eles atribuem um habitat localizado entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. Esta tradição, por outro lado, tem sido observada por Heródoto (século V) e, antes dele, por Sofonias (século VII). *

[* – Contenau, Manuel d’archéologie orientale, p. 1791.]

Geograficamente, o corpo de terra entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho é, essencialmente, o istmo de Suez, ou seja, Arábia Pétrea, terra dos Anu, Pretos que fundaram On do Norte (Heliópolis), em tempos históricos.

Em meados do segundo milênio (1450 A.C.), sob a crescente pressão das tribos brancas que ocuparam o interior e dirigiram os Fenícios de volta para a costa, os Sidônios fundaram as primeiras colônias Fenícias na Beócia, onde eles instalaram o excesso da população. Assim, Tebas foi criada, bem como Abydos sobre o Helesponto [Hellespont]. O nome Tebas confirma, mais uma vez, o parentesco étnico de Fenícios e Egípcios. Nós abemos, por uma questão de fato, que Tebas foi a cidade sagrada do Alto Egito, a partir da qual os Fenícios tomaram as duas mulheres Pretas que fundaram os oráculos de Dodona na Grécia e Amon na Líbia. *

[* – A raiz da palavra Tebas não é Indo-Européia. De acordo com a ortografia Grega, ela deve ser pronunciada Taïba. Na África Preta, hoje, no Senegal, por exemplo, há várias cidades nomeadas Taïba. É razoável supor que essas cidades tomaram o seu nome daquele da capital sagrada do antigo Alto Egito.]

Durante o mesmo período os Líbios se estabeleceram na África, em torno do lago Triton, como indicado por um estudo dos monumentos históricos de Seti I. Cadmo, o Fenício, personifica o período Sidônio e a contribuição Fenícia para a Grécia. Os Gregos dizem que Cadmo introduziu a escrita, assim como diríamos hoje que Marianne [símbolo da República Francesa], introduziu estradas de ferro na África Ocidental Francesa.

Tradições Gregas colocam a instalação de colônias Egípcias na Grécia em aproximadamente ao mesmo tempo: Cécrope estabeleceu em Ática; Danaus, irmão de Aegyptus, em Argólida [Argolis]; ele ensinou agricultura aos Gregos, bem como metalurgia (ferro). Durante esta época Sidônia, elementos da civilização Egipto-Fenícia cruzaram para a Grécia. A princípio, a colônia Fenícia manteve a mão superior, mas logo os Gregos começaram a lutar pela libertação dos Fenícios, que, neste período anterior aos Argonautas, possuíam domínio dos mares, bem como superioridade técnica.
Este conflito é simbolizado pela luta entre Cadmo (o Fenício) e o filho serpente de Marte (os Gregos); ele durou cerca de três séculos.

A dissensão assim despertada entre os nativos pela chegada dos colonos Cananeus [Canaanite] é representada na lenda mítica pelo combate travado por Cadmo e os Espartanos. A partir de então, aqueles dos Espartanos que a fábula permite sobreviver e se tornar os companheiros de Cadmo, representam as principais famílias Jônicas [Ionian] que aceitaram a dominação pelo forasteiro.
Não por muito tempo governou Cadmo seu império em paz; ele é logo expulso e obrigado a se aposentar entre os Enquelianos [Enchelians]. O elemento indígena recupera o controle, depois de ter aceito a autoridade dos Fenícios e recebido os benefícios da civilização, ele se levanta contra eles e tenta expeli-los. . . .
Tudo o que podemos discernir nesta parte da narrativa concernindo os Cadmeanos [Cadmeans] é o horror que a sua raça e religião, ainda impregnadas pela barbárie e obscuridade orientais, inspiravam nos pobres, mas virtuosos Gregos, a quem, no entanto, eles tinham ensinado. E assim, na tradição Helênica, um terror supersticioso é ligado à memória dos reis da raça de Cadmus. Eles forneceram a maioria dos assuntos para a tragédia antiga. *

[* -. Lenormant, ibid., pp. 497-498.]

Neste ponto nós temos de fato alcançado um período de demarcação quando o mundo Indo-Europeu estava se livrando da dominação do mundo Egípto-Fenício Preto [Black Egypto-Phoenician world].

Esta luta econômica e política, similar em todos os aspectos àquela a qual os países coloniais estão agora travando contra o imperialismo moderno, foi apoiada, assim como é hoje, por uma reação cultural causada pelas mesmas razões.

Para entender a Oresteia [Orestes] de Ésquilo e a Eneida [Aeneid] de Virgílio, nós devemos vê-las no contexto desta opressão cultural. Em vez de interpretar, como Bachofen e outros acreditam, a transição universal do matriarcado [matriarchy] para o patriarcado [patriarchy], estas obras marcam o conflito de duas concepções diferentes: aquela com raízes profundas nas planícies da Eurásia, e a outra embebida no coração da África.

No início, a última (matriarcado) dominou e se espalhou pelo mar Egeu Mediterrâneo graças à colonização Egipto-Fenícia de populações, às vezes até mesmo populações Brancas, mas cuja cultura inconsistente não permitiu nenhuma reação positiva no momento. Isto foi talvez verdade para os Lícios [Lycians] e diversos outros grupos do Mar Egeu. No entanto, os escritores da Antiguidade, por unanimidade relatam que essas idéias nunca penetraram no mundo Branco do norte da Europa, que as rejeitou assim que pôde como noções estranhas às suas próprias concepções culturais.
Este é o significado da Eneida [Aeneid]. Em suas formas mais estrangeiras para a mentalidade do norte, o imperialismo cultural Egipto-Fenício dificilmente sobreviveu ao imperialismo econômico. *

[ * – Algumas tribos Germânicas conheceram o sistema matriarcal, mas isso foi uma exceção entre os bárbaros, como Tácito apontou:
No entanto, as leis de matrimônio são severamente observadas lá, nenhuma de todas as suas maneiras é mais louvável do que esta, pois eles são quase os únicos bárbaros satisfeitos com uma só mulher, excetuando alguns poucos entre eles, homens de dignidade que se casam com diversas esposas, a partir de nenhuma libertinagem ou lubricidade, mas cortejam para o brilho de sua família em muitas alianças.”
“Para o marido, a esposa não propõe nenhum dote, mas o marido para a esposa…”
“As crianças são mantidas na mesma estima com o irmão de sua mãe, assim como com seu pai. Alguns sustentam este laço de sangue por ser mais inviolável e vinculativo, e na recepção de reféns, tais promessas são mais consideradas e afirmadas, como aqueles que de uma só vez possuem afetos os mais inalienáveis, e os o mais difuso interesse em sua família. Para cada homem, no entanto, seus próprios filhos são herdeiros e sucessores.
” (Tácito, Germany, translated by Thomas Gordon, Harvard Classics. New York: P.F. Collier & Son, 1938, XXXIII, 103-104.)
É bastante provável que este traço da cultura Negra foi introduzido entre os Alemães, então, meio-sedentários, ao mesmo tempo que o culto de Ísis foi importado. Tácito salienta a origem estrangeira deste culto: “Alguns dos Suevos fazem da mesma forma imolações à Isis. Em relação ao uso e origem desse sacrifício estrangeiro Eu encontrei pouca luz, a não ser a figura de sua imagem formada como um navio [galley], mostram que essa devoção chegou do exterior.
(Ibid., Pp; 97-98).
Cesar nasceu 155 anos antes de Tácito. Ele também escreveu sobre os costumes de Gauleses e Romanos, mas em nenhum lugar mencionou matriarcado [matriarchy], ou a presença de sacerdotes e outros aspectos religiosos observados por Tácito.]

A história da humanidade permanecerá confusa enquanto não formos capazes de distinguir entre os dois primeiros berços em que a natureza moldou os instintos, temperamentos, hábitos e conceitos éticos das duas subdivisões antes de elas se encontrarem uma a outra depois de uma longa separação que remonta à tempos pré-históricos.

O primeiro desses berços, como veremos no capítulo sobre a contribuição do Egito, é o vale do Nilo, dos Grandes Lagos até o Delta, através do então-chamado Sudão “Anglo-Egípcio” [“Anglo-Egyptian Sudan”]. A abundância de recursos vitais, seu caráter agrícola sedentário, as condições específicas do vale, irão engendrar no homem, ou seja, no Negro, uma natureza suave, idealista, pacífica, dotada de um espírito de justiça e alegria. Todas essas virtudes eram mais ou menos indispensável para a convivência diária.

[The abundance of vital resources, its sedentary, agricultural character, the specific conditions of the valley, Will enfender in man, that is, in the Negro, a gentle, idealistic, peaceful anture, endowed with a spirit of justice and gaiety. All these virtues were more or less indispensable for daily coexistence.]

Por causa das exigências da vida agrícola, conceitos tais como matriarcado e totemismo, a mais perfeita organização social, e religião monoteísta nasceram. Estes engendraram outros: assim, a circuncisão resultou do monoteísmo; na verdade, foi realmente a noção de um deus, Amon, criador incriado de tudo o que existe, que levou ao conceito de andrógino. Uma vez que Amon não era criado e uma vez que ele é a origem de toda a criação, houve um momento em que ele estava sozinho. Para a mentalidade arcaica, ele deve ter contido dentro de si todos os princípios masculinos e femininos necessários para a procriação. É por isso que Amon, o deus Negro por excelência do Sudão “Anglo-Egípcio” (Núbia) e todo o resto da África Preta, estava para aparecer na mitologia Sudanesa como andrógino. A crença nessa ontologia hermafrodita produziria a circuncisão e excisão no mundo Preto. Alguém poderia continuar para explicar todas as características básicas da alma e civilização Negras usando as condições materiais do Vale do Nilo, como o ponto de partida.

Por outro lado, a ferocidade da natureza nas estepes da Eurásia, a esterilidade dessas regiões, as circunstâncias gerais de condições materiais, estavam para criar instintos necessários para a sobrevivência em um ambiente como esse. Aqui, a Natureza não deixou nenhuma ilusão de bondade: ela era implacável e não permitida nenhuma negligência; o homem devia obter o pão com o suor de seu rosto. Acima de tudo, no curso de uma longa e dolorosa existência, ele devia aprender a confiar em si mesmo, em suas próprias possibilidades. Ele não podia dar-se ao luxo de acreditar em um Deus benevolente que derramaria abundantes meios de obtenção de meios de subsistência; em vez disso, ele iria evocar divindades maléficas e cruéis, invejosas e rancorosas: Zeus, Yahweh, entre outras.

Na atividade ingrata [unrewarding] que o ambiente físico impôs sobre o homem, já estava implícito materialismo, antropomorfismo (que é apenas um de seus aspectos), e o espírito secular. Isto é como o ambiente gradualmente moldou esses instintos nos homens daquela região, os Indo-Europeus em particular. Todas as pessoas da área, sejam brancos ou amarelos, iriam instintivamente amar a conquista, por causa de um desejo de escapar daqueles ambientes hostis. O meio [milieu] perseguiu-os; eles tiveram que deixá-lo ou sucumbir, tentar conquistar um lugar ao sol em uma natureza mais clemente. As invasões não iriam cessar, uma vez que um contato inicial com o mundo Preto ao sul lhes havia ensinado a existência de uma terra onde a vida era fácil, riquezas abundantes, técnica florescente. Assim, desde 1450 A.C. até Hitler, desde os Bárbaros dos séculos quarto e quinto até Genghis Khan e os Turcos, essas invasões de leste para oeste ou do norte para o sul continuaram ininterruptas.

Homem nessas regiões permaneceu por muito tempo um nômade. Ele era cruel. *

[ * – César e Tácito descrevem os selvagens costumes belicosos[warlike] dos nômades ou semi-nômades Germânicos antes de eles adquirirem um senso de propriedade da terra: “Eles não aplicam-se à agricultura e vivem principalmente de leite, queijo e carne. Ninguém tem um pedaço de terra de sua propriedade com limites fixados; mas a cada ano os magistrados e chefes atribuem a diferentes pequenas tribos e famílias uma certa quantidade de terreno em qualquer distrito que considerem adequado. No ano seguinte, eles são forçados a mudar para outro lugar. Isto eles justificam por vários argumentos: eles temem que a força e atração do hábito possa fazê-los perder o gosto pela guerra e preferirem a agricultura. . . . A maior honra para as cidades é estar rodeada por fronteiras devastadas e vasto deserto. Eles acreditam que a marca da coragem é compelir tribos vizinhas a desertar seu território e ver ninguém se atreve a se estabelecer nas proximidades.
Ao mesmo tempo, eles se sentem mais seguros com nenhumas invasões repentinas a temer. . . . Não há nada de vergonhoso sobre o roubo cometido além das fronteiras da cidade; isso serve, dizem eles, para fornecer exercício para os jovens homens e para diminuir a preguiça
.”
(Caesar, Commentaries, French ed., Bk. 6, Chap. 22, 23.)
A desgraça mais gritante que pode cair sobre eles, é ter abandonado seu escudo. . . . Suas feridas e injúrias [maims] eles carregam para suas mães, ou para suas esposas, nem as suas mães nem as suas esposas são chocadas em dizer, ou em chupar suas feridas sangrando. Enquanto para seus maridos e filhos engajados na batalha, elas administram carne e encorajamento. . . . Muitos da jovem nobreza, quando sua própria comunidade vem a definhar em seu vigor devido a longa paz e inatividade, se agarram através de impaciência a outros Estados que, então, revelam-se estar em guerra. Pois, além deste povo não poder tolerar repouso, além de que por aventuras perigosas eles mais que rapidamente proclamam sua fama, eles não podem, exceto por violência e guerra, suportar o seu enorme comboio de retentores. . . . ” (Tacitus, Germany, Harvard Classics, XXXIII, 97-107 passim.)]

O clima frio poderia engendrar a adoração do fogo, a permanecer queimando, desde fogo de Mithras * até a chama no túmulo do Soldado Desconhecido Soldado sob o Arco do Triunfo e as tochas das Olimpíadas antigas e modernas.

[* – Na mitologia Persa, Mitra (Mithras) era o deus da luz e da verdade, posteriormente do sol.]

O nomadismo foi responsável pela cremação: assim, as cinzas de ancestrais poderiam ser transportadas em pequenas urnas. Este costume foi perpetuado pelos Gregos; os Arianos o introduziram à Índia depois de 1450, e isto explica a cremação de César (Caesar) e de Gandhi em nossa própria época.

Obviamente, o homem era o pilar desse tipo de vida. O papel econômico da mulher era muito menos significativo do que em sociedades agrícolas Negras. Conseqüentemente, a família patriarcal nômade foi o único embrião de organização social. O princípio patriarcal iria governar toda a vida dos Indo-Europeus, desde os Gregos e Romanos até o Código Napoleônico, até nossos dias. Foi por isso que a participação da mulher na vida pública iria chegar mais tarde nas sociedades Européias do que nas sociedades Negras. * – Se o oposto parece verdadeiro hoje em certas partes da África Preta, isto pode ser atribuído à influência Islâmica.

[* -. “Nossos ancestrais não permitiam às mulheres lidar com qualquer negócio, mesmo doméstico, sem autorização especial. Eles nunca deixaram de manter a mulher dependente de seus pais, irmãos ou maridos. Quanto a nós, se isto agrada aos deuses, vamos em breve permitir-lhes participar na direção dos assuntos públicos, a freqüentar o Fórum, a ouvir os discursos e a envolver-se nos processos. Liste toda a legislação pela qual nossos ancestrais tentaram refrear a independência das mulheres e mantê-las submissas aos seus maridos; então veja, apesar de todos esses obstáculos legais, quantos problemas nós tivemos em restringindo-as de suas funções. Se você deixá-las quebrar essas restrições, uma após outra, libertar-se de toda a dependência, e colocar-se em pé de igualdade com seus maridos, você acha que será possível para os seus maridos suportá-las? As mulheres irão se tornar nossos iguais não antes do que elas irão nos dominar. ” (Livy, Histoire romaine, Bk. 34: “Cato’s speech on maintaining the Oppia Law against the luxury of women.” 195 B.C.)]

Aqueles dois tipos de conceitos sociais entraram em confronto e foram sobrepostos sobre o Mediterrâneo. Ao longo de toda a época Egéia, a influência Negra precedeu aquela do Indo-Europeu. Todas as populações da periferia do Mediterrâneo na época eram Negras ou Negróides: Egípcios, Fenícios; os Brancos que havia vinham sob a influência econômica e cultural Egipto-Fenícia: Grécia, época dos Beócios [Beoetians]; Ásia Menor, Tróia; Hititas, aliados do Egito; Etruscos no norte da Itália, aliados dos Fenícios, com forte influência Egípcia; Gália, entrecruzada por caravanas Fenícias, sob a influência direta do Egito. Esta pressão Negra se estendeu tão longe como certas tribos Germânicas adoraram a Ísis, a deusa Negra:

De fato, inscrições foram encontradas nas quais Isis é associada com a cidade de Noreia; Noreia hoje é Neumarkt na Estíria (Áustria). Isis, Osíris, Serapis, Anubis possuem altares em Fréjus, Nîmes, Arles, Riez (Basses-Alpes), Parizet (Isère), Manduel (Gard), Boulogne (Haute-Garonne), Lyons, Besançon, Langres, Soissons. Isis foi homenageada em Melun . . . nos Castelos de York e de Brougham [York and Brougham Castle], e também em Pannonia e Noricum. *

[* – Joseph vendryes, Les Religions des Celtes, des Germains et des anciens Slaves. Coll. “Mana”, III, 244]

A adoração das “Madonas Pretas” [“Black Madonnas”] provavelmente começou durante o mesmo período. Esse culto ainda sobrevive na França (Nossa Senhora do Subterrâneo [Our Lady Underground], ou a Madona Preta de Chartres [Black Madonna of Chartres]). Ela manteve-se tão vívida que a Igreja Católica Romana finalmente teve que consagrá-la. *

[ * – A intolerância da Igreja durante a Idade Média descarta colocando sua origem nesse período. Relacioná-la com o retorno dos Cruzados seria assumir que aqueles que saíram para lutar contra uma “heresia” trouxeram de volta o outra.]

O próprio nome da capital Francesa pode ser explicado pelo culto de Ísis.
“O termo ‘Parisii’ poderia muito bem significar ‘Templo de Isis ‘, pois havia uma cidade com esse nome nas margens do Nilo, e o hieróglifo per representa o recinto de um templo no Oise [rio Oise].” *

[* – Pierre Hubac, Carthage. Paris: Ed. Bellenand, 1952, p. 170.]

O autor está se referindo ao fato de que os primeiros habitantes do local atual de Paris, que lutaram contra César, tomaram o nome Parisii, por alguma razão desconhecida hoje. O culto de Ísis era, evidentemente, bastante difundido na França, especialmente na bacia Parisiense; templos de Isis, no linguajar Ocidental, estavam por toda parte. Mas seria mais exato dizer “Casas of Isis” [“Houses of Isis”], pois em Egípcio esses então-chamados templos eram chamados de Per, o significado exato do que, no antigo Egito bem como no Wolof atual, é: o recinto em torno da casa [the enclosure surrounding the house]. O nome “Paris” poderia ter resultado da justaposição de Per-Isis, uma palavra que designou certas cidades no Egito, como observa Hubac (citando Maspero). Conformemente, a raiz do nome da capital da França poderia ser derivada basicamente do Wolof. Isto indicaria em que medida a situação se inverteu.

Outras características culturais comuns existem entre o Ocidente e a África Preta:

Ker = casa, em Egípcio, Wolof, e Bretão;
Dang = tenso, em Wolof e Irlandês;
Dun = ilha, em Wolof = fechado, lugar isolado (em terra), em Celta e Irlandês, de onde temos nomes para cidades como
Ver-Dun, Château-Dun, Lug-Dun-Um (Lyons), e assim por diante.

Seria igualmente esclarecedor estudar as relações entre as trocas de consoantes nas línguas da Bretanha e da África.
A esta mesma influência nós devemos atribuir a existência do deus Ani entre os Irlandeses e Etruscos. O impacto Egipto-Fenício sobre os Etruscos é bastante claro, como é sobre os Sabinos [Sabines], cujo nome e costumes sugerem civilizações Negras do sul.

A distinção feita entre os dois berços da civilização nos permite evitar toda a confusão e mistério sobre as origens dos povos que se encontraram na península Italiana. Os Sabinos e Etruscos enterravam seus mortos. Os Etruscos conheciam e utilizavam o sarcófago Egípcio. Estas populações eram agrícolas; sua vida era governada pelo sistema matriarcal. Os Etruscos trouxeram todos os elementos da civilização Egípcia para a península Italiana: agricultura, religião, artes, incluindo a arte de divinação [divining art]. Quando eles destruíram os Etruscos, os Romanos assimilaram a substância daquela civilização, embora eliminando os aspectos mais alheios à sua concepção patriarcal Eurasiana. Desta forma, após o período de transição dos Tarquínios [Tarquins], os últimos reis Etruscos, o sistema matriarcal Preto foi completamente rejeitado. . . .

O fim de um mundo antigo, o início do novo! A cultura Preta, em suas formas mais estrangeiras para as concepções da Eurásia, foi expulsa da bacia do norte do Mediterrâneo. Ela não iria sobreviver, exceto como um substrato entre as jovens tribos que ela tinha introduzido para a civilização. Este substrato foi, todavia, tão resistente que nós podemos determinar até hoje o quão longe ele estendeu-se. A tudo isto nós podemos acrescentar que a loba romana [Roman she-wolf] recorda a prática Negra do sul, do totemismo, e que Sabina [Sabine] parece conter a raiz de Saba (Sabá) [Sheba].

Conseqüentemente, se fosse desejado, a história da humanidade poderia ser bastante lúcida. Apesar dos repetidos atos de vandalismo dos dias de Cambyses, através dos Romanos, dos Cristãos do sexto século no Egito, dos Vândalos, etc., ainda temos suficientes documentos restantes para escrever uma nítida história do homem. O Ocidente hoje está plenamente consciente disso, mas ele não tem a coragem intelectual e moral necessária, e é por isso que livros didáticos são deliberadamente confusos [deliberately muddled]. Então, isto recai sobre nós, Africanos, para reescrever toda a história da humanidade para a nossa própria edificação e a dos outros.

A mesma influência Negra também responde por um fato lingüístico relatado por von Wartburg, que salienta a sua amplitude de utilização:

A mudança do ll para dd (um som cacuminal pronunciado com a ponta da língua enrolada para trás para tocar o palato, às vezes com a parte inferior da língua), na Sardenha, Sicília, Apúlia, Calábria, não é sem importância e interesse.
De acordo com Merlo, este método de articulação particular foi provavelmente devido aos povos mediterrâneos que viviam no país antes de sua romanização. Embora sons cacuminais [cacuminal sounds] existam em outros idiomas, a alteração articulatória aqui procedeu a uma base tão ampla e em uma área tão vasta, estendendo-se através dos mares e é tão claramente arcaica que a concepção de Merlo certamente parece verdade. . . . Pott e Benfey revelaram há muito tempo que aquela articulação cacuminal, introduzida para as línguas Arianas faladas pelos invasores do Decão [Deccan], veio das populações Dravídicas subjacentes. *

[* – Walter von Wartburg, Problèmes et méthodes de la linguistique. (Problemas e métodos da lingüística.) Paris: Presses Universitaires de France, 1946, p. 41.]

Assim, a introdução de sons cacuminais [cacuminal sounds] para as línguas Arianas da Índia quando aquele país foi invadido por povos Nórdicos incultos foi devido à influência de Negros Dravidianos. Pode ser assumido que a mesma coisa aconteceu na bacia do Mediterrâneo, tanto mais que línguas Egípcias e Negras são saturadas com esses sons cacuminais.

Além disso, no México pré-Colombiano, o fato de que os camponeses eram enterrados, enquanto que os guerreiros eram cremados, pode ser explicado pela distinção descrita acima a distinção sobre os dois berços da humanidade. Brancos do norte e Pretos  atravessando o Atlântico a partir da África, provavelmente se encontraram no continente Americano e gradualmente se misturaram para produzir a mais ou menos Amarela raça de Índios.

Uma breve explicação está em ordem aqui. Quando eu escrevo que Árabes e Judeus, os dois ramos étnicos conhecidos hoje como Semitas, são misturas de Preto e Branco, isto é uma demonstrável, verdade histórica há muito dissimulada. Quando eu escrevo que as raças Amarelas são misturas de Preto e Branco, isto é apenas uma hipótese de trabalho, digna de interesse por todos os motivos acima citados.

Apesar de cientificamente atraente, a hipótese de que o homem existiu em todos os lugares ao mesmo tempo permanecerá inaceitável enquanto não formos capazes de encontrar o homem fossilizado na América, um continente não submerso durante o quarto quaternário quando o homem apareceu, e continente no qual temos todas as zonas climáticas, do Pólo Sul ao Pólo Norte.

Como já indicado, seria mais útil ter um estudo sistemático das raízes que passaram de línguas Negras (Egípcias e outras) para línguas Indo-Européias durante todo o período de seu contato.

Dois princípios poderiam guiar-nos em tal estudo:

1. A anterioridade da civilização e formas de organização social em países Negros, tais como o Egito;

2. O fato de que uma palavra expressando uma idéia de organização social ou algum outro aspecto cultural pode ser comum ao Egípcio e ao Latim ou Grego, sem aparecer em outras línguas da família Indo-Européia. Por exemplo:

Maka      :     veterano, em Egípcio

Mag          :      veterano, venerável, em Wolof.

Kay Mag    :    aquele que é grande, venerável, em Wolof.

Kaya Magan :  o grande, o rei. Este termo serviu para designar
o Imperador de Gana desde cerca do terceiro século
até 1240. A língua era Sarakole (ou uma língua vizinha).
Em todo o caso, ela era obviamente relacionada ao Wolof.

Magnus   :   grande, em Latim; os Latinos não contam na
história antes de 500 A.C.

Carle Magnus  :   Carlos Magno, Carlos Magno,
primeiro imperador do Ocidente.

Mac     :        Nome próprio Escocês.

Kora     :       instrumento musical na África Ocidental;
                    Chouer: cantar em Grego

Ra, Re   :    deus Egípcio, simbolizado pelo sol,
título do Faraó

Rog    :      deus Celestial Serer cuja voz é o trovão.

Rex    :      rei, em Latim; que, nas línguas Românicas,
tornou-se  re, rey, roi, enquanto que, nas
Anglo-Germânicas nós termos apenas king ou König.

No mesmo contexto, gostaríamos de estudar a palavra hymen [hímen], que pode estar relacionada com o matriarcado Negro [Negro matriarchy]. Ela sugere men [homens]: descendentes matrilineares em Wolof; ela significa mama [breast], em Egípcio e Wolof; Ela Designa o primeiro rei do Egito, cujo nome distorcido é Menes. Assim, neste nome, a idéia de uma transmissão matrilinear do poder político está implícita. Não foi por acaso que o rei Sudanês que primeiro codificou o culto do Sol na Núbia teve o nome Men-Thiou; ele foi ou contemporâneo com ou anterior a Menes.

Todas as coisas consideradas, quando os Nazistas dizem que os Franceses são Negros, se nós desconsiderarmos a intenção pejorativa desta afirmação, ela continua a ser bem fundamentada historicamente, na medida em que se refere àqueles contatos entre povos na época Egéia. Mas isto é verdade não só dos Franceses; É ainda mais aplicável aos Espanhóis, Italianos, Gregos, etc. Todos essas populações cuja compleição, menos branca do que a dos outros Europeus, tem sido ansiosamente atribuída à seu habitat ao sul. O que é falso na propaganda Nazista é a afirmação de uma superioridade racial, mas certamente, a raça Nórdica loira, de olhos azuis, foi a menos misturada desde a quarta glaciação. Estas teorias Nazistas provam o que Eu disse sobre a insinceridade dos especialistas. Elas mostram, de fato, que “a influência Preta no Mediterrâneo não é segredo para qualquer estudioso: Eles fingem ser inconscientes dela, mas ainda assim, usam-na quando se sentem assim inclinados.

De acordo com Lenormant, no século quarto A.C. os brancos, Filisteus Jeféticos [Japhetic Philistines] invadiram a costa de Canaã. Eles foram conquistados por Ramsés III, que destruiu sua frota e assim eliminou qualquer possibilidade de seu retorno pelo mar. O Faraó foi obrigado a encontrar uma maneira de relocar todo um povo privado de quaisquer meios de partida. Ele lhes deu terra e os Filisteus se estabeleceram lá.

Após dois séculos de desenvolvimento, eles destruíram Sídon, no século XII, durante o período em que Tróia, auxiliada por 10.000 Etíopes enviados pelo rei do Egito, foi derrubada pelos Gregos. Os Fenícios fundaram Tiro, que acolheu os refugiados de Sídon. Esta foi a época Tirrêna [Tyrian epoch] das relações com os Etruscos, primeiramente chamados Tirrenos [Tyrrhenes], que nos dá o nome do Mar Tirreno [Tyrrhenian Sea].

A Espanha tornou-se uma parada no caminho para a Bretanha e as Ilhas Britânicas, onde os Fenícios iam para pegar estanho que eles utilizavam na fabricação de bronze.
A colonização da Espanha foi rápida; naquela época a miscigenação [crossbreeding] era tão difundida que a Península Ibérica (Tarsis) foi considerada pelos Gregos como sendo de origem Cananéia. Se hoje os Espanhóis são os mais morenos [the brownest] dos Europeus, isso deve ser atribuído à esta miscigenação, mais do que com o seu contato posterior com os Árabes – além dos efeitos étnicos que podem ter resultado da presença da raça Negra Grimaldi, no sul da Europa ao final do Paleolítico (cf. Lenormant, op. cit., pp. 509-510).

A Colonização Romana apenas suplantou a colonização Fenícia, primeiro na Itália, onde tudo o que poderia perpetuar a memória dos Etruscos (monumentos, linguagem) foi obliterado, em seguida, na Espanha e na África, com a destruição de Cartago. Fundada na costa Africana em cerca de 814 A.C., Cartago foi uma das últimas colônias Fenícias.

Desde 1450, os Líbios brancos, povo do mar, ou Rebou, invadiram o Norte da África a oeste do Egito. Antes da fundação de Cartago, eles tiveram tempo para se espalharem ao longo da costa, em direção ao oeste, como relata Heródoto.
O interior de Cartago era então habitado por Pretos indígenas que tinham estado lá durante toda a Antiguidade, e por tribos de Líbios brancos. Miscigenação [crossbreeding] ocorreu gradualmente, como na Espanha, e os Cartagineses, ambos as pessoas comuns e a elite, eram evidentemente Negróides. Nós não precisamos insistir sobre o fato de que o general Cartaginês, Aníbal [Hannibal], que por pouco não destruiu Roma e que é considerado um dos maiores líderes militares de todos os tempos, era Negróide.

Pode-se dizer que, com sua derrota, a supremacia do mundo Negro ou Negróide terminou. Daí em diante a tocha passou para as populações Européias do norte do Mediterrâneo.
A partir de então a sua civilização técnica se espalharia a partir da costa para o interior do continente (exatamente o oposto do que aconteceu na África).

Desde então, o norte do Mediterrâneo dominou o sul do Mediterrâneo. Exceto pelo o avanço Islâmico, a Europa tem governado sobre a África até os dias atuais.

Com a vitória romana sobre Cartago, a penetração e o controle Europeu sobre a África começou; ele atingiu o seu ponto alto no final do século XIX.
Quando se estuda a civilização que se desenvolveu na bacia do Mediterrâneo, parece impossível exagerar o papel essencial desempenhado pelos Negros e Negróides em um momento quando as raças Européias ainda eram descivilizadas [uncivilized]:

Os Fenícios tinham postos comerciais [trading posts] em toda parte, e estes postos exerceram enorme influência sobre os diferentes países onde foram localizados. Cada um tornou-se o núcleo de uma grande cidade, para os nativos selvagens, atraídos por suas vantagens e pelos encantos da vida civilizada, rapidamente agruparam-se em torno da estação de comércio Fenícia.

Todos eram centros ativos para a difusão da indústria e civilização material. Uma tribo selvagem não começa comércio ativo e prolongada com um povo civilizado sem tomar emprestado algo da sua cultura, especialmente quando raças inteligentes e aptas para o progresso como os Europeus estão envolvidas.

Novas necessidades foram despertadas; o Europeu procurou ansiosamente os produtos manufaturados trazidos para ele e revelando mais requinte do que ele jamais imaginara.

Logo, porém, ele desejou penetrar os segredos de sua fabricação, para aprender as artes que os produziram, para começar ele próprio a utilizar os recursos fornecidos pelo solo, em vez de sempre entregá-los aos estranhos que sabiam como colocá-los para tal vantagem.

Esta influência direta da civilização sobre a barbárie é tão inerente à natureza humana, que parece quase inconscientemente e apesar de mal-entendidos, ódio, hostilidade, e até mesmo guerras que podem irromper entre os comerciantes e os povos que eles freqüentam. Tal foi com os Fenícios e os Gregos, e ainda assim, as suas relações estavam longe de ser amigáveis no início. *

[* – Lenormant, op. cit., p. 543.]

Enquanto os Fenícios controlavam os mares, o negócio de fornecimento de mulheres Brancas para o mundo Preto teve lugar. O seu papel no branqueamento dos Egípcios não deve ser minimizado. A seguinte citação não deixa dúvidas sobre a realidade e a importância deste comércio, nem do contraste na cor de Egípcios Pretos e os Brancos das costas do norte:

Navios Fenícios carregados com mercadorias do Egito e Assíria atracam em um porto Grego. Eles exibem sua carga na costa por cinco ou seis dias para dar aos habitantes do interior tempo para vir, para ver e comprar. As mulheres do Peloponeso, curiosas e inocentes, aproximam-se dos navios. Entre elas está Io, filha do Rei Ínaco [Inachus]. A um sinal dado, os corsários capturam as belas mulheres Gregas e levam-na para embora. Eles levantam âncoras imediatamente e partem para o Egito.
O Faraó tinha de pagar um preço elevado por aquelas meninas de pele branca com tais características puras, tão diferentes da carga humana que seus exércitos trouxeram de volta da Síria.
*

[* – Ibid.]

Neste contexto, podemos também colocar o seqüestro pelos Fenícios de Eumea, filha de um notável de Esquiro [Skyros], e o estupro de Helena por Páris, filho de Príamo [Priam]. Isso deve ter ocorrido sob condições semelhantes, se lembrarmos que o Faraó enviou 10.000 Etíopes para Tróia.

Os Cananeus [Canaanites] foram certamente mais rapidamente misturados do que os Egípcios, pois eles eram menos numerosos e mais diretamente localizados nas rotas de fuga dos Brancos que, finalmente, invadiram o território por todos os lados.  O povo Judeu, isto é, o primeiro ramo chamado Semita [Semític], descendentes de Isaac, parece ter sido o produto dessa miscigenação. É por isso que um historiador Latino escreveu que os judeus são de origem Negra. Quanto ao cínico espírito mercantil que constitui a própria fundação da Bíblia (Gênesis, Êxodo), ele simplesmente reflete as condições em que o povo Judeu foi colocado desde o início.

A produção intelectual dos Judeus desde o início até agora, é igualmente explicada pelas condições sob as quais eles têm vivido perpetuamente. Formando grupos de pessoas apátridas [stateless persons] desde suas dispersões, eles têm constantemente experimentado uma ansiedade dupla: a de assegurar a sua existência material, muitas vezes em ambientes hostis, e o medo resultante da obsessão com massacres periódicos. No passado relativamente recente, nas estepes da Eurásia, condições físicas não permitiram nenhuma ilusão, nenhuma letargia, e se o homem não conseguiu criar uma civilização maravilhosa lá, foi porque o ambiente era muito hostil.

Agora, foram condições políticas e sociais que não permitiram aos Judeus nenhum abandono intelectual. Eles não começaram a contar na história até Davi e Salomão, ou o início do primeiro milênio, a época da Rainha de Sabá. A civilização Egípcia já tinha vários milênios de idade, a fortiori uma civilização Núbio-Sudanesa [Nubian-Sudanese civilization].

É, portanto, impensável tentar explicar esta última por qualquer contribuição Judaica. Salomão era apenas um rei menor, governando uma pequena faixa de terra; ele nunca governou o mundo como as lendas dizem. Ele distinguiu-se pelo seu espírito de justiça e seu talento como negociante [businessman]. Na realidade, ele se juntou com os mercantes de Tiro [Tyre] na construção de uma marinha mercante para explorar mercados além mar. Graças a essa atividade comercial, a Palestina prosperou sob seu reinado. Este foi o único reinado importante na história Judaica até o presente. Mais tarde, o país foi conquistado por Nabucodonosor que transferiu a população Judaica para a Babilônia: este foi o período conhecido como o Cativeiro. Gradualmente, os Judeus se dispersaram. O Estado Judaico foi rapidamente eclipsado e não reapareceu até o Sionismo moderno sob Ben-Gurion.

A escassa pesquisa antropológica que qualquer um ousou empreender claramente prova que os Fenícios não tinham nada em comum com o tipo Judaico oficial: braquicefalia, nariz aquilino ou Hitita, e assim por diante. Uma vez que os Fenícios foram por todo o Mediterrâneo, seus restos mortais têm sido procurados em diferentes locais naquela bacia. Assim crânios, presumivelmente Fenícios, foram encontrados a oeste de Siracusa; mas estes crânios são dolicocéfalos e prognatas, com afinidades nitidamente Negróides. (Cf. Eugène Pittard, Les races et l’histoire. Paris, 1924, p. 108.)

Pittard também cita uma descrição por Bertholon dos Cartagineses e os Bascos, a quem Bertholon considerava um ramo dos Cartagineses. Esta descrição é importante porque o autor, sem perceber, está, na verdade, descrevendo um tipo Negro:

Ele [Bertholon] pintou o seguinte retrato de homens que ele considera os descendentes sobreviventes dos antigos Cartagineses:

Essas pessoas tinham a pele muito marrom. Isso reflete o hábito Fenício de colorir as suas estátuas de marrom-avermelhado [reddish-brown], a fim de reproduzir o tom da pele. . . . O nariz é reto, às vezes, ligeiramente côncavo. Mais freqüentemente, é carnudo, ocasionalmente plano no final [flat at the end]. A boca é proporcional, por vezes, bastante ampla. Os lábios são grossos na maioria das vezes, as maçãs do rosto não muito proeminentes. *

[* – Les Races et l’histoire, p. 409.]

Apesar destes eufemismos, é fácil de perceber que acabamos de ler uma descrição de um Negro ou, no mínimo, de um Negróide.

O mesmo autor também mostra que toda a aristocracia Cartaginesa tinha afinidades Negras: “Outros ossos descobertos na Cartago Púnica, e alojados no Museu Lavigerie, vêm de personalidades encontrados em sarcófagos especiais e provavelmente pertencentes à elite Cartaginesa. Quase todos os crânios são dolicocéfalos . . . com um rosto bastante curta . . .” * – Dolicocefalia e rosto curto são características Negras.

[* – Ibid., P. 411.]
Ainda mais importante é ainda outra passagem de Pittard, provando mais conclusivamente que a classe alta da sociedade Cartaginesa era Negro ou Negróide:

Aqueles que visitaram recentemente o Museu Lavigerie em Cartago irão se lembrar daquele magnífico sarcófago da Sacerdotisa de Tanit, descoberto pelo Padre Delattre [Father Delattre]. Aquele sarcófago, o mais ornamentado, o mais artístico já encontrado, cuja imagem externa representa, provavelmente, a própria deusa, deve ter sido a sepultura de uma personagem religiosa muito elevada. Bem, a mulher enterrada lá tinha características Negras. Ela pertencia à raça Africana! (P. 410).

A conclusão de que o autor traça a partir desta passagem é que várias raças coexistiram em Cartago. Obviamente, nós concordamos. No entanto, há uma conclusão que o autor não traça, mas que é ainda mais convincente: Entre as várias raças em Cartago, aquela mais altamente colocada socialmente, a mais respeitada, aquela que detinha as alavancas do comando político, aquela à quem eles deviam aquela civilização, se formos julgar pelas provas materiais apresentadas em vez de interpretá-las de acordo com preconceitos que nos têm sido ensinados, era a raça Negra.

Se uma bomba atômica destruísse Paris, mas deixasse os cemitérios intactos, os antropólogos ao abrir os túmulos para determinar como os Franceses eram, iriam semelhantemente descobrir que Paris era habitada não só por Franceses. Por outro lado, seria inconcebível que o corpo enterrado no mais belo túmulo, tão excepcional como aquele de Napoleão em os Inválidos, fosse o de um escravo ou algum indivíduo anônimo.

Conseqüentemente, se alguém realmente quisesse fazer isso, a raça Fenícia, e todas as outras relacionadas raças Negras a quem a humanidade deve o seu acesso à civilização, poderiam ser muito mais precisamente definidas. Nós poderíamos mesmo fazer isto por meios antropológicos, embora a experiência tenha mostrado que é possível sustentar qualquer teoria que se deseje nesse campo. Milhões são gastos na escavação de montes de barro na Mesopotâmia, na esperança de encontrar provas para apontar com certeza e finalidade o berço da civilização na Ásia Ocidental.

Embora aqueles que realizam isto tenham muito pouca esperança de alguma vez alcançar seu objetivo, eles ainda assim continuam, como se a rotina tivesse se tornado um hábito permanente. Em contraste, a localização exata dos túmulos Fenícios é conhecida. Tudo que é necessário é ir e abri-los para obter informações sobre a raça dos cadáveres neles contidos. Mas as chances são grandes de que estes serão tão definitivamente Negros ao ponto tornar a negação impossível, por isso é melhor não tocá-los.

Para descobrir as características antropológicas exatas dos antigos Fenícios, seria necessário examinar os esqueletos nos sepulcros da grande época Fenícia sobre as próprias margens onde Tiro e Sídon desenvolveram o seu poder como centros comerciais. Infelizmente, estes importantes documentos ainda não foram disponibilizados para os etnólogos. Eles irão certamente ser feitos disponíveis algum dia, depois que uma pesquisa sistemática levando à conservação de dados arqueológicos e esqueletos tiver sido realizada.*

[* – Ibid., P. 407.]

Isso foi escrito em 1924; Desde essa data algumas escavações foram feitas na região (escavações em Ras Shamra foram interrompidas em 1939). Muitos documentos foram descobertos por acaso. Os túmulos mais antigos encontrados na Fenícia, aqueles em Byblos, que provavelmente datam da época Eneolítica (Calcolítica) [Eneolithic (Calcolithic)], foram desenterrados por Dunand. Eles revelam um tipo humano que o Dr. Vallois classifica na raça Mediterrânea marrom de Sergi [Sergi’s brown Mediterranean race]. Agora, esta então-chamada raça Mediterrânea marrom não é outra além da raça Negra. Além disso, alguns dos crânios apresentam uma deformidade encontrada hoje apenas entre os Pretos Mangbetu do Congo (cf. Contenau, La Civilisation phénicienne,
p. 187).

.

 

          Arábia

 

De acordo com Lenormant, * –

[* -. Les Phéniciens, pp. 368ff. Lenormant obteve esta informação a partir de al-Masudi, Les Prairies d’or. Paris: Imprimerie impériale, 1861-1917. 9 vols.]

um Império Kushita existiu originalmente em toda a Arábia. Esta foi a época personificada pelos Aditas de Ad [Adites of Ad], netos de Ham [Cam], o ancestral Bíblico dos Negros. Cheddade, um filho de Ad e construtor do lendário “Paraíso Terrestre” [“Earthly Paradise”] mencionado no Alcorão, pertence à época chamada de aquela dos “Primeiros Aditas” [ “First Adites”]. Este império foi destruído no século XVIII A.C. por uma invasão de rudes, tribos Jectanidas brancas [white Jectanide tribes], que aparentemente vieram a se estabelecer entre os Pretos.

Em pouco tempo, no entanto, o elemento Kushita recuperou o controle político e cultural. As primeiras tribos brancas foram completamente absorvidas pelos Kushitas. Esta época foi chamada de aquela dos “Segundos Aditas” [“Second Adites”]. (Cf. Lenormant, pp. 260-261.)

Esses fatos, sobre os quais até mesmo autores Árabes concordam, provam, como se tornará em breve mais evidente, que a raça Árabe não pode ser concebida como qualquer coisa além de uma mistura de Pretos e Brancos, um processo que continua ainda hoje. Esses mesmos fatos também provam que traços comuns à cultura Preta e à cultura Semita foram tomados emprestados dos Pretos. O reverso é historicamente falso.
Tentar explicar o mundo Egípcio Negro pelo chamado mundo Semita deve ser impossível, com base em não mais do que algumas semelhanças gramaticais, tais como conjugações sufixais, sufixos pronominais e o t para o feminino.

O mundo Semítico, como nós o concebemos hoje, é demasiado recente para explicar o Egito. Como nós temos visto, antes do século XVIII A.C., somente Negros (Kushitas, na terminologia oficial) eram encontrados na região da Arábia.
Infiltrações antes do segundo milênio foram relativamente insignificantes. O Egito conquistou o país durante os primeiros séculos dos Segundos Aditas [Second Adites], sob a minoria de Tutmés III [Tuthmosis III]. Lenormant acredita que a Arábia é a terra de Punt e da Rainha de Sabá.
Devemos lembrar ao leitor que a Bíblia coloca Put, um dos filhos de Ham [Cam], naquele mesmo país.
No oitavo século A.C., os Jectanidas [Jectanides], tendo-se tornado forte o suficiente, tomaram  o poder da mesma maneira – e durante o mesmo período – que os Assírios ganharam controle sobre os Babilônios (também Kushitas):

Embora eles compartilhassem os mesmos costumes e a mesma língua, os dois elementos que formaram a população do sul da Arábia permaneceram bastante distintos, com interesses antagônicos, assim como na bacia do Eufrates, os Assírios e Babilônios, o primeiro dos quais [Assírios] eram da mesma forma Semitas , e o segundo [Babilônios], eram Kushitas. . . .

Enquanto o império dos Segundos Aditas durou, os Jectanidas estiveram sob os Kushitas. Mas um dia veio quando eles se sentiram fortes o suficiente para se tornarem mestres por sua vez. Liderados por Iârob, eles atacaram os Aditas e foram capazes de superá-los. Esta revolução é geralmente datada no início do século oito A.C.. *

[* – Lenormant, Ibid., P. 373.]

Lenormant relata que após a vitória Jectanida, alguns dos Aditas atravessaram o Mar Vermelho em Bab el Mandeb para se estabelecer na Etiópia, enquanto os outros permaneceram na Arábia, refugiando-se nas montanhas de Hadramaut e em outros lugares. Esta é a origem do provérbio Árabe: “Dividido como os Sabeus” [“As divided as the Sabeans”], e por que o sul da Arábia e a Etiópia tornaram-se inseparáveis lingüisticamente e etnograficamente. “Muito antes da descoberta da língua e inscrições Himiaríticas [Hymyaritic], tinha sido notado que o Ge’ez [Ghez], a língua Abissínia, é um remanescente vivo da antiga língua do Iêmen.” *

[* – Ibid., P. 407.]

Tais eram as relações entre essas duas regiões. Mas nós estamos muito longe de qualquer noção de uma migração por uma raça branca civilizatória durante o período pré-histórico, através de Bab el Mandeb ou de qualquer outro lugar. Podemos ver o quão inadmissíveis são as teorias linguísticas Alemãs que repousam sobre tal hipótese. Igualmente inadmissíveis são as teorias que levam o mesmo pressuposto (Capart) para explicar a origem da escrita Egípcia, cujos símbolos essenciais na realidade representam a flora e a fauna do interior Africano, particularmente Núbia, e não Baixo Egito. Capart supõe que uma hipotética raça Semita branca veio do interior Africano via Bab el Mandeb, ficou lá um longo tempo, e ensinou os nativos a escrever. Do que foi dito acima, segue-se que nenhum fato histórico apóia essa teoria.

As migrações conhecidas ocorrendo na região são muito mais recentes do que o alvorecer da civilização Egípcia e a invenção da escrita hieroglífica. Mas uma vez que o objetivo é sempre o mesmo, e é sempre uma questão de, por qualquer meio, atribuir o menor fenômeno de civilização na África Preta para alguma raça branca, mesmo uma raça branca mítica, um processo matemático é utilizado: a extrapolação.
A partir do fato de que uma recente migração de Aditas Negros (século oito A.C.) teve lugar nesta área, alguém supõe que deve ter havido migrações Semitas lá, mesmo embora nós não tenhamos qualquer vestígio de nenhuma. A hipótese de trabalho é transformada em uma ‘realidade’, e o enigma é ‘resolvido’. É assim que é possível explicar a civilização Egípcia por puras abstrações que não têm nada a ver com fatos históricos; assim são os confiantes porém não-iniciados enganados [thus are the trusting but uninitiated deceived].

 

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Instituições e Costumes do Reino Sabeu
[Institutions and Customs of the Sabaean Kingdom]

De acordo com o mesmo autor, o sistema de castas, alheio para os Semitas, era a base da organização social em Saba (o Sabá Bíblico) [the Biblical Sheba], como na Babilônia, Egito, África, e o reino de Malabar na Índia. *1 – “Este regime é essencialmente Kushita e onde quer que o encontremos, é fácil de detectar que ele veio originalmente daquela raça. Nós vimos que ele floresceu na Babilônia. Os Aryas da Índia, que o adotaram, tomaram emprestado das populações Kushitas que os tinham precedido nas bacias dos rios Indus e Ganges.” *2 –

[*1 – Longe de ter introduzido o sistema de castas na Índia, os Árias parecem tê-lo adotado, como Lenormant observa. Se este sistema repousasse sobre uma base étnica, deveria ter havido, no máximo, quantas castas quanto raças; mas tal não foi o caso. De acordo com os escritores antigos, Estrabão, em particular, o sistema surgiu diretamente a partir da divisão do trabalho na sociedade, como é o caso entre todos os outros Kushitas. Estrabão lista da seguinte forma as sete castas então existentes:
1. filósofos; 2. agricultores; 3. pastores e caçadores; 4. artesãos e operários; 5. soldados; 6. aqueles que percorrem o país para informar o rei sobre o que está acontecendo; 7. assessores e cortesãos do rei. (Bk. 15, Cap. 1, par. 29-38.)
Estrabão afirma que as castas não se misturavam, mas também não havia ainda nenhuma menção de “párias”. Assim, este sistema de castas parece resultar de uma recente transformação da sociedade Indiana com o declínio da supremacia Dravidiana.
Os textos em que a existência de uma casta intocável na mais remota Antiguidade é baseada são provavelmente apócrifos.
Um Dravidiano pode ser um Brâmane, em outras palavras, um Negro pode pertencer à mais elevada classe ou casta na sociedade. Isto continua verdadeiro, não importa o quão longe de volta no tempo possa-se ir. Por isso, é absurdo tentar atribuir uma base étnica para o sistema de castas.
Parece que Buda era um sacerdote Egípcio, afugentado de Memphis pelas perseguições de Cambises. Esta tradição justificaria o retrato de Buda com cabelo lanoso [woolly hair].
Documentos históricos não invalidam esta tradição. “Koempfer, em sua Histoire du Japon [História do Japão], alega que o Saçya Buda da Índia era um sacerdote de Memphis, que fugiu do Egito quando Cambises o invadiu. . . . Koempfer queria reduzir tudo a uma idéia dominante: A difusão de doutrinas Egípcias na Ásia por sacerdotes de Tebas ou Memphis exilados por Cambises ou fugindo de sua perseguição. Um autor moderno obteve os mesmos resultados por outro caminho. William Ward, que publicou há alguns anos uma vasta compilação de vários documentos sobre a religião, história e literatura Hindus, baseado em extratos de livros em Sânscrito, incluindo um relato biográfico de Buda, estabelecendo que ele não poderia ter aparecido até o sexto século A.C. . . . Buda recebe o sobrenome Goulama [ou Gautama], que é aquele da raça usurpadora.” (M. de Marlès, Histoire Générale de l’Inde [História Geral da Índia]. Paris, 1928, I, 470-472.)
Há um consenso geral hoje em colocar no século sexto não só Buda, mas todo o movimento religioso e filosófico na Ásia, com Confúcio na China, Zoroastro no Irã. Isto confirmaria a hipótese de uma dispersão de sacerdotes Egípcios naquela época espalhando sua doutrina na Ásia. é difícil explicar esse movimento religioso por uma evolução simultânea dos diferentes países envolvidos.]

[*2 – Lenormant, op. cit. p. 384.]

A circuncisão era praticada. “Lokman, o representante místico da sabedoria Adita, se assemelha a Esopo [Aesop], cujo nome parece para o Sr. Welcker indicar uma origem Etíope. Na Índia também, a literatura dos contos e fábulas parece vir a partir dos Sudra [classe mais baixa de Hindus].
Talvez este tipo de ficção, caracterizado pelo papel desempenhado pelos animais, é um gênero literário peculiar aos Kushitas.” *

[* – Ernest Renan, Histoire des langues sémitiques [História de línguas semíticas], citado por Lenormant, p. 385.]

Deve ser notado de passagem que, Lokman, que pertence ao segundo período dos Aditas, é também o construtor da famosa barragem em Mareb [dam at Mareb], cujas águas “suficientes para irrigar e fertilizar a planície a uma distância de sete dias de caminhada da cidade. . . . Ainda existentes hoje são suas ruínas as quais vários viajantes têm visitado e estudado.” *

[* – Lenormant, Ibid., P. 361.]

Os Jectanidas [Jectanides], “que, na época sua chegada, eram ainda um pouco mais do que bárbaros”, não introduziram nada além de um sistema de tribos pastorais e feudalismo militar (cf. Lenormant, p. 385). A religião era de origem Kushita e parecia emanar diretamente do culto Babilônico.
Ele permaneceria o mesmo até o advento do Islã. Os deuses Sabeus [Sabaean gods] eram praticamente os mesmos que os deuses Babilônicos e todos pertenciam à mesma família Kushita de divindades Egípcias e Fenícias. . . . A única Tríade reverenciada era: Vênus-Sol-Lua, como na Babilônia.
O culto tinha um pronunciado caráter sideral, especialmente solar: eles oravam para o sol nas diferentes fases do seu curso. Não havia nem idolatria, nem imagens, nem sacerdócio.
Eles dirigiam uma invocação direta aos sete planetas.
O período de 30 dias de jejum já existia, como no Egito. Eles oravam sete vezes a cada dia, com o rosto voltado para o norte. Estas orações para o sol em horas diferentes lembram um pouco as orações Muçulmanas que ocorrem durante as mesmas fases, mas que foram reduzidas pelo Profeta para cinco orações obrigatórias “para aliviar a humanidade”; as outras duas orações são opcionais.

Havia também fontes e pedras sagradas, como nos tempos Muçulmanos: Zenzen, uma fonte sagrada; Kaaba, uma pedra sagrada. A peregrinação à Meca já existia. A Kaaba foi reputadade ter sido construída por Ismael, filho de Abraão e Agar [Hagar], a Egípcia (uma mulher Negra), antepassados históricos de Maomé, de acordo com todos os historiadores Árabes. Como no Egito, a crença em uma vida futura já era predominante. Ancestrais mortos eram deificados. Assim, todos os elementos necessários para o florescimento do Islã estavam no local a mais de 1.000 anos antes do nascimento de Maomé. O Islã apareceria como uma purificação do Sabeanismo [Sabaeanism] pelo “Mensageiro de Deus”.

Então nós temos visto que o povo Árabe inteiro, incluindo o Profeta, é miscigenado com sangue Negro. Todos os Árabes educados são conscientes desse fato. O fabuloso herói da Arábia, Antarah [Antar], é ele próprio um mestiço [mixed-breed]:

Apesar da importância que atribuem à sua genealogia e à prerrogativa de sangue, os Árabes, especialmente os moradores urbanos sedentários, não mantêm sua raça pura de qualquer mistura. . . .
Mas a infiltração de sangue Negro, que se espalhou para todas as partes da península e que parece destinada um dia a mudar a raça completamente, começou muito cedo na Antiguidade. Ela ocorreu pela primeira vez no Iêmen, cuja geografia e o comércio colocaram em contato contínuo com a África. . . .
A mesma infiltração foi mais lenta e chegou mais tarde em Hejaz ou em Nedjd. Ainda assim, ela também ocorreu mais cedo, de um modo geral, do que se parece pensar. Antarah [Antar], o herói romântico da Arábia pré-Islâmica, é um mulato pelo lado de sua mãe. No entanto, seu rosto completamente Africano não impediu seu casamento com uma princesa das tribos mais orgulhosas de sua nobreza, tão habituais que tinham se tornado aqueles miscigenados de pele-preta (Melaninados). Eles tinham há muito sido aceitos nos costumes, ao longo dos séculos imediatamente anteriores a Maomé.*
[Nevertheless, his thoroughly African face does not prevent his marriage to a princess of the tribes proudest of their nobility, so habitual had those Black-skinned (Melanian) admixtures become. They had long been accepted in the mores, down through the centuries immediately preceding Mohammed.]

[* – Ibidem, p. 429-430.]

Ao contrário de Lenormant, nós não fizemos nenhuma distinção entre “Kushita” e “Negro” pois, fora de declarações a priori, ninguém jamais foi capaz de distinguir entre os dois. *

[* – Lenormant trai a si mesmo quando ele fala sobre as relações entre Egito e Etiópia: naquela época ele usa Kushita como sinônimo de Negro. Lembremo-nos que Kush é uma palavra de origem Hebraica, que significa Negro.]

Conseqüentemente, é importante mudar nossas noções sobre os Semitas. Seja na Mesopotâmia, Fenícia, ou Arábia, o Semita, tanto quanto ele é objetivamente discernível, aparece como o produto de uma miscigenação Negro-Branco. É possível que os Brancos que vieram a miscigenar com os Negros naquela área da Ásia Ocidental foram distinguidos por certas características étnicas, tais como o nariz Hitita.

O caráter misto das línguas Semíticas poderia ser explicado da mesma forma. Existem raízes comuns para Árabe, Hebraico, Siríaco, e línguas Germânicas. Este vocabulário comum é mais extenso do que pode ser sugerido por esta lista muito curta. Nenhum contato entre Nórdicos e Árabes dentro do período histórico da humanidade explica isto. É uma afinidade étnica, em vez de um empréstimo.

Árabe                Inglês           Alemão

ain                       eye                auge

ard                     earth               erde

asfar                   fair                 fair

beled                  land                land

Qasr                   castle

Em contraste, algumas palavras árabes parecem ser de origem Egípcia:

Árabe                                     Egípcio

Nabi: o Profeta      /             Nab: o mestre, mestre do conhecimento

Nahâs: cobre      /   Nahasi: cobre (tribos Sudanesas têm conhecido o cobre desde a
——————— / —— —–   —  – –  antiguidade remota
Rat: trovão        /                    Ra: deus celestial, atmosférico

El Baraka: bênção divina /   Ba-Ra-Ka: bênção

É ainda mais absurdo explicar a criação do Império de Gana no século III A.C. como uma contribuição Semita do Iêmen, pois naquela época o Iêmen era uma colônia Negro Etíope e assim permaneceu até o nascimento de Maomé. Em qualquer caso, se permanecermos no reino dos fatos conclusivos, é impossível provar que a civilização de quaisquer dessas regiões tenha precedido aquela do Egito; é impossível explicar a segunda pela primeira.

Os novos métodos radioativos utilizados em monumentos e objetos só farão sentido se sucederem em datar a obra do homem sobre a matéria, e não a idade da matéria empregada. Seria fácil de encontrar, em qualquer lugar na terra, um fragmento de planta datando da remota pré-história. Estamos nos referindo aqui ao método Americano baseado no período decrescente do radioativo Carbono-14.

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                        CAPÍTULO IV

A Raça Egípcia como Vista e
Tratada pelos Antropólogos

Uma vez que este problema é essencialmente antropológico, poderíamos ter esperado os antropólogos para resolvê-lo de uma vez por todas, com positivas verdades definitivas. Longe disso! A natureza arbitrária dos critérios utilizados – para mencionar esse fato apenas – produz conclusões não geralmente aceitáveis e apresenta tantas “complicações acadêmicas” que nós às vezes nos perguntamos se a solução não poderia ter sido mais fácil tivessem os antropólogos sido ignorados por completo.

E, no entanto, embora as conclusões dos estudos antropológicos sejam irrealistas, elas não deixam de testemunhar esmagadoramente a existência de uma raça Preta das épocas mais remotas da pré-história até a época dinástica.
É impossível citar todas essas conclusões aqui; eles foram resumidas no capítulo X do Préhistoire et proto-histoire d’Egypte [pré-história e proto-história do Egito], (Paris: Institut d’Ethnologie, 1949.) do Dr. Emile Massoulard.
Aqui está uma amostra (pp. 402-403.):

A Senhorita Fawcett acredita que os crânios de Naqada [Naqada crania] são suficientemente homogêneos para justificar se falar de uma raça Naqada [Naqada race]. Pela altura do crânio, a altura auricular, a altura e largura da face, a altura do nariz, os índices cefálicos e faciais, esta raça apresenta afinidades com Negros. Pela largura nasal, a altura da órbita, o comprimento do palato, e índice nasal, ela apresenta afinidades com os Germânicos. . .
Em algumas feições, Naqada pré-dinástica provavelmente se assemelhava a Negros; em outras, eles provavelmente se assemelhavam a brancos.

As características comuns aos Negros e a raça Egípcia pré-dinástica de Naqada são básicas em contraste com àquelas que partilham com os Germânicos. Para esse assunto, se fôssemos julgar pelo “índice nasal” de duas raças Pretas, os Etíopes e os Dravidianos, eles também apresentariam afinidades com os Germânicos. Deixando-nos pendurados entre esses dois extremos, a raça Negra e a raça Germânica, estas medições indicam a elasticidade dos critérios utilizados. Vamos citar um desses critérios:

Thompson e Randall MacIver procuraram analisar mais cuidadosamente a importância do fator Negróide na série de crânios de El Amrah, Abydos, e Hou. Eles os dividiram em três grupos: 1. crânios Negróides (aqueles cujo índice facial é menor do que 54 e índice nasal acima de 50, isto é, com rosto largo, baixo, e nariz largo); 2. crânios não-Negróides (aqueles com índice facial acima de 54 e índice nasal abaixo de 50; rosto fino, alto, e nariz estreito); 3. crânios intermediários (aqueles que pertencem a um dos dois primeiros grupos pelo seu índice facial e ao outro grupo por seu índice nasal, bem como aqueles na fronteira entre os dois grupos). Na época pré-dinástica remota, a proporção de Negróides seria de 24% entre homens e 19% entre mulheres; na época pré-dinástica posterior, 25% e 28%, respectivamente.

Keith contestou a validade do critério usado por Thompson e Randall MacIver para separar os crânios Negróide dos não-Negróides. Ele estimou que, se quaisquer séries de crânios dos atuais Ingleses fossem examinados pelo mesmo critério, seriam encontrados 30% Negróides. *

[* – Massoulard, op. cit., pp. 420-421].

Inversamente, pode-se dizer que, se o mesmo critério fosse aplicado aos 140 milhões de Negros na África Preta, hoje, um mínimo de 100 milhões de Pretos iriam sair “embranquecidos” [“whitened”] por esta medição. Além disso, a distinção entre Negróides, não-Negróides, e os intermediários não é clara. Na realidade, ‘não-Negróide’ não é o equivalente de Branco, e “intermediário” ainda menos.

“Falkenburger continuou o estudo antropológico da população Egípcia em um recente trabalho baseado em 1.787 crânios masculinos datando do início do pré-dinástico até o presente. Ele distinguiu quatro grupos principais” (ibid., P. 421).
A distribuição dos crânios pré-dinásticos entre aqueles quatro grupos foi reportada como se segue:

Negróides 36%, Mediterrâneos 33%, Cro-Magnóides 11%, e 20% de indivíduos pertencendo a nenhuma dessas três categorias, mas relacionados ou aos Cro-Magníides (tipo AC) ou aos Negróides (tipo BC). A proporção de Negróides é claramente maior do que aquela de Thomson e Randall MacIver a qual Keith todavia considerou excessiva.

São as estatísticas de Falkenburger realistas? Não cabe a nós decidir. Se elas forem precisas, a população pré-dinástica, ap invés de representar uma raça pura, como Elliot Smith alegou, era composta de pelo menos três elementos raciais diferentes: mais de um terço Negróide, um terço Mediterrânea, um-décimo Cro-Magnóide, e um-quinto de indivíduos mais ou menos mistos (ibid., p. 422).

Apesar de suas diferenças, estas conclusões atestam para a fundação Negra da população Egípcia na época pré-dinástica.
Elas são incompatíveis com a noção de que os Pretos não infiltraram para o Egito até mais tarde. Pelo contrário, os fatos provam que o elemento Preto foi preponderante desde o início até o fim da história Egípcia, especialmente quando se acrescenta que “Mediterrâneo” não é sinônimo de “Branco”. Em vez disso, provavelmente se refere à “raça marrom ou mediterrânica” de Elliot Smiths; “Elliot Smith faz desses primeiros Egípcios um ramo do que ele chama de a raça marrom, a qual não é outra ssenão a ‘raça Mediterrânea ou Eurafricana’ de Sergi (ibid., P. 418). O epíteto “marrom” aqui se refere à cor da pele e é apenas um eufemismo para Negro. Assim, é claro que a inteira raça Egípcia era Negra, com uma infiltração de Brancos nômades durante o período Amratiano.

O estudo de Petrie sobre a raça Egípcia revela uma imensa possibilidade de classificação que certamente irá surpreender o leitor:

Petrie publicou um estudo sobre as raças do Egito no pré-dinástico e proto-dinástico em que ele toma apenas representações em consideração. Além do esteatopígico [steatopygic], ele distingue seis diferentes tipos: o tipo aquilino, característico de uma raça Líbia de pele-branca; o tipo com barba tançada, pertencente a uma raça de invasores talvez das margens do Mar Vermelho; o tipo com nariz pontudo, sem dúvida, do deserto Árabe; o tipo com nariz inclinado [tilted nose], do Médio Egito [Middle Egypt]; o tipo com barba projetada bem na frente [beard sticking straight out in front], do Baixo Egito; o tipo com septo nasal reto [straight nasal septum], do Alto Egito. A julgar por essas representações, haviam sete tipos raciais diferentes no Egito durante as épocas consideradas. Nas páginas seguintes, veremos que um estudo dos esqueletos dificilmente autoriza tais conclusões (ibid., P. 391).

Esta classificação mostra o quão frívolos e injustificados foram os critérios aplicados para descrever a raça Egípcia. Eu tinha a intenção de analisar microscopicamente a densidade dos poros na epiderme de múmias, mas a oferta limitada de amostras não teria produzido qualquer conclusão válida em uma escala abrangendo a população Egípcia inteira.

Em qualquer caso, podemos ver que a antropologia tem falhado em estabelecer a existência de qualquer raça Egípcia Branca; se alguma coisa, ela tenderia a estabelecer o contrário. No entanto, em livros didáticos atuais [current textbooks], o problema é suprimido; na maioria das vezes eles simplesmente tomam sobre si mesmos para afirmar categoricamente que os Egípcios eram Brancos. Todos os leigos honestos, então, têm a impressão de que tal afirmação deve, necessariamente, ser baseada em estudos sólidos realizados anteriormente. Mas isto, como vimos, simplesmente não é verdade. Esta é a forma como as mentes de tantas gerações têm sido deformadas.

No sul do Quadrante Noroeste está o populoso mundo preto da África, separado da Grande Raça Branca por uma intransponível barreira de deserto, o Saara, que forma uma parte tão importante das Planícies do Sul. Assim isolados e ao mesmo tempo incapacitados por eras de vida tropical para qualquer intrusão efetiva entre a Raça Branca, o negro e os povos negróides permaneceram sem qualquer influência sobre o desenvolvimento da civilização primitiva. Podemos, então, excluir ambas estas duas raças externas – os Mongolóides de cabelos-lisos, cabeça-arredondada, pele-amarelada, no leste, e os Negróides de cabelos-lanosos, cabeça-longa, pele-escura, no sul – de qualquer parte nas origens ou posterior desenvolvimento da civilização. *

[* – Breasted, op. cit., p. 113.]

Isso é típico de declarações atuais em livros didáticos de hoje. A natureza ditatorial da afirmação de Breasted é igualada somente pela ausência de qualquer fundamento, pois o autor é pego em sua própria contradição ao afirmar, por um lado, que o Sahara tinha sempre separado os Negros do Nilo e, por outro lado, que este vale era a sua única estrada para o norte. Um olhar sobre o mapa de África mostra que alguém pode ir, a partir de qualquer ponto do continente, para o Vale do Nilo sem atravessar um deserto.

As idéias de Breasted resultam de uma concepção errônea do povoamento do continente. Ao invés de lá ter havido sempre Pretos por toda a África estagnando em pequenos grupos enquanto a civilização Egípcia estava desenvolvendo, uma massa de evidência nos inclina a acreditar que os Pretos primeiro popularam aquele vale antes de se espalhar em todas as direções em migrações sucessivas. Isso também é atestado pelos dados antropológicos já citados, indicando a presença do Negro no vale do Nilo tão cedo quanto tempos pré-históricos. Além disso, o caráter Negro da civilização Egípcia, como é reconhecido hoje, exclui qualquer possibilidade de que esta civilização fosse um monopólio da raça branca. Numerosos autores contornam a dificuldade falando de Brancos com a pele vermelha ou Brancos com a pele preta. Isso não parece incongruente para eles pois, tão logo quanto uma raça tenha criado uma civilização, não pode haver mais possibilidade de ser Preta.

Para os Gregos, a África era Líbia. Esta expressão era já imprecisa uma vez que muitos outros povos viviam lá, junto com os então-chamados Líbios, que figuraram entre os Brancos na periferia do norte, ou o Mediterrâneo, se você preferir. Como tal, eles eram distintos de um grande número de segmentos de Brancos com pele marrom ou vermelha (Egípcios) . . . ” *

[* – Pedrals, op. cit., p. 6.]

Em um livro didático para alunos na cinquième (oitava série), lemos: “Um Preto é distinguido menos pela cor de sua pele (pois existem Brancos com pele preta) do que por suas feições: lábios grossos, nariz achatado, etc.” *

[* – Geographie, classe de 5e. Collection Cholley, Ed. Ballière et fils, 1950.]

Somente através de definições semelhantes alguém tem sido capaz de branquear a raça Egípcia, e esta é a prova mais clara de sua Negritude.
[Only by similar definitions has one been able to whiten the Egyptian race, and this is the clearest proof of its blackness.]

A posição de Breasted sobre o problema da raça Egípcia é tipicamente aquela de Egiptólogos contemporâneos que, melhor informados do que os seus predecessores, simplesmente fogem do tópico através de algumas declarações apresentadas como se fossem apoiadas por dados científicos anteriores. É uma fraude intelectual.

*   *   *

Aqui termina a parte crítica deste volume. Nos capítulos anteriores nós analisamos os vários tipos de teses concernindo a origem da raça Egípcia. Cada uma destas teses pertence a um dos diferentes tipos descritos acima. Eu as selecionei, não porque elas são apresentadas por alguma autoridade ou outra, mas porque elas foram desenvolvidas com o número máximo de detalhes para nos permitir expor as contradições intransponíveis que todas elas contêm. Esta análise é, portanto, bastante completa na verdade. O quadro geral que emerge – o fracasso geral de todas essas tentativas para atingir o seu objetivo – não contém o menor fator suscetível de convencer o leitor.

Nós agora seguimos para a parte construtiva deste livro e para apresentar os vários fatos que comprovam a origem Negra dos antigos Egípcios.

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Pg. 134

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                        CAPÍTULO VII

Argumentos Suportando uma Origem Negra

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 Totemismo

Em seu livro, From Tribe to Empire [De Tribo à Império] Moret sublinhou o caráter essencialmente totêmico da sociedade Egípcia. Sua tese foi posteriormente combatida, quase como se fosse temido que graves consequências poderiam inevitavelmente resultar a partir dela. De fato, Frazer foi categórico sobre a origem do totemismo; ele insistiu que este só é encontrado em populações de cor. Não havia nenhuma maneira de aceitar sua tese se alguém esperava demonstrar a origem branca da civilização Egípcia.

Então, tentaram negar o totemismo Egípcio, enquanto procurando vestígios nas então-chamadas populações brancas, tais como os Berberes e Tuaregues. O zelo com que isto foi procurado nesses dois grupos prova que, se a pesquisa tivesse sido bem sucedida, não poderia mais ter havido qualquer dúvida sobre o totemismo Egípcio. Mas a tentativa fracassou: Arnold Van Gennep (1873-1957) não conseguiu detectar qualquer totemismo Berbere.

O debate finalmente derivou para abstração filosófica: dados etnográficos concretos foram transformados em cogitação, em um problema de lógica, em pura contemplação que nenhum fato poderia doravante perturbar por implicação. Sem se aventurar em filosofia, era impossível negar que o caráter “tabu” de certos animais e plantas no Egito corresponde ao totemismo como este existe em toda a África Preta. Por outro lado, tais “tabus” eram estranhos para os Gregos, e outras populações Indo-Européias desconheciam totemismo. Assim, os Gregos zombavam da veneração excessiva do Egípcio por animais e até mesmo por certas plantas.

Após um certo estágio de desenvolvimento social, que pode ser inferior ao nível de desenvolvimento e mistura que o povo Egípcio tinha alcançado, endogamia e totemismo não são mutuamente exclusivas, mas coexistem. Assim, hoje na África Preta, alguns maridos e esposas possuem os mesmos nomes totêmicos: N’Diaye, Diop, Fall, e assim por diante. Hoje em dia, nunca cruza suas mentes que tal prática poderia ter sido tabu. E, no entanto, ambos, marido e esposa são claramente conscientes de serem biologicamente partes da própria essência do mesmo totem. Ambos os companheiros são bem conscientes de compartilhar a mesma essência animal, a mesma essência biológica; eles são conscientes de pertencer originalmente à mesma tribo, tanto assim que muitas vezes lembram um ao outro desse fato. Conseqüentemente, a noção de Van Gennep de que os Egípcios, que muitas vezes se casaram com seus relaltivos próximos, especialmente suas irmãs, não poderiam ser totemistas, é definitivamente refutada aqui. Casamento com a própria irmã deriva de outro traço cultural igualmente difundida no mundo Preto: matriarcado [matriarchy], que será discutido brevemente.

Quando exogamia estava em vigor, uma espécie de relação era finalmente estabelecida entre clãs que contraiam casamento com o outro (entre dois, ou entre três, quatro ou mais clãs). A memória dessa relação pode explicar hoje, por exemplo, o Kal, um relacionamento de clã hipotético na sociedade Wolof autorizando o ridículo recíproco.

Apesar de estudos que tentam expandir a noção de totemismo, podemos dizer, com Frazer, que este está ausente de populações brancas. Caso contrário, teria sido evidente nas últimas hordas de bárbaros brancos que invadiram a Europa no século IV. Essas populações estavam no estágio etnográfico (clã, tribo) quando o totemismo, se presente, investe todos os atos da vida e é evidente em todos os níveis de organização social.
No entanto, nada, na vida dessas hordas, refletia a idéia de uma relação biológica entre homem e animal, seja no indivídual ou no sentido coletivo. Em contrapartida, não se pode negar que o Faraó participava de uma essência animal (o falcão), tal como fazemos hoje na África Preta.

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Circuncisão

Os Egípcios praticavam a circuncisão já em tempos pré-históricos; eles transmitiram esta prática para o mundo Semita em geral (Judeus e Árabes), especialmente para aqueles a quem Heródoto chamou de Sírios [Syrians]. Para mostrar que os Cólquidas [Colchians] eram Egípcios, Heródoto citou estas duas indicações:

Minhas próprias conjecturas foram fundamentadas, em primeiro lugar, no fato de que eles são de pele-preta e têm cabelo lanoso, que certamente conta, mas não muito, uma vez que diversas nações são assim também; mas além disso e mais especialmente, sobre a circunstância de que os Cólquidas [Colchians], os Egípcios e os Etíopes, são as únicas nações que têm praticado a circuncisão desde os mais remotos tempos. Os Fenícios e os Sírios da Palestina confessam que aprenderam o costume dos Egípcios; e os Sírios que moram acerca dos rios Termodonte e Parthenius, bem como os seus vizinhos os Macronianos [Macronians], dizem que o adotaram recentemente a partir dos Cólquidas [Colchians], Ora, estes são os únicos países que usam a circuncisão, e está claro que todos eles imitam nisto os Egípcios. *

[* – History of Herodotus (História de Heródoto), p. 115.]

Antecipando a concordância de todas as mentes lógicas, Eu chamo de Negro * um ser humano cuja pele é preta; especialmente quando ele tem cabelos crespos. Todos os que aceitam esta definição irão reconhecer que, de acordo com Heródoto, que viu os Egípcios tão claramente quanto o leitor está vendo este livro agora, a circuncisão é de origem Egípcia e Etíope, e os Egípcios e Etíopes não eram outros além de Negros habitando regiões diferentes.

[* – A probabilidade de encontrar homens com pele preta e cabelo lanoso, sem qualquer outra característica étnica comum aos Negros, é cientificamente nula. Chamar tais pessoas de “Brancos com pele preta” porque eles alegadamente possuem traços finos, é tão absurdo quanto a denominação “Negros com pele branca” seria se aplicada a três quartos dos Europeus que não possuem feições nórdicas. É por isso que tal atitude é apenas pseudo-científica, mesmo se a pessoa que a adote afirme ser estritamente científica; esta consiste em generalizar a partir de exceções infinitesimais.]

Assim, podemos entender por que os Semitas praticam a circuncisão, apesar do fato de que suas tradições não apresentam qualquer justificação válida para isto. A fraqueza dos argumentos em Gênesis é típica: Deus pede a Abraão (e mais tarde a Moisés) para ser circuncidado, como um sinal de uma aliança com Ele, sem explicar como a circuncisão, considerada do ponto de vista da tradição Judaica, pode levar à noção de uma aliança. Isto é tanto mais curioso porque Abraão teria sido circuncidado com a idade de noventa anos. No Egito, ele havia se casado com uma mulher Negra, Hagar, a mãe de Ismael, o ancestral Bíblico do segundo ramo Semita, os Árabes. Ismael foi dito ser o antepassado histórico de Mohammed. Moisés, também, casou com uma Midianita [Madianite], e foi em conexão com seu casamento que o Eterno lhe pediu para ser circuncidado. O que deve ser observado nestes contos lendários é a idéia de que a circuncisão foi introduzido entre os Semitas apenas como resultado do contato com o mundo Preto – o que está de acordo com o testemunho de Heródoto.

Somente entre os Pretos é que a circuncisão encontra uma interpretação integrada numa explicação geral do universo, em outras palavras, uma cosmogonia. Especificamente, a cosmogonia Dogon *, que Marcel Griaule reporta.

[ * – O grupo étnico Dogon na República do Mali, anteriormente Sudão Francês”.]

Em Dieu d’eau [O Deus da água], ele nos lembra de que, para fazer sentido, a circuncisão deve ser acompanhada pela excisão. Estas duas operações removem algo feminino do sexo masculino e algo masculino do sexo feminino. Para a mentalidade arcaica, uma tal operação se destina a fortalecer o carácter dominante de um único sexo em um determinado ser humano.

De acordo com a cosmogonia Dogon, um bebê recém-nascido é, em certa medida andrógino, como o primeiro deus:

Enquanto mantém o seu prepúcio e clitóris, indicações do sexo oposto para o sexo aparente, masculinidade e feminilidade têm igual força. Assim, não é certo comparar o incircunciso com uma mulher; como uma menina em quem a excisão não foi executada, ele é ambos masculino e feminino. Se essa indecisão sobre seu sexo fosse autorizada a continuar, ele (ou ela) poderia não ter nenhum interesse em procriação. . . .
Estas, então, são as várias razões para a circuncisão e excisão: a necessidade de livrar o filho de uma força maligna, a necessidade de ele (ou ela) pagar uma dívida de sangue e transformar-se definitivamente em direção a um dos sexos. *

[* – Marcel Griaule, Dieu d’eau. Paris: Editions du Chêne, 1948, pp; 187, 189.]

Para esta explicação da circuncisão ser válida, a androginia divina, a causa tradicional deste princípio na sociedade Africana, também deve ter existido na sociedade Egípcia. Só então poderemos ser justificados na identificação das causas rituais da circuncisão entre os Egípcios e no resto da África Preta. De fato, Champollion o jovem, escreve em suas cartas a Champollion-Figeac sobre a androginia divina de Amon, Deus Supremo do Sudão Meroítico e Egito: “Amon é o ponto de partida e o ponto focal de todas essências divinas. Amon-Ra, o Supremo, o Ser primordial, seu próprio pai e denominado o marido de sua mãe, tem sua porção feminina inclusa em sua própria essência, que é ambos masculina e feminina.”

O Nilo é também representado por um personagem andrógino. Amon é também o Deus de toda a África Preta. De passagem, pode-se dizer que no Sudão Meroítico, África Negra, e Egito, Amon está conectado com a idéia de umidade. Seu atributo em todos estes países é o carneiro [ram]. Assim, no volume intitulado significativamente, Dieu d’eau (Deus da água), quando Marcel Griaule escreve sobre o deus Dogon Amma, esta divindade aparece na forma do Deus-Carneiro [Ram-God], com uma cabaça [gourd] entre seus chifres. Na cosmogonia Dogon (Sudão “Francês”), Amon desce do céu em um arco-íris, símbolo da chuva e umidade.

Embora alguns Pretos tenham abandonado a circuncisão, por esquecimento de suas tradições ou por várias outras razões, embora haja uma tendência crescente na África Preta para renunciar à excisão, e embora a circuncisão seja uma operação tecnicamente diferente para Egípcios e Semitas, isso não altera a raiz do problema. No entanto, para a identificação ser completa e o argumento convincente, a excisão deve também ter existido no Egito. Estrabão diz-nos que este era o caso:

“Os Egípcios são um especialmente cuidadosos em criar todos seus filhos e circumcidar os meninos e até mesmo as meninas, um costume comum aos Judeus um povo originário do Egito, como nós observamos quando discutimos esse assunto.”
(Bk. 17, Cap. 1 , par. 29).

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Reinado

[Kingship]

 
O conceito de reinado [kingship] é uma das indicações mais impressionantes da similaridade de pensamento entre o Egito e o resto da África Preta. Deixando de lado tais princípios gerais como a natureza sacrosanta do reinado [kingship] e salientando um traço típico devido à sua estranheza, devemos destacar o assassinato [killing] ritual do monarca.

No Egito, o rei não deveria reinar a menos que ele estivesse bem de saúde. Originalmente, quando sua força diminuia, ele era realmente posto para morrer [put to death]. Mas realeza [royalty] logo recorreu a vários expedientes. O rei era compreensivelmente ansioso para preservar as prerrogativas de sua posição, enquanto submetendo-se à mínima incoveniência possível. Assim, ele foi capaz de transformar a sentença fatal em uma simbólica: a partir de então, quando ficava velho, ele era apenas posto para morrer, ritualisticamente [put to death, ritualistically].

Após o ensaio simbólico, conhecido como o “Festival Sed” [“Sed Festival”], o monarca era supostamente rejuvenescido, na opinião do seu povo e era mais uma vez considerado apto para assumir suas funções. Daí por diante, o “Festival Sed” foi a cerimônia de rejuvenescimento do rei: ritualísticas morte e revivificação do regente tornaram-se sinônimas e aconteceram durante a mesma cerimônia. (Cf. Charles Seligman’s Egypt and Negro Africa: A Study in Divine Kingship. London: Routledge, 1934. [Egito e África Negra: Um Estudo em Reinado Divino; de Charles Seligman. London: Routledge, 1934.).

O monarca, o ser reverenciado por excelência, era também suposto ser o homem com a maior força vital ou energia. Quando o nível de sua força de vida caia abaixo de um certo mínimo, só poderia ser um risco para o seu povo se ele continuasse a reger. Essa concepção vitalista é a base [foundation] de todos os reinos Africanos tradicionais, quero dizer, de todos os reinos não usurpados.

Algumas vezes isto operava de forma diferente; por exemplo, no Senegal, o rei não poderia governar se tivesse recebido feridas em batalha; ele tinha de ser substituído até a cura. Era durante tal substituição que um irmão paterno, que era filho de uma mulher do povo, tomava o trono. Como Lat-Soukabé, ele iniciou a dinastia Guedj, em torno de 1697.

A prática de substituir o rei sempre que sua força vital diminui, obviamente, decorre dos mesmos princípios vitalistas por todo o mundo Preto. De acordo com estas crenças, a fertilidade do solo, colheitas abundantes, a saúde das pessoas e do gado, o fluxo normal de eventos e de todos os fenômenos da vida, estão intimamente relacionados com o potencial da força vital do regente.

Em outras regiões da África Preta, os eventos ocorrem exatamente como no Egito no que diz respeito ao verdadeiro assassinato [killing] do monarca. Alguns povos ainda definem um limite de tempo, após o qual ele é considerado como sendo incapaz de governar e então é realmente posto para morrer [put to death]. Entre os Mbum da África Central, este prazo é de dez anos e a cerimônia acontece antes da temporada de milheto [millet]. *

[ * – Baumann & Westermann, Les Peuples et civilizations de l’Afrique, followed by Les Langues et l’éducation. Paris: Payot, 1948, p. 328.]

Os seguintes povos ainda praticam a morte ritual do rei: os Yoruba, Dagomba, Shamba, Igara, Songhay, os Hausa de Gobir, Katsena, e Daura, e os Shilluk. Esta prática também existiu na Meroë antiga, ou seja, Núbia, Uganda-Ruanda.

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Cosmogonia

Cosmogonias Negras, Africana e Egípcia, se assemelham tão próximo uma da outra que elas são muitas vezes complementares. Para compreender certos conceitos Egípcios, deve-se referir ao mundo Preto, como é atestado pelo que dissemos sobre reinado [kingship]. Neste último caso [cosmogonias], basta ler o estudo de Father Tempels, Filosofia Bantu [Father Tempel’s study, Bantu Philosophy (published in translation by Présence Africaine in 1959)] (publicado em tradução pela Présence Africaine, em 1959). Este apresenta uma análise sistematizada do vitalismo Negro, que, segundo Father Tempels, serve como a base [fundamento] dos atos diários dos Bantu.

Esta similaridade de maneiras, costumes, tradições, e pensamento já foi suficientemente sublinhada por diversas autoridades. Talvez seria necessário mais do que uma vida inteira para relatar todas as analogias entre o Egito e o mundo Preto, tanto é verdade que eles são um e o mesmo. Paul Masson-Oursel enfatizou o caráter Negro da filosofia Egípcia:

Ao aceitar isso [esta filosofia] o intelectualismo nascido de Sócrates, Aristóteles, Euclides, e Arquimedes , corresponde-se à mentalidade Negra que o Egiptólogo percebe como pano de fundo para os refinamentos de uma civilização na qual ele se maravilha. . . . Aventurando-se a expressar o que deve ser um clichê – o aspecto Africano da mente Egípcia – nós podemos usá-lo para explicar mais do que um de seus traços culturais. *
[ * – Paul Masson-Oursel, La Philosophie en Orient, supplement to Emile Bréhier’s Histoire de la philosophie, p. 42.]

Esta identidade da cultura Egípcia e Negra, ou melhor, esta identidade de estrutura mental, como observado por Masson-Oursel, faz da mentalidade Negra a característica básica da filosofia Egípcia; . . . [uma que] deveria ser óbvia para qualquer pessoa de boa-fé.

A unicidade da cultura Egípcia e Preta não pode ser afirmada com mais clareza. Devido a esta identidade essencial de gênio, cultura e raça, hoje todos os Negros podem legitimamente traçar a sua cultura para o Egito antigo e construir uma cultura moderna sobre essa base. Um dinâmico contato moderno com a Antiguidade Egípcia permitiria aos Pretos descobrir cada vez mais a cada dia a relação íntima entre todos os Pretos do continente e a mãe Vale do Nilo. Por este contacto dinâmico, o Negro será convencido de que esses templos, essas florestas de colunas, estas pirâmides, estes colossos, estes baixos-relevos, matemática, medicina e toda esta ciência, são, de fato, o trabalho de seus ancestrais e que eles têm um direito e um dever de reivindicar essa herança.

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Doravante, neste tipo de pesquisa tão inestimável para a investigação do pensamento, estamos começando a perceber que uma grande parte do continente Preto, ao invés de ser rude e selvagem como foi suposto anteriormente, lançou a sua influência em muitas direções através da imensa isolação de deserto ou floresta, uma influência que veio do Nilo e passou através de Líbia, Núbia, e Etiópia.” *

[* – Ibid., P. 43]

No que diz respeito ao processo de encarnação do Octóade e Enéade (oito ou nove ancestrais divinizados) dos Dogon, e o Octóade e Enéade Egípcio, seria quase necessário reproduzir aqui páginas inteiras de Dieu d’eau[Deus da Água] de Griaule. Em ambos os casos, quatro casais são engendrados pelo deus primitivo; eles são os autores da criação e civilização. Isto sugere como o número oito se tornou a base do sistema numérico dos Dogon; assim 80 é o equivalente de 100, e 800 o equivalente de 1,000.

Isso também nos ajuda a entender como o culto dos ancestrais tornou-se o fundamento da cosmogonia na África Preta assim como no Egito. Enquanto os ancestrais mais distantes são destacados de alguma maneira quase como um vapor para alcançar os céus, os mais próximos, aqueles que apenas acabaram de morrer e cuja memória ainda não está vaga o suficiente para que eles sejam os antepassados de todo um povo, esses ancestrais mais próximos são apenas semi-deuses familiares. Com o advento do período histórico, quando a diligência no registro de eventos já não permitiu imprecisão, o processo de deificação torna-se um pouco restrito. O culto dos ancestrais continua, mas, doravante, eles permanecem personagens mais ou menos históricos.

Poderíamos, por exemplo, insistir na similaridade entre o Deus-serpente dos Dogon e o Deus-serpente do Panteão Egípcio. Cada um destes dança no escuro. De fato, Amélineau escreve que o Deus-serpente é chamado de “Aquele que dança nas sombras.” [“the one who dances in the shadows.”] Isto se refere à serpente em uma inscrição em um sarcófago no Museu de Marselha, uma inscrição que acompanha a representação do túmulo de Osiris (Prolégomènes, p. 41). No Panteão Dogon, o sétimo ancestral, transformado em uma serpente, foi morto por seus homens; sua cabeça foi enterrada sob a almofada do ferreiro [beneath the blacksmith’s cushion]. A partir deste sepulcro o Ancestral-serpente sobe para dançar subterrâneo (ou seja, na escuridão) e se mover em direção ao túmulo do homem mais velho para devorá-lo (cf. Griaule, op. Cit., P. 62).

Podemos enfatizar essa característica como uma possível indicação de um ritual de canibalismo [man-eating], tal como também pode ser encontrado no Egito no início. Essa característica pode também decorrer dos princípios vitalistas que formam a base [fundamento] da sociedade Negra. Ao assimilar a substância dos outros, a pessoa adquire a força vital deles; isso aumenta a sua invulnerabilidade contra as forças destrutivas do universo.

Da mesma forma, podemos também comparar o incestuoso deus-chacal do Panteão Dogon com o deus-chacal dos Egípcios. Ele é o guardião da lagoa onde os mortos são supostos por serem purificados. Atualmente, no entanto, há uma tendência para assimilar o deus-chacal com um deus-cão [dog-god]. Finalmente, a importância atribuída aos signos do zodíaco na cosmogonia Dogon merece atenção. Quando se é também ciente de que os Dogons conhecem a estrela Sothis (Sirius), se pode recordar que o calendário Egípcio foi baseado no nascer helíaco desta estrela.

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Organização Social

A estratificação social da vida Africana é precisamente aquela do Egito.
No Egito a estratificação era a seguinte:

camponeses,
trabalhadores qualificados [skilled workers],
sacerdotes, guerreiros, e oficiais do governo,
o rei.

No resto da África Preta, nós temos:

camponeses,
artesãos ou trabalhadores qualificados,
guerreiros, sacerdotes,
o rei.

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Matriarcado

[Matriarchy]

 

O sistema matriarcal é a base da organização social no Egito e em toda a África Preta. Por outro lado, nunca houve qualquer prova da existência de um matriarcado paleo-Mediterrâneo, supostamente exclusivamente Branco. Para apoiar esta afirmação, precisamos apenas citar os argumentos de um autor que dedicou 437 páginas a uma vã tentativa de branquear a África Preta:

Sucessão ao trono é regulada em Kano [Nigéria] por matriarcado, um legado paleo-Mediterrânico, até a época da dominação Fulani. Somos informados de que a Rainha de Daura tinha um boi-de-sela [saddle-ox]. Isso nos lembra os costumes dos antigos [Líbios] Garamantes; assim, nós encontramos novamente antiga África Branca com o seu sistema matriarcal. Estreitamente relacionadas são os povos de Kordofan [Sudão] e Núbia, incluindo Teda e Tuareg, bem como os soberanos do Sudão. (Baumann, op. Cit., P. 313.)

Notar-se-á que estas declarações cuja seriedade é igualada apenas por sua imprecisão, seguem a partir de um único fato sem importância: a Rainha de Daura montou um boi-de-sela [saddle-ox]. De passagem, Baumann tem ainda clareado até mesmo os soberanos do Sudão Ocidental, de acordo com um procedimento nazista bem conhecido que consiste em explicar qualquer civilização Africana pela atividade de uma raça branca ou seus descendentes, mesmo que tenhamos que decretar que ‘”Pretos” brancos’ [‘white “Blacks”’] ou ‘Brancos “Vermelho escuro”’ [‘“dark red” Whites’] existem, todos os quais são agrupados sob o conveniente termo “Hamitas” [“Hamites”].

Se o sistema matriarcal, herdado de algum paleo-Mediterrâneo branco, fosse alguma coisa além de uma fantasia mental, este teria durado através dos períodos Persa, Grego, Romano, e Cristão, assim como ele tem continuado até hoje na África Preta. Mas isso, obviamente, não é o caso. Ciro [Cyrus] arranjou sua sucessão com antecedência através da designação de seu filho mais velho, Cambyses, que matou seu irmão mais novo para evitar a concorrência. Na Grécia, a sucessão era simplesmente patrilinial, assim como em Roma.

Na realidade, nunca houve uma tradição monárquica na Grécia. Exceto pelo reinado efêmero de Alexandre, o país nunca foi unificado. Os reis da época heróica dos quais Homero fala, eram apenas governantes de cidades, chefes de aldeia, como Ulisses [Ulysses]. As hostilidades entre essas aldeias pareciam até mesmo infantis: pedras eram atiradas em habitantes de uma cidade vizinha enquanto eles passavam através de outra comunidade. Nos melhores períodos, cidades gregas tais como Atenas eram governadas por aventureiros, comerciantes ambiciosos que ganharam o controle através de intriga. Alexandre era um estrangeiro da Macedônia. A ausência de rainhas na história Grega, Romana, ou Persa, pode ser notada; O Império Bizantino deve ser considerado como um complexo separado. Em contraste, durante essas épocas remotas, rainhas eram freqüentes na África Preta. Quando o mundo Indo-Europeu adquiriu força militar suficiente para conquistar os antigos países que o tinham civilizado, eles se depararam com a feroz resistência inflexível de uma rainha cuja luta determinada simbolizava o orgulho nacional de um povo que, até então, havia comandado outros. Esta foi a rainha Candace, do Sudão Meroítico. *

Ela impressionou toda a Antigüidade por sua postura à frente de suas tropas contra os exércitos Romanos de Augusto César [Augustus Caesar]. A perda de um olho na batalha apenas redobrou sua coragem; o seu furor e seu desprezo pela morte forçaram até mesmo a admiração de um machista [Chauvinist] como Estrabão: “Esta rainha teve coragem acima de seu sexo“.

[* – O nome Meroë não parece derivar de uma raiz Africana. É provavelmente o que os estrangeiros utilizaram após Cambyses para designar a capital da Etiópia (no Sudão). Citando Diodoro, Estrabão relata que a esposa – ou irmã – de Cambyses foi morta na Etiópia e foi enterrada lá quando este conquistador tentou sem sucesso tomar o país à força. O nome dela era Meroë.]

No início da civilização ocidental, os reis francos [Frankish kings] gradualmente adquiriram o hábito de arranjar a sua sucessão antecipadamente, excluindo qualquer noção de matriarcado. Desta forma, no Ocidente, direitos políticos são transmitidos pelo pai – isso não significa que a filha não seja autorizada a recebê-los.

Por outro lado, o matriarcado Negro está tão vivo hoje como esteve durante a Antiguidade. Em regiões onde o sistema matriarcal não foi alterado por influências externas (Islam, etc.), é a mulher que transmite direitos políticos. Isso deriva da ideia geral de que hereditariedade é efetiva somente matrilinearmente.

Outro aspecto típico do matriarcado Africano, um aspecto muitas vezes incompreendido, é o dote pago pelo homem, um costume revertido em países Europeus. Mal interpretado [Misconstrued] na Europa, este costume tem feito as pessoas pensarem que a mulher é comprada na África Preta, assim como um Africano pode dizer que uma mulher compra um marido na Europa. Na África, uma vez que a mulher detém uma posição privilegiada, graças ao matriarcado, é ela quem recebe uma garantia sob a forma de um dote na aliança chamada de casamento. O que prova que ela não é comprada como um escravo, é que ela não é rebitada ao lar conjugal pelo dote; se o marido estiver realmente em falta, o casamento pode ser quebrado dentro de algumas horas após seu desfavor. Ao contrário da lenda, as tarefas menos onerosos são reservadas para as mulheres.

Qual é a origem do matriarcado Negro? Não sabemos ao certo no tempo presente; no entanto, a opinião atual sustenta que o sistema matriarcal está relacionado com agricultura. Se a agricultura foi descoberta por mulheres, como às vezes se pensa, se é verdade que elas foram as primeiras a pensar em selecionar ervas nutritivas, pelo próprio fato de elas permanecerem em casa, enquanto os homens engajavam-se em atividades mais perigosas (caça, guerra, etc. .), isto, juntamente com o matriarcado, explicaria um aspecto importante, mas quase despercebido da vida Africana: A mulher é a dona [mistress] da casa no sentido econômico da palavra. Ela está no comando de todos os alimentos, que ninguém, nem mesmo o marido, pode tocar sem o seu consentimento. Freqüentemente um marido, ao alcance da comida preparada por sua própria esposa, não ousa tocá-la sem a sua autorização. É degradante para um homem entrar em uma cozinha na África Preta.
Conformemente, a mulher exerce uma espécie de ascendência econômica sobre a sociedade Africana, a mais acentuada, porque é tão geralmente aplicada.
A hipótese (de que a mulher descobriu a agricultura) também nos permitiria entender por que as mulheres ainda habitualmente cultivam um pequeno jardim ao redor da cabana. Este é o seu próprio domínio, onde elas cultivam os seus condimentos.

Pode-se supor que a agricultura apareceu em todos os lugares durante o mesmo período, cerca do oitavo milênio a.C.. No entanto, dificilmente em qualquer outro lugar exceto no Saara, nós encontramos vestígios de vida agrícola [farm life] que podem positivamente ser rastreados até aquela época. Esta agricultura era feita por uma raça “Negróide”, “Esteatopígica” [“steatopygic”] (Preta), como Théodore Monod sugere. A agricultura deve ter se espalhado muito cedo sobre toda a zona inter-tropical, desde o Saara até a Índia, talvez tão longe quanto o Lago Baikal, enquanto que as planícies da Eurásia, absolutamente desfavoráveis para a agricultura e a vida sedentária, parecem ter sempre sido o berço do nomadismo. Foi por isso que os Indo-Europeus, moldados pelo seu meio geográfico, vieram a ter visões diametralmente opostas àquelas dos Pretos.

O fim da época Egéia [Aegean epoch] foi marcado pela rejeição do matriarcado Negro, embora os Indo-Europeus tinham sido influenciados por ele em certa medida. Uma vez que matriarcado é uma característica básica de civilização agrícola Negra, seria absurdo esperar que este regule a sucessão em um governo criado por Brancos. E assim, apesar da Tarikh el Fettach, é difícil aceitar essa hipótese. Além disso, Kâti começa o capítulo V de suas Crônicas como segue: “Agora é hora de voltar ao nosso assunto: a biografia de Askia.*1 – Na verdade, pouco poderia ser obtido porque quase todos os contos que precedem são mentirosos“.*2

[*1 –‘Askia’ – Título de vários imperadores de Songhai, o mais famoso dos quais foi Mohammed Touré, Askia o Grande, que reinou de 1493 até 1529.]

[ *2 – Mahmoud Kâti, Tarikh el Fettach, p. 80, French translation by O. Houdas and M. Delafosse. Paris, 1913.]

Muitos muçulmanos Africanos alteram a sua árvore genealógica, acrescentando ramos remontando à Maomé [Mohammed], reivindicando assim ascendência Marroquina [Moroccan ancestry]. Tal deve ter sido a tendência dos príncipes Sara [Sara princes] na Gana antiga quando eles se tornaram Sarakolé, isto é, quando uma infiltração de sangue Árabe, acompanhada de Islamização, marcou a dinastia de Ganesa [Ghanaian dynasty]. Graças a cronistas Árabes da Idade Média, é sabido que os regentes Pretos de Gana reinavam sobre os Berberes-Tuaregues de Aoudaghost, que lhes pagavam tributo. “Aoudaghost” soa curiosamente como uma raiz Germânica; recorda nomes como Visigodos [Visigoths] e ostrogodos [Ostrogoths]. Esta noção se encaixa com a hipótese de uma origem Vândala – Germânica – dos Berberes.

Ibn Battuta, que visitou o Sudão na Idade Média, ficou impressionado com o sistema matriarcal Negro. Ele afirmou ter encontrado um fenômeno semelhante somente nas Índias entre outras populações Pretas: “Eles tomam o nome de seu tio materno, e não o de seu pai. Não são os filhos que herdam de seu pai, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã do pai. Eu nunca encontrei este costume em qualquer outro lugar, exceto entre os infiéis de Malabar, na Índia. “*

[* – Voyage au Soudan, translated by Slane, p. 12.]

Matriarcado [Matriarchy] não deve ser confundido com o reinado das Amazonas Africanas ou aquele das Górgonas [Gorgons]. Esses regimes lendários em que a mulher alegadamente dominava o homem foram caracterizados por uma técnica destinada a rebaixar o sexo masculino: em sua educação, elas evitavam atribuir-lhes tarefas que poderiam desenvolver a sua coragem ou reviver sua dignidade. Ele servia como enfermeira no lugar das mulheres que defendiam a sociedade e tinham seus seios removidos para melhorar o seu ‘arco e flecha’ [archery]. Por pouco que possamos confiar na lenda, somos compelidos a supor uma inicial feroz dominação dos homens sobre as mulheres, talvez uma época de um regime “patriarcal”, seguido pela emancipação das mulheres e um período de vingança, aquele das Amazonas. Esta revolta e vitória das mulheres sobre os homens foi apenas parcial, pois houveram alegadamente apenas duas nações de Amazonas e Górgonas na remota Antiguidade. O fato de que as Amazonas eram cavaleiras intrépidas nos inclina a pensar que elas vieram das planícies da Eurásia, se aquela região é de fato o habitat original do cavalo, como é reivindicado.

O sistema matriarcal adequado é caracterizado pela colaboração e floração harmoniosa de ambos os sexos, e por uma certa preeminência da mulher na sociedade, devido originalmente à condições econômicas, mas aceita e até mesmo defendida pelo homem.

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Pg. 146

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Reinado do Sudão e Egito Meroíticos

[Kingship of Meroitic Sudan and Egypt]

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Se considerarmos que a atual Etiópia * [Ethiopia] não é a Etiópia dos Antigos, que designava essencialmente a civilização Sudanesa de Sennar, devemos reagir contra uma terminologia moderna enganosa que inconscientemente transfere a Etiópia antiga em direção ao leste, para Addis Ababa.

[ * – O termo “Etíope” [“Ethiopian”] foi aplicado essencialmente a populações Pretas, aos Negros civilizados do Sudão Meroítico, bem como à aqueles Negros selvagens que eram seus vizinhos: os Strutophagi (comedores de avestruz), Ictiofagos [Ichthyophagi] (comedores de peixe), “cavaleiros de elefante” [“elephant riders”] , etc. A cor da sua pele não era simplesmente “marronzada”, “avermelhada”, “bronzeada” ou “queimada-de-sol” [“suntanned”], era preta como breu [pitch black], como a do deus Osíris; eles eram livres de qualquer mistura Branca.]

Os reis que expulsaram os Líbios usurpadores do trono do Egito, sob a Vigésima Quinta Dinastia em torno de 750 A.C., eram na realidade monarcas Sudaneses. *

[ * – Eles nunca teriam previsto que uma reversão da situação poderia dia trazer um rei Sudanês para “orgulhar-se” [“take pride in”] no título de Leão de Judá. Menos de 111 séculos os separam da época da Rainha de Sabá; ainda assim, as suas características perfeitamente Negras mostram que a mistura racial dos imperadores da Etiópia, longe de remontar a uma suposta união entre Salomão e a Rainha de Sabá (reinando sobre a Etiópia e uma Arábia colonizada), veio muito mais tarde. Uma passagem lacônico na Bíblia nos informa que a Rainha de Sabá visitou Salomão, foi bem recebida, perguntou-lhe enigmas que ele resolveu, e depois voltou para casa. Nenhum documento histórico conhecido nos autoriza a falar hoje de um casamento entre Salomão e a Rainha de Sabá.]

Em 712 Shabaka ascendeu ao trono do Egito, após expulsar Bochoris, o usurpador. O entusiástico acolhimento [welcome] concedido a ele pelo povo Egípcio, que o viram como o regenerador da tradição ancestral, atesta mais uma vez, em favor daquele parentesco original entre Egípcios e Etíopes Negros. A Etiópia e o interior Africano sempre foram considerados pelos Egípcios como a terra santa [holy land] de onde seus antepassados tinham vindo. Esta passagem de Chérubini indica a reação dos Egípcios ao advento da Dinastia Preto da terra de Kush (o Sudão):

Em qualquer caso, é notável que a autoridade do rei da Etiópia parecia reconhecida pelo Egito, não como a de um inimigo impondo seu governo pela força, mas como uma tutoria [guardianship] convocada pelas orações de um país sofrendo por longo tempo, afligido com anarquia dentro de suas fronteiras e enfraquecido no exterior. Neste monarca, o Egito encontrou um representante de suas idéias e crenças, um zeloso regenerador de suas istituições, um poderoso protetor de sua independência. O reinado de Shabaka foi de fato visto como um dos mais felizes na memória Egípcia. Sua dinastia, adotada sobre a terra dos Faraós, afileira a Vigésima-Quinta na ordem de sucessão de famílias nacionais que ocuparam o trono. *

[ * – Chérubini, op. cit., p. 108.]

Este parentesco de Egito e Núbia, de Mesraim e Kush, ambos filhos de Ham, é revelado por muitos eventos na história Egipto-Núbia. Depois de Chérubini, é a vez de Budge notar que: “Observando em Semma que o templo de Ti-Raka foi dedicado por este rei ao espírito de Osortasen III, tratado como um pai divino, Budge expressou a opinião de que os reis Etíopes locais consideravam os conquistadores Egípcios como seus ancestrais. . . . No entanto, Budge leva em consideração a convicção do Egípcio de que ele estava unido por laços estreitos com o povo de Punt, isto é, com a Etiópia de hoje. . . . Ele observa, finalmente, que os habitantes de Punt foram descritos usando, naquela época muito remota, o tempo da rainha Hatshepsut, a barba trançada peculiar que adorna a face dos deuses em todas as representações Egípcias. ” *

[ * – Pédrals, op. cit., pp. 18-19.]

Esta citação dificilmente nessecita de comentário. O último fator mencionado, a barba trançada, ainda é vista na África Preta. Os Egípcios estavam convencidos, não apenas dos laços estreitos entre dois povos, mas também de um parentesco biológico original, aquele de ter o mesmo ancestral, como os Pretos que então habitaram a terra de Punt. Este foi o ancestral comum que ambos Egípcios e Núbios adoraram como o deus Amon, que, como vimos, é o deus de toda a África Preta hoje.

Até o fim do Império Egípcio, os reis da Núbia (Sudão) portariam o mesmo título do faraó Egípcio, aquele do Falcão da Núbia [Hawk of Núbia]. Amon e Osiris eram representados como pretos-carvão [coal-black]; Isis era uma deusa preta. Somente um cidadão, um nacional, em outras palavras, um Preto poderia ter o privilégio de servir ao culto do deus Min. A sacerdotisa de Amon em Tebas, o lugar sagrado Egípcio por excelência, não poderia ser outra que não uma Sudanesa Meroítica. Estes fatos são básicos, indestrutíveis. Em vão tem a imaginação dos estudiosos procurado encontrar para eles uma explicação compatível com a noção de uma raça Egípcia Branca.

O deus Kush tinha altares em Memphis, Tebas, Meroë sob o nome de Khons, deus do céu para os Etíopes, Hércules para os Egípcios” (Pedrals, p. 29). Em wolof, Khon significa “arco-íris”; significa “morrer” em Serer. “Khon sendo entendido como: morto no outro mundo, mas ainda não tendo atingido a condição divina.” Há também uma terra chamada Khons no Alto Nilo [Upper Nile].

Assim, a Núbia parece estar muito próximamente aparentada ao Egito e o resto da África Preta. Ela parece ser o ponto de partida de ambas civilizações. Portanto, não nos espanta hoje encontrar muitas características civilizatórias comuns à Núbia, cujo reino durou até a Ocupação Britânica, e o restante da África Preta. Logo após o fim da Antiguidade Egipto-Núbia, o Império de Gana elevou-se como um meteoro da foz do Níger até o Rio Senegal, por volta do terceiro século d.C. Vista desta perspectiva, a história Africana prosseguiu sem interrupção. As primeiras dinastias Núbias foram prolongadas pelas dinastias Egípcias até a ocupação do Egito, pelos Indo-Europeus, começando no quinto século a.C. A Núbia permaneceu a única fonte de cultura e civilização até por volta do sêxto século d.C., e, então, Gana apossou-se da tocha do sêxto século até 1240, quando a capital foi destruída por Sundiata Keita. Isto anunciou o começo do Império Mandingo (capital: Mali), sobre o qual Delafosse iria escrever: “todavia, esta pequena aldeia do Alto Níger [upper Niger] foi durante vários anos a principal capital do maior império jamais conhecido na África Preta, e um dos mais importantes que já existiram no universo.” *

[ * – Maurice Delafosse, Les Noirs de l’Afrique, Paris: Payot, 1922. Este foi traduzido por F. Fligeman como The Negroes of Africa (Os Negros da África). Washington, D.C.: Association Publishers, 1931.]

Em seguida veio o Império de Gao, o Império de Yatenga (ou Mossi, ainda existente), os reinos de Djoloff e Cayor (no Senegal), destruídos por Faidherbe * sob Napoleão III.

[ * – General Louis Faidherbe (1818 – 1889), O mais famoso governador Francês do Senegal.]

Na listagem desta cronologia, nós simplesmente quisemos mostrar que não houve interrupção na história Africana. É evidente que, se começando a partir de Núbia e Egito, tivéssemos seguido uma direção geográfica continental, tal como Núbia-Golfo do Benin, Núbia-Congo, Núbia-Moçambique, o curso da história Africana ainda teria parecido ser ininterrupto.

Esta é a perspectiva em que o passado Africano deve ser visto. Tão logo quanto esta seja evitada, as mais eruditas especulações serão dirigidas para o fracasso lamentável, pois não existem especulações frutíferas fora da realidade. Inversamente, a Egiptologia ficará de pé em terra firme apenas quando reconhecer inequivocamente oficialmente a sua base [foundation] Negro-Africana.

Na força dos fatos acima e daqueles que estão a seguir, podemos afirmar com segurança que, enquanto a Egiptologia evitar esta base [foundation] Negra, enquanto se contentar a meramente flertar com ela, como que para provar a sua própria honestidade, a estabilidade dos seus fundamentos será comparável à de uma pirâmide apoiando-se sobre seu cume; ao final dessas especulações eruditas, ela estará ainda dirigida para um beco sem saída.

O que poderia ser mais normal do que encontrar o inteiro Panteão Egipto-Núbio quase intacto na África? Pédrals cita Morié, que relata uma tradição Copta acerca de dois reis; um é não-identificado, o segundo é Rei Shango [Xangô], Iakouta, ou Khevioso (dependendo do dialeto). Este governante, adorado por toda a Costa dos Escravos (Guiné) sob estes diferentes nomes, como o deus do trovão e destruição, foi, de acordo com histórias relatadas pelos Pretos, um rei de Kush, daí o seu sobrenome Obbato-Kouso, Shango. Ele amava apaixonadamente guerra e caça, e suas conquistas o levaram tão longe quanto o Daomé [Dahomey]. Os reis Biri (deus da escuridão) e Aido-Khouedo (deus do arco-íris) foram seus escravos.

Como coloca Morié, este Obba-Kouso nasceu em Ife, uma localidade sobre a qual nosso autor é completamente ignorante. Adornado com o título de, “primogênito do Deus Supremo”, ele nasceu do amor incestuoso de Orougan, deus do sul, e Yemadja, mãe de Orougan, ela própria uma irmã de Agandjou, deus do Espaço. Os irmãos de Chango-Obba-Kouso são Dada, deus da natureza, e Ogoun, deus dos caçadores e ferreiros. Ele tem três esposas: Oya, Osoun, e Oba.
É bastante evidente que Orougan e Yemadja assemelham-se ao casal incestuoso Amon (Kham) e Mout. Seu filho, além disso, tem o sobrenome “Rei de Kush”. É também evidente que Osoun assemelha-se a Asoun, esposa de Toubboum-Set-Typhon, depois desposada por Hor, filho de Mesraim-Osiris, e que Dada se assemelha a Dedan, filho de Kush em uma versão e de Reama em outra versão, com uma incerteza que a Bíblia agrava ainda mais. Finalmente, os Etíopes afirmam que Kush também havia se casado com três mulheres, suas irmãs.
O testemunho de Morié . . . resume um pedaço essencial da tradição comum aos países costeiros no Golfo do Benin (Togo, Daomé, Nigéria), para os Ewe, Guin, Fon e Yoruba. Estes últimos chamam sua cidade santa de Ife. (Pedrals, pp. 30-31).

Este testemunho Morié havia tomado, como Pédrals descobriu, a partir de um livreto traduzido do Árabe e publicado em Paris em 1666 *. [* – L’Egypte de Mourtadi, fils du Gaphiphe.]

A tradição que este revela fora notada pelos Coptas eles próprios, um fato ainda mais importante porque esta tradição combina com aquela encontrada hoje na África Ocidental, entre as populações de Daomé, Togo, Nigéria, etc. Shango e Orougan são deuses da Nigéria e do inteiro Golfo do Benin em geral. Ife, a cidade cujo nome Morié toma a partir dos textos Cópticos sem saber que esta é a cidade santa da Nigéria, mostra a estreita ligação entre a história do Egito e que aquela da África Preta. Orougan, deus do sul, sugere a etimologia de Ouragan (furacão), uma palavra das Índias-Ocidentais [West Indian word], assim, provavelmente de origem Africana, introduzida nas Antilhas pelo voodoo. Yakouta, deus da destruição, sugere o Wolof Iakou, também significando destruição. Note que o rei Mossi é atualmente chamado de “Naba”, que foi também o nome de um monarca que reinou sobre uma parte da Núbia (cf. Pedrals, p. 36).

Durante o reinado de Psammetichus, quando o exército Egípcio foi maltratado, cerca de 200.000 deles, liderados por seus oficiais, passaram do istmo de Suez para o Sudão Núbio para colocar-se ao serviço do Rei de Núbia. Heródoto relatou que o governante Núbio estabeleceu o inteiro exército em terras que cultivou, e seus elementos foram finalmente assimilados pelo povo Núbio. Isso aconteceu numa época em que a civilização Núbia já tinha vários milênios de idade. Conseqüentemente, nós ficamos espantados quando historiadores tentam usar este fato para explicar a civilização Núbia. Pelo contrário, todos os primeiros estudiosos que estudaram a Núbia, mesmo aqueles a quem devemos a descoberta da arqueologia Núbia (como Cailliaud) concluiram que a Núbia teve a primazia.

Os seus estudos indicam que a civilização Egípcia descendeu daquela da Núbia, em outras palavras, Sudão. Como observa Pédrals, Cailliaud baseia este argumento sobre o fato de que no Egito, todos os objetos de culto (portanto, a essência da tradição sagrada) são Núbios. *

[ * – “Antes deixar a Núbia, Eu vou tomar a liberdade de apontar algumas observações capazes de estabelecer a anterioridade de sua civilização para aquela do Egito. Esta questão, ainda sem resposta por documentos históricos, adquire, na minha opinião, muita clareza quando examinamos cuidadosamente os monumentos e produções naturais da Etiópia ou Alta Núbia [Upper Nubia]. Eu não sou tão presunçoso a ponto de pensar que minhas idéias irão eliminar qualquer dúvida sobre um assunto que tem sido a muito tempo controverso; meu único objetivo é inspirar idéias melhores. Eu tenho reportado um grande número de usos antigos que têm continuado na Núbia, mas que não deixaram vestígios no Egito. Não podemos, Eu concordo, tirar disso qualquer prova de que esses usos não nasceram no Egito. Mas se somos capazes de estabelecer que os principais objetos utilizados no culto dos antigos Egípcios eram produtos que pertenciam exclusivamente à Etiópia, alguém será levado a reconhecer que esse culto não foi criado no Egito. É dito justamente que migrações de povos buscando um assentamento seguem rio abaixo. Adotando esta tendência natural não poderíamos nos recusar a concluir que a Etiópia foi habitada antes do Egito. Assim, a Etiópia foi a primeiro a ter leis, artes, escrita, mas estes elementos civilizatórios, ainda brutos e imperfeitos, foram grandemente desenvolvidos no Egito, o que foi favorecido pelo clima, a natureza do solo, e a posição geográfica. No Egito, o cinzel do escultor foi capaz de apresentar de forma mais regular os emblemas das crenças primitivas de seus concidadãos, para decorar aqueles templos, aqueles monumentos que nos surpreendem pela sua solidez imponente [imposign massiveness], da qual o território de Tebas oferece tão magníficos exemplos. Como vários estudiosos têm escrito, Mr. Jomard entre outros, “as artes aperfeiçoadas no Egito retornaram rio acima. . . . Tal, era, de fato minha opinião, em 1816, ao ver os monumentos da Baixa Núbia [Lower Nubia], a maioria dos quais são reconhecidos hoje como sendo mais recentes do que os monumentos de Tebas.” (Frédérich Cailliaud, Voyage à Méroë, 1836, III, 271 ff.).]

Cailliaud supõe, em seguida, que as raízes da civilização Egípcia estavam na Núbia (Sudão) e que gradualmente desceram o vale do Nilo. Nisto, ele estava apenas redescobrindo ou confirmando até certo ponto, a opinião unânime dos Antigos, filósofos e escritores, que julgaram a anterioridade da Núbia como sendo óbvia.

Diodoro da Sicília relata que a cada ano a estátua de Amon, rei de Tebas, era transportada na direção da Núbia por vários dias e, em seguida, trazida de volta como se para indicar que o deus estava retornando da Núbia. Diodoro também afirma que a civilização Egípcia veio da Núbia, o centro da qual era Meroë. De fato, seguindo dados fornecidos por Diodoro e Heródoto no local desta capital Sudanesa, * Cailliaud (em cerca de 1820) descobriu as ruínas de Meroë: 80 pirâmides, vários templos consagrados a Amon, Ra, e assim por diante. Além disso, citando sacerdotes Egípcios, Heródoto afirmou que dos 300 Faraós Egípcios, desde Menes até a Décima-Sétima Dinastia, 18 deles, ao invés de apenas os três que correspondem à “dinastia” Etíope, eram de origem Sudanesa.

[ * – Ibid., III, 165.]

Os Egípcios eles próprios – que devem certamente ser melhor qualificados do que qualquer um para falar da sua origem – reconhecem sem ambiguidade que os seus antepassados vieram da Núbia e do coração da África. A terra da Amam, ou terra dos ancestrais (man = ancestral em Wolof), o inteiro território de Kush a sul do Egito, foi chamado de terra dos deuses pelos Egípcios. Outros fatos, tais como os tornados e chuvas torrenciais mencionados na pirâmide de Unas, fazem alguém pensar nos trópicos, ou seja, o coração da África, como Amélineau observa. . . .

Significativamente, escavações na área da Etiópia antiga revelam documentos dignos do nome somente na Núbia propriamente, e não na Etiópia moderna. Na realidade, é na Núbia que encontramos pirâmides semelhantes àquelas do Egito, templos subterrâneos, e escrita Meroítica, ainda não decifrada, mas intimamente relacionada com a escrita Egípcia. Curiosamente, embora este ponto não seja enfatizado, a escrita Núbia é mais evoluída do que a Egípcia. Enquanto a escrita Egípcia, mesmo em suas fases hierática e demótica, nunca havia eliminado totalmente sua essência hieroglífica, a escrita Núbia é alfabética.

Naturalmente, alguém poderia esperar confiantemente que esforços pudessem ser feitos para rejuvenescer a civilização Núbia e explicar esta através daquela do Egito.
Isto é o que o Egiptólogo Americano George Andrew Reisner (1867 – 1942) pensou que tinha realizado em um estudo que abrange pouco mais do que o período da história Núbia da época Assíria, ou do primeiro milênio. Ele alegou que a Núbia foi anteriormente governada por uma dinastia Líbia, a qual as dinastias Pretas meramente prolongaram. Mais uma vez, o mítico Branco criou a civilização e, em seguida, retirou-se milagrosamente, deixando o lugar para os Pretos.
Todas as civilizações Negras da África Preta – do Egito, Núbia, Gana, Songai, até o reino do Benin, passando por Ruanda-Burundi [Rwanda-Urundi], para citar apenas estas – têm sido vítimas dessas tentativas frustrantes gerais, que finalmente, tornam-se tão monótonas quanto um desinteressante rosto que já não provoca nem mesmo um sorriso.

Reisner não poderia ter deixado de saber que a civilização Núbia remonta a 1500 A.C., ou seja, antes do aparecimento do branco Líbio Jafético na África. Consequentemente, o problema não está em procurar Líbios na história Núbia recente, mas em encontrar alguns no início desta civilização por volta de 5000 A.C. Esta tarefa Reisner foi cuidadoso em não tentar.

Quando Maomé [Mohammed] nasceu, a Arábia era uma colônia Negra com Meca como sua capital. O Alcorão refere-se ao exército de 40.000 homens enviados pelo Rei da Etiópia para esmagar a revolta árabe. Uma subdivisão deste exército consistia de guerreiros montados em elefantes. Delafosse, ele próprio, é obrigado a registrar aquela suserania da Etiópia sobre a Arábia:

Se alguém pensa na parte que este império[Etiópia] tem desempenhado nos destinos do Egito antigo, se for lembrado de que à época do nascimento de Mohammed (570) este [império da Etiópia] exercia suserania do outro lado do Mar Vermelho, sobre o Iêmen, e que enviou um exército de quase 40.000 homens contra Meca; se alguém considerar a notoriedade extraordinária que o poder do famoso Preste João [Prester John] gozava na Europa durante a Idade Média . . . se é obrigado a supor que uma tal força não poderia deixar de se espalhar entre as pessoas com quem ela entrou em contato. *

[ * -Delafosse, The Negroes of Africa, pp. 125-126.]

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Berços da Civilização Localizados no Coração das Terras Negras

Não menos paradoxal é o fato de que os Indo-Europeus nunca criaram uma civilização em suas próprias terras nativas: as planícies da Eurásia. As civilizações que lhes são atribuídas são inevitavelmente localizadas no coração de países Negros, na parte sul do hemisfério Norte: Egito, Arábia, Fenícia, Mesopotâmia, Elam, Índia.

Em todas essas terras, já haviam civilizações Negras quando os Indo-Europeus chegaram como rudes nômades durante o segundo milênio. O procedimento padrão consiste em demonstrar que essas populações selvagens trouxeram todos os elementos da civilização com eles para onde quer que foram. A questão que então vem à mente é: Por que será que tantas aptidões criativas aparecem somente quando houve contato com os Pretos, e nunca no berço original das estepes da Eurásia?
Por que será que essas populações não criaram civilizações no seu lar antes de migrar?

Se o mundo moderno desaparecesse, poder-se-ia facilmente detectar, graças aos muitos vestígios da civilização na Europa, que este era o ponto focal a partir do qual a civilização moderna havia se espalhado sobre a terra. Nada semelhante pode ser encontrado nas planícies da Eurásia. Se nos referirmos à mais remota antiguidade, a evidência nos obriga a começar a partir dos países Pretos para explicar todos os fenômenos da civilização.

Seria incorreto dizer que a civilização nasceu da mistura racial, pois há evidência de que esta existia em terras Pretas bem antes de qualquer contato histórico com os Europeus. Etnicamente homogêneos, os povos Negros criaram todos os elementos da civilização, adaptando-se às condições geográficas favoráveis de suas primeiras pátrias. A partir de então, os seus países se tornaram ímãs atraindo os habitantes das atrasadas terras desfavorecidas nas proximidades, que tentavam se mudar para lá para melhorar a sua existência. A miscigenação [crossbreeding], resultante desse contato, foi, assim, uma consequência da civilização já criada pelos Pretos, ao invés de sua causa. Pela mesma razão, a Europa em geral – e em Paris ou Londres em particular – são pólos gravitacionais, onde todas as raças do mundo se encontram e se misturam todos os dias. Mas, daqui a 2.000 anos, será impreciso explicar a civilização Européia de 1954 pelo fato de que o continente foi então saturado por colonos cada um dos quais contribuindo a sua parte de gênio. Pelo contrário, nós podemos ver que todos os elementos estrangeiros, ultrapassados, requerem um certo período de tempo para recuperar o atraso, e por um longo tempo não podem fazer nenhuma contribuição significativa ao progresso técnico. Isto foi o mesmo na Antiguidade; todos os elementos da civilização Egípcia estavam em existência desde o início. Eles permaneceram como estavam e, no máximo, simplesmente se desintegraram em contato com o estrangeiro. Nós estamos bem conscientes das várias invasões Brancas do Egito durante o período histórico: Hicsos (Citas), Líbios, Assírios, Persas. Nenhum deles trouxe qualquer novo desenvolvimento em matemática, astronomia, física, química, medicina, filosofia, as artes, ou organização política.

O precedente da mesma forma nos permite rejeitar explicações ‘a posteriori’ as quais, raciocinando a partir da situação no mundo moderno, decretam que a zona temperada é preeminentemente favorável para o florescimento das civilizações, todas as quais nasceram naquela zona. Os documentos Históricos provam o contrário: que no momento em que o clima da Terra estava já fixado, todas as primeiras civilizações existiram fora daquela zona. *

[* – “A África há muito permaneceu um mistério e, ainda assim. . . Não foi ela porventura um dos berços da história?? Um país Africano, o Egito, de milhares de anos de idade, ainda apresenta, praticamente intactos hoje, os monumentos mais veneráveis da Antiguidade. Numa época em que toda a Europa era apenas selvageria, quando Paris e Londres eram pântanos, e Roma e Atenas eram locais desabitados, a África já possuía uma civilização antiga no vale do Nilo; ela tinha cidades populosas, o trabalho de gerações no mesmo solo, grandes obras públicas, ciências, e artes; ela havia já produzido deuses”(Jacques Weulersse, L’Afrique Noire. Paris: Ed Arthème Fayard, 1934, p 11.).]

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Idiomas

[Languages]

É tão fácil provar a profunda unidade entre os idiomas Egípcio e Negros quanto é difícil sustentar – e muito menos provar – o parentesco entre as línguas Egípcia, Indo-Européia, e Semíticas. “Um jovem estudioso, N. Reich, decidiu comparar certas raízes Egípcias com algumas outras ainda usadas pelas populações Negras da África Central e Núbia. Ele mostrou sem dificuldade que elas eram absolutamente idênticas “. (Amélineau, Prolégomènes, p. 216.)

Após Reich, a Senhorita Homburger [Miss Homburger] [Professora de línguas Africanas em Paris] sustenta a relação entre as línguas Egípcia e Negro-Africanas no Capítulo XII de seu Les Langues Negro-africaines [As Línguas Negro-Africanas] (Paris: Ed. Payot, 1941). Mas sua tese implica meramente uma influência Egípcia sobre um substrato Negro, que originalmente poderia ter sido étnica e linguisticamente diferente do substrato Egípcio. Dando aos estudos da Senhorita Homburger a importância recusada a eles até agora, Eu a achei difícil para concordar neste último ponto. A quase identidade do Egito e da África Preta, em todos os aspectos, étnicos e outros, não justifica sua conclusão [a conclusão da Senhorita Homburger].

A comparação linguística entre Egípcio e Wolof a qual, embora limitada, será mais convincente por causa de sua precisão, irá refutar a noção de duas origens linguísticas diferentes. À priori alguém poderia achar uma tal comparação impossível, por alegar que em 2000 anos o Latim foi tão completamente transformado em outros idiomas: Francês, Espanhol, Italiano, etc., que seríamos incapazes para relacionar essas línguas a ele [Latim] se nós não tivéssemos testemunho anteriorment escrito.

Por duas razões, esta observação não me intimidou:
Em primeiro lugar, a evolução das línguas, em vez de avançar em todos os lugares com a mesma taxa de velocidade, parece ligada a outros fatores, tais como: a estabilidade das organizações sociais, ou o oposto, convulsões sociais. Compreensivelmente, em sociedades relativamente estáveis, a linguagem do homem mudou menos com a passagem do tempo. Isso não é simplesmente hipótese: as vinte frases Berberes disponíveis, que remontam ao século XII, revelam uma linguagem idêntica com o Berbere moderno, ao passo que uma comparação entre o Francês dos primeiros Capetianos [1000 anos atrás] e o Francês moderno revela diferenças profundas.

Na África Preta propriamente, a escassa evidência que nós temos daquelas línguas anteriores [earlier tongues], à exceção do Meroítico ainda não decifrado, dadas ao estado atual de nosso conhecimento, consistem em poucas palavras díspares em textos de autores Árabes do século X ao século XV. Assim, nós lemos nas Voyages au Soudan [Viagens ao Sudão] de Ibn Battuta (p. 15): “O guerti é um fruto semelhante à ameixa com um sabor muito doce; mas este não é saudável para os Brancos. Seu núcleo é esmagado para extrair o óleo.”
A palavra guerté deve ter sido aplicada ao amendoim no momento da sua introdução recente na África Preta. Se nós considerarmos a forma Wolof da palavra, a qual deve ter sido tomada emprestada a partir do Sarakolé, e se aceitarmos a ortografia de Ibn Battuta como acurada, a palavra atual (guerté) difere do termo do século XIV (guerti) apenas na mudança da vogal final.

Os Brancos que professam a doutrina Sunita e observam o ritual Malekita [Malekite ritual], são chamados de ‘Touri’ aqui“, diz Ibn Battuta (p. 17). Touré é um nome Sudanês. Assim, os Touré foram provavelmente raças-misturadas, parcialmente descendendo da minoria Árabe no Sudão durante o século XIV. Semelhantemente, ele se refere à Farba Hosein de Valata. Hosein, um termo Árabe, foi corretamente escrito pelo autor. Na transcrição, Valata tornou-se Valaten, que parece refletir uma terminação Berbere. Com esta exceção, a estrutura e a pronúncia da palavra permaneceram as mesmas. Farba designa uma função administrativa em Serer e foi incorporada na íntegra em Wolof. “O Rei de Gana era chamado de Maga”, uma palavra provavelmente tão antiga quanto o terceiro século antes de Cristo, como a língua Sarakolé se podermos supor que esta era falada no início deste império. Como já observado, Mag= grande, uma grande pessoa, em Wolof, enquanto que Ganâr indica a atual Mauritânia, isto é, o noroeste do antigo império de Gana. Killa= cabaça (no século XIV); Atualmente, em Wolof, isso [Killa] significa utensílio de madeira. Esses poucos exemplos mostram a estabilidade relativa das línguas Africanas.

Em segundo lugar, a comparação das línguas Africanas com o Egípcio não leva a relacionamentos vagos que podem no máximo ser considerados como possibilidades, mas sim a uma identidade de fatos gramaticais numerosos demais para ser atribuída ao acaso. Consequentemente, nós temos aqui um fenômeno semelhante àquele que há alguns anos atrás confrontou o mundo físico-químico na lâmpada incandescente. Recusar-se a examinar esses fatos concretos e a procurar uma explicação para eles é não-científico [unscientific]. Em vez disso [ao invés de ser científica], esta atitude é inteiramente análoga àquela dos filósofos eruditos que, vendo o filamento daquela lâmpada se tornar intermitentemente incandescente, ainda assim concluiram que o fenômeno era uma impossibilidade, porque este era contrário aos princípios aceitos até aquele momento, contrário às convicções previamente mantidas por eles.

Podemos nós simplesmente ignorar semelhanças tais como as seguintes? O Egípcio expressa o pretérito [past tense] pelo mesmo morfema, n, como o Wolof; ele tem uma conjugação sufixal que reaparece na íntegra em Wolof; a maioria dos pronomes são idênticos àqueles em Wolof. Nós encontramos os dois pronome sufixos Egípcios, ef e es, com o mesmo significado em Wolof; os demonstrativos são os mesmos em ambas as línguas; a voz passiva é expressa pelo mesmo morfema, u ou w em ambas as línguas . . . É o suficiente substituir o n em Egípcio pelo l em Wolof para transformar uma palavra Egípcia em uma palavra Wolof com o mesmo significado:

figura comparação egípcio e wolof ---

Sem listar todo o vocabulário comum a ambos, existem muitas semelhanças para serem atribuídas a um mero acaso.

[Without listing all the vocabulary common to both, there are too many similarities to be ascribed to mere chance.]

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CAPÍTULO VIII

Argumentos Opondo-se a uma Origem Negra

Se os Pretos criaram a civilização Egípcia, como podemos explicar o seu atual declínio? Essa pergunta não faz sentido, pois poderíamos dizer o mesmo sobre os Fellahs e Coptas, que são supostos por serem os descendentes diretos dos Egípcios e que, hoje, estão no mesmo estágio retrógrado como outros Pretos, se não mais. No entanto, isso não nos isenta para explicar como a civilização técnica, científica e religiosa do Egito foi transformada conforme ela ajustou-se às novas condições no resto da África.

Em torno do vale mãe, Estados se desenvolveram muito cedo, embora não possamos fixar a data exata de seu aparecimento. Por sucessivas migrações conforme o tempo passou, os Pretos penetraram lentamente no coração do continente, espalhando-se em todas as direções e desalojando os Pigmeus. Eles fundaram Estados que desenvolveram e mantiveram relações com o vale mãe até que ele foi sufocado pelo estrangeiro. Do sul para o norte, estes eram Núbia e Egito; de norte a sul, Núbia e Zimbabwe; de leste a oeste, Núbia, Gana, Ife; de leste a sudoeste, Núbia, Chade, o Congo; de oeste a leste, Núbia e Etiópia.

Na Etiópia e Núbia – território completamente Negro – ainda encontramos uma profusão de monumentos de pedra, como obeliscos, templos, pirâmides. Templos e pirâmides são encontradas exclusivamente no Sudão Meroítico. Nós já salientamos o papel dominante desempenhado por esse país na propagação da civilização para a África Preta; não precisamos voltar a esse assunto.

Para mentes modernas, o termo “Etiópia” evoca Addis Ababa. Aqui, novamente, temos de insistir no fato de que nesta região, com a exceção de um obelisco e dois pedestais de estátuas, nada é encontrado. A civilização de Axum, antiga capital da Etiópia, é mais uma palavra do que uma realidade atestada por monumentos históricos.

É no Sudão Meroítico, Sennar, que os templos e pirâmides (84) abundam. Assim, nomes de lugares tem sido falsificados para fornecer uma origem mais ou menos Oriental e discretamente Asiática por meio do Bab-el Mandeb para a civilização Negro-Egípcia. Na realidade, nós devemos reagir contra uma inteira terminologia: Camitas ou Hamitas [Chamites or Hamites], Orientais e Etíopes, e mesmo Africanos são, em escrita histórica moderna, eufemismos que permitem que se fale de civilização Negra-Sudanêsa-Egípcia sem usar nem uma vez o termo “Negro” ou “Preto”.

No Zimbábue – que pode muito bem ser uma extensão da terra dos Etíopes Macrobianos [Macrobian Ethiopians] mencionados por Heródoto – nós encontramos ruínas de monumentos e cidades construídas de pedra, com o falcão representado, “ao longo de um raio de 100 a 200 milhas ao redor de Victoria”, escreve D.P. de Pédrals (p. 116). Em outras palavras, estas ruínas estendem-se ao longo de um diâmetro quase tão grande quanto aquele da França.

Na região de Gana, Pedrals (p. 61) também fala “da cidade de Kukia, que o Tarikh es Sudan [História do Sudão] afirma que já existia na época do Faraó.” Louis Desplagnes, que escavou nessa área, reportou vestígios dela. O mesmo autor também mencionou o sítio de Kumbi *, escavado por um oficial de distrito Francês, Bonnel de Mézières, que descobriu tumbas de grandes dimensões, “sarcófagos de xisto, oficinas metalúrgicas, ruínas de torres e de vários edifícios.”

Nós ainda podemos distinguir claramente o contorno de uma avenida, ladeada por casas com paredes de mais de um metro ou um metro e meio acima do solo. Os telhados desabaram. Mais adiante, uma faixa de terreno plano para uma praça pública, com paredes que parecem ter suportado uma vez andares superiores. Algumas vezes, os edifícios estão tão bem preservados que pouco seria necessário para torná-los habitáveis novamente. As linhas de construção ainda são visíveis por causa da presença de pedras lavradas. Tudo ao redor, permanece de um recinto baixo; do lado de fora dos túmulos, pedaços de cerâmica por toda parte, pérolas, detritos de cobre vermelho. A alguma distância, em um platô de laterita, vestígios de uma oficina metalúrgica. . . .
As outras construções são complicadas. Uma consiste de cinco quartos de quatro metros de profundidade, com salas comunicantes. A maçonaria é perfeita. As paredes são de trinta centímetros de espessura.
(Pedrals, p. 62.)

Na região do Lago Debo (em Mali, no Níger), pirâmides também são encontradas, e estas foram apelidados de “montes” [“mounds”], como seria de esperar. Este é o procedimento habitual na tentativa de desacreditar os valores Africanos.
Em contraste, existe o procedimento inverso que consiste em descrever um túmulo de barro – um verdadeiro monte [mound] – na Mesopotâmia, como o mais perfeito templo que a mente humana possa imaginar. Desnecessário será dizer que tais reconstruções são geralmente meros desejos vãos.

Por outro lado, aqui está o que Pédrals tem a dizer sobre as pirâmides do Sudão:

       Estas são grandes aglomerados de argila e pedra, na forma de pirâmides truncadas, com uma cúpula de terracota de tijolo vermelho. Todas elas datam do mesmo período cronológico e foram construídas com a mesma finalidade. . . . Eles sobem de 15 a 18 metros de altura sobre uma base de 200 metros quadrados. Desplagnes escavado um destes montes do sítio de El Waleji, na confluência do Issa Ber e Bara Issa. Na parte central, ele descobriu uma câmara mortuária orientada leste-oeste, 6 metros na sua parte mais longa e 2 metros e meio em sua parte mais larga. . . . Na câmara, em uma cama de areia em torno de uma jarra grande, Desplagnes encontrou numerosas peças de cerâmica, dois esqueletos humanos, jóias, armas, espadas, facas, pontas de flechas e pontas de lanças, miçangas, pérolas, estatuetas de barro representando animais, e, finalmente, furadores e agulhas de osso. As pérolas eram feitas de uma pasta azul vítrea, cobertas por faixas espirais esbranquiçadas ou esmaltadas incrustações que se assemelham ao vidro Egípcio do Médio Império (Tell-Amarna). A cerâmica indica uma indústria cerâmica muito mais avançada do que a dos atuais habitantes da área. . . . O trabalho do metal é igualmente excelente, a julgar pelas jóias em metais preciosos, algumas vezes em filigrana. (Ibid., Pp. 59-60.)

É impossível descrever aqui todas as riquezas da civilização de Ife. Elas são tais que Frobenius, seguindo o padrão usual, em vão buscou uma origem Branca externa para elas.*

[* – Leo Frobenius, Mythologie de l’Atlantide. Paris: Payot, 1949.]

No vale do Nilo, a civilização resultou da adaptação do homem àquele meio [milieu] particular. Como declarado pelos antigos e pelos próprios Egípcios, ela se originou na Núbia. Isso é confirmado pelo nosso conhecimento de que os elementos básicos da civilização Egípcia não estão nem no Baixo Egito, nem na Ásia, nem na Europa, mas na Núbia e no coração da África; além disso, ali é onde nós encontramos os animais e plantas representados na escrita hieroglífica. . . .
Os Egípcios geralmente medem a altura das águas de inundação com um “Nilometro” [“Nilometer”], e partir daí deduzem o rendimento anual das colheitas por cálculo matemático. O calendário e astronomia também resultaram desta vida camponesa sedentária [sedentary farm life]. A adaptação ao meio físico deu origem a certas medidas de higiênicas: mumificação (para evitar epidemias de peste a partir do Delta), jejum, dietas, e assim por diante, que gradualmente levaram a medicina a vir à existência. O desenvolvimento de vida social e intercâmbios requeriu a invenção e uso da escrita.
Vida sedentária levou à instituição da propriedade privada e de toda uma ética (resumida nas questões perguntadas ao falecido no Tribunal de Osíris). Este código de ética era o oposto dos belicosos hábitos predatórios dos nômades da Eurásia. *

[ * – Aqui está a famosa passagem do Livro dos Mortos [The Book of the Dead], em que o falecido faz uma prestação de contas de seus atos terrenos perante o Tribunal presidido pelo deus Osíris. É facilmente visto que o Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, religiões posteriores, tomaram o dogma do Juízo Final a partir deste texto: “Eu não pequei contra os homens. . . Eu não fiz nada para desagradar os deuses, Eu não indispus ninguém contra seu superior. Eu não deixei ninguém passar fome. Eu não fiz ninguém chorar. Eu não matei, nem ordenei ninguém para matar. Eu não fiz ninguém sofrer. Eu não reduzi os alimentos para o templo. Eu não toquei no pão dos deuses.
Eu não roubei ofertas para o mortos bem-aventurados. Eu não reduzi a medida do grão. Eu não encurtei por um côvado [cubit] nem trapaceei nos pesos. Eu não tirei o leite da boca da criança. Eu não removi o gado do pasto. Eu não represei a água da inundação durante o seu período. . . . Eu não fiz nenhum dano aos fundos do rebanho, da propriedade, ou do templo. Louvado sejas, Ó Deus! Veja, Eu venho a Ti sem pecado, sem mal. . . . Eu tenho feito o que é agradável aos deuses. Eu tenho dado pão para o faminto, água para quem tem sede, roupa para o necessitado, um barco para quem não tinha nenhum. Eu fiz oferendas para os deuses e ofertas para os mortos bem-aventurados. Salve-me, proteja-me. Você não me acusará diante do Grande Deus. Eu sou um homem com a boca pura e coração puro. Aqueles que me vêem dizem: Bem-vindo
!”]

Quando, como uma consequência da superpopulação do vale e de convulsões sociais, os Negros do Nilo penetraram mais profundamente no interior do continente, eles encontrariam novas condições físicas e geográficas. Uma determinada prática, instrumento, técnica ou ciência, anteriormente indispensável nas margens do Nilo, já não era uma necessidade vital na costa Atlântica, nas margens do Congo e do Zambeze. Assim, é compreensível que alguns fatores de cultura Negra no vale do Nilo possam ter desaparecido no interior, enquanto que outros fatores, não os menos fundamentais, têm durado até nossos dias.

A ausência de papiro em algumas áreas contribuiu para a escassez da escrita no coração do continente, mas, apesar de solenes declarações para o contrário, esta [a escrita] nunca esteve totalmente ausente da África Preta. Em Diourbel, principal cidade de Baol, no Senegal, no quarteirão Ndounka perto da estação ferroviária, não muito longe da Estrada Daru Mousti, há um baobá [baobab tree] coberto com hieróglifos, desde seu tronco até seus ramos. Pelo que me lembro, estes consistiam em sinais de mãos, de patas de animais – não mais os mesmos como os cascos de camelo do Egito – sinais de pés, e outros objetos. Teria sido útil tirar cópias destes e estudá-los. Mas, na época, eu não era nem velho o suficiente nem suficientemente treinado para estar interessado. Pode-se ter uma idéia do período – antigo ou recente – durante o qual os símbolos tinham sido gravados na casca por meio da análise da espessura da casca, a natureza dos símbolos, os objetos representados, e o deslocamento desses sinais ao longo do tronco e ramos conforme a árvore cresceu. Deve acrescentar-se que essas árvores são consideradas sagradas e raramente se remove a casca para fazer corda. Também deve-se acrescentar que elas não são raras no país.

Em suma, uma vez que o subsolo da África Preta está praticamente intacto, podemos esperar escavações posteriores para produzir documentos escritos insuspeitos, apesar do clima e suas chuvas torrenciais, que são desfavoráveis para a conservação de tais peças. Uma escrita hieroglífica autêntica, chamada Njoya, existe na República dos Camarões. Seria interessante saber se esta é tão antiga como é reivindicado. Ela é exatamente o mesmo tipo de escrita que os hieróglifos Egípcios. Finalmente, em Serra Leoa, há um tipo de escrita diferente daquela de Bamun (Camarões); esta é a Vai, que é silábica. De acordo com o Dr. Jeffreys, a escrita dos Bassa é cursiva. A dos Nsibidi é alfabética. (Cf. Baumann & Westermann, op. Cit., P. 444.)

Assim, pode-se dizer que, até o século XV, a África Preta nunca perdeu sua civilização. Frobenius relata:

Não que os primeiros navegadores Europeus no final da Idade Média não tenham conseguido fazer algumas observações muito notáveis. Quando chegaram à Baía da Guiné e pousaram em Vaida, os capitães ficaram espantados ao encontrar ruas bem planejadas margeadas por várias léguas por duas fileiras de árvores; por dias eles atravessaram um interior coberto por campos magníficos, habitado por homens em trajes coloridos que eles mesmos haviam tecido! Mais ao sul, no Reino do Congo, uma multidão fervilhante vestidos em seda e veludo, grandes Estados, bem ordenados até ao mais ínfimo detalhe, governantes poderosos, indústrias prósperas. Civilizada até a medula dos seus ossos! inteiramente semelhante era a condição das terras na costa leste, Moçambique, por exemplo.
As revelações dos navegadores do século XV ao século XVIII fornecem a prova positiva de que a África Preta, que se estendia ao sul da zona do deserto do Saara, estava ainda em plena floração, em todo o esplendor de harmoniosas civilizações bem organizadas. Esta floração os conquistadores Europeus destruíram à medida que avançaram. Pois a nova terra da América precisava de escravos que a África oferecia: centenas, milhares, carregamentos inteiros de escravos! No entanto, o comércio de escravos pretos nunca foi um negócio seguro; este exigia justificativa; então eles fizeram do Negro metade-animal, um pedaço de mercadoria. Assim foi inventado o conceito de fetiche, como um símbolo da religião Africana. Fabricado na Europa! Quanto a mim, eu nunca em qualquer lugar na África vi nativos adorando fetiches.
A idéia do “bárbaro Negro” é uma invenção Européia, que retornou e dominou a Europa até o início deste século.
*

[* – Frobenius, Histoire de la civilisation africaine. Paris: Gallimard, 1938.]

Os textos dos viajantes Portugueses, citados por Frobenius, concordam com os de autores Árabes do século X ao século XV. A organização social dos Estados Negros nos séculos XIV e XV, a que se refere Frobenius, a pompa real exibida lá, são descritas por um escritor Árabe que visitou o Império do Mali na época. Esta é uma passagem em que Ibn Battuta relata audiências concedidas pelo Rei Mandingo, Suleyman Mansa.O autor visitou o Sudão em 1352-1353, na época da Guerra dos Cem Anos [Hundred Year’s War]. . . .

Em certos dias, o sultão mantém audiências no pátio do palácio, onde há uma plataforma debaixo de uma árvore, com três degraus; esta eles chamam de pempi. Esta é coberta de seda e tem almofadas colocadas nela. Sobre ela é levantada a sombrinha [umbrella], que é uma espécie de pavilhão feito de seda, encimado por um pássaro em ouro, mais ou menos do tamanho de um falcão. O sultão sai de uma porta em um canto do palácio, carregando um arco [bow] na mão e uma aljava [quiver] em suas costas. Em sua cabeça, ele tem um solidéu dourado [golden skullcap], preso com uma faixa de ouro que tem extremidades estreitas em forma de facas, com mais de um palmo de comprimento. Seu traje usual é uma túnica vermelha aveludada, feita dos tecidos Europeus chamados mutanfas.
O sultão é precedido por seus músicos, que carregam guitarras de ouro e de prata de duas cordas, e atrás dele vêm 300 escravos armados. Ele anda em uma forma vagarosa, afetando um movimento muito lento, e até mesmo pára de vez em quando. Ao chegar ao pempi ele pára e olha em torno da assembléia, em seguida, sobe nele da maneira calma como um pregador sobe em um púlpito-de-mesquita. Assim que ele toma seu lugar os tambores, trompetes, e cornetas e são tocados.
Três escravos saem correndo para chamar os adjuntos e militares comandantes do soberano, que entram e se sentam. Dois cavalos selados e com rédeas são apresentados, juntamente com duas cabras, que eles detém para servir como uma proteção contra o mau-olhado. Dugha fica no portão e o resto do povo permanece na rua, debaixo das árvores. . . .
Os Negros são, entre todos os povos, os mais submissos ao seu rei e os mais abjetos em seu comportamento perante ele. Eles juram pelo nome dele.
*

[* – Ibn Battuta, op. cit., pp. 25-26. Isto é citado de Ibn Battuta, Travels in Asia and Africa (Ibn Battuta, Viagens na Asia e África), de Gibb. London, 1929, pp. 326-327.]

Ibn Battuta à seguir nos diz que Kankan Musa, antecessor de Suleyman Mansa, tinha dado a Es Saheli, quem construiu uma mesquita para ele em Gao *, cerca de 180 kg (cerca de 400 libras) de ouro. Isso nos dá uma idéia da riqueza do país no período precolonialista.

[ * – Gao, antiga cidade mercante no Médio Níger, capital do Império de Songhai]

Outra passagem por Ibn Battuta destrói a lenda de que a insegurança reinava na África Preta antes da colonização Européia e que esta colonização trouxe consigo paz, liberdade, segurança, e assim por diante.

         Entre as admiráveis qualidades dessas pessoas, o seguinte deve ser notado:

1. O pequeno número de atos de injustiça que se encontra aqui; pois os Negros são de todos os povos os que mais abominam a injustiça. O sultão não perdoa ninguém que seja culpado disso.*
2. A completa e geral segurança que se goza por toda a terra. O viajante não tem mais razão para temer bandidos, ladrões, ou raptores do que o homem que fica em casa.
3. Os Pretos não confiscam os bens do homem branco [isto é, de Norte-Africanos] que morrem no seu país, nem mesmo quando estas consistem em grandes tesouros. Eles, pelo contrário, os depositam com um homem de confiança entre os Brancos até aqueles que aqueles que têm o direito aos bens se apresente e tome posse. **

[* – Este Testemunho de Ibn Battuta confirma o que os antigos (Heródoto, Diodoro, et al.) nos ensinaram sobre as virtudes dos Etíopes.]
[** – Op. cit., p. 36. Traduzido por Basil Davidson, do Francês de C. Dpefremery & B.R. Sanguinetti, no The African Past (O Passado Africano), p. 82.]

Nesse período, como é que os Pretos se conduziam na presença de Brancos, ou de raças consideradas brancas? Ibn Battuta responde a esta pergunta em um texto descrevendo a recepção de sua caravana em Walata onde o Farba Hosein representou o Rei de Mali:

Nossos comerciantes ficaram em sua presença e ele dirigiu-se através de uma terceira pessoa, embora eles estivessem de pé perto dele. Isto mostrou o quão pouca consideração ele tinha por eles e Eu estava tão ofendido que amargamente me ressentia de ter vindo para um país cujos habitantes se mostram tão descorteses e evidenciam tal desprezo por homens brancos. *

[* – Op. cit., p. 10.]

Delafosse, cujo comentário sobre a importância do Império de Mali foi citado anteriormente, observou: “Gao, no entanto, tinha recuperado a sua independência entre a morte de Kankan Musa e o advento do Suleyman Mansa e, cerca de um século mais tarde, o Império Mandingo começou a declinar sob ataque do Songhay, embora conservando suficientes energia e prestígio para que o seu soberano negociasse de igual para igual com o Rei de Portugal, que estava então no auge de sua glória.”. *

[* – Delafosse, Les Noirs de l’Afrique (Os Negros da África) p. 62.]
Por conseguinte, os imperadores da África Preta, longe de ser meros régulos [kinglets], negociaram em pé de igualdade com os seus mais poderosos homólogos Ocidentais. Na força de documentos em nossa posse, podemos ir mais longe e enfatizar o fato de que os impérios neo-Sudanês precederam por vários séculos a existência de impérios comparáveis na Europa. O Império de Gana, provavelmente, foi fundado sobre o terceiro século d.C. e durou até 1240. Como sabemos, Carlos Magno [Charlemagne], fundador do primeiro Império do Ocidente, foi coroado em 800.

A Magnificência de Gana foi em todos os aspectos, semelhante ou superior a de Mali. Tais, então, eram os Estados Africanos no momento em que estavam prestes a entrar em contato com o mundo Ocidental moderno. Naquela época havia apenas monarquias absolutas no Ocidente, enquanto que na África Preta as monarquias já eram constitucionais. O rei era auxiliado pelo Conselho do Povo, cujos membros eram escolhidos de entre os diversos estratos sociais. Este tipo de organização existia em Gana, Mali, Gao, Yatenga, Cayor e assim por diante. Isso não poderia ter sido o início, mas sim o resultado de uma longa evolução, o início da qual nós só podemos descobrir voltando para Núbia e Egito. De nenhuma outra maneira podemos restabelecer a continuidade dessa corrente. Por qualquer lado que a história da África seja considerada, constantemente se recai sobre o Sudão Meroítico e Egito.

Quando contato foi feito uma segunda vez entre a Europa e a África Preta, através do Atlântico, foram acima de tudo as marinhas e as armas de fogo de longo alcance disponíveis na Europa, graças ao contínuo progresso técnico no Mediterrâneo do Norte, que deram a Europa a sua superioridade . Estes lhe permitiram dominar o continente e falsificar a personalidade do Negro. É assim que as coisas ainda continuam, e é isso que causou a subsequente alteração da história concernindo a origem da civilização Egípcia.

Juntamente com a unidade política, a unidade cultural já estava a afirmar-se no âmbito dos diferentes impérios. Certas línguas, tendo-se tornado oficiais, porque elas eram faladas pelo imperador, serviram como línguas administrativas e estavam começando a dominar as outras, que tenderam a tornar-se dialetos regionais, assim como o Bretão, Basco, e Provençal na França tornaram-se patois. . . .

Ao destruir esses e outros laços culturais, a colonização trouxe os dialetos de volta à superfície e favoreceu o desenvolvimento de um mosaico linguístico. Resultados semelhantes poderiam ter ocorrido na França após alguns séculos de Ocupação Alemã, se esta tivesse incentivado o surgimento do patois mencionado acima em detrimento do Francês, já igualado ao status de uma língua nacional.

Por conseguinte, é evidente que realmente houve um declínio na África Preta, especialmente ao nível das massas, mas este é devido à colonização. Este certamente pode ser culpado com o retrocesso de certas tribos que foram gradualmente miscigenadas e empurradas de volta para a floresta. Mas seria, contudo, duplamente impreciso hoje assumir a condição dessas populações que se tornaram mais ou menos primitivas como uma evidência de que a África Preta nunca teve uma civilização ou um passado; de que o Preto tem uma mentalidade não-cartesiana primitiva, hostil à civilização, e assim por diante. Esta regressão sozinha pode explicar como, em um estado relativamente atrasado, essas populações ainda mantêm intacta uma tradição que revela um estágio de organização social e uma concepção do mundo que já não mais correspondem ao seu nível cultural.

Um fato análogo na Europa pode ser citado: o retrocesso das populações brancas que residem hoje nos vales Suíços isolados pela neve, como o vale de Lötschenthal. Estes Brancos são selvagens hoje, no sentido Bosquímano ou Hotentote da palavra; eles fazem máscaras, com caretas e atormentadas, indicando um terror cósmico igualado apenas pelos Esquimós. O Museu de Genebra possui uma bela coleção dessas máscaras.
Em contrapartida, pode-se observar que a serenidade da arte Negra reflete a clemência do ambiente físico, mas também uma domesticação, pelo menos, espiritual, de forças universais. Ao invés de serem fenômenos inexplicáveis que aterrorizam a imaginação, essas forças foram já integradas em um sistema geral para explicar o mundo. Considerando o seu período, esse sistema foi equivalente a uma filosofia. O Negro tinha dominado a natureza, em parte, pela técnica, mas principalmente pelo seu espírito: A Natureza não o assustava. Da mesma forma, a arte expressionista Negra (na Costa do Marfim e no Congo) não refletiria tormento mas apareceria como uma espécie de exercício plástico [plastic sport].

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Problemas Causados por Cabelo Liso e Assim-chamadas Feições Regulares

Problems Caused by Straight Hair and So-called Regular Features

Neste ponto, devemos dizer que nem cabelo liso nem feições regulares são um monopólio da raça Branca. Existem duas raças Pretas bem definidas: uma tem uma pele preta e cabelo lanoso [wooly hair]; a outra também tem a pele preta, muitas vezes excepcionalmente preta, com cabelos lisos, nariz aquilino, lábios finos, um ângulo agudo da maçã do rosto [cheekbone]. Nós encontramos um protótipo desta raça na Índia: o Dravidiano. Sabe-se também que certos Núbios igualmente pertencem ao mesmo tipo Negro, como esta frase pelo autor Árabe, Edrissi, Indica: “Os Núbios são os mais bonitos dos negros; suas mulheres tem lábios finos e cabelos lisos.” *

[ * – Citado por Pédrals, op. Cit., p. 7.]

Assim, é inexato, anti-científico, fazer pesquisa antropológica, encontrar um tipo Dravidiano, e então concluir que o tipo Negro é inexistente. Isto é o que o Dr. Massoulard faz ao reportar o trabalho de Miss Stoessiger sobre os crânios Badarianos [Badarian crania]. A contradição é ainda mais flagrante porque estes crânios são prognatos, e prognatismo é encontrado somente em Negros ou Negróides – por Negróide, eu quero dizer qualquer elemento nascido do Negro:

        Crânios Badarianos diferem muito pouco dos outros crânios pré-dinásticos menos antigos; eles são apenas um pouco mais prognatos. Após estes, eles mais se assemelham a crânios Indianos primitivos: Dravidianos e Veddas. Eles também apresentam algumas afinidades com os Negros, sem dúvida devido a uma mistura muito antiga de sangue Negro. (Massoulard, op. Cit., P. 394.)

Por este tipo de oposição fictícia, tem sido possível branquear a raça Egípcia, a qual, mesmo na época pré-histórica, como este texto mostra, ainda era Negra, apesar de alegações sem fundamento científico, que afirmam que os Egípcios foram originalmente Brancos, “bastardizados”, digamos “miscigenados”, posteriormente com os Negros.

É costumeiro mencionar o cabelo liso de certas múmias cuidadosamente escolhidas, as únicas encontradas em museus, para afirmar que elas representam um protótipo da raça Branca, não obstante o seu prognatismo. Estas múmias são exibidas visivelmente em uma tentativa de provar a branquitude [whiteness] dos Egípcios. A própria grosseria de seu cabelo se opõe a aceitação dessa argumentação. Quando tal cabelo existe na cabeça de uma múmia, este apenas indica o tipo Dravidiano, na realidade, enquanto que o prognatismo e a pele preta – pigmentada, e não enegrecida por alcatrão ou qualquer outro produto – exclui qualquer idéia de uma raça branca.
O processo de seleção meticuloso a que foram submetidas, exclui qualquer possibilidade delas sendo um protótipo. De fato, Heródoto nos disse, depois de vê-los, que os Egípcios tinham cabelo lanoso. Como nós já temos observado, pode-se bem perguntar por que múmias com tais características não são exibidas. Aqueles que devem ser as mais numerosas são atualmente, as menos visíveis, e quando somos sortudos o suficiente para tropeçar sobre uma, nós somos assegurados de que ela representa um tipo estrangeiro.

Uma observação que poderia provar declaração de Heródoto sobre o cabelo lanoso do Egípcio é o penteado artificial [artificial coiffure] ainda usado por mulheres Pretas Africanas. Por que uma mulher branca com cabelo naturalmente bonito o esconderia sob o grosseiro, penteado artificial do Egípcio? Devemos antes ver isso como uma manifestação da ansiedade constante da mulher preta sobre o problema do cabelo.

Em qualquer caso, é evidente que não se pode apoiar-se sobre a qualidade do cabelo para garantir a branquitude [whiteness] de uma raça. . . .
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Uma Raça Preta Escravisada

Certos livros tentam espalhar a noção de uma raça preta escravizada vivendo ao longo da Antiguidade ao lado de uma raça branca e transformando lentamente as características dos Brancos. Os contatos entre essas duas raças tão longe quanto na pré-história podem ser tomados como um fato autêntico, sem qualquer determinação da nossa parte quanto à importância desses contatos nas diferentes regiões onde eles aconteceram. Mas um exame objetivo dos documentos disponíveis a partir dessas épocas distantes obrigam-nos a reverter as relações que tem se tentado a priori estabelecer entre essas duas raças, de Elam ao Egito. As escavações de Diculafoy revelam que as primeiras dinastias Elamítas pertenciam à raça Preta. A série de estatuetas Amratianas nos mostram uma raça branca cativa no Egito ao lado de uma raça Preta livre [unfettered]. A raça Branca não libertou-se completamente até o fim da época Egéia que marcou a chegada do norte do Mediterrâneo em cena.

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Cor Marrom-avermelhada dos Egípcios?
Reddish-brown Color of the Egyptians?

Parece bastante provável que a infiltração, desde os tempos pré-históricos, desta raça cativa conquistada retratada nessas estatuetas pode ter ajudado a clarear [whiten] a compleição do Egípcio. Em outras palavras, parece provável que uma minoria branca apareceu mais tarde para enxertar-se sobre um substrato Negro anterior, por causa da atração do vale para os rudes pastores Arianos e Semitas. Mas o que é certo é a preeminência do elemento Negro desde o início até o fim da história Egípcia. Mesmo o cruzamento intensivo do período baixo não teve êxito em eliminar as características Negras da raça Egípcia. Esta mistura do Negro Egípcio com o proto-Semita ou Ariano seguiu um desenvolvimento arejado [fanlike development] no curso da história Egípcia, como resultado das tendências comerciais. Durante a época Egéia este é refletido no seqüestro de Io pelos Fenícios. De fato, os Fenícios, um povo Negróide, mais ou menos primos dos Egípcios, serviram como seus marinheiros em todo esse período. Entre outras trocas comerciais entre um Egito civilizado e, uma então barbárica Europa, eles se dedicaram ao comércio de escravos brancos. Io, como já observamos, raptada da Grécia e vendida para o Faraó por um preço alto, porque sua pele branca era uma raridade, apenas simbolizou este comércio. Seria extremamente difícil negar ou minimizar a extensão de tal atividade comercial [trading].

Isso poderia explicar a então-chamada compleição “marrom-avermelhada” [“reddish-brown”] dos Egípcios, embora eles continuaram a ter “lábios grossos, até mesmo evertidos“, uma “boca um pouco larga demais“, e “um nariz carnudo“, para citar Maspero. Obviamente, os Egípcios nunca deixaram de ser Negros. A cor especial atribuída a eles pode ser vista hoje entre os milhões de Negros em todas as partes da África Preta.

É comum mencionar as pinturas da mastaba ou tumba Egípcia como um lugar para distinguir o Nahasi do Rametou, isto é, os Pretos dos então-chamados Egípcios. Isso equivale a distinguir os Wolof dos Bambara, os Mossi dos Toucoulor, e tomar erroneamente [mistaking] estes últimos por Brancos, ou por uma raça distinta da raça preta representada pelos Wolof. Para um Africano, esta é uma avaliação precisa das distinções feitas geralmente com base em pinturas Egípcias. Ou seria se fosse possível datar essas pinturas com algum grau de certeza. Além disso, todas essas pinturas na mastaba eram conhecidas antes de Champollion; esses tons de cor tinham sido vistos antes. Foi, no entanto, afirmado que os tipos retratados eram Negros, porque até aquele momento o Egito sempre fora reconhecido como um país Negro. A própria arte Egípcia era considerada arte Negra e, portanto, desinteressante.

Esta opinião não mudou até o dia em que foi reconhecido com espanto que o Egito era a Mãe de toda a civilização. Então, a visão de repente melhorou e foi possível distinguir, nos afrescos onde todos tinham anteriormente reconhecido Negros, evidências de uma “raça branca com pele vermelha”, uma “raça branca com a pele vermelha escura”, uma “raça branca com pele negra.” Mas eles nunca distinguiram, como Egípcios, uma raça branca com pele branca.

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A inscrição na Estela de Philae
The Inscription on the Stela of Philae

Devido a esta inscrição, que marcou a fronteira entre o Sudão e o Egito Meroíticos após os problemas da Décima Segunda Dinastia, é muitas vezes concluído que esta separava duas raças distintas, que esta estela barrava os Pretos de entrar no Egito. Tal conclusão é um grave erro [grievous error], pois o termo “Preto” [“Black”] nunca foi usado pelos Egípcios para distinguir os Sudaneses Meroíticos de si mesmos. Os Egípcios e os Sudaneses Meroíticos pertenciam à mesma raça. Eles designavam um ao outro por nomes tribais e regionais, mas nunca por epítetos relacionados à cor, como nos casos envolvendo o contato entre uma raça preta e uma raça branca.

Se a civilização moderna desaparecesse hoje, mas deixasse bibliotecas intocadas, os sobreviventes poderiam abrir praticamente qualquer livro e perceber imediatamente que as pessoas que vivem ao sul do Saara são chamadas de “Pretos” ou “Negros” [“Blacks”]. O termo “África Preta” ou “Africa Negra” [“Black Africa”] seria suficiente para indicar o habitat da raça Preta [Black race]. Nada semelhante é encontrado em textos Egípcios. Sempre que os Egípcios usam o termo “Pretos” (khem), é para designar a si mesmos ou seu país: Kemit, terra dos Pretos [land of the Blacks].

Nenhum dos muitos textos modernos é autêntico ao mencionar o termo “Preto” como se este tivesse sempre sido usado pelos Egípcios para distinguir-se dos Negros. Sempre que estes textos relacionam algum fato relatado pelos Egípcios sobre os “Pretos”, é uma distorção. Eles traduzem Nahasi por “Pretos”, a fim de servir a causa. Estranhamente, a palavra Kushite torna-se incompatível com a idéia de “Pretos” tão logo quanto esta se refere aos primeiros habitantes que civilizaram a Arábia antes de Maomé; a terra de Canaã, antes dos judeus (Fenícia); a Mesopotâmia, antes dos Assírios (época Caldéia); Elam; e Índia, antes dos Arianos. Esta é uma das muitas contradições que denunciam o medo que os especialistas têm de revelar fatos que eles devem ter detectado. Seu processo de raciocínio pode talvez ser descrito da seguinte forma: Dadas as idéias que me foram ensinadas sobre o Negro, mesmo se a evidência prova objetivamente que a civilização foi criada pelos referidos Negros (Kushitas, Cananeus, Egípcios, etc.), esta deve estar errada. Ao pesquisar diligentemente, nós temos de ser capazes de encontrar o oposto.

Assim, o método certo, indispensável para se descobrir a verdade contida nesses documentos, apesar das aparências, repousa na interpretação de tais termos como Kushita, Cananeu, etc. Embora estas palavras nos documentos signifiquem “Pretos” ou “Negros” [“Blacks”], este é um erro óbvio.
Eles irão, portanto, dizer que todas as raças estão envolvidas, exceto a raça Preta, ou talvez uma raça preta que não seja Preta: a raça marrom, por exemplo.

Uma falsificação semelhante ocorre quando autores antigos, como Heródoto, Diodoro, ou os primeiros viajantes Cartagineses, são citados. Somos levados a acreditar que esses autores distinguiram entre Egípcios e Pretos.
Isto é verdade para Delafosse (de nenhuma maneira o único), quando ele escreve em Les Noirs de l’Afrique [Os Negros da África] (pp 20-21):

          Uma passagem na História de Heródoto é muito instrutiva a este respeito. No Livro II (parágrafos 29-30), o autor Grego fixou mais ou menos para nós que os limites do norte chegavam, em sua época, no Vale do Nilo, pelos Pretos, a quem ele chama de “Etíopes”. Estes limites são quase idênticos àqueles alcançados em nossos dias. Os Pretos já se encontravam, ele nos diz, “acima de Elefantina” (Aswan), isto é, a montante da primeira catarata, alguns deles sedentários, outros nômades, vivendo lado a lado com os Egípcios.

Checando isto [esta citação falsificada] contra o original, podemos perceber a distorção; esta nos leva a crer que, de acordo com Heródoto, os Pretos e os Egípcios eram diferentes. O Livro II de Heródoto, que Delafosse cita, nos informa que os Egípcios tinham pele preta e cabelo lanoso [black skin and woolly hair]. Este é o processo pelo qual os autores antigos são falsificados para dizer o contrário do que eles escreveram. Em outras ocasiões, o seu testemunho embaraçador é simplesmente ignorado em silêncio. Ocasionalmente, alguém insulta-os ou tenta mascarar a raiva lançando dúvidas sobre a sua evidência, tentando, assim, desacreditá-los. Estas alteradas citações falsificadas são bastante graves na medida em que eles dão ao leigo a ilusão de autenticidade.

Tão cedo quanto 4000 a.C. documentos Egípcios indicam que o Sudão Meroítico era um país próspero que mantinha laços comerciais com o Egito. O ouro era abundante. Em torno desta época, o Sudão Meroítico provavelmente transmitiu ao Egito os doze hieróglifos que foram o primeiro alfabeto embrionário.

Após várias tentativas de conquista, Sudanêses e Egípcios tornaram-se aliados e uniram forças em expedições ao Mar Vermelho, lideradas por Pepi I (Sexta Dinastia).
A Núbia era então governada por um rei chamado Una que, sob o sucessor de Pepi I, tornou-se governador do Alto Egito. Esta aliança durou pelo menos até a Décima Segunda Dinastia Egípcia. Sesostris I, em seguida, estabeleceu com êxito uma curadoria [trusteeship] sobre a Núbia:

Mas o jugo é rejeitado sob Sesostris II, em circunstâncias que fazem o próprio Egito temer invasão. Muralhas e fortalezas são erguidas entre a primeira e a segunda cataratas para deter os Núbios. O Egito está tão desconfortável que ele apela para tribos beduínas lideradas por um certo Abshal, da Síria. Em quatro campanhas, Sesostris III põe fim à ameaça. A fronteira é restaurada rio acima, onde novas fortalezas são construídas, ao mesmo tempo que uma nova stela é erguida barrando a passagem dos Pretos. (Pédrals, p. 45.)

Exceto pelo uso incorreto do termo “Pretos” que termina a citação e para o qual o autor, conhecido por ser um homem de boa vontade, não é inteiramente responsável, esta passagem revela a natureza dos fatos que levaram à Estela de Philae. Eles mostram que, em um dado momento, o aliado Sudanês quase conquistou o Egito que, por esse motivo, organizou a sua defesa, daí a Estela de Philae. Assim, esta não poderia significar o que outros gostariam que ela significasse.

Da batalha de Danki (século XV) até aquela de Guilé (século XIX), os Cayor e os Djoloff experimentaram o mesmo antagonismo periódico que Egito e Núbia. Será que isso faz dos Cayorianos e Djoloff-Djoloff menos Negros?
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Figura 34 - torre de babel - cheikh anta diop - afrian origins civilization

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Figura - falcão e crocodilo - zimbabwe - cheikh diop

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figura - zimbabwe walls - cheikh anta diop

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Figura - Máscara Suiça careta - cheikh diop -

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Figura - máscara Cubista Congolesa - cheikh Diop

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Figura 39 - cabeça de Ifé - Cheikh Anta Diop

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figura 40 - cabeça bronze benin -

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Figura 41- torre mesquita de Gao - cheikh Diop

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Pg. 179 –

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   CAPÍTULO IX

Povoamento de África a Partir do Vale do Nilo

Os argumentos invocados para defender a teoria de que a África Preta foi estabelecida a partir da Oceania por meio do Oceano Índico são destituídos de fundamento. Nenhum fato, arqueológico ou qualquer outro, autoriza-nos neste momento a procurar o habitat original do Negro fora da África. Lendas do Oeste Africano relatam que os Pretos migraram do leste, a partir da região da Grande Água [Great Water].
Sem qualquer prova suplementar, Delafosse, talvez como hipótese de trabalho, identificou a “Grande Água” com o Oceano Índico. Além disso, o berço da humanidade foi então assumido como estando na Ásia, por causa da descoberta do Pithecanthropus (em Java) e Sinanthropus (na China), e por causa da Bíblia (Adão e Eva). A opinião endureceu em torno desta identificação; por um longo tempo foi esquecido que esta era apenas uma afirmação a priori, e a hipótese foi aceita como um teorema demonstrado.

A partir do que sabemos sobre a arqueologia da África do Sul, onde a humanidade parece ter nascido; a partir do que sabemos sobre a civilização Núbia, provavelmente a mais antiga de todas; a partir do que sabemos sobre a pré-história do Vale do Nilo, podemos legitimamente supor que a “Grande Água” [“Great Water”] não é outra senão o Nilo. Não importa onde nós coletemos lendas sobre a gênese de um povo Preto Africano, aqueles que ainda se lembram suas origens dizem que vieram do leste e que os seus antepassados encontraram Pigmeus no país. *

[ * – A palavra Kondrong, um anão que habita a floresta, com um utensílio de boa sorte em sua cabeça, sugere a memória de coabitação com o Pigmeu em uma área de floresta antes da instalação dos Wolof nas planícies de Cayor-Baol, onde não havia nem florestas nem Pigmeus.]

Lendas Dogon e Yoruba relatam que eles vieram do leste, enquanto que aquelas dos Fang, que tão recentemente quanto o século XIX não tinham ainda atingido a costa do Atlântico, indicam o nordeste. Lendas Bakuba listam o norte como a sua proveniência. Para os povos que vivem ao sul do Nilo, tradições sugerem que eles vieram do norte; isto é verdade para os Batutsi de Ruanda-Burundi. Quando os primeiros marinheiros a chegar à África do Sul desembarcaram no Cabo há vários séculos, os Zulus, após uma migração norte-sul, ainda não tinham atingido a ponta do Cabo.

Esta hipótese se enquadra com o fato de que as tradições de Pretos no Vale do Nilo mencionam apenas uma origem local. Por toda a Antiguidade, Núbios e Etíopes nunca clamaram qualquer outra, a não ser uma que estava mais ao sul. Isto resume as lendas antigas como relatadas por d’Avezac com uma ironia que não diminui sua importância:

Outros, sonhadores eruditos ou fisiologistas engenhosos, ao invés de procurar o início da história dos Africanos nas tradições agora quase perdidas, têm preferido a procurá-lo em hipóteses arriscadas, e as suas narrações conjunturais apresentam o Negro como o mais velho homem criado, filho da terra e do acaso, nascido nas nevadas Montanhas da Lua (África Central), que mais tarde criou o homem que desceu para o Senar [Sennar] e engendrou os Egípcios e os Árabes e o povo de Atlântida [Atlantis]. A raça Preta, por muito tempo a mais numerosa, primeiro subjugou e dominou os Brancos; mas estes últimos, tendo gradualmente se multiplicado, sacudiram o jugo de seus mestres. O ex-escravo, tornando-se mestre, por sua vez, condenou os Pretos a suportar as correntes que ele tinha acabado de quebrar. Séculos se passaram, mas a sua ira ainda não foi aplacada.*

[ * – – Armand d’Azevac-Macaya, L’Afrique ancienne. Paris: Didot, 1842, p. 26.]

Esta lenda comprime a história da humanidade em algumas poucas linhas.**
O que é notável aqui é a origem ao sul dos habitantes do Vale do Nilo, a qual Núbios e Egípcios têm sempre afirmado.
O que também se destaca é a remota chegada do Negro no caminho para a civilização e a atual inversão da situação.
Ele é o homem desce para o Senar [Sennar] que, sem dúvida, é a planície localizada entre o Nilo Branco e o Nilo Azul, ponto de partida para a civilização Sudanesa Meroítica.
Senar [Sennar] é também o nome da planície da Mesopotâmia, semelhantemente entre dois rios: o Tigre e o Eufrates. Qual destas denominações é correta e autêntica? A segunda [o Senar da Mesopotâmia] parece uma réplica do primeiro. A retificação deste erro iria novamente inverter o sentido da história. Se tornaria, então, natural para o Egito ter sido povoado a partir da planície de Senar e a lenda concordaria com a história.

[ ** – Edouard Schuré não menos surpreendente relata uma porção dessas lendas sobre remota dominação pelos Pretos: “Após a raça vermelha, a raça preta governou o globo. . . . Os Pretos invadiram o sul da Europa durante os tempos pré-históricos. Sua memória foi completamente apagada de nossas tradições populares. No entanto, eles deixaram marcas indeléveis. . . . Na época da sua dominação, os Pretos tinham centros religiosos no Alto Egito e na Índia. Suas cidades gigantescas ameiaram [crenelated] (fortificaram) as montanhas da África, Caucásia, e da Ásia Central. A sua organização social era uma teocracia absoluta. Os seus sacerdotes possuíam conhecimento profundo, o princípio da unidade divina do universo e o culto das estrelas que se tornou Sabeonismo [Sabaeanism] entre os brancos. . . . uma indústria ativa, especialmente a arte do manejo de massas colossais de pedra por balística e de fundição de metais em fornalhas imensas trabalhadas por prisioneiros de guerra. . . .
A raça branca tinha apenas acabado de ser despertada pelos ataques da raça preta que começava a invadir o sul da Europa. A princípio, foi massacre. Os brancos, semi-selvagens, deixando suas florestas e cabanas à beira do lago, não tinham outras armas além de seus arcos, lanças e flechas com pontas de pedra. Os Pretos tinham armas de ferro, armadura de bronze, todos os recursos de uma civilização industrial e suas cidades Ciclópicas. Esmagados pela primeira investida, os brancos foram levados para o cativeiro e tornaram-se em massa os escravos dos Pretos, que os obrigaram a trabalhar em pedra e a transportar minério para seus fornos. Prisioneiros que escaparam levaram ao voltar para a pátria as artes e fragmentos da ciência de seus conquistadores. Dos Pretos eles tinham aprendido duas coisas essenciais: a fundição de metais, e escrita sagrada, hieróglifos. O que salvou os Brancos foram as suas florestas, onde, como animais selvagens, eles poderiam se esconder e depois saltar para fora no momento propício.” (Les Grands Initiés. Paris, 1908, pp. 6-13.)]

Juntamente com as lendas atuais dos povos Africanos, quase todas as quais mencionam a bacia do Nilo e os Pigmeus que habitavam o interior antes da dispersão dos Pretos, deixe-nos citar duas passagens de Heródoto que as confirmam.
A primeira diz respeito a dois Nasamonianos [Nasamonians] que deixaram Sirte [Syrtis] (Cirenaica), seguiram a costa do Mediterrâneo para o oeste, em seguida, dirigiu-se para o interior através do Saara, e chegaram às margens de um rio, onde apenas Pigmeus pretos viviam:

Os jovens homens, portanto, despachados nessa missão por seus companheiros com um suprimento abundante de água e provisões, viajaram primeiramente através da região habitada, passando a qual eles chegaram à extensão de terreno dos animais selvagens, de onde eles finalmente entraram no deserto, o qual eles passaram a atravessar em uma direção de leste para oeste. Depois de viajar por muitos dias sobre uma vasta extensão de areia, eles chegaram finalmente a uma planície onde eles observaram árvores florescendo; aproximando-se delas, e vendo frutas nelas, eles passaram a colhê-las. Enquanto eles estavam assim envolvidos, chegaram ao redor deles alguns homens anões [dwarfish men], abaixo da altura média, que os capturaram e os levaram consigo.
Os Nasamonianos [Nasamonians] não conseguiam entender nenhuma palavra da língua deles, nem eles tinham qualquer familiaridade com a linguagem dos Nasamonianos. Eles foram levados através de marchas extensivas e, finalmente, chegaram a uma cidade, onde todos os homens eram da altura de seus condutores, e de pele preta [black-complexioned]. Um grande rio corria pela cidade correndo de leste a oeste, e contendo crocodilos
(p. 92).

Parece, portanto, que em uma determinada época o interior foi habitado exclusivamente por Pigmeus. O rio em questão poderia muito bem ter sido o Níger, uma vez que nós sabemos agora, ao contrário do que Heródoto acreditava, que para além da Etiópia o Nilo não se desvia para fluir de sul para o norte depois de atravessar a África de noroeste para o sudeste.

A segunda passagem se refere à viagem de Sataspes, filho de Teaspes. Ordenado por Xerxes a ser empalado, Sataspes foi condicionalmente perdoado, graças a um apelo de sua mãe, que aconteceu de ser a irmã de Dário [Darius]. Ele cruzou o Estreito de Gibraltar e rumou para o sul. Embora ele não tenha completado a viagem, ele foi capaz de fazer as seguintes observações sobre a costa Atlântica da África:

. . . Ele relatou a Xerxes que no ponto mais distante a que tinha chegado, a costa era ocupada por uma raça anã [dwarfish race], que usava um vestuário feito a partir de uma palmeira. Estas pessoas, onde quer que ele [Sataspes] chegava, deixavam suas cidades e fugiram para as montanhas; seus homens, contudo, não lhes fizeram nada de errado, apenas entrando em suas cidades e tomando alguns de seus bovinos (p. 217).

Em suma, há uma concordância entre lendas Negras agora atuais e esses fatos relatados por Heródoto a 2.500 anos atrás. *

[* – Devido à sua natureza lacônica, o relato de viagem de Hannon nos ensina muito pouco sobre as populações Negras que tinham alcançado a costa por volta do século V a.C. quando os Cartagineses, ameaçados pelo rápido desenvolvimento dos Estados Indo-Europeus sobre a norte do Mediterrâneo, fecharam-se sobre a África e tentaram encontrar colônias ao longo da costa. De acordo com Auguste Mer, um marinheiro que afirmou conhecer essas costas intimamente, a área deserta observada por Hannon seria o trecho de costa que se estende de Saint-Louis-du-Sénégal até Dakar. Ele também compartilha a opinião daqueles que pensam que a Theon Ochema (Carruagem dos deuses) que marca o ponto mais distante alcançado por Hannon, era, provavelmente, o Monte Camarões. . . .]

Assim, os Pigmeus foram provavelmente os primeiros a ocupar o interior do continente, pelo menos em um certo período. Eles se estabeleceram lá antes da chegada dos Pretos maiores. Pode-se supor que estes últimos formaram uma espécie de de aglomerado em torno do Vale do Nilo.
No decorrer do tempo, eles se espalharam em todas as direções, como resultado do crescimento da população e os tumultos que oorrem durante a história de um povo.

Isto não é uma mera concepção mental e nem uma simples hipótese de trabalho. Nosso conhecimento da etnografia Africana nos permite distinguir entre uma hipótese e um fato histórico confirmado. Para ser claro, uma base [foundation] cultural comum a todos Pretos Africanos, particularmente uma base lingüística comum, parece justificar a idéia no principal. Mas, acima de tudo, existem os nomes de clãs totêmicos carregados por todos os Africanos, colectiva ou individualmente, de acordo com a extensão da sua dispersão; a análise desses nomes combinados com um exame linguístico adequado nos permite passar da esfera da probabilidade para o nível de certeza.

Figura - nomes comuns egito senegal

,

No Capítulo X de seu Archéologie de l’Afrique Noire [Arqueologia da África Negra], Pédrals menciona os Burum, encontrados no Alto Nilo [Upper Nile] e na região de Benue da Nigéria; os Ga-Gan-Gang, na região dos Grandes Lagos e em Gana, Alto Volta e Costa do Marfim; os Goula-Goulé-Goulaye, tanto no Nilo quanto no Shari. Devemos acrescentar que Gilaye é um nome Senegalês de origem Sara.

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Kara-karé

De acordo com Pédrals, os Kara formam um núcleo que vive na fronteira do Sudão “Anglo-Egípcio” e no Alto Ubangi. Os Karé vivem perto do rio Logone; os Karekaré, no nordeste da Nigéria. Karekaré é apenas o redobrar de Kare, uma palavra que combina Ka + Ra, ou Ka + Ré. Os Kipsi-Kapsigi são encontrados na área dos Grandes Lagos e no Norte de Camarões; os Kissi, a nordeste do Lago Nyasa e nas áreas florestais da Alta Guiné. . . .

Esta lista poderia ser prolongada indefinidamente e, assim, localizar no Vale do Nilo o habitat precoce de todos os povos Negros espalhados hoje sobre as diferentes partes do continente. Esta identidade de nomes poderia sugerir uma migração recente. É, Portanto, preferível examinar mais profundamente na origem de alguns povos, como os Iorubás, Serer, Toucoulor, Peul, e Laobé, e mostrar que seu ponto de partida foi de fato o vale do Nilo.

Antes de fazer isso, vamos comentar sobre o lendário povo Ba-Fur, por vezes referido como Vermelho [Red], às vezes como Preto [Black]. Ba é o prefixo coletivo precedendo todos os nomes dos povos de África. Este pode ser comparado com o Wa em Egípcio, Copta, e Wolof, significando: aqueles de, os, etc. Essa terminação plural nas línguas em que ele aparece como um sufixo, poderia explicar a origem do plural Egípcio em w:

Bak-w: servos (Egípcio)
Sumba-wa: os Sumbs
Zimbab-we.

Ba-Fur tem a mesma formação como Ba-Pende: os Pende; Ba-Luba: os Luba. Sem me aventurar a tirar uma conclusão, Eu devo salientar que, em Wolof , Pour=amarelo.
Ba-Fur poderia designar não uma tribo de homens Vermelhos ou Pretos, antepassados dos Serer, mas sim uma tribo da raça Amarela. Isso explicaria as características Mongolóides encontradas na África Ocidental, e também, talvez, as relações culturais entre a África e a América, comprovadas pela semelhança de palavras tais como:

Loto: canoa, em Wolof, e em línguas indígenas norte-Americanas (como em Sara e Baguirmian).

Tul: nome de uma cidade no Senegal.

Tulé: nome de uma terra Esquimó; canção Alemã.

Tula: nome de uma cidade no México.

Inuit: homens, em Eskimo (cf. Gessain, les Esquimaux du Groenland à l’Alaska, p. 5).

Init, Ai-nit: homens, em wolof.
No século XIX, Bory de Saint Vincent descreveu os Esquimós, alguns dos quais eram quase tão pretos quanto o mais preto dos Africanos, apesar da latitude:

Seja qual for a razão, ambos os sexos, mais bronzeados do que as pessoas na Europa e na Ásia Central, mais escuros do que quaisquer outros Americanos, são ainda mais pretos o quanto mais para o norte se vai; uma prova adicional de que não é, como geralmente se acredita, o calor do sol que causa a cor-da-pele preta em certas regiões intertropicais. Não é raro encontrar Esquimós, Groenlandeses, e Samoiedos em 70 graus de latitude, que, mais escuros do que os Hotentotes no extremo oposto do velho continente, são quase tão pretos quanto os Wolof ou Cafres [Kaffirs] no Equador.*

[ * – Bory de Saint Vincent, Histoire et description des Iles de l’Océan. Paris: Didot, 1839.]

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Origem Egípcia dos Iorubás

Em seu livro, The Religion of the Yorubas [A Religião do Iorubás] (Lagos: C.M.S. Bookshop, 1948), J. Olumide Lucas traça a origem Egípcia deste povo da seguinte maneira:

           CONEXÃO COM O EGITO ANTIGO. Embora seja duvidoso se está a visão de uma origem Asiática correta, não pode haver dúvida de que os Iorubás estavam na África em uma data muito remota. Uma corrente de evidência leva à conclusão de que eles devem ter se estabelecido por muitos anos naquela parte do continente conhecido como Egito Antigo. Os fatos que levam a esta conclusão podem ser agrupados sob os seguintes cabeçalhos:
A. Similaridade ou identidade de linguagem;
B. Similaridade ou identidade de crenças religiosas;
C. Similaridade ou identidade de idéias e práticas religiosas;
D. sobrevivência dos costumes e nomes de pessoas, lugares, objetos, etc.
(Introdução, p. 18).

O autor, em seguida, cita muitas palavras comuns para Iorubá e Egípcio:

ran: nome
bu: nome de lugar
Amon: oculto [concealed]
miri: água
Ha: grande casa
Hor: ser elevado, erguido [to be high]
Fahaka: peixes prateados
naprit: grão (ou semente).

Sobre a identidade de crenças religiosas, Lucas cita fatos impressionantes:

Provas abundantes da conexão íntima entre os antigos Egípcios e os Iorubás podem ser produzidas sob este cabeçalho. A maioria dos principais deuses eram bem conhecidos, ao mesmo tempo, para os Iorubás. Entre esses deuses estão Osiris, Isis, Horus, Shu, Sut, Thoth, Khepera, Amon, Anu, Khonsu, Khnum, Khopri, Hathor, Sokaris, Ra, Seb, as quatro divindades elementais, e outros. A maioria dos deuses sobrevive em nome ou em atributos ou em ambos (p. 21).

Ra sobrevive entre os Ioruba com seu nome Egípcio: Rara. Lucas cita a palavra I-Ra-Wo, que designa a estrela que acompanha o sol nascente. Esta palavra começa com um prefixo vogal, típico do Iorubá, e línguas essencialmente  fonéticas segundo o autor (diríamos, como todas as línguas Africanas). Seus outros componentes são: Ra, a palavra Egípcia, e Wo: subir [to rise]. Lucas sugere que Rara, significando: ‘não absolutamete’, em Iorubá, indica que eles anteriormente juraram por esse deus.

Da mesma forma, o nome do deus lunar, Khonsu, é encontrada entre os Iorubás como Osu (a lua). Lucas nos lembra que o kh oclusivo não existe em Iorubá, e que, se uma palavra estrangeira contém kh, deve-se seguir o seguinte procedimento: se o kh é seguido por outra consoante, uma vogal é adicionada e forma uma sílaba de acordo com a regra de consoante-vogal em Iorubá. Se o kh é seguido por uma vogal em uma palavra de mais de uma sílaba, ele é simplesmente descartado. Este é o caso com a palavra Osu.

Amon existe em Iorubá com o mesmo significado que tem no Egípcio antigo: oculto [hidden]. O deus Amon é uma das primeiras divindades conhecidas pelos Iorubá e as palavras Mon e Mimon (santo, sagrado) são, provavelmente derivadas do nome deste deus, de acordo com Lucas. Thoth se tornaria To em Iorubá.

Em seguida, o autor oferece uma interessante análise etimológica da palavra Yoruba [Iorubá]. Ele ressalta que o termo do Oeste Africano que significa “existir” [“to exist”] torna-se ye mudando-se uma vogal. Quando dobrado para yeye, significa: ela que me faz existir [she Who makes me exist], de onde se tem yeye mi: minha mãe, ela que me dá vida. Aliás, yaye significa “mãe” em Wolof, Sara, Baguirmian, etc. Yeye é geralmente contraído para ye ou iya; yemi: meu criador  [my creator], em Iorubá, é aplicado à Divindade Suprema.

Além disso, o termo Egípcio Rpa é o nome do príncipe herdeiro dos deuses, pelo qual Seb foi conhecido no Egito antigo durante o período feudal (o autor diz). Rpa provavelmente evoluiu para ruba, de acordo com regras linguísticas Iorubás: introdução de uma vogal entre duas consoantes e mudança do p pelo b. Se considerarmos yo como meramente uma variante de ye, temos Ye + Rpa = Yoruba, o que provavelmente significaria “o Rpa vivente ou o criador de Rpa.” [“the living Rpa or creator of Rpa.”] *

[ * – Rom: homem, em Egípcio. Ya-ram: corpo, em Wolof. Com base na etimologia dada a Ya pelo autor, Ya-ram provavelmente quis dizer corpo vivo, homem vivo [living body, living man.]

Lucas apresenta uma análise igualmente interessante do nome aplicado para ovelha [sheep] em Iorubá. Ele começa a partir do fato de que a palavra Grega aiguptos é usualmente derivada do Egípcio: Khi-Khu-Ptah, que significa o templo da alma de Ptah. As paredes deste templo estavam cobertas por imagens de ovelhas, juntamente com outros animais. Consequentemente, o nome do templo poderia ser aplicado pelas pessoas aos animais representados. Em Iorubá, a-gu-to = ovelha [sheep], e deve ser comparado com o ai-gup-tos dos Gregos. Este exemplo parece indicar que a emigração dos Iorubás veio mais tarde do que o contato entre o Egito e os Gregos. . . .

Finalmente, no que diz respeito à crenças religiosas idênticas, o autor cita a idéia de uma vida futura e aquela de um julgamento após a morte:

a deificação do rei;
a importância atribuída a nomes;
a forte fé em uma vida futura.

Aqui Lucas recorda que todas as noções ontológicas dos antigos Egípcios, tais como Ka, Akhu, Khu, Sahu, e Ba, são encontradas em Iorubá. Estas palavras existem na íntegra em Wolof e Peul, como será visto a seguir. A crença na existência de um espírito guardião é apenas um aspecto do Ka. Lucas se prolonga, por 414 páginas, sobre o estudo dessas crenças e discute em detalhe a sua identificação com as crenças Egípcias.
Ele conclui observando a existência de hieróglifos Iorubás e cita vários exemplos.
A identidade do panteão Egípcio e Iorubá sozinha seria suficiente para provar o contato precoce.

O que nós sabemos do povo Iorubá – até mesmo suas lendas – mostra que ele provavelmente se estabeleceu em sua atual localização relativamente recentemente, após uma migração de leste para oeste. Com Lucas, podemos assim considerar como um fato histórico a posse conjunta do mesmo habitat primitivo pelos Iorubás e os Egípcios.
A forma latinizada de Horus, a partir da qual parece derivar o Orisha Iorubá, nos levaria a pensar que a sua migração não foi apenas posterior ao contato com os Gregos, mas também posterior ao contato com os Romanos.

Para concluir, devemos observar que Pédrals menciona, na página 107, o Monte Kuso [Kuso Hill] perto de Ife, e a existência de um Monte Kuso na Núbia, próximo à Meroë antiga, a oeste do Nilo “no coração da terra de Kush“.

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Origem dos Laobé
Origin of the Laobe

 

De onde eles vieram? Na minha opinião eles são um fragmento dos sobreviventes lendário povo Sao. Por uma questão de fato, o que é que aprendemos sobre os Sao a partir dos manuscritos de Bornu e das escavações dos Srs. Griaule e Lebeuf?

1. Seu nome era Sao ou So;
2. Eles eram gigantes;
3. Eles dançavam a noite toda;
4. Eles deixaram inúmeras estatuetas de terracota; e
5. Estas estatuetas revelam um tipo étnico com cabeça em forma de pêra [pear-shaped head].

Todas as cinco dessas características são encontradas nos Laobé.

Como os Sao, os Laobé portam seu único nome totêmico de So ou Sow, que tem sido confundido com um nome Peul. O único objeto sagrado ainda restante deles, o instrumento com o qual eles esculpem, é chamado de Sao-ta. Todos eles são gigantes, homens e mulheres, facilmente atingindo uma altura de seis pés ou mais, quando são relativamente sem mistura [unmixed]. Além disso, eles possuem membros extraordinariamente bonitos e são sempre trabalhados como atletas. Seus crânios são em forma de pera [pear-shaped], idênticos aos do tipo étnico visto em estatuetas Sao.

A Única ocupação dos Laobé é esculpir utensílios de cozinha em madeira feitos de troncos de árvore para todas as outras castas na sociedade Africana, não só para os Peul. Este fato, para além da sua altura, nos ajuda a colocar o seu habitat original em uma montanhosa área arborizada. A peocupação básico das mulheres Laobé, que gastam muito do seu tempo dançando, é fazer estatuetas, cozidas ou não, para os filhos de outras castas.

Os Laobé foram erroneamente considerados uma casta de escultores Peul e Tuculores [Toucouleur]. Este erro foi causado em parte pelo fato de que eles falam Peul e Tuculor [Toucouleur], o que levou as pessoas a acreditar que esta era a sua língua materna. Isso não era verdade. Foi esquecido que os Laobé são sempre bilíngües, pelo menos no Senegal. Eles falam Wolof tão fluentemente quanto Peul, e seu sotaque em Wolof não é aquele de um Peul ou de um Tuculor [Toucouleur]. Eles parecem ser um povo que perdeu a sua cultura e cujos remanescentes dispersos adaptaram-se atropeladamente às circunstâncias aprendendo a língua das regiões em que residem.
Nós já observamos que o seu nome totêmico básico é Sow. Os outros nomes totêmicos portados pelos Laobé refletem sua mistura com os Peul, os Tuculor [Toucouleur], e outros grupos étnicos. O contrário também é verdade; assim, pode-se explicar como o Peul pode ser nomeado Sow, bem como Ba e ka, que, na minha opinião, são os únicos nomes apropriados para eles. (Ba + Ra = Bari.) *

[ * – Veja “Origem dos Peul”, abaixo.]

A natureza dissoluta da moral dos Laobés confirma a idéia de um povo que perdeu sua cultura e não está mais ligado a nenhuma tradição. Uma preocupação igualmente essencial do Laobé é roubar burros para fazer um rebanho para servir como um dote no momento dos inúmeros casamentos efêmeros que eles contraem. A propriedade real dos burros entregues à família da noiva pouco importa. Além disso, a família não tem ilusões e sua estratégia é se livrar dos animais dentro de 48 horas, quer seja por vendê-los, ou tentando, nem sempre com sucesso, tornar os animais não vendidos irreconhecíveis tingindo-lhes uma cor diferente. Apesar de todas estas precauções “legítimas”, se a vítima é capaz de identificar e pegar seus animais – não sem encontrar forte resistência verbal do Laobé – o casamento continua não menos sólido do que qualquer outra união Laobé, pois o noivo cumpriu o seu dever e está livre de toda censura.

Além disso, uma mulher Laobé sabe que a escultura é apenas um pretexto e que a principal fonte de riqueza é a manada de burros. Ela é economicamente segura somente se ela se casa com um ladrão talentoso. Se seu companheiro não tiver sucesso nesta área de atuação, a esposa vai constantemente jogar isso contra ele e o casamento vai durar menos tempo do que o habitual. Por todas estas razões, a habitual distinção entre duas categorias de Laobés, escultores e não-escultores, não é mais tão importante.

Os Laobés são belicosos, mas raramente brigam. A cena clássica é aquela de dois adversários que avançam um para o outro em um ritmo lento o suficiente para dar tempo à multidão para intervir. Palavrões e insultos arremessados com todas as suas forças, cada antagonista arrasta atrás de si uma longa vara pesando várias libras. Assim que os espectadores têm-los separados, ambos os adversários sentem que eles fizeram o seu dever: a briga está terminada, mas os insultos continuam.

Os Laobés são os mais barulhentos e os mais socialmente indisciplinados de todos os Africanos que eu conheço. Uma mulher Laobé gasta seu tempo discutindo e enganando seu marido. . . .

Os Laobés vivem espalhados por diversas aldeias no Senegal e em outros lugares. Eles não têm moradias fixas; é impreciso dizer que eles habitam o Futa Toro (no Senegal) ou o Futa Jallon (na Guiné), territórios dos Tuculor [Toucouleur] e dos Peul. Eles formam grupos esporádicos dentro de grupos étnicos maiores. Os Laobés do Senegal já não podem mais identificar seu habitat original; sua organização social se dissolveu completamente; eles já não têm mais chefes tradicionais. O membro mais respeitado do grupo monta uma mula, enquanto burros são reservados para os outros. . . .

Eles parecem ter adotado a circuncisão a partir de outras populações Senegalesas. Eles juram pelo Sao-ta, o instrumento que eles usam para escavar os troncos de árvore após estas terem sido derrubadas pelo machado; eles usam o mesmo instrumento para a circuncisão. Um Laobé frequentemente recorre excessivamente à expressão: “Que Deus me fazer fugir do sao-ta se alguma vez eu fizer uma coisa dessas!” Em seguida, ele quebra seu juramento quase imediatamente. . . .

Em outras palavras, os Laobé são um ramo dos Sao, espalhados após a destruição de sua cultura. Outros ramos provavelmente foram para outros locais. Em Wadi-Halfa, na Núbia, Champollion descobriu uma estela que descreve Mandu, * um deus Núbio, oferecendo para Osorta-Sen, um Faraó da Décima Sexta Dinastia, os povos da Núbia, os quais incluem duas tribos chamadas Osaou e Schoat. Estes nomes são estranhamente reminiscentes do lendário povo Sao, que eram conhecidos por ter se estabelecido em torno do Lago Chade. Ainda existem Schoates [Schoat] nas margens do Logone. (Cf. Baumann; Delafosse, no entanto, identifica estes Schoat como árabes.)

[ * – Mandu: um santo que pratica a religião ao pé da letra, em Wolof.]
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Origem dos Fula
Origin of the Peul

À primeira vista, pode-se acreditar que os Peul [Fula] vieram originalmente daquela parte da África Ocidental, onde Mouros Semitas [Semitic Moors] e Pretos permaneceram por muito tempo em contato (Delafosse, The Negroes of Africa). Embora a hipótese desta miscigenação deva ser aceita, o local inicial onde esta teve lugar deve ser procurado em outro lugar, apesar das aparências.

Como outras populações do Oeste Africano, os Fula [Peul] provavelmente vieram do Egito. Esta teoria pode ser suportada por talvez o fato mais importante até à data: a identidade dos dois únicos nomes próprios totêmicos típicos dos Fula [Peul], com duas noções igualmente típicas de crenças metafísicas Egípcias, o Ka e o Ba.

Qual era o papel do Ka e do Ba no antigo Egito? Moret responde a esta pergunta em Le Nil et la civilisation égyptienne [O Nilo e a Civilização Egípcia] (p 212):

O Ka, que unido com o Zet, é um ser divino que vive no céu e só aparece depois da morte. Estávamos errados ao defini-lo, com Maspero, como o duplo do corpo humano, vivendo com ele, mas deixando-o no momento da morte, e sendo restaurado para a múmia pelos ritos Osirianos. A fórmula para a espiritualização do rei mostra que, enquanto Horus purifica o Zet, desmaterializando-o na Bacia do Chacal [Jackal], ele purifica o Ka em outra bacia, aquela do Cão [Dog]. . . . Ka e Zet eram separados. . . e nunca tinham vivido juntos na terra. . . . Nos textos do Antigo Império, a expressão “passar para o Ka” [“to pass to one’s Ka”] significa “morrer”. Outros textos especificam que um Ka essencial existe nos céus. Este Ka preside sobre as forças intelectuais e morais da pessoa; ao mesmo tempo, ele purifica a carne, embeleza o nome, e dá vida física e espiritual. . . .
Uma vez que os dois elementos sejam unidos, Ka e Zet formam o ser completo que atinge a perfeição. Este ser possui novas propriedades que fazem dele um habitante do céu, chamado Ba (alma?) E Akh (espírito?). A alma (Ba), representada pelo pássaro Ba, com uma cabeça humana, vivia nos céus. . . . Assim que o rei seja acompanhado [joined] por seu Ka, ele se torna Ba. . . .

Importa pouco se a interpretação de Moret sobre o Ka e Ba Egípcios está inteiramente correta ou não. O que é essencial é que essas duas noções desempenham, sem dúvida, um papel na ontologia Egípcia. Ka e Ba são os únicos nomes totêmicos típicos dos Peul. De acordo com o que foi dito acima acerca dos Laobés, acreditamos que os Peul tomaram emprestado deles o nome Sow, que hesitamos em identificar com o terceiro termo Egípcio: Zet. Bari, um outro nome totêmico Peul, é meramente uma combinação de Ba + Ra.

O quarto termo no texto de Moret, Akh, não corresponde a um nome totêmico, até onde eu sei, mas tem um significado ontológico óbvio em Wolof, ainda hoje. Em Wolof, Akh = aquilo que se é forçado a prestar aos outros no momento do julgamento após a morte, antes de atingir a felicidade eterna. Refere-se a fração da personalidade separada de outra pessoa, direta ou indiretamente, por incursões feitas sobre as possessões dessa pessoa.

Zet, em Egípcio: o cadáver purificado e rígido.

Sed, em Egípcio: morte simbólica do rei envelhecido e seu rejuvenescimento ritual.

Set, em Wolof: frio, condição do cadáver; como um verbo: morrer.

Ka, em Egípcio: pode ser resumido como significando a essência de um ser que vive nos céus. Por conseguinte, este é representado por dois braços levantados para o céu. Tem os seguintes significados: alto, acima, grande, padrão, altura. Em Egípcio, Ka seria pronunciado Kao, o que significa: alto, acima, elevado, etc., em Wolof.

Ba, em Egípcio: é representado por um pássaro com uma cabeça humana, que mora no céu. Mas Ba, em Egípcio, também designava um pássaro terreno [earthbound bird] com um pescoço longo. Em Wolof, Ba = avestruz.

Assim, é evidente que essas noções metafísicas Egípcias encontraram destinos diferentes, dependendo dos povos que as transmitiram. Enquanto, em Wolof, o significado Egípcio está preservado, em Peul [Fula], alguns deles, notavelmente Ka e Ba, tornaram-se nomes totêmicos e, por assim dizer, nomes étnicos.

Nós teríamos que supor que os Peul são uma das numerosas tribos que produziram Faraós no curso da história. Isto também é verdade de tais tribos como os Serer como os Sar, os Sen, e outras. Até a Sexta Dinastia (período da revolução proletária), apenas o faraó tinha o direito à morte Osiriana e, conseqüentemente, gozar plenamente de seu Ka e seu Ba. Vários Faraós portaram esse nome, entre outros, o Rei Ka, da época protodinástica; seu túmulo foi descoberto em Abydos por Amélineau. Isso estaria de acordo com um ramo dos Peul chamado Kara.

Os outros nomes Fulas [Peul], tais como Diallo, são nomes próprios adquiridos posteriormente em outros ambientes. Quanto à língua Fula [Peul], ela está naturalmente relacionada com todas as outras línguas do Senegal, em particular, e com as línguas Preto Africanas em geral. A relação entre Peul, Wolof, e Serer e enfatiza a sua unidade básica.

Originalmente, os Fula [Peul] eram Pretos que depois misturaram-se com um elemento branco estrangeiro do exterior. O nascimento do ramo Fula [Peul] teria que ser datado no período entre a Décima Oitava Dinastia e o Baixo Egito, um período de considerável miscigenação com o estrangeiro.

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Origem dos Tuculor
Origin of the Toucouleur

 

Tal como as outras populações que constituem o povo Negro, os Tuculor [Toucouloeur] vieram da bacia do Nilo, a região chamada de Sudão “Anglo-Egípcio”. Isto é provado pelo fato de que hoje nesta região, entre os Nuer, encontramos os nomes totêmicos típicos dos Tuculor [Toucouleur] que vivem nas margens do rio Senegal, a milhares de quilômetros de distância.

Sudão “Anglo-Egípcio”                 Senegal (Futa-Toro)
Kan                                                  Kann
Wan                                                 Wann
Ci                                                      Sy
Lith                                                  Ly
Kao                                                   Ka (Peul)

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Na mesma região, nas Montanhas Nuba (Colinas da Núbia), encontramos as tribos Nyoro e Toro. Em Uganda, Ruanda, encontramos também a tribo Kara. No presente momento, na Abissínia, há uma tribo chamada Tekruri, o que nos leva a pensar, no caso em que os Tuculor (Tukulor) Senegalêses são uma fração dessa tribo, que a região de Tekrur, ao invés de dar o seu nome aos Tuculor, adquiriu este a partir deles quando eles se estabeleceram ali. Além disso, existe uma tribo Nyoro no Sudão “Francês”, onde os Tuculor também peregrinaram antes de chegarem à área a ser chamada de Tekrur, no norte do Senegal. De lá, eles lentamente desceram em direção a esse rio, cujas margens foram imediatamente nomeadas Futa-Toro.

Um leitor cético pode, no entanto, considerar esses paralelos insuficientes, então adicionamos ainda outro. Nós sabemos por um fato que, durante a segunda metade do século XIX, os Tuculor [Toucouleur], já islamizados, tinham deixado as margens do rio Senegal para penetrar no interior, estabelecer-se em Sine-Salum e converter os Serer daquela região. O grande marabu [marabout] (mestre religioso) Tuculor que tentou realizar isso, um contemporâneo de Lat Dior, * foi nomeado Ma Ba Diakhou. A área conquistada ao Islã pelos Tuculor foi batizada de Nyoro pelos ancestrais dos Ma Ba: Nyoro du Rip. De acordo com suas próprias tradições, os Tuculor agora vivendo nas margens do Senegal haviam provavelmente uma vez residido na área denominada Nyoro do Sudão. . . .

[ * – Lat Dior, patriota Senegalês, Damel (Rei) de Cayor. Convertido ao Islam por Ma Ba, ele liderou a resistência contra os Francêses, morreu em 1886.]

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Origem dos Serer
Origin of the Serer

 

Os Serer provavelmente vieram para o Senegal a partir bacia do Nilo; sua rota foi dita ser marcada pelas pedras verticais encontradas na mesma latitude, a partir de quase tão distante quanto a Etiópia para Sine-Salum. Esta hipótese pode ser apoiada por uma série de fatos tomados a partir da análise de um artigo do Dr. Joseph Maes sobre as pedras verticais na vila do Sudão “Francês” conhecida como Tundi-Daro. *

[ * – Joseph Maes, “Pierres levees de Tundi-Daro,” Bull. Com. Et. A. O. F., 1924]

O Dr. Maes atribui a origem dessas pedras à Cartagineses ou Egípcios, quem ele supõe serem brancos. Ele explica o nome da aldeia da seguinte forma: Tundi, relata ele, deriva de uma palavra Songhay que significa pedra. Daro provavelmente vem do Árabe Dar, que significa casa: o o final é descartado de forma que o que resta pode ser idêntico à palavra Árabe. Assim, Tundi-Daro significaria: casa de pedra.

Esta análise poderia ser aceitável se apenas as pedras representassem uma casa, ou se alguém pudesse de alguma forma considerar que eles se parecem com uma casa. Mas o Dr. Maes sabe que isso é impossível e seu texto relata um grupo de fatos excluindo qualquer ideia de habitações humanas:

Elas são monólitos cortados na forma de um falo [phallus], geralmente com a cabeça (glande) bem delineada, os sulcos seguem as linhas da glande, e a bolsa é representada por protuberâncias arredondadas cujas dobras longitudinais se assemelham às do escroto [scrotum]. Outras pedras menores não são em forma de falo [phallus-shaped]. Privadas de protuberâncias arredondadas, com o triângulo delineado na forma de um púbis, pela união dos dois terços com o terço superior estas parecem antes representar o órgão fêminino.

Como é que ele então as interpreta? “Pode ser aceito como plausível que esses monólitos marcam o local de um cemitério, cada pedra marcando a sepultura de um cadáver do sexo masculino ou feminino.” Essa idéia seria interessante e discutível se alguém pudesse encontrar pelo menos uma aparência de ossos sob as pedras. Mas o Dr. Maes acrescenta: “O fato de termos encontrado apenas alguns fragmentos de ossos tem muito pouco peso contra essa hipótese. É possível que os corpos foram cremados e as cinzas e apenas alguns ossos poupadas pelas chamas foram enterrados.”
Essa linha de raciocínio é inaceitável do início ao fim. Estas não podem ser considerados sepulturas porque não há esqueletos. Os poucos ossos que Dr. Maes estava pronto para identificar provam que, se tivesse havido originalmente esqueletos lá, eles ainda não teriam sido destruídos.

O que as pedras realmente representam? Elas correspondem a um culto agrário: eles simbolizam a união ritual do Céu e da Terra (descrevendo os dois órgãos sexuais) para dar à luz a vegetação (feminino), a vegetação que nutre a humanidade; em outras palavras, para fazer a semente crescer.

Por uma questão de fato, de acordo com crenças arcaicas, a chuva corresponde à fecundação da Terra (Deusa Mãe) e o Céu (Deus Pai), divindade celeste que se torna atmosférica com a descoberta da agricultura (um conceito emprestado de Mircea Eliade) . A Vegetação que crescendo após esta união era considerada um produto divino. Daí a idéia de uma Trindade cósmica que evoluiu através de um processo de sucessivas encarnações até a Trindade do Pai, do Filho e da Virgem Mãe, mais tarde substituída pelo Espírito Santo, passando pela Tríade: Osíris, Isis, Horus.

Uma vez que semelhante grea semelhante, eles cortaram os dois órgãos sexuais na pedra para convidar as divindades a se unir para que a vegetação doadora da vida [lifegiving] possa crescer. Em suma, foi sua ânsia para garantir sua existência material que incitou o homem a esta prática. O instinto vital, materialismo arcaico, só podia aceitar esta transposta forma disfarçada de metafísica que evoluiria ininterruptamente em direção ao idealismo.

Lá, então, em nossa opinião, está o sentido daquelas representações. Aliás, aquelas pedras fálicas não estão vinculadas a um culto solar, exceto na medida em que o sol está relacionado com a chuva; é inacurado considerá-las como adoração do sol, alegadamente pastoral – e, assim, Hamítica (incluindo o absurdo habitualmente associado à esta palavra). Tal adoração do sol, supostamente atribuída a pastores e guerreiros, decorre da imaginação, e não a partir de qualquer fato verificável.

Pelo contrário, um povo que praticava tal culto tinha de ser essencialmente agrícola; isso elimina automaticamente as estepes da Eurásia e regiões Nórdicas, berços de pastores nômades. Desnecessário dizer que não há pedras fálicas naquelas áreas. Estas são encontradas apenas em terras habitadas por Negros ou Negróides, ou em lugares que eles freqüentaram, a área que Speiser chama de “a grande civilização megalítica“, que se estende da África para a Índia, Austrália, América do Sul, Espanha e Bretanha. Sabe-se que os menires e dólmens da Bretanha remontam a uma época de uma civilização agrícola e do cobre. Além disso, a Espanha e a Bretanha eram pontos de escala [stopovers] para os Fenícios, um grupo Negróide, a caminho para pegar estanho das minas Britânicas. Esta civilização megalítica na Bretanha pertence ao segundo milênio, o período em que as Fenícios freqüentaram aquelas regiões. Esta combinação de fatos não deve deixar dúvidas sobre a origem sulista e Negra dos megálitos, na Bretanha.

Tendo provado o carácter agrícola das sociedades a que devemos esses megálitos, vamos chamar a atenção para uma outra contradição no artigo do Dr. Mae. Ele assume que os mortos eram cremados. Mas a cremação é praticada por nômades que, em virtude de sua vagabundagem, não podem cultuar em túmulos fixos. Eles mantêm este costume em todos os lugares, mesmo quando eles se tornam sedentários (Romanos, Árias [Arya] da Índia). Cadáveres são queimados para que eles possam ser transportados ao longo, não enterrados. Os povos agrícolas à quem os megálitos de Tundi-Daro devem ser atribuídos não poderima ter queimado seus mortos. Deve ser possível encontrar seus ossos seguindo as indicações que nós devemos fornecer logo.

Mas o Dr. Maes entra em detalhes sobre as pessoas responsáveis por estas pedras: “Qualquer um familiarizado com a psicologia Negra pode afirmar quase categoricamente que essas obras que exigem uma quantidade considerável de esforço, sem qualquer utilidade aparente imediata, sem qualquer relação com as funções naturais de comer e copular que sozinhas interessam do homem negro, não foram executadas pela raça negra“.

Por causa de suas contradições, esta talvez seja sua passagem mais interessante. Na verdade, é inconcebível, segundo a lógica supostamente característica da madura, culta, mente Ocidental moderna, que a mesma caneta que descreveu as “glandes bem delineadas” e as pedras em forma do sexo de uma mulher poderia ter escrito, algumas linhas depois: “sem qualquer relação com as funções naturais de comer e copular que sozinhas interessam ao homem negro

Nem se poderia esperar do mesmo escritor que acabou de interpretar “Tundi-Daro” como “casa de pedra” chamar estas pedras de “obras que exigem uma quantidade considerável de esforço sem qualquer utilidade aparente imediata.” E por que o autor é atolado em suas próprias contradições? Simplesmente para ser capaz de dizer, no final, que uma origem Cartaginesa ou Egípcia deve ser procurada para as pedras. Em outras palavras, trazer tudo de volta para uma fonte que ele acredita ou quer acreditar branca.

Esta atitude, típica do mundo Ocidental quando nós estamos em questão, mostra como absolutamente necessário é para nós escavarmos o nosso próprio passado, uma tarefa que nenhum povo pode fazer por outro, por causa das paixões, orgulho nacional, e preconceito racial resultante de uma educação distorcida desde a raiz [from the ground up]. Se seixos [pebbles] foram encontrados na África, deveria se buscar uma origem estrangeira para estes com a idéia preconcebida, expressa ou tácita, de que “qualquer pessoa familiarizada com os Negros pode afirmar categoricamente” que esta pilha de pedras não pode ser atribuída a eles.

Quem, então, é responsável por essas pedras verticais? Não os atuais residentes da região de Tundi-Daro. Neste ponto, o autor é firme: “Nenhuma tradição oral sobreviveu entre os atuais habitantes de Tundi-Daro. Quando questionados, os moradores mais antigos e mais instruídos respondem que essas pedras foram sempre conhecidas por seus pais e avós, mas que estes não sabiam nada sobre os homens que as haviam trabalhado.” Esta afirmação do autor não é uma interpretação, mas um fato, assim nós podemos usá-lo.

Mas, quem, então, é realmente responsável por essas pedras? Com toda a probabilidade, o povo Africano ainda está localizado na mesma área, a uma distância relativamente curta de Tundi-Daro, um povo que ainda pratica o culto de pedras verticais. Este grupo étnico é o Serer. Nós sugerimos eles, pelas seguintes razões:

Os Serer ainda praticam o culto de pedras verticais em Sine-Salum. Para eles, este tem vários significados, incluindo o acima indicado. Os Serer ainda são os únicos fazedores de chuva [rainmakers] no norte do Senegal. Eles são, essencialmente, agricultores e é apenas por razões agrícolas que eles invocam a chuva através de ritos tradicionais. . . . Para apoiar esta hipótese, podemos sugerir uma razão mais profunda e mais convincente resultante de uma análise do nome Tundi-Daro: Tund = colina, em Wolof e Serer. Daro = união, no sentido sexual do termo. Note-se, no entanto, que Daro é um termo o mais respeitoso, não deve ser confundido com a expressão vulgar, mas, ainda assim, referindo-se à relações sexuais. Assim, poderia facilmente ser uma questão aqui de uma união ritual.

O i final indica o plural. Tundi-Daro: as colinas da união, em Wolof. Em Wolof hoje, não seria possível encontrar uma expressão mais perfeita ou mais gramaticalmente correta para traduzir esta ideia: as colinas da união [the hills of union]. Além disso, esta expressão é exclusiva, a única adequada. Ela traduz a noção de uma união ritual que ocorre nas colinas. Porque nas colinas? Precisamente porque esses ritos de união tinham terreno elevado, montanhas, montes, considerados sagrados porque eles representam o ponto onde o céu e a terra parecem se tocar: a idéia do “centro do mundo”, Jerusalém, a Kaaba de Meca, a montanha sagrada do xamã (feiticeiro-padre) * Mongol.

[ * – No Egito, devido às condições geográficas – a ausência de chuva e a fecundação do solo pela “terrena” água do Nilo – o papel sexual do casal divina se inverteu: o Céu era a deusa, e a Terra o deus masculino.]

Mas, neste caso particular, se nossa teoria estiver correta, se a nossa análise do nome Tundi-Daro é mais do que uma coincidência atraente, é indispensável que pelo menos colinas existam em Tundi-Daro. “Tundi-Daro está apoiado contra morros de arenito avermelhado parcialmente cobertos por areia.”, Escreve o Dr. Maes no mesmo artigo. Por isso, estamos lidando aqui com uma identidade: o nome da vila resulta de duas realidades palpáveis que a rodeiam: as colinas e as pedras fálicas em seu significado ritual. . . .
Até que se prove o contrário, devemos manter que os Serer passaram por Tundi-Daro e permaneceram algum tempo lá. Se isso for verdade, deve ser possível produzir mais provas através de uma busca sistemática de sepulturas nos montes circundantes. Os Serer enterram seus mortos como os Egípcios fizeram; exceto que a mumificação teve de ser abandonada por causa da escassez de pano e da melhoria das condições de higiene que a causaram no Egito. Acima da sepultura, em vez de uma pirâmide, os Serer colocam um teto em forma de cone [cone-shaped roof] que cobre o solo. Nesta planície, onde a pedra é escassa, a construção em tijolo é substituída por palha. O telhado finalmente se desintegra e pode desmoronar, mas ali geralmente permanece um pequeno monte de terra no local da antiga sepultura.

O Traje do cadáver depende da situação financeira de seus parentes, ele é colocado na sepultura com todos os seus utensílios domésticos e objetos familiares usados durante a sua vida pois, como os Egípcios, os Serer acreditam que a vida continua após a morte da mesma forma que se desenrolava na terra . *

[ * – O hieróglifo Egípcio que designa o túmulo é uma pirâmide Núbia (grande altura sobre uma base estreita), que é lida: Mr Em Serer, o mesmo tipo de túmulo é chamado de m’banar Entre os Wolof e os Serer, no entanto, os reis são enterrados em profundos poços ocultos, não para evitar a profanação de seus corpos por subalternos maltratados, mas para evitar que uma dinastia rival realize magia lá que pode extinguir a linhagem dos reis mortos de uma vez por todas.
Os Egípcios procediam da mesma maneira e sepultaram os seus reis em poços semelhantes, o local das quais também era desconhecido para o público. Assim, pode-se supor que eles foram motivados por razões semelhantes. Conseqüentemente, vemos que, mesmo em detalhes, a tradição Africana pode lançar nova luz sobre a tradição Egípcia.]

Mais uma vez, podemos ver a importância de analisar fatos etnológicos na história Africana e a relativa certeza que as considerações lingüísticas podem proporcionar. Vemos também a vantagem de ser derivada de pesquisa etnográfica realizada criteriosamente.
A magnitude dos erros do doutor, seu estado de espírito que faz ele distorcer os problemas antes de atacá-los – uma característica sobre a qual ele não tem o monopólio – indica o quanto é necessário para nós interpretarmos nossa própria cultura, ao invés de persistir em vê-la somente através de olhos Ocidentais. Nós temos de reter destas obras todos os fatos que são cuidadosamente e objetivamente relatados, mas as interpretações, isto é, os esforços para compreender esses fatos, para explicá-los, e estabelecer laços de causa e efeito entre eles, não deve ser simplesmente tomada por aceita [taken for granted]. *

[ * – Tundi-Daro é habitada pelos Rimaïbe. A vila está localizada sobre a costa nordeste do lago Tundi-Daro, cerca de dezesseis quilômetros (dez milhas) a noroeste de Niafunké, sede do condado do Círculo Issaber [Issaber Circle], Sudão “Francês”.]

Nosso raciocínio, no entanto, embora persuasivo, é marcado por uma contradição que poderia ter passado despercebida se não tivéssemos chamado a atenção para isso. Mas, uma vez que buscamos nada além da verdade, nosso zelo objetivamente nos obriga, sempre que surge a ocasião, para enfatizar o factual e eliminar qualquer dúvida possível. Os Serer ainda praticam o culto descoberto em Tundi-Daro. Mas sua linguagem, embora muito próxima do Wolof, não é a fonte do termo Tundi-Daro. Esta expressão é basicamente Wolof, e não Serer. Este fato mereceu menção. A menos que nos deparamos aqui com um fenômeno do acaso, o berço da língua Wolof teria de ser estendido para o leste, em direção à curva do Niger, para o antigo local de Gana. Ou então, a área de expansão do Wolof cobriria uma área muito mais ampla do que atualmente: margens do Senegal, curva do Níger, Chade, e talvez mesmo além. Outros fatos apoiam a origem Nilótica dos Serer. A cidade santa que eles criaram ao chegar em Sine-Salum é nomeada kaôn. Este é também o nome de uma cidade Egípcia onde hieróglifos foram encontrados.

O deus celestial dos Serer, cuja voz é o trovão, é nomeado Rôg, ao que muitas vezes acrescenta sen, um adjetivo que indica nacionalidade. Enquanto Rôg é para ser comparado com o deus Egípcio Ra ou Ré, também uma divindade celestial, Sen embra certos reis Núbios, certos Faraós Egípcios, tais como Osorta-Sen, Perib-Sen. Esta observação é tanto mais surpreendente porque o monarca Núbio, Taharqa, reivindicou Ososrta-Sen como seu ancestral. Além disso, Perib-Sen restaurou o brasão-de-armas [coat-of-arms] do Alto Egito, quando ele chegou ao poder. Assim, os Faraós Sen eram essencialmente do sul. Finalmente, a planície de Sen-aar ou Sinaar, lembra a planície de Sin no Senegal, habitada pelos Serer. Atualmente, na África Central, há um povo chamado Séré, o qual nós não podemos identificar automaticamente com os Serer. Seria mais útil aqui tentar peneirar o tronco comum de todos esses nomes:

Séré: homem, em Seré-hulé, forma alterada: Sarakollé, Sarakole.

Sara: povos do Chade.

Séré: tribo na África Central.

Sérère: Serer, um povo do Senegal.

 

Podemos supor que a raiz comum todos esses nomes seria o termo genérico para homem, como é o caso com os Bantu. De fato, BaNtu = os homens. O tronco Ntu de Bantu ocorre no Wolof: Nit = homem / e no Egípcio: Nti = homem, alguém; em Peul [Fula]: Neddo = homem. Esta designação de um povo por um termo genérico significado homem tem sido geral em toda a África Preta, começando com o Egito.

A Sul dos Nuer e dos Dinka, nós encontramos os Luoluo, um nome que se assemelha ao dos Lolo no Senegal, uma tribo do Séré, e os Falli são encontrados ao sul do Chade, ao sul de Kotoko e Choa. Este último nome que se assemelha ao da tribo Núbia Schoat (Baumann, pp. 319-320). Fall, aliás, é um nome típico Serer.

Para citar Pierret, Serer significa: aquele que fixa os limites dos templos, em Egípcio. Este significado seria consistente com o fervor religioso dos Serer, um dos raros grupos étnicos no Senegal ainda não convertidos a uma religião estrangeira moderna.

Champollion o Jovem, relatou a existência no Egito de uma casta de sacerdotes chamada Sen. A Nobreza e o clero tinham o mesmo valor; houve muitas vezes reis sacerdotais. Vários Faraós das primeiras dinastias foram Serer, a julgar por seus nomes: Faraó Sar e Faraó Sar-Teta, ambos da Terceira Dinastia (cf. Pierret, Dictionnaire archéologique); Faraó Perib-Sen, quinto Faraó da Primeira Dinastia, e Osorta-Sen, da Décima Sexta Dinastia.

Na época das primeiras dinastias (excluindo, é claro, o último Faraó listado), a raça Egípcia Negra ainda estava praticamente livre de qualquer mistura racial, tal como comprovado pelos monumentos desses períodos que descrevem um tipo distintamente Preto. mesmo, todos os elementos civilizatórios já estavam presentes, incluindo a escrita e ciências. Desde essa época até o fim, a civilização Egípcia simplesmente viveu no conhecimento adquirido durante as primeiros dinastias e o período anterior. Muito mais tarde as invasões Citas [Scythian], Gregas, Persas, Romanas, Árabes e Turcas alteraram o tipo Egípcio, mas este nunca deixou de manter suas características Negras básicas. (modernos Fellahs, várias tribos Fula [Peul]).

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Origem dos Agni
Origin of the Agni

Os Agni (Añi) também parecem ser de origem Egípcia, se considerarmos o primeiro nome que sempre acompanha aquele do rei: Amon, uma divindade Egípcia. Houve, por exemplo, Amon Azenia, um rei Añi que viveu no século XVI, e Amon Tiffou, um governante Añi do século XVII, * e Amon Ahire, um monarca Añi do século XIX, que assinou um tratado de aliança com Louis-Philippe (cf. Enciclopédia mensuelle d’outre-mer, abril de 1952).

[ * – Aniaba, um alegado filho desse rei, foi enobrecido por Louis XIV. Mais tarde, foi alegado que este era um servo a quem o monarca Africano tinha confiado a um capitão de navio Europeu.]

Poderíamos comparar: Añi, Oni (nome do rei Nigeriano de Ifé), Oni (nome de Osíris), Anu (nome de uma raça Preta pré-dinástica do Egito). Em O Livro dos Mortos [The Book of the Dead], existem várias passagens em que o nome de Osíris é acompanhado pelo termo étnico Ani: Hino de Introdução ao Livro dos Mortos; o Julgamento, etc.; Hino a Ra no nascer do sol. No capítulo XV, encontramos o Hino a Osiris, tirado a partir do papiro Ani, e no mesmo capítulo: “Osíris Ani, o escriba real, na verdade. . . ” (O Livro dos Mortos [The Book of the Dead], traduzido por Wallis Budge. Londres, 1898).

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Origem dos Fang e Bamum
Origin of the Fang and Bamum

Em um artigo publicado na Encyclopédie de la France d’outremer [Enciclopédia da França do exterior] (Dezembro de 1951, pp. 347-348), Pédrals relata que o Padre Trilles, depois de fazer uma série de estudos, está convencido de que os Fang tiveram “algum contato com a Etiópia Cristã durante sua migração antiga.” Este é um povo que, como vimos anteriormente, ainda não tinha atingido a costa durante o século XIX na sua caminhada do nordeste para o sudoeste.

Estudos similares por M. D. W. Jeffreys apontam para uma conexão entre os Bamum e os Egípcios; Pédrals escreve:

Tendo notado em vários livros sobre o Egito as relações abutre-faraó [vulture-pharaoh] e serpente-faraó [serpent-pharaoh], e especialmente o fato apontado por Diodoro: que o sacerdote Etíope possuia uma áspide enrolada em seus chapéus; tendo também observado vários exemplos de representações de duas cabeças zoomorfas, particularmente no Livro dos Mortos (papiro de Ani) [Book of the Dead (Ani papyrus)], folio 7, M.D.W. Jeffreys declarou-se convencido de que “o culto Bamum do rei deriva de um culto Egípcio similar.”

Esta observação por M.D.W. Jeffreys pode ser ligada à lenda de que um Damel de Cayor tinha um abutre [vulture] que era alimentado exclusivamente com carne humana de escravos. A lenda provavelmente exagera ao relatar que, sempre que o abutre soltava gritos de fome, um escravo era morto para que o abutre pudesse banquetear-se em suas entranhas. Este abutre [vulture] pertencente ao rei de Cayor (Senegal) era nomeado Geb. Em Egípcio, Geb significa a Terra, o deus reclinável. [the reclining god].

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Origem dos Mouros
Origin of the Moors

Os Mouros são Árabes, recém-chegados a partir de Iémen, tendo chegado durante as invasões Islâmicas (século VII). Como já indicado, os seus numerosos manuscritos, que reproduzem cuidadosamente a sua genealogia e da data da sua saída do Iêmen, provam isso totalmente. Os Mouros produzem estes manuscritos em qualquer ocasião. Eles certamente não são ignorantes sobre sua origem, a qual eles conhecem até ao mais ínfimo detalhe. Seu testemunho deve ser levado a sério.

É inútil desconsiderar esses manuscritos e tentar encontrar origens e uma antiquidade no continente Africano, que os Mouros não têm – apenas para torná-los parte da hipotética raça branca que supostamente se estabeleceu no Egito antes, apenas para desaparecer gradualmente após um longo período de cruzamentos.

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Pg. 204

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                        CAPÍTULO X

 

Evolução Social e Política do Egito Antigo

A. Primeiro Ciclo: O Império Antigo [The Old Kingdom]

A unificação política do Vale do Nilo foi realizada pela primeira vez a partir do sul, a partir do reino de Nekhen no Alto Egito [Upper Egypt]. A Paleta de Narmer [Narmer’s Tablet], descoberta por Quibbell em Hierakonpolis, recordou seus vários episódios. Capart identificou corretamente, ao que parece, o Rei Narmer com o lendário Rei Menes descrito na Figura 5.

A capital do reino unido foi transferida para Tinis [Thinis] perto de Abydos. Este foi o período das primeiras duas dinastias Tinitas [Thinite dynasties] (3000-2778). Por volta da Terceira Dinastia (2778-2723), a centralização da monarquia estava completa. Todos os elementos tecnológicos e culturais da civilização Egípcia já estavam em vigor e tinham apenas que ser perpetuados. Pela primeira vez no Egito, o faraó Zoser introduziu arquitetura em pedras lavradas. * Seu forte rosto Negro com feições características dominou este período (Figura 6).

[* – Especialistas informados tomam o cuidado para fotografar figuras Egípcias unicamente através de ângulos “astutos” que mascaram ou atenuam as características Negras.]

Na realidade, os outros Faraós da dinastia não foram menos Negróide. Petrie afirmou que esta dinastia, a primeira a dar à civilização Egípcia sua forma e expressão quase definitivas, era de origem Núbia Sudanêsa. *

[ * – Cf. Sir Flinders Petrie, The Making of Ancient Egypt. London: Sheldon Press; New York: Macmillan, 1939.]

Era mais fácil reconhecer a origem Negra dos Egípcios quando a exposição inicial da sua civilização coincidiu com uma inquestionável dinastia Negra. As características igualmente Negras do rosto protodinástico de Tera Neter e aquele do primeiro rei a unificar o vale, também provam que esta é a única hipótese válida (Fig. 4). Da mesma forma, as características Negras dos Faraós da Quarta Dinastia, os construtores das grandes pirâmides, confirmam isto. (Fig. 7-10).

Examinando as figuras em ordem cronológica, nós vemos uma imagem etnológica homogênea, capaz de nos esclarecer sobre a verdadeira origem dos antigos Egípcios. Isso ocorre porque, sob o Império Antigo [Old Kingdom], antes dos ampliados contatos com raças de pele branca do Mediterrâneo, a raça Negra Egípcia estava praticamente intocada por miscigenação [crossbreeding]. . . .

Com a centralização administrativa na Terceira Dinastia“, escreve Jacques Pirenne, “não havia mais qualquer nobre ou classe privilegiada.” *

No entanto, o clero, guardião da fé que estabeleceu a autoridade do rei, era um corpo à parte, bem organizado e relativamente independente. Até então, este tinha exercido a sua tutela espiritual na coroação do rei no templo em Heliópolis. Mas, para tornar o seu poder absoluto, o rei entrou em choque com o clero. A partir de então ele renunciou a coroação em Heliópolis e foi coroado em seu próprio palácio em Memphis. Ele proclamou o princípio de sua onipotência por direito divino, acrescentou: “Grande Deus” aos seus títulos, e estava livre de qualquer controle humano. O advento da Quarta Dinastia, com as pirâmides de Gizé, mostrou que a monarquia tinha alcançado seu seu apogeu.

Subsequentemente, o regime de novo evoluiu para feudalismo. Os cortesãos constituíram um corpo especial de dignitários que tornariam-se hereditários pelo uso, e logo por direito. O ciclo que acabamos de descrever seria repetido duas vezes mais de forma quase idêntica e a história do antigo Egito iria terminar sem nunca desenvolver-se em uma república e sem a criação de verdadeiro pensamento secular. O sistema feudal que tinha acabado de triunfar com a Quinta Dinastia atingiu o seu auge com a Sexta. Em seguida, ele gerou estagnação geral da economia e da administração do Estado em áreas urbanas bem como nas áreas rurais. E a Sexta Dinastia iria terminar com o primeiro levante popular na história Egípcia.

[* – Cf. Jacques Pirenne, Histoire de la civilização l’Egypte de ancienne. Paris: Albin Michel, 1963, I, 16.
Todos os Egípcios, homens e mulheres, têm direitos iguais: poder marital e autoridade paterna não existem mais; todas as famílias, com exceção da do rei, são estritamente monogâmicas, e a mulher pode dispor de sua propriedade sem a autorização do seu marido. Em direito público, a burocracia tinha substituído completamente o antigo sistema feudal hereditário. Serviços administrativos são ocupados por um corpo de funcionários nomeados e pagos pelo rei, classificados de forma rigorosa e obrigados a trabalhar seu caminho a partir do menor para os mais altos cargos no governo. A Justiça, dispensada exclusivamente em nome do rei, é confiada aos tribunais reais. Cidades ainda desfrutam de uma certa autonomia, embora integradas no sistema administrativo geral do país; os antigos principados feudais tornaram-se províncias.”
A pompa da corte, edifícios reais, estruturas religiosas, e o enorme desenvolvimento da administração, exigem cada vez maiores recursos. Impostos subem, caindo cada vez mais pesadamente sobre os rendimentos dos cidadãos. Eles tentam escapar deles; então a restrição fiscal intervém. A Administração é sobreposta sobre a nação e os altos funcionários entram para a “ordem” da nobreza. O Alto cargo é de fato hereditário. Terras alugadas para remunerar os grandes oficiais da coroa permanecem seu patrimônio privado, porque os cargos são herdados. Títulos honoríficos são acompanhados por doações reais que aumentam de um reino para o outro. Uma classe de grandes proprietários é criada; estes são simplesmente os agentes do poder real [royal power]. Templos agora utilizados para celebrar o culto real [royal cult] recebem enormes subsídios. O rei se torna um prisioneiro do sistema que ele construiu para garantir sua onipotência. A nova nobreza criado para apoiar essa onipotência, a sufoca e destrói. O individualismo sobre o a monarquia centralizada foi construída está a caminho para a ruína. Ao final da Quinta Dinastia a sociedade Egípcia é dividida em classes sociais. Uma intitulada aristocracia, dotada de grandes domínios, hereditariamente mantém os altos cargos. Poder absoluto existe apenas de nome. Já não é nada além de uma fórmula mal disfarçando a oligarquia criada para a sua desvantagem. Sob a Sexta Dinastia esta evolução se acelera. A Herança de altos cargos é decretada em lei. Os governadores provinciais, tendo-se tornado hereditários, se transformam em príncipes. Os altos deveres do clero tornam-se o apanágio de uma pequena oligarquia. Os templos, cujos sacerdotes também se fizeram hereditários, estão isentos de impostos e dotados de imunidade. . . . Imitando o rei, os ‘príncipes’ provinciais estão rodeados por um tribunal e um harém. Como a terra, a família fica estagnada, seja em possessões nobres ou na posse ‘perpétua’ concedida por um senhor. A mulher cai de volta sob a tutela de seu marido e até mesmo filhos adultos estão sob a autoridade dos pais. Enquanto isso, o privilégio masculino reaparece, favorecendo filhos na herança da terra, em detrimento das filhas.”]

Obviamente, divisão do trabalho com base nas habilidades [craftmanship] já existia. As cidades sem dúvida eram centros ativos de comércio com o Mediterrâneo Oriental. Suas ociosas massas acometidas pela pobreza iriam tomar parte ativa na revolta. Os costumes da nobreza criaram uma classe especial de homens: funcionários contratados para mandatos variados. O texto que descreve esses eventos * mostra que o país tinha mergulhado na anarquia; a insegurança reinava, especialmente no Delta com os ataques de “Asiáticos”. Estes últimos monopolizaram os trabalhos destinados aos Egípcios nas várias oficinas e áreas de construção urbana.

[ * – “Adomonitions d’un sage,” (“Admoestações de um sábio”) citado por Pirenne, p. 328]

Os miseráveis de Memphis, a capital e santuário da realeza, pilharam a cidade, roubando os ricos e levando-os para as ruas. O movimento logo se espalhou para outras cidades. Saïs foi temporariamente governada por um grupo de dez notáveis. A situação em toda a cidade foi pungentemente descrita nesse texto:

         Ladrões se tornam proprietários e os ex-ricos são roubados. Aqueles vestidos com roupas finas são espancados. Senhoras que nunca tinham posto os pés fora agora saem. Os filhos de nobres são arremessados contra as paredes. Cidades são abandonadas. Portas, paredes, colunas são incendiadas. Os descendentes dos grandes são jogados na rua. Nobres estão com fome e em perigo. Servos agora são servidos. Senhoras nobres abandonam. . . [seus filhos] encolhidos de medo da morte. O país está cheio de descontentes. Camponeses usam escudos nos campos. O homem mata seu próprio irmão. As estradas são armadilhas. As pessoas permanecem em emboscada até que [o agricultor] retorne à noite; então, eles roubam tudo o que ele estiver carregando. Espancado com porretes, ele é vergonhosamente assassinado. O gado vagueia à vontade; ninguém cuida deles. . . .Cada homem leva embora todos os animais que tinha marcado. . . . Em todos os lugares as culturas [crops] estão apodrecendo; vestuário, especiarias, óleo estão faltando. Imundície cobre a terra. As lojas do governo são saqueadas e seus guardas derrubados. As pessoas comem grama e bebem água. Tão grande é a sua fome que eles comem os alimentos destinados aos porcos. Os mortos são jogados no rio; o Nilo é um sepulcro. Os registros públicos não são mais segredo.

Parece que foi feita uma tentativa, ao mesmo tempo, para profanar os textos sagrados, mas isso é difícil de verificar. . . .

Aparentemente, o pobre, pelo menos por um tempo, manteve a posição assim adquirida, pois a vida econômica e comercial recuperou o seu curso normal; riqueza reapareceu, embora não mais nas mesmas mãos: “O Luxo é generalizado, mas são os pobres que agora são ricos. Aquele que não tinha nada, possui tesouros, e os grandes o agradam. . .”

Assim, o primeiro ciclo da história Egípcia terminou com o colapso do Império Antigo. Este havia começado com o feudalismo que precedeu a primeira unificação política; se encerrou em anarquia e feudalismo. A monarquia afundou em feudalismo sem ser atacada diretamente. De fato, o princípio da monarquia não poderia ter sido gravemente ameaçado. Talvez houvesse algumas tímidas tentativas de auto-governo nas cidades do Delta, como em Saïs. Mas esta foi provavelmente uma solução temporária ditada pela rapidez da crise e a falta de autoridade pública que se seguiu à invasão do Delta pelos Asiáticos. Cidades na rota de invasão eram abruptamente obrigadas a assegurar a sua própria segurança conforme elas enfrentavam o inimigo comum. Confrontados com esta situação, os ex-governadores provinciais no Alto e Médio Egito estabeleceram-se como senhores feudais independentes, livres, doravante, de qualquer soberania real, embora eles nunca tenham questionado o princípio da própria monarquia. Pelo contrário, cada um à sua maneira estava tentando ser rei; eles se chamavam a si mesmos de reis de suas próprias regiões.
Aparentemente, o aparato burocrático, que pesava tão pesadamente sobre os pobres, juntamente com absolutismo real, era o alvo principal. . . . Após a revolução, todos os Egípcios tinham o direito à “morte Osiriana”, o privilégio da sobrevivência no além, anteriormente reservado para o Faraó como o único com um Ka, uma alma, no céu.

Dois fatos, no entanto, devem ser observados. O descontentamento era forte o suficiente para quebrar completamente a sociedade Egípcia em todo o país. Mas faltava-lhe direção e coordenação, a força dos movimentos modernos. Isto teria exigido um nível de educação popular incompatível com as possibilidades e formas de educação na época. Acima de tudo, foi o tamanho do território que superou os insurgentes. O país já estava unificado e a realeza poderia tomar refúgio temporário nas províncias vizinhas, mesmo que apenas sob o disfarce de um feudalismo embrionário. O saque de Memphis mostra que a monarquia poderia ter sido definitivamente conquistada e varrida se o reino Egípcio se reduzisse ao tamanho de uma única cidade comparável à cidade-estado Grega.

Ao longo da história, até que a educação e progresso técnico pavimentaram o caminho para uma melhor coordenação da atividade insurrecional (1789), os povos sempre foram conquistados pelo tamanho dos reinos cujas regiões sociais pretendiam transformar. Um estudo do modo de produção Asiático realmente resume-se a uma análise dos fatores histórico-econômicos que levaram à unificação inicial no Egito e a opuseram na Grécia. Uma comparação entre as duas sociedades revela um fator residual, ligado à fase anterior da vida nômade entre os Gregos. Para ser claro, é razoável supor que todos os povos, incluindo os Egípcios, experimentaram um período de nomadismo antes de se tornarem sedentários. Mas em nenhum lugar avida nômade teve um efeito tão profunda ou tão prolongado como entre os Indo-Arianos das planícies da Eurásia. Sua civilização permaneceu marcada por ele [nomadismo] mesmo em nossos dias e muitas práticas das nações civilizadas na Europa de hoje estão relacionados etnologicamente a esse período, por exemplo, a cremação dos mortos, a família patriarcal, e assim por diante.

Quando consideramos o fracasso de uma revolução durante a Antiguidade, é evidente que o caráter não-revolucionário da estrutura social é menos importante do que o fator tamanho. Na realidade, quaisquer que tenham sido as “virtudes” da organização social do Egito, estas finalmente criaram, como a Grécia, abusos intoleráveis e revoltas tão virulentas quanto as revoltas Greco-Latinas. Estas revoltas no Egito certamente teriam triunfado se as dimensões territoriais fossem as mesmas. Apenas o tamanho do reino frustrou as insurreições de avançarem. Durante o período de anarquia, a maioria das cidades Egípcias tiveram temporariamente governos autônomos, que desapareceram com o renascimento do reino.

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B. Sgundo Ciclo: O Reino Médio [The Middle Kingdom]

O segundo ciclo da história Egípcia abrange o período da Sexta até a Décima Segunda Dinastia. No decorrer da Sexta Dinastia, Memphis, a capital, foi saqueada pelos rebeldes. Depois desta Dinastia, a realeza gradualmente se refugiou em sua menos acessível terra natal ao sul. . . . Isso aconteceu várias vezes nos registros Egípcios. Sempre que a nação era ameaçada por uma invasão de brancos da Ásia ou da Europa através do Mediterrâneo, sempre que tais incursões perturbavam a vida nacional. Inevitavelmente, a salvação, em outras palavras, a reconquista do poder político, a reunificação, e renascimento nacional foram alcançados através dos esforços das legítimas dinastias Pretas indígenas do sul. No Delta, estavam concentrados todos os escravos brancos marcados, os frutos das vitórias de Merneptah e Ramses II sobre as hordas Indo-Européias. Seus descendentes liberados, a partir da época de Psammetichus em diante, viriam a selar o castigo do Egito, como veremos.

A cidade de Heracleopolis, no Médio Egito, desempenhou temporariamente o papel de capital durante a Nona e Décima Dinastias. Houve reinos paralelos durante todo esse período de anarquia. No Alto Egito, a cidade de Tebas nunca deixou de desempenhar um papel como guardiã da tradição e da legitimidade. Os seus príncipes fundaram a Décima Primeira Dinastia, que imediatamente empreendeu a reconstrução nacional. Foram necessários não menos de dois séculos de luta e esforço para reunificar o Egito em 2065 a.C. Esta foi a segunda reunificação pela qual reis do sul foram responsáveis.

A Décima Primeira Dinastia reviveu a centralização administrativa da Terceira Dinastia, com todos os seus efeitos corolários. Para enfraquecer os grandes senhores, o trono dependia das pessoas pequenas, os comerciantes. De acordo com Pirenne, a centralização administrativa provocou a abolição da inalienabilidade da propriedade da terra que podia ser partilhada pelos vários descendentes do proprietário. Isto perturbou a solidariedade familiar pela segunda vez. A Décima Segunda Dinastia estabeleceu plenamente o triunfo da centralização administrativa.

Subitamente, o Egito foi invadido por novas hordas Asiáticas: os Hicsos (1730-1580). . . . Eles provavelmente introduziram carros de guerra e os cavalos para o país. Na realidade, eles ocupavam apenas a região oriental do Delta, com Avaris como sua capital. Sua barbárie era indescritível. Os reis de Tebas continuaram a reinar no Alto Egito, onde a realeza novamente encontrou asilo.

Durante o reinado do governante dos Hicsos, Apophis, hostilidades irromperam entre os invasores “Semita-Arianos” e a dinastia Preta do Alto Egito, o que representou a determinação do povo Egípcio para libertar a nação. Mobilizando o país sob a sua autoridade, ele expulsou os Hicsos em 1580 a.C. e reunificou o Egito pela terceira vez, com a fundação da Décima Oitava Dinastia sob a Rainha Hatshepsut. Aos olhos da nação Egípcia, ela personificava a legitimidade monárquica.

Com a morte da Rainha Hatshepsut, o grande reinado da Décima Oitava Dinastia começou sob Tutmés III [Tuthmosis III], aquele outro excelente monarca do sul, cuja mãe era uma Núbia Sudanesa. Ele dominou todos os Estados da Ásia Ocidental e as ilhas do Mediterrâneo Oriental, reduzindo-os à condição de vassalos obrigados a pagar o tributo anual. Este foi o caso com Mitanni (um estado Indo-Europeu no Alto Eufrates), Babilônia, Cilícia, o Estado Hitita, Chipre, Creta, etc. Síria e Palestina eram simplesmente incluídas no reino Egípcio. Foi neste tempo que, segundo Heródoto, * a guarnição que se tornaria os Cólquidas [Colchians], estacionou na costa do Mar Negro; mas isso parece questionável.

[ * – Por uma questão de fato, os Gregos, incluindo Heródoto, muitas vezes confundiram as conquistas de Tutmés III, Sesostris I, e Ramsés II.]

De qualquer modo, o Egito era então o mais importante poder militar, técnico, e imperial no mundo. Súditos governantes estrangeiros competiam entre si em submissividade; cada um tentava usar as fórmulas mais obsequiosas ao referir-se ao Faraó: “Eu sou o seu escabelo para os pés [footstool]. Eu lambo a poeira de suas sandálias. Você é o meu sol“, escreveu um vassalo Sírio para Amenófis IV. Após a Décima Oitava Dinastia, os Egípcios adquiriram o hábito de manter como reféns os filhos de governantes vassalos da Ásia e do Mediterrâneo, treinando-os na corte do Faraó na esperança de que eles pudessem mais tarde governar seus países como bons vassalos. Esta foi uma das várias causas da influência extensiva, profunda, e quase exclusivamente Egípcia no Oeste da Ásia e do Mediterrâneo.

Assim como a Terceira Dinastia, a Décima Oitava promoveu a centralização administrativa. Cargos administrativos novamente deixaram de ser hereditários.
De acordo com Pirenne, mesmo no domínio sacerdotal, a propriedade tornou-se novamente alienável; a família foi deslocada de novo pelo desaparecimento do direito do filho mais velho, o poder do marido, e autoridade paternal. O regime de contratos escritos sancionados pelo registro real, imposto de renda, e burocracia escrita e acadêmica retornou (cf. Pirenne, I, 20). Naturalmente, poderíamos esperar Egiptólogos para criticar Pirenne; seu livro é a mais importante síntese do pós-guerra da “misteriosa” história do Egito. Por nenhum esforço de imaginação tal obra sobre um assunto tão delicado e difícil poderia deixar de ser criticável. No entanto, seu volume traz racionalidade a um assunto tão frequentemente tratado de forma a desafiar a razão humana. Com Pirenne, os primeiros elementos de explicação racional da história política, econômica e social do Egito fazem a sua aparição.

Na realidade, as contradições básicas no sistema econômico Asiático foram suficientemente desenvolvidas no Egito para os germes de dissolução serem visíveis. Embora a terra possa ser propriedade do Faraó, o povo tinha livre acesso à ela para continuar sua atividade econômica. Esta tinha se tornado alienável. Um indivíduo poderia legar ou vendê-la. Assim, o aspecto coletivo da propriedade da terra tinha se tornado extremamente teórico. Por outro lado, o Estado recolhia impostos, astutamente tributado, mas todos trabalhavam para si mesmos. Exceto os Indo-Europeus conquistados, sistematicamente escravizados e marcados para impedir a sua fuga, o Egito, ao contrário das sociedades feudais Greco-Romanas, não tinha força de trabalho servil.

A força de trabalho era, portanto, livre e contratual em comunidades urbanas ou rurais, comparável, nesse contexto, aos trabalhadores em regimes capitalistas de hoje. Nesta segunda forma, o capitalismo poderia aparecer e, como uma questão de fato, houve um capitalismo marginal com o aparecimento de uma classe de negócios [business class] que alugava terra na zona rural e contratava as mãos para cultivá-la. Como os agricultores da Europa capitalista, o seu único objetivo era acumular lucros enormes. As mesmas práticas de negócios foram realizadas nas cidades: empréstimos com juros, arrendamento ou subarrendamento de bens pessoais ou de imóveis para fins de especulação financeira. Aparentemente, a única salvaguarda para impedir estas práticas de se desenvolverem em um capitalismo forte era a liberdade praticamente inalienável do cidadão Egípcio. Esta era uma característica básica especial da organização jurídica e do código ético Egípcio.

Na Antiguidade Greco-Latina, a produção capiatalista dependia de um mercado de escravos, 99,99 por cento dos quais consistia exclusivamente de escravos brancos do Norte e Noroeste da Europa. Etimologicamente, “escravo” [“slave”] deriva de “Eslavo” [“Slav”]. Na Idade Média, o mestre tinha poder de vida e morte sobre o escravo. Durante o período capitalista Europeu, foi demonstrado, especialmente na Inglaterra, * como o Estado favoreceu a subjugação do povo pela classe média industrial.

[ * – Cf. C. A. Diop, L’Afrique Noire précoloniale. Paris: Présence Africaine, 1960.]

Para grande satisfação do capitalismo nascente, camponeses cujas terras foram confiscadas e que já não tinham nada além de seu trabalho para vender nas cidades, assim como todos os desempregados cujos números tanto encantavam quanto perturbavam os chefes dos negócios burgueses, foram reduzidos ao nível de condenados ou de escravos marcados [branded slaves]. O Estado imperialista de alguma forma encarregou-se de encontrar uma força de trabalho barata, servil, e dócil para a indústria nascente da classe média economicamente dominante.

A alienação do trabalhador no campo Egípcio nunca teve mais do que menor importância. O Estado era responsável por organizar a produção e alcançar o rendimento óptimo do solo. Assim, a divisão do trabalho a nível administrativo era extremamente sofisticada. É difícil imaginar hoje a eficiência técnica que a organização estatal Egípcia tinha alcançado. Enfrentando a ameaça das hordas Asiáticas e de bárbaros Indo-Europeus, por um longo tempo Egito foi salvo pela inovação [headstart] que tinha feito no campo da organização. Isto permitiu-lhe recuperar-se com uma velocidade surpreendente depois de uma invasão ou um período de anarquia.

Após o período de centralização administrativa sob a Décima Oitava Dinastia, a monarquia novamente tomou o caminho do absolutismo. . . Esta fase foi inaugurada por Amenófis IV (Akhnaton), que pela primeira vez patrocinou monoteísmo oficial, para torná-lo a religião universal de um Império que tinha já tornado-se “universal”. Embora a sua reforma religiosa tenha falhado, sua política absolutista sobreviveu e foi consolidada sob a Décima Nona Dinastia com a deificação de Ramsés II.

Enquanto isso, no final do reinado de Amenófis e sob Horemheb, o Egito foi confrontado com conflitos sociais de grande alcance. Estes foram criados pelos excessos de agentes burocráticos, o peso esmagador da tributação, e a pobreza do povo. Horemheb decidiu esposar justiça social e promulgou uma série de leis destinadas a proteger os fracos e melhorar suas condições de vida. Estas leis foram concebidas para punir funcionários, soldados e juízes do governo acusados de roubo ou fraude contra os pequenos. Mas as reformas tiveram apenas um efeito temporário. Com a deificação de Ramsés II, o privilégio feudal e o absolutismo real reapareceram. O clero recuperou suas antigas prerrogativas, como na época da Sexta Dinastia. Os templos novamente lucraram com arrendamentos imensos, dotados de imunidade que lhes empoderava para administrar justiça para os seus inquilinos (cf. Pirenne, I, 21). Ao mesmo tempo, eles receberam dezenas de milhares de escravos Arianos [Aryan slaves] marcados com um ferro quente. Estes foram os únicos casos de uma força de trabalho escravo no Egito para produção em larga escala.

Ramses II e seu pai, Seti I, fundador da Décima Nona Dinastia, não pertenciam à nobreza Egípcia original. Eles deviam a sua acessão ao trono à escolha arbitrária por Horemheb, ele próprio um oficial do exército Egípcio antes de se tornar faraó, de um oficial no corpo de carruagens de guerra “estrangeiro” [“foreign” war chariot corps] como seu sucessor: Ramsés I.* O neto do último, Ramsés II, distribuiu parcelas de terras para o exército profissional que ele criou; este tornou-se um corpo privilegiado [privileged corps].

[ * – A vassalagem decorrente das conquistas da Décima Oitava e Décima Nona Dinastias produziu um resultado que é frequentemente deturpado pelos historiadores. Tem sido alegado que estas duas dinastias inauguraram a era dos casamentos políticos entre estrangeiros e Egípcios. Note, no entanto, que eram os vassalos Asiáticos que, para bajular favores reais, deram suas filhas para o Faraó Egípcio sem qualquer quid pro quo. Não até o décimo século a.C. foi a única lenda sobre este assunto nascida no “Cântico dos Cânticos” de Salomão. Em contraste, os régulos Sírios, outrora tão turbulentos, estavam resignados à sua sorte e ofereceram suas filhas para serem colocadas no harém do Faraó (cf. Maspero, op. cit., p. 242). Há um consenso geral de que Tai ou Ty, mãe de Amenófis IV (Akhnaton), era de origem estrangeira. Semita ou Líbia. Em ambos os casos, ela era apenas a filha de um vassalo, dada unilateralmente ao Faraó para servir ao seu prazer.
O casamento de Ramsés II com a filha de Khatousil III, durante a Décima Nona Dinastia, não tinha outro significado. Kathousil III, líder dos Hititas, tinha, de fato, acabado de se rebelar contra a autoridade Egípcia. Mas, derrotado em todos os lugares, ele pediu a paz e, assim que Ramses II a aceitou, o Hitita deu-lhe sua filha em “casamento”. Por causa de sua beleza, esta filha foi capaz de conquistar a afeição do Faraó. Ela era branca. Mas por sua atratividade, ela teria permanecido uma cortesã toda a sua vida. Aos olhos dos legitimistas Egípcios, ela não era de modo algum uma princesa. Referindo-se a Ramses II, Khatousil até parece orgulhar-se de falar como um vassalo. Assim, ele diz a um chefe: “Preparem-se, vamos ao Egito. O Rei falou, vamos obedecer Sesostris (Ramses). Ele dá o fôlego de vida para aqueles que o amam, e assim o mundo inteiro o ama, e Khati [o país Hitita] e ele são um.” (Citado por Maspero, p. 269.)]

O fim do reinado de Ramsés II e aquele de Merneptah testemunharam grandes migrações de povos que perturbaram o equilíbrio étnico em torno do Mediterrâneo e na Ásia Ocidental. Por volta de 1.230 a.C., Merneptah conquistou a primeira grande coalizão de Indo-Europeus liderados por Merirey, como já vimos. . . . Outro grupo, provavelmente os Etruscos, sob Enéias [Aeneas], estabeleceu-se na Itália; estes eram os mesmos que haviam se juntado à coalizão Líbia derrotada por Merneptah. Nas inscrições Egípcias eles foram designados pelo nome Tursha. Após a derrota, os sobreviventes seguiram as costas de Cyrenaica, até tão longe quanto Cartago da Rainha Dido [Queen Dido’s Carthage], ou viajaram para lá pelo mar aberto. Em qualquer caso, de acordo com a antiga tradição relatada por Virgílio [Virgil], foi provavelmente após este desvio que Enéias [Aeneas] e os seus homens, os Etruscos, chegaram à Itália. Heródoto atribui a mesma origem Asiática para os Etruscos, que eram talvez os sobreviventes da destruição de Tróia pelos Aqueus [Achaeans]. Apenas alguns décadas separam a queda de Tróia (1290?) e o grande avanço Dório [the great Dorian drive]. Assim, os Tursha certamente poderiam ter deixado a Ásia Menor, seja durante o cerco de Tróia ou alguns anos mais tarde com os Dórios.

Mas Cartago não foi fundada até o século nono a.C.. Se a visita dos Etruscos a este porto fosse provada, três ou quatro séculos decorreram entre a sua partida da Ásia Menor um a sua chegada na Itália. O que poderiam eles ter estado a fazer no percurso? Deveríamos nós, então, supor que eles gastaram tempo considerável na Líbia, onde a sua estadia é de fato mencionada em documentos Egípcios? Talvez eles permaneceram lá depois que a coalizão foi derrotada por Merneptah. Durante essa permanência eles, sem dúvida, adquiriram vários elementos da cultura Egípcia (sarcófago, vida agrária, a arte de adivinhação [divining art], habilidades arquitetônicas) que eles definitivamente não tinham no início.
Os 9.000 ou mais cativos tomados em batalha que Merneptah deu como escravos para os vários templos para expressar sua gratidão aos deuses. . . .
Por isso, foi como um prisioneiro de guerra, transformado em um escravo, acorrentado e marcado, que o homem branco entrou pela primeira vez na civilização Egípcia. Um estudo cuidadoso dos documentos não poderia levar a nenhuma outra conclusão. Alguém pode fingir ser ignorante desses fatos, mas eles são indestrutíveis. O homem branco não contribuiu em nada para a civilização Egípcia, não mais do que a África Preta hoje não contribui nada para a civilização técnica moderna. . . . É por isso que é inacurado falar de componentes da civilização Egípcia separada – pois esta era Negra, isenta de qualquer contribuição Européia ou Semita de fora, como mostrado pelas afinidades profundas do Egito com a psicologia Negra. Sua civilização pode ter desaparecido justamente porque não foi capaz de tomar emprestado de culturas posteriores e se tornou uma vítima de sua própria homogeneidade. consequentemente, existe uma boa razão para atacar essa nova forma de engano, que enumera componentes separados na civilização Egípcia (como livros didáticos de história fizeram na África Francófona tão recentemente quanto 1965). O que então não teríamos nós a dizer sobre as civilizações ou “raças” Grega, Romana, Espanhola, ou Francêsa? Aqui, novamente, nós detectamos essa tendência para dissolver a consciência histórica Preto-Africana na fragmentação de detalhes minuciosos.

A partir de então o Egito teve, continuamente, que defender suas fronteiras contra a imensa pressão dos povos de pele branca [white-skinned people] do norte, do mar, e do leste. Depois de sua vitória sobre os Líbios a oeste do Delta, Merneptah partiu em uma expedição para pacificar a Palestina, onde a primeira onda migratória de “povos do mar” [sea peoples] havia chegado. Uma passagem inscrita na “Estela de Israel” “Stela of Israel”, citada por Pirenne, descreveu esses eventos. . . . Aliás, esta foi a primeira menção do nome Israel na história (1222 a.C.). Palestina deve o seu nome à Palestiou. Isso era como os Egípcios chamavam os Filisteus [Philistines], Indo-Europeus, provavelmente fugitivos Aqueus [Achaean fugitives], que se instalaram na região durante essa época.

O Faraó Merneptah fala de todos esses povos como vassalos rebeldes. O texto afirma especificamente que a terra dos Hititas está pacificada. Isso confirma a noção de que, depois das conquistas de Tutmés III (1580 a.C.), a terra Hitita nunca deixou de ser um vassalo do Egito. . . . Merneptah enviou trigo para evitar a fome, justamente como uma potência colonial de hoje pode fazer por uma de suas subordinadas. *
O fim de seu reinado viu uma expansão do feudalismo (cf. Pirenne, II, 464).

[* – Os Hititas foram as únicas pessoas Indo-Européias na Antiguidade a começar “espontaneamente” a escrever em hieróglifos, cerca de 1500 anos após o início oficial da escrita no Egito e imediatamente após seus primeiros contatos com o Egito. Esforços para descobrir originalidade e autonomia nos hieróglifos Hititas levaram apenas a generalidades ligadas à estrutura e morfologia das línguas Indo-Européias.
O princípio da escrita hieroglífica certamente originou-se com os Egípcios, mas aplicado a uma realidade linguística completamente diferente, ele evoluiu por conta própria. Os Egípcios ensinaram escrita para todos os povos que eles colonizaram, especialmente os Fenícios, que mais tarde levaram-na para a Grécia e por todo o Mediterrâneo em forma alfabética.
Além disso, alega-se que o país Hitita era o centro para a difusão do ferro durante a Antiguidade. Isso coloca um enigma que terá de ser resolvido antes que a noção possa ser aceita. A fragilidade do Estado Hitita é provada pelo fato de que ele desapareceu imediatamente, mesmo sem deixar vestígios estruturais, em contato na Ásia Menor com as sucessivas ondas da invasão Dórica [Dorian invasion] no século XII a.C. Os Dórios [Dorians], que vieram de Ilíria, do outro lado do estreito, possuiam armas de ferro. Onde eles conseguiram o seu suprimento [armas de ferro]? Será que eles foram abaixados sorrateiramente para obtê-las a partir dos Hititas e, em seguida, voltaram para casa para pilhar toda a Grécia antiga e causar a destruição da nação Hitita? . . .
O Egito estava familiarizado com o uso de ferro tão cedo quanto no período pré-dinástico; pérolas de ferro meteórico (5 por cento a 20 por cento de níquel) foram encontradas em túmulos Gerzeanos [Gerzean] do quarto milênio [a.C.]. A partir da quarta dinastia (2900 a.C.), o Egito sabia como extrair ferro do minério de ferro. De fato, na Grande Pirâmide de Quéops, em Gizé, uma amostra de ferro-esponja [sponje iron] foi encontrada. Uma outra, da Sexta Dinastia, foi encontrada em Abydos (cerca de 2500 a.C.). Esta também resultou de tratamento do minério.
De acordo com M.I. Attia, inscrições em uma estela de arenito na Núbia, a duas milhas ao norte de Aswan, indicam que o minério de ferro nessa região já foi utilizado, “trabalhado” pelos antigos Egípcios durante a Décima Oitava Dinastia.
. . . O ferro não existe no estado natural; ele deve ser extraído do minério. Quais altos-fornos [blast furnaces] produziram os metais que serviram para formar objetos Egípcios? No terceiro milênio não havia Idade do Ferro na Europa ou na Ásia. No Egito, o minério de ferro é inexistente. Apenas a Núbia e o resto da África Preta poderiam fornecer uma explicação.
Em certas regiões da África Preta, o uso do ferro precedeu aquele de qualquer outro metal. A habitual estratificação da idade dos metais não é aplicável neste caso. Um centro nativo para difundir o minério de ferro provavelmente existiu; a sua idade permanece ainda por determinar. Mesmo aqueles que contendem que o Egito não começou a fundir o ferro até o século VI, admitem que a Núbia o precedeu por um século. No entanto, se as influências tivessem que vir de fora, da Ásia Menor, em particular, elas teriam necessidade de passar pelo Egito.
Assim, a questão sobre a difusão do ferro na Antiguidade está longe de ser resolvida.
. . . Uma pesquisa nova, imparcial, levando em conta todos os fatos novos, que são numerosos, é o único caminho para uma conclusão aceitável. Será necessário datar a exploração das minas de ferro na aldeia Télé-Nugar, do Chad. Ali se encontra uma galeria de mais de um quilômetro de comprimento, uma sala subterrânea de 22 metros por 10, outros quartos subterrâneos com tetos baixos sustentados por pilares e que se assemelham a um templo subterrâneo. . . . Numerosas outras minas foram descobertas comparáveis à de Télé-Nugar.
Com exceção de ouro e prata, que devem ter sido os primeiros metais descobertos, os nomes de outros metais em Wolof são precedidos pelo termo genérico para ferro. Exemplo: ven-ug-handjar = o ferro do cobre = metal cobre, e assim por diante].

Os escravos Brancos [White slaves] doados para os templos foram empregados pelos sacerdotes, seja na agricultura ou na milícia local. Com o colapso do poder central, as milícias locais assumiram cada vez mais funções de segurança locais. Aproveitando-se da anarquia, escravos Sírios, Palestinos, e Líbios se rebelaram sob a liderança de chefes e oficiais militares da sua raça que supervisionavam o seu trabalho. Pirenne cita uma passagem de Diodoro relatando que os escravos Arameus [Aramean slaves] capturados por Ramses II aproveitaram a confusão para se revoltar e criar perto de Memphis uma aldeia que eles controlaram e chamaram de Babilônia, em memória de seu país. Da mesma forma, Frígios [Phrygians]fundaram um vilarejo de curta existência chamado Troion, em memória de Tróia.

Os esforços para conter os distúrbios vieram mais uma vez a partir do sul. Seti, vice-rei do Sudão Núbio, marchou sobre Tebas para restabelecer a ordem no Egito. Ele obteve o apoio do clero de Amon, casou-se com Tausert, Rainha do Alto e Baixo Egito, viúva de Mineptah-Siptah, que parecia aos olhos do povo simbolizar a legitimidade monárquica. Como Seti II, reinou de 1210 até 1205 (a.C.) e teve sucesso temporariamente em restaurar a lei e a ordem.

Pouco tempo depois, o Egito novamente mergulhou na anarquia e insegurança, sob os grandes senhores feudais. Isso durou até que Senekht criou a Vigésima Dinastia (1200). Depois de ele ter reinado por dois anos, seu filho, Ramsés III, sucedeu-o em condições extremamente difíceis. Ele teve que enfrentar uma nova invasão de “povos do mar” [“sea peoples”], por terra e mar, especialmente pelos Filisteus Palestinos.
Ele reforçou a frota Egípcia designada para defender as fozes [bocas] do Nilo. A mais formidável coalisão já testemunhada durante a Antiguidade foi formada contra os Egípcios. Esta foi composta por todo o grupo de povos de pele-branca que tinham estado instáveis desde as primeiras migrações no décimo-sexto século [a.C.]; . . . eles montaram seu acampamento de imigração ao norte da Síria. . . .

Graças à organização superior, as forças armadas Egípcias obtiveram uma vitória dupla, na terra e no mar, sobre esta segunda aliança. A frota dos “Povos do Norte” foi totalmente destruída e a rota de invasão através do Delta foi cortada. Ao mesmo tempo, uma terceira coalizão dos mesmos Indo-Arianos de pele branca estava sendo montada novamente na Líbia, contra a nação Egípcia Preta [Black Egyptian nation]. No entanto, este não foi um conflito racial no sentido moderno. Para deixar claro, os dois grupos hostis estavam plenamente conscientes de suas diferenças étnicas e raciais, mas era muito mais uma questão de grande movimento de povos deserdados do norte em direção a países mais ricos e mais avançados.
[the great movement of disinherited peoples of the north toward richer and more advanced countries.]

Ramses III demoliu essa terceira coalizão como ele havia destruído as duas primeiras. . . . Como um resultado desta terceira vitória sobre os Indo-Arianos, ele levou um número excepcional de prisioneiros. Isto permitiu-lhe aumentar consideravelmente a força de trabalho escravo em canteiros de obras reais e no exército. Tal foi, invariavelmente, o procedimento para aclimatar as pessoas de pele-branca no Egito, um processo que tornou-se especialmente difundido durante o período baixo [low period]. Por ter isso em mente, nós podemos evitar atribuir um papel puramente imaginário para pessoas que não contribuíram absolutamente nada a civilização Egípcia.

Ramses III, em seguida, levou sua defesa para a Fenícia (Djahi, em Egípcio Antigo *), na fronteira norte do Império Egípcio. Ele assumiu o comando pessoal da frota e, perto da costa da Palestina, ele aniquilou a quarta coalizão em 1191 a.C. Este desastre foi sem precedentes; a frota inimiga foi totalmente destruída para evitar a sua fuga. Uma nova força de trabalho escravo estava agora disponível. Mas ele não podia importar um inteiro povo para o Egito. Então, ele os estabeleceu na própria terra onde tinham sido derrotados. Esta foi a origem dos Filisteus [Philistines]. Os “povos do mar” foram definitivamente desmoralizados depois deste revés. No entanto, podemos entender, depois de todos esses transtornos, até que ponto os antigos grupos étnicos devem ter sido desfeitos em todo o Mediterrâneo, com exceção do Egito, que sozinho tinha sido capaz de repelir a invasão Indo-Ariana.

Enquanto isso, os Líbios na parte ocidental do Delta, estavam organizando ainda outra coalizão, a quinta dirigida contra a nação Egípcia Preta pelos Indo-Europeus. Ramses III derrotou-os em Memphis em 1188 a.C. Após essa data, os Líbios brancos nunca mais se revoltaram contra o Egito, mas eles tentaram por todos os meios possíveis se infiltrar pacificamente e se estabelecer lá como servos ou semi-servos, trabalhando em vários tipos de trabalho manual, como agricultores ou artesãos, especialmente no Delta . Eles também foram empregados no exército como uma divisão estrangeira auxiliar [auxiliar foreign corps] chamada Kehek.*

[ * – Em Wolof, Khekh significa guerra, fazer a guerra.]

A situação era idêntica no Sudão Núbio onde Líbios também foram usados como semi-servos no exército. Mas os Líbios se instalaram no Delta, devido à sua proximidade. Essas pessoas, cuja origem escrava estrangeira era óbvia, seriam gradualmente libertadas pela lei Egípcia. Mais tarde, alguns se tornariam notáveis como uma recompensa por serviços “leais” ao governante Egípcio. No entanto, a sua origem escrava jamais seria esquecida pelo verdadeiro nacional Egípcio, mesmo quando eles se aproveitaram de períodos conturbados para exercer o controle de um determinado distrito no Delta, onde o comando militar tinha sido confiado a eles pelo Faraó. Veremos como esses elementos estrangeiros, que não sentiam nenhum apego sentimental real pelo solo Egípcio, viriam a minar práticas políticas, começando com Psammetichus.

A situação política e social sob Ramsés III e imediatamente após a sua morte é descrita em detalhes pelo Papiro Harris [Harris Papyrus], um documento excepcionalmente longo de cerca de 115 páginas. Uma revisão dos registros da terra mostra que as propriedades do templo constituíam um-sétimo das terras aráveis que, de acordo com os autores modernos, abrangiam cerca de 5 milhões de acres. Terras atribuídas aos templos de Tebas, gozando de imunidade geral, chegavam a cerca de 585.000 acres, com 86,436 escravos para a cultivá-las. Para Heliópolis, havia 113.000 acres e 12,364 escravos; para Memphis, 6.800 acres e 3.079 escravos.

As doações de Ramsés III para os templos, durante os 31 anos do seu reinado foram de modéstia comparável:

3.648 deben (328 kg.) Ou 722 lbs. de ouro;
6.027 deben (525 kg.) Ou 1155 lbs. de prata;
18,854 deben (1696 kg.) Ou 3730 lbs. de cobre e bronze;
28 deben (2,3 kg) ou 5 libras. de pedras preciosas;
155,381 jarros de vinho, ou 5.012 por ano; e
2.418 cabeças de gado, ou 78 por ano.

Pirenne, que relata essas estatísticas, observa que as doações foram apenas o suficiente para fornecer para a celebração do culto do rei. Todos os valores citados parecem ridiculamente baixos, em comparação com o tamanho e a densidade da população na época. Citando vários escritores antigos, Marcel Reinhard e André Armengaud * adotam uma média de sete a oito milhões para a população do Egito, correspondendo a uma densidade da ordem de 200 por quilômetro quadrado (cerca de 520 por milha quadrada).

[ * – Histoire générale de la population mondiale. Paris: Ed. Montchrestien, of Sicily, Herodotus, and Flavius Josephus]

Embora os escravos Brancos fossem bastante numerosos, a população Egípcia poderia facilmente absorvê-los. Os 30.000 escravos adquiridos durante a expedição Asiática de Ramsés III representavam uma pequena minoria quando consideramos a densidade da população indígena nacional. Podemos facilmente compreender como população indígena foi capaz de permanecer etnicamente Preta durante toda a Antiguidade, apesar do afluxo de brancos. Foi por isso que, estritamente falando, o Egito nunca adotou uma economia dependente de escravos; esta sempre permaneceu marginal.

Por outro lado, é claro que a pressão demográfica por si só não é um fator revolucionário determinante, se isso fosse verdade, as revoluções mais violentas da história teriam tido lugar no Egito, e não na Grécia. A fortaleza Egípcia resistiu à tempestade provocada pelas grandes migrações do décimo segundo século [a.C.] Após estas, Ramsés III foi mais ou menos bem sucedido em estabilizar a situação nos níveis administrativo, econômico e financeiro. O Egito gozou de um século de tranquilidade doméstica com uma sucessão tranqüila de governantes, de Ramsés III até Ramsés XI.

No entanto, os germes da feudalização tinham reaparecido e estavam novamente minando a sociedade Egípcia. O reforçamento da autonomia administrativa do clero e a intensificação da sua imunidade finalmente criou um verdadeiro estado clerical dentro do Estado Egípcio. Como o rei, o sumo sacerdote de Amon centralizou enorme poder em suas mãos; a justiça clerical era realizada frequentemente por Oráculo. Este sistema imperfeito, que poderia ser utilizado até mesmo para selecionar o rei e outros oficiais e para fazer decisões governamentais, passou para a Grécia, onde ele continuou muito tempo, ao lado das instituições seculares.

O fim da Vigésima Dinastia foi caracterizado por conflitos sociais vigorosos, os mais importante dos quais foram greves de trabalhadores da necrópole Tebana. A forma de suas queixas indica que eles eram trabalhadores absolutamente livres, mas disciplinados; suas demandas por alimentos dificilmente poderiam pôr em perigo o princípio monárquico. Eles romperam as barricadas levantadas pelos guardas que acompanhavam seu trabalho. Em seguida, eles marcharam sobre Tebas, a capital. O vizir (djit) * do Alto Egito recebeu as reclamações por escrito de seus delegados e, com a ajuda do sumo sacerdote de Amon, deu-lhes 50 sacos de trigo. Os grevistas voltaram ao trabalho, o que mostra o quão leves as suas demandas eram (cf. Pirenne, II, 501). Além dos limites da legalidade, houve atos de banditismo e profanação de sepulturas.

[* – Em Wolof, djit significa guia ou líder.]

Enquanto o Alto Egito estava se tornando feudal, os Líbios no Médio Egito fomentaram uma revolta que se espalhou rapidamente para o Delta. Esta envolveu escravos Brancos que tinham estado no Baixo Egito desde Ramsés II e III e que foram assentadas em lotes de terreno rigorosamente inventariados. Durante o período baixo [low period], eles tentaram aproveitar todas as oportunidades para se tornar livres e até mesmo para estabelecer uma espécie de feudalismo militar. Enfrentando essa ameaça definitiva para a unidade nacional, o país foi salvo pela quinta vez pelo Sul, o Sudão Núbio. Ramsés XI apelou ao vice-rei da Núbia, que destruiu a cidade de Hardai, centro da insurreição (cf. Pirenne, II, 506). . . .

A decomposição social do regime atingiu um clímax e experimentou uma fase semelhante à da Sexta Dinastia. Assim, a história Egípcia novamente descreveu um ciclo que terminou em feudalismo sem um ataque frontal ao sistema monárquico. No entanto, o prestígio do Egito no exterior estava tão intacto que o “Rei” de Tiro declarou: “Todas as indústrias vieram do Egito e todas as ciências primeiro brilharam lá” (cf. Pirenne, II, 505).
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C. Terceiro Ciclo – Evolução Posterior

Pela terceira vez o Egito afundou na anarquia feudal que durou cerca de três séculos: 1090-720 a.C. Esta não terminou até que uma intervenção Núbio Sudanesa inflamou um renascimento da consciência nacional. Com todo o povo Egípcio por trás deles, os Faraós cujos reinados formaram a Vigésima Quinta Dinastia, então, estimularam um verdadeiro renascimento nacional. . . . *

[ * – Este foi o período Napatano [Napatan] do Sudão Núbio (Nilótico). A Etiópia dos Antigos era realmente o reino Sudanês com as suas duas capitais sucessivas: Napata e Meroë. A Etiópia moderna é mais diretamente a herdeira da civilização de Axum, o que corresponde a uma fase posterior que os antigos desconheceram totalmente. Na verdade, Axum era apenas uma província periférica tardiamente destacada do Reino Sudanês. Uma vez que corresponde à Etiópia moderna, a relação com esse nome para designar a Etiópia dos Antigos inevitavelmente cria confusão na mente do leitor. Hoje, o nome Sudão é a única denominação adequada para o país que os Antigos chamavam Etiópia.]

Toda a história desta dinastia foi um esforço supremo para formar uma frente unida contra o invasor estrangeiro. Sob a Vigésima Segunda e Vigésima Terceira Dinastias, o feudalismo atingiu o seu apogeu. Todos os Líbios e Aqueus [Achaean] “libertos” [“freedmen”] que ocupavam cargos de qualquer importância no exército estabeleceram a si mesmos como chefes ou “príncipes” em suas localidades. O poder político foi assim usurpado e fragmentado pelos brancos do Delta, mais comumente designados pelo termo genérico “Líbio”. Nenhum deles, no entanto, foi capaz de impor sua autoridade sobre o país; a anarquia e a decadência tornaram-se gerais.

Quando o usurpador da Líbia, Osorkon, tentou forçar seu filho em Tebas como um sacerdote de Amon, o clero de Tebas fugiu para o Sudão Núbio. O Rei do Sudão, Piankhi, mudou-se imediatamente para renovar a unidade Egípcia subjugando um após o outro todos os rebeldes estrangeiros do Baixo Egito. Estes estrangeiros haviam formado uma nova coalizão do norte sob Tefnakht. Apenas dois dos senhores feudais estrangeiros no norte haviam se recusado a aderir a essa aliança. . . .

Assim, o país foi dividido em dois campos: no norte, a coalizão de rebeldes Brancos, ex-escravos; no sul, a nação Egípcia autêntica solidamente por trás do rei Sudanês. Aos olhos do clero, o guardião da tradição, este Preto puro-sangue da terra dos ancestrais era a legitimidade monárquica encarnada.

A batalha começou em Heracleopolis. Tefnakht foi derrotado; Nimrod de Hermopolis se rendeu. O cerco desta cidade foi liderado por Piankhi em pessoa. Ele tinha trincheiras cavadas ao redor da cidade e torres de madeira construídas a partir das quais catapultas arremessávam projéteis sobre a cidade sitiada. Como um sinal de submissão, Nimrod enviou a Piankhi “seu diadema e um tributo em ouro” (Pirenne, p. 67). Em seguida, foi a vez de Memphis, que Tefnakht em vão tentou defender com um exército de “8.000 soldados de infantaria e marinha.” Piankhi atacou a partir do rio, através do porto, penetrou na cidade, e saqueou-a. Ele então entrou Heliópolis, onde foi solenemente e ritualmente coroado Faraó do Alto e Baixo Egito.

Em Athribis Piankhi aceitou a rendição dos últimos rebeldes do norte, entre eles Osorkon IV e Tefnakht ele próprio, cujo juramento de fidelidade foi preservado. A viva descrição do épico extraordinário do Faraó Sudanês seria apropriada aqui. Temos de chamar a atenção, porém, para a unidade da autêntica nação Egípcia Preta lutando sob o seu comando contra as manobras do feudalismo da Líbia no Delta. Mais uma vez, por iniciativa do seu prestigiado corpo sacerdotal, o Egito havia procurado e encontrado a salvação no sul, local de nascimento dos antepassados da raça.

Em 706 a.C. Shabaka sucedeu seu irmão Piankhi no trono de Napata e Egito. Bocchoris havia substituído seu pai Tefnakht, no comendo dos rebeldes no Delta. Ao matá-lo após tomar Saïs, Shabaka sentiu que ele estava queimando um herege. . . .

A dinastia Sudanesa provocou um poderoso movimento de renovação cultural e de ressurgimento nacional. Shabaka começou a restaurar os grandes monumentos Egípcios. Sob seu reinado, Tebas foi governada por um outro príncipe Sudanês, que era ao mesmo tempo quarto profeta de Amon. O Rei de Napata, o Faraó Sudanês, também serviu como primeiro sacerdote de Amon, então ele era ambos rei e sacerdote.
Assim, no âmbito da Vigésima Quinta Dinastia, o Sudão reviveu a monarquia teocrática e estendeu-a sobre todo o país.

Shabaka transferiu sua capital administrativa para Memphis, em seguida, para Tanis, indicando sua determinação para acabar com qualquer movimento para independência pelos senhores feudais da Delta. Após a execução de Bocchoris, seu filho Neco o sucedeu, mas como um vassalo de Shabaka. Depois que Shabaka morreu em 701, seu sobrinho Shabataka tornou-se faraó.

Guerra com a Assíria explodiu sobre a Palestina. Comandado por Taharqa, * filho mais novo de Piankhi, o exército Egípcio invadiu a Ásia e marchou contra as forças de Senaqueribe.

[* – O Tiraca (Tirhakah) Bíblico. (2Reis 19,9; Isaías 37,9)]

A princípio, os Egípcios foram repelidos. Shabataka foi traído pelos vassalos estrangeiros do Delta que se recusaram a ajudá-lo contra o inimigo estrangeiro. Porém mais uma vez o povo reuniu-se para a sua causa e salvou o Egito. Artesãos e lojistas das cidades do Delta ofereceuram-se voluntariamente para formar uma milícia que derrotou os Assírios. A paz foi restaurada e durou 25 anos. Depois de ter Shabataka assassinado, Taharqa subiu ao trono em 689 a.C. Ele proclamou-se o filho de Mout (Rainha do Sudão) e ergueu um templo em sua honra. Ele continuou a mesma política de centralização através da imposição da autoridade real ainda mais severamente “sobre os vinte senhores feudais que compartilhavam o Delta.” “Para superar sua resistência ele não hesitou em deportar as esposas dos príncipes do Baixo Egito para Núbia, em 680 a.C..” (cf. Pirenne, 100 p.).
O renascimento econômico, cultural, e especialmente o arquitetônico foi reforçado pela construção de monumentos como a Coluna de Taharqa em Karnak, as estátuas de Mentuemhat e Amenardis. Taharqa interveio na Ásia, em um esforço para recuperar o prestígio internacional do Egito.

Ele foi traído uma segunda vez pelos chefes estrangeiros do Delta. Isto foi flagrante no caso de Neco, filho de Bocchoris. Assim que o exército Assírio entrou no Egito, ele selecionou nomes Assírios para Saïs e para seu próprio filho, Psammetichus, Saïs tornou-se kar-Bel-Matati e Psammetichus foi agora chamado Nabu-Shezib-Anni. Neco tornou-se vassalo do rei Assírio, que lhe confiou com o principado de Athribis (cf. Pirenne, II, 105). Com a traição dos senhores feudais da Líbia, o Baixo Egito se tornou uma província Assíria.

Refugiando-se em Tebas, o Faraó Taharqa contou com o apoio completo do clero, que se recusou a legitimar a soberania dos Assírios. Mentuemhat, governador de Tebas, permaneceu leal a Taharqa, como fez a “divina esposa de Amon” [“divine spouse of Amon”]. Excepcionalmente energético, Taharqa voltou à ofensiva em 669 a.C., recapturou Memphis, e lá permaneceu até 666. Mais uma vez traído pelos estrangeiros senhores feudais do Delta, ele fugiu para Napata, onde ele morreu dois anos mais tarde. Sua irmã foi adotada por Amenardis, a quem ela sucedeu como “divina esposa de Amon [divine spouse of Amon]. . . . ”

O filho de Shabataka, Tanutamon, herdou o trono de Napata. Ele recrutou um exército no Sudão, foi aclamado em Tebas como o herdeiro legítimo dos Faraós pelo clero e pela divina esposa de Amon. Em seguida, ele atacou Memphis e travou guerra contra uma nova coalizão de todos os senhores feudais do norte. Esta aliança foi derrotada e Neco de Saïs foi morto na batalha. Todos os líderes do feudalismo militar estrangeiro se renderam tão humildemente quanto tinham anteriormente jurado lealdade ao conquistador Assírio. Tanutamon provou sua magnanimidade, restaurando-os aos seus antigos postos. Apenas Psammetichus, filho de Neco permaneceu leal à Assíria e fugiu para a côrte em Nínive.

Em 661 a.C. Assurbanipal atacou o Egito e pilhou a cidade de Tebas. Tanutamon escapou para Napata. A queda da mais venerável cidade de toda a Antigüidade suscitou profunda emoção no mundo daquela época e marcou o fim da dinastia Núbio Sudanêsa ou Vigésima Quinta Dinastia Etíope. Essa data também marcou o declínio da supremacia política Preta na Antiguidade e na história. O Egito gradualmente caiu sob a dominação estrangeira, sem nunca ter conhecido uma forma republicana de governo, ou filosofia secular, ao longo de três milênios de evolução cíclica.

Autores como Malet e Isaac, em seu livro didático Francês padrão para o sixième (sétima série), usado para treinar a geração mais jovem desde 1924, tem ignorado sistematicamente o épico extraordinário da Vigésima Quinta Dinastia, e tentaram enfatizar o reinado de “Psammetichus-Nabu-Shezib Anni,” o indigno usurpador Líbio que disfarçou seu nome para agradar o invasor estrangeiro. Seria difícil imaginar uma história da França escrita de acordo com esses critérios. O reinado de Psammetichus só serviu para pavimentar o caminho para um governo estrangeiro. . . .

Entre o Egito e Grécia, os laços tornaram-se progressivamente mais próximos. A Aliança militar e econômica do Egito com o rei da Lídia abriu as costas da Ásia Menor e do reino Sardenho [Sardian kingdom] para a influência cultural e intelectual Egípcia. Isso explica por que a Jônia experimentou um despertar cultural mais cedo do que a Grécia continental. Mileto floresceu enquanto Atenas e Esparta estavam ainda escassamente emergindo da barbárie. Os Lídios inventaram ou popularizaramo uso do dinheiro, que as novas relações econômicas tinham tornado indispensável.

Psammetichus inaugurou a Vigésima Sexta Dinastia (663-525 a.C.), porém mais característico do que o seu reinado foi talvez aquele de Amasis (568-526). Sob este último, o Egito definitivamente perdeu a sua independência com a conquista Persa de 525 a.C. . . . Amasis foi levado ao poder por suas tropas e pela multidão durante os problemas sob o reinado de Apries (588-569). Suas origens populares provavelmente explicam sua concepção secular e democrática de governo. Suas reformas legais foram extremamente importantes em ambos os setores público e privado, mas o Egito não era mais um poder. No comando do exército Persa, Cambyses conquistou o país e matou Amasis.

A partir de uma comparação entre a sociedade Greco-Romana por um lado, e a sociedade Egípcia por outro, é evidente que, apesar de sua longa história, o Egito não praticou sistemas de produção escravistas, feudais (no sentido Ocidental), ou sistemas de produção capitalistas. Esses três sistemas econômicos existiam apenas marginalmente. Na política, o Egito permaneceu uma monarquia, um princípio que parece não ter sido questionado mesmo durante as crises agudas. Habeas corpus era plenamente reconhecido. Não houve escravidão nacional (um Egípcio não poderia ser escravizado), todos eram cidadãos, no sentido pleno da palavra. Um indivíduo gozava de toda a liberdade consistente com um direito público concebido para servir a todos. A monarquia tinha conseguido incorporar essa idéia do bem público; em três ocasiões separadas, o fracasso do feudalismo para suplantá-la, enquanto preservando os seus princípios e ética, só tornou o seu retorno inevitável.

Não havia suporte sólido para idéias republicanas; elas nem sequer foram contempladas. Como o resto da África Preta, o Egito não tinha conhecimento delas. O papel desempenhado pelas características específicas da estrutura social pode ser detectado na não-violência e na moderação dos protestos sociais que, exceto durante as crises que terminaram com o Reino Velho [Old Kingdom], nunca apresentaram o aspecto turbulento das revoluções nas cidades Gregas. No entanto, supondo que nenhuma organização social é perfeita e que, apesar das virtudes de seu próprio estabelecimento, os Egípcios de certas épocas podem de bom grado ter sacudido o regime político responsável pela injustiça social, nós podemos atribuir o fracasso de tais movimentos no reino territorial a um único fator: o tamanho [do reino]. . . .

Na análise final, a força motriz da história reside na determinação das classes oprimidas para libertar-se de sua condição. Se essa condição é humanamente intolerável e inadmissível, a consciência rebelde torna-se revolucionária. Até agora, o homem não inventou nada pior do que a escravidão para degradar e explorar o seu companheiro. Assim, os verdadeiros regimes revolucionários são os regimes escravistas [slave regimes], quer seja a escravidão brutal da Grécia antiga ou a mal disfarçada, mas não menos virulenta escravidão da Idade Média Ocidental. É por isso que, com o desenvolvimento da produção capitalista antiga ou mderna, ambas estas sociedades levaram à revolução.

Mas a revolução só pode ocorrer se o insatisfeito elemento escravo, alienado sem compensação, torna-se numericamente preponderante. Este foi o caso em todas as cidades industriais Gregas da Antiguidade, onde os cidadãos (os homens livres) constituíam escassamente um décimo da população total.

Em reinos Preto Africanos, onde destribalização relativa, guerras, e divisão de trabalho criaram escravidão marginal, a revolução, no entanto, não ocorreu. Isso é compreensível. Pois para uma situação revolucionária surgir, a população escravizada teria de estar em maioria e suficientemente concentrada para tornar possível uma revolução. Nós só podemos adivinhar o que o efeito do tamanho pode ter sido sobre um movimento revolucionário na África Preta. No entanto, há razão para acreditar que tais surtos teriam falhado como aqueles que realmente ocorreram em um cenário territorial semelhante: no Egito, por exemplo, após o saque de Memphis sob a Sexta Dinastia, ou na China sob a dinastia Tang em 883 d.C..

Como esses países, a África Preta não tinha economias escravistas, feudais, ou capitalistas no sentido Ocidental. Durante o período do tráfico de escravos, a escravidão operou de uma maneira muito diferente do modo habitual que a havia precedido. Conforme seus Estados foram tomando forma, a África passou por uma fase de democracia militar ou, mais precisamente, reinos tribais. A originalidade das sociedades Gregas do norte do Mediterrâneo é, portanto, mais fácil de entender. Dois fatores contribuíram para tornar possível a explosão revolucionária e seu sucesso: Primeiro, um regime social ou, mais precisamente, um sistema escravista excepcionalmente cruel, que deu ao homem nenhuma escolha a não ser uma luta até a morte. Em segundo lugar, um território pequeno, limitado às dimensões de uma única cidade, facilmente capturável porque a classe revolucionária estava em maioria. Sob tais circunstâncias, a estrutura ideológica rapidamente perdeu sua influência sobre as mentes da classe escravizada.

Mesmo regimes sociais relativamente menos duros geraram revoltas em todo o mundo. Nesse sentido, todas as sociedades têm se desenvolvido suficientemente para gerar sementes de interrupção. Aparentemente, o fracasso dessas revoluções autênticas, em todos os lugares, exceto no mundo Greco-Romano, pode ser atribuído a um único fator residual: o tamanho mais ou menos adequado do território nacional envolvido. Era mais fácil para uma cidade Grega tornar-se saturada com escravos por causa da pequenez e da proximidade das cidades e por causa das constituições Gregas que, sem exceção, fazia de todo estrangeiro um escravo.

Talvez o momento não esteja muito distante, quando iremos começar a ter os elementos de uma resposta satisfatória para o problema causado pela natureza peculiar da evolução política e social Greco-Latina. Talvez a explicação final irá simplesmente levar a um fator de egoísmo nômade individualista, a cegueira do qual não poderia deixar de criar catástrofe social cedo, se não imediatamente. Essa catástrofe social (escravidão capitalista) obrigou o homem a forjar os instrumentos políticos para a sua libertação, para encontrar uma saída para toda a espécie humana.

 

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A sociedade Iorubá, como descrita por Leo Frobenius em Mythologie de l’Atlantide [Mitologia da Atlântida] (Capítulo IV), é uma que poderia fornecer uma mina de informações importantes sobre o passado político-social Africano. Perto do fim, o rei exercia uma autoridade puramente nominal sobre todas as cidades que compunham o seu reino. Cada cidade era na realidade uma unidade autônoma, governada por um presidente (ou balé) e um senado formado pela assembléia de notáveis. Próximo ao rei, que morava em Oyo, a capital, o sumo sacerdote, o Oni de Ife, era um personagem venerável cujo prestígio e poder praticamente igualavam ao do rei.

Seria útil saber se este encolhimento do poder real precedeu ou resultou da ocupação Britânica. No primeiro caso, poderia ser uma questão de uma federação em floração ou o declínio de um reino que já tinha atingido o seu apogeu. Os regimes das cidade eram meros reinos constitucionais; o que quer que Frobenius possa pensar, eles não eram repúblicas no sentido Greco-Latina da palavra. O fato de que nenhum deles tentou sua “revolução” e a homogeneidade de sua estrutura político-social atesta uma antiga ligação federal, efetiva por meio relativamente discreto. Por uma questão de fato, uma autonomia real na época teria aumentado a possibilidade de convulsão social devido à estrutura urbana. Poderiam o extraordinário desenvolvimento e individualismo relativos da sociedade Iorubá serem ligados em parte à essa estrutura política peculiar? *.

[ * – Cf. Diop, L’Afrique Noire Précoloniale (África Preta Précolonial), para uma análise mais detalhada das estruturas político-sociais Africanas e a busca pela força motriz da história.]

Em última análise, o denominador comum encontrado em economias do tipo Asiático (África Preta, China, Índia, América pré-colombiana, Irã, etc.) é a ausência de escravidão no sentido pleno do termo, como um meio de produção. Assim, as situações sociais resultantes são dificilmente revolucionárias. Em segundo lugar, o tamanho do território condena o avanço dos movimentos insurrecionais, mesmo que a situação possa ser explosiva. No sentido Ocidental, o sistema feudal é apenas uma variante mal disfarçada do sistema escravista. Este é o fator determinante fundamental da evolução histórica e social, na medida em que, invariavelmente, cria produção capitalista que leva a revolução que, por sua vez gravita ao socialismo.

Consequentemente, para entender a situação revolucionária das sociedades antigas, devemos estudar os fatores que haviam restringido o crescimento deste sistema em certas sociedades, ou que estimulou o seu desenvolvimento em outras. . . . O Estado Grego foi fundado desde seu nascimento sobre a escravidão e a intangibilidade da propriedade privada da terra. Em contraste, o aparecimento de um Estado com um sistema econômico Asiático, como descrito por Marx e Engels, mostra que este não surgiu abruptamente do contato brutal de duas raças, uma das quais escravizou a outra e, assim, criou desde o início, a condições para o desenvolvimento da luta de classes e da propriedade privada. Este é o resultado da organização, seja como for, de uma vida sedentária comum entre os “cidadãos” do mesmo território. Estas condições iniciais são desfavoráveis para o aparecimento da escravidão nacional ou o egoísta, mal-regulado, desenvolvimento da propriedade privada.

Por razões óbvias, este segundo tipo de Estado tem existido mais frequentemente do que o primeiro, e as razões para isso são mais claramente visíveis. É por isso que o Estado Greco-Latino foi uma exceção histórica como contra o tipo mais geral. Os Indo-Europeus foram incapazes de criar um regime escravista no Irã e na Índia tão extensivamente como na Grécia e em Roma, porque eles não foram capazes de ocupar esses países em número suficiente.

Em suma, é suficiente para as sociedades com um modo de produção Asiático serem reduzidas à escravidão. . . para elas inserirem-se no ciclo histórico da humanidade. A emancipação mundial de todas as ex-colônias Européias que, sem exceção, eram dependentes deste modo de produção, ilustra essa idéia. Foi a escravidão, no sentido Ocidental, que fez um Prometheus de Toussaint Louverture. *. . .

* [- Toussaint Louverture (1743-1803), precursor da independência Haitiana. Wendell Phillips chamou-o de “o soldado, o estadista, o mártir”.]

 

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                        CAPÍTULO XI

 

Contribuição da Etiópia-Núbia e Egito

 

De acordo com o testemunho unânime dos Antigos, primeiro os Etíopes e, em seguida, os Egípcios criaram e elevaram a uma fase extraordinária de desenvolvimento todos os elementos da civilização, enquanto outros povos especialmente os Eurasianos, ainda estavam absortos na barbárie. A explicação para isso deve ser procurada nas condições materiais em que o acidente da geografia lhes tinha colocado no início dos tempos. Para o homem se adaptar, estas condições exigem a invenção de ciências complementadas pela criação de artes e religião.

É impossível enfatizar tudo o que o mundo, particularmente o mundo Helênico, deveu aos Egípcios. Os Gregos apenas continuaram e desenvolveram, por vezes parcialmente, o que os Egípcios tinham inventado. Em virtude de suas tendências materialistas, os Gregos despojaram essas invenções da couraça religiosa, idealista em que os Egípcios lhes tinham envolvido. Por um lado, a vida dura nas planícies Euro-Asiáticas aparentemente intensificou o instinto materialista dos povos vivendo ali; por outro lado, ele forjou valores morais diametralmente opostos aos valores morais Egípcios, que se originaram a partir de uma vida pacífica, coletiva, sedentária, relativamente fácil, uma vez que tinha sido regulada por algumas leis sociais.

Na medida em que os Egípcios tinham horror à roubo, nomadismo, e guerra, na mesma medida estas práticas eram consideradas altamente morais nas planícies da Eurásia. Apenas um guerreiro morto no campo de batalha poderia entrar em Valhalla, o paraíso Germânico. Entre os Egípcios, nenhuma felicidade era possível exceto para o falecid, que podia provar, no tribunal de Osíris, que havia sido caridoso para com os pobres e nunca tinha pecado. Isto era a antítese do espírito de rapina e conquista que geralmente caracterizou os povos do norte, dispersados, em certo sentido, longe em um país desfavorecido pela Natureza. Em contraste, a existência era tão fácil no vale do Nilo, um verdadeiro Jardim do Éden, entre dois desertos, que os Egípcios tenderam a acreditar que os benefícios da Natureza caíam do céu. Eles finalmente adoraram-no na forma de um Ser Onipotente [Omnipotent Being]. Criador de Tudo que Existe e Dispensador de Bênçãos. Seu materialismo inicial – em outras palavras, seu vitalismo – passaria a se tornar um materialismo transposto para o céu, um materialismo metafísico, se alguém pode chamá-lo assim.

Ao contrário, os horizontes dos Grego nunca passariam além do material, homem visível, o conquistador da Natureza hostil. Na terra, tudo gravitava em torno dele; o objetivo supremo da arte era reproduzir sua semelhança exaltada. Nos “céus”, paradoxalmente, só ele seria encontrado, com seus defeitos e fraquezas terrestres, sob o escudo de deuses que se distinguiam dos mortais comuns apenas pela força física. Assim, quando o Grego tomou emprestado o deus Egípcio, um deus real no sentido pleno da palavra, provido com todas as perfeições morais que derivam da vida sedentária, ele só conseguia entender essa divindade única, reduzindo-a ao nível do homem. Consequentemente, o Panteão adotivo do Grego era meramente uma outra humanidade. Este antropomorfismo, neste caso particular, era apenas um materialismo acurado; que era característica da mente Grega. Estritamente falando, o milagre Grego não existe, pois se tentarmos analisar o processo de adaptação de valores Egípcias para a Grécia, não há, obviamente, nada de milagroso nisso, no sentido intelectual do termo. No máximo, podemos dizer que esta tendência ao materialismo, que veio a caracterizar o Ocidente, foi favorável ao desenvolvimento científico.

Uma vez que tinha tomado emprestado os valores Egípcios, o gênio mundano dos Gregos, emanando basicamente a partir das planícies da Eurásia e da sua indiferença religiosa, favoreceu a existência de uma ciência secular, mundana. Ensinada publicamente por filósofos igualmente mundanos, esta ciência não era mais um monopólio de um grupo sacerdotal a ser zelosamente guardada e retida do povo, para que não fosse perdida em convulsões sociais:

O poder e o prestígio da mente que, em toda a parte, exercia o seu império invisível, ao lado da força militar, não estavam nas mãos dos sacerdotes, nem de funcionários do governo entre os Gregos, mas nas mãos do pesquisador e do pensador. Como já fora visível o caso com Táles, Pitágoras e Empédocles, o intelectual podia se tornar o centro de um círculo em uma escola, uma academia, ou a comunidade viva de uma ordem, aproximando primeiro a um, depois ao outro, estabelecendo objetivos científicos, morais, e políticos, e amarrando-os todos juntos para formar uma tradição filosófica. *

[ * – Ernst von Aster, Histoire de la philosophie, Paris; Payot, 1952, p . 48.]
Ensino científico, filosófico, era dispensado por leigos que se distinguiam das pessoas comuns apenas pelo seu nível intelectual ou status social. Nenhum halo santo os envolvia. Em “Ísis e Osíris”, Plutarco relatou que, de acordo com o testemunho de todos os estudiosos e filósofos Gregos ensinados pelos Egípcios, estes últimos eram cuidadosos sobre secularizar seus conhecimentos. Sólon, Táles, Platão, Licurgo, Pitágoras encontraram dificuldade antes de serem aceitos como alunos pelos Egípcios. Ainda de acordo com Plutarco, os Egípcios preferiram Pitágoras por causa de seu temperamento místico. Reciprocamente, Pitágoras foi um dos Gregos que mais reverenciou os Egípcios. O precedente é a conclusão de uma passagem em que Plutarco explica o significado esotérico do nome Amon: aquilo que está oculto, invisível.

Como Amélineau observa, é estranho que nós não colocamos mais ênfase sobre a contribuição Egípcia para a civilização:

          Eu então percebi, e percebi claramente, que os mais famosos sistemas Gregos, notadamente os de Platão e de Aristóteles, tinham se originado no Egito. Eu também percebi que o gênio sublime dos Gregos tinha sido capaz de apresentar ideias Egípcias incomparavelmente, especialmente em Platão; mas eu pensei que aquilo que nós amamos nos Gregos, não devemos desprezar ou simplesmente desprezar nos Egípcios. Hoje, quando dois autores colaboram, o crédito por seu trabalho em comum é dividido igualmente por cada um. Eu não consigo ver por que a Grécia antiga deve colher toda a honra por idéias que ela tomou emprestadas do Egito. *

[ * – Amélineau, Prolégomènes, Introduction, pp. 8-9.]

Amélineau também ressalta que se algumas das idéias de Platão têm se tornado obscuras, é porque deixamos de colocá-los no contexto de sua origem Egípcia. Este é o caso, por exemplo, com as idéias de Platão sobre a criação do mundo pelo Demiurgo. Sabemos, além disso, que Pitágoras, Tales, Sólon, Arquimedes, e Erastóstenes, entre outros, foram treinados no Egito. O Egito era de fato a terra clássica onde dois terços dos estudiosos Gregos foram para estudar. Na realidade, pode-se dizer que, durante a época Helenística, Alexandria era o centro intelectual do mundo. Reunidos lá estavam todos os estudiosos Gregos que falamos hoje. O fato de que eles foram treinados fora da Grécia, no Egito, nunca pode ser subestimado.

Mesmo a arquitetura Grega tem suas raízes no Egito. Tão cedo quanto a Décima Segunda Dinastia, colunas proto-Dóricas são encontrados (tumbas Egípcias de Beni Hasan). Os monumentos Greco-Romanas são meras miniaturas em comparação com monumentos Egípcios. A Catedral de Notre-Dame, em Paris, com todas as suas torres, poderia facilmente ser colocada no salão hipostilo do templo de Karnak; o Partenon Grego poderia caber entre aquelas paredes ainda mais-facilmente. *

[* – Apesar da anatomia dos membros, a rigidez facial de uma estátua Grega difere do subsequente realismo Latino e está mais relacionada com a serenidade da arte Egípcia.]

O tipo de fábula tipicamente Negro – ou Cushita, como Lenormant escreve -, com animais como personagens, foi introduzido na Grécia pelo Negro Egípcio, Esopo, que viria a inspirar as fábulas do Francês La Fontaine. Edgar Allan Poe, em “Some Words with a Mummy” [“ Pequena Conversa com uma Múmia”], apresenta uma idéia simbólica sobre o âmbito de aplicação do conhecimento científico e técnico no Egito antigo.

A partir dos sacerdotes Egípcios, Heródoto recebeu informações que revelam os dados matemáticos básicos sobre a Grande Pirâmide de Quéops. Vários matemáticos e astrônomos têm produzido obras sobre essa pirâmide; suas revelações sensacionais não deixaram de desencadear uma enxurrada de argumentos que, como esperado, não são expressos na forma de explicação científica coerente. Sem nos aventurarmos no que pode ser considerado piramidologia excessiva, podemos citar os seguintes:

Astrônomos têm observado na Grande Pirâmide indicações do ano sideral, o ano anomalístico, as precessões dos equinócios “por 6.000 anos, enquanto que a astronomia moderna conhece-os por apenas cerca de 400 anos.” * Matemáticos têm detectado nela [na Grande Pirâmide] o valor exato de “pi”, a distância média exata entre o sol e a terra, o diâmetro polar da Terra, e assim por diante.

[* – George R. Riffert, Great Pyramid, Proof of God. Haverhill, Mass.: Destiny Publishers, 1944, p. 90.]

Poderíamos prolongar a lista citando estatísticas ainda mais impressionantes. Poderia isto resultar de mero acaso? Como Matila C. Ghyka escreve, isso seria inconcebível:

Cada um desses itens poderia ser uma coincidência; pois todos eles serem fortuitos seria quase tão improvável quanto uma revisão temporária do segundo princípio da termodinâmica (a água congelar sobre o fogo) imaginado pelos físicos, ou o milagre de macacos datilógrafos. . . No entanto, assim completada e aperfeiçoada, graças à pesquisa de Dieulafoy, E. Mâle, e Lun, a hipótese de Viollet-le-Duc, relativa à transmissão de certos diagramas Egípcias para os Árabes, em seguida, para os Clunisianos, por intermédio da escola Greco-Nestoriana de Alexandria, é bastante plausível. Astronomicamente, a Grande Pirâmide pode ser o “gnômon do grande ano” [“gnomon of the Great Year”], bem como o “metrônomo”, cuja harmonia, muitas vezes incompreendida [misunderstood], ecoa através de toda a arte Grega, arquitetura Gótica, a primeira Renascença, e em qualquer arte que redescobre a “divina proporção” e a pulsação da vida. *

[* – Matila C. Ghyka, Esthétique des proportions dans la nature et dans les arts. Paris: Gallimard, 1927, pp. 345, 367-368.]

O autor também cita a opinião de Abbé Moreaux de que a Grande Pirâmide não representa os “tateantes primórdios da civilização e ciência Egípcia, mas sim o coroamento de uma cultura que tinha atingido o seu apogeu e, antes de desaparecer, provavelmente desejava deixar às gerações futuras um atestado orgulhoso de sua superioridade.”

Este conhecimento astronômico e matemático, ao invés de desaparecer completamente da África Preta, deixou vestígios que Marcel Griaule foi perspicaz o suficiente para detectar entre os Dogon, não obstante o quão surpreendente este possa parecer hoje.

Em numerosas ocasiões, tem sido feita referência ao fato de que os Gregos tomaram emprestado seus deuses do Egito; aqui está a prova: “Quase todos os nomes dos deuses vieram para a Grécia do Egito. Minhas investigações provam que todos eles foram derivadas de uma fonte externa, e minha opinião é que o Egito forneceu o maior número.” *

[ * – Herodotus, op. cit., p. 99.]

Uma vez que a origem Egípcia da civilização e os extensivos empréstimos tomados pelos Gregos a partir dos Egípcios são historicamente evidentes, nós podemos muito bem perguntar com Amélineau por que é que, apesar desses fatos, a maioria das pessoas salienta o papel desempenhado pela Grécia enquanto subestimando aquele do Egito. A razão para esta atitude pode ser detectada meramente recordando-se a raiz da questão. Como o Egito é um país Negro, com uma civilização criada pelos Pretos, qualquer tese tendendo a provar o contrário não teria futuro. Os protagonistas de tais teorias não são conscientes disso. Por isso, é mais sábio e mais seguro retirar o Egito, de forma simples e mais discretamente, de todas as suas criações em favor de uma nação realmente Branca (Grécia). Esta falsa atribuição à Grécia dos valores de um então-chamado Egito Branco revelam uma contradição profunda que não é a prova menos importante de origem Negra do Egito.

Não obstante a opinião de André Siegfried, o Preto é claramente capaz de criação técnica. Ele é justamente aquele que primeiro a criou, em uma época em que todas as raças brancas, mergulhadas em barbárie, estavam pouco aptas para civilização. Quando dizemos que os ancestrais dos Pretos, que vivem hoje principalmente na África Preta, foram os primeiros a inventar matemática, astronomia, o calendário, ciências em geral, artes, religião, agricultura, organização social, medicina, escrita, técnica, arquitetura; que eles foram os primeiros a erguer edifícios de 6 milhões de toneladas de pedra (a Grande Pirâmide), como arquitetos e engenheiros – e não simplesmente como trabalhadores desqualificados; que eles construíram o imenso templo de Karnak, aquela floresta de colunas com seu famoso salão hipostilo grande o suficiente para conter Notre-Dame e suas torres; que esculpiram as primeiras estátuas colossais (Colossos de Mêmnon, etc.) – quando dizemos tudo isso nós estamos apenas expressando a plena verdade nua e crua que hoje em dia ninguém pode refutar por argumentos dignos desse nome.

 

 

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Pg. 236

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CAPÍTULO XII

Réplica a uma Crítica

Eu me proponho aqui a responder à revisão crítica feita por Sr. Raymond Mauny, que foi publicada no Boletim do IFAN [Bulletin de l’IFAN] (Boletim do Instituto Fundamental da África Negra) na edição de julho-outubro de 1960, relativa à [obra] Nations nègres et culture [Nações Negras e Cultura]. . . . Pedimos desculpas por voltar à noções de raça, herança cultural, relacionamentos linguísticos, conexões históricas entre povos, e assim por diante. Eu não atrelo mais importância a estas questões do que elas realmente merecem nas sociedades modernas do século XX. Somente minha preocupação científica obriga-me a dirigir a atenção a estes temas, uma vez que alguns dos seus aspectos são desafiados.

Como será visto, o nosso relato é desprovido de qualquer paixão e pedimos nada melhor do que submeter-se à evidência factual. O que vamos tentar combater em nome da verdade científica, e o que nos obriga a utilizar uma noção tão delicada como a da raça, é um grupo de argumentos que têm se tornado tão habituais ao ponto de se passarem por verdades científicas, o que eles definitivamente não são. É todo o corpo de hipóteses, distorcidas em experiências concretas, que são susceptíveis de induzir em erro e são ainda mais perigosas do que o dogmatismo absoluto. . . .

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As críticas do Sr. Mauny começam perto do fim de sua introdução:

O que era admissível para o estudante ou o jovem professor de liceu não é mais permitido ao Doutor em Letras, cujo título poderia autorizá-lo amanhã a ensinar na Universidade. E assim, apesar de toda a minha simpatia pelo autor, cujo reconhecimento eu fiz, eu considero meu dever, não importa o quanto possa doer a mim ou a ele, dizer em alta voz o que outros estão mantendo silêncio por educação ou por algum outro motivo.

Obviamente, o Sr. Mauny não pretende dispensar nenhums socos em sua tentativa para demolir a tese adversa. Se, apesar disso, seus argumentos acabarem por revelar uma fragilidade inesperada, tal seria totalmente involuntário de sua parte. Quanto a mim, vou tentar responder o mais objetivamente possível, com a mesma serenidade, a todas as críticas formuladas aqui. O leitor será o juiz.

           De acordo com a C. A. Diop, o exame de restos fósseis e múmias mostra que estamos a lidar com Negros: “Eu afirmo que os crânios das épocas mais épocas antigas e as múmias da época dinástica não diferem em nenhum aspecto das características antropológicas das duas raças Negras existentes na terra: o Negro Dravidiano de cabelos-lisos e o Negro de cabelos-lanosos [woolly haired Negro].” e depois: “Quando nós limpamos cientificamente a pele das múmias, a epiderme aparece pigmentada exatamente igual a de todos os outros Pretos Africanos . . .
Devo acrescentar que, no presente momento, existem procedimentos científicos infalíveis (raios ultravioletas, por exemplo) para determinar a quantidade de melanina na pigmentação. Agora, a diferença entre um Branco e um Preto, a este respeito, é o fato de que o organismo branco secreta enzimas que absorvem a melanina. O organismo Negro não secreta qualquer tipo de enzimas. O mesmo é válido para os antigos Egípcios. É por isso que, invariavelmente, desde a época pré-histórica até a época de Ptolomeu, a múmia Egípcia permaneceu Negra. Em outras palavras, ao longo da história Egípcia, a pele, bem como a estrutura óssea de todos os Egípcios de todas as classes sociais (do Faraó ao Fellah) manteve-se aquela dos Negros autênticos”.

Vamos separar as duas idéias contidas na passagem precedente citada por Mauny:

A. “De acordo com C. A. Diop. . . . Pretos Africanos” Isto é exato; em agosto de 1961 eu trouxe de volta de Paris amostras de múmias que tenho de fato limpado e mantido em frascos de vidro no IFAN. Elas estão à disposição de todos os estudiosos que possam estar interessados e o Sr. Mauny, especialmente, pode examiná-las à vontade, sempre que ele assim o desejar. *

[* – Desde que estas linhas foram escritas, isso tem sido feito. Raymond Mauny teve tempo para examinar todas essas amostras em meu laboratório. Eu deixo isso para ele para revelar suas impressões, se ele o considerar necessário.]

B. “Agora, a diferença entre um Branco e um Preto . . . O organismo Negro não secreta qualquer tipo de enzimas. “Mauny pensa que está me citando. No entanto, a precisão científica requer uma clara distinção a ser feita . . . entre as idéias expressas por mim em Nations nègres et culture [Nações negras e cultura] e aquelas [idéias] recolhidas [de mim] por um jornalista não familiarizado com o assunto, em uma mera entrevista no Latin Quarter [que M. Mauny entrelaça com elas]. Ao ler a crítica de Mauny, temos a nítida impressão de que a passagem citada ocorre em Nations nègres et culture [Nações negras e cultura]; este não é o caso. Ele poderia facilmente ter evitado a confusão já que ambos os documentos estão disponíveis. É de se lamentar que por toda a crítica ele combine dois textos que não podem ser colocados no mesmo plano. . . .

Todos os organismos animais e vegetais contêm enzimas; esta é uma questão clássica de bioquímica. É a condição de ativação das enzimas que pode diferir; Algumas vezes esta depende de fatores hereditários. Assim, um fator racial preponderante intervém na oxidação da tirosina e sua transformação para melanina (na epiderme humana), de acordo com uma reação química catalisada por tirosinase.

Também é correto que se pode rastrear, por assim dizer, aquele fator racial e determinar a sua importância, começando a partir da “dosagem da quantidade de melanina” contida na epiderme, especialmente na epiderme de uma múmia Egípcia. Também é certo que um tal estudo classificaria os Egípcios entre os Negros, de acordo com as amostras disponíveis para mim e que eu tenho selecionado inteiramente ao acaso.

Eu não sou um antropólogo, nem é o autor, mas remeto o leitor para um dos melhores livros sobre o assunto do antigo Egito: Carleton S. Coon, The Races of Europe [As raças da Europa] (New York: Macmillan, 1939, pp. 94-98 & 458-462). Nele os componentes raciais do Antigo Egito são analisados (Mediterrâneos no pré-neolítico, Brancos; Tasianos [Tasians] no planalto Abissínio, Marrons [Browns] com tendência Negróide, Naqada, relacionados porém menos Negróide; Mediterrâneos do Baixo Egito, Brancos; e desde 3000 a.C. até a época de Ptolomeu, a história do Egito mostra “a substituição gradual do tipo do Alto Egito pelo do Baixo Egito” (p. 96). Os invasores posteriores (Hicsos, povos do mar, Semitas, Assírios, Persas, Gregos), todos pertencem a raças brancas, com exceção da Vigésima-Quinta Dinastia, de ascendência Núbia, como é conhecido.

O trabalho de Coon não contribui nada novo. Se todos os exemplares de raças e sub-raças descritas por ele vivessem em Nova York hoje, eles residiriam no Harlem, incluindo aqueles cujas cabeças e rostos “são aquelas de uma fina forma Mediterrânea suavemente contornada”; nenhum antropólogo vai me contestar sobre isso. Mesmo Coon concordaria comigo. Mas, uma vez que o antigo Egípcio está morto, a discussão parece possível.

Então, vamos discutir. O volume de Coon é datado de 1939. Surpreendentemente, os fatos nele com os quais Mauny me desafia conformam-se basicamente às minhas próprias conclusões. É apenas uma questão de variantes deNnegros e Negróides. Na medida em que nós aderimos estritamente aos fatos, a arqueologia Egípcia exclui a ideia de uma ocupação inicial do Baixo Egito por uma raça Branca. Esta idéia parecia tão natural para os primeiros Egiptólogos que eles a afirmavam quase que espontaneamente, sem tentar basear-se na menor certeza científica ou arqueológica. Um estudo da Paleta de Narmer [Narmer’s Tablet] não nos permite afirmar isto, uma vez que, em última análise, a natureza indecisa das pessoas representadas e a tenuidade da documentação seria desproporcional à importância da conclusão. Todas as teorias de Moret sobre a anterioridade do Baixo [Egito] sobre o Alto Egito são tomadas a partir de lendas Egípcias da época Grega e livremente interpretadas. *

[* – Um dia em breve, haverá dúvidas sobre a autenticidade da civilização Tasiana [Tasian], devido ao número restrito, a fragilidade, e a natureza quase artificial dos documentos disponíveis para apoiar a sua existência].

No Baixo Egito, escavações arqueológicas que datam do pré-dinástico não conseguiram descobrir a existência de um tipo Branco. Os Brancos do Baixo Egito foram transplantados para lá em uma época histórica precisa bem conhecida; foi durante a Décima-Nona Dinastia, sob Merneptah (1300 a.C.), que a coalizão de Indo-Europeus (povos do mar) foi conquistada; os sobreviventes foram feitos prisioneiros e espalhados por vários locais de construção do Faraó. Entre 1300 e 500 a.C., estas populações tiveram tempo para se espalhar desde o Delta Ocidental até os arredores de Cártago. No Livro II de sua História, Heródoto explica como eles foram distribuídos ao longo da costa. Consequentemente, quando Coon fala de Brancos habitando o Baixo Egito, sua declaração não é baseada em qualquer documento. Teria mesmo ainda que ser provado que o Baixo Egito [de fato] existiu como terra firme [terra firma] habitável em tempos remotos.

Quanto aos invasores brancos: Hicsos, Assírios, Persas, Gregos, etc., os Egípcios sempre representaram-los como raças à parte, e nunca foram influenciados por eles, pela simples razão de que a civilização dos invasores era menos avançada do que a sua própria. Ninguém jamais pensou seriamente em propor cientificamente a influência de qualquer um destes povos sobre a civilização Egípcia.

Ainda de acordo com Coon, as representações convencionais revelam um corpo magro, quadris estreitos, mãos e pés pequenos. A cabeça e rosto “são aquelas de uma fina forma Mediterrânea suavemente contornada“; vários tipos da classe alta representados por estes retratos “pareciam notavelmente como os Europeus modernos” (p. 96).
Pelo contrário, o tipo de determinados Faraós, como Ramsés II, parece estar relacionado com o tipo Abissínio.

. . . Se o leitor, depois de examinar cuidadosamente todas as reproduções [dos Faraós e outros dignitários] e notar a significância social de alguns e a insignificância de outros na sociedade Egípcia daqueles dias, em seguida reler a passagem acima . . . ele vai ter motivos para meditar sobre a validade científica dos textos convencionais.

[Mauny prossegue:]

            A pigmentação do Egípcio “era geralmente um branco moreno [brunet white]; nas figuras convencionais, os homens são representados como vermelhos, as mulheres muitas vezes como mais claras, e até mesmo brancas” e a filha de Quéops [Cheops], construtor da Grande Pirâmide, era “uma definitiva loira.” Em direção ao sul, perto de Aswan, a população era evidentemente mais escura (marrom-avermelhado, marrom).
Em suas pinturas e esculturas, os Egípcios representaram estrangeiros com as suas características raciais: “Além dos Líbios, que tinham características Nórdicas, bem como coloração, Asiáticos, com narizes proeminentes e cabelo encaracolado, povos do mar do Mediterrâneo, com peles mais claras e uma saliência facial mais pronunciada do que os Egípcios também são mostrados, bem como os Negros”, e mais tarde. . . “A pigmentação Mediterrânica dos Egípcios provavelmente não mudou durante os últimos 5.000 anos”
(p.98).
Essa é a opinião de um antropólogo; Deixo isso para vocês tirarem uma conclusão. Mas eu não posso ajudar achando difícil sustentar que um povo cujos principais componentes eram Mediterrânicos pudesse ser Negro, especialmente após todos os detalhes fornecidos por Coon que, aliás, no entanto, reconhece contribuições Negras.

           Recordar a filha Quéops como “uma definitiva loira” provaria que isso era raro, se acurado. Os Egípcios eram tão pouco brancos, que, quando se deparavam com uma pessoa branca com cabelo vermelho, eles o matavam imediatamente como uma pessoa doente incapaz de se adaptar à vida. Este foi certamente um preconceito lamentável, mas compreensível entre duas raças diferentes durante essas épocas remotas da história. No entanto, temos uma oportunidade para examinar o perfil de Khafre [Chephren] (filho ou irmão de Quéops), que é identificado com aquele da esfinge de Giza. À medida que olhamos, ficamos facilmente convencidos de que a filha hipotética de Quéops não devia a cor de seu cabelo loiro à seu pai.
Tão cedo quanto na Sexta Dinastia, sob Pepi I e seu chanceler Uni, o Egito começou a importar mulheres brancas da Ásia. . . Além disso, Quéops é suposto ter ido tão longe ao ponto de prostituir suas filhas para terminar de construir sua pirâmide; a Grande Pirâmide, que se tornaria sua sepultura. Não seria isso talvez uma questão de importação de raparigas estrangeiras para fins de prostituição?

Relativo à conclusão de Mauny, será que Eu preciso lembrar que, de acordo com os mais recentes estudos antropológicos, uma pluralidade, 36 por cento, da população Egípcia era “Negróide” na época proto-dinástica? Mauny está enganado sobre o termo “Mediterrânico” [“Mediterranean”]; este é um eufemismo para “Negróide”, quando utilizado por antropólogos. De qualquer forma, este significa “não-branco,” como é evidente a partir do precedente. O que está em causa aqui é a “raça marrom” [“brown race”] (no sentido melanodérmico) de Sergi e Elliot Smith. Esta conclusão não é ainda um reflexo fiel dos fatos acima citados a partir do volume de Coon, pois nós não podemos ver como os principais componentes são “Meditarrânicos” no sentido Cro-Magnon da palavra, uma vez que eles apenas Brancos marrons [brown Whites], vermelhos marrons [brown reds], marrons de tipo Abissínio, marrons com tendência Negróide, o tipo menos Negróide de Naqada, e assim por diante. *

[* – Entre os membros da aristocracia Africana, com uma quantidade igual de melanina, a mulher parece ter uma compleição mais clara do que o homem, porque ela está menos exposta ao ambiente, o sol, em particular. Este fenômeno, muito bem conhecido na África Preta, pode muito bem ser a origem da convenção pictórica [na Arte] Egípcia em relação à pele [mais clara] das mulheres.]

[Mauny prossegue:]

           De acordo com C. A. Diop, antigos autores também afirmaram que os Egípcios eram Negros. Heródoto, o “Pai da História”, que escreveu em cerca de 450 A.C., é justamente chamado, pois ele visitou o Egito. Mas será que os exemplos de C. A. Diop são tão convincentes quanto ele pensa? Por exemplo, não é ao Egito que Heródoto está se referindo (II, 22), quando ele diz, “eles são pretos pelo calor”, mas [ele está se referinfdo] aos habitantes das terras do sul, os Etíopes. . .
“Ao chamar a pomba de preta, eles indicavam que a mulher era uma Egípcia” (II, 57). Por acaso não eram os Gregos (e os Hebreus tiveram a mesma reação) inclinados a chamar os Egípcios de “Pretos” porque estes últimos eram mais escuros do que eles próprios, o que é verdade? Será que nós não usamos a mesma expressão na França (daí os nomes de família: Morel, Moreau, Lenoir, Nègre, etc.) para designar pessoas mais escuras do que a média? Um Nórdico é claramente consciente de ter a pele mais clara do que a de um Espanhol ou um Italiano do Sul; ele irá falar sobre pele escura, pele morena, e mesmo pele preta, assim como nós, além disso, no que diz respeito aos banhistas que adquirem bronzeados nas praias nos verões. Nenhuma deles é um Negro.

Será que o exemplo dos Cólquidas [Colchians] é melhor? O autor cita uma passagem de Heródoto: “Os Egípcios disseram que eles consideravam os Cólquidas [Colchians] como sendo descendentes do exército de Sesostris. Minhas próprias conjecturas foram fundadas, em primeiro lugar, no fato de que eles têm a pele preta e têm cabelos lanosos.”
Mas por que será que o Sr. Diop deixa de incluir o resto da passagem:”Isso conta muito pouco, uma vez que várias outras nações são assim também”? E os adjetivo melanochroes usado por Heródoto não significa necessariamente “preto.” Em 1948 Legrand o traduziu como: “Tendo pele morena.” [“having brown skin”] Sobre este assunto, comfira também, F. M. Snowden, The Negro in Ancient Greece [O Negro na Grécia Antiga], 1948, p. 34.
No próximo exemplo, sobre os Índianos do sul, eu não vejo em lugar nenhum mencionado o fato de que os Egípcios eram Pretos. É unicamente uma questão de Etíopes.

O que exatamente é notável é que, em uma digressão sobre as fontes do Nilo, Heródoto acaba por aplicar o mesmo adjetivo étnico melanochroes para os Etíopes, reputados por serem pretos, e para os Egípcios, que alguns gostariam de clarear e considerar como leucodermas. Traduzir melanochroes como “tendo pele morena,” é tomar uma liberdade justificada somente por idéias a priori [pre-concebidas] sobre a cor da pele dos Egípcios. Este [melanochroes] é o termo mais forte existente em Grego para designar negritude [blackness]; estritamente falando, este deve ser traduzido como Negro (niger-gra-grum).

A atitude que consiste em recorrer a uma má interpretação insana de textos em vez de aceitar a evidência, é típica da ciência moderna. Ela reflete o estado de espírito especial que incita alguém a buscar significados secundários para palavras em vez de dar-lhes o seu significado habitual, pois isto é o quão profundamente enraizadas as idéias a priori [pré-concebidas] já se tornaram. É necessário reler passagens de Heródoto no contexto para saber que nenhum estudioso que seja tem o direito de dar às palavras um significado diferente da sua conotação real. Heródoto estava ciente de que ele estava descrevendo uma raça Negra, no sentido próprio do termo, uma raça cujas qualidades morfológicas são diametralmente opostas à sua própria (no sentido de opostos: preto-branco, crespo-liso, etc.). Para ele, não era uma questão de tonalidades ou nuances dentro de uma única raça, como Mauny iria entendê-lo, por exemplo, como uma distinção entre Nórdicos e Espanhóis.

O fato de que Egípcios tinham a pele preta era para Heródoto uma verdade evidente que ele postula, como um matemático, como um axioma para conduzir posteriormente à demonstração de fatos mais complexos. Assim, as pombas em questão são apenas símbolos de duas mulheres que os comerciantes Fenícios teriam tomado de Tebas para vendê-las, uma na Líbia (oráculo de Amon), o outra em Dodona, na Grécia. . . .

Heródoto quis mostrar a profunda influência do Egito sobre a Grécia, especialmente na religião. Neste caso particular, ele queria provar que o Oráculo de Amon e aquele de Dodona são de origem Egípcia e foram fundados por mulheres sequestradas da capital do Alto Egito, Tebas. Ele traça esta conclusão a partir do fato de que as mulheres eram pretas. Atribuir qualquer outro significado ao texto não reflete conhecimento científico; isto apenas indica uma determinação imperiosa a contornar os fatos, para segurar o que se quer acreditar. Todas as passagens de Heródoto são igualmente explícitas a partir deste ponto de vista.

Eu encurtei a segunda citação, porque o resto não acrescentava nada à minha demonstração. Eu precisava provar que os Egípcios eram pretos; pouco importava para mim saber (eu já sabia disso) que eles tinham essa negritude em comum com outros povos. Heródoto fez essa observação apenas porque ele queria acrescentar uma prova suplementar correspondente a esta descrição dos Egípcios. Se continuarmos até o fim do parágrafo, veremos que, para Heródoto, o Egípcio tinha pele preta, cabelo lanoso, e era circuncidado. Especialmente porque os Cólquidas possuíam essas três características, ele considerou-os Egípcios.

Voltando ao caso do Nórdico que julga as populações do sul da Europa como bastante escuros “sem ser Negros,” Eu só posso referir a uma passagem no final do capítulo I do meu Antériorité des civilizações nègres [Anterioridade das Civilizações Negras], * onde discutimos a diferença na atitude dos investigadores Europeus e Africanos.

[* – Capítulo XIII do presente volume.]

Na realidade, é evidente que, quando alguém discute a sua própria sociedade, se analisa sem fragmentá-la, agarra-se a tradições quase instintivamente, a pessoa trata-as objetivamente; em nenhum lugar a pessoa cava profundas trincheiras ou criar barreiras intransponíveis; a pessoa não atravanca o terreno investigado com partições impenetráveis; a pessoa está inclinada a buscar a coerência dos fatos e normalmente encontra-a. Ao lidar com com qualquer outra realidade, a tendência é de pulverizar, pois com toda a objectividade não há maior diferença entre os Nórdicos e Espanhóis de Mauny do que entre o Etíope e o Egípcio por um lado e os outros Pretos da África Ocidental por outro. Para ser preciso, sem deixar de pertencer ao mesmo universo étnico, todos eles são bem conscientes das nuances que os distinguem.

Será que Mauny pode afirmar positivamente que na Idade Média, nos dias da Berbéria, quando os nomes próprios estavam sendo formados na Europa moderna, especialmente na França, será que os Morels, Moreaus, Lenoirs e Nègres não tinham, de fato, algum antepassado que justifica essa denominação? Os nomes não eram criados gratuitamente. Alguém chamava-se “de vallon”, quando ele vinha do vale, “Dupont” se vivesse perto da ponte, e assim por diante. Por que nomes que implicam origem étnica seriam aplicados sem qualquer razão? Pessoas interessadas em fofocas de cozinha podem facilmente mostrar que aqueles autênticos elementos Negros foram encontrados em várias famílias Européias durante esse período na França, Alemanha, e Itália, mesmo se descontarmos a influência Árabe.

A terceira citação criticada por Mauny envolve os Índios Padaeanos [Padaean Indians] que nunca foram subjugados por Dário. Heródoto descreve sua cor de pele com o mesmo adjetivo étnico que ele usa para os Egípcios e Etíopes; eles são todos Pretos (melanochroes) e é isso que Mauny não consegue ver. Tal é a justificação lógica para essa citação.

A passagem de Diodoro da Sicília, relativa à afirmação dos Etíopes de que sua civilização precedeu a dos Egípcios, é interessante historicamente para a opinião de que os Egípcios provavelmente descenderam dos Etíopes. Esta, portanto, coloca o problema da contribuição do Negro para a formação do antigo Egito. Assim, eu considero este texto mais importante do que os de Heródoto, Estrabão, ou os autores do Gênesis, neste contexto. Mas insisto em dizer de uma vez que a arqueologia comprova superabundantemente que o Egito foi o fator civilizante na Etiópia, e não o inverso. Eu acredito que é impossível provar que as construções arquitetônicas na Núbia, para citar apenas um exemplo, são mais antigas do que aquelas do Alto ou Baixo Egito na época das pirâmides. Isso não quer dizer que os Etíopes não tiveram nenhuma parte na formação de civilização Egípcia; Eu estou até convencido do contrário. Está para os etnólogos, sociólogos e outros para dizer a importância dessa contribuição.

Esta passagem de Diodoro foi citada para mostrar que os primeiros Egípcios que passaram para mais ao norte no vale do Nilo, foram apenas um fragmento, uma “colônia”, isolada a partir de um tronco inicial: a comunidade Etíope localizada mais ao sul. Diodoro relata isto como uma opinião geral em sua época. Com ou sem razão, os Etíopes sempre consideraram a si mesmos como sendo os ancestrais biológicos dos Egípcios. Eles também reivindicaram, como relata Diodoro, a paternidade das primeiras criações culturais a partir das quais o Egito depois se beneficiou. Cailliaud, um dos primeiros modernos a estudar a civilização Núbia em profundidade, compartilhou essa opinião. Em sua opinião, as primeiras tentativas foram feitas na Etiópia e, em seguida, aperfeiçoadas no Egito. Tendo então tornado-se obras-primas, os esboços, provavelmente, retornaram para o vale, como o refluxo da maré. Consequentemente, nunca foi a nossa intenção disputar a influência tardia do Egito sobre a Núbia. Conforme nós relemos o texto de Nations nègres et culture [Nações negras e cultura], prontamente percebemos que não há nenhuma necessidade para confundir esta questão.

A partir da crítica de Mauny, tem-se a impressão de que Eu fui o único que escreveu em algum lugar: “as construções arquitetônicas na Núbia, para citar apenas um exemplo, são mais antigas do que aquelas do Alto ou Baixo Egito.” Uma vez que Eu nunca escrevi tal coisa, por que é que ele faz esta insinuação? A melhor maneira para criticar objetivamente, na minha opinião, é não atribuir aos autores idéias que eles não expuseram, de forma a melhor atacá-los.

Porventura a conexão lógica (que escapa a Mauny, diz ele) é muito implícita? No entanto, a passagem citada de Heródoto poderia tê-lo ajudado a compreender o significado desta frase.

Durante a Antiguidade, os estudiosos consideraram Etíopes, Egípcios, e Cólquidas [Colchians] como Negros pertencentes à mesma raça. Ninguém pode citar uma negação disto nos textos antigos. Mas o capítulo da Geografia de Estrabão, que relata estes fatos, lida com migrações de povos. O autor simplesmente queria descrever a dispersão de populações; para ele, o ponto de partida foi o Egito, ao invés da Etiópia. Ele pensava que esta [migração] começou a partir de um núcleo Egípcio inicial, a partir do qual os Etíopes provavelmente separaram-se na forma de colônias. Estes Etíopes supostamente migraram até o Vale do Nilo e os Cólquidas se estabeleceram nas margens do Mar Negro [Black Sea]. Por essa razão, ele diz: “Egípcios estabeleceram-se na Cólquida e na Etiópia.” Como a negritude dos Etíopes e dos Cólquidas poderia ser aceita a priori como indisputável (e permanece assim até hoje), pode-se deduzir da observação de Estrabão que os Egípcios eram consequentemente, também pretos.

[Mauny continua:]

A mesma observação sobre a passagem de Gênesis IX, 18-X, 20, onde, como uma questão de fato, os Egípcios (Mesraim) são classificados entre os descendentes de Cam [Ham]. Mas o último é um personagem lendário, como Noé, Sem e Jafé, e a divisão traçada na Bíblia apenas diz respeito às várias raças então conhecidas pelo autor ou autores do Gênesis: os Indo-Europeus (Japhet), Semitas (Hebreus, Árabes, alguns dos mesopotâmios, etc.) e Camitas [Hamites] (ou o grupo de povos que, ao seu conhecimento, eram mais escuros do que os Semitas: Kush, Egípcios, Put, Canaã). Além disso, o Genesis, que não é um tratado antropológico, mas uma coleção de lendas Hebraicas, Mesopotâmicas e Egípcias, referindo-se, nomeadamente, à origem das raças humanas como os Hebreus do segundo milênio imaginaram-las, em nenhum lugar menciona a cor preta dos descendentes de Ham [Cam] (Cham) ou Canaan; os Israelitas eram conscientes de serem mais claros [na compleição] do que eles, e isso é tudo.

Um grande passo à frente foi dado: os Egípcios já não são deliberadamente confundidos com Indo-Europeus ou Semitas, mas classificados na grande família de Cam [Ham] e Canaã, em conformidade com o texto Bíblico. Naturalmente, nenhum estudioso seria tão ousado a ponto de tomar as citações Bíblicas literalmente. Mas, infelizmente! Isto tem sido feito com muita frequência. Se nós juntarmos de ponta a ponta todas as citações Bíblicas em obras Ocidentais referentes à maldição sobre a descendência de Cam [Ham], elas sem exagero seriam numerosas o suficiente para encher uma biblioteca. Por outro lado, são raras as citações que apontam para o fato de que os Egípcios pertencem entre os descendentes de Cam [Ham]. Assim, a Bíblia é citada complacentemente quando se é uma questão de confirmar opiniões adquiridas desde a infância sobre a desigualdade das raças humanas. Mas isso não pressiona as consequências para o limite. Alguém é cuidadoso para não revelar a mina enterrada, por assim dizer, no próprio texto citado.

No entanto, as “lendas Bíblicas” das quais Mauny fala são muitas vezes surpreendentemente verdadeiras: por exemplo, a civilização antediluviana de El Obeid [no Sudão Central] descoberta pela arqueologia moderna. Isso prova que a história do dilúvio não é infundada, e que o transbordamento do Tigre e do Eufrates, mesmo que não tenha submergido toda a Terra em cerca de 4000 A.C., deve ter dado às populações ribeirinhas essa impressão. Napoleão, por sua vez, por pouco não aprendeu, à sua custa, a verdade sobre a passagem da travessia do Mar Vermelho. Isso não diminui o fato de que é uma compilação de textos de diferentes fontes: o papel das tradições Egípcias na formação do texto Bíblico começou a ser salientado. Certas passagens são quase cópias dos textos Egípcios.

Voltando à questão de saber se a Bíblia designou os descendentes de Cam [Ham] e os Egípcios por um termo que indica a cor da pele, podemos responder afirmativamente. O próprio nome “Cam” [“Ham”] (Cham) é um termo étnico:

Em Hebraico, Kham: filho de Noé
Khum: Castanha
Khom: calor [heat]
Khama: calor, o sol
Em Egípcio antigo, Khem: preto, queimado
Ham: quente, preto
Em Wolof, Khem: preto, queimado.

Assim, a designação étnica de Cam [Ham] e sua descendência está implícita na etimologia da palavra usada em Gênesis.

A reserva de Mauny é bastante prudente, porque se trata do Genesis somente. O leitor desatento poderia acreditar que em nenhum lugar na Bíblia os Cananeus ou Egípcios são referidos como Pretos, o que, obviamente, estaria incorreto.
Genesis não é toda a Bíblia. No Cântico dos Cânticos [Song of Songs], o poema atribuído a Salomão, não há dúvida de que a suposta filha do Faraó é preta. A Bíblia está repleta de exemplos semelhantes. Por que deveria ser importante, então, observar que em um de seus livros que o termo étnico para os Cananeus não está explicitamente indicado?

[Mauny prossegue:]

           A partir de uma análise dos textos antigos citados pelo autor, não muito é deixado para persuadir-nos de que os antigos Egípcios eram Negros. A arqueologia nos leva a crer o contrário, apoiado precisamente por um texto de Heródoto. Foi somente depois que os desertores Egípcios estabeleceram-se na Etiópia que “os Etíopes, adotando maneiras Egípcias, tornaram-se mais civilizados” (II, 30).
Além disso, hipóteses sobre a origem dos Egípcios não estão em falta. C. A. Diop não inova neste campo. Eis a passagem em que Gabriel Hanotaux (Histoire de la nation égyptienne [História da nação Egípcia], 1931, I, 14) discute-a: “O que eram esses povos iniciais (do vale do Nilo)? Celtas, respondeu Poinsinet de Sivry – Negros, disse Volney – Chinêses, pensou Winckelmann – Indo-Polinésios, afirmou Moreau de Jonnes – Africanos da Etiópia e Líbia, declarou Petrie, apoiado pelos naturalistas Hott, Morton, Perrier, Hamy – Asiáticos da Babilônia, com uma civilização avançada, afirmaram os arqueólogos e orientalistas Brugsch, Ebers, Hommel, de Rougé, de Morgan. Para esta variedade de opiniões há, sem dúvida, uma causa: Esta é que no Egito havia uma mistura de várias raças”.
Egito, terra de uma mistura de raças e de civilizações na encruzilhada de três continentes, tal é de fato a vocação lógica desse país. Qualquer tentativa para monopolizar o todo para o benefício de um único componente distorce a verdade. Cabe a nós, historiadores da África Negra, detectar o papel desempenhado na formação do antigo Egito pelos Negros e Morenos (Africanos da Etiópia e Líbia, como diz Petrie), uma verdade amplamente já admitida, como já vimos.

O leitor pode apreciar o quanto “é deixado a partir de uma análise dos textos” envolvidos. Cabe a ele [leitor] ver se ou não a nossa argumentação é reforçada por esta crítica, e se a crítica não o tornou mais consciente da solidez da nossa posição.
Mauny parece confundir civilização e raça. A passagem de Heródoto, também citada em Nations nègres et culture [Nações negras e cultura], é absolutamente silenciosa sobre raça. No máximo, ele nos informa que, em um dado momento, soldados Egípcios insatisfeitos desertaram para o serviço do rei da Núbia, e que o resultado produziu uma influência civilizadora (Egípcia) na Nubia. É absolutamente impossível extrair, apesar do que Mauny diz, a menor conclusão sobre raças. Nada justifica isso. Por outro lado, pode ser justamente notado que esses soldados Egípcios, durante esse período de desordem e anarquia, voltaram-se para o Alto Egito e Núbia; esta foi uma constante da política Faraônica Egípcia. Em períodos conturbados, príncipes do sangue e tradição Egípcios sempre se refugiaram no Alto Egito, e não no Delta. Etiópia era a terra dos deuses, dos ancestrais, a terra de Punt, da legitimidade, o habitat inicial da raça, de acordo com as mais autênticas tradições Egípcias. . . . No ritual, o Alto Egito sempre teve precedência sobre o Baixo Egito; a sociedade Egípcia foi legitimista até o seu declínio. Recordamos que somente uma princesa Núbia poderia ser vinculada ao santuário do deus Amon em Tebas. A reação das tropas Egípcias foi uma reação legitimista. O que esta envolvia era uma escolha deliberada entre a tradição Egipto-Núbia e usurpadores aventureiros que haviam tomado o trono do Egito. Não pode haver nenhuma dúvida a esse respeito; basta remeter a essa parte da história Egípcia para ser convencido. *

[* – Por outro lado, é impossível fazer a civilização Núbia remontar somente à este evento no século sétimo A.C. Os documentos se opõem a isso com tanta evidência que estamos surpresos ao ver um historiador dar a impressão de acreditar que seja possível.]

Psammetichus I, Vigésima-Sexta Dinastia, foi considerado pelo povo como um usurpador que entregou o Egito “até a última gota das nações”, para os estrangeiros, facilitando a sua instalação. Em particular, ele se cercou por mercenários Gregos e conferiu-lhes os mais altos postos civis e militares na corte. Isso foi quando as guarnições do exército Nacional Egípcio, a partir de frustração e como legitimistas (esta era uma parte do exército composta por cidadãos leais), foram colocar-se à disposição do rei da Núbia (Cartum, Sudão). Eles somavam 200.000 e foram designados para a região entre Bahr-el-Azrek e Bahr-el-Abyad. Eles multiplicaram-se e tornaram-se os automoles mencionadas por Heródoto. *

[ * – Cf. Gaston Maspero, Histoire ancienne des peuples de l’Orient [História antiga dos povos do Oriente], 12th ed. Paris: Hachette, 1917, pp. 578-579.]

O Egito não era mais um caldeirão de raças do que a Europa era, e a longa citação de Hanotaux pode ser aplicada palavra por palavra a essa parte do mundo também. Lá encontramos Celtas, Lígures [Ligurians], Pelágios, Italiotas, Etruscos, Alemães, Anglos e  Saxões, Eslavos, Hunos, Íberos, Árabes, Lapões, homens de Cro-Magnon e Negróides Grimaldi, homens Chancelade, para citar apenas alguns, de todas as raças: brancos, pretos, amarelos, “moreno-amarelado,” [“brownish-yellow”] “morenos” [“brunettes”] (?) gradualmente misturados naquela área relativamente estreita da Europa Ocidental. Todos sabem disso, mas isso não impede as diferentes nacionalidades Européias conhecidas hoje – Italianos, Alemães, Francêses, etc. – de aspirar a uma certa homogeneidade racial. No entanto, cada uma dessas nações reivindica e protege o que considera ser o seu patrimônio cultural.

Nenhuma escola de história até agora tem tentado seriamente ridicularizar essas atitudes e pulverizar essas cristalizações de erros históricos. A permanência de características somáticas, apesar de milhares de anos de miscigenação em um povo primitivo estabelecido em um terreno é um dos fatos mais extraordinários observados pela antropologia moderna. Os três grandes setores étnicos da Europa (Nórdico, Alpino, e Mediterrânico da pré-história) ainda subsistem, não obstante o número incalculável de povos que têm vindo a alterar o substrato inicial.

Todos os antropólogos (Vallois, Haddon, Elliot Smith) que estudaram o Egito chegaram à mesma conclusão. Da mesma forma, na passagem citada por Mauny, Coon relata que a pigmentação dos Egípcios provavelmente não mudou significativamente durante os últimos cinco milênios. De fato, a miscigenção Egípcia se espalhou como um ventilador no curso da história, como ninguém nega, mas esta nunca conseguiu derrubar as constantes raciais da primeira população, aquela do Alto Egito, em particular. A cor dos Egípcios tornou-se mais clara ao longo dos anos, como aquela dos Negros das Índias Ocidentais, mas os Egípcios nunca deixaram de ser Negros. Enquanto toda a civilização Egípcia está diretamente ligada às formas culturais da África Preta, um especialista teria grande dificuldade em demonstrar qualquer identidade cultural do Egito com a Europa ou com a Ásia Semita ou Chinêsa.

Por todas estas razões, os Pretos Africanos podem e devem reivindicar exclusivamente o patrimônio cultural da antiga civilização Egípcia. Eles são os únicos hoje cuja sensibilidade é capaz de combinar facilmente com a essência e o espírito dessa civilização que os Egiptólogos Ocidentais acham tão difícil de entender. As disposições intelectuais e afetivas dos Pretos de hoje são as mesmas que as das pessoas que editaram os textos hieroglíficos das pirâmides e outros monumentos e esculpiram os baixos-relevos dos templos. Partindo da África Preta, de sua concepção do universo, de suas formas culturais, suas realidades linguísticas, e suas formas de organização político-social, podemos gradualmente trazer de volta à vida todas aquelas formas da civilização Egípcia que hoje estão mortas para a consciência Européia.

A repetida contenção de Mauny à que o papel do Negro na civilização Egípcia seja já reconhecido, poderia aplicar-se apenas ao tempo decorrido desde que exumamos determinados documentos em Nations nègres et culture [Nações negras e cultura]. Todo o esforço da ciência moderna, até os últimos anos, consistiu em negar, apesar dos fatos, este papel do Negro na aquisição de civilização. O método era simplesmente silenciar os fatos como Breasted e tantos outros fizeram. A segunda atitude, mais cuidadosa e mais perspicaz, consistiu em citar alguns fatos, de modo a não ser apanhado em falta, e em seguida, demonstrar a sua menor importância, insignificante importância. Os Africanos, especialmente aqueles da minha geração que tem sido as maiores vítimas desta alienação cultural, estão em uma boa posição para saber se a contribuição do Negro para a civilização foi reconhecida e integrada nos programas de ensino, ou se alguma tentativa desta natureza era mesmo concebível antes da publicação de Nations nègres et culture [Nações negras e cultura].

A unidade cultural do Egito e África Preta, um fato essencial para a história da humanidade e dos povos da África Preta, hoje, acabou de ser oficialmente reconhecida pela Egiptologia. Também deve ser admitido que, como dissemos anteriormente, esta era a única maneira para a Egiptologia curar a sua esclerose, para escapar do impasse e prosseguir em direção a uma perspectiva frutífera.

‘Quanto ao resto da África Preta, a colheita da arqueologia é reconhecidamente escassa no presente. Como pode C. A. Diop explicar que os Egípcios a quem ele afirma como Negros e Núbios, filhos espirituais do Egito, foram os únicos a ser civilizados antes do primeiro milênio a.C., os primeiros a ser civilizados em toda a África? Nós não podemos ver por que os habitantes do vale do Nilo poderiam ter estado na vanguarda da humanidade enquanto os Negros permaneceram em um estado “primitivo”, tal como os seus contemporâneos Europeus. E se os Pretos do Oeste Africano são descendentes dos Egípcios, por que é que eles se tornaram “descivilizados” entre 500 a.C., quando Diop diz que eles deixaram o Egito, e 900 d.C., após o que temos textos descrevendo-os como sendo mesmo “retardados”? Para onde eles foram? Como é que nenhum autor antigo falou desta migração, ocorrida, de acordo com o autor, durante a época histórica? E como é que eles não deixaram nenhum vestígio da sua passagem?’

Estou pasmo que Mauny faça essas três perguntas. Uma vez que estas questões e suas respostas foram discutidas em meu texto, eu sou tentado a supor que talvez Mauny não tenha lido todo o livro que ele está criticando.

Por que os Núbios e Egípcios já eram civilizados enquanto o resto do mundo, especialmente toda a Europa, estavam mergulhados na barbárie? Isso é um fato que tem sido observado, e não o fruto da imaginação. E nem é um fato inexplicável, miraculoso. Assim, o historiador não precisa ficar atordoado por ele; seu papel deve ser o de buscar e apresentar explicações plausíveis para tais fenômenos.

A mesma pergunta poderia ser feita sobre os Gregos, em comparação com o resto da Europa. Após o seu contato inicial com o mundo ao sul e os intercâmbios culturais com o Egito e Creta, eles escaparam da barbárie no século XII [a.C.], e tornaram-se civilizados entre os séculos XII e V a.C. Com os Etruscos, eles permaneceram as únicas pessoas civilizadas em toda a Europa. Os outros povos Europeus, mais distantes dos centros culturais do sul, permaneceram mergulhados na barbárie até a Idade Média, com exceção dos Latinos, que também se tornaram civilizados pelo contato com os Etruscos e Gregos.

Obviamente, em vez de considerar a civilização Grega como um fenômeno mais ou menos milagroso, podemos facilmente explicá-lo, colocando-o no contexto histórico e geográfico. Uma explicação semelhante também pode ser dada para a civilização Egipto-Núbia.

Na conclusão da primeira parte de Nations nègres et culture [Nações negras e cultura], eu enfatizei que a civilização Egípcia não indicara qualquer superioridade racial, mas foi quase o resultado de um acidente geográfico. Foi o caráter especial do Vale do Nilo que condicionou a evolução político-social dos povos que migraram para lá. A amplitude das inundações do Nilo forçava a todos os habitantes do vale a enfrentar o evento anual coletivamente, a regular toda a sua vida nos mínimos detalhes a partir da inundação. Para sobreviver, cada clã tinha que livrar-se depressa de seu egoísmo. Quando a inundação começava, nenhum clã era capaz de enfrentar a situação sozinho; cada um precisava da assistência do outro, da solidariedade de todos os clãs para a sobrevivência da comunidade. Estas foram as condições de trabalho que logo levaram os clãs a se unir e favoreceu o surgimento de uma autoridade central para coordenar toda a atividade social, política e nacional. Até quando da invenção da geometria, nenhuma das atividades materiais e intelectuais dos Egípcios foi feita para seu próprio prazer. Em seu início, a geometria foi uma invenção que lhes permitia localizar cientificamente os limites exatos da propriedade de cada habitante após as inundações. Em nenhum outro lugar a dependência da localização geográfica e do modo de vida foi tão próxima. Esta necessidade imperiosa parece explicar, pelo menos no essencial, a anterioridade dos Egípcios e Núbios no caminho para a civilização.

Todos os outros povos, Negros ou Brancos, que foram submetidos a condições de vida menos rigorosas que exigiam uma ação coletiva menos formal, atingiram a civilização mais tarde do que os Egípcios. Assim, por que deveria ser surpreendente que alguns Pretos e alguns Brancos tornaram-se civilizados enquanto outros estavam na barbárie? Povos localizados em condições mais favoráveis são civilizados mais cedo do que outros, independentemente da sua cor, independentemente de sua identidade étnica, e isso é tudo.

Nós nunca invocamos qualquer gênio peculiar ou aptidões especiais da raça Preta para explicar por que ela foi a primeira a atingir civilização. Essa concepção errônea das causas da evolução do homem levou especialistas Europeus à teoria do milagre Grego. Não obtante errônea, está no entanto tão profundamente enraizada nas mentes de seus partidários que, ainda hoje, eles consideram qualquer alegação de que os Africanos podem legitimamente ser intitulados com a vantagem moral da civilização Egípcia como uma pretensão de superioridade racial, quer se admita ou não. Mas tal não é o caso; aqueles que pensam assim estão interpretando-o através de suas próprias inclinações intelectuais e morais.

Por que os Africanos foram “descivilizados” en route? pergunta Mauny. Regressão é também um fenômeno histórico-sociológico que os especialistas tem o dever de explicar, sempre que for objetivamente detectado. Este é de fato pertinente aqui. Permaneçamos no vale do Nilo, onde o fenômeno é ainda mais evidente. As populações atuais deste vale são justamente consideradas os descendentes autênticos dos antigos Egípcios. No entanto, essas populações, que nunca deixaram a sua terra natal, têm sido “descivilizadas” em seu próprio solo, perdendo toda a antiga sabedoria Egípcia e já não sendo capazes de ler os hieróglifos, uma invenção de seus ancestrais. Por que, então, é surpreendente que uma população de emigrantes esteja em uma situação semelhante?

Quantas vezes já ouvimos dizer: “Se os Pretos são descendentes dos Egípcios, por que eles não preservaram a escrita?” Referindo-se a minhas obras Nations nègres et culture [Nações negras e cultura] e L’Afrique Noire précoloniale [África Preta pré-colonial], pode-se ver que o uso da escrita nunca desapareceu da África Preta.

Qual leigo ou Marciano descendo sobre a Terra poderia ter suposto que a Grécia é a mãe distante da moderna técnica Americana e civilização Ocidental em seus aspectos mais refinados e profundos? A Europa Ocidental experimentou a mesma regressão. Durante a Idade Média, todo o conhecimento da Antiguidade refugiou-se em alguns mosteiros onde vegetou até a Renascença Carolíngia com Alcuin (735–804). Técnicas foram perdidas, a habilidade [know-how] arquitetônica em particular. Não só eles tinham esquecido tudo sobre ciência antiga; eles não podiam sequer erguer o edifício menos complicado. Podemos ter uma idéia desta regressão, comparando o mapa de Ptolomeu mostrando o conhecimento geográfico da Antiguidade com aquele [mapa] da Idade Média para a mesma área do Mediterrâneo.

De acordo com o poeta Latino satírico, Juvenal, que escreveu durante o segundo século d.C., os próprios Egípcios havia regredido incomensuravemente. Mesmo se levarmos em conta o fato de que em sua revisão de eventos que datam de cerca de 127 d.C., a sociedade Egípcia já estava se curvando sob o peso de divindades totêmicas e retribalização. Como consequência da colonização ininterrupta por Persas, Gregos e Romanos, o país que havia civilizado o mundo estava revertendo para a “barbárie”, se acreditarmos Juvenal. O Egito, que sob a rainha Hatshepsut (Décima-Oitava Dinastia) havia singrado os mares em navios altamente-decorados [high-decked ships], “não sabia mais como navegar nada além de barcos de argila com pequenas velas e se agachar sobre remos curtos. . .” (Sátira XV). Juvenal descreve os sangrentos conflitos fratricidas entre dois clãs ou tribos (as cidades de Denderah e Hombos) com totens contrários; esses conflitos supostamente terminaram em uma cena canibal que só poderia ser descrita como uma orgia ritual.

Para onde é que as populações Pretas foram? Quando apresentamos, em Nations nègres et culture [Nações negras e cultura], a tese de um Saara Negro, encontramos considerável hostilidade da parte daqueles que se consideravam especialistas sobre o assunto. Hoje, com as recentes descobertas de Henri Lhote, a refutação não é mais possível. Na seção em Nations nègres et culture [Nações negras e cultura] sobre o povoamento da África a partir do Vale do Nilo, a rota do Egito para o sudoeste agora assumiu um significado especial. De fato, ela passou justamente ao sul de Tassili N’Ajjer, onde Lhote fez a descoberta mais importante de pinturas de caverna do século, depois daquela da caverna de Lascaux. Esta descoberta permite-nos afirmar que, contrariamente às ideias impostas ao mundo por estudiosos por 150 anos, as influências culturais Egípcias espalharam-se por milhares de quilômetros na direção da África Preta. Tassili N’Ajjer foi provavelmente apenas uma parada, localizada a 3.000 quilômetros (cerca de 1.875 milhas) do Vale do Nilo. Essas pinturas estabelecem uma relação evidente entre o Egito, o Saara, e o resto da África Preta. É certo que a Núbia foi também um grande centro de difusão da influência cultural do Vale do Nilo, uma espécie de articulação [hinge] entre o Egito e outras partes da África Preta. . . .
[Mauny Prossegue:]
Vamos salientar que existem montes artificiais na região do Delta do Níger, não pirâmides, como o autor pensa. [Relatamos isso] não por causa de qualquer desejo de “menosprezar valores Africanos,” mas porque uma pirâmide é uma massa de forma bem definida, enquanto que os montes são de uma base redonda ou oval e de uma forma aproximadamente hemisférica. As primeiras são encontradas especialmente no Egito, Núbia e na América Central; os últimos, na África Preta e na Europa.

Sei, por experiência própria, que as tumbas Serer, chamadas m’banâr, eram originalmente cones perfeitos; Com o tempo os materiais de construção assentam e o túmulo toma a forma de um monte. . . . Os túmulos dos antigos imperadores de Gana, como descrito por autores Árabes, tornaram-se montes. Ninguém contesta isso. Os túmulos dos Askias são verdadeiras pirâmides. Mas esta questão é realmente de importância secundária pois não se pode ver como a essência de uma pirâmide, falando no sentido Platônico, poderia ser mais nobre do que a essência de um cone.

[Mauny continua:]
Quanto a chamar os sinais gravados sobre os baobás em Diourbel de hieróglifos, o autor agora está de volta para casa e está bastante familiarizado com a questão, suponho, para julgar por si mesmo se a escrita [writing] está realmente envolvida (e os habitantes mais antigos podem informá-lo) ou se, como parece provável, estes são simplesmente grafites gravados na casca macia.

Eu retornei ao pé do baobá no ano passado. Fiquei bastante desapontado porque eu quase não reconheci os sinais que eu facilmente identifiquei durante a minha infância; a casca do baobá tinha se desenvolvido desde então. Um menino e uma menina passaram e me iluminaram. Eles ajudaram a localizar os sinais que, por uma questão de fato, são enigmas, ideogramas: uma chaleira, uma espada, uma pele de cabra, uma pata de camelo, um colar de contas de oração, e assim por diante, memorando a visita de um grande líder religioso dos anos passados, presumivelmente, o Profeta. Se Mauny retornar ao local um dia, ele não vai encontrar nenhum problema em ser informado, assim como eu fui, sobre esses sinais, o seu significado ainda não está perdido.

Não é escrita [writing] no sentido fonético da palavra, mas uma série de desenhos. O fato de que esta prática date da da época pós-Islâmica tende a sugerir que esta reflita hábitos antigos prestes a desaparecer. No baobá, juntamente com [os desenhos das] as contas de oração, espada, e pata de camelo, havia um tinteiro e até mesmo uma caneta [pen]; assim a escrita Árabe era conhecida, mas está ausente na casca da árvore baobá. Isto é semelhante à atitude de Njoya, o sultão do Camarões que, embora um Muçulmano, utilizava a escrita hieroglífica, talvez por causa de tradição ancestral, excluindo os caracteres Árabes, para fazer um censo da população do seu reino, para transcrever toda a literatura, a tradição oral e a história do seu país.

O que é bastante notável é que Mauny também visitou a mesma área em Diourbel, após a publicação das Nations nègres et culture [Nações negras e cultura], e encontrou lá ambas as colinas e a mesma árvore baobá com seus “sinais misteriosos.” Mas ele não conseguiu lembrar ao leitor que o baobá de seu artigo é o mesmo indicado em Nations nègres et culture [Nações negras e cultura]; ele não poderia ter suspeitado de sua existência a não ser pelos dados fornecidos naquele volume. Estranhamente, Mauny foi capaz de criticar esta passagem do nosso livro sem mencionar a assistência que ele obteve a partir dele para sua pesquisa pessoal. Assim, o leitor desinformado, pegando os dois textos separadamente, seria obrigado a pensar que dois baobás absolutamente distintos estavam envolvidos. Além disso, Mauny intitulou seu artigo: “Descoberta de . . .” Que estranho método “científico” para se trabalhar e elaborar documentos destinados a educar a posteridade! O leigo deve certamente ser levado por ele. *

[ * – Cf. Notes africaines, no. 89, January 1961, p. 10: Raymond Mauny. “Découverte de tumulus dans la région de Diourbel.”]

[Mauny:]
Outro problema compreensivelmente preocupa o Sr. Diop: a cor da pele dos Egípcios, como representada nas pinturas de túmulos e outros documentos. Em sua opinião, “a então-chamada cor vermelho-escuro dos Egípcios não é outra senão a cor do Negro.” Para apoiar isso, ele cita Champollion o Jovem. Mas Champollion distingue claramente entre Egípcios (vermelho-escuro), Negros (Nahasi), Semitas (Namou) que são cor de carne beirando o amarelo, Medos e Assírios com pele bronzeada, e Indo-Europeus (Tamhou) com pele branca.
Diante de mim estão dois volumes com numerosas ilustrações: Les Chefs-d’oeuvre de la peinture égyptienne [Obras Primas da Pintura Egípcia] (Paris: Hachette, 1954) de A. Lhote, e La Peinture égyptienne [A Pintura Egípcia] (Genebra: Skira, 1954) de Arpag Mekhitarian. Em minha opinião eles suportam as declarações de Champollion o Jovem e de muitos outros no que diz respeito à extrema variedade de raças representadas. Eu devo observar apenas uma coisa: quando o artista desejava pintar [retratar] os Negros, ele simplesmente dava-lhes uma cor preta ou cinza. E os personagens vermelho-escuros, para mencionar eles apenas, são, com algumas exceções, não Negros, mas bronzeados, marroms, como é facilmente detectado pelo simples fato de que a cor preta é encontrada em todos os lugares nas pinturas para representar o cabelo, não a pele. Os Egípcios eram absolutamente conscientes da diferença na cor da pele entre eles próprios, os Pretos e os Asiáticos.
Vimos anteriormente que um antropólogo, C. S. Coon (1939, p. 98), Descreveu a cor habitual dos Egípcios Faraônicos como “branco moreno” [“brunet white”]. Isto também é verdade para a habitual Egípcio moderno do Delta; o Sulista é mais escuro (marrom-avermelhado à marrom médio).

Nahasi, Namou e Tamhou não são termos que designam cor na língua Egípcia, como a exposição [exposé] de Mauny nos leva a crer. Os Egípcios nunca distinguiram a si mesmos de outros Negros Africanos por termos como branco, preto, moreno, etc., uma vez que todos eles pertenciam à mesma raça. Não há necessidade [nem] de abrir o volume de Lhote para o qual Mauny estava olhando. A ilustração da capa, representando Osiris, deus e ancestral do povo Egípcio (como Orfeu foi para os Gregos) e pintado de preto carvão [coal black], poderia ser um excelente tema para o crítico pensar sobre.

Será necessário lembrar a Mauny da conclusão a que chegou Champollion sobre as origens modestas de raça branca: “. . .um verdadeiro selvagem tatuado em várias partes do seu corpo“?

Finalmente, qual é o valor de todas estas suposições sobre a então-chamada cor convencional dos Egípcios, em comparação com o exame clínico de amostras colhidas a partir da epiderme de múmias? Este exame nos permite classificá-los, sem dúvida, entre os mais autênticos Pretos. Atualmente Mauny está vivendo no Senegal. Deixe-o olhar ao redor; se alguém pintasse todos os tons observáveis em diferentes indivíduos Senegaleses, também seria possível distinguir da mesma forma um tipo Senegalês preto, um tipo Senegalês moreno escuro, etc. Nós podemos detectar a natureza artificial de tal abordagem porque estamos vivendo no meio das pessoas envolvidas e a realidade impõe limitações sobre o excesso de nossa liberdade intelectual. Isso não é o mesmo quando estamos a lidar com os Egípcios mortos.

[Mauny:]
Apesar destas arriscadas hipóteses apresentadas como provas irrefutáveis aceitas, e sua falta de informação sobre estudos recentes sobre a África Ocidental, o trabalho do Sr. Diop marca uma data importante. Este é o primeiro trabalho geral sobre a história Africana feito por um Preto de língua Francesa e, além de uma documentação impressionante, inclui algumas excelentes páginas. Ele tem o grande mérito de não seguir caminhos batidos e de convencer os Egiptólogos e outros a tomar uma posição e a serem mais precisos sobre algumas das suas opiniões. Mas, escrito em Paris antes de 1955, este é necessariamente um livro militante, impregnado com o espírito desses anos de luta, durante os quais os Africanos, especialmente estudantes exilados em Paris, no meio do povo colonizador, estavam frustrados sobre a sua história nacional, e estavam preparando os caminhos para a independência exaltando a Negritude; * às vezes – e isso é normal – ao preço de imparcialidade torcedora [twisting impartiality] talvez inconsciente, e verdade científica. Eles reconheciam somente aquilo que fornecia argumentos para a sua tese, a sua causa. Tudo isso foi considerado “cricket” [“sem valor”] e, de fato, os resultados dessa luta geral dos vários estratos desses povos Africanos podem falar por si.
Hoje, em 1960, a situação é diferente. Este é o ano da Independência para numerosos países da África Preta, Mali † entre outros. O historiador Africano, sem rejeitar o mínimo de suas opiniões políticas durante os anos de oposição ao colonialismo, deve à si mesmo, à ciência, e ao seu país, colocar a si mesmo, se já não estiver lá, em um plano de rigorosa objetividade, que não exclui nem o compromisso político nem a utilização de hipóteses a serem verificadas. Sem esta objetividade, não se pode falar de história, pesquisa ou conhecimento científico da história. Caso contrário, corre-se o risco de trazer descrédito sobre a inteira nova escola de história Africana e divulgar um conjunto de erros, exageros que fazem mal aos próprios Africanos. Por agora, com razão, o currículo de história Africana vai ser revisado, de modo que os jovens Pretos possam aprender a sua própria história em vez daquela do colonizador. Não é mais uma questão de convencer audiências de estudantes Parisienses ou Africanos em Paris – os primeiros, quase totalmente incompetentes sobre o assunto, e estes últimos, obviamente, predispostos pela reação anti-colonialista anterior à rápida aquisição de independência, a aplaudir este verdadeiro Gobinismo Negro. Agora é uma questão de o autor submeter as suas idéias à uma análise por estudiosos que por si só são qualificados para dizer o que deve ser mantido. Ou então deixá-lo voltar para a árdua tarefa da pesquisa histórica para verificar muitas de suas próprias hipóteses.
Quando lermos sob a assinatura de Egiptólogos modernos que C. A. Diop está certo e que o antigo Egito era “Negro”, somente então os livros devem ser revistos nesse sentido. A unidade cultural da África, do Egípcio para o Bosquímano, Wolof, Marroquino, Tuaregue, Teda, Pigmeu, Zulu, Somali e Abissinianio? Por que não? Em condição que etnólogos, sociólogos e outros afirmem isso.  Conexões linguísticas entre Egípcio antigo e Wolof? Especialistas em línguas Africanas serão capazes de nos dizer um dia se esta hipótese é válida. No entanto, somente com a condição de que eles se especializem nestas e sejam assim certificados.

[* – Negritude foi definida por seu teórico, Léopold Sédar Senghor, como “a soma total dos valores do mundo Negro-Africano.” A palavra foi usada pela primeira vez por Aimé Césaire, poeta, ensaísta e dramaturgo. Como um movimento literário e cultural, ele é talvez melhor ilustrado pelos trabalhos de seus três fundadores: Senghor do Senegal, Césaire da Martinica, e Damas da Guiana. Essencialmente, salienta a potencial contribuição passada, presente, e futura do homem Preto para o mundo.]

[† – Uma referência à Federação de curta duração do Mali (1959-1960), que incluiu o Senegal e o Sudão “Francês.]

O leitor que nos acompanhou até aqui será capaz de verificar se as condições especiais em que trabalhávamos em Paris ou as exigências da luta política e social nos obrigaram em qualquer momento a torcer a verdade científica ou nos impediram de mantermo-nos em um curso de estrita objetividade. Também será para o leitor decidir se a nossa atitude e seus resultados lançaram descrédito ou honra sobre a “nova escola de história Africana”; se [nossa obra] “divulga um conjunto de erros”, ou se destrói de uma vez por todas um corpo de mitos que os estudiosos haviam imposto sobre o mundo ao longo de 150 anos de erudição; se [nossa obra] é um caso de “Gobinismo Preto” [“Black Gobinism”] ou [se é] uma retificação da história humana.

Se tivéssemos de esperar por “especialistas” para fazer todas as retificações contidas em Nation nègres et culture [Nações negras e cultura], haveria talvez tempo suficiente para ver nações inteiras desaparecer sob o peso de alienação. O procedimento inverso é a verdadeira solução; a cada dia esses possuidores do conhecimento, apoiando as novas ideias, tornam-se mais numerosos. Por acaso a Egiptologia não acabou de reconhecer a unidade cultural da África Preta e Egito antigo? Este não era o caso há seis anos atrás. Como observou o próprio professor Jean Leclant [um notável Egiptólogo Francês], este fato é talvez mais importante do que relacionamento somático. Por conseguinte, se havia disputa nisso, ela foi vencida, a causa foi ouvida. Alguém pode julgar os fatos como desagradáveis, mas nenhum especialista vai agora arriscar uma refutação da relação cultural e linguística entre o antigo Egito e África Preta. Da mesma forma, a afirmação de que os antigos habitantes do Saara eram Negros e que eles desempenharam um papel preponderante no povoamento da Preto África e Egito não mais desperta um  caloroso protesto, pois os fatos estão aí.

Mas todas essas verdades tiveram de ser afirmadas antes que aqueles que se chamam de especialistas pudessem sequer considerá-las. A história destes últimos anos demonstra claramente isso. Nós nunca falamos de qualquer unidade cultural que não fosse a do Egito e África Preta; consequentemente, a lista de povos díspares feita pelo Sr. Mauny reflete descontentamento com os fatos, um sentimento de resignação na presença do que se é incapaz de destruir, mais do que [reflete] os argumentos convincentes, serenos, que teríamos esperado. Doravante, os livros podem ser revisados de acordo com os critérios de Mauny, pelo menos, no sentido da unidade cultural Egipto-Africana. A condição foi cumprida. Será que este vai ser simplesmente ignorado?

Para criticar Nations nègres et culture [Nações negras e cultura], uma obra muito imperfeita, não se deve atacar sua estrutura, pois esta abordagem será improdutiva. A sua estrutura é sólida, suas perspectivas válidas. Em vez disso, o alvo deve ser os pequenos detalhes, pois eles, possivelmente, podem detectar várias falhas. . . .

 

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Pg. 260

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                         CAPÍTULO XIII

 

Início da História da Humanidade:
Evolução do Mundo Preto

Na medida em que os fatos conhecidos permitem, vamos tentar neste capítulo remontar às principais etapas na evolução do mundo Preto desde que o Homo Sapiens apareceu em cena. Além de fornecer um sistema de referência para o jovem investigador Africano, o quadro assim apresentado, com as suas lacunas inevitáveis, suas incertezas, mas também suas áreas de clareza, lhe dará uma idéia da seriedade e magnitude de sua tarefa. Eu dirigi meus esforços para o período do passado Africano que vai desde a pré-história até o aparecimento dos Estados modernos, no final da Idade Média, pois este é o período que apresenta o maior número de problemas para a compreensão da história da humanidade.

A Prioridade do Fator Negro na História da Humanidade

Os resultados de achados arqueológicos, * especialmente os do Dr. Louis Leakey na África Oriental, permitem-nos, a cada seis meses ou mais, penetrar mais profundamente na obscuridade das primeiros esboços gerais da humanidade. Graças a métodos de datação baseados na dosagem de potássio 40/Argon, podemos remontar a 1.700.000 anos. No entanto, há  contínuo acordo que o Homo sapiens, o homem moderno, apareceu a cerca de 40.000 anos atrás, durante o Paleolítico Superior. Esta primeira humanidade, pertencentes aos estratos inferiores do Aurignaciano, era provavelmente relacionada morfologicamente com o atual tipo Preto da humanidade.

[* – Zinjanthropus e Homo habilis são as mais recentes descobertas. Pouco se sabe sobre os hominídeos recentemente descobertos na Palestina e sobre o homo faber supostamente encontrado na América do Sul. Estes achados têm ainda de ser confirmados.]

As características daquela raça Grimaldi foram resumidas como segue por Marcellin Boule e Henri Vallois em Fossil Men [Homens Fósseis], traduzido para o Inglês por Michael Bullock:

Quando comparamos as dimensões dos ossos dos seus membros, vemos que a perna era muito longa em proporção com a coxa, o antebraço muito longo em proporção com o braço inteiro; e que os membros inferiores eram excessivamente longos em relação aos membros superiores. Ora, essas proporções reproduzem, mas em grau muito exagerado, as características apresentadas pelo Negro moderno.
Aqui temos uma das principais razões para considerar esses fósseis como Negróides, se não realmente Negros.
As afinidades Negróides são igualmente indicadas pelas características do crânio. Estes são grandes; os crânios são bastante alongados, hiper-dolicocéfalos (índices 68 e 69) e, vistos de cima, eles apresentam um contorno de forma elíptica regular, com saliências parietais achatadas. Os crânios também são muito elevados, de modo que a sua capacidade é pelo menos igual ao da média Parisiense de nossos dias: 1.580 centímetros cúbicos no caso do homem jovem, 1.375 centímetros cúbicos no caso da mulher idosa. As apófises mastóides são pequenas.
O rosto é amplo, mas não é alto, enquanto que o crânio é excessivamente alongado da frente para trás; de modo que a cabeça pode ser chamada desequilibrada ou desarmônica.
A testa é bem desenvolvida e em linha reta; os sulcos orbitais projetam-se apenas ligeiramente. As órbitas são grandes, profundas e sub-rectangulares; sua borda inferior é evertida para a frente.
O nariz, deprimido na raíz, é muito amplo (platirrhinio). O chão das fossas nasais é unido à superfície anterior do maxilar por uma ranhura de cada lado da espinha nasal, como em Negros, em vez de ser limitada por uma aresta aguda, como nas raças brancas. As fossas caninas são profundas.
Os maxilares superiores projetam-se para a frente de modo marcante. Este prognatismo afeta especialmente a região subnasal ou alveolar. O arco palatal, embora apenas ligeiramente desenvolvido em largura, é muito profundo.
A mandíbula é forte, o seu corpo muito espesso; os ramos ascendentes são largos e baixos. O queixo não é muito desenvolvido; um prognatismo alveolar fortemente marcado, correlacionado com o prognatismo superior, dá-lhe uma aparência pronunciadamente retrocedida [receding].
A maioria desses caracteres do crânio e da face são, se não Negriticos, pelo menos Negróides. *

[* – Marcellin Boule & Henri Vallois, Les Hommes fossiles. Paris: Masson, 1952, 4ª ed, pp 299-301]

. . . Os outros tipos encontrados na Europa, provavelmente pertenciam à raça Cro-Magnon: o homem de Predmost (na Moravia) e o homem de Brunn (perto de Viena) eram talvez Cro-Magnóides com características “Eíopes”. . . .

Tais são os fatos revelads pela arqueologia. Com a força desta evidência, devemos reconhecer com toda a objetividade que o primeiro Homo sapiens era um “Negróide” e que as outras raças, branca e amarela, apareceram mais tarde, seguindo diferenciações cujas causas físicas ainda escapam à ciência. Recusando-se a aceitar esses fatos, estudiosos substituem hipóteses para eles. Aqui está uma que eu ouvi expressa por um grande cientista moderno durante o verão de 1963 em Paris:

As diferenças morfológicas entre Pretos, Brancos e Amarelos são tão profundas que seria absurdo fazê-las datar de menos de 40.000 anos, supondo as duas últimas-nomeadas raças como sendo o produto de uma diferenciação em um substrato Negro primitivo. Naquele período as três raças já deviam necessariamente ter existido na terra com suas próprias características bem definidas; a arqueologia um dia vai encontrar espécimes de homens brancos tão antigos quanto o primeiro Negro do período Aurignaciano. Quando este último vivia na Europa, a raça branca deve ter estado em outro lugar, em algum local ainda não escavado. Mas sua existência naquele período não pode ser posta em dúvida.

Embora as hipóteses de estudiosos muitas vezes revelem verdadeiras, a verdade é que, no momento presente, enquanto aguardando novas descobertas para provar o contrário, a única conclusão científica em conformidade com a evidência é que os primeiros seres humanos, os primeiros Homo sapiens, eram “Negróides .” Obviamente, o termo “Negróide” é ilusório; * Em escrita científica, ele pertence ao grupo de palavras usadas para encobrir os fatos. Qualquer tipo Negro que desponta, inquestionavelmente, na origem de uma civilização é, por isso mesmo, descrito pelos estudiosos mais ilustres como um Negróide ou Camita [Hamite], como já vimos. Assim, os primeiros seres humanos eram provavelmente pura e  simplesmente Negríticos [Negritic].

[ * – Seu oposto, “brancóide” [“blancoid”] ou “leucodermóide,” [“leucodermoid”] não foi inventado. Assim, detecta-se a inconsciente base sentimental de “hipóteses científicas.”]

A existência de um Homo sapiens arcaico (homem de Swanscombe e homem de Fontéchevade *), já no Paleolítico Inferior, não mudaria esses fatos nem um pouco. No Paleolítico Superior, o Homo sapiens arcaico ou desapareceu ou então evoluiu para o homem Grimaldi, pois só este último foi encontrado, sem qualquer ramo paralelo de Homo sapiens até o aparecimento tardio das raças Cro-Magnon e Chancelade. *2

[* – O crânio Swanscombe foi descoberto no vale de Tamisa em 1935. Os fragmentos do crânio de Fontéchevade foram encontrados perto de Angoulême, França, em 1947.]

[*2– Em todo o caso, a existência hipotética de um Homo sapiens arcaico perdeu muito apoio desde a descoberta de que aquele homem de Piltdown, uma das pedras angulares da estrutura, era uma fraude.]

A nota de Pierre Lagoux nos procedimentos da Academia Francesa de Ciências para outubro de 1962 (pp. 2276–2277) não enfraquece essas conclusões. Em um esforço para demonstrar que a raça Grimaldi não existia, ele tentou continuar o estudo de Verneau em Les Grottes de Grimaldi que Boule e Vallois tinham utilizado. Infelizmente, ele foi evasivo em sua tentativa de refutar os principais pontos do longo texto citado anteriormente. Sem negar a existência do prognatismo, ele tentou justificá-lo. Na mulher adulta, “trata-se de uma perda bilateral dos molares mandibulares com a idade. Essa perda geralmente provoca prognatismo funcional.” Em seguida, ele discute o arranjo dos dentes da adolescente, alegando que estes haviam sido deslocados com o tempo e que o crânio está necessariamente danificado, a fim de dizer que este era, provavelmente, prognato de um lado e ortógnato do outro [lado]. Isso é falso, quando se é uma questão de prognatismo facial, dos maxilares, o que é, inquestionavelmente, o caso na adolescente assim como na idosa. O autor não ajuda o seu leitor a evitar esta confusão. Em vez disso, ele nos leva a pensar que ele está discutindo prognatismo facial quando ele está meramente discutindo prognatismo alveolar dos dentes da adolescente. Ele não é menos vago sobre outra característica: “as proporções dos membros”; “características 1-3 dizem respeito ao tamanho dos indivíduos e às proporções de seus ossos longos. Estes não são apresentados em seu estado real nas lâminas [plates]. Suas respectivas proporções, por conseguinte, se apoiam em opiniões perigosas”.

O autor, que teve acesso aos fragmentos originais no Museu de Monaco, certamente deveria ter fornecido as medições numéricas dos ossos longos dos membros superiores e inferiores e deveria ter demonstrado que eles não eram Negríticos. Nada poderia ter sido mais fácil para ele, mas ele não consegue fazê-lo. Ele está contente com as observações vagas, inutilizáveis, citadas acima. Sempre cria-se um mal-estar omitindo-se detalhes precisos quando estes estão disponíveis. Nós gostaríamos que ele apresentasse as reproduções fotográficas não só de um “fragmento do aparato dental” de um crânio, mas de ambos os crânios inteiros, de perfil, para comprovar a ausência de prognatismo nos originais. E gostaríamos que ele justapusesse estas reproduções com aquelas publicadas pelo Professor Vallois para mostrar como elas diferem dos originais. Ele não comenta sobre a importante observação de Vallois a respeito do “chão da fossa nasal” [“the floor of the nasal fossae”] – uma observação que é suficiente para arruinar toda a sua teoria. Se o Sr. Legoux quer nos convencer, ele deve produzir essas provas (incluindo as medições numéricas das proporções dos membros) que estão disponíveis para ele. Podemos esperar em breve ter a oportunidade de examinar estes documentos preciosos.

 

Extensão do Substrato Negro da Humanidade

O substrato Negróide humano é tão extenso quanto durável. Haddon mostra como Elliot Smith e Sergi identificam esse substrato. No que diz respeito à raça Eurafricana de Sergi, ele escreve:

Duas variantes podem ser observadas: (1) com o cabelo ondulado, medições grandes, e físico forte; (2) com cabelo encaracolado, prognatismo, e as medidas de menor dimensão; este tipo com características quase Negras pode ser conectado com o tipo Grimaldi.
Este tipo foi descrito por Sergi, Giuffrida-Ruggeri e por Fleure, que o encontraram em Plynlimmon e outros distritos do sul do País de Gales. Ele foi observado entre os vivos na Argélia, Somalilândia, norte da Abissínia, Egito, norte da Itália, Sardenha, norte de Portugal, Traz os Montes, e Espanha (oeste dos Pirineus) e outros locais dispersos na Europa. Este é, evidentemente, um tipo muito antigo que tem persistido em pontos isolados. *

[ * – Alfred C. Haddon, The Races of Man and their Distribution. New York: Macmillan, 1925, pp. 24-25.]

Da mesma forma, Elliot Smith encontra o tipo da sua raça “marrom” [“brown” race] entre os antigos habitantes neolíticos das Ilhas Britânicas, França, em ambas as margens do Mediterrâneo, os proto-Líbios, antigos e modernos Egípcios, Núbios, Beja, Danakil, Hadendoa, Abissínios, Galla, Somali, em toda a península Arábica, nas costas do Golfo Pérsico (Sul da Persia, a terra da Suméria?), Mesopotâmia, Síria, as regiões costeiras da Ásia Menor, Anau no Turquestão, e entre os primeiros Indonésios.”

Haddon escreve o seguinte sobre o Norte da África: “Tomando o Norte da África como um todo, parece haver pouca dúvida de que o substrato da população é aliado ao Camita [Hamite] ou Etíope, com pele escura, rosto fino, e cabelos macios [soft hair]. Este é sobreposto por um estrato de leucodermos Mediterrânicos.” Citando Balout e Vallois, Furon afirma que o Norte da África foi habitado por duas raças durante o Paleolítico superior, uma das quais, a Ibero-Maurusiana (homem de Mechta el-Arbi na Tunísia), apresentava afinidades com o homem de Cro-Magnon. Esta raça provavelmente ocupou apenas a costa e Tell sem penetrar no interior. Ela diminuiu gradualmente em número e parcialmente sobreviveu até o Neolítico. Os Guanches atuais nas Canárias podem ser seus últimos sobreviventes. A outra raça era “Negróide” e viveu no Capsiano: “Eles parecem ser protótipos dos Mediterrânicos, muitas vezes com características Negras” *

[ * – Furon, Manuel de préhistoire générale. Paris: Payot, 1958, p. 271. Ele cita L. Balout, Préhistoire de l’Afrique du Nord, 1955, pp. 430, 437.]

Durante o mesmo período Capsiano, outra raça Negróide, chamada de Natufiana [Natufian] por Miss Garrod, viveu na Palestina. Talvez os Natufianos foram os antepassados distantes dos Cananeus [Canaanite], mas a prudência nos obriga a não afirmar isso categoricamente. Os homens de cabeça arredondada nos desenhos rupestres da caverna do Saara, observados e descritos por Lhote, se assemelham ao homem de cabeça arredondada no famoso afresco sobre a rocha Cogul (Catalunha), da época Magdaleniana. O feiticeiro dançando na gruta dos três irmãos (sul da França) e aquele em Afvallingskop (Estado Livre de Orange, África do Sul) apresentam semelhanças curiosas que já foram observadas. Todos estes são indícios de que o substrato Negróide da humanidade é bastante extenso e durável. Em certas partes da Ásia ocidental – sul da Índia, sul da Pérsia e antigo Elam, sul da Arábia, Fenícia, terra de Canaã [Canaanland], etc. – ele durou até a época histórica.

Apesar desta abundância de fatos arqueológicos atestando autenticamente a anterioridade de “Negróides”, alguns cientistas e pesquisadores continuaram a colocar o problema de forma inesperada. A propósito do Mesolítico Palestino, Furon relata:

[As cavernas de Erq-el-Ahmar] . . . produziram 132 indivíduos para Miss Garrod. Todos estes Natufianos partilham o mesmo tipo físico, completamente diferente daquele dos Palestinos anteriores. Eles são baixos, cerca de 160 cm. * E dolicocéfalos. Eles eram provavelmente Cro-Magnóides Mediterrânicos, apresentando certas características Negróides atribuíveis à cruzamentos . . . Estas noções sobre cruzamentos são ainda mais interessantes porque se encontram Negróides na Europa Ocidental e na África, mas ainda assim nenhums verdadeiros Negros. *2

[* – Cerca de 5 pés 2 polegadas.]
[*2 – Furon, ibid., p. 274.]

O Natufianos abrangem o Mesolítico e Neolítico, sobre o sexto milênio.

Após Furon, Cornevin sustenta o mesmo ponto de vista sobre a gênese do mundo Negro: [O] “Homo sapiens não apareceu definitivamente até quando do Alto Gambliano; ele era do tipo Cro-Magnóide: o homem de Mechta, o homem do Quênia do Capsiano † Naquele momento, ele era apenas ligeiramente diferenciado e não apresentava características Negróides. Ele praticou as indústrias líticas do Magreb [África do Norte] e África Oriental: Capsiano do Maghred, Capsiano do Quênia” *2

[ * † – O Gambliano foi o segundo dos grandes períodos pluviais reconhecidos a partir da camada geológica do Quênia. Os Capsianos do Quênia viveram em cerca de 8000 a.C (Cf. Dictionary of Anthropology de Winick, e Concise Encyclopedia of Archeology de Cottrell.)]
[ *2 – Robert Cornevin, Histoire des peuples de l’Afrique. Paris: Berger-Levraut, 1960, p. 81.]

Estes dois autores e todos os que pertencem a sua escola, assim, gostariam de demonstrar, apesar dos fatos, que o Negro não apareceu na terra até por volta do sexto milênio. Consequentemente, a sua tese é suportada apenas por uma difícil, cansativa, argumentação não científica.

De acordo com a conclusão de Furon, o Natufiano, um cruzamento entre Brancos e Pretos, provavelmente antecedeu seu antepassado Negro, que ainda não teria nascido até o sexto milênio a.C.! E o autor considera essas “noções” interessantes! Por sua parte, Cornevin aparentemente se esquece de que os mais ilustres pré-historiadores e antropólogos hoje em dia – Abbé Breuil, Professor Arambourg, Dr. Leakey, etc. – consideram a África o berço da humanidade. A África conheceu o Paleolítico, que foi prolongado no Capsiano, correspondente ao Solutreano e ao Magdaleniano Europeu, em sucessão arqueológica. Certos autores supõe que, em geral, um intervalo de tempo deve decorrer entre os períodos arqueológicos Europeus e Africanos correspondentes. *

[ * – Indústrias Africanas são geralmente consideradas as mais recentes.]

É difícil conciliar isso com o fato quase certo de que os Aurignacianos vieram da África e eram “Negróides.” “A cultura Aurignaciana foi trazida para a Europa Ocidental a partir da África do Norte por novos tipos de homens, e estes e todas as raças posteriores e suas culturas têm sido denominados Neantrópicos: geralmente todas estas raças são agrupadas sob a designação Homo sapiens de Lineu. Sabemos que os Aurignacianos foram superiores em todos os aspectos ao velho grupo de homens Neandertais a quem eles conquistaram e provavelmente exterminaram” *

[ * – Haddon, ibid., P. 103.]

Cornevin parece ignorar a profundidade de diferenças morfológicas que existem entre o Preto e o Branco, quando ele data estas diferenças para uma antiguidade tão recente quanto o décimo primeiro milênio a.C. Ao fazê-lo, ele se opõe à única hipótese à disposição dos estudiosos para conferir aos Brancos uma antiguidade igual à dos Pretos. Ele erra mais lamentavelmente ao afirmar que o homem de Asselar * se parece mais com o Europeu Cro-Magnóide de Grimaldi e o Bosquímano do que com os Pretos modernos. Por definição, o Negróide Grimaldi não é Cro-Magnóide, e ele é o único a quem o homem de Asselar poderia assemelhar-se; ele não compartilha nenhuma característica com o então-chamado homem de Cro-Magnon, que viveu mais tarde na mesma caverna e é o protótipo da raça branca assim como o “Negróide” é o protótipo da raça Preta.

[* – Os restos mortais do homem de Asselar foram descobertos no Saara por Théodore Monod em 1927.]

Há também boas razões para assinalar que as semelhanças tão frequentemente citadas entre os Negróides Grimaldi e o Bosquímano são tendenciosas e partem mais de uma interpretação da arte Aurignaciana do que a partir de medições arqueológicos reais. Esta arte revela um tipo feminino esteatopígico. Esta característica morfológica tem sido transformada em um monopólio dos Bosquímanos e Hotentotes desde os estudos de Cuvier sobre a Vênus Hotentote no Museu do Homem [Musée de l’Homme], em Paris. *

[ * – Boule & Vallois, ibid., P. 333.]

A relação quase exclusiva entre estas raças e os “Negros” Grimaldi tem sido reivindicada. Mas as características morfológicas, esteatopigia incluída, que parecem comuns a Hotentotes e Bosquímanos, são encontradas como sendo geralmente verdadeiras para todos os Negros. Nós só temos de ler o seguinte texto:

Quanto a mim, tenho sido muito impressionado com a semelhança entre os Negróides Grimaldi e a população Bosquímana-Hotentote da África do Sul. As comparações que tenho sido capaz de fazer a partir dos elementos à minha disposição, especialmente a partir do esqueleto da Vênus Hotentote, levaram-me a observar, por exemplo, a mesma dolicocefalia, o mesmo prognatismo, a mesma platirrinia, o mesmo desenvolvimento facial amplo, a mesma forma da mandíbula, o mesmo macrodontismo; as únicas diferenças residem na estatura e, talvez, na altura do crânio. *

[ * – Ibid., p. 303.]

Nenhuma das características citadas nessa passagem distingue os Bosquímanos de outros Negros. A inclinação da pelve e esteatopigia, que parece ser o seu corolário, existem em quase todas as raças Pretas. Mas pode-se afirmar com segurança que esta característica morfológica deriva de uma deformação da coluna vertebral ao nível dos quadris [causada] por trasportar o bebê, pois a é muito antiga e remonta ao Paleolítico Superior. (Veja Fig. 48.)

Esteatopigia é muitas vezes latente durante a adolescência da garota e não se desenvolve sensivelmente até depois que seus primeiros filhos tenham nascido. Existem centenas, talvez milhares de meninas de todas as raças Pretas Africanas, que, uma vez finas como esqueletos, se tornam esteatopígicas à medida em que amadurecem após o casamento. Muitas vezes, esta característica nas raças Aurignacianas da Europa Ocidental até o Lago Baikal (União Soviética) tem sido contestada, a fim de evitar que se chegue à conclusão lógica que se seguiria: ou seja, a área sobre a qual os Negróides estavam espalhados na face do globo:

Uma vez que todas estas estatuetas parecem ter uma “semelhança de família”, é necessário aceitar a idéia de um culto da fertilidade, pois seria incrível que a França, a Itália, e a Sibéria pudessem ter sido habitadas por pessoas da mesma raça Negróide, cuja todas as mulheres eram esteatopígicas. . . . Havia ritos para obter a fertilidade dos rebanhos, necessária para a própria vida dessas tribos caçadoras. *

[ * – Furon, ibid, pp. 216, 214.]

Na realidade, ao raciocinar desta maneira, evitamos uma dificuldade apenas para cair em uma maior. O culto da fertilidade durante o período Aurignaciano não poderia concernir gado, uma vez que este ainda não fora domesticado, nem a agricultura poderia estar envolvida, uma vez que ainda não tinha sido inventada. Quanto aos animais, o máximo que se detectou foram cenas de encantamento [bewitchment] relacionadas com a caça. Poderia ser simplesmente uma questão de fertilidade da mulher e, portanto, o desenvolvimento da “família humana”, mas devemos salientar a natureza bastante terrena (de acordo com os nossos padrões atuais) das estatuetas.

Os esqueletos humanos descobertos por Leakey perto de Elmenteia (Quénia) na gruta chamada de Caverna II de Gamble [Gamble’s Cave II], e que provavelmente pertenciam ao mesmo tipo humano que o homem de Olduvai (norte da Tanzânia) do Capsiano, têm feito muita tinta correr. “É certo que estes não são verdadeiros Negros, no sentido usual da palavra. Estes são homens comparáveis aos Nilóticos na região dos Grandes Lagos, ou então comparáveis às populações de pele mais clara desses territórios. Um esqueleto encontrado recentemente em Naivasha (Quénia), obviamente, pertence ao mesmo tipo.” *

[ * – Boule & Vallois, p. 465.]

A partir dessas descobertas, pré-historiadores, historiadores e etnólogos tiram conclusões de importância variável com relação ao povoamento inicial da África Preta. No homem de Olduvai, Cornevin vê o ancestral do Nilótico, do Shilluk, Dinka, Nuer, e Masai. Ele faz dele um Caucasóide. Sua existência, Cornevin afirma, “prova que é inútil fazer [considerar] o Africano Oriental [East African], impropriamente chamado de Nilo-Camítico [Nile-Hamitic], ter vindo da Índia ou da Arábia.” *

[* – Cornevin, ibid, p.88.]

Finalmente, referindo-se ao homem de Naivasha mencionado acima, na página seguinte ele escreve que a pesquisa arqueológica revela afinidades com a raça Cro-Magnon. “Estatura alta, rosto largo, baixo, testa larga, órbitas retangulares [rectangular sockets], nariz fino, pouco prognatismo.”

Não havia nenhum homem Cro-Magnon na África sub-saariana. Em uma entrevista que o Professor Vallois teve a gentileza de me conceder no Instituto de Paleontologia Humana de Paris, este cientista foi categórico sobre isso. Somente o homem de Boskop (Província de Transvaal, África do Sul) foi, durante algum tempo, considerado como um Cro-Magnóide possuindo afinidades com o Bosquímano. Mas essa opinião foi posteriormente abandonada por seus partidários. Cornevin, infelizmente, continua a confundir homem de Grimaldi – um “Negróide” com prognatismo acentuado e nariz largo – com o homem de Cro-Magnon, que não é prognata de forma alguma mas apresenta em uma forma hipertrófica traços típicos Europeus: lábios finos, queixo proeminente, nariz estreito. Há motivos para reexaminar os documentos. (Fig Cf.. 47.)

 

Figura 47. perfil.jpg

Figura 47. Cheikh Anta Diop.jpg

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Figura 49. Cheikh Anta Diop -.jpg

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Figura 50. Cheikh Anta Diop.jpg

A teoria que faz Caucasóides dos Dinka, Nuer, Masai, etc., é a mais injustificável. Suponha que um etnólogo Africano insistisse em reconhecer apenas os Escandinavos louros como sendo Brancos e sistematicamente recusasse à todos os outros Europeus – especialmente Mediterrânicos, Franceses, Italianos, Gregos, Espanhóis e Portuguêses – a filiação à raça Branca. Assim como os Escandinavos e os Mediterrânicos devem ser considerados como os dois pólos, os dois extremos da mesma realidade antropológica, seria justo fazer o mesmo para os dois extremos da realidade do mundo Preto: os Negros da África Oriental e os da África Ocidental. Chamar um Shilluk, um Dinka, ou um Masai de Caucasóide é tão desprovido de sentido e validade científica para um Africano como seria para um Europeu a alegação de que um Grego ou um Latino não são Brancos. A busca desesperada por uma solução não-Negra, por vezes, leva [alguns] a falar sobre “um estoque primitivo que poderia ainda não ter assumido uma característica Preta ou Branca diferenciada,” ou a enbranquecer [whitening] Negros como os Masai. Todos os tipos humanos encontrados no Quênia desde o Paleolítico até o final do Neolítico, são perfeitamente distinguíveis como Negros.

O Dr. Leakey, * que estudou quase todos eles, sabe disso. Ele sabe que todos os esqueletos que caíram em suas mãos têm proporções Negríticas no sentido pleno da palavra.

[ * – Isto foi escrito algum tempo antes da morte de Louis S. B. Leakey em 1972.]

Ele também está ciente de que a observação feita por Boule e Vallois a respeito do “chão da fossa nasal” é aplicável a todos os crânios que ele estudou. Pode-se entender por que os antropólogos são silentes sobre estes pontos determinantes. Pelo contrário, eles prontamente se expandem em medições cranianas, pois neste domínio, exceto em casos extremos, é mais difícil de distinguir um Negro de um Branco. Eles admitem, por exemplo, que desde o Paleolítico até aos nossos dias, o Quênia, a África Oriental, e o Alto Nilo foram habitados pela mesma população, que se manteve inalterada antropologicamente, tendo os Masai como um dos mais autênticos tipos representativos. *

[* – “Em suma, podemos ver que, além de Africanotropos (Africanthropus), os restos humanos encontrados até agora na África Oriental não diferem dos atuais habitantes desse país ou países vizinhos.” Boule & Vallois, p. 466.]

Para os antropólogos, ele é o próprio tipo do indiferenciado Negro. Sempre que eles discutem o aparecimento tardio do “verdadeiro Negro,” é preciso lembrar que isto é porque eles não consideram-lo como tal, pois ele existe desde o início dos tempos, desde o Paleolítico. Todos os espécimes de crânios considerados não-Negróides, seguindo as medidas de Leakey e outros antropólogos, são realmente aqueles de seus antepassados arqueológicos de quem ele não difere morfologicamente. O dr. Leakey e todos os antropologistas irão confirmar isso.

Se ele não fosse uma realidade viva, o seu crânio teria saído enbranquiçado [whitened] ou, em qualquer caso, “denegrificado” por suas medições, com uma face ortognata erguida, um nariz fino, testa alta, etc. Mesmo vivo, ele não é um Negro na visão dos então-chamados especialistas, mas o tipo autêntica do Nilo-Camita [Nilo-Hamite]. Convido o leitor a verificar isso. Ele simplesmente irá encontrar estes fatos confirmados. *

[ * – Cf. Louis S. B. Leakey, The Race Stone Age of Kenya. Londres: Oxford University Press, 1935.]

Os antropólogos inventaram a engenhosa, conveniente, ficcional noção do “verdadeiro Negro” [“true Negro”], que lhes permite considerar, se necessário, todos os Negros reais na terra como Negros falsos, mais ou menos se aproximando de uma espécie de arquétipo Platônico, sem nunca atingi-lo.
Deste modo, a história Africana é repleta de “Negróides”, Camitas, semi-Camitas, Nilo-Camitas, Etiopóides, Sabeus, e mesmo Caucasóides! No entanto, se alguém se ater aos dados científicos e fatos arqueológicos, o protótipo da raça Branca seria procurado em vão ao longo dos primeiros anos da humanidade atual. O Negro tem estado lá desde o início; por milênios ele foi o único existente. No entanto, no limiar da época histórica, o “estudioso” vira as costas para ele, levanta questões sobre a sua gênese, e até mesmo especula “objetivamente” sobre sua aparência tardia: “É bem possível que o tipo Negro, o ‘verdadeiro Negro’ dos antropólogos, que agora habita a África Ocidental e Equatorial Ocidental, exista desde 10.000 A.C. Infelizmente, as condições do solo tropical não permitem facilmente a fossilização de ossos e é pouco provável que achados interessantes sejam feitos. Por um longo tempo por vir isso vai deixar o campo aberto para todas e quaisquer hipóteses sobre as populações dessas regiões.”
(Cornevin, op. Cit., 81.)

Em cuidadosa releitura de Les Peuples et les civilisations de l’Afrique de Baumann e Westermann, a única síntese etnológica sobre a África Preta, o Sr. Cornevin vai perceber que ele está enganado e que a África Central e Ocidental são habitadas quase exclusivamente por Camitas Orientais [Eastern Hamites], se estivermos para aceitar as conclusões apresentadas nesse volume.

A diferença na abordagem intelectual do pesquisador Africano e Europeu, muitas vezes provoca esses equívocos na interpretação dos fatos e sua relativa importância. O interesse científico do estudioso Europeu no que diz respeito à dados Africanos é essencialmente analítico. Vendo as coisas a partir de fora, muitas vezes relutante em sintetizar, o Europeu se agarra, basicamente, à explosiva microanálise, mais ou menos tendenciosa dos fatos e constantemente adia ad infinitum o estágio de síntese. O estudioso Africano desconfia dessa atividade “científica”, cujo objectivo parece ser a fragmentação da consciência histórica coletiva em fatos diminutos e detalhes. *

[ * – É necessário tomar cuidado, no entanto, para evitar a generalização excessiva sobre essas duas atitudes.]

Se o antropólogo Africano fizesse questão de examinar raças Européias “sob a lupa (lente de aumento)”, ele seria capaz de multiplicá-las ad infinitum, agrupando fisionomias em raças e sub-raças, tão artificialmente como o seu homólogo Europeu faz em relação a África. Ele seria, por sua vez, bem sucedido em dissolver a realidade coletiva Européia em uma névoa de fatos insignificantes.

 

 

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                                                      Conclusão

A condensação do nosso trabalho que você acabou de ler, não esgotou de modo algum o assunto; esta [obra] é apenas um relatório do progresso, elaborado com base nos documentos disponíveis para nós no momento. É também uma indicação da direção em que as futuras gerações de estudiosos da África Preta devem continuar calmamente a trabalhar, pois a salvação está no final desse esforço. Nossas várias publicações são traços gerais, paragens sucessivas em uma tentativa científica para se chegar mais e mais perto dos fatos analisados. É, pois, compreensível por que nós nunca reescrevemos uma obra, uma vez que tenha sido publicada. Nós preferimos passar para a fase seguinte com uma nova publicação. Entretanto, nós nunca deixamos de responder ao corpo de críticas dirigidas a nós, sem esconder todas as dificuldades suscitadas pelos nossos adversários; a este respeito pode-se referir-se a segunda parte de Antériorité.

A pesquisa deu um salto prodigioso para a frente nos últimos anos com o surgimento na África Francófona de uma jovem geração de cientistas atrelados à tarefa de investigar as mais diversas questões relativas às ciências humanas: L’Afrique dans l’Antiquité [África na Antiguidade] por Théophile Obenga; Pouvois politique en Afrique [Poder político na África] por Pathé Diagne; os escritos de Boubacar Ly, Sossou N’Sougan, e outros, inauguraram uma nova era científica na África Preta. Os Africanos estão determinados a mostrar que este imenso esforço de renovação cultural nunca irá afastar-se do nível científico para descer para o emocional. Esta é uma das razões por que, na sessão plenária do Comité Científico Internacional sobre a edição de uma história geral da África – uma reunião realizada em Paris, em Abril-Maio de 1971 sob os auspícios da UNESCO – eu propus três pré-condições para a preparação do volume II (sobre a Antiguidade Africana). Todas as três propostas foram aceitas:
1. Um colóquio internacional, reunindo Egiptologistas e Africanistas no Egito pela primeira vez para comparar pontos de vista da identidade antropológica dos antigos Egípcios;
2. Um colóquio internacional sobre a decifração do Meroítico [Meroitic], a antiga escrita da Núbia (duas reuniões agendadas para o Cairo, em novembro de 1973);
3. Um levantamento aéreo da África para retraçar a antiga rede de estradas.

Se, pelo conhecimento científico, pudermos eliminar todas as formas das frustrações (culturais e outras) que vitimam povos, a aproximação sincera do gênero humano para criar uma verdadeira humanidade será promovida. Que este volume contribua para esse objetivo sublime!

Cheikh Anta Diop

 

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Pg. 297

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Notas Sobre Termos Arqueológicos Utilizados no Texto

Embora muitos desses termos sejam explicados no texto, enumeramo-los aqui para fins de pronta referência. Estas breves notações são selecionadas a partir de várias fontes, especialmente:
1. Palmer & Lloyd, Archeology A to Z (London & New York: Frederick Warne & Co., Ltd., 1968)
2. Bray & Trump, A Dictionary of Archeology (London: Penguin, 1970)
3. Charles Winick, Dictionary of Anthropology (New York: Philosophical Library, 1956)
4. Leakey & Goodall, Unveilling Man’s Origins (Cambridge, Mass.: Schenkman Publishing Co., 1968)
5. Michael H. Day, Guide to Fossil Man (Cleveland & New York: World Publishing Co., 1968)

AMRATIANA: “Uma antiga cultura predinástica do Egito caracterizada por implementos finamente trabalhados de osso e pedra” (Cf. Winick)
HOMEM DE ASSELAR: Descoberto no Sahara por Théodore Monod.
AURIGNACIANA: “Uma cultura altamente desenvolvida da época do Paleolítico Superior, nomeada em homenagem a uma caverna em Aurignae (França), onde os artefatos foram encontrados. . . . o homem de Cro-Magnon, o homem de Combe-Capelle, e o homem de Grimaldi contribuíram para a cultura Aurignaciana.” (Cf. Palmer & Lloyd)
BADARIANA: Uma antiga cultura Egípcia conhecida por sua cerâmica, que se encontra sob aquela das Amratianas e idades posteriores.
HOMEM DE CHANCELLADE: Protótipo da raça amarela; esqueletos se assemelham aos de Esquimós modernos.
HOMEM DE COMBE-CAPELLE: Esqueleto Aurignaciano encontrado em Dordogne (França) em 1910; alojado no Museu de Berlim. (Dia Cf.)
HOMEM DE CRO-MAGNON: Um homem do Paleolítico Superior a viver na Europa durante os períodos Aurignaciano-Magdaleniano. “Alto e forte, com testa larga, alta, e queixo firme.” Lar original provavelmente a Ásia. Nomeado em referência ao abrigo de pedra na vila Francesa de Eyzies. (Cf. Palmer & Lloyd)
ENEOLÍTICO: Pertencente ao Calcolítico ou Idade do Cobre.
HOMEM DE FONTECHEVADE: Encontrado em 1947 a cerca de 17 milhas a leste de Angoulême (França). O homem de Fontéchevade e o homem de Swanscombe foram agrupados como hominídeos “Presapiens”. (Cf. Day)
GAMBLIANO: O segundo dos grandes períodos pluviais, reconhecido a partir da camada geológica do Quênia. (Cf. Winick)
GARZEANO: “A última cultura pré-dinástica do Egito, que se desenvolveu a partir da Amratiana em cerca de 3600 a.C. Nomeado em referência ao local de El Gerza ou Gereh em Fayum (Egito) e está bem representada no cemitério de Naqada, no Alto Egito”. (Cf. Bray & Trump)
PERÍODOS GLACIAIS: Os quatro Períodos Glaciais do Pleistoceno: o Günz (790.000 anos atrás, durou 250.000 anos); Mindel (480.000 anos atrás, durou 50.000 anos); o Riss (240.000 anos atrás, durou até 175.000). O Würm (115.000 anos atrás, durou 90.000 anos). (Cf. Palmer & Lloyd)
NEGRÓIDES GRIMALDI: Uma raça pré-histórica de homens cujos restos foram encontrados pela primeira vez na caverna (Grimaldi, Itália, perto de Menton, França). Eles são encontrados em camadas mais baixas do que as dos homens de Cro-Magnon, a quem eles, portanto, precederam. “Os Negróides de Grimaldi,” escreve Verneau, “são altos e seu crânio é extremamente elevado.” Esqueletos Grimaldi foram encontrados na Europa Ocidental e Central, mas eles provavelmente se originaram na África. Notáveis por suas realistas estatuetas esteatopígicas. (Cf. R. Verneau, Les Grottes de Grimaldi, Vol. 1, pt. 1, “Anthropologie.” Mónaco, 1906-1912, 2 vols.)
CAVERNA DE LASCAUX: uma caverna pré-histórica no sudoeste da França, famosa por suas pinturas do Paleolítico Superior.
MAGDALENIANA: Uma cultura da época do Paleolítico Superior, que começou na Europa Ocidental antes de 15.000 a.C., é assim chamada porque restos foram encontrados no abrigo de pedra de La Madeleine (França). (Cf. Palmer & Lloyd)
MERIMDE: Um local sobre as fronteiras do deserto Líbio. V. Gordon Childe chama-lhe um exemplo típico de “cultura Neolítica”.
ERA MESOLÍTICA: A Média Idade da Pedra.
CULTURA NATUFIANA: “A principal cultura Mesolítica da Palestina.” (Cf. Coon, The Living Races of Man. New York:. Knopf, 1965.)
PERÍODO NEOLÍTICO: A Nova Idade da Pedra. “Produção de Alimentos substituíu a coleta de alimentos e a caça e pesca tornaram-se menos importantes. . . . os homens do Neolítico foram os primeiros a plantar e colher culturas, criar animais, e fabricar potes. . .” (Cf. Palmer & Lloyd)
GARGANTA DE OLDUVAI: Local na Tanzânia, onde o Dr. Leakey e colegas de trabalho encontraram restos do Zinjanthropus, Homo habilis, etc.
PALEOLÍTICO: “Nos primeiros dias da pré-história, a Idade da Pedra foi dividida em Paleolítico ou Antiga Idade da Pedra, e Neolítico ou Nova Idade da Pedra.” “Depois de um tempo, ficou claro que o Paleolítico durou um longo período de tempo e ele foi dividido entre Paleolítico Inferior, Médio Paleolítico e Paleolítico Superior. Cada uma destas divisões culturais correspondiam aproximadamente às divisões de tempo então aceitas do Pleistoceno Inferior, Pleistoceno Médio e Pleistoceno Superior.”
“Posteriormente o termo Eolíticoco foi introduzido para algumas culturas supostamente primitivas da Idade da Pedra, que foram consideradas por datar do Plioceno. Este termo tem sido gradualmente abandonado e as mais antigas culturas conhecidas, tal como a Oldowana [Oldowan], dos níveis mais baixos da Garganta de Olduvai, são agora agrupados com o Paleolítico Inferior. . .” (Leakey & Goodall)
PITECANTROPOS: um gênero extinto de homens simiescos, especialmente o Pithecanthropus erectus da época do Pleistoceno de Java.
PLEISTOCENO: Divisão de Tempo. “O início do Pleistoceno foi uma vez posto em cerca de 500.000, mas agora é colocado em 3 milhões.” (Leakey & Goodall)
QUATERNÁRIO: O Período seguinte ao Terciário, o qual tem durado desde cerca de 1 milhões de anos atrás até o presente. . . . É dividido entre as Épocas Pleistoceno e Holoceno, este último abrangendo os últimos 10.000 anos. (Cf. Palmer & Lloyd)
SINANTHROPUS: “Nome genérico anteriormente dado a um grupo de hominídeos do Pleistoceno Médio encontrado perto de Pequim” (Cf. Day)
HOMEM DE SWANSCOMBE: “Parte de um crânio humano e alguns machados de pedra foram encontrados em um poço de cascalho perto de Swanscombe em Kent, em 1934. . . É datado do Segundo Período Interglacial do Pleistoceno Médio. outro pedaço do crânio foi descoberto em 1955. . . os mais antigos restos humanos até agora encontrados na Inglaterra, e são mais velhos do que o homem de Neandertal “. (Cf. Palmer & Lloyd)
TASIANA: “Uma cultura nomeada em referência ao local de Deir Tasa, no Alto Egito, um assentamento de agricultores primitivos. É hoje considerada, na melhor das hipóteses, uma variante da cultura Badariana.” (Cf. Bray & Trump)
ZINJANTHROPUS: Também chamado de “homem Quebra-Nozes” [“Nutcracker man”] por causa do tamanho dos dentes no crânio encontrado pela Sra. M. D. Leakey (Julho de 1959), na Garganta de Olduvai, na Tanzânia. De acordo com Leakey, o Zinjanthropus tem mais de 1 ½ milhão de anos [mais de um milhão e meio (1.500.000) de anos de idade].

DATAÇÃO ABSOLUTA: “Apenas um método direto de datação absoluta é de uso comum. O Nitrogênio na atmosfera superior é bombardeado por nêutrons produzidos pela radiação cósmica; isto resulta na formação de uma proporção conhecida do carbono radioativo que se incorpora em dióxido de carbono. Este é absorvido pela vegetação e, em seguida, passa para tecidos animais. Quando os ossos estão enterrados o carbono radioativo (C14) começa a decair a uma taxa conhecida. As medições do teor de carbono-14 de matéria orgânica enterrada pode ser traduzido matematicamente para dar uma estimativa da idade da amostra. Na prática, o método é limitado à materiais com menos de 60-70.000 anos de idade uma vez que acima desta idade [mais recente que esta] a quantidade de carbono-14 restante é demasiado pequena para se estimar.”
“Um outro método radiométrico (a técnica de potássio-argônio) depende do fato de que o potássio ocorrendo na natureza contém um isótopo radioativo; este isótopo decai a uma taxa constante produzindo argônio, que é mantido dentro dos cristais de alguns minerais potássicos. As estimativas do teor de argônio de uma amostra destes minerais, derivado a partir de um depósito contendo ossos fósseis. vai indiretamente medir a idade dos ossos. . .” (Cf. dia. P. 12)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[em construção]

 

 

 

 

 

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9 respostas para Origem Africana da Civilização – Cheikh Anta Diop

  1. Olá. Este é o livro completo? Tem ele digitalizado em pdf? Aguardo.

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  2. Kloisan disse:

    Não existi brancos vermelho, e sim rosas. Pessoas vermelhos são negros principalmente na Africa. Nos negros temos que escurecer todas civilizações do mundo, pelo simples modo de ter negros caucasianos,negroides e mongóis.

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  3. luizlmarins disse:

    Saudações a todos!

    Com todo respeito, eu não acredito que todas as humanidades de nosso planeta tem origem na África. Não quero discutir evidencias científicas ou não. Basta olhar para um asiático.

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