Mulheres Pretas Na Antiguidade – Ivan van Sertima


Black Women in Antiquity - Capa

Mulheres
Pretas
na
Antiguidade

por

IVAN VAN SERTIMA

1984

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                          MULHERES PRETAS NA ANTIGUIDADE

                                                   CONTEÚDO

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PARTE 1: RAINHAS E DEUSAS EGÍPCIAS E ETÍOPES

A Eva Africana: Introdução e sumário
– Ivan Van Sertima (Editor) ……………………………………………….. 5

As Grandes Rainhas da Etiópia
– Larry Williams e Charles S. Finch (M.D.) …………………………… 12

As Hórus Femininas e Grandes Esposas de Kemet
– Diedre Wimby ……………………………………………………………….. 36

Nefertiti: Rainha para uma Missão Sagrada
– Sonia Sanchez ……………………………………………………………….. 49

Tiye: Rainha Núbia do Egito
– Virginia Spottswood Simon ……………………………………………… 56

Isis do Egito: A Madona Preta Original
– Eloise Mckinney-Johnson ……………………………………………… 64

Deusas Africanas: Mães da Civilização
– Runoko Rashidi …………………………………………………………… 72


PARTE 2: A MULHER PRETA NA ARTE ANTIGA

Estilo Feminino e Beleza na África Antiga:
Um Ensaio Fotográfico
– Camille Yarbrough ……………………………………………………………. 89

A Imagem da Mulher na Arte Rupestre Africana
– Rosalind Jeffries ……………………………………………………………. 98

PARTE 3: CONQUISTADORAS E CORTESÃS

Rainhas Guerreiras Africanas
– John Henrik Clarke ………………………………………………………….. 123

Mulheres Africanas na Europa Inicial
– Edward Scobie …………………………………………………………….. 135

ENSAIOS ESPECIAIS

Hipátia e os Direitos das Mulheres no Egito Antigo
– Beatrice Lumpkin …………………………………………………………. 155

Madona Preta da Europa: Difusão da Isis Africana
– Danita Redd ………………………………………………………………… 162

Hatshepsut
– Danita Redd ………………………………………………………………… 188

Índice ………………………………………………………………………….. 227

Notas Biográficas sobre os Contribuidores ………………………… 235

Sem 4

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Agradecimentos

Às minhas três rainhas – minha esposa Jacqueline, e filhas, LaCheun e LaSarah, por todos os seus anos de dedicação para tornar o Jornal o que ele é hoje.

Obrigado a todos os estudiosos que tomaram tempo para dar ao jornal o seu melhor em pesquisa e especialização.

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Mulheres Pretas na Antiguidade – [Black Women in Antiquity]
– Ivan Van Sertima
A Eva Africana: Introdução e Resumo
Pg. 5 – 11 –


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                   A EVA AFRICANA:

INTRODUÇÃO E RESUMO

 

                   Ivan Van Sertima

,

        Em uma anterior preparação para este volume especial, Black Women in Antiquity [Mulheres Pretas na Antiguidade], nós fomos tentados a nos deter sobre a controvérsia assolando a primeira mulher, o nosso mais antigo ancestral humano conhecido, a Mãe Africana de toda a humanidade, “Lucy”.

Nós fomos forçados a resistir a essa tentação. A Arqueologia tem o seu fascínio, sim, mas para além de idade de Lucy (três milhões e meio de anos), sua altura (três pés), seu peso (£ 60), e seu lugar de origem (Etiópia), quase nada de muita real significância no estudo da mulher é sabido sobre ela.

A controvérsia, embora animada e prolongada, é uma confusão entre especialistas técnicos sobre um feixe de ossos e um pacote de termos classificatórios.

O drama em torno da descoberta da Eva Africana é intrigante, especialmente na forma que é tratado por Donald Johannson e Maitland Eddy em sua obra clássica sobre este assunto. Mas para aqueles de nós que estão interessados principalmente nos estágios adultos de civilização, em vez de nos primeiros passos infantis do hominídeo, não é particularmente esclarecedor.

Nós temos achado muito mais útil concentrar a nossa atenção sobre os materiais recolhidos e selecionados sob a nossa editoria para este livro.

A maioria dos nossos escritores têm se concentrado nas Rainhas e Deusas da Etiópia e Egito. Isto tem sido assim, não somente devido ao fato de que os documentos no Vale do Nilo são volumosos em comparação com o registros esboçados em outras partes da África, mas porque a imaginação do mundo, e não apenas a da África, foi assombrada por essas Mulheres Pretas. Elas se afiguram tão proeminentemente na mitologia Européia como na realidade Africana.

Andromeda, filha do Rei Etíope, Cepheus, é tomada por esposa pelo lendário herói Grego, Perseu.

Circe, a mágica e feiticeira da Odisséia de Homero, é pintada em vasos Gregos como uma Mulher Negra.

Sua sobrinha, Medeia, filha do Rei Cólquida, Aeetes, usa seus poderes para ajudar o jovem Jasão em sua busca pelo velo de ouro.

Larry Williams e Charles Finch rastrearam essas Mulheres, tão proeminentes no mito Grego, de volta às suas origens Etíopes.
Eles também nos introduzem para a mais poderosa linhagem de todas as Rainhas Pretas – as Candaces (do Meroítico “Kentake”, que significa Rainha-Mãe).

O ponto que, ao contrário das Rainhas Egípcias, que em grande parte deviam a sua autoridade por ser as grandes esposas dos Faraós (Hatshepsut é a exceção), as Rainhas Etíopes eram governantes independentes.

Isto levanta questões como até que ponto os primeiros padrões Matriarcais Africanos passaram por mudanças como os Africanos desceram em direção ao norte para o Egito.

Williams e Finch afirmam, no entanto, que “tais governantes mulheres independentes são encontradas por toda a África no tempo e no espaço” e que “a freqüência relativa da Realeza Feminina [queenship]- em comparação com outras partes do mundo – refletem os padrões Matriarcais persistentes na África através do curso da história.”

O período da história Etíope coberto por estes pesquisadores abrange cerca de dois mil anos (de 1000 a.C. até 1000 d.C.).

Exceto as Candaces no período Meroítico muito posterior, nenhuma Rainha Preta dos tempos antigos (ou nenhuma Rainha para este assunto) teve tal lenda construída em torno dela como Makeda, a Rainha de Sabá. Ela é conhecida na Bíblia como a grande Beleza Negra que comoveu o coração do Rei Salomão em uma canção. A Criança que ela deu à luz dele, Menelik, iniciou a linhagem Salomônica dos Reis da Etiópia, uma linhagem que, com apenas uma interrupção de 300 anos, continuou até ao recente Haile Selassie.

Williams e Finch mostram que a história do romance entre Salomão e a Rainha de Sabá provavelmente ofuscam papéis e realizações mais importantes desta Rainha Preta. Ela organizava uma extensa rede de comércio e governava um império maior e mais substancial do que Salomão, seus negócios com ele envolveram assentamentos comerciais e diplomáticos, e não apenas interesses românticos.
A hospitalidade que ele dispensou a ela era uma homenagem não apenas à sua beleza, mas à sua posição de eminência e influência no mundo antigo.

As Rainhas Etíopes posteriores (300 a.C. – 300 d.C.), que temos vindo a conhecer como Candaces, estavam entre os maiores construtores Africanos, erigindo magníficos palácios e túmulos, dando início a um renascimento cultural que produziu alguns dos melhores exemplos da arquitetura e arte Meroíticas.

Talvez a mais memorável entre elas seja Amanirenas, que contra-atacou os invasores Romanos sob Augustus Cesar. Quando os Romanos ocuparam o Egito e ameaçaram a Núbia, esta Rainha guerreira liderou o exército Kushita através da fronteira Egípcia, atacaram as cidades ocupadas pelos Romanos, e desbaratou suas guarnições, destruindo as estátuas de César. Os Romanos reagiram violentamente, saqueando as cidades dos Pretos, arrasando sua capital Napata. Mas ela recuou e se reagruparam e atacaram novamente, forçando-os a renunciar ao tributo que tinham imposto ao povo da Baixa Núbia, em seu domínio. Este foi o espírito dessas grandes Rainhas.

Elas não eram apenas mestres do Estado, mas mestres do capital espiritual também. Começando com Piankhy, os Faraós da 25ª dinastia tornaram uma prática instalar as suas parentas do sexo feminino, como as Alto-Sacerdotisas de Amon em Tebas.

A estas Mulheres eram dados quase privilégios reais e formaram uma espécie de dinastia paralela, com sucessão de tia para sobrinha. Enquanto os Faraós Etíopes governavam, havia duas linhas de Alto-Sacerdotisas – uma em Tebas (Ama do Egypt) e uma em Napata (Ama de Kush).

O poder da Rainha no Egito, no entanto, parece ter sido (apesar da mesma ênfase Africana sobre a Mulher como a chave para a Sucessão) qualitativamente diferente.
Diedre Wimby argumenta, de fato, que “o conceito Kemético de governo nega categoricamente esta posição para as Mulheres.” Mulheres subiam ao trono somente sob determinadas circunstâncias, mesmo apesar de elas terem um poder considerável por trás do trono. Se o faraó morreu e não deixou herdeiros do sexo masculino, então, a Rainha teria permissão para governar até ao momento em que uma nova dinastia pudesse ser iniciada.
Além disso, nos casos em que o único herdeiro legal do Rei era muito jovem para assumir o cargo, a Rainha consorte era esperada para governar até ele atingir a maturidade.

A situação, porém, é mais sutil do que parece à primeira vista, e Miss Wimby se esforça para deixar isso claro. Havia razões pelas quais um homem era considerado para caber mais aptamente no papel simbólico desempenhado pelo Faraó.
Ainda assim, a regência de Kemet (Egito) era, como ela mostra, “uma situação de equilíbrio: o homem era a personificação da autoridade divina, a mulher a fonte de seu poder.”
A Rainha era o guardião da linhagem real.

Wimby lista as regentes mães e esposas dos faraós e destaca aquelas que, por força da personalidade ou circunstância, vieram para se destacar das brumas da antiguidade.

Neith-hetep, cuja única reivindicação à fama parece ser o fato de que ela era a esposa de Aha-Menes, o primeiro faraó da primeira dinastia, e Mer-Neith, que comandou grande respeito, porque ela era mulher de um Faraó e mãe de outro.

Mas Rainha Nitocris, conhecida como “a mulher mais nobre e amável de seu tempo” ainda nos toca ainda com a faísca que ela acendeu na sexta dinastia, não em virtude de com quem se casou ou de quem ela foi a mãe, mas pelo que ela era e o que ela fez.
Nós ainda podemos ficar na sombra de um monumento que ela construiu, a terceira pirâmide de Gizé.

E há a Rainha Tetisheri da 17º Dinastia, que manteve a guerra revolucionária contra os invasores Hicsos, e a Rainha Ahmose-Nefertere, que, quando o marido Ahmose expulsou esses estrangeiros para fora, ajudou a reconstruir Kemet, o amado país. Ela foi a primeira a ter o título de “Mulher Divina” e, como Alto-Sacerdotisa de Amon, teve sua própria faculdade de Sacerdotisas, quem ela organizou para reconstruir uma cidade dos mortos em Deir-el-Medina.

Nenhuma dessas Rainhas Egípcias, é claro, dominou os tempos em que vivia, como Faraó Hatshepsut. Ela é conhecida como a Rainha Guerreira e é verdade que ela era agressiva, avassaladora, uma dinasta de nascença. Mas suas batalhas foram contra seus próprios rivais pelo poder na hierarquia Egípcia.
Ela não travou guerras no exterior. O Egito acabara de jogar fora o jugo dos Hicsos, e apesar de seu pai, Tutmés I [Thutmose I], ter esmagado seu punho contra o rosto da Ásia, com seus exércitos cobrindo mesmo até o Eufrates, esta grande Rainha Preta se concentrou em construção, ao invés de luta. Ela organizou expedições comerciais em vez de campanhas militares.
E embora ela tenha alardeado o grito de guerra: “Eu vim como Horus, lançando fogo contra os meus inimigos“, é de inimigos dentro de seu próprio campo e país que ela fala. Ela é a mais incomum das Rainhas Egípcias. Como Wimby diz: “Ela criou uma nova ciência de governo, a essência da qual era a fêmea manifestando atributos masculinos.” Ela vestiu traje masculino, ostentou uma barba, e ainda se referia a si mesma, e insistia em ser referida, como ele.

O poder da mãe ou esposa nas casas reais de Kemet fez muitas vezes equilibrar o do faraó, mesmo nos casos em que ela não estava reinando. Sonia Sanchez apresenta a base metafísica para este equilíbrio e parceria. Ela contrasta o mito Africano de Osíris e Ísis contra o mito patriarcal de Adão e Eva. A mulher na África não era vista como uma costela ou apêndice ou adendo ao homem, mas como seu Igual Divino. Assim, ela afirma “as Deusas mantinham seu prestígio se tornando esposas: o casal era a unidade religiosa e social, a mulher parecia ser aliada e complementar ao homem: a mulher tem os mesmos direitos que o homem, os mesmos poderes na corte: ela herdava, ela possuía propriedade.”

Sua história de Nefertiti e Akhenaton confirma este belo equilíbrio. Mas Sanchez é alerta para as subcorrentes sutis, a doutrina oposta predominante entre os Sacerdotes de Amon que contestaram esta posição. Embora Nefertiti tornou-se o parceiro Divino Feminino de Akhnaton, a visão destes Sacerdotes reafirmou-se com a morte de Akhnaton. Eles não podiam aceitar a idéia de Mulheres ignorando o Sacerdócio Masculino com uma Deusa-Mãe, em seu culto do Divino.

No fim de tudo, foi a força de personalidade, a estatura de um indivíduo incomum, que ultrapassou estes preconceitos e convenções machistas. Tal indivíduo foi a Rainha Tiye, Mãe de Akhenaton, sogra de Nefertiti. Senhora de Ambas as Terras [Alto e Baixo Kemet], ela nasceu na Núbia, mas reinou como Rainha consorte e Rainha Mãe do Egito por meio século.

Em seu sensível retrato de Tiye, Virginia Simon mostra-nos como ela calmamente exerceu o poder durante três períodos críticos da 18ª Dinastia, tornando-se a força de estabilização na nação.
Estes são os anos em que o poder de Amenhotep III (de quem ela se tornou noiva, aos 13 anos de idade) começou a murchar com a idade, quando seu filho Akhnaton, o inovador religioso, negligenciou a defesa da nação, quando seus filhos mais novos, Smenkare e Tut, eram imaturos demais para governar.
Ela moveu-se no vácuo de poder.

Ela tornou-se Secretário de Estado para o marido doente. Reis da Ásia contornavam-no para lidar diretamente com Ela. E quando os Sacerdotes insistiram que, nas esculturas reais, uma Rainha devia ser representada somente na altura do joelho de um Rei, Amenhotep, governado por um amor que transcendeu as idiotices de convenções, varreu a sua objeção para longe. Ele constrói estátuas enormes em que ela se senta ao lado dele como um Igual.
Ele cava um lago ornamental de uma milha de comprimento e o nomeia com o nome Dela. Poemas e Palácios surgem para imortalizar sua beleza e seu amor. E, seguindo o mais forte costume Africano, reforçado por uma Núbia na cama real, são as Princesas, e não os Príncipes, que gozam do status de veneradas.
A importância da Mulher na família real é uma vez mais sublinhada. Mesmo a moda é profundamente influenciada por Tiye. Seu corte de cabelo, seus brincos, suas perucas, definiram o estilo de beleza feminina na corte real.

Outra Rainha do sul, mas uma Mítica, entre as Primogênitas das Deusas, é Isis.
Eloise McKinney-Johnson apresenta-a como a Querida Quintessência, Esposa, e Mãe do Egito. Ela é adorada como a Irmã-Esposa de Osíris, o “Rei dos Mortos”, e mãe de Hórus, o “Rei dos Vivos”. Mas Que hinos líricos em louvor de sua própria divindade são cantados dos lábios de Isis, ela mesma!

Eu sou a Natureza, a Mãe Universal, Ama de todos os elementos, Criança Primordial do Tempo . . . Manifestação Única de todos os Deuses e Deusas que são.
O Meu aceno rege as alturas brilhantes do céu . . . os Silêncios lamentáveis do mundo abaixo.

Egito, Grécia, Roma e prostraram-se a esta Deusa Africana, e “os quadros e esculturas, em que ela é representada no ato de amamentar Horus formaram a base para as pinturas Cristãs da Madonna e Criança.”

Runoko Rashidi também aborda este aspecto de Ísis como a Madona Negra Original. Estátuas dela e o bebê Horus, a quem ela amamenta, passaram para representações de Maria e de Jesus em muitas igrejas Européias, especialmente aqueles da Itália (os primeiros santuários Cristãos).

Em seu ensaio erudito sobre as três Deusas Africanas que exerceram a maior influência nos tempos antigos, Rashidi nos dá o contexto histórico para os cultos que cresceram ao seu redor, não apenas na África, mas na Grécia, em Roma, na Creta Minóica, na Fenícia, em partes da Ásia, até mesmo (em alguns casos) nas ilhas Britânicas.

Além de Isis, para quem, nós aprendemos, até mesmo o louco imperador Romano Calígula, erigiu um templo, existe Neith, provavelmente, mais velha do que a própria Isis, quem fala com a voz intemporal do criador original: “Eu sou tudo o que foi ou será.”

Hathor, a Deusa auto-gerada, Doadora da vida, protetora dos mortos, Deusa também dos sentidos, ligada com risos e dança e canção e música. Os conceitos religiosos por trás dessas deusas Africanas, Rashidi nos diz, não se encontram no Vale do Nilo (embora a documentação mais substancial deles possa ser encontrada lá), mas na região dos Grandes Lagos da África Leste/Central. Lá, “no coração continental, o centro primordial, ocorreu a moldagem e formação das idéias religiosas e filosóficas que estavam para criticamente modelar o mundo.”

É também nesta área da terra-coração continental que temos de olhar para os primeiros retratos da Mulher Africana.
Rosalind Jeffries abre uma janela para a mais antiga galeria de arte do mundo. Vemos a Mãe Primordial na arte rupestre do Zimbabwe, nós seguimos sua protuberante curva e sombra entre os Bambara, os Senufo e os Kun, nós a vemos tomando a mesma forma no horizonte Grimaldi na Europa da Idade da Pedra, como a humanidade se espalha para todos os lugares a partir de sua casa Ancestral Africana.

A Mulher persegue a imaginação do surgimento do homem, tanto uma doadora e assassina de vida, ora a chover comida e umidade abaixo, ora as flechas de morte. Ficamos impressionados pela maneira como as formas da ligação Feminina se diversifica extremamente e a distantes áreas em uma continuidade de Símbolo, e Conceito. É como se, a partir dos fluxos de seus lombos, um rio de imagens – aquelas de fertilizante fazedora de chuva e abutre devorador, a Virgem da pureza e a serpente do mal, a companheira e Mãe e a assassina – Ramificam uma arte de criatividade e destrutividade que flui através da mais antiga imaginação do mundo.

Este é um dos poucos ensaios neste volume que se propôe, apesar de entrecortado (considerando que as tradições mais antigas estão espalhadas) a investigar essas raízes intactas que estão por trás do posterior florescimento na Etiópia e Egito.

Camile Yarbrough também explora a arte Africana como um documento na história da Mulher. Ela encontra o início de tantos acessórios de beleza na África – Tranças ‘Cornrows’ de cinco mil anos de idade no Sahara, requintadas e elaboradas perucas, sombras de olho, pelotas de especiarias doces ou anti-goma [anti-gum] (uma espécie de goma de mascar) como purificadores de hálito, a decoração das unhas das mãos e dos pés com a planta henna, perfumadas pomadas e óleos para a pele e os cabelos, espelhos de cobre lindamente polidos, jóias de todos os tipos, especialmente brincos, colares, fios de contas. Ela aponta para um fato pouco conhecido, que a vacinação começou em África séculos antes de Europa por causa do uso de tatuagens, sejam como identificação ou como marcas de embelezamento [escarificações].

Mais uma vez, no entanto, porque a melhor documentação pictórica reside no Egito e na Etiópia, quase todos os nossos exemplos do estilo e beleza femininos na África antiga são tomados a partir dessa região.

Por isso, é refrescante ler a segunda parte do ensaio de John Henrik Clarke, que nos apresenta a Rainha Guerreira, Nzinga [Nzingha] de Angola e Yaa Asantewa dos Ashanti. As histórias destas duas Mulheres são capítulos importantes na luta contra o imperialismo Português e Britânico na África.

Em 1623, com a idade de quarenta e um anos, Nzinga tornou-se Rainha de Ndongo (Angola). Assim como Hatshepsut, ela proibiu seus súditos de chamá-la de Rainha. Ela insistia em ser chamada de Rei e marchou para a batalha na roupa de um homem. Mas de acordo com Clarke, “ela possuía ambos a dureza masculina e o encanto [charm] feminino, que ela usou prontamente, dependendo da necessidade e ocasião.” Ela combateu os Portugueses toda a sua vida, sofrendo graves reveses. Sua irmã foi decapitada e seu corpo foi jogado em um rio. No entanto, isto não quebrou o espírito de Nzinga. Como o Professor Glasgow aponta: “Nzinga falhou na sua missão de expulsar o Português [mas] sua importância histórica transcende esse fracasso, já que ela despertou e incentivou o primeiro movimento conhecido de nacionalismo na África Centro-Ocidental.”

Yaa Asantewa, a Rainha Mãe de Ejisu, em Gana, alimentou a mesma chama fumegante. Quando os Britânicos em 1896 exilaram Rei Prempeh de Gana e, dois anos mais tarde, enviaram um governador para Kumasi, a capital dos Ashanti, para exigir o Trono de Ouro [the Golden Stool] (Tamborete de Ouro), até mesmo o membro mais valente da tribo foi intimidado. Clarke recaptura esse momento marcante, como Yaa Asantewa se ergue para envergonhar os chefes: “Se os Homens de Ashanti não irão para a frente, então vamos nós. Nós, as Mulheres iremos. . . .  Nós iremos combater os homens Brancos.” Era o início de uma guerra que estava para levar à sua captura e deportação, mas reviver o espírito de orgulho e resistência entre seu povo.

Nós concluímos com um ensaio pelo historiador Edward Scobie, que lida com a Mulher Preta na precoce Europa.
Ela ocupa posições extremas no imaginário Europeu.
Ela é, por um lado, a Deusa do sexo e cortesã. Os reis e os nobres da França e Portugal, um cardeal da Itália, que viria a ser um Papa, Baudelaire e Shakespeare, o maior dos poetas, correram para a sua cama. Ela é tão irresistível que, apesar de todas as famílias nobres da Europa – Rainha Charlotte Sophie, o Duque de Florença, os Médici, os Gonzaga, a Duquesa de Alafoes, St. Hilaire, filho de Luís XV – a lista é grande. Mas a contradição é maior. Pois ela é a Virtuosa – A Deusa da Castidade Grega, Artemis, é Preta;
Ela é a Sábia – a Deusa da Sabedoria, Minerva, uma Princesa Africana; Ela é uma Santa, como são as Madonas Negras de Loretta na Itália, Núria na Espanha, Czestochowa, na Polônia.

A Mulher tem vivido sob a sombra do ego do homem, assim como, nos últimos séculos, o Preto tem vivido sob a sombra do Branco. O mito da inferioridade feminina parece ter sido muito mais desenvolvido na Europa e na Ásia do que na África.
Isto foi devido a diferenças na estrutura metafísica e social.
E até mesmo, talvez, na própria natureza do temperamento masculino Indo-Europeu, propriamente. Seja o que for, as Rainhas Pretas, Madonas e Deusas que dominam a imaginação da antiguidade têm poucas congêneres Européias ou Asiáticas.

Ainda assim, seria idílico assumir que Mulher não teve que se esforçar para alcançar e manter a sua igualdade na África, independentemente dos mitos congêneres, como o de Isis e Osiris, que a classificava como um Divino Igual. Ela complementava, mas ela também se completava com o homem, até mesmo, às vezes, abrangendo ambos os atributos e privilégios Masculinos e Femininos (como foi o caso de Hatshepsut e Nzinga), a fim de estabelecer sua dominação.

Apesar deste perene concurso com, e supressão ocasional ou perpétua pelo homem, o seu papel na história e desenvolvimento da civilização tem sido tal grande. Provar isto não é fácil, já que uma grande parte da história teria de ser reescrita com uma ênfase e orientação diferentes. Este livro, esperamos, é um dos capítulos de abertura nesta nova história.

Esta nova edição apresenta dois novos ensaios, um por Beatrice Lumpkin sobre a Genial matemática Egípcia, Hipátia, o outro sobre as Madonas Negras da Europa, por Danita Redd.

Hipátia manteve uma cadeira em Filosofia na Universidade de Alexandria e escreveu e lecionou sobre matemática, filosofia, física e astronomia. Ela é considerada “a última grande cientista Mulher da antiguidade”, mas tem sido, até agora, apresentada como uma Mulher Grega, enquanto que tanto a sua linhagem familiar quanto seu estilo de vida a estabelecem como Afro-Egípcia em origem e orientação cultural.

O mais importante de tudo, ela se comportou como nenhuma Mulher Grega em Alexandria era autorizada a se comportar.
Ela movia-se tão livre e publicamente como um homem em suas atividades científicas. Como Lumpkin aponta, “a sua carreira foi coerente com a tradição Africana de Mulheres Egípcias, uma tradição de igualdade de direitos, muito diferente da posição oprimida da Mulher na sociedade Grega Clássica. As Mulheres Gregas em Alexandria não eram autorizadas a deslocar-se em público sem uma escolta.” A Professora Lumpkin usa o status que Hipátia desfrutou como uma base para uma discussão sobre os direitos das Mulheres no Egito antigo.

Danita Redd mostra como a Deusa Egípcia Isis serviu como protótipo para as Madonas Negras da Europa. O culto desta Deusa Africana difundiu-se para a maior parte do mundo Ocidental antigo.

As imagens de algumas precoces Deusas Européias (Sibila, Artemis etc.), que são representadas como Pretas, estavam diretamente tomadas emprestadas para servir como representações de ortodoxas Madonas Cristãs.

Redd apresenta paralelos entre o culto de Isis no Egito, em todas as suas formas associadas e títulos, e adoração semelhante na Europa, mas, em particular, entre as imagens de Isis e seu Filho Hórus e aquelas da Virgem Maria e o Menino Jesus na nascente Cristandade Européia.

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Mulheres Pretas na Antiguidade
Pg. 12 – 35
As Grandes Rainhas da Etiópia –
– Larry Williams e Charles S. Finch (M.D.) –

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Pg. 12

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AS GRANDES RAINHAS DA ETIÓPIA

Por Larry Williams e Charles S. Finch

 

Sumário: O matriarcado, provavelmente, a mais antiga forma de organização social, parece ter evoluído primeiro na África. Mesmo quando o patriarcado surgiu e começou a suplantar a organização social mais velha, formas sociais matriarcais na África têm prosperado inteiras ou em parte, até o presente. Mesmo a declaradamente  patriarcal teocracia faraônica do Egito sentiu essa impressão, uma vez que a herança ao trono Egípcio era determinada através da linha feminina. Os autores procuram examinar a realeza das rainhas Etíopes [Ethiopian queenship] como uma forma de lançar uma luz sobre o vigor e a vitalidade dos valores matriarcais no Vale do Nilo e na África como um todo.
É essencial, como um prelúdio a esta discussão, definir o que a Etiópia é e foi no tempo e no espaço. Como é conhecido, a palavra “Etiópia” é Grega e significa “terra dos rostos queimados de sol” [“Land of the sunburnt faces”]. Este significado se reflete no mito narrado por Ovídio em A Metamorfose em que Faéton – o filho de Apolo e também um nativo da Etiópia – em mal – deliberadamente dirigindo a carruagem do sol de seu pai, perde o controle dela, levando-a a mergulhar muito perto da terra, tornando os habitantes da África pretos. Nos tempos antigos, Etiópia não tinha limites precisos. Era um nome usado variadamente para se referir à Líbia, Núbia, Etiópia, Abissínia, partes do Alto Egito, e todo o continente Africano. Mesmo mais longe, o termo englobava o que é hoje o sul da Arábia, Iêmen, sul da Pérsia e Índia. *

[* – Veja Rashidi, R., Cushite Case Studies [Estudos de Caso Cushita], (Los Angeles: publicação privada, 1983)., Para uma exposição mais completa da “Etiópia” fora da África]

Para os fins desta discussão, vamos designar como “Etiópia” uma área que inclui o Egito abaixo de Aswan, o Sudão, e o que hoje é a Etiópia propriamente. Esta é uma área mais facilmente identificável por aquele termo amorfo “Etiópia” e inclui as antigas terras de Sabá (Sheba), Cush, Núbia e Abissínia.

Com referência à instituição do reinado das rainhas [queenship] nas terras que são genericamente chamadas “Etiópia”, o material de fonte não é abundante. Um dos mais importantes documentos únicos disponíveis é o Kebra Negast (‘A Glória dos Reis), um trabalho histórico Etíope na língua Ge’ez que contém o relato mais completo da história de Makeda ou Rainha de Sabá.

E.A. Wallis Budge traduziu esta parte dele que lida com Makeda e sua visita a Salomão, para o Inglês, sob o título de A Rainha de Sabá e Seu Único Filho Menelik [The Queen of Sheba and Her Only Son Menelik].  Uma vez que o mais antigo manuscrito sobrevivente do Kebra Negast data apenas de a partir do século 14, dúvidas sobre a sua autenticidade, veracidade e exatidão foram levantadas. No entanto, William Leo Hansberry tem estabelecido razões pelas quais ele pode ser invocado como um documento mais ou menos autêntico. *

[* – Hansberry, William Leo, Pillars in Ethiopian History [Pilares em História Etíope]. Vol. 1 of African History, Notebook, editada por Joseph Harris (Washington, D.C.: Howar University press, 1981), Pp. 39-40]

Uma das dificuldades que surgiram nas mentes de alguns estudiosos é que muitos têm localizado Saba ou Sabá no sul da Arábia, lançando assim dúvidas sobre a natureza da presença Etíope na civilização de Sabá (Sheba). No entanto, desde os primeiros tempos [earliest times], o sul da Arábia e a Abissínia (Etiópia) eram virtualmente idênticas em língua, religião, e composição racial; na verdade, eram parte da mesma estrutura geopolítica. *

[* – Rashidi, op. cit., pp. 47-51].

Assim, não há necessidade de haver qualquer controvérsia sobre o local onde Sabá [Sheba] foi localizado exatamente: ele incorporava ambos Etiópia e sul da Arábia.

Nos séculos pouco antes da era Cristã, existiu uma notável linhagem de rainhas Etíopes na Cush Meroítica conhecidas como as “Candaces”, uma palavra Latina derivada do Meroítico “ktke” ou “Kentake”, que significa “Rainha-Mãe” [“Queen-Mother”].

Sabemos que essas rainhas existiram não só a partir do testemunho de escritores Latinos como Estrabão e Plínio, mas também porque temos autênticas representações pictóricas delas e inscrições por e sobre elas entre as ruínas da velha Cush. No entanto, nossa informação sobre elas e seus reinos é bastante modesta. Isso se deve principalmente ao fato de que a escrita Meroítica é em grande parte indecifrada, por isso estamos praticamente algemados quando se trata de preencher qualquer outros que não os detalhes mais marcados sobre a sua história. O que somos capazes de decifrar vem de certas inscrições que são derivadas dos, ou similares aos hieróglifos Egípcios com os quais a escrita Meroítica primordial está intimamente aliada.

A rainha Falasha Judith representa um caso especial. Ela foi considerada pelos Salomônidas da Abissínia por ser uma usurpadora, porque ela conquistou e governou sobre a Abissínia por 40 anos. No entanto, as Crônicas Etíopes oficiais praticamente ignoram-na e muito do que sabemos sobre ela vem de fragmentos de literatura não-Etíope. Ela deve ter sido uma mulher notável, uma com capacidade incomum como uma líder política e militar.

Antes de lidar com nosso material histórico, é esclarecedor examinar algumas das figuras da mitologia como uma maneira de compreender a realeza das rainhas Etíopes [Ethiopian queenship] em outra luz. Plutarco, em seu, Ísis e Osíris, menciona a rainha Etíope Aso, quem ajudou Set em sua guerra contra Osíris. *

[* – Veja Mead, G.R.S., Thrice Greatest Hermes [Hermes três Vezes O Grande], Vol. 1 (Londres: Watkins, 1906, 1949), pp. 255-368 para uma versão em Inglês do tratado de Plutarco sobre Isis e Osiris.].

Na mitologia Egípcia nos tempos dinásticos, Osiris representou o princípio do bem e Set o princípio do Mal; A versão de Plutarco do mito reflete isso. Mas Set nem sempre teve este caráter de mau. Entre os povos anteriores do Vale do Nilo ele era um deus muito benevolente, mas no decorrer do tempo, ele perdeu sua posição para Osíris. No entanto, os poderosos centros de seu culto permaneceram em partes da Etiópia (Etiópia), mesmo após a ascensão Osiriana * – e a associação da rainha Etíope Aso com Set pode ter sido uma forma de representar isso.

[* – Veja Massey, Gerald, Book of the beginnings, Vol. 2 [Livro dos Começos, Vol. 2] (London: Williams e Norgate, 1881), passim].

Outra figura interessante da mitologia é Andrômeda, a filha de Cefeu o Rei Etíope, que foi resgatada por Perseus de um monstro marinho e feita sua Rainha. Perseus é considerado o ancestral fundador de Micenas [Mycenae], que foi a avançada proto-civilização Grega derivada em grande parte da Egípcio-influenciada Creta, que serviu de cenário aos grandes épicos Homéricos. A posterior, civilização grega “clássica” tomou seu ímpeto de Micenas. Andrômeda, a princesa Etíope e Rainha de Perseu, figura como o ancestral fundador de Micenas, apontando para um primordial antecedente Etíope da civilização Grega, rendido mitologicamente. *

[* – Veja Graves, Robert, The Greek Myths, [Os Mitos Gregos], Vol. 1 (New York: Penguin Books, 1955, 1977)., Pp. 237-245 e Snowden, Frank, Blacks in Antiquity [Pretos na Antiguidade] (Cambridge: Harvard University Press, 1970), pp. 152-154 para a discussão das origens Etíopes de Andrômeda.]

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Finalmente, existe a figura fascinante de Medeia, que era a filha do rei Cólquida [Colchian] Eetes [Aeëtes]. Heródoto nos informa que os Cólquidas [Colchians] eram uma colônia de Egipcio-Etíopes [Egypto-Ethiopians] que ele aduziu a partir de suas peles pretas, cabelo lanoso e tradições. *

[* – Heródoto, The Histories [Histórias], traduzido por A. de Selincourt (New York: Penguin Books, 1952, 1979), p. 167.]

Medea foi conhecida na antiguidade como uma mestra das artes mágicas e na legenda do Tosão de Ouro, Jasão é capaz de obter o Velocino de Ouro e fazer bem a sua fuga pela virtude dos poderes de Medeia. Existe outro dado que aponta para as origens étnicas de Medeia: ela é sobrinha de Circe, a quem Ulisses [Odysseus] encontrou em suas andanças, e Circe, também uma mestra de magia, é representada em vasos Gregos como uma mulher Preta. *

[* – Snowden, op. cit., pp. 155, 161. A influência aqui é que, se Circe era uma mulher Preta, e ela é assim representada artisticamente, então assim deve ter sido Medeia, sua sobrinha.]

Com relação às rainhas históricas em discussão, há alguns pontos gerais a serem feitos. No Egito, com a exceção notável de Hatshepsut [Hapshetsut], as mulheres tornavam-se poderosas e influentes em virtude de suas posições como consortes ou “Grandes Esposas” dos faraós. Esta observação não pretende diminuir a posição das Grandes Esposas faraônicas porque o seu papel na sucessão matrilinear assegurava-lhes de enorme prestígio, permitindo à algumas igual e até mesmo sobrepor a seus maridos em posição e poder. No entanto, as mais importantes das rainhas Etíopes que estamos considerando eram governantes independentes; seus maridos eram consortes para elas.

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Estas rainhas controlaram a administração civil, lideraram exércitos contra inimigos militares, promoveram comércio e relações diplomáticas de longa-distância e se envolveram em massivos programas de construção. Em todos os sentidos, elas exerceram as plenas prerrogativas e poderes de regência. Tais regentes mulheres independentes são encontradas em toda a África no tempo e no espaço e é nossa afirmação que essa freqüência relativa do reinado das rainhas [queenship]- comparada com outras partes do mundo – reflete os padrões matriarcais persistentes na África através do curso da história. Como seremos capazes de mostrar neste artigo, mesmo onde a realeza [kingship] foi bem estabelecida, a rainha-mãe [queen-mother] nestes estados Africanos figurou como o segundo indivíduo mais proeminente e politicamente importante na nação. Era através dela que Reis Africanos, na Etiópia e em outros lugares, derivavam suas reivindicações legitimadas ao trono.

Uma clara deferência sempre foi paga à rainha-mãe, que fortalece o argumento de que durante a maior parte da história Africana, as mulheres tiveram importantes, às vezes predominantes, papéis a desempenhar na política e no governo.

Nosso período sob discussão engloba cerca de 2.000 anos – 1000 A.C. – 1000 D.C.. Nós vamos começar com a história de Makeda que, através de seu filho Menelik, é considerada a fundadora da linhagem Salomônica [Solomonid line] de Reis Etíopes. Nós iremos, então, examinar as Kentakes de Cush que escreveram um capítulo brilhante nos anais da Realeza Africana. Finalmente, vamos considerar a figura de Judith, que pode ter sido a mais potente rainha-guerreira na história Africana.

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                                          Makeda, A Rainha de Sabá

A Etiópia tem sido rotulada como uma terra de muitas fábulas e lendas. Os nomes de Preste João, Ezana, Menelik I, Theodore Raday, e os Beta-Israel são nomes familiares nestas lendas. Mas um nome que tem capturado as imaginações de historiadores, poetas, dramaturgos e exploradores é aquela de Makeda, a lendária rainha de Sabá. *

[* – Joseph E. Harris, editor de Pillars in Ethiopian History [Pilares em História Etíope] a qual é uma compilação das notas de William Leo Hansberry, escreveu: “A história da Rainha de Sabá é uma das lendas mais onipresentes e convincentes na história. Ela foi perpetuada em várias partes do mundo na literatura, música, e pinturas (Henry VIII de Shakespeare, poemas de Lascelles Abercrombie, Rudyard Kipling e W.B. Yeats, peças musicais por Karl Goldmark, C.F. Gounod, e G.F. Handel;  pinturas Européias e Persas; e o quadro [Tableau] Etíope que retrata a história em quarenta – e -quatro vívidas figuras). “]

Existem numerosos fragmentos de informações relativas à lendária Rainha de Sabá, que também foi chamada de Belkis no sul da Arábia. Josefo, o historiador Judeu, chamou-a de rainha do Egito e Etiópia. A Rainha Makeda também foi uma grande administradora, construtora, e estadista internacional. A sua vida representa firmemente a maneira pela qual o matriarcado co-existiu na África lado – a – lado com o patriarcado.

A dinastia a qual Makeda pertencia, segundo a tradição, foi estabelecida na Etiópia em 1370 a.C.. Esta foi instituída por Za Besi Angabo e durou 350 anos. O avô e o pai de Makeda foram os dois governantes desta dinastia. Seu irmão, o Príncipe Noural, aparentemente morreu em uma idade precoce e a Princesa Makeda tornou-se a herdeira ao trono de seu pai. Os povos Africanos levam a sério a educação dos filhos e os pais de Makeda não foram diferentes. Makeda observou todos os assuntos de Estado enquanto ela crescia para a maturidade. Sua mãe especialmente, a Rainha Ismenie, muito apropriadamente preparou Makeda para seu eventual papel como Rainha da Etiópia.

Em 1005 a.C., o pai de Makeda de seu leito de morte nomeou-a para sucedê-lo. Como Rainha do império Etíope, Makeda governou seu país com justiça, fortaleza e sabedoria durante 50 anos. Diz a tradição, que a área de terra que ela regeu foi bastante extensa e, embora nem sempre seja possível separar lenda de realidade, as várias terras atribuídas a seu império incluíam partes do Alto Egito, Etiópia, partes da Arábia, Síria, Armênia, Índia, e toda a região entre o Mediterrâneo e o Mar da Eritréia. *

[* – John D. Baldwin, o historiador antiquário, escreve em seu livro Pre-Historic Nations [Nações Pré-Históricas]. “Ao mesmo tempo, como os antigos Gregos dizem, o termo ‘Etiópia’ era usado para descrever não só a Arábia, mas também a Síria, Armênia, e toda a região entre o Mediterrâneo, que significa o Oceano Índico e o Golfo Pérsico”, p. 61.]

Por esta tradição, a Índia e o sul da Arábia constituíam o metade oriental do império de Makeda enquanto a sede de seu poder estava no que foi mais tarde conhecido como Axum. O reino Iemenita de Himyar também reconheceu sua soberania. A historiadora Margaret Shinnie, escrevendo sobre os habitantes de Axum, diz-nos:

O mais poderoso dos vizinhos de Cush foram os Axumitas, as pessoas do extremo sul da Arábia que tinham se estabelecido através do mar a partir de sua pátria e fizeram um reino na costa ocidental do Mar Vermelho – o Reino de Axum. *

[* – Shinnie, Margaret, Ancient African Kingdoms [Antigos Reinos Africanos] (London: Edward Arnold Publishers, N.D.), p. 30. Também, o estudioso Hebreu-Israelita, Rudolph Windsor escrevendo sobre a população do sul da Arábia – incluindo Axum – escreveu,: “Haviam muitas tribos Etíopes (Etíopes) vivendo nas seções do norte, oeste e sul da Arábia. Os Árabes tiveram uma longa história de intercurso com os Etíopes na península da Arábia e com os Etíopes através do Mar Vermelho no continente da África . . . É um fato conhecido que havia Etíopes habitando a Arábia no norte, sudoeste, e o sudeste. É óbvio que os Etíopes habitaram partes vitais da Arábia antes do nascimento dos progenitores dos Árabes, Raamá, o filho de Cush, foi o pai dos Cushitas Sabá e Dedã (Gen. 10: 7) cerca de 2300 a.C.. A tribo de Raamá se tornou em comerciantes notáveis (Ez. 27:22), Os descendentes de Raamá viviam no sudoeste da Arábia, e os descendentes de Havilá residiam no sudoeste da Arábia, que é o Iêmen. Este Havilá era um filho de Cush. Além disso, Cush foi o patriarca de todas as tribos Etíopes na Babilônia, Arábia, Índia, e no Rio Nilo”.  Windsor, Rudolph, From Babylon to Timbuktu [Da Babilônia Para Timbuktu](New York: Exposição Press, 1969), p. 37.]

Há alguns escritores que teorizam que este reino lendário de Sabá se estendia até mesmo para além da Arábia e Índia. Arnold Heeren, escrevendo em meados do século 19, declarou que os Etíopes da Arábia ganharam extensivo controle na Índia e podem até mesmo ter se estabelecido nas costas do Hindustão. *

[* – Baldwin, op. cit., p. 62.]

O que quer que nós possamos pensar disso, é instrutivo que a tradição, pelo menos, dá a Makeda domínio sobre um vasto império. Nós podemos pelo menos dizer que ela governou um substancial estado-nação e pode ter exercido controle sobre terras mais distantes que deram a seus domínios o status de um império.

A fim de governar seu império, era necessário para Makeda se envolver em um intenso comércio para garantir a sua sobrevivência econômica. A sua astúcia como uma mercante comercial é notada pela ousadia de suas relações nos mercados de Damasco e Gaza. A rede de comércio que ela organizava era tanto por terra quanto por mar e era efetivamente ocupada por vigilantes comerciantes Etíopes. O líder destes comerciantes era Tamrin, que é descrito no Kebra Negast como um homem sábio. Tão grande era a sua experiência no comércio que ele utilizava 520 camelos e 370 navios carregados de riquezas do império da Rainha Makeda. Os comerciantes de Makeda são aptamente descritos em Ezequiel 27: 22-24, que diz:

Os mercadores de Sabá e Raamá eram os teus mercadores; em todos os seus mais finos aromas, em toda a pedra preciosa e ouro, negociaram nas tuas feiras.
Harã, e Cane e Éden, os mercadores de Sabá, Assur e Quilmade negociavam contigo.
Estes eram teus mercadores em roupas escolhidas, em pano de púrpura, e bordados, e em cofres de roupas preciosas, amarrados com cordas e feitos de cedros, entre tua mercadoria.
” – Ezequiel 27:22-24

Por causa das grandes relações comerciais que a Rainha Makeda estabeleceu, é possível que tenha havido até mesmo, em 985 a.C., uma expedição Chinesa para a terra de Sabá. *

[* – Existe outra evidência dos restos da rede de comércio da terra de Sabá. Herbert Wendt, em seu importante trabalho, It Began in Babel [Tudo Começou em Babel] (p. 109), escreve: “Mais confiável do que esses contos lendários são as relações econômicas entre os Sabeus [Sabaeans] e as clássicas Terras – de – Especiarias de além Índia e Indonésia. Exploradores Gregos, nos dias de Alexandre, encontraram numerosas bases Árabes ao longo da costa de Especiarias, com nomes como Zabae, Sabana, e Sabara, que indicam que estas portos e indústrias foram fundados por Sabeus [Sabaeans].” Makeda era a Rainha destes Sabeus Cushitas.]

Makeda

A evidência da extensiva rede de comércio de Makeda, contudo, permanece fragmentária.

Um aspecto da vida de Makeda que tem sido negligenciado é suas façanhas como uma construtora. No Livro de Axum [Book of Axum], está registrado que quando ela subiu ao trono da Etiópia, Makeda construiu seu Capitólio em Debra Makeda ou “Monte Makeda.” John Henrik Clarke disse: “Debra Makeda mais tarde se tornou um ponto de encontro para os primeiros Cristãos da Etiópia.” *

[* – Clarke, John Henrik, “New Introduction“,  in The Cultural Unity of Black Africa [“Nova Introdução”, em A Unidade Cultural da África Preta], por Cheikh Anta Diop (Chicago: Third World Press, 1978), p. VI.]

John D. Baldwin teve isto a dizer sobre um dos projetos de construção de Belkis-Makeda:
Hamza de Isphan diz: Os Himiaritas relatam que Belkis, tendo-se tornado Rainha, construiu em Saba o dique chamado Arim. Os outros habitantes do Iêmen disputam isto, e sustentam que o dique Arim foi construído por Lokman, o segundo filho de Ad: e eles dizem que o tempo, tendo-o trazido para uma condição de deterioração, Belkis, em se tornando Rainha, reparou os danos que ele tinha sofrido. *

[* – Baldwin, op. cit., p. 85.]

J.A. Rogers, escrevendo em 1946, relatou, “Há alguns anos atrás, seu túmulo, bem como as ruínas de um grande templo e vinte e dois obeliscos de seu período, foram escavados em Axum. *

[* – Rogers, J.A., World’s Great Men of Color [Grandes Homens de Cor do Mundo], Vol. 1 (New York: Helga Rogers, 1946), p. 86.]

Estes exemplos fornecem algumas dicas [insights] sobre as construções realizadas por Makeda durante seu reinado como Rainha da Etiópia.

A maior parte da atenção dada à história de Makeda tem-se centrado em torno de sua lendária visita ao Rei Salomão, o terceiro Rei de Israel. Alguns dos fatos importantes relacionados com a visita foram obscurecidos pelo romance que surgiu em torno destes dois soberanos. Quando a rainha Makeda tomou conhecimento do Rei Salomão através de seu comerciante chefe, Tamrin, ela decidiu sobre uma visita a Jerusalém. A sua visita pode ter sido para negociar um acordo comercial com Salomão, uma vez que ele pode ter controlado algumas rotas comerciais que eram importantes para os Sabeus. Assim, é interessante especular sobre os motivos para a visita não geralmente considerados nos tratamentos convencionais da história. Uma coisa que podemos supor com segurança, é que o império que Makeda governou era, no mínimo, tão importante como o de Salomão, e se qualquer uma das tradições sobre a extensão e o alcance do império estão ainda parcialmente corretos, ela governou um reino ainda mais substancial e mais importante do que o de Salomão.
A versão Bíblica da história é dada em 1 Reis 10 e 2 Crônicas 9.
Diz-se que Makeda “veio para prová-lo com perguntas difíceis” que podem facilmente ter sido tanto questões de natureza política, diplomática, ou comercial, quanto perguntas para testar sua sabedoria. Em 1 Reis 10: 2, nos é dito que “ela disse-lhe tudo o que tinha no seu coração”, o que, novamente, pode se referir a algumas sérias discussões sobre assuntos de Estado. Há quem veja nos 120 talentos de ouro dados por Salomão para Makeda, um acordo comercial ou diplomático. Essa soma seria avaliada hoje em $ 4 milhões.

O nível de hospitalidade concedida à Rainha de Sabá por Salomão era um tributo a sua posição e influência. Salomão preparou um apartamento, construído de cristal do chão ao teto, para ela residir. Ele também ele tinha um trono colocado logo ao lado do seu, que era coberto com seda, franjas de ouro e prata, e cravejado com diamantes e pérolas. Festas deslumbrantes em salões perfumados com mirra, gálbano, e incenso foram esbanjados sobre a Rainha da Etiópia. Salomão foi terrivelmente apaixonado por esta Rainha e um caso de amor se seguiu; o que levou ao nascimento de seu filho Menelik, quem se tornou o primeiro Rei da linhagem Salomônica de Reis Etíopes. Esta linhagem durou, com uma interrupção de 300 anos, até a deposição de Haile Selassie, em 1974. A história do próprio Menelik é realmente um capítulo que está, no entanto, além do escopo deste artigo.

De acordo com a Escritura, a Rainha Makeda alcançou seu objetivo em sua visita a Jerusalém. Está escrito em 2 Crônicas 9:12, “O Rei Salomão deu à Rainha de Sabá tudo o que ela quis e pediu, além dos presentes que lhe deu em troca dos que ela trouxera ao Rei. Então a Rainha e os seus servidores voltaram para Sabá, a sua terra.” Um acordo de comércio, relações diplomáticas, e, possivelmente, uma aliança militar podem ter sido uma das coisas dadas por Salomão para Makeda.

Após seu retorno à Etiópia, Makeda governou até que ela abdicou em favor de seu filho Menelik. Mas ela permaneceu como conselheira do seu filho até sua morte em 955 a.C.. Seu lugar na história está assegurado e ela permanece como um protótipo de todas as posteriores grandes Rainhas da Etiópia.

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As Rainhas da Cush Napatana e Meroítica

The Queens of Napatan and Meroitic Cush

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No começo de nossa discussão, nós mencionamos o papel das Grandes Esposas no reinado faraônico do Egito [pharoanic kingship of Egypt]. Elas foram amiúde muito proeminentes na história dinástica e devido ao fato de que a linhagem de faraós era geralmente traçada através delas, elas legaram um elenco matriarcal para o reinado faraônico. Isso não altera o fato de que a regência no Egito era decididamente patriarcal em quase todos os outros aspectos importantes e neste ponto diferiam significativamente da civilização cognata para o sul, Cush.
Em Cush, a instituição real da “Kentake” ou “Rainha-Mãe” era bem estabelecida. A Kentake exerceu uma autoridade e um grau de poder político raramente desfrutado por sua contraparte no Egito.
Durante o período Meroítico na história de Cush, sua autoridade e influência tornaram-se tão penetrantes que ela foi capaz de assumir a regência independente, dando origem a uma linhagem de regentes conhecidas na história como as “Candaces”, uma Latinização da palavra “Kantake”.
Estritamente falando, todas as mães dos reis na história de Cush eram Kentakes, mas o título de Candace foi aplicado a apenas quatro – alguns dizem que cinco – destas mães-rainhas que se tornaram governantes independentes.

Ao contrário dos exemplos fabulosos de Hatshepsut durante a 18ª dinastia do Egito, a adesão destas rainhas Meroíticas às suas posições como governantes independentes não implica qualquer coisa como uma “revolução palaciana”. Eles estiveram legitimamente exercendo o poder por séculos e sua ascensão ao trono em tempos Meroíticos (300 A.C. – 300 D.C.) foi uma conseqüência natural de suas inatas habilidades e poderes.
Deve-se salientar que pelo momento que Meroe se tornou a capital de Cush, o país havia se afastado significativamente da difundida influência Egípcia e tinha começado a evoluir em uma forma que devia mais aos seus antecedentes tipicamente Africanos. *

[* – Hakem, AA, “A civilização da Napata e Meroe” [“A Civilização de Napata e Meroe”], na História Geral da África da UNESCO, Cap. 11, vol. 2, editado POR G. Mokhtar.. (Berkeley: University of California Press, 1981), pp 298-325]

Assim, o inconfundível padrão matriarcal na sucessão real da Cush Meroítica, como distinto do Egito, foi devido a um fortalecimento da base Africana da cultura Meroítica.

A partir de cerca de 800 A.C. – quando Cush primeiro começa a fazer uma aparição importante no palco da história mundial – até 300 A.C., a capital de Cush foi localizada em Napata. Por volta de 750 A.C., as dinastias Napatanas de Cush sob Piankhy e seus sucessores imediatos deram um grande salto adiante para o palco mundial por sua pacificação e reunificação do Egito. Nesta conjuntura na história, aquela parte do Alto Egito ao sul de Tebas havia se tornado uma parte de Cush, mas o resto do Egito havia se desintegrado em pequenos reinos mutuamente conflitantes. Não podemos nos aprofundar neste capítulo da história Egípcia em qualquer detalhe, mas basta dizer que quando Piankhy comprometeu-se a reunificar o Egito, ele não foi encarado como um usurpador ou conquistador estrangeiro, mas sim como um libertador. Como um dedicado e devoto seguidor de Amon-Ra, a sua intercessão foi, pela maioria, bem-vinda. Com a entrada dos reis de Cush para a história Egípcia nós temos a inauguração da 25ª ou dinastia ‘Etíope’ de Faraós. A 25ª dinastia provocou um renascimento em uma cultura Egípcia outrora moribunda, com algumas das mais vigorosas construções de monumentos e de arte do Egito emergindo nesse período. Há evidências também de um programa de comércio e exploração a nível mundial [world-wide] que foi iniciado durante a 25º dinastia. *

[* – Veja Van Sertima, Ivan, They Came Before Columbus [Eles Vieram Antes de Colombo] (New York: Random House, 1977) para argumentos em favor de viagens Egipto-Nubias para a Meso-América na época da 25ª dinastia.]

Como nós iremos ver, as Kentakes desempenharam um papel essencial nesta dinastia Egípcia única.
A civilização Cushita do século 8 A.C. foi completamente Egipcianizada no que diz respeito à linguagem, escrita, arte, vestuário, e religião. De certa forma, eles pareciam mais Egípcios do que os Egípcios. Assim, quando a 25º dinastia trouxe ordem e estabilidade para o Egito, os reis de Cush não efetuaram quaisquer alterações extraordinárias. Pelo menos, em certa medida, isto se aplica também para o papel das mulheres. No que diz respeito a esta dinastia, Jean Leclant nos informa:

Na parte Sudanesa do império as comitivas de Kushitas freqüentemente incluíam suas mães, esposas, irmãs . . . Isto não era assim no próprio Egito. . . *

[ * – Leclant, Jean, “The Empire of Kush: Napata and Meroe
(“O Império de Kush: Napata e Meroe”), em Mokhtar, op. cit., p. 283.]

Aparentemente, as dinastias Napatanas do Egito estavam observando os costumes locais, a este respeito. No entanto, em outro aspecto muito importante, eles parecem ter desviado significativamente da tradição local. Começando com Piankhy, os faraós da 25ª dinastia tornaram uma prática instalar seus parentes do sexo feminino como as sumo-sacerdotisas de Amon em Tebas [High-priestesses of Amon at Thebes]. Não havia nenhum mero cerimonialismo sobre isso pois, como Leclant diz sobre estas “Votaresses divinas”
[“Divine Votaresses”] * do Amon Tebano:
[ * – ‘Votaress’ = Mulher dedicada a uma causa]:

Concedidas com privilégios quase-reais, as Amenirdises e as Shepenoupets formaram uma espécie de dinastia paralela com sucessão de tia para sobrinha . . . *

[ * – Ibid.]

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Estas mulheres, trabalhando através de seus próprios primeiros-ministros, eram na realidade governantes do Alto Egito. Elas empreenderam massivas restauração e obras públicas em Tebas e em todo Alto Egito. Seus nomes estão na pontuação de monumentos, edifícios e estátuas e elas são retratadas tanto como sacerdotalistas e administradoras. Os faraós Cushitas governaram principalmente de Napata e parecem ter tido a maior confiança em suas parentes femininas para governar o Alto Egito. Na verdade, haviam duas linhas destas sumo-sacerdotisas [high-priestesses], uma em Tebas e uma em Napata, e elas são designadas, respectivamente, “Senhora do Egito” (Tebas) [“Mistress of Egypt” e “Senhora de Cush” [“Mistress of Cush”]. Em Tebas, as sumo-sacerdotisas e suass sucessoras imediatas eram, sem dúvida, ligadas pelo sangue, como a citação acima indica, mas uma política foi promulgada – que foi continuada por gerações posteriores de rainhas Cushitas – pelo qual a sumo-sacerdotisa de Amon formalmente adotava sua sucessora como sua filha.

Então (Nimrod) enviou sua esposa . . . Nes-thent-nes, para suplicar às rainhas e concubinas reais, e às filhas e irmãs do rei. E ela se jogou prostrada na casa das mulheres [women’s house], diante das rainhas (dizendo) ‘Vinde a mim vós rainhas [‘pray come to me ye queens’]. . . apaziguem a Horus, o governador do Palácio (Piankhy). Exaltado é a sua pessoa, grande é o seu triunfo. Façam sua (raiva ser apaziguada ante) minha (oração); mais ele vai dar (sobre a morte do rei, meu marido, mas) ele é trazido abaixo! Quando terminou (o seu discurso, Sua Majestade) foi comovida em seu coração pela súplica da rainha. *

[ * – Buttles, Janet, The Queens of Egypt (London: Longman and Green, 1908), p. 204.]

Esta embaixada de súplica à Kenensat deve ter sido bem-sucedida porque a vida de Nimrod foi poupada e ele foi autorizado a permanecer em seu trono. Por um lado, a magnanimidade de Kenensat, e por outro, sua influência suave sobre Piankhy, destacam-se claramente na história desta dinastia mais incomum.

A primeira Sacerdotisa-soberana a ascender à posição de “Profetisa Chefe de Amon” [“Chief Prophetess of Amon”] e “Rainha de Tebas” [“Queen of Thebes”] é Amenirdas I, que era filha de Kashta – o pai de Piankhy – e Shepenapt ou Shepenoupet, uma princesa de Tebas. Amenirdas foi instalada por seu irmão Piankhy e, nas palavras de Janet Buttles, “era a soberana reinante do principado de Tebas, uma província que se estendia para o sul até Aswan, e tinha suas fronteiras ao norte em Tinis [Thinis] e Khemmis . . . ” *

[ * – Ibid., p. 207.]

Registros de seu reinado são encontrados em quase toda a extensão do Egito, de Assuão [Aswan] até Mênfis [Memphis], e por qualquer medida, ela deve ter sido uma governante ágil e vigorosa. Numerosas estátuas, estatuetas e outros representações pictóricas dela foram preservadas, bem como uma série de itens de sua propriedade pessoal.

A sucessora de Amenirdas foi Shepenoupet, a homônima da princesa Tebana que fora a mãe de Amenirdas. Algumas autoridades afirmam que ela era a sobrinha de Amenirdas, que esta última a adotou como sua filha; outros afirmam que ela era, realmente, a filha de Amenirdas. Em qualquer caso, o ofício era passado adiante através da linhagem feminina. Igualmente ela e sua sucessora imediata, também chamada Shepenoupet – há incerteza sobre isso – ocuparam a posição de Profetisa de Amon [Prophetess of Amon] durante o período do fim da 25ª dinastia e a ascensão da 26ª dinastia. A Shepenoupet reinante, apesar da conquista Assíria do Egito, manteve seu domínio sobre a sua posição em Tebas e, com a ascenção da 26ª dinastia sob Psamético [Psamtek], casa-se com o novo Faraó. É importante ter em mente que a dinastia Cushita de faraós Egípcios foi a linhagem legitimista, e não uma linha de usurpadores. Assim, Psamético [Psamtek], o fundador da dinastia Saíta [Saitic] ou 26ª, teve de legitimar sua própria posição casando-se com a última representante feminina remanescente da dinastia Cushita (25ª), Shepenoupet, Profetisa Chefe de Amon e Rainha de Tebas [Chief Prophetess of Amon and Queen of Thebes].

 

figura 6 amenirdas

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Psamético [Psamtek] não fez nenhuma tentativa de minar o poder e a autoridade de Shepenoupet durante sua vida embora ela foi compelida a adotar uma filha dele como sua própria. Sua própria relação de sangue, Amenirdas II – que era ou sua filha ou sobrinha – aparentemente morreu antes que pudesse herdar de Shepenoupet. Shepenoupet fica, assim, como a última da dinastia real de Cush que reinou no Egito e representa a ponte entre a 25ª e 26ª dinastia. Estatuários na semelhança desta Cushita Rainha de Tebas têm também chegado até nós. *

[ * – Leclant, Jean, “Kushites and Meroites: Iconography of the African Rulers in the Ancient Upper Nile.” (“Cushitas e Meroítas: Iconografia dos Regentes Africanos no Alto Nilo Antigo.”) In The image of the Black in Western Art, Chap. 1, Vol. 1 (Switzerland: Menil Foundation, 1976), p. 115.]

figura 7 amenirdas

amenirdis I

figura 9 - esfinge de shepenoupet

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As inscrições revelam-nos outra das mulheres da realeza Cushita que fazem parte da 25ª dinastia. A mãe de Taharqa, Abar (abale) figura muito proeminentemente em sua estela. Taharqa, que alguns consideram o mais talentoso dos faraós da 25ª dinastia, nos informa que, até os seus 21 anos, ele viveu com a parentada real [royal brood] sob os cuidados de sua mãe Abar, também conhecida como a “Esposa Divina de Amon” e a “Mãe Real” [“Divine Wife of Amon” and “Royal Mother”].

Taharqa, quando ele ainda era muito jovem, subiu ao trono do império Egípcio-Cushita. Ele inscreveu cuidadosamente em sua “estela da coroação” como sua mãe, a rainha Abar, veio rio abaixo a partir de Napata para oficiar em sua coroação, dando-nos assim uma visão valiosa sobre o papel da Rainha-Mãe ou Kentake. A realeza Cushita era eletiva e a Kentake tinha um papel decisivo na escolha do rei dentre os vários príncipes reais elegíveis. A herança real nunca passava para a próxima geração até que todos os príncipes elegíveis da geração reinante tivessem morrido. Assim, quando Piankhy morreu, seu irmão Shabaka herdou o trono antes de este ser passado para Taharqa após a morte de Shabaka. A reivindicação legítima de Taharqa ao trono foi derivada de sua mãe por isso não é de admirar que ela é seja a chefe oficiante da sua coroação.

A esposa de Taharqa era sua “irmã real” [“royal sister”] Amendukhat. Infelizmente, não se sabe muito sobre ela, mas como a esposa de um rei sitiado pelos Assírios, ela deve ter, nas palavras de um escritor, “passado por algumas cenas difíceis.” Igualmente obscura, embora nós tenhamos uma representação pictórica dela, é Qalhata, a mãe (alguns dizem a irmã mais velha) do sucessor de Taharqa Tanutamun, o último faraó da 25ª dinastia. *

[* – Ibid., p. 100.]

Qalhata recebeu o cognome, “Senhora de Cush” [“Mistress of Cush”] e uma outra parente do sexo feminino de Tanutamun, Gerarheni, reivindicou o título de “Senhora do Egito” [“Mistress of Egypt”].

Em nosso olhar para a 25ª dinastia, podemos ter uma noção da proeminência real ambas política e religiosamente, das rainhas de Cush durante este período. Elas pareciam exercer poder que era quase sem precedentes nos registros Egípcios e são instrumentais, mesmo depois de Cush ser retirada do Egito, na transição para a 26ª dinastia.

Em nosso olhar para a 25ª dinastia, podemos ter uma noção da proeminência real ambas política e religiosamente, das rainhas de Cush durante este período. Elas pareciam exercer poder que era quase sem precedentes nos registros Egípcios e são instrumentais, mesmo depois de Cush ser retirada do Egito, na transição para a 26ª dinastia.

Nós começamos a reconstituir, pelo menos em certa medida, a maneira pela qual as Kentakes exerciam o seu próprio poder real. Na história da Etiópia posterior à 25ª dinastia, o papel e a posição da Kentake vieram a ser exemplificados em outra importante maneira: a prática de adotar formalmente a sua nora [her daughter-in-law], a Grande Esposa do rei. Vemos antigas analogias a este costume com as sacerdotisas-soberanas de Tebas na 25ª dinastia, mas na fase Napatana da história Etíope, a prática de casamentos reais irmão-irmã não exigiriam este costume com relação à casa real. Na história Etíope posterior, no entanto, houveram reis que, aparentemente, se casaram fora da família imediata. Então tornou-se essencial, como uma forma de manter a linhagem feminina de sucessão real, institucionalizar essa prática de adotar a nora real [royal daoughter-in-law] de um dos reis Napatanos posteriores:

 . . . Nasalsa adotou Madiqen, esposa de Anlamani, que logo morreu e foi sucedido por seu irmão Aspelta cuja esposa Henuttskhabit foi adotada por ambos Nasalsa e Madiqen. *

[* – Hakem, op. cit., p. 303.]

Esta prática teve o efeito de fortalecer e estabilizar o poder e a influência da Kentake e da casa real em geral, como testemunhado pela notável ausência de conflitos políticos nos 1000 anos da história de Cush. Além disso, este processo permitiu à Kentake, na posterior fase Meroítica da civilização Etíope, governar em seu próprio direito, sem oposição ou interferência de ninguém.

Outro importante indicador do poder, prestígio, e posição das mulheres da realeza de Cush, seja como Kentakes ou Grandes Esposas, é a forma como elas são representadas na iconografia de Cush. No Egito, há elegantes estátuas das sacerdotisas-soberanas da 25ª dinastia Cusho-Tebana, Amenirdas e Shepenoupet, além de uma série de relevos e inscrições que as descrevem em suas funções sacerdotais e administrativas. *

[* – Leclant, op. cit., p. 111.]

Qalhata, mãe de Tanutamun, é retratada em um mural em El Kurra mostrando ela sendo conduzida por duas divindades. Como outras Kentakes, ela foi enterrada em sua própria pirâmide. *

[* – Ibid., p. 100.]

A relação das mulheres da realeza com o rei da Etiópia é frequentemente retratada em relevos e murais em monumentos e tumbas. No que parece ser uma pose padrão para os monarcas da Etiópia, Aspelta é mostrado com sua mãe e irmã-esposa que estão cada derramando uma libação de um vaso na mão direita e carregando um sistrum, um instrumento sagrado, na esquerda. *

[* – Budge, E. A. Wallis, A History of Ethiopia, Vol. I (London: Methuelen & Co., 1928), p. 44.]

As estelas de Hersatef, Nastasen, e Natakamani, que foram recuperadas, retratam a mesma pose exata: o rei presidindo alguma função ritual com a Kentake ou a Grande Esposa – ou ambas – ajudando-o a exercer as suas ministrações. Nastasen, que é de interesse para nós, porque ele foi fundamental para a derrota do autocrata Persa Cambyses que tentou invadir Cush, segue o exemplo de Taharqa e outros reis ao mostrar sua mãe oficiando em sua coroação. Através dela ele reivindicou sua herança.

Pela época Meroítica (após 300 a.C.) as Kentakes foram cada vez mais representadas isoladamente ou no primeiro plano em suas próprias estelas [obeliscos] e esculturas. Isto, obviamente, refletia sua emergência como soberanas independentes. Elas são algumas vezes retratadas com seus maridos mas são frequentemente mostradas com seus filhos, que amiúde herdavam diretamente a partir delas. Relevos datados em cerca de 170 a.C. mostram a Rainha Shenakdakhete ocupando o trono sozinha e, de fato, ela é a primeira reconhecida rainha Meroítica independente. Em uma interessante escultura de grupo, ela é representada estando no primeiro plano com seus filhos em assistência um pouco atrás dela. *

[* – Leclant, op. cit., p. 129.]

Além disso, vemos algumas das Kentakes na notável pose – uma convenção entre soberanos do Vale do Nilo desde os tempos pré-dinásticos – de apontar uma lança para cativos e inimigos militares [Spearing captives and military enemies]. A estela de Amanishakhete [Amanishakheto] é um excelente exemplo disso. *

[* – Budge, op. cit., p. 87.]

Como será visto, a Kentakes não se coíbiam de façanhas militares.

Há uma distinta linhagem de Kentakes soberanas na história Cushita – quatro das quais foram realmente designadas pelo título Greco-Romano “Candace” – que veio à tona no período Meroitico da história Cushita.

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Temos notado como com a transferência da capital de Napata para Meroe, em 300 a.C., Cush começa uma fase de desenvolvimento independente. Uma manifestação deste é o aumento do poder das Kentakes. Nós já mencionamos a Rainha Shenakdakhete que parece ter sido a primeira a ganhar a posse plena do poder real e que reinou entre 170-160 a.C. Que ela era a único governante de Cush nesta época pode ser inferido a partir do fato de que ela comandou todas as prerrogativas de sepultamento real que era reservado somente para o soberano. Depois dela, em várias fases, reinaram as quatro rainhas Meroíticas a quem a história conhece como o Candaces: Amanirenas, Amanishakhete, Nawidemak, e Maleqereabar. Pode ter havido outras Candaces ou Kentakes soberanas, mas ainda não foram identificadas. Duas coisas devem ser lembradas: (1) os dois terços superiores de Cush dificilmente têm sido tocados pelas pás da arqueologia, e (2) a escrita Meroítica [Meroitic script] permanece em grande parte indecifrada. Assim, ficamos com grandes lacunas em nosso conhecimento de Cush e suas instituições.

As Candaces eram construtoras vigorosas, erguendo magníficos palácios e tumbas para si mesmas como parte de prerrogativas consagradas pelo tempo. Particularmente em Naga [ou Naqa], ao sul da capital, estátuas e edifícios construídas pelas Candaces são abundantemente evidentes. Um dos monumentos de Shanakdakhete em Naga contêm o mais antigo dos hieróglifos especificamente Meroíticos. De fato, a era das Candaces parece ter dedo início a uma revitalização arquitetônica porque alguns dos mais belos monumentos e edifícios de Cush aparecem nesta época. As atividades de construção de Amanishakhete e Amanirenas especialmente, produziram alguns dos melhores exemplos da arte e arquitetura Meroíticas.

Um dos episódios mais famosos da história Cushita é o encontro militar entre a legião de Augusto César sob Petronius e os exércitos da Candace reinante, que alguns pensam que foi Amanirenas. O relato mais vívido desses combates é dada por Estrabão, escrevendo em 7 A.C., mas Plínio também produziu uma versão. Os Romanos, que em 30 A.C. haviam feito a si mesmos mestres de todo o Egito de Alexandria a Philae, quase que imediatamente entraram em conflito com a Candace Cushita, particularmente como os Romanos pareciam empenhados em estabelecer o seu domínio sobre o território que tradicionalmente pertencia a Cush. Seguindo o relato de Estrabão, em algum momento entre 29-24 A.C., o exército Cushita cruzou a fronteira com o Egito, atacou as cidades de Philae, Syene, e Elefantina, desbaratou as guarnições Romanas lá, e destruiu estátuas de César. Os Romanos reagiram rapidamente: sob o prefeito Petronius, legiões Romanas invadiram Cush, derrotaram seus exércitos, saquearam suas cidades, e arrasaram Napata. No entanto, a Candace esquivou-los e até mesmo se ofereceu para fazer a restituição pelo ataque Cushita no Alto Egito. Petrônio preferiu ignorar estas embaixadas, mas percebendo que a sua posição era precária tão longe de suas bases e que uma maior penetração em Cush convidava o desastre, ele se retirou. Ele fortificou uma guarnição Romana em Premnis na Baixa Núbia [Lower Nubia] e voltou para Alexandria. À maneira dos exércitos Cushitas por 3.000 anos, assim que Petrônio voltou para Alexandria, a Candace deu a ordem para o seu exército para marchar contra Premnis. Petronius, quando informado da situação, rapidamente voltou com suas legiões para Premnis, realmente chegando lá antes da Candace. Os dois exércitos ficaram de frente para o outro em um impasse, mas foi alcançado um acordo no qual os embaixadores Meroíticos iriam para negociar com o próprio Augustus em Samos, no Mediterrâneo, o que eles fizeram. O resultado foi que os Romanos se retiraram de sua guarnição em Premnis e renunciaram ao tributo que eles tinham tentado impor sobre os habitantes da Baixa Núbia [Lowe Nubia] nos domínios da Candace. O relato de Estrabão, contado do ponto de vista Romano, descreve os Cushitas sob Candace ficando com o pior do encontro. *

[ * – Veja Budge, ibid., pp. 58-61 para uma síntese mais completa do relato de Estrabo.]

No entanto, Frank Snowden teve uma visão diferente do episódio:

As concessões de um imperador Romano à Candace Etíope deve ter resultado de um conjunto de circunstâncias diferentes daquelas descritas por Estrabão, que aparentemente estava exagerando o sucesso de Petrônio. . . É lamentável que uma inscrição, considerada uma versão Etíope da campanha e de uma vitória para a rainha Meroítica, ainda esteja em grande parte intraduzível. Tanto Estrabão quanto o Monumentum Ancyranum podem ter exagerado sucessos Romanos . . . À luz das dificuldades que os Romanos mais tarde experimentaram na mesma área. . . as concessões de Augustus em Samos provavelmente refletiram sabedoria.*

[ * – Snowden, op. cit., p. 133.]

Meroe, neste momento da sua história, era, e tinha sido por algum tempo, uma potência mundial. O episódio acima com seu resultado, em grande parte em favor de Meroe testifica isso. A Candace tinha embaixadores e consulados em todo o Império Romano.*

[ * – Ibid., pp. 134-5.]

Além disso, é provável, particularmente no que Candace controlava o comércio de bens de luxo da África – ouro, marfim, ébano, incenso, óleos raros, pedras semi-preciosas, peles de animais – que ela mantinha residências diplomáticas em todo o mundo conhecido. Há alguns que professam ver em Naga [ou Naqa], por exemplo – no nome “Naga” e em alguns da iconografia religiosa – a evidência de uma influência Indiana em Cush. Isto não é tão fantasioso: o célebre místico Apolônio de Tiana visitou um grupo de “Gimnosofistas” – suposto ser um grupo de missionários Budistas da Índia – em Cush, nos primeiros anos da era cristã. *

[ * – Veja Mead, G.R.S., Appolonius of Tyana (New Hyde Park: University Books, 1966), pp. 99-105, para o relato da permanência temporária de Apolônio com os “Gimnosofistas” da Etiópia.]

É justo supor que as Candaces governavam sobre um império que poderia e tratava com as outras grandes nações e impérios do mundo como um igual.

Estudiosos modernos nos informam que a primeira das Kentakes a exercer o poder soberano completo foi Shanakdakhete em 170 A.C. No entanto, Pseudo-Callistenes, em seu Alexander Romance [Romance de Alexandre] escrito no século 4 A.C., nos diz que Alexandre fez uma visita amigável à “Candace, a Rainha preta de Meroe” que foi relatada por ser uma “beleza maravilhosa” [“woundrous beauty”] *

35 [ * – Veja Snowden, op. Cit., pp. 177-8 e Hansberry, William Leo, Africa & Africans As Seen By Classical Writers, Vol. 2 of the African History Notebook, edited by Joseph E. Harris (Washington, D.C.: Howard University Press, 1977), p. 144.]

Existem várias razões pelas quais esta referência é significativa: (1) esta é talvez a mais antiga referência para as Candaces na literatura Greco-Romana e, portanto, esta mostra (2) que, mesmo Alexandre, certamente a personalidade mais imponente e dominante de seu tempo, respeitava Cush e suas rainhas suficientemente para render uma visita pessoal amigável (Salomão e Sheba em sentido inverso), e, finalmente, (3) que podem ter havido Kentakes independentes cerca de 150 anos antes de Shenakdakhete e, portanto, a linhagem de Candaces pode remotar a muito mais longe do que é geralmente admitido.

Finalmente, vale a pena considerar um episódio incomum na história do Cristianismo primitivo que lança uma luz interessante sobre esse período. Nos Atos dos Apóstolos, o primeira Gentil a converter-se ao Cristianismo é o ministro da rainha da Etiópia que encontra Filipe no Alto Egito e é batizado por ele. * Em certo sentido, este ministro de Candace pode ser considerado como o primeiro Cristão do mundo, porque até o momento da conversão dos Gentios, o que viria a se tornar o Cristianismo era nada mais do que uma seita Judaica reformista. Assim, a partir da côrte de Candace veio o primeiro Cristão do mundo.

[ * – Snowden, op. cit., p. 206]

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Nós apenas arranhamos a superfície do que há para se saber sobre o reino fabuloso de Cush e as Kentakes que governaram-lo. Cush representa a próxima grande fronteira da arqueologia Africana e quando a tarefa hercúlea de redescoberta for realizada, talvez possamos começar a compreender verdadeiramente a magnificência das Kentakes.

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A Rainha Falasha Judith
The Falasha Queen Judith

Devemos nos voltar para uma breve consideração de uma das figuras mais incomuns na história da Etiópia, a rainha Falasha Judite [Judith]. Infelizmente, os detalhes de sua vida e história são extremamente fragmentários, mas ela é de interesse para nós porque ela foi uma genuína conquistadora feminina. Outras líderes militares femininas notáveis na história Africana, como Candace e Nzinga [Nzingha], foram defensoras de seus respectivos países contra os invasores. Mas Judith parece ter realmente começado a guerra contra a dinastia Salomônica Axumita ou Abissínia [Axumite or Abyssinian Solomonid dynasty], levou-a para uma conclusão bem sucedida e, em seguida, reinou por 40 anos sem contestação. Os Solomônicos [Solomonids] permaneceram fora do poder por cerca de 300 anos depois, porque após Judith veio a dinastia dos Zagwes, por volta de 1000 D.C., que estavam etnicamente relacionados com Judith. *

[* – Budge, op. cit., pp. 213-15.]

Na verdade, há um debate sobre as origens étnicas de Judith ou mesmo se seu nome era “Judith.” Embora alguns descrevem-na como uma pagã, é geralmente aceito que ela era da religião Judaica quer seja por nascimento ou conversão. Afirma-se que ela era de origem Agau que se dizia ser um ramo dos Judeus Falashas. *

[* – Kessler, David, The Falashas (New York: Holmes & Meier, 1982), p. 79.]

O que é universalmente acordado é que ela era uma inimiga inveterada do Cristianismo e dos reis Salomônicos de Axum. Ela procedeu a conquistar Axum, tomar o trono, e em seguida, sistematicamente assolar todas as igrejas Cristãs, matando milhares de Cristãos no processo. Na História dos Patriarcas de Alexandria [History of the Patriarchs of Alexandria], é feita referência a uma carta do rei Axumita que suplicou ao Patriarca de Alexandria para enviar ajuda contra uma rainha guerreira anônima [unnamed] que estava assolando Axum. Nenhuma ajuda estava próxima porque Judith conseguiu conquistar toda Axum, trazendo assim ao fim uma dinastia de 2.000 anos. Isso é tudo o que sabemos de Judith. As Crônicas Etíopes oficiais, em sua maior parte, passam sobre seu reinado em silêncio. O que é lembrado são suas crueldades e depredações contra os Cristãos relatadas. Há ainda alguns manuscritos históricos Etíopes que não foram liberados para o mundo; se eles o forem, talvez nós vamos saber mais sobre esta surpreendente rainha guerreira. *

[ * – Veja Selassie, Sergew Hable, “The Problem of Gudit,” Journal of Ethiopian Studies, Vol. 10, No. 1, January, 1972, pp. 113-124 para extratos de uma não-publicada Crônica Etíope em Ge’ez que lida com Judith. ]

Epilogo

Esperamos que esta pesquisa irá fornecer alguma compreensão [insight] sobre um fenômeno da história cultural Africana que tem recebido pouca atenção. Praticamente em nenhum lugar tem surgido um tratamento sistemático e abrangente sobre a realeza (feminina) Africana [African queenship]. A história Africana é uma mansão com muitos quartos fechados e nunca a entenderemos corretamente até que este aspecto mais vital da mesma – o papel do matriarcado e da realeza (feminina) [queenship] – seja totalmente estudado e compreendido.

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As Fotos para este artigo foram fornecidas por Larry Williams.

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Pg. 36

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AS HÓRUS FEMININAS E GRANDES ESPOSAS DE KEMET
THE FEMALE HORUSES AND GREAT WIVES OF KEMET

Por Diedre Wimby

 



O principal e mais significativo fato a se ter em mente quando se lida com a questão das mulheres e a liderança em Kemet antiga (Egito) é simplesmente que havia igualdade entre homens e mulheres. A mulher tinha poder político, bem como uma voz geral na gestão do país, assim como suas irmãs em outras partes da África. A mulher tinha a oportunidade de deter um alto cargo e foi muitas vezes muito rica e próspera. Isso estava em contraste com a situação de sua contraparte, a mulher do Oriente Próximo e Ásia [Near East and Asia].

Várias mulheres da Kemet antiga governaram a nação inteira de tempos em tempos e, além disso, a linhagem real era determinada através do sexo feminino. Kemet é de longe a mais bem documentada das antigas nações africanas e os seus cidadãos do sexo feminino, provavelmente, tinham mais liberdade do que quaisquer outras mulheres no mundo antigo. Uma questão frequentemente levantada é por que o ofício de realeza não poderia ter sido ocupado de forma aleatória quer pela mulher ou pelo homem.
Este artigo vai lhe dar um breve relato das várias Horus femininas [female Horuses] (Horus – uma denominação de Rei, simbolizado por um falcão) e tenta responder a esta pergunta, olhando para as circunstâncias nas quais elas reinaram.

O regência de Kemet (Egito) era confiada exclusivamente ao sexo masculino; a própria natureza da realeza exigia isso. A ordem social Egípcia era concebida como uma parte predeterminada da ordem cósmica. O rei era dotado de poderes divinos e encarnava a força, vitalidade e autoridade das Naturezas [Natures]. No harmonioso universo Egípcio, o rei tinha um papel bem definido: era ele quem possuía os poderes mais vitais em todo o reino. Somente mantendo uma tal posição ele puderia agir como intermediário entre o homem e as forças cósmicas superiores. Sua posição e sua pessoa eram, portanto, sagradas [sacrosantas]. Sem a sua presença, o caos reinaria no meio dos poderes ontológicos. De acordo com esta ordem das coisas, quando o vis vitalis (força vital) do próprio rei diminuia, ele era obrigado a passar por um ritual de rejuvenescimento. Tal era o significado do Festival Sed.

A natureza da regência [kingship] é claramente expressa pelo Protocolo Real. “O Rei era chamado: Horus; Forte-Touro-surgido-em-Tebas; Horus de Ouro; Poderoso em Força; o Rei do Alto e Baixo Egito; Senhor das Duas Terras; Filho de Re.” [“Horus; Strong-Bull-arisen-in-Thebes; Gold Horus; Mighty in Strength; the King of Upper and Lower Egypt; Lord of the two Lands; Son of Re.”] *

[* – Para discussão, veja Gardiner, A.H. Egyptian Grammar.]

Assim era em todas as vezes preferível ter um homem, em vez de uma mulher, ocupando o trono de Kemet. E não estamos apenas discutindo aqui o ocupação de um trono, mas a própria dinâmica da regência [rulership]. Na ordem social Kemética apenas o sexo masculino era dotado com o dinamismo necessário. No entanto, o conceito Kemético de regência [rulership] não pode ser entendido pelo conceito Ocidental uma vez que, com muito poucas exceções (por exemplo, Ikhnaton) os poderes do soberano Kemético eram mais simbólicos do que reais. No entanto, ele não era uma mera figura representativa como o rei que encontra-se no Ocidente hoje. Poderíamos dizer que a sua autoridade real era mais parecida com aquela de um patriarca religioso Ocidental, do que com aquela de um rei Ocidental, tendo em conta que esta não é uma analogia perfeita.

Talvez as seguintes observações ajudarão a esclarecer este ponto.
Cada nação é, em certo sentido, uma extensão da família e do lar. Agora, as mulheres são particularmente bem adequadas para governar esta instituição, e, portanto, podem concebivelmente governar uma nação também. Mas este não era o tipo de governo pelo qual o rei Kemético era responsável. Sua única preocupação era antes a manutenção de Maat, ou seja, a ordem universal (em termos de justiça, etc.) através de sua divinamente dada capacidade para compreender e, se necessário, controlar as forças vitais do cosmos em, e para, sua nação e sua terra.

Parece então como se o conceito Kemético de regência [rulership] negasse categoricamente esta posição para as mulheres. Devemos notar, porém, que o cargo de rei sofreu certas alterações durante a longa história de Kemet. Havia, por exemplo, algumas circunstâncias específicas em que era mais conveniente ter uma mulher no trono. Se o Faraó morresse e não deixasse herdeiro do sexo masculino, então, a rainha teria permissão para governar até que uma nova dinastia podesse ser iniciada. Além disso, nos casos em que o único herdeiro legal do rei era jovem demais para assumir o cargo de seu pai falecido, a rainha consorte era esperada para governar até que ele atingisse a maturidade.

Pode-se sugerir que a regência de Kemet era uma situação equilibrada: o homem era a personificação da autoridade divina, a mulher a fonte de seu poder. Muitas vezes a descendência na família real era contada de acordo com a linhagem materna. O Dr. Cheikh Anta Diop propõe que a rainha era o guardiã da linhagem real. *

[* – Diop, Sheikh Anta. “Civilization ou barbarie” (“Civilização ou barbárie”), Présence Africaine (1981), p. 134.]

E isso é evidenciado pela natureza da transição da Terceira para a Quarta Dinastia. O Rei Seneferu casou com uma certa Hetepheres, uma princesa que representava uma herança direta do sangue real; foi somente por meio dessa união que ele foi capaz de adquirir o trono. Tal ocorrência parece ser explicada por alguma lei de sucessão matrilinear. Isso também pode ser o motivo porque alguns reis se casaram com suas irmãs. (Tais casamentos consangüíneos serão discutidos mais tarde.)

A Pedra de Palermo [Palermo Stone] lista os nomes das mães dos reis uma vez que era através delas que as dinastias se originavam. *

[* – O conceito de dinastia, isto é, filiação genealógica, é derivado a de Manetho; a lista dos Reis Keméticos não designa dinastias individuais.]

Ainda mais significativo é o fato de que a mãe do rei era dito ter sido impregnada pelo Ntr, a fim de que o Rei Divino pudesse ser trazido à luz, pois isso garantia sua natureza divina. Assim era a mãe chamada de “mulher de Deus” [“God’s wife”] no Novo Reino [New Kingdom]. Ela, também, era sagrada [sacrosanta].

As mães foram muitas vezes exaltadas pelos reis e nobres em seus monumentos, enquanto que o pai foi raramente mencionado. Esta é talvez uma boa indicação da natureza verdadeiramente matriarcal da governança Kemética [Kemetic rulership]. No entanto, não podemos ter certeza se ou não as pessoas comuns seguiam à nobreza nisto. Não obtante, neste sistema, as mulheres devem ter detido um grande poder, tinham uma voz definitiva no governo e uma influência direta sobre o rei. Mas para além disso, as mulheres governaram Kemet de tempos em tempos como únicas soberanas das Duas Terras [sole sovereigns of the Two Lands].
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Horus e Regentes Femininas
Female Horusses and Regents

A primeira atestada rainha-regente de Kemet foi Neith-hetep (Nt-htp), que significa “Neith está em paz”, Neith sendo um ntr feminino venerado na região do Delta, particularmente em Sais. Ela é considerada a esposa de Aha-Menes, o ilustre primeiro rei da Primeira Dinastia. *

[ * – Gardiner, History, p. 411.]

No túmulo de Aha-menes em Nagada foram descobertos várias tabuletas em que estava escrito o nome de Neith-hetep. Curiosamente, o nome dela é encerrado em um Serekh encimado pelo símbolo de Neith, um escudo com flechas cruzadas. Pouco, no entanto, pode ser determinado sobre as atividades deste rainha devido à falta de informação. Kaplong sugeriu que ela pode ter sido rainha-regente para Djer, seu tio, sendo ele muito jovem para assumir o reinado naquele momento. *

[ * – Kaplong, Inschriften III, Tf. 54; Abb. 201.]

É de particular importância para nós que este período tão significativo da história Kemética ostentou uma mulher regente. No entanto, ela não foi a única a reinar durante este primeiro período dinástico.

Talvez a rainha mais conhecida da época dinástica inicial foi Mer-Neith (mrt-Nt significa “amada de Neith”), Seu nome aparece na Pedra de Palermo como a mãe de Den. *

[* – à ser restaurada (H)rt (Nt) – BAR 1, p. 103.]

Kaplong sugere que Mer-Neith era a esposa de Wadj, quarto rei da Primeira Dinastia, e mãe de Den. Gardiner, seguindo Vandier, sugeriu que o casamento de Mer-Neith com este rei Tinita [Thinite] foi um casamento diplomático, cujo objetivo era promover boas relações com os habitantes do Delta. *

[ * – Vandier, History, p. 140; Gardiner, History, p. 112]

Toda a evidência aponta para o fato de que ela, de fato alcançou uma posição muito especial para uma mulher neste período. Assim como os reis das primeiras dinastias tinham, cada um, dois túmulos (um em Abydos no sul e outro em Saqqara, no norte) cercados por túmulos de retentores, assim teve a Rainha Mer-Neith. Há uma grande tumba em Abydos atribuída a esta rainha, em que foi descoberta uma estela de topo-circular [circular-top stele] com o seu nome inscrito em um Serekh. * Há também uma grande mastaba de Mer-Neith em Saqqara, onde foram descobertos objetos e tampas de jarros [jar sealings] que levam seu nome. Nas tampas de jarros o nome da rainha é escrito em um Serekh encimado por um Horus.

[ * – Vandier, op. cit., P. 140: Mer-Neith considère firent longtemps, etc.]

À luz deste fato, e considerando a existência das duas tumbas reais, norte e sul, e uma estela de topo circular [circular-top stele] para ela, parece que ela pode ter sido de fato uma Horus reinante. Para normalmente só um rei tinha o seu nome em um Serekh encimado por um Horus (Falcão). Edwards sugere que ela serviu como regente, talvez enquanto seu filho Den ainda era menor de idade, e morreu antes de renunciar ao cargo. Tal posição, segundo ele, só poderia ter sido mantida por uma mulher que fosse uma rainha também. * Ele chama ainda mais a atenção para uma inscrição que faz alusão a seu tesouro, e com razão considera que esta é mais uma prova de seu status soberano.

[ * – Cambridge, Edwards, E.D.E., pp 20-21.]

Ela deve ter sido uma mulher muito poderosa comandando um grande respeito: a esposa de um rei, a mãe de outro. Pode-se, talvez, detectar algo de sua eminência a partir da ação do sucessor de Den, Semerkhet, quem, por medo dela, fez com que tanto o seu nome quanto o de Den fossem apagados de seus monumentos. É lamentável não saibamos mais sobre ela. Ela é conhecida apenas por alguns objetos inscritos. Se ela chegou ou não ao poder em seu próprio direito como uma Hórus legítima, ao invés de como uma regente, não pode ser determinado a partir das informações disponíveis apenas. No entanto, a sugestão de Edwards tem algum mérito, mesmo que não seja de forma alguma a última palavra sobre o assunto. O falcão Horus sobre o seu serekh é a marca da soberania legítima. Ela é a primeira Horus feminina conhecida na história Kemética.

A Sexta Dinastia viu um aumento no poder da aristocracia. Autoridades locais tornaram-se menos dependentes do rei, esses monarcas estabeleceram seu poder em vários nomos. O segundo rei da Sexta Dinastia, Pepi I, subiu ao trono como uma criança. A rainha colocou User-ka-re no trono e co-reinou com ele, mas quando Pepi atingiu a maioridade, ele destituiu a rainha e User-ka-re.

Pepi I casou-se com duas irmãs, ambas as quais foram nomeadas Anchnesmerire. Uma delas foi a mãe do Rei Merenre, a outra a mãe de Nefer-ka-re (Pepi II). Esta última atuou como regente para seu filho. *

[ * – ZAS, 79, (1954), 95.]

Pepi II reinou noventa anos, mas no final do seu reinado a administração escapuliu dele, a maior autoridade passando para o lado dos monarcas.

A Sexta Dinastia terminou com uma onda de agressão Asiática que sobrecarregou Kemet. Havia convulsões sociais e políticas, especialmente no norte. Foi nesse ambiente que as duas últimas soberanas herdaram o trono; estas foram Merenre II e Nitocris-men-ka-re. *

[ * – Newberry, in JEA, 29 (1943), 51, sugere identificar essa rainha com a Men-ke-re da ‘Lista de Reis’ de Abydos.]

A Rainha Nitocris está listada no [Papiro] Cânone de Turin como Nsw-hbity Nt-jqrty. *

[* – Papyrus royal de Turin (Papiro real de Turin), frag. 43; Lepsius, Auswahl, Taf. IV, col. 5.]

Manetho diz desta rainha: “Ela era a mais nobre e mais bela das mulheres do seu tempo…”

Ele lhe atribui um reinado de 12 anos, ao passo que outro Grego, Eratóstenes, atribui-lhe apenas um reinado de sete anos. *

[ * – Eratosthenes (Eratóstenes).]

Heródoto em sua História, Livro II, fornece um relato de uma certa Nitocris. Ela é a única rainha mencionada por ele como posterior a Menes. *

[ * – Heródoto, História, Livro II, 100.]

Agora, mesmo embora o [Papiro] Cânone de Turim liste-a como uma nswt bity, não há nenhuma evidência, arqueológica ou outra, de ela ter tido um título de Horus.
(Nswt bity figura Hieroglifo - Nswt bity -  Horus das Duas Terras – Literalmente, aquele do caniço e da abelha [the one of the sedge and the bee]. O caniço  [figura Hieroglifo -  Caniço - Alto Egito -] simboliza Alto Kemet e a abelha [figura Hieroglifo -  Abelha -  Baixo Egito] Baixo Kemet, indicando assim o rei do Alto e Baixo Kemet.)

Dado o fato de que ela tinha o título de nswt bity, parece que ela governou legitimamente como um rei. Embora o título por si só não deve ser a única verificação disso (pois não podemos presentemente verificar se o significado deste título é o mesmo quando aplicado à uma mulher), apenas um estudo sobre os títulos de rainhas pode nos permitir saber isso com certeza. Sabe-se que as rainhas muitas vezes tinham os títulos, itj.t e nswj.t, formas femininas de itj e nswt ( “rei”,”regente”). As declarações dos Gregos tendem, portanto, a verificar a sua soberania.

Figura - Ivan Sertima - Rainha Ankhenesmerire -.jpg
Estátua Alabastro - Rainha Ankhenesmerire - 6ª Dinastia.jpg

Manetho afirma ainda que ela construiu a terceira pirâmide de Gizé, embora, na época de Manetho, a tradição oral provavelmente tinha confundido Nitocris com uma certa Rhodopis, a quem a tradição Grega atribuíu a construção dessa pirâmide. *

[ * – Coche-Zivie, BIFAO, 72 (1972), p. 137.]

Um fenômeno importante manifestando-se durante este período foi o casamento consangüíneo na família real. Este tipo de união tem sido estudado por vários estudiosos, que descobriram este estando em evidência somente entre a nobreza e não entre as pessoas comuns (embora a maioria das fontes tenha se preocupado apenas com a nobreza). Jaroslav Cerny encontrou apenas um exemplo desta prática fora da nobreza, e este foi a partir da Vigésima Segunda Dinastia. *

[ * – Mariette, Le Serapeum de Memphis III, pl. 24; Cerny, J.]

Uma vez que este parece ser um costume praticado praticamente apenas pela nobreza, alguém pergunta-se o que este diz da nobreza: será este um vestígio de uma antiga ordem indígena, ou uma expressão de uma nova ordem? Em primeiro lugar, devemos observar que a prática não tem nada a ver com o matriarcado ou matrilinhagem [matrilineage]. Nos confrontamos aqui com três conceitos diferentes. Consanguinidade é o casamento entre parentes de sangue em prol da manutenção da integridade do sistema de parentesco. * Pode ser baseado em um sistema matrilinear ou patrilinear. Em Kemet esta passou a ser baseada na primeira [matrilinear].

[* – Para a discussão destes termos, ver Henry Lewis Morgan, Ancient Society.]

Um ponto de vista da questão é que, uma vez que a mulher é considerada a verdadeira guardiã da linhagem real, ela então se casa com seu irmão ou meio-irmão. É ela quem transmite a coroa para o seu cônjuge, que é na verdade apenas o seu agente-executor. *

[ * – Diop, Cheikh Anta, op. cit., p. 134.]

Uma vez que a mulher é a portadora do sangue real, por que optar por consanguinidade (filiação a partir do mesmo ancestral, relação de sangue) ao invés de matrilinhagem simples (designação de filiação através da mãe)? Algo muito crítico estava em jogo, forçando as realezas a se miscigenarem [interbreed]. Nossa sugestão é que pode ter havido um medo religioso de corromper o “sangue solar,” a essência divina das Horus [Horuses].
Concebendo-se como portadoras da divindade, representantes do divino, as famílias Faraônicas podem ter desenvolvido um medo obsessivo de contaminação a partir das massas, os elementos não sacrossantos da sociedade, acreditando que a manutenção da divindade dependia de pureza absoluta do grupo dominante. Este medo de degeneração através da contaminação pode ter assumido outras formas * e se extendido em variados graus para a nobreza.

[ * – UK IV, 14-24.]

Manetho fala de uma invasão armada vinda da Palestina que derrubou o regime indígena e estabeleceu o domínio estrangeiro e ocupou partes do país. Os estrangeiros a quem ele se referem foram chamados Hicsos [Hyksos]. O Rei Seqenere Tao II iniciou um movimento contra a ocupação dos Hicsos. Ele morreu logo depois, provavelmente em um confronto armado com esses invasores. Seu filho Kamose, indignado por ter que compartilhar seu poder com Asiáticos e Núbios, continuou a luta. Conjectura-se que Kamose, também, morreu em batalha contra o Rei dos Hicsos, Apopis.

Kamose foi sucedido por Ahmose, provavelmente o seu próprio irmão. Quando seu pai morreu, Kamose parece ter sido apenas uma criança, sua mãe, a Rainha Ahotep, governando como regente até que ele atingisse a maioridade. Ahotep era filha de Seqenere Tao I e Rainha Tetisheri, e irmã e esposa de Seqenere Tao II, mãe de Kamose, e mais provável, [mãe] de Ahmose e Nefer-a-re. *

[ * – Winlock, JEA, 10 (1924), 217 ff.]

Pouco se sabe sobre o interregno quando ela foi regente, exceto que, após a morte de seu marido, ela manteve a luta revolucionária contra os Hicsos. Em uma inscrição da Décima Oitava Dinastia aparece o seguinte:

A esposa do rei, a nobre senhora, que sabia de tudo
Assentada em Kemet. Ela cuidou daquilo que o seu Soberano
Estabeleceu. Ela o guardou.
Ela reuniu seus desertores.
Ela pacificou seus Egípcios do Alto Egito.
Ela subjugou os rebeldes,
A esposa do rei, Ahotep, dá a vida.
*

[ * – UK IV, 10-16.]

Foi sob Ahmose que Avaris, a capital dos Hicsos, foi capturada e tomada, um evento seguido de uma campanha para a Ásia. Assim foi ele quem finalmente expulsou os Hicsos de Kemet.
A rainha e irmã de Ahmose, Ahmose-Nefertere, desempenhou um papel importante na reconstrução do país após seu resgate da conquista.

Um importante ofício que ela é conhecida por ter desempenhado foi aquele de Segunda Profeta de Amon. A estela de Karnak comemora a sua iniciação no ofício, que seu marido concedeu a ela. Ela é a primeira mulher conhecida por ter ocupado este posto. Este era um dos cargos mais elevados e mais importantes na terra. A Segunda Profeta era responsável por funções civis, bem como religiosas. Embora ele fosse subordinada ao Primeiro Profeta, ele às vezes agia nessa qualidade. As funções dos dois profetas, muitas vezes levavam-os para fora do templo. A Segunda Profeta estava no comando dos trabalhadores dos campos do templo (o templo controlava vastas extensões de terra em Kemet). Ela também recolhia as ofertas divinas. *

[ * – Harari: ASAE, 56, 139-201.]

O sacerdócio de Amun manejava um grande poder. Assim, para Ahmose, a nomeação de sua esposa para este ofício pode ter sido uma oportunidade para ele estender seu controle na esfera religiosa. Estar no comando das ofertas divinas colocava-la no controle de uma grande quantidade de recursos. O ofício [de Segundo Profeta de Amun] é talvez comparável ao departamento de finanças de um país moderno.

Nesta posição, ela também tinha o título de Esposa Divina [Divine Wife], um título que ela foi a primeira a ter.

A Segunda Profeta Divina Esposa Ahmose-Nefertere tinha bairros especiais construídos para ela, onde ela mantinha uma faculdade de sacerdotisas que serviam à Esposa Divina. Numerosos funcionários eram uma parte de seu domínio, incluindo um chefe de tropas, um mordomo, um sacerdote de purificação, escribas, servos, etc. Todos estes indivíduos estavam à sua disposição. Como superintendente dos trabalhadores do campo, ela é creditada com a reorganização da necrópole em Der el Medina. *

[ * – Sauneron, S. The Priest of Ancient Egypt. Grove Press, 1960.]

Figura - Van Sertima, Rainhas Ahotep e Ahmose-Nefertare - 17 Dinastia.jpg

Tem sido sugerido que ela exerceu a regência durante a menoridade de seu filho Amenhotep I. Não se sabe muito das atividades desta rainha durante o período em questão, exceto por determinados projetos de construção.

Hatshepsut é talvez a mais original das Horus [Horuses] femininas, e também aquela sobre quem mais se sabe. Ela chegou ao poder depois de uma longa linhagem de reis guerreiros. Tutmósis I, seu pai, fez uma coisa nunca fez antes dele. Isto é, ele fez uma campanha militar para Ásia até ao Eufrates, como uma demonstração do poder de Kemet às nações emergentes no exterior. Pois no século XV a.C. o espírito do imperialismo estava à espreita, um espírito que tinha há muito tempo prevalecido na Ásia Ocidental entre os Três Grandes Poderes, que estavam naquela época lutando por terra e controle das rotas comerciais. Esta concorrência feroz tinha trazido estas nações para as fronteiras de Kemet. Kemet tinha apenas recentemente removido o jugo dos Hicsos. O espírito marcial, despertado durante o tempo de Ahmose, ainda estava elevado. Tutmés I [Thutmoses I] também fez campanha na Nubia, e a ocupou.

Ele foi sucedido por seu filho Tutmés II [Thutmoses II], que tinha como sua rainha sua meia-irmã Hatshepsut. Após a morte de Tutmés II, a sucessão foi deixada em uma posição bastante precária uma vez que o herdeiro do sexo masculino ainda era uma criança. Segundo o costume, o jovem príncipe foi declarado herdeiro aparente e sua tia Hatshepsut foi nomeada regente para ele.

Enquanto rainha regente, Hatshepsut começou a exercer sua vontade, talvez motivada por uma reivindicação legítima do trono com base em sua descendência legítima de Tutmés I [Thutmoses I]. Ela depôs o jovem herdeiro. Ela foi, provavelmente, capaz de acumular apoio suficiente de uma parte da nobreza para assegurar o trono e declarar-se Rainha, ou foram os nobres que lhe pediram para assumir essa posição. Dois dos homens notáveis por trás deste movimento foram Senmut e Hapusened. Mas qual era a sua motivação? Seria porque ela e os seus apoiadores se opunham às políticas imperialistas do regime de Tutmés [Thutmoses]? Podemos apenas supor.

Seu próprio reinado foi de uma natureza diferente, marcado por uma cessação completa de campanha externa e uma concentração em assuntos domésticos. A rainha fez muitas construções, incluindo o seu próprio templo mortuário em Der el Bahari. Ela organizou expedições comerciais, a mais célebre sendo a expedição à Punt, cuja finalidade era a aquisição de bens e produtos desse rico mercado. Ela também realizou atividades de policiamento no território Núbio ocupado.

Desde a sua ascenção em diante, parece ter havido muita oposição a ela. Pode ser que seus adversários estivessem se opondo a ela não tanto por ela ser uma mulher, mas por sua filosofia de não-agressão. Seus antagonistas eram os pró-imperialistas apoiantes das políticas de guerra agressiva e conquista militar de Tutmés [Thutmoses]. No entanto, seu abandono das campanhas Asiáticas simplesmente deu tempo para os Asiáticos organizarem e fortalecerem suas forças e moral.  Suas políticas teriam, de fato, culminado na tragédia para Kemet, caso Tutmés III [Thutmoses III] não houvesse tido sucesso em depô-la e restabelecer as políticas de seu pai. Ele temporariamente estabeleceu Kemet como uma potência mundial.

Figura - Van Sertima, Rainhas Ahmes e Hatshepsut - 18 Dinastia.jpg

As idéias de Hatshepsut foram, infelizmente, não o melhor para Kemet no momento, uma vez que definitivamente haviam nações interessadas em conquistar a terra. Elas tinham estado simplesmente aguardando o seu tempo.

No entanto, Hatshepsut tornou-se, em uma maneira de falar, uma verdadeira Horus, isto é, ela aspirou à consciência de Horus por assumir espiritualmente, intelectualmente e fisicamente todo o aparato ritual do reinado de orientação masculina. Ela adotou o espírito de Horus por assumir a responsabilidade por Maat (ordem), que incluia muitas novas construções, a eliminação dos indesejáveis da terra, etc. Entre as suas inscrições encontram-se as seguintes declarações: “Eu restaurei aquilo que estava em ruínas; Eu levantei o que estava inacabado.” E: “Eu vim como Horus, lançando fogo contra os meus inimigos.

Além disso, e ao contrário de seus antecessores, Hatshepsut tornou-se fisicamente um Horus também. Com efeito, ela criou uma nova ciência de governo, a essência da qual era a mulher manifestando atributos masculinos (ou, como os Chineses expressaríam-lo, o yin tomando o yang).

Ela vestiu trajes masculinos, foi retratada com uma barba de rei. Em suas inscrições ela muitas vezes aplicou e usou a terceira pessoa do pronome masculino para si mesma, garantindo assim que ela viesse a ser referida como Ele, ao invés de Ela.

Pode-se dizer que o reinado era uma posição adequada especialmente para o sexo masculino, o que é confirmado pelo fato de que, ao assumir o trono, Hatshepsut considerou necessário adotar tantas características masculinas quanto possível. Ela abriu o caminho, assim, para muitas outras.

Outra mulher ocupou o cargo na segunda metade da Décima-Oitava Dinastia. Esta foi Mutemwia, que foi regente de seu filho Amenófis III.

Após a Décima-Oitava Dinastia, as mulheres continuaram a desempenhar um papel importante no governo do país. A gloriosa Décima-Nona Dinastia – um período em que Kemet tornou-se bem estabelecido como uma grande potência mundial – terminou com o reinado de vários príncipes efêmeros, por exemplo, Amenmesses, Sethos II e Sitptah com sua Rainha Ta-wsret. Durante este tempo Kemet experimentou muitos problemas internos.

Sitptah depôs Amenmesses, legitimando seu governo ao se casar com Ta-wsret, uma princesa da antiga família real. Após a sua morte, Ta-wsret realmente reinou como soberano, por um período de talvez oito anos (de acordo com Manetho). Tem-se suspeitado de que um certo chanceler chamado Bay exerceu uma grande influência sobre Sitptah e Ta-wsret. Seu título completo era Grande Chanceler da Terra Inteira [Great Chancellor of the Entire Land], e ele era mais do que provável um Sírio. Ele pode até ter sido o verdadeiro poder por trás do trono.

Ta-wsret foi a última mulher Kemética conhecida por ocupar o cargo de soberano da terra.

 

Conclusão

 

A Lista do Rei [King’s List] e fontes arqueológicas revelam os nomes das seguintes rainhas, embora estas fontes não devam ser consideradas a palavra final sobre o assunto. Nossa informação relativa à Kemet é bastante unilateral, na sua maioria proveniente de inscrições reais [royal inscriptions], etc. E como sabemos que certos reis foram excluídos da Lista do Rei [King’s List], por várias razões, por isso, também, talvez algumas ou todas as rainhas tenham sido excluídas, uma vez que apenas Manetho menciona as rainha-regentes que governaram no final de certas dinastias. Se isto é assim, então, mesmo o que é apresentado aqui acabará por ter de ser reavaliado. Deve-se sempre ter em mente a fonte e, neste caso, a imagem é apresentada apenas a partir do lado da nobreza. As teorias sobre reinado [kingship] expressas aqui são, portanto, baseadas em fontes muito limitadas. Outros fatores podem ter estado operando na sociedade Kemética em geral. Os costumes atribuídos à nobreza podem não ter sido gerais entre o povo Kemético.

Todavia, seja como for, podemos verificar que as Horus femininas [female Horuses] e rainha-regentes de Kemet, esta última apenas mantinha a posição adequada para uma mulher em relação ao trono. Houve alguns casos excepcionais: Mer-Neith, Nitocris, Sobeknofru e Hatshepsut. Com a excepção de Hatshepsut, seus reinados foram, provavelmente, muito curtos e, ocorreram perto do, ou no final de uma dada dinastia. As regentes, por outro lado, ocorreram dentro de um período dinástico. E Mer-Neith e Hatshepsut, deve ser lembrado, ocuparam pela primeira vez o trono como regentes.

A regência tem a sua origem no sistema matrilinear. Os direitos políticos era, também transmitidos pela mãe; assim, quando um homem se casa com sua irmã, ele torna-se o tio de seu filho, estabelecendo assim o direito de sucessão para seu filho. Este costume de regência hereditária é encontrado em outros lugares no continente Africano, embora não seja generalizado.

 

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    NEFERTITI: RAINHA PARA UMA MISSÃO SAGRADA

por Sonia Sanchez

Desde o início da concepção humana de civilização, o mundo possuía duas mentes: duas versões estavam competindo para explicar o objetivo e propósito de homens e mulheres e da natureza da felicidade humana.

A primeira versão (e nós encontramos módulos entre os antigos Pretos do Egito, da Índia e da Península do Sinai) via a razão de ser [raison d’etre] da civilização humana como a propositura [bringing] da vida Divina para a vida humana ou a transmigração da mentalidade Divina para a sociedade humana. Sob esta concepção de um modelo para a civilização humana, as civilizações eram teocêntricas: os governos eram instituições teocêntricas presididas por um sacerdócio real, regente religioso ou Faraó ( “Casa” do Divino). O termo HOMEM [MAN], que concebe em seu escopo o masculino e o feminino em um só fôlego, definia um ser espiritual encarnado em busca, na terra, de uma reunião com a sua fonte Divina.

O fato de que as mulheres como seres espirituais eram consideradas parceiras plenas na construção da civilização se refletiu historicamente na sociedade Egípcia pelos registros mantidos sobre mulheres-faraós e indicou uma crença generalizada de que as mulheres também abrigavam [housed] o Divino. Além disso, a primeira versão considerava que as mulheres eram as repositórias da civilização, as detentoras dos segredos da sociedade, as mães dos deuses, a manifestação de um princípio “feminino” universal que via o universo, a terra e o subconsciente como um “útero” [“womb”] para a expressão da vontade Divina.

Embora essas idéias sobre a natureza da vida humana estivessem se desenvolvendo no solo da antiga civilização Preta, outra [idéia] estava emergindo, a qual considerava o homem primariamente uma entidade material, cuja felicidade era medida por sua capacidade para adquirir e manter um paraíso material (riqueza e prazer).

Neste paraíso [heaven], as mulheres não eram diretoras que prediziam ou participavam na política social, mas eram objetos de sensualidade ou objetos para serem usados pelos homens. Além disso, considerava-se que as mulheres deveriam ser impedidas de ocupar as posições principais porque elas deveriam ser luxos adquiridos por homens e elas não teriam a força para proteger a acumulação de riqueza material.

A teoria materialista considerava que o paraíso material [material heaven] era a base do paraíso do homem, e que as mulheres, como membros mais fracos desse paraíso, deveriam ser objetos dele e não participantes na construção deste paraíso material. Pode ser interessante notar aqui que a teoria materialista da civilização não negava o elemento Divino. Ela simplesmente recrutava o Divino e colocava-o a serviço do objetivo material.

De acordo com uma parábola nos primórdios da literatura religiosa do Egito faraônico, o grande deus negro Osíris, o deus-rei original, quem ensinou Ma’at (justiça, verdade, integridade), a ciência da agricultura e a arte da civilização, estava no útero do divino com sua esposa Isis. Juntos, eles governaram o Egito “tornando-o uma terra de deleite [land of delight].”

Quando Osiris deixou o Egito para civilizar países estrangeiros, somos informados de que Isis governou o Egito com sabedoria “em dignidade e verdade” durante a ausência do marido. Após o retorno de Osiris para o Egito, ele foi assassinado por seu irmão, o ruivo Set (que representava as forças de destruição), e esquartejado em quatorze pedaços e espalhado por toda a terra. Isis encontrou os pedaços, colocou-os juntos, menos uma parte que faltava, e depois ensinou a seu filho Hórus os segredos de seu pai, para que Osíris pudesse ser vingado e Ma’at (verdade, justiça e retidão) ser restaurada. Para os antigos Pretos do Egito, esta parábola religiosa agia como uma cartilha social, um ideal para a atitude correta para com as mulheres. Desta forma, as mulheres, assim como os homens, eram consideradas seres divinos. Sob essas condições favoráveis, “as deusas mantiveram seu prestígio ao tornarem-se esposas: o casal era a unidade religiosa e social: a mulher parecia ser aliada e complementar ao homem: a mulher tinha os mesmos direitos que o homem, os mesmos poderes na côrte: ela herdava, ela possuía propriedade.” Acima de tudo, as mulheres usavam nomes que eram os atributos divinos de Deus. O lugar a partir do qual as mulheres participaram na antiga civilização Egípcia pode ser resumido no conselho que o Vizir Ptah-hotep (cerca de 2450 a.C.) dá a seu filho: “Seja generoso em esbanjar atenções à sua esposa, porque ela é a base da sua família.”

Amenófis IV [Amunhotep IV] subiu ao trono Egípcio por volta de 1365 a.C. Ele tinha servido como co-regente com seu pai, Amenófis III [Amunhotep III], e era um jovem filósofo/poeta brilhante. Ele escolheu Nefertiti para ser sua grande esposa real. Ela seria a base [fundação] de sua família. Nefertiti não era nenhuma garota do harém selecionada aleatoriamente para o casamento. Não. Ela era talvez a mulher mais admirada da sua época. Sua beleza tinha-na elevado a um status muito além da realeza típica do dia. A união destes gigantes foi tanto problemática quanto profética.

No momento da ascensão do jovem Rei, o Egito estava em um período de transição. Por muitas gerações, a sociedade vinha passando por mudanças graduais no estilo de vida e idéias. Durante esses mesmos anos, o império Egípcio estava em expansão, através da conquista, para abranger novas fronteiras, novos horizontes e novas riquezas. A família real era tradicionalmente aconselhada pelos vários sacerdócios [priesthoods] que controlavam os templos e os cofres das províncias. Havia grande quantidade de riqueza para esta classe sacerdotal. O ouro era tão disponível [abundante] quanto a poeira. O Egito era o centro da maior parte do comércio do mundo. Foi essa prosperidade que criou problemas para a visionária família real.

A prosperidade do Egito tinha como premissa a conquista contínua de outras terras, o domínio do sacerdócio sobre a sociedade, e a racionalização desses ganhos materialistas pelas prevalecentes visões religiosas da época. Mas Amenófis IV [Amunhotep IV] visionou um mundo diferente e uma ordenação mais refinada da vida religiosa. Nefertiti, também, não estava planejando perpetuar a velha ordem. Ela não poderia relegar-se ao papel tradicional de rainha-subserviente. Ela visionou um papel ativo para si mesma na reformulação da civilização.

O palco estava montado. Os sacerdotes, os homens santos na adoração Amun, eram o mais poderoso setor organizado da sociedade; sua riqueza superava todas as outras; eles dominaram os altos cargos governamentais. Eles estavam entrincheirados no mundo materialista e sua religião dominava tudo. Nesta arena religiosa as mulheres eram incapazes de divindade.

Nós não sabemos os detalhes completos da luta que se seguiu. supõe-se que uma revolta dos sacerdotes de Amon ocorreu no quarto ano do reinado de Amenófis [Amunhotep]. O casal real rebateu a revolta com um movimento contra os sacerdotes, deuses, tumbas e templos. No mesmo ano, eles decidiram construir uma cidade de belos sonhos em Amarna. Amarna. Uma cidade rodeada por montanhas rochosas ao leste e o Nilo ao Oeste. Uma cidade real [royal city] para um casal Divino, que seria chamada Akhetaten ( “horizonte do Aten”).

Três anos mais tarde em 1357 a.C. Akhetaten, a nova capital do Egito, foi formalmente dedicada. Akhnaton (Amenófis tinha mudado oficialmente o seu nome) e Nefertiti teve a sua Cidade dos Sonhos. Esta era Akhetaten. Uma nova capital do Egito para um novo deus. Esta era Akhetaten. Uma cidade onde as artes poderiam florescer, onde a humanidade/mulheridade [man/womankind] estaria em beleza, paz e felicidade. Esta era Akhetaten. A primeira cidade a ter sido projetada “na prancheta.” Akhetaten. Uma cidade do sol. Nesta nova cidade, Akhnaton e Nefertiti poderiam dar à luz a sua missão sagrada: uma missão em busca da vida Divina.

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figura - van sertima - Rainha Nefertiti beijando sua Filha.jpg

Tendo sintetizado os vários pontos de vista cultos da época, Akhnaton forçou uma visão humanista universal sobre as visões religiosas locais. Nesta nova “religião”, ou melhor, nesta assimilação de novas doutrinas do sacerdócio de Re, o disco solar visível no céu se tornou o único deus. A natureza desta “nova” religião pode ser discernida no grande Hino de louvor ao sol, de Akhnaton, em que o Aton é chamado de o único Deus e o criador de toda a vida:

Tu apareces tão bonito no horizonte do céu,
Ó vivo Aton, tu que foste o primeiro a viver.
Tu tens subido no horizonte oriental, e tu enches todas as terras com a tua beleza.
Tu és belo, grande, deslumbrante, e exaltado sobre
todas as terras;
Teus raios abraçam as terras até aos limites extremos de tudo o que criastes.
Quando tu apareces novamente ao amanhecer e brilhas como a
esfera [o orb] do dia,
Tu dispersas a escuridão e derrama teus raios:
As Duas Terras estão em festa, os homens acordam e se levantam, pois Tu lhes levantas.
Eles lavam seus membros e colocam suas roupas;
Seus braços se levantam em louvor, pois Tu tens levantado.
A terra inteira se põe a trabalhar:
Todos os animais gozam então nos prados;
Árvores e plantas verdejam:
Os Pássaros voam de seus ninhos, e as suas asas te louvam;
Todas as criaturas selvagens pulam em seus pés;
Tudo o que se ergue sobre asas para voar viverá,
Quando Tu tens derramado tua luz mais uma vez sobre eles.

Tu formaste crianças nas mulheres e criou a semente no homem;
Tu animatestes o filho no corpo de sua mãe e acalentaste-o com aquilo que acabou com seu choro;
Quando no dia de seu nascimento, ele sai do ventre para respirar, entãoTu abres-lhe a boca completamente e Tu provês para todas as suas necessidades.

Tu fizeste a terra segundo a tua vontade quando Tu estavas só:
Humanidade, gado, e todos os outros animais, tudo na terra que anda sobre os pés, e tudo o que se eleva em suas asas em voo;
as terras estrangeiras da Síria e Kush, e a terra do Egito.
Tu estabelecestes a cada homem no seu próprio lugar e tu provestes para as suas necessidades;
Cada um tem o seu sustento desde que seu tempo é contado.
As línguas dos homens são distinguidas pelo seu discurso
E sua aparência também pela cor da sua pele –
Assim tens Tu distinguido as Nações.
Tu criaste o Nilo no Submundo [Netherworld]
E o levas de acordo com teu desejo
Para manter as pessoas, mesmo embora Tu as tenha feito para ti mesmo, o seu senhor universal. . .

Como para todas as terras distantes, Tu tens provido para o seu viver:
Tu Fazes o Nilo do céu descer sobre eles,
Ele faz uma inundação sobre as montanhas como as ondas do mar;
Ele rega seus campos e produz o que eles exigem.
Tu fizestes o céu distante para brilhares nele
E olhar para tudo o que Fizestes sozinho,
Assim como Tu brilhas na tua forma como o Aton vivo,
Reluzente e deslumbrante, muito longe e ainda assim ao alcance da mão.
Tu fazes milhões de formas a partir de ti mesmo sozinho:
Cidades, vilas, campos, a estrada e o rio;
Todo olho vê a Ti perante si, Ó esfera [orb] do dia, como Tu brilhas sobre a terra.
Tu estás em meu coração, nenhum outro conhece a Ti a não ser Akhnaton, teu filho, a quem Tu tens concedido entendimento
para entender o Teu poder e desígnio, quando,  estendendo Tu a mão, a terra veio a ser.
Quando Te levantas os homens vivem, quando Te pões eles morrem.
Tu és a vida Tu próprio, e os homens vivem em Ti.
Os Olhos vêem em tua beleza, até que Tu te ponhas [pôr-do-sol].
Todo o trabalho é interrompido quando Tu buscas do Ocidente.
Quando Tu nasces todo o trabalho para o Rei se move em ritmo acelerado.
Todos os homens que correm sobre os pés, Tu tens levantado.
Para teu filho, o Senhor dos Diademas, Senhor das Duas Terras,
Que vive na verdade, filho de Re, Akhnaton,
E para ela a quem ele ama, a grande consorte real,
A dona das Duas terras, a rainha Nefertiti,
Quem vive e é você para sempre e sempre.

Esta nova religião anunciou a Aton como criador e governante do mundo inteiro. Este não era um deus paroquial: Ele era o Senhor do Universo. Assim, o Aton se tornou: “Re vive, o governante do horizonte que se alegra no horizonte, em seu nome, pai de Re, que retornou como Aton.” Houve também uma distinta ruptura com a tradição oral de culto: Nenhuma representação do Deus em forma humana foi permitida; todo o culto estava focado no astro radiante do sol. Houve, também, uma mudança radical nas imagens que adornavam as paredes dos túmulos em Amarna. Pela primeira vez nos deparamos com a vida pessoal do faraó e da rainha: vemos os quartos mais íntimos do palácio real, onde Akhnaton e Nefertiti brincam e acarinham suas filhas; vemos o rei e a rainha de pé na janela de Apresentação [Window of Appearance] acenando para a população. Nestes relevos dos túmulos de Amarna, saudamos o Filho e a Filha de Re agindo como um homem e uma mulher entre homens e mulheres.

Como uma participante ativa nesta reforma da sociedade, Nefertiti deu à luz seis filhas (o que pode ou não ter significado simbólico), e, como retratado nas gravuras de arenito ou talatat, começou a se expandir sobre visões tradicionais do relacionamento da mulher com o deus-sol, Aton.

Akhnaton geralmente conduzia a homenagem a Aton. Mas, Nefertiti fazia homenagens sozinha ou com uma filha. tem sido sugerido que este culto separado ilustra a reivindicação ou direito de Nefertiti de cultuar a Aton sem um homem como mediador.
Existem outros relatos sobre Nefertiti compartilhando de um carro com seu marido durante um grande ritual, empurrando uma espada em direção a um inimigo, sentando-se no joelho de Akhnaton e beijando-o em público. A representação realista de Nefertiti e Akhenaton pelos artistas da época também sugere que Nefertiti queria que os adoradores de Aton apreciassem-na como um repositório humano da vida Divina. Ela tornou-se a parceira Divina para Akhnaton.

A maioria das imagens, bustos e estátuas de Nefertiti foram desfigurados de alguma forma. Algumas das desfigurações foram causadas por erosão e escavação. Mas, é evidente que os sacerdotes, que assumiram o controle após a morte de Akhnaton, sistematicamente mutilaram o nome e a imagem de Nefertiti. Ao contrário do Atonismo, que iria diminuir em importância sem Akhnaton para defendê-lo, a chamada heresia de Nefertiti representava uma ameaça muito maior para a visão materialista dos sacerdotes. A idéia de mulheres passando por cima do sacerdócio masculino através de uma deusa-mãe para cultuar o Divino era inaceitável (e pode ainda ser inaceitável hoje).

Nefertiti estava muito clara quanto à sua missão. Após a morte de Akhnaton em 1353 a.C., ela manteve o Egito em cheque para Aton. Não foi um jogo fácil que ela jogou. Os sacerdotes de Amon odiavam-na. Ela tinha à sua disposição, no entanto, um jovem rei chamado Tutankhaten (King Tut). Ela o havia criado como um de seus próprios em Amarna. Ele se tornou o novo rei em 1352 a.C. Ela sabia que, enquanto este rei-menino vivesse em Amarna a memória e a missão de Akhnaton e Aton não iriam morrer. Assim como Isis antes dela, Nefertiti fez o que podia para manter o predomínio de Ma’at (verdade, justiça e integridade) e Aton. Ela jogou o jogo bem, mas perdeu.

O Rei Tut e sua esposa iriam deixar Amarna por Tebas. Nefertiti permaneceu em Amarna até sua morte.

Não é por acaso que séculos mais tarde seu rosto apareceu das ruínas de Amarna. Uma face da beleza e intelecto. Uma face do destino. Nefertiti. A bela veio novamente para todos nós vermos.

 


 

 

                    TIYE: RAINHA NÚBIA DO EGITO

Por  Virginia Spottswood Simon

Escavações recentes no Egito e no Sudão lançaram mais luz sobre o papel de uma poderosa rainha Africana que governou antes de Cleópatra e Nefertiti. A Rainha Tiye (ca. 1415-1340 a.C.), Grande Esposa Real de Amenhotep III, reinou como rainha consorte e rainha mãe do Egito por meio século, desfrutando de uma posição incomum como confidente para seu marido e como esposa amada publicamente.

Terá sido apenas política de poder o que impulsionou uma mulher da Núbia-Kush para a posição de Grande Cônjuge Real do faraó? Ou terá sido sua beleza e charme, uma deslumbrante qualidade de personalidade, que exaltaram Tiye?

Mãe dos faraós Tutankhamen e Akhenaten e sogra da bela Nefertiti, esta mulher do Sul também se tornou uma forte influência nacional na política interna e externa do Egito.
Os Antigos Egípcios chamavam a pátria ancestral de Tiye de Núbia (terra de ouro). Esta era a parte norte da fortaleza Núbio-Kushita no Nilo. Hoje, situada dois terços no Sudão e um terço no Egito, a área está em um paralelo geográfico com a Etiópia, Chade, Níger, Mali e Senegal. Passageiros navegando rio acima no largo e majestoso trecho do Nilo do Egito se aproximariam das perigosas cataratas de Núbia-Kush após cerca de 500 milhas. Núbia-Kush era uma terra esbelta, cercada por deserto e montanhas e dependente do Nilo para a vida. Embora restringidos por condições naturais hostis e invadidos e explorados por ouro, trabalho, e gado pelo Egito ao longo dos séculos, essas pessoas pretas mantiveram a vitalidade cultural e política durante a maior parte de 5000 anos, sem render-se finalmente até a época de Colombo quando eles foram invadidos por muçulmanos.
A época de Tiye, o século XIV a.C., foi um dos raros períodos de dependência da Núbia. Os exércitos Egípcios, com seu sistema de mais de uma dúzia de fortes incrivelmente maciços, tinham finalmente reduzido essas pessoas ao status colonial. Mas a rebelião era abundante e os Kushitas nunca adquiriram status de segunda-classe. Para diminuir a freqüência da revolta e para tentar solidificar as relações, o Egito tinha um programa bem pensado de pacificação.

Os Faraós erguiam soberbos templos na Núbia-Kush honrando seus deuses. Os príncipes Núbios capturados eram educados em escolas de palácios do faraó em Tebas, e então, completamente Egipcianizados, eram nomeados vice-reis representantes para seu próprio país. Gradualmente, as classes superiores da Núbia, ávidas por novidades importadas e símbolos de status, foram conquistadas pela cultura material e pelo estilo de vida do Egito, vestindo-se de suas modas, falando sua língua e até se enterrando em pirâmides, e não nas tumbas de seus antepassados . Os Núbios que migraram voluntariamente para o Egito eram promovidos frequentemente sem preconceito à postos de influência. Mesmo aqueles que vinham originalmente como trabalhadores de baixo status encontravam possível a mobilidade social e econômica.

Yuya e Thuya, os pais de Tiye, eram tais Núbios assertivos e ambiciosos. Sumo-Sacerdotes a serviço do deus carneiro Amon e do deus da fertilidade Min, eles presidiam sobre o cuidado dos lustrosos bois Núbios que, com seus chifres decorados, eram essenciais para cada festa real e jubileu. Um filho, Aanen, era um sacerdote de Heliópolis, atingindo o status de Segundo Profeta de Amon.

Sua filha, Tiye, nasceu por volta de 1415 a.C. Em Tiye, a pele marrom escuro enfeitava as sobrancelhas arqueadas, as maçãs do rosto altas e um nariz com narinas delicadamente alargadas. Lábios cheios curvavam-se acima de uma mandíbula ligeiramente saliente. E, se ela reunia o ideal físico de beleza feminina da Núbia, ela foi também difundida.
Era costume para um faraó ao assumir o trono se casar com uma filha do faraó. Tal “filha” podia ser uma irmã, uma meia-irmã — até a própria filha. Por este meio a dinastia reinfundia a si mesma continuamente com seu próprio sangue real, uma linhagem que os sacerdotes declararam que era diretamente descendente do deus Amon. Mas o jovem governante, Amenhotep III, desafiou os sacerdotes e arrogantemente proclamou seu casamento altamente irregular. Assim, uma plebéia da Núbia tornou-se Grande Esposa Real, e seus filhos, herdeiros do trono do Egito com heranças inteiramente reais e completamente divinas.

Certamente o jovem faraó viu em casamento com uma mulher Núbia um instrumento poderoso para pacificar a nação independente em sua fronteira sul. Durante 2000 anos a Núbia tinha resistido, firme e implacavelmente, as tentativas do Egito de explorar sua própria riqueza e seu acesso às riquezas da África Central em importantes produtos e madeiras finas. Como seu pai e seu avô, Amenhotep III poderia esperar ter que sufocar muitas revoltas bem organizadas e levar Kushitas derrotados cativos. Mas se este tivesse sido um casamento puramente diplomático, o tratamento do rei para com Tiye o negou. Os registros revelam um amor transcendental. Em uma expressão inusitadamente pessoal, ele proclamou sua noiva Núbia:

. . . A princesa, a mais elogiada, a dama da graça, doce no seu amor, que enche o palácio com sua beleza, a Regente do Norte e do Sul, a Grande Esposa do Rei que a ama, a senhora das duas terras, Tiye . . .

Nos primeiros dias do casamento ele concedeu ao costume e apareceu em ocasiões do estado em Tebas com sua mãe, uma princesa do sangue. Mas ele logo se cansou da formalidade, relegando sua mãe a uma velhice tranquila, e Tiye tornou-se sua companheira público constante. A partir deste momento, ele e Tiye tornaram-se modelos amorosos de marido e mulher para seus filhos e especialmente para seu filho, Akhenaton, e sua esposa, Nefertiti, que em uma manifestação ainda mais franca de afeto, beijariam-se e abraçariam-se publicamente.

Casada com seu faraó quando tinha apenas 13 anos, Tiye deu-lhe pelo menos quatro filhas e três filhos, dos quais, Tutankhamen, nasceu da saudável rainha Núbia quando ela tinha quase 50 anos. Três de seus filhos reinaram como faraós do Egito. Ela passou sua todo-escura aparência Africóide para seus filhos, especialmente para Tutankhamen, seu filho mais novo. Os lábios carnudos e a mandíbula saliente de seu filho mais velho, Akhenaton, suscitaram todas as explicações, exceto a óbvia. A neta Ankhesenamun, filha de Akhenaton e Nefertiti, que se tornou a esposa de Tutankhamen, tem uma aparência da África Central ainda maior do que qualquer um.

Constantemente e de muitas maneiras, o faraó Amenhotep III expressou o amor por sua rainha preta. Os presentes que ele prodigalizou sobre ela fizeram Tiye rica por direito próprio. Um lago ornamental, de um quilômetro de comprimento e um quinto de milha de largura, projetado para excursões de lazer na barca real, foi escavado e nomeado Lago de Tiye. Seus palácios se erguiam por toda parte, elegantes com paredes pintadas de afrescos que representavam o mundo de plantas, pássaros, e animais do vale do Nilo. Piscinas de peixes traziam as águas do Nilo para os pátios de pilares de suas propriedades. O rei ordenou um desses palácios de grande porte construído para ela em sua cidade natal de Akhmin, mesmo após a chegada, para o seu harém, de uma encantadora jovem princesa de uma colônia Asiática.

Um dos gestos mais significativos foi a construção na Núbia, terra dos ancestrais, de um templo de arenito branco fino em honra de Tiye. O Faraó já havia construído seu magnífico templo lá, honrando a Amon, o deus carneiro cuja adoração se originou na Núbia e se espalhou para o Egito. Sob o encantamento de Tiye, ele construiu um santuário separado na cidade de Sedeinga, a 10 milhas do seu. Era a primeira vez que uma rainha consorte tinha sido tão honrada. Este feito único — metade amor, metade política — só poderia ter tido um efeito positivo na fidelidade Núbia.

Como ela era igual a ele na vida, ela também seria na morte. No trigésimo-primeiro ano de seu reinado, Amenhotep decretou seu sepultamento ao lado dele dentro de seu próprio túmulo real. A escultura conjunta colossal ordenada para o seu templo funerário comum retrata o casal como co-monarcas iguais. Embora os cânones artísticos dos sacerdotes exigissem que uma rainha fosse representada como uma adoradora com altura apenas até os joelhos do rei, o grande governante descartou as estrituras e ordenou que Tiye fosse retratada como igual. Os rostos largos e contundentes emergem de enormes corpos de granito irradiando serenidade e majestade. Possessivamente, carinhosamente Tiye abraça seu esposo com seu braço direito.

Mais do que um amante, porém, Tiye era uma mulher capaz e educada. Sua biblioteca de rolos de papiro continha textos religiosos, históricos e científicos, poesia e estórias. Ela deve ter dominado muito de seu conteúdo. Pois suas opiniões comandavam respeito, e ela exerceu influência política informada ao longo de seu meio século como rainha consorte e rainha mãe da nação mais poderosa de seu dia.

Durante três períodos críticos da 18ª dinastia, a rainha preta foi a força inteligente e estabilizadora da nação: os anos em que a saúde de seu marido estava em declínio; Os anos em que Amenhotep IV (Akhenaten), seu filho religiosamente inovador, negligenciou os assuntos externos e a defesa do Egito; E os anos em que seus dois filhos mais novos, Smenkhare e os joven Tutankhamen, reinaram.

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Aos 50 anos, Tiye estava cheia de vigor enquanto seu marido caía na doença e na debilidade. Por esta altura, o príncipe Akhenaton era co-regente com seu pai e tinha estabelecido e tomado residência na nova cidade e capital religiosa, Akhetaton, a 160 milhas ao norte de Tebas. Viajando entre os palácios amplamente separados de seu marido e filho, Tiye coordenou as políticas estaduais. Quando a doença final de Amenhotep veio, os postos Asiáticos do império do Egito estavam sob ataque freqüente por Habirus e Hititas; Os Estados clientes do Egito no Norte agora temiam por sua própria sobrevivência. Mas apelaram em vão à ajuda do faraó moribundo. Os funcionários da corte, sabendo da influência da rainha com seu marido, e confiantes em seu julgamento, confiaram em Tiye para persuadir o velho a entregar a direção dos negócios estrangeiros ao seu co-regente, o príncipe Akhenaton.

Após a morte de seu pai, Akhenaton foi coroado faraó. Mas, como faraó, ele foi uma decepção para a rainha-mãe de mentalidade política. As forças armadas do Egito poderiam se deteriorar até tal ponto de perigo que seus aliados Asiáticos ficaram mais temerosos do que nunca. E mesmo embora Akhenaton e Nefertiti entretecem Tiye em banquetes extravagantes e tenham construído um templo para Aton em sua honra, Tiye avaliou a conduta de seu filho sobre os negócios estrangeiros realisticamente. Ela se moveu entre o vácuo criado pela concentração dele na reforma religiosa e agiu para ele como Secretária de Estado. Reis dos estados cliente Asiáticos contornaram-no para corresponder-se diretamente com Tiye para pleitearem por proteção. Reis como Tushratta de Mitanni, que enviou sua própria bela filha à Amenhotep em sinal de submissão, agora enviava presentes à rainha mãe para reafirmar seu desejo de continuar sob o protetorado militar do Egito.

Tiye também influenciou as artes e a moda Egípcias. Grandes, elaboradas perucas usadas sobre cabelos naturais, cortados perto do couro cabeludo, tinham sido anteriormente o estilo. Mas por um tempo, a moda foi perucas curtas, redondas, baseadas naquelas favorecidas por Tiye e suas filhas. Um estilo de brinco usado por jovens Núbias antes e durante a puberdade tornou-se corrente na côrte também. A partir de um espesso brinco de ouro pendia um grande medalhão de ouro intrincadamente trabalhado que carregava de três a seis borlas penduradas. Cada longa borla era uma corda sobre a qual contas de ouro se alternavam com contas de pedras semipreciosas. Tutankhamen e outros jovens reais desta época usaram essa moda Núbia orgulhosamente.

A influência da rainha Núbia se fez sentir mais poderosa, no entanto, em uma nova atitude radical em relação às mulheres reais. Amenhotep III e, mais tarde, seu filho que se casou com Nefertiti, quebraram a tradição ao se casar com mulheres que não eram “filhas de faraó”. No entanto, embora tal casamento fosse essencial para legitimar a reivindicação do faraó ao trono e à propriedade da dinastia, as mulheres que transmitiam essa herança Egípcia real nunca foram exaltadas como as pessoas-chave que eram. Com a acessão de Tiye à realeza do Egito, as coisas mudaram. Não apenas foi uma plebéia proclamada de igual status com o rei, seu nome e linhagem sendo sempre publicados em conjunto com o dele, mas os herdeiros do sexo masculino desta dinastia foram quase totalmente eclipsados à luz da publicidade e honra dispensados às princesas. Se não houvesse príncipes, isso teria sido compreensível. Mas havia três príncipes, todos os quais sucederam seu pai como faraós.

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Por que, então, eles foram mantidos em segundo plano? Uma explicação dessa inovação, bem como a da posição igualitária concedida à Rainha Tiye, deve residir na tradição Centro-Africana de sucessão matrilinear. Um rei Núbio-Kushita geralmente concedia o poder a um filho de sua irmã — não a seu próprio filho. Durante o longo mandato de Tiye como consorte e rainha mãe, a teoria Núbio-Kushita de genealogia real permeou o pensamento e a prática do palácio, dando às princesas um status especialmente venerado. Esse conceito da importância da mulher na família real, tão característico dos reinados do esposo de Tiye, Amenhotep III, e de seu filho, Akhenaton, só pode ter representado uma influência Núbia.

Tiye irritou, e até perturbou aqueles que guardavam as tradições reais e religiosas do Egito. Por outro lado, seu reinado [queenship] de meio século foi o fator mais importante para garantir ao Egito uma pacífica associação colonial com a Núbia. O Egito precisava dessa paz. O período “glorioso” da 18ª dinastia do Egito teria sido pobre se não fosse pela força de trabalho militar e doméstica; o ouro, marfim e madeiras finas; e o gado e ricas colheitas que ela tomava anualmente da Núbia-Kush. No final desta época, quando a influência do Egito na Ásia estava diminuindo e era desafiada por exércitos Assírios agressivos, a lealdade dos Núbios ao Egito, garantida e justificada pela etnia e pelo estadismo de Tiye, foi um bem incomparável.

Tiye, como uma noiva nova, pouco consciente politicamente, tinha relutantemente visto seu marido partir para Núbia-Kush para lutar contra rebeldes de sua própria raça. Talvez tenha sido ela que mais tarde tenha encorajado Amenhotep III a embarcar em seu ambicioso programa de pacificação da Núbia como forma de salvar seu povo de uma dizimação gradual. Qualquer que seja a verdade, o faraó achou essa mulher do Sul compatível e saudável, inteligente e forte, bem como bonita. E por ele tê-la considerado assim, a história do Egito e a da Núbia-Kush seriam mudadas para sempre.

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          ISIS DO EGITO: A MADONA PRETA ORIGINAL

Por  Eloise McKinney-Johnson

              A grande deusa Isis, “A Senhora dos Mil Títulos” é, como Cleópatra, sua devota mais ilustre, uma “Grande Encantadora” [“Great Enchantress”] de variedades infinitas. Alguns de seus outros títulos são: “Senhora do Céu,” “Ternura Feminina,” “Amor Fraternal” [“Sisterly Love”], “Senhora da Magia,” “Senhora da Luz,” “Câmara-do-nascimento-de-um-Deus,” “Senhora do Nascer do Sol,” “A Bela e a Amada,” “Senhora da Abundância,” “Rainha do Sul,” “Abelha Rainha: Criadora de Mel,” “A Senhora Generosa que Enche os Campos com colheitas e os berços Egípcios com Filhos Recém-nascidos,” e também “Aquela que chora” [“She Who Weeps”].

Ao adorá-la como “Aquela Que Chora,” os antigos Egípcios reconheciam Isis como a fonte de sua prosperidade. De fato, como Heródoto registrou, “o Egito é a dádiva do Nilo.” Os Egípcios acreditavam que o Nilo começou com as lágrimas de Ísis pingando dos céus enquanto ela lamentava seu assassinado marido Osíris. Acreditavam, também, que ela ressuscitou-o com grande sacrifício e, assim, iniciou todo o conceito de ressurreição. Osíris é, de fato, o primeiro de uma longa linhagem de deuses ressuscitados: Tamuz (Babilônico e Assírio), Mithra (Persa), Balder (Norueguês), Dionísio (Grego), Baco (Romano) e Cristo. Os Egípcios também acreditavam que as lágrimas de Isis tornavam-se mais profusas em certas estações, levando o Nilo a transbordar e a nutrir o solo. Tão importante foi sua primeira lágrima na criação do rio que, ainda hoje, o Egito observa um feriado em meados de junho, “A Noite da Gota.”

Os antigos Egípcios acreditavam que Isis ensinou às mulheres como pentear e enrolar seus cabelos e que ela lhes ensinou os prazeres e poderes do perfume, e dos cosméticos em geral. À Isis eles atribuíram o costume de usar véus de casamento e anéis de casamento. Eles disseram que ela introduziu fragrâncias para suavizar os procedimentos da vida e os de embalsamento (com cera e especiarias) para preservar os mortos. Acreditavam também ela que enviava sonhos como misteriosos mensageiros para avisá-los e aconselhá-los.

Os Egípcios veneravam Isis como uma deusa lunar e como uma encarnação de todas as qualidades femininas que tornam as mulheres desejáveis. As lendas sobre Isis e a lua abarcam tanto o realismo — efeitos das pressões barométricas sobre a natureza física (marés) bem como sobre a natureza humana, quanto o surrealismo — interpretações universais de sonhos.

Isis era a quintessêncial amada, esposa, e mãe do Egito, e era adorada como a irmã-esposa de Osíris, o “Rei dos Mortos,” e mãe de Horus (mais tarde chamado Apolo), seu “Rei dos Vivos”.

As asas de Isis denotavam sua divindade:

Havia uma tradição que ela protegia o morto Osiris com longas asas emplumadas que, como a Grande Encantadora, ela foi capaz de fazer crescer. Outra, diz que foi com suas asas que ela tentou transmitir-lhe o sopro da vida. Inevitavelmente, ela foi adotada como uma das deusas protetoras nos ritos funerários e freqüentemente retratada com sua irmã Nephtys, semelhantemente alada, seus braços emplumados entrelaçados. *

[ *— Richard Patrick, Egyptian Mythology (London: Octopus Books, 1972).]

As asas protetoras de Isis e de sua irmã Nephtys, às vezes designadas como asas de um abutre, aparecem freqüentemente na arte real do antigo Egito. O abutre e a cobra (o Uraeus) são protetores especiais dos Faraós e suas rainhas. Eles são, também, símbolos da importantíssima unificação do Alto e Baixo Egito.
Isis, seu marido Osiris, e seu filho Horus, originaram na Etiópia. Lionel Casson afirma:

Osíris era um deus-rei — talvez uma conseqüência lendária de um governante real, talvez um deus primitivo da fertilidade — que se acreditava ter dado a civilização ao Egito. Ele tinha um irmão maligno, Seth, que estava com ciúmes da devoção dos súditos de seu irmão e matou Osíris. Por fim, o Rei morto ressuscitou com a perseverança de sua esposa, Isis, que percorreu a terra em busca das partes desmembradas de seu corpo até que ela as recolheu todas. Seu filho, Horus, mais tarde vingou o assassinato de seu pai ao vencer Seth e ganhar dele o domínio da terra. Quando ele morreu, ele se tornou Osiris e governou o submundo. Seu filho, o novo Faraó, assumiu o governo na terra como Horus. *

[ *— Lionel Cason, Ancient Egypt (Alexandria: Time Life Books, 1965) p. 72.]

Roger Lancelyn relata que “Isis fez a primeira cobra, o Uraeus, que se tornou a serpente sagrada do Egito” * e que este foi seu dispositivo para destronar o deus Ra para que seu marido, Osíris, pudesse se tornar Faraó do Egito.

[ * — Roger Lancelyn Gren, Tales of Ancient Egypt (London: Puffin Books, 1970) p. 26.]

Lucio Apuleio, um filósofo Romano do segundo século d.C., afirma a origem Etíope/Egípcia de Isis e sua família em sua obra clássica, O Asno de Ouro. Aqui, Isis diz a Apuleio:

Ambas as raças, a dos Etíopes, cujas terras o sol da manhã brilha em primeiro lugar, e a dos Egípcios, que se destacam no ensino antigo e me adoram com cerimônias próprias à minha divindade, me chamam pelo meu verdadeiro nome, ou seja, Rainha Isis. *

[ * — Lucius Apuleius, The Golden Ass (O Asno de Ouro), trad. R. Graves (New York: Farrar, Straus & Giroux, 1951).]

Mais cedo, Apuleio ouve Isis proclamar-se a original deusa-mãe da terra quando ela lhe diz:

O Frígios primitivos chamam-me Pessinuntica, Mãe dos deuses; Os Atenienses . . . chamam-me Cecropian Artemis; Para os ilhéus de Chipre eu sou Afrodite Páfia [Paphian Aphrodite]; Para os arqueiros de Creta eu sou Dictynna; Para Sicilianos trilingues, Proserpina Estígia [Stygian Proserpine]; E para os Eleusinos, sua antiga Mãe do milho.

Alguns me conhecem como Juno, alguns como Bellona das Batalhas; Outros como Hecate, outros como Rhamnubia . . . *

[ * —Ibid.]

Tão atraente era a deusa Isis que mais de 3.000 anos depois de seu nome aparecer no Egito, seus adoradores estavam construindo templos para honrá-la na Europa, templos por todo o caminho até os Rios Reno e Danúbio na Alemanha e tão ao norte quanto a Grã-Bretanha.

Philae no antigo Egito era o grande centro para a adoração de Isis, como William MacQuitty atesta:

O culto de Isis continuou quando os outros deuses e deusas da antiguidade tinham sido esquecidos. Peregrinos da Grécia e do império Romano vinham para adorá-la, amontoando seu santuário em Philae com ofertas, até o século V d.C. *

[ * — William MacQuitty, Island of Isis (New York: Charles Scribner’s Sons, 1976) p. 90.]

Adoradores de Isis expressaram seus louvores a ela em um hino, registrado em Philae, nas palavras da própria Isis:

Eu sou a Natureza, a Mãe universal, senhora de todos os elementos, filha primordial do tempo, soberana de todas as coisas espirituais, rainha dos mortos, rainha também dos imortais, a manifestação única de todos os deuses e deusas que há. Meu gesto governa as alturas brilhantes do Céu, as saudáveis brisas marinhas, os silêncios lamentáveis do mundo abaixo. *

[ * — Apuleio, op. cit. p. 264.]

Frank Snowden observa que, como os Etíopes consideravam Isis altamente, seja em sua terra natal ou no Egito, aqueles que haviam se estabelecido em outros lugares continuaram seu interesse em seu culto:

Uma substancial influência Etíope sobre o culto à Isis na Grécia e na Itália é fortemente sugerida, se não provada, pela tradição da associação Etíope com o culto, pelos Negros retratados no ritual Isíaco . . . *

[ * — Frank Snowden, Blacks in Antiquity (Cambridge: Harvard University Press, 1970) p. 191.]

Isis tinha templos através do Império Romano:

Na expansão do culto Isíaco durante o Império, os Etíopes desempenharam um papel substancial. Em sua Etiópia natal, Isis era uma das quatro divindades que as pessoas na vizinhança de Meroë adoravam porque acreditavam que essas divindades particulares tinham sido benfeitores da raça humana. *

[ *— Ibid.]

William MacQuitty mais uma vez afirma a influência de Isis em todo o mundo quando ele declara:

Foi, aliás, a partir de Alexandria que Horus e Isis entraram na lenda que cercava o Buda em Gandhara, no norte da Índia, e daí viajaram para a China, onde a deusa Isis se assemelha à Rainha do Céu Chinesa, Kwan-Yin, que, assim como Isis, era também a Rainha dos Mares. No Japão ela era chamada kwannon. *

[ * — MacQuitty, op. cit., p. 59.]

Isis possuía poderes mágicos que transcendiam os de todas as outras divindades Egípcias. Os Gregos chamavam seus ritos os Mistérios Eleusinianos, e cada um de seus adoradores usava uma chave de prata, simbólica de seu mistério. Eles decoravam suas roupas com um desenho de uma chave Isíaca, um motivo [fret motif] que ainda é popular na pintura, escultura e arquitetura.
Devido ao fato de o Egito antigo ser uma cultura matrilineal, como são muitas culturas Africanas de hoje, Isis aparece frequentemente na arte com seu filho, Horus, em seu colo. Ela é, portanto, o protótipo para representações semelhantes da Madona Cristã e seu filho Cristo. Ela é, também, a pietá original, a mãe que sofre [suffering mother].
Discutindo “Isis and the Virgin Mary” [“Isis e a Virgem Maria”], Sir Ernst A. Wallis Budge, antigo detentor de antiguidades Egípcias e Assírias no Museu Britânico, assegura-nos que os Cristãos primitivos concederam alguns atributos de Isis à Virgem. Ele diz, por exemplo:

Não há dúvida de que em seu caráter da mãe amorosa e protetora ela apelava fortemente à imaginação de todos os . . . povos entre seu culto . . . E que as imagens e esculturas em que ela é representada no ato de amamentar Horus formaram a base para as pinturas Cristãs da Madona e a Criança.
Vários dos incidentes sobre as andanças da Virgem com o Menino no Egito, como registrado nos Evangelhos Apócrifos refletem cenas na vida de Isis. . . E muitos dos atributos de Isis, a Deus-mãe, a mãe de Horus . . . São idênticos aos da Mãe de Cristo. *

[ * —Ernst A. W. Budge, The Gods of The Egyptians (New York: Dover, 1969) p. 220.]

Enfatizando ainda mais o significado de Isis em relação à virgem Maria, Budge diz:

Os escritores dos Evangelhos Apócrifos pretendiam prestar mais honra a Maria, a Virgem, atribuindo-lhe os atributos que até o advento do Cristianismo tinham sido considerados como propriedade peculiar de Isis . . . A doutrina da partenogênese (nascimento virgem) era bem conhecida no Egito . . . E a crença na concepção de Horus por Isis através do poder que Thoth, a Inteligência da Mente do Deus do Universo, lhe deu, e na ressurreição do corpo e na vida eterna, é coeva com os primórdios da história no Egito. *

[ *— Ibid., pp. 220-221.]

A profunda influência de Isis sobre os principais conceitos da Virgem Maria e seu filho Cristo continua hoje nos muitos retratos da Madona Preta [Black Madonna], particularmente aqueles na arte Cristã primitiva e aqueles em ícones da tradição Bizantina.
As representações de Isis variam. Na arte Egípcia antiga, ela geralmente aparece usando seu espesso cabelo preto em tranças que caem sobre seus ombros em duas longas tranças, e ela usa um vestido de linho simples para realçar a sua tez escura. Muitas vezes ela está atrás de seu marido, Osíris, e segura em sua mão o ankh, uma cruz ansata com um laço no topo, o símbolo Egípcio da vida e da imortalidade, Apuleio descreve-a como segue:

Seu cabelo longo e espesso pendia em cachos sobre seu pescoço adorável, e era coroado com uma intrincada grinalda na qual estavam tecidas todo tipo de flores. Logo acima de sua testa brilhava um disco redondo, como um espelho, ou como a brilhante face da lua, que me dizia quem ela era. Víboras que se erguiam da sua mão esquerda e das separações da direita de seus cabelos apoiavam este disco, com espigas de milho [ears of corn] eriçadas ao lado delas. Sua túnica de muitas cores era de linho fino; Parte era branco cintilante, parte amarelo-açafrão, parte vermelho brilhante, e ao longo de toda a bainha uma bordura tecida de flores e frutas prendia-se balançando na brisa. Mas o que mais me chamou a atenção e deteve meu olhar foi o profundo brilho negro de seu manto. Ela usava-o pendurado em seu corpo do quadril direito para o ombro esquerdo, onde era preso em um nó semelhante ao ornamento de um escudo; Mas parte dele pendia em inúmeras dobras, a franja em borlas balançando. Ele estava bordado com estrelas brilhantes na bainha e em todo o resto, e no meio irradiava uma lua cheia e ardente. *

[ * — Apuleio, op. cit., 263.]

Plutarco diz de suas vestes:

As de Isis são variegadas em suas cores; porque seu poder está relacionado com a matéria que se torna tudo e recebe tudo, luz e escuridão, dia e noite, fogo e água, vida e morte, começo e fim . . . As vestes de Isis que eles usam muitas vezes; Pois, em uso, aquelas coisas que são perceptíveis e prontas à mão oferecem muitas revelações de si mesmas e oportunidades para vê-las à medida em que são alteradas de várias maneiras. *

[ * — Plutarco, Moralia v. 5, trad. F.C. Babbitt (Cambridge: Harvard University Press) p. 181.]

De interesse especial em muitos dos retratos de Isis é seu toucado. No que parece ser seu primeiro retrato, Etíope ou Sudanês, ela usa a cabeça de um pequeno elefante com presas. Às vezes Isis usa em sua cabeça um ideograma em forma de trono para simbolizar seu nome como significando “trono” ou “rainha.” Erich Neumann interpreta este trono:

Como mãe e mulher da terra, a Grande Mãe é o “trono” puro e simples, e, caracteristicamente, a maternidade da mulher reside não só no útero, mas também na vasta extensão da coxa da mulher sentada, o colo em que o recém-nascido se senta entronizado. Ser tomado no colo é, assim como ser levado ao seio, uma expressão simbólica para a adoção da criança, e também do homem, pelo Feminino. Não é por acaso que a maior Deusa Mãe dos primeiros cultos foi chamada Isis, “o assento” [“the seat”], “o trono”, cujo símbolo ela carrega em sua cabeça; E o rei que “toma posse” da terra, a Deusa Mãe, faz isso sentando-se sobre ela no sentido literal da palavra. *

[ *— Erich Neumann, The Great Mother: An Analysis of the Archetype, trans. R. Mahheim (Princeton: Princeton University Press, 1974) pp. 98-99.]

Isis apareceu na arte com e sem suas asas e com e sem seu filho, Horus, ao seu peito. Em períodos posteriores, no entanto, ela quase sempre usa um cocar régio de cobra [regal cobra headpiece] que retrata a lua cheia entre chifres curvos e tem a forma de um sistrum, o instrumento musical que os Egípcios tocavam em sua honra.

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Ivan Van Sertima afirma em They Came Before Columbus * [“Eles vieram antes de Colombo“] que o sistrum de Isis, uma espécie de chocalho, se originou entre os antigos Núbios; E Plutarco afirma que seu propósito era assegurar que “todas as coisas que existem precisam ser chacoalhadas, ou sacudidas … para se agitarem quando ficarem sonolentas e tórpidas”. **

[ * — Ivan Van Sertima, They Came Before Columbus: the African presence in Ancient America (New York: Random House, 1976) p. 269.]
[ ** — Plutarco, op. cit., 149.]

O Thet, interpretado de várias formas como uma fivela, um cinto, ou um nó, é outro símbolo importante de Isis. Mercatante diz que o Thet de Isis “pode ter sido uma representação convencional do útero, com suas ligamentos, e a vagina. Muitas vezes feito de cornalina, jaspe vermelho, vidro vermelho ou alguma outra substância vermelha, talvez para indicar sangue. Há também amuletos Thet de ouro (o sangue dos deuses).” *

[ *— Anthony S. Mercatante, Who’s Who in Egyptian Mythology (New York: Clarkson n. Potter, Inc., 1978) p. 75.]

 

 


 

 

                                DEUSAS AFRICANAS:
MÃES DA CIVILIZAÇÃO

Por  Runoko Rashidi

              Das deusas das grandes civilizações da África antiga, fora do Vale do Nilo, pouco se sabe atualmente, com exceção de Cartago. O complexo de elevadas culturas da África Ocidental, incluindo Gana, Mali, Songhay e Kanem-Bornu, entrou em proeminência, em grande medida, após o advento do Islã e, claro, o único deus é Allah. A história muito antiga dessas nações, particularmente aquela de Gana, cuja civilização já havia florescido quando a religião do Profeta foi empurrada sobre ela, terá que ser estudada em detalhes meticulosos para encontrar evidências do papel da divindade feminina. Da mesma forma, as deusas de Punt, Axum, Numidia, Munhu Mutapa, etc., devem permanecer, infelizmente, a base de um futuro artigo.

Os dados existentes sobre Cartago (Khart-Haddas, no norte da Argélia e Tunísia) nos informa que a divindade suprema era Tanit, aparentemente uma manifestação da Neith Egípcia, assim como da Anatha Kanaanita e da Ngame Akan. *

[ * — Robert Graves, The Greek Myths, vol. 1 (Penguin, 1955), p. 22.]

Tanit era uma deusa da fertilidade que ascendeu à proeminência nacional no Século 5º a.C. Foi nesse período que as divindades fenícias Melkarth e Astarte deram lugar a Baal e a Senhora Tanit. Em uma estela de pedra calcária no precinto de Tanit em Salambo estão registradas dezessete gerações de seus sacerdotes. *

[ * — Donald Harden, The Phoenicians (New York: Praeger, 1962), p. 91.]

Milênios antes de Cartago, no entanto, no vale do Nilo, os Africanos tinham fortemente desenvolvido conceitos religiosos em que a deidade feminina desempenhava um papel tremendamente importante. De fato, nos primeiros tempos, ela tinha uma influência todo-abrangente e era universalmente reconhecida como a maior e derradeira séde de poder. Ela era ao mesmo tempo a doadora e a sustentadora da vida. Estes conceitos religiosos, ainda hoje poderosos, não se originaram no Vale do Nilo, por mais estranho que pareça, mas na região dos Grandes Lagos da África Oriental/Central, o berço continental. Aqui, neste centro primordial, ocorreu a moldagem e formação das idéias religiosas e filosóficas que vieram a criticamente moldar o mundo. A humanidade mais antiga, inegavelmente Preta, levou essas idéias seminais para onde quer que fossem, e no curso de suas extensas migrações levou-as para os cantos distantes da terra.

Embora reconhecendo a origem interior Africana dos mitos religiosos, devemos concordar que é no Egito, a maior nação da antiguidade, que encontramos a documentação mais substancial para a deusa como parte integrante de uma grande civilização Africana. Como Gerald Massey afirmou tão bem, “África, o berço e Egito o porta-voz.” *

[ *— Gerald Massey, Ancient Egypt, vol. 1 (New York: Samuel Weiser, 1970).]

O Egito tem uma abundância de dados existentes, de fato, que deve-se seriamente limitar o foco da pesquisa. Os textos religiosos das Duas Terras, por exemplo, mencionam muitas deusas poderosas: Bast, Selket, Nephtys, Mut, Maat, e uma multidão de outras. Reconhecendo nossas limitações e nossa necessidade de brevidade, nos concentraremos aqui em três deusas que, em tempos históricos, parecem ter exercido a maior influência.

Neith

Neith (Neit, Nit) foi uma das primeiras das deusas Norte-Africanas e pode ser rastreada até pelo menos 4000 a.C. Ela é chamada de “a mais antiga de todas as divindades, que já era nascida quando nada mais existia”. Como Ptah, ela era auto-gerada e auto-produzida. Ela é um exemplo antigo da grande mãe, que na forma de um abutre branco, perfurava sua própria coxa para trazer o sangue necessário para nutrir e sustentar seus filhotes. *

[ * — Massey, p. 130.]

Na forma de um abutre ela fora impregnada pelo vento. Em sua manifestação antropomórfica Neith aparece como uma mulher adulta com uma coroa vermelha. A coroa vermelha era o cocar real do Baixo Egito, pois embora ela possa ter se originado no sul, ela estava, no começo do Egito Dinástico, firmemente entrincheirada no norte e particularmente em Sais no delta ocidental. Sais continuaria a ser o principal centro de sua adoração durante todo o período do Egito Dinástico.
Neith parece ter sido dominante não só no Baixo Egito, mas no norte da Líbia também, tanto que suas raízes têm sido muitas vezes rastreadas lá.

Mas quem, agora, eram os Líbios? Eles eram, em primeiro lugar, os Etíopes Ocidentais, depois fortemente Berberes, Árabes Mongóis, uma mistura de Hebreus e outros povos Asiáticos e, claro, os Afro-Asiáticos resultantes. A composição étnica da Líbia era aproximadamente a mesma que a do início do Egito, com a exceção de que havia menos Europeus e mais Mongóis. A Líbia foi uma vez tão quase toda Preta que ser chamado de um Líbio significava Preto. *

[ * — Chancellor Williams, The Destruction of Black Civilization (Chicago: Third World Press, 1976), p. 118.]

Os Pelasguianos, os habitantes neolíticos de Hellas, identificaram Neith com Pallas Athena, de longe a deusa mais poderosa da mitologia Grega, e sustentaram que ela nasceu ao lado do Lago Tritonis na Líbia. *

[ * — Graves, p. 44.]

Platão é da mesma opinião *, e Heródoto, que realmente viajou para o norte da África, escreveu que “os Gregos tomaram a ‘égide’ [‘aegis’] com que adornam as estátuas de Atena, a partir dos vestidos das mulheres Líbias, com a exceção de que que esta é de couro e tem franjas de tiras de couro em vez de cobras, não há nenhum outro ponto de diferença.” **

[ *— Graves, p. 44.]
[ ** — Graves, p. 45.]

A ilha Egéia de Creta deve ter sido a principal ligação entre o Norte da África e a Europa, para a qual as idéias religiosas Africanas foram introduzidas e reintroduzidas inúmeras vezes.

Descobertas de cerâmicas sugerem uma imigração Líbia para Creta já em 4000 a.C.; E um grande número de refugiados Líbios adoradores de deusas, do Delta ocidental, parecem ter chegado lá quando o Alto e Baixo Egito foram unidos à força sob a Primeira Dinastia por volta do ano 3000 a.C. A Primeira Era Minoica começou logo depois e a cultura Cretense se espalhou para a Trácia e Grécia Heládica Primitiva. *

[ * — H.R. Hall, The Civilization of Greece in The Bronze Age (New York: Coleman, 1927), p. 27.]

H.R. Hall acrescenta que “relações muito antigas entre Creta e Egito são sugeridas não apenas por semelhanças na cultura material de ambos os países no período inicial . . . mas por um estudo da religião Egípcia e Minóica, principalmente em relação aos cultos do Delta, onde, entre outras coisas, o machado-duplo [double-axe] aparece como um emblema religioso, e o característico escudo Cretense em figura-de-oito [Cretan figure-of-eight shield] é o mesmo que o escudo da deusa Neith de Sais, que provavelmente remonta aos primeiros dias neolíticos “. *

[ * — H.R. Hall, Ancient History of the Near East (London: Methuen & Co., 1927), pp. 47-48.]

A adoração de Neith, ou mais especificamente, dos poderes elementares, forças e conceitos que ela representava, é apenas um exemplo, embora importante, da consideração tremendamente elevada pelo caráter feminino como encontrado tanto na mulher mortal como na deusa ilustre. Este parece ter sido o caso em todo o continente e em toda a esfera cultural Africana. Creta por exemplo:

Longos traços conservados do sistema matriarcal testemunham a preeminência de uma deusa, quase à exclusão das divindades masculinas, e o lugar proeminente ocupado por mulheres na Creta Minóica, é evidenciado por seus apartamentos em Cnossos e pelas muitas representações de suas vidas diárias em suas pinturas de parede. *

[ * — Godfrey Higgins, The Celtic Druids (1829; rpt. Los Angeles: Philosophical Research Library, 1977), p. 173.]

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Godfrey Higgins, o destacado anticuário do século XIX, tentou correlacionar as divindades das Ilhas Britânicas, e particularmente da Irlanda, com as divindades do Mediterrâneo, especialmente a Grécia primitiva, ou Hellas, e a Fenícia. Nesse caso, Neith foi identificada com uma deusa Irlandesa chamada Nath. *

[ * — Seumas MacManus, The Story of The Irish Race (New York: Devin-Adair, 1921), p. 2.]

Isto não é tão rebuscado como pode parecer, e há uma razão firme para sugerir uma presença Africana na Irlanda antiga. Temos, por exemplo, a lenda dos “piratas africanos, os Fomorianos, que tinham uma fortaleza na Ilha Torrey, ao largo da Costa Noroeste”. *

[ * — MacManus, pp. 2-4.]

Os Fomorianos, envoltos em mistério, são considerados as “forças sinistras” da mitologia Irlandesa, que se misturaram com os Tautha Dé Danaan, e depois os combateram. A luta era pela posse da própria Irlanda, com os Africanos aparentemente saindo do lado perdedor. Seja qual for o caso, nos mitos religiosos da terra encontramos a deusa Anu, uma das grandes divindades ancestrais da Irlanda. Anu pode ter sido a mesma que Aine, uma das primeiras deusas do sol, ou Danu, a maior das deusas da antiguidade Irlandesa e a governante dos Tautha Dé Danaan. *

[ * — Patricia Monaghan, The Book of Goddesses And Heroines (New York: Dutton, 1981), pp. 7-8, 76-77.]

De qualquer modo, a Anu Irlandêsa era uma força de prosperidade e abundância — tanto que duas montanhas em forma de peito no oeste da Irlanda são chamadas, em seu nome, as “paps de Anu”. *

[ * — Monaghan, p. 20.]

Agora, os Egípcios da época histórica chamaram seus antecessores imediatos de Anu, “dos quais os Anu Seti eram os habitantes da Núbia que viviam nas margens do Nilo”. *

[ * — V. Giuffrida-Ruggeri, “A Few Notes on The Neolithic Egyptians And The Ethiopians,” Man, vol. 16, no. 55, pp. 87-90.]

Deve-se notar também que o termo “Anu” foi geralmente aplicado aos primeiros habitantes da Líbia, que foram chamados de Anu-Tehennu. Os Egípcios intitularam duas de suas cidades mais importantes Annu: Hermonthis, no sul, e Heliopolis/On, no norte, onde Re era a divindade mais importante, e onde os mais instruídos dos Egípcios recebiam sua instrução. Os fragmentos de Manetho dizem que o próprio Osarseph, que mais tarde mudou seu nome para Moisés, era natural da Annu do Norte [Heliópolis/On]. * Na escatologia Egípcia, Anu era a morada do espírito ressuscitado dos mortos físicos.

[ * — Manetho, trad. W. G. Waddell (London: Harvard University Press, 1940), p. 131.]

Neithotep, a esposa e a rainha-chefe de Narmer, e a mãe de Aha-Menes, o primeiro governante documentado do Estado Egípcio unificado, tomou seu nome, obviamente, de Neith. Talvez como um gesto de boa vontade para com os Baixo Egípcios conquistados, Aha Menes construiu um templo, a Casa de Neith, em Sais. Dezesseis das setenta estelas ao redor da mastaba de Zer, o segundo rei do Egito, traziam nomes combinados com a deusa. *

[ * — E. O. James, The Ancient Gods (New York: Capricorn Books, 1960), p. 84.]

Meryetneit, cuja posição cronológica é incerta, mas considerada por Emery ter sido a terceira monarca do Egito, tomou seu nome também da deusa. *

[ * — Walter Emery, Archaic Egypt (Baltimoore: Penguin, 1961), p. 65.]

Sobre os selamentos de jarros de Horus Den, o quinto governante da 1ª Dinastia, encontramos menção de um portador-do-selo do rei com um nome combinado com Neith e, em geral, as mulheres de alta posição no Egito arcaico ufanavam-se como “Profetas de Neith.” *

[ * — Percy E. Newberry, “Queen Nitocris of the Sixth Dynasty,” Journal of Egyptian Archaeology, vol. 29, 1943, pp. 51-54.]

Nos Textos da Pirâmide, que remontam ao reinado de Unas na 5ª Dinastia, Neith é considerada a mãe de Sebek, a deidade antiga cujo zootipo era o Crocodilo, e cuja história remonta ao passado distante. Sebek também foi identificado com Re, o sol do meio-dia.

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Nitocris, c. 2275 AEC., a filha de Pepi I, e meia-irmã de Merenre e Pepi II, era aparentemente uma devota de Neith. *

[ * — Manetho, p. 55.]

Nitocris foi regente das Duas Terras, e é creditada por Mâneton, o historiador/sacerdote Egípcio, por ter reinado doze anos e construido uma pirâmide. *

[ *— Bob Brier, Ancient Egyptian Magic (New York: Morrow, 1980), p. 196.]

Heródoto também menciona esta mulher extraordinária, e ela é registrada ainda no Papiro de Turim. Pepi II, o último governante principal da 6ª Dinastia, tinha uma rainha chamada Neith.

Na 18ª Dinastia Neith, junto com Isis, Nephtys e Selkit, é uma deusa protetora dos jarros canópicos que guardavam os órgãos internos dos mortos físicos. Cada um dos jarros era representativo de uma das quatro direções e representava um dos filhos de Horus. Neith protegia Duamutef e declara que irá “cercar com meus braços aquilo que está em mim”. *

[ * — E. A. Wallis Budge, Cleopatra’s Needles (n.d.; rpt. Chicago: Ares, 1979), p. 161.]

Em um obelisco de granito vermelho, uma vez um dos maiores no Egito, erguido no ano 33 de seu reinado, Thutmose III se refere a Neith como sua “Mãe Divina”. *

[ * — Plutarco, Morals, trad. Willam W. Goodwin, vol. 4 (Boston: Little, Brown & Co., 1871), p. 72.]

É no renascimento Egípcio da 26ª dinastia que os reis do Egito são chamados de “Filhos de Neith”. Sais experimentou uma era de grande prosperidade e uma inscrição na Casa de Neith lia, “Eu sou o que foi, ou é, ou será, e meu véu nenhum mortal jamais tirou”. *

[ * — Citado em Margaret Murray, The Splendor That Was Egypt (New York: Hawthrorne, 1963), p. 215.]

A filha de Psametik I, Nitocris, era a princesa sacerdotal de Tebas, uma posição extremamente poderosa. Psametik II reconstruiu a Casa de Neith e ordenou que “o dízimo de ouro e prata, da madeira e da madeira trabalhada produzida . . . nas margens dos Anu, e que são contados no domínio do Rei, sejam uma doação de templo pela minha mãe Neith para sempre, excedendo aquilo que existia anteriormente . . . porque ela é a Senhora do Oceano, e é ela quem dá a sua recompensa. *

[ * — K.T. Frost, “The Critias And Minoan Crete,” Journal of Hellenic Studies, vol. 33, 1913, pp. 189-205.]

Foi na casa de Neith que Sólon, de acordo com Platão, aprendeu de um sacerdote Egípcio a história do continente perdido da Atlântida *, e o Rei Apries erigiu aqui um par de obeliscos de cinco toneladas e dezessete pés de altura dedicados a Neith e Tum.

[ * — P.G. Elgood, Later Dynasties of Egypt (Oxford: Basil Blackwell, 1951), p. 108.]

Amasis, segundo Heródoto, acrescentou “um espaçoso pátio ou entrada para o templo da deusa, através do qual os adoradores passavam por uma avenida flanqueada por obeliscos, estátuas e esfinges para o grande salão. Este pátio não foi o único tributo do rei para Neith. Na Ilha de Elefantina, ele cortou da rocha sólida uma câmara feita de um único bloco, que exigiu o trabalho de 2.000 barqueiros e três anos de trabalho ininterrupto para transportar para Sais. * Este foi o pôr do sol do Egito dinástico, um dos seus últimos momentos brilhantes.

[ * — P.G. Elgood, op. cit.]

A invasão Persa de 525 AEC [a.C.], sob a liderança de Cambises, foi instrumental em escurecer a luz do mundo. O registro de crueldade de Cambises em relação à destruição dos Egípcios e seus monumentos está claramente detalhada em outros lugares e não precisa ser aqui. Para o seu mérito, no entanto, Cambises viajou para Sais, observou os rituais, ordenou o templo, que tinha caido em ruínas, limpou, e ele restaurou suas receitas e festividades sagradas, estabelecendo a oferta concedida pelos reis do Egito antes dele. Isto foi justamente antes de sua decisão de invadir a Etiópia, que resultou em sua oportuna morte oportuna.

Hathor

Poucas das deusas do antigo Egito excitaram tanto a imaginação, ou tiveram uma influência tão duradoura como Hathor, a Casa de Horus. Em seus múltiplos aspectos, ela era figura de fertilidade, vaca sagrada no norte e no sul, deusa auto-geradora, e deusa antropomórfica ligada ao rei Egípcio, que era o Horus vivo. Ela era uma contemporânea de Neith e parece ter sucedido-a em tantos de seus papéis que é difícil separar uma deusa da outra. Hathor era simultaneamente guardiã do Delta do Nilo, do leito matrimonial, e da necrópole de Tebas. Ela era a doadora da vida e a protetora dos mortos, e legou à humanidade as alegrias da vida e os poderes do amor. Ela também foi considerada a deusa da sensualidade, fortemente ligada à dança, ao canto e à música, e é identificada com o sistrum, um instrumento musical popular no Egito.

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Hathor era a deusa lunar, e como divindade lunar primária de sua época, tomou o lugar de Kept e Apt, que ocuparam a posição em uma Era anterior. Ela também era a “Senhora da Árvore” [“Lady of the Tree”], e particularmente do Sicômoro, a partir do qual derivava-se não só o sustento físico, mas, de acordo com Churchward, uma bebida divina usada nos Mistérios Egípcios. *

[ * — Albert Churchward, The Origin And Evolution of Religion (London: George Allen & Unwin Ltd., 1924), pp. 298-299.]

O fato de que o Sicômoro era importado do sul suporta as origens interiores Africanas de Hathor. Este é um ponto crítico, pois as evidências disponíveis deixam claro que a religião do Egito Faraônico se originou no interior Africano e posteriormente se espalhou para o resto do continente Preto, daí para a Ásia e Europa.

Budge considera Hathor e uma série de divindades Egípcias, incluindo Tehuti (Thoth/Hermes/Mercúrio), Shu e Tefnut, como de origem Sudanesa, * enquanto Montet enfatizou que “a tradição traz Hathor e os grandes deuses da ‘Terra de Deus’ — Ta-Neter, que ficava ao sul e leste do Egito.

[ * — E.A. Wallis Budge, The Gods of the Egyptians, 2 vols. (1904; rpt. New York: Dover, 1969).]

Esta terra de lenda parece ter incluído a Arábia e o país que os Egípcios chamavam de Punt, a moderna costa da Eritreia e da Somália. *

[ *— Pierre Montet, Eternal Egypt (New York: Mentor).]

Ta-Neter, Punt, estava longe de ser lendária e os anais das nações Egípcias a mencionam com freqüência. Temos conhecimento de pelo menos cinco grandes expedições Egípcias para esta terra sagrada em busca de seu precioso incenso e ébano. Talvez, à medida que mais informações estiverem disponíveis sobre o que é provavelmente a área mais arqueologicamente negligenciada da antiguidade, a misteriosa terra de Punt deixará de ser um elo perdido na história dos Pretos e será plenamente incluída na grande galeria das antigas civilizações Africanas.

O zoótipo mais característico de Hathor é a vaca, seja a vaca selvagem do delta do Baixo Egito, ou a vaca leiteira que sustentava a nação. No primeiro aspecto ela era “Rainha do Ocidente”. No segundo aspecto, ela era a figura suprema da fertilidade, a deusa-mãe por excelência. A adoração da vaca de Hathor era tão antiga, certamente remotando ao período pré-dinástico, que ela deve ter sido um protótipo para posteriores deusas da fertilidade ou deusas vaca como Hera, Astarte, Io, e Isis (Ast), que acabaria por se tornar a divindade feminina mais proeminente da África, se não do mundo inteiro, e por assumir a maioria dos atributos de Hathor e suas deidades irmãs. Na Palestina, altares com chifres e o bezerro de ouro sobreviveram ao destronamento de Hathor como evidenciado na literatura Hebraica. Mais uma vez, os Africanos não adoravam animais, vegetação, etc., mas estimavam certos atributos incorporados nos vários zoótipos.

Hathor, a vaca leiteira sagrada, era a provedora definitiva para a família, comunidade, nação. Hathor era a amamentadora do rei, que era o Horus vivo, talvez a deidade masculina mais consistentemente poderosa em toda a história do antigo Egito. Não é de se estranhar então que ela apareça proeminentemente, pelo menos quatro vezes, na paleta de Narmer, que registra a unificação do Alto e Baixo Egito. Em Muro Branco [White Wall], a nova capital administrativa do Egito, construída no reinado de Aha-Menes, Hathor foi venerada como a “Senhora do Sicômoro do Sul”. Pode-se acrescentar que aqui a reverência de Hathor era secundária à de Ptah, o Mestre Artesão e deidade patronal da cidade.

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Em todo o Reino Antigo Hathor foi servida pelas damas da côrte que eram, de fato, suas sacerdotisas, e foi na 4ª Dinastia que Khufu, o construtor da Grande Pirâmide em Gizé, começou a construção do templo de Hathor em Denderah, no sul, pois Hathor era a divindade principal em ambos os nomos VI e XXII no Alto Egito. Seus centros de culto reais são muito numerosos para listar. Em Denderah, onde a construção continuou durante o período Ptolemaioco, sete Hathors foram representadas como jovens e belas mulheres com chifres de vaca, discos solares e cocares de abutre. Eles incluíam as Hathors de Tebas dos Cem Portões, Anu do Norte, Afroditopolis, Sinai, Muro Branco, Nen Nysut, e Keset. Hathor aparece proeminentemente nas estátuas mortuárias do rei Miquerinos [Menkaura], também da 4ª Dinastia.

Os reis da 5ª Dinastia distribuíram extensas extensões de terra ao sacerdócio de Hathor em Anu do norte [Heliópolis], e entre os títulos da princesa Ne-Sedjer-Kai em Gizé estão “Filha Real, Ornamento Real, Sacerdotisa de Hathor”. *

[ * — Miriam Lichtheim, Ancient Egyptian Literature, vol. I (Berkeley: University of California Press, 1975), p. 15.]

Os mesmos títulos podem ser observados nas estelas de Ni-Hebsed-Pepi, da 6ª Dinastia, em Naqada. * Pepi I, que governou o Egito por 51 anos, declarou-se um “Filho de Hathor” e continuou o trabalho no templo da deusa em Denderah.

[ * — Lichtheim, pp. 17.]

Na 8ª Dinastia, encontramos títulos honoríficos, quase idênticos aos do Império Antigo [Old Kingdom], em relação a Hathor, tanto na antiga cidade ao norte de Abydos, como em Edfu, no sul longínquo, perto da fronteira Núbia. * O fato de que esses títulos são encontrados de Giza à Edfu demonstram o reconhecimento nacional de Hathor.

[ * — Lichtheim, pp. 84. 87.]

Na 10ª Dinastia, sobre as estelas funerárias de Wahankh Infet II em Tebas, encontramos novamente louvores honoríficos a Hathor, mas estas enfatizam seu papel como a guardiã da necrópole Tebana. *

[ * — Lichtheim, pp. 94-95.]

Nebhepetre Mentuhotep II, sob cujo reinado o Egito foi unificado pela segunda vez, construiu um grande santuário para Hathor em seu templo mortuário Tebano. Em torno da plataforma central da estrutura haviam várias abóbadas de enterro [burial vaults], cada um escavado de 12 a 15 metros abaixo da superfície. Essas tumbas haviam sido construídas para várias mulheres, todas elas com os títulos de “Favorita Real, a Única, a Sacerdotisa de Hathor”. Além de uma escultura bem preservada da deusa, cada túmulo continha um esqueleto de uma vaca, o animal mais sagrado para ela cujo santuário as mulheres tinham servido. *

[ * —Janet R. Buttles, The Queens of Egypt (London: Longman Y Green, 1908), p. 25.]

Vemos a deusa novamente na 12ª Dinastia, como pesquisas muito recentes levaram à descoberta na costa do Mar Vermelho, ao norte de Al Qusayr na foz do Wadi Gasus, de inscrições que diziam: “Filho de Re, Sesostris, amado de Hathor, Senhora de Pwenet (Punt).” *

[ * — A. Hamid Zayed, “Egypt’s Relations With The Rest of Africa,” in UNESCO General History of Africa, vol. 2, ed. G. Mokhtar (University of California Press), p. 145.]

Curiosamente, Flinders Petrie rastreou a família de Sesostris para o clã Uaka da antiga Somália. Só podemos supor que os viajantes Egípcios construíram um santuário de Hathor, se tal estrutura não estava lá já. Outros achados recentes incluem fragmentos de estatuetas-amuletos Faienses de ambos Hathor e Ptah na região Axumita da Etiópia. *

[ * — J. Leclant, “The Nile Valley.” Larousse Encyclopedia of Archaeology, ed. G. Charles-Picard (New York: G. P. Putnam’s Sons, 1972), p. 240.]

Amenemhet II, o filho e sucessor de Sesostris I, foi responsável por um santuário de Hathor no Sinai, pois Hathor também é conhecida como a “Senhora das Minas.” O Sinai foi, geralmente, uma extensão do Egito, e as pedras semi-preciosas escavadas lá figuravam proeminentemente nas obras de artistas e mestres artesãos Egípcios.

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Hathor também tinha um santuário na cidade Fenícia de Byblos. Ela era a divindade principal aqui e era amplamente conhecida como a “Senhora de Byblos”. Os dados são indicativos da relação Egípcio-Fenícia extremamente estreita. Quando se considera a história antiga da Palestina e do Líbano, no entanto, os laços de sangue reais dos primeiros habitantes desta região emergem. Os Natufianos são considerados os primeiros habitantes da Palestina. Os Natufianos, Arthur Keith os chama de povo de Shukbah, eram “um povo dolicocefálico, seu tipo pode ser descrito como Mediterrâneo, mas com distinto viés para a variedade Africana desse estoque representado pelo povo pré-dinástico do Egito.”

[ * — Arthur Keith, New Discoveries Relating to the Antiquity of Man (London: Williams & Norgate, 1931), p. 210.]

Keith acrescenta que “os posteriores habitantes de cavernas de Shukbah praticavam um rito que ainda é observado por muitas tribos negras da África. Eles removiam um ou ambos os incisivos superiores nos jovens, o que resultava em atrofia da parte alveolar correspondente da mandíbula superior”. *

[ * — Keith, p. 211.]

Os Kanaanitas parecem ter sido os sucessores dos Natufianos. Robert Graves sugere que eles “podem ter vindo originalmente para o Baixo Egito a partir de Uganda” em seu caminho para a Palestina. *

[ * — Graves, p. 196.]

É claro que a genealogia Bíblica faz de Kanaan um filho de Ham [Cam] e irmão de Mizraim (Egito) e Kush (Etiópia), por isso é natural que tenham tido fortes laços com os Egípcios e os Etíopes em relação às tradições culturais. Os reis das cidades-estado Fenícias eram considerados príncipes Egípcios e eram invocados como alguns de seus aliados mais fortes.

[ * — Genesis 10:6.]

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Amenemhet III, talvez o maior governante da 12ª Dinastia e construtor do grande labirinto, é mostrado em uma famosa peça de escultura, por baixo de Hathor sendo amamentado por ela.}

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A proeminência de Hathor continuou inabalável através do Império Novo [New Kingdom], com seu papel como guardiã da necrópole Tebana nunca tão forte. Senmut, o arquiteto brilhante de Hatshepsut, governante da 18ª Dinastia, embelezou grande cuidado no santuário de Hathor dentro do templo mortuário de seu Faraó. Sua área espacial excedeu a de qualquer outra parte do templo. Foi em um desses períodos do imperialismo Egípcio, como na 18ª Dinastia, e mais tarde na história quando ele foi por sua vez invadido, que a influência de Hathor e outras divindades se espalhou para terras distantes. É claro que sabemos que a Afrodite Grega e a Vênus Romana eram apenas reflexos pálidos de Hathor, mas que dizer das antigas deusas da Ásia ocidental? Sem dúvida, elas também devem ter sido cópias da original, ou pelo menos, receptoras de sua forte influência cultural, como introduzida e reforçada pelas numerosas ondas de Pretos que se movimentaram sobre o continente Asiático em tempos históricos e pré-históricos. Tal foi o caso do Ishtar da babilônia. Diop coloca a antiga Mesopotâmia, e com razão, na zona de confluência onde os povos e culturas do norte (Indo-Europeus) e do sul (Africanos) se sobrepuseram e entrelaçaram. *

[ * — Cheikh Anta Diop, The Cultural Unity of Black Africa (Chicago: Third World Press, 1976), pp. 106-107.]

Ishtar é às vezes a filha de Anu, e outras vezes é a filha de Bel ou de Sin. Ela é a deusa suprema, o que é bastante interessante, dado a falta geral de proeminência concedida à mulher no meio cultural do norte [Indo-Europeu]. Outras deusas não passam de pequenos reflexos de figuras masculinas dominantes; Tal não é o caso de Ishtar. Esta deusa está completamente sozinha. Ela é a grande deusa mãe e a rainha do céu. Ela é a deusa Inanna, também a filha de Anu. Em Elão [Elam], com seu centro Kushita de Susa, o lar do grande guerreiro-rei preto Memnon, a divindade feminina reinou incontestada através do segundo milênio a.C. Elão [Elam], poderíamos acrescentar, foi a precursora da civilização Persa. *

[ * — Runoko Rashidi, “The Kushite Origins of Sumer and Elam,” UFAHAMU, vol. 12, no. 3, 1983, pp. 215-233.]

No Egito do Império Novo [New Kingdom Egypt], além de seus outros papéis, Hathor foi chamada de “Rainha do céu” e de “A Dourada” [“Golden One”]. Seu caráter como a vaca selvagem foi transformado e ela se tornou a deidade tutelar do amor. No período Ptolemaico ela era a padroeira das mulheres, que se tornavam Hathors após sua morte, assim como os homens se tornavam Osiris.

              Isis

Isis (Ast) foi, por praticamente todos os relatos, a deusa mais dominante do antigo Egito. Sua influência cresceu à medida que as dinastias diminuíam e a supressão do culto a esta maior das deusas foi o capítulo final da antiga religião Egípcia em que a grande mãe, de uma forma ou de outra, tinha que ser seriamente considerada.
Isis foi, de acordo com Plutarco, a filha da deusa do céu Nut e do deus da terra Seb. Ela nasceu no quarto dia, depois de seus irmãos: Osíris (Asar, o senhor de tudo e o marido de Isis), o Horus ancião e o mal Sut. A irmã de Isis, Nephtys nasceu no quinto dia. A história, entre outras coisas, aparentemente reflete a evolução da consciência humana em suas fases estelar, lunar, e solar. Osiris, a personificação de tudo o que era bom e moral, deixou a companhia dos deuses do Egito para levar a civilização ao mundo dos mortos. Isis o ajudou fornecendo o conhecimento da agricultura, que o deus compassivo prontamente concedeu à humanidade. Enquanto isso, Sut não estava satisfeito com a popularidade de seu irmão e, aproveitando a oportunidade, conspirou para matá-lo, lançando seu corpo, que estava encerrado em um baú de madeira, no Nilo. * Aqui parecemos ter um protótipo para a história de Caim e Abel. Sut também foi o modelo para o Satanás Hebreu, como é bem conhecido.

[ * — Plutarch, pp. 74-81.]

A fervorosa devoção que Isis exibiu em sua implacável busca pelo corpo de Osíris lhe conquistou a simpatia das massas. Qualquer pessoa que tivesse perdido um ente querido poderia se identificar com sua paixão. Ela finalmente localizou o corpo de Osíris e, com a ajuda de poderosos deuses Egípcios, restaurou sua vida. Antes disso, porém, Isis concebeu uma criança que devia vingar o assassinato de seu pai. Aqui, nessa breve narrativa, temos duas outras das principais histórias da religião Cristã, isto é, o salvador ressussitado e a concepção imaculada. A idéia de ressurreição, no entanto, era uma parte integral e muito antiga da psique Africana. Como Durant afirmou: “Se Osíris, o Nilo, e toda a vegetação pudessem ressuscitar, assim também o homem”. * O homem poderia ressussitar, como Osíris, mas somente se ele tivesse feito a palavra de Deus, que era a verdade, a justiça e a integridade, se manifestar na terra. Não havia morte no modo de pensar Africano, apenas decadência gradual e renovação periódica.

[ * — Will Durant, Our Oriental Heritage (New York: Simon & Schuster, 1954), p. 202.]

Em relação aos nascimentos virgens, Kersey Graves lista dezesseis desses eventos, antes de Jesus e Maria. * Edward Carpenter adiciona uma introspecção mais adicional.

[ * — Kersey Graves, The World’s Sixteen Crucified Saviours (New York: Truth Seeker Company, 1875, rpt. 1960).]

Finalmente, temos o número curiosamente grande de mães virgens pretas que são ou foram adoradas. Não só casos como Devaki a deusa Indiana, ou Isis a Egípcia, que naturalmente apareceriam com a pele preta ou escura, mas o grande número de imagens e pinturas do mesmo tipo ainda existentes — especialmente nas igrejas Italianas — e se passando por representações de Maria e o Menino Jesus. Tais são as imagens bem conhecidas na capela de Gênova, Pisa, Pádua, Munique e outros lugares. . . . Em Paris, já na época Cristã, havia, diz-se, no local da atual Catedral de Notre Dame, um Templo dedicado à “Nossa Senhora” Ísis [“our lady” Isis]; E as imagens pertencentes ao santuário anterior seriam com toda probabilidade preservadas com nomes alterados no último. *

[ * — Edward Carpenter, Pagan and Christian Creeds (New York: Blue Ribbon, 1920), pp. 160-161.]

Figura 8 -  Isis amamentando Horus.jpg

Um dos mais importantes, e últimos centros para a adoração de Isis estava na ilha de Philae, no extremo sul do Egito, perto de Assuão. A popularidade generalizada de Isis fez de Philae um ponto de encontro de muitas culturas e de disseminação de idéias poderosas. As inúmeras inscrições deixadas por peregrinos aqui até mesmo indicam que os reis de Meroe, e presumivelmente as Kandakes, foram os principais patrocinadores do templo da deusa.
Mesmo depois do advento do Cristianismo, e independentemente dos capatazes Romanos, os Pretos do Alto Nilo continuaram a visitar o santuário de Isis em Philae, e para certas festas foram permitidos a tomar emprestado a estátua da deusa.
Os ocupantes Romanos do Egito eram ambivalentes ao culto de Isis. Este tinha apoio popular difundido na Itália, mas encontrou resistência flutuante oficial. A adoração de Isis, na própria Itália, pode ser rastreada até o século II a.C. Um colégio de seus sacerdotes foi fundado em Roma no tempo de Sulla, c. 90 a.C. É interessante notar que mais de um terço dos seguidores de Isis no início da Itália, indicado pelas inscrições, eram mulheres. *

[ * — Sarah B. Pomeroy, Goddesses, Whores, Wives, And Slaves (New York: Schoken, 1975), p. 223.]

Em cinco ocasiões durante a República os santuários foram ordenados derrubados. Em 28 a.C. Augusto tornou ilegal a construção de Templos de Isis em Roma, e Tibério perseguiu seus sacerdotes. Calígula, mais perspicaz do que seus predecessores, medindo adequadamente a opinião popular, construiu um templo para a deusa Africana no Campus Martius. A maioria dos sucessivos imperadores Romanos seguiu seu exemplo e no século II d.C. Isis foi uma fixação sólida entre os altos funcionários de Roma. Dois obeliscos Egípcios, pelo menos um dos quais foi construído durante o reinado de Ramsés II, c. 1260 aC, foram erigidos fora do templo de Isis no Campus Martius. *

[ * — Budge, p. 209]

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No século VI d.C. a religião Cristã triunfou no Norte da África, e especialmente no Vale do Nilo. Justiniano, governante do Império Romano em decadência, havia ordenado a reconquista do Noroeste da África em 533 d.C. Três anos mais tarde, por seu édito imperial, o templo de Isis em Philae foi permanentemente fechado, mesmo apesar da intervenção armada de seus patronos Pretos. As grandes civilizações do Norte da África foram derrubadas, resultando, pouco tempo depois, numa nova época de miséria e ignorância em toda a Europa. A Europa tinha suprimido a sua luz e viu-se chafurdando em sua própria decadência. Como Massey tão simplesmente, mas eloquentemente escreveu: “A sabedoria dos antigos era a sabedoria do Egito”.*

[ * — Massey, p. 10]

 

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     ESTILO FEMININO E BELEZA NO EGITO ANTIGO:
UM ENSAIO FOTOGRÁFICO

Por  Camille Yarbrough

              Nas sociedades Africanas tradicionais acreditava-se que a mistura de elementos corretos poderia ser usada para inspirar e manter a disposição favorável das forças visíveis e invisíveis (os deuses) que cercam e trabalham dentro do indivíduo e da comunidade. Se uma dança cerimonial tinha todas as partes corretas: a correta súplica aos deuses pela intercessão favorável, os movimentos de dança corretos, os ritmos, a atitude, o fechamento e o propósito corretos, então essa dança era considerada vivificante [life-giving] e, portanto, boa e bela. A Beleza é assim como a beleza faz [Beauty is as beauty does].

Esta gestão das forças para alcançar fins positivos ou negativos é o conceito tradicional Africano de magia. Desde a mais antiga das épocas, as sacerdotisas, os sacerdotes e o povo comum Africano acreditavam e usavam a magia, a medicina e a religião para se protegerem das forças do mal e atraírem as boas. O uso da magia, medicina e religião para alcançar o bem/beleza, juntamente com um sentido estético em evolução foi o ponto de partida no desenvolvimento do conceito de estilo e beleza na África antiga.

“À distância parecia que seus corpos estavam esculpidos . . . Como flores em seda trabalhadas em lenços [que] nunca desaparecem, como damasco florido, cetim florido que tem uma linda aparência.” Estas são algumas das impressões evocadas pelos exploradores do século XV e do século XVI ao ver pela primeira vez marcações padronizadas e texturizadas nos corpos das mulheres Africanas que encontraram em suas viagens pela África. Eles estavam se referindo ao adorno corporal que hoje chamamos de Escarificação ou Cicatrização. Não se sabe exatamente onde ou quando outras formas de decoração do corpo vieram a existir, mas sabemos que a Escarificação é muito antiga.

O adornamento do corpo Africano é complexo e muitas vezes é mais do que um simples ato de embelezamento. As mulheres Africanas vistas pela primeira vez pelos exploradores Europeus eram orgulhosas dos desenhos florais e geométricos que decoravam seus corpos. As marcações eram uma linguagem claramente compreendida por aqueles que podiam ler seus significados simbólicos. Elas eram uma indicação de status social. As marcações variavam de acordo com o grupo cultural, mas geralmente contavam a seguinte história:

“Vê o desenho em meus seios, braços e costas? Eu tive minha primeira menstruação. Eu atingi a maioridade. Dê-me honra. Vê o desenho no meu abdômen? Eu carrego meu primeiro filho. Dê-me honra. Ou, vê o desenho em meu rosto? Eu sou uma mulher casada. Dê-me honra. Você pode ler minha realização e a força de meu caráter quando você vê a arte e a acumulação do meu adorno, me leia e comporte-se de acordo.”

Isto é como tem sido por séculos. No livro de Leni Riefenstahl, Nuba, ela nos dá as seguintes informações:

De acordo com os médicos Kudjur, a cicatrização deriva de um propósito prático e medicinal: é um costume antigo entre povos primitivos, que data de vários milênios, destinado a imunizar o corpo contra uma série de doenças infecciosas, assim como fazem as vacinas modernas.

Cortando e beliscando [plucking] sua pele com pedras afiadas, galhos, espinhos, estilhaços de cristal ou facas e, em seguida, aspergindo as feridas abertas com cinzas ou seiva, os Africanos antigos estimulavam seus corpos para criar anti-corpos protetores e para resistir à doença. O corte e belisque da pele era feito em padrões e desenhos e as cicatrizes produziam cumes e pontos elevados e níveis deprimidos da pele mais escuros ou mais claros do que a pele circundante. Uma demonstração de coragem silenciosa em face da dor sentida ao receber as marcações era o preço pago pelo direito de passagem de uma estação na vida para outra. Quando feito por especialistas a prática se tornou uma forma de arte, uma forma de estilo e beleza.

Desenvolvendo-se a partir do mais simples dos estilos, o trançar do cabelo também se tornou uma forma de arte na África. Há aproximadamente cinco mil anos atrás, no Saara, nas paredes de pedra do planalto de Tassili, a cerca de 900 quilômetros a sudeste de Argel, um artista da idade da pedra desenhou uma figura de uma mulher sentada e amamentando uma criança. A mulher está usando o estilo de cabelo trançado que os Africano-Americanos chamam de “Conrowns”, um estilo clássico para a textura do cabelo Africano. Ao longo de um período de milhares de anos os estilos de cabelo trançado simples tornaram-se mais elaborados e simbólicos de status social;

Você poderia dizer ao clã, a aldeia,
pelo estilo de cabelo que usavam. . .
Então o povo Iorubá
usava trinta tranças e muito mais.
Você reconheceria a princesa, a rainha e a noiva
pelo número da trança. . . .
Você conheceria os Deuses que eles adoravam
pelo padrão que eles fizeram.

Há pouca evidência para mostrar que as mulheres Egípcias usavam seus cabelos no estilo “cornrow,” mas elas usavam tranças em camadas curtas e em cascatas longas, pesadas, até ao ombro. Perucas de todos os estilos foram usadas por todas as classes de mulheres Egípcias e Núbias para eventos sociais e cerimoniais. Elas eram feitas de cabelo natural, encarcolado e liso, lã de ovelha, e fibras vegetais. Perucas podem ter sido criadas para proteger a cabeça contra os raios do sol. Para fins religiosos, sociais, e higiênicos, as mulheres Africanas têm, desde a antiguidade, raspado a cabeça ou mantido o cabelo muito curto. Especialmente no Egito, perucas foram usadas sobre o cabelo curto ou sobre o couro cabeludo calvo. O sangue de um touro cozido em óleo e aplicado ao cabelo era uma fórmula Egípcia para escurecer os cabelos grisalhos. A maquiagem dos olhos começou como medicina e magia. Durante o tempo da inundação anual do Nilo, os fortes raios do sol acima e seu reflexo refletido nas águas que inundavam as terras do Egito e da Núbia eram prejudiciais aos olhos daqueles povos antigos. Os médicos Africanos descobriram que, aplicando pomadas acalmantes nas pálpebras e sobrancelhas dos olhos e depois limpando as pálpebras com chumbo, cobre, antimônio em pó ou qualquer substância que agisse como um adstringente, eles poderiam aliviar a tensão sobre os olhos e aliviar a dor. A tinta também foi aplicada aos cílios. Os Egípcios escreveram sobre a pintura como sendo mágica por causa do alívio que ela dava, mas as mulheres logo descobriram algo mais sobre ela. A cor da pintura-do-olho acrescentava fascínio, um poder do desenho a seus rostos, atraindo a atenção de homens admirando. A pintura era verdadeiramente mágica e cada irmã que tinha olhos também tinha uma paleta de pedra pequena em que ela esmagava e misturava os minerais coloridos. Elas aplicavam esta maquiagem mágica/medicinal para as pálpebras com um dedo ou uma vara curta feita de osso, madeira, marfim ou pedra.

Só as concubinas pintavam os lábios de vermelho. Mas era a moda para todas as mulheres pintar as unhas dos dedos e as unhas dos pés com o suco da planta henna.

Princesa MerytAten - tampa de vaso canopico -  da tumba de akhenaten -.jpg

 

 

Para hálito doce, pequenas pelotas de especiarias misturadas, mel e anti-goma eram mantidos na boca. As irmãs ricas e os pobres ungiam seus cabelos e corpos com pomadas e óleos perfumados domésticos ou importados, acreditando que eles tinham poderes mágicos e medicinais. Elas perfumavam-se sentando-se sobre ou perto de potes com sândalo ou outras substâncias aromáticas queimando, permanecendo lá para admirar seu reflexo em espelhos redondos ou ovais de cobre, polidos em ambos os lados. Em seus pés usavam sandálias de papiro, couro ou madeira. Se elas usavam sapatos ou não era determinado por sua idade e classe.

Nos mais remotos dos tempos, elas usavam pedras, rochas, ossos, penas e flores em seus corpos para proteção mágica. À medida que suas culturas se desenvolveram e se tornaram mais prósperas, amuletos de turquesa, ametista, dard, cornalina, lapis lázuli e jaspe vermelho, amarelo, e preto foram moldados, polidos e colocados em colares, pulseiras, tornozeleiras, peitorais, protetores auriculares e anéis de ouro, pedras e colares de porcelana esmaltada. . . eventualmente tornando-se jóias. Escaravelhos foram primeiro enterrados com os mortos para proteger seus corações. Com o passar do tempo eles se tornaram jóias para serem usadas para proteger os corações dos vivos. As mulheres Egípcias usavam-os em abundância. O Olho de Horus era usado como um amuleto. Acredita-se que ele trazia magicamente as bênçãos de força, vigor e boa saúde para o utente. Séculos antes, no entanto, era a concha de cauri que, por causa de sua abertura, lembrava a abertura do olho humano e era usada como proteção contra o mau-olhado. Princesas e concubinas usavam conchas cauri de ouro em forma de colares, cintas, e pulseiras. O Ankh era usado como um símbolo da vida. As culturas ao sul trouxeram brincos para o Egito. As mulheres das nações do sul usavam brincos e tampões de grande variedade, alguns dos quais esticavam seus lóbulos da orelha até a magreza e flexibilidade da corda.

Novas descobertas foram feitas nas terras ao sul do Egito e em breve estaremos em posse de muito mais informações sobre o estilo e beleza em outras terras da África antiga.

 

 

Bibliografia
Ben-Jochannan, Yosef, Africa: Mother of Western Civilization, Alkebulan Book Associates, New York, 1971.

Budge, E.A. Wallis, The Dwellers on The Nile, Dover Publications, Inc. New York, 1973.

Budge, E.A. Wallis, Osiris & The Egyptian Ressurrection, Vol. I, Dover Publications, Inc. New York, 1973.

Casson, Lionel, Ancient Egypt, Great Ages of Man, Time/Life Books Inc. New York, 1965.

Champollion, Jacques, The World of the Egyptians, Minerva Press, Geneva, 1971.

Davidson, Basil, Great Arts of Man: African Kingdoms, Time/Life Books Inc. New York, 1971.

Erman, Adolf, Life in Ancient Egypt, Dover Publications, Inc. New York, 1971.

Foster, John L. Love Songs of The New Kingdom, Charles Scribner’s Sons, New York, 1974.

Janheinz, Jahn, Muntu, Grove Press, New York, 1961.

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Van Sertima, Iva, Ed. Egypt Revisited, Journal of African Civilizations, Transaction Periodicals Consortium, New Brunswick, New Jersey 1982.

Wenig, Steffin, The Woman in Egyptian Art, McGraw Hill, New York, 1969.

 

 

figura 2 - van sertima - nefertiti beijando sua filha.jpg

 

figura 3 - van sertima - cinto e peitoral da princesa Set-Hathor, filha do Faraó Sesostris II

 

detalhe -  Peitoral da princesa  Set-Hathor.jpg

 

figura - peitoral da princesa set-hathor [Sithathoriunet]

 

 

figura 4 - van sertima - pintura rupestre em Tassili - Mae usando cabelo trançado - amamentando filho

 

pintura rupestre - mãe e filho - plato de Tassili N'Ajjer - no Saara.jpg

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figura 5 - pintura mural tumba de Huy - tebas ocidental - mulheres Nubias levando Crianças.jpg

detalhe da pintura mural da tumba de Huy -  mulher nubia em carruagem.jpg

 

figura 6 - van sertima - mulher casa de maternidade

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figura 7 - van sertima - mulher núbias com crianças  no Egito durante o reinado de Thuthmes III.jpg
fig. 8 -   Van Sertima - first Meroitic queen.jpg

 

fig. 9 -   Van Sertima -  Meroitic queen.jpg

 

Meroitic Queens -  pintura mural - capela piramide meroe.jpg

 

fig. 10 -   Van Sertima -  Meroitic queen.jpg

Amanirenas- meroe - queen

fig. 11 - Van Sertima - Meroitic queen

 

 

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                 A IMAGEM DA MULHER NA
ARTE RUPESTRE AFRICANA

Por  Rosalind Jeffries

              A imagem transmitida pelo termo “homem pré-histórico” ou “homem das cavernas” nos levou a imaginar o homem antigo como tão ameaçador na sua masculinidade a ponto de dominar, ou reduzir à status diminutivo, a mulher antiga. Esta é uma visão falsa da primeira família humana, especialmente da primeira mulher, a Mulher Preta. Pois, ao examinar as milhares de gravuras em cavernas [cave etchings] e pinturas em centenas de sítios em todo o continente Africano, observamos que as mulheres, embora menos pintadas do que os homens, são pintadas em uma variedade surpreendente de estilos e assumem funções muito importantes.

A arte rupestre é encontrada no Norte da África: as Montanhas do Atlas, o deserto ao leste do Rio Nilo, logo abaixo do Delta, a região central do Saara (Jabbaren, Sefar, Tassili, Tibetsi, Ennedi, etc.); África Oriental: Etiópia, Sudão, Tanzânia, Zâmbia; África Ocidental: Sudão ocidental, Mali, Camarões, ambos os lados do Rio Níger; África Central: Zaire, Zimbabwe; e África do Sul: Brandberg, Limpopo, Salisbury e outros sítios que não são aqui mencionados.*

[ * — Brentjes, Burchard, African Rock Art, J.M. Dent & Sons Limited, Great Britain, 1969, pp. 2, 3.]

As mulheres são representadas usando máscaras, tanto de coberturas parciais quanto faciais completas, em madeira esculpidas ou fibras tecidas. Seu rosto e seu corpo são estriados, pintados e cicatrizados. Ela é representada em funções de liderança, como chefe de atividades comunitárias, como líder de cerimônias rituais para mulheres, para cura, e outras atividades. Além dos papéis maternos e domésticos usuais, ela também era criadora de gado e coletora de raízes, ervas, vegetais e frutas. As pinturas rupestres mostram a mulher guerreira com armas e a artesã fazendo cerâmica ou tocando tambores.

A mulher pré-histórica era ao mesmo tempo passiva e agressiva, assertiva e direta por conta própria, às vezes empunhando o poder de um deus, mesmo que ela permaneça como uma reticente apoiadora atrás ou ao lado do homem. Alguns trabalhos mostram a ela como Mãe Criadora Primordial, com poderes de fertilização e nutrição que se estendiam desde os firmamentos até abaixo da terra. Seus poderes de fertilidade no universo não se limitavam aos seres humanos, mas podiam ser ampliados para afetar a vegetação, a criação de animais e a atmosfera. Por causa do contato com a atmosfera, ela também era Fazedora-de-Chuva [Rainmaker]. Em tempos de crise severa, como extremos de seca, era a mulher, uma virgem, que era sacrificada, porque sua capacidade de fertilização era considerada por ser suficientemente potente para trazer chuvas para abater a sede da humanidade. A mulher era a “Dadora da Vida.” Ela também era a “Mãe Assassina,” associada ao símbolo do abutre, assim equipado para apanhar o que for necessário para que a raça sobreviva.

 

 

A Mãe Primordial Na Pintura Rupestre

A imagem da mãe primordial remonta ao início da antiguidade. Ela é vista em vários dos estilos que distinguem a arte rupestre de Mashonaland, Zimbabwe, na caverna Mshaya Mvura, Mtoko. Ela é pintada com belas curvas protuberantes. Sua postura corporal inteira é simbólica. Os braços e as pernas são akimbo, dobrados nas juntas e achatados para os lados do corpo em estrita simetria frontal, como o sinal Kanaga dos povos Dogon do Mali. A forma da cabeça da mãe do Zimbabwe é estreita e longa, tem uma frente abaulada com um proeminente cume de sobrancelha e bochechas largas, as mandíbulas protuberantes. O penteado ou chapéu é elaborado e tem longas serpentinas [streamers] penduradas em cada lado, que se assemelham fortemente àquelas encontradas na escultura feminina Bambara. O chapéu e as serpentinas [streamers] também se parecem com aqueles usados ​​pelas mulheres Senufo nas cerimônias de iniciação. A característica mais magnética da mãe primordial é a sua barriga extremamente grande e duas linhas fluentes distintivas que passam da forma grávida através da abertura vaginal e se conectam para se tornar linhas geográficas que delineam as grandes curvas do terreno. Estas duas linhas são referências metafóricas à mãe natureza cuja fecundidade bulbosa estimula sua semelhança em rios, córregos, colinas e montanhas. Dois homens estão desenhados caminhando sobre as montanhas, caminhos que se conectam ao seu ventre.

Outra imagem da Mãe Primordial é encontrada na Caverna Mrewa. Mostra oito pessoas, homens e mulheres, e um animal de cascos que a rodeia. Um homem a aborda, outro aplaude, outros dois homens são desenhados de cabeça para baixo com o fluxo passando entre eles. Sua postura estranha talvez seja sugestiva do fato de que eles estejam mortos e, portanto, são figuras no domínio ancestral. Assim, a fertilidade se estende desde a Mãe Primordial até a terra, os rios, os reinos vegetal-humano-animal e também os ancestrais.

A curadora Elizabeth Goodall, membra da Southern Rhodesian Monuments Commision [Comissão dos Monumentos da Rodésia do Sul], * compara brevemente a Mãe Primordial do Zimbabwe com o complexo de esculturas palatolíticas femininas protuberantes em osso e pedra encontradas na Europa, que muitas vezes foram referidas como “deusas da fertilidade.”.**

[ * — Goodall, Elizabeth, C. K. Cooke, and J. Desmond Clark, ed. by R. Summers, Prehistoric Rock Art of the Federation of Rhodesia and Nyasaland, National Publications Trust, Rhodesia & Nyasaland, 1959, p. 159.]
[ ** — Ibid., p. 93.]

Um exemplo é a conhecida Venus de Willendorf. Vênus semelhantes do período Aurignaciano na Europa, em locais onde o tipo Africóide Grimaldi foi encontrado, mostram cabelos ou uma peruca de cabelos compactos emaranhados, que só se estende até os ombros. Eles não são longos, com serpentinas [streamers], como na Mãe Primordial do Zimbabwe ou nas figuras da mãe primordial que aparecem mais tarde entre os Senufo ou Bambara ou as pinturas dos Bosquimanos Kun. O tipo na Europa tem acentuadas características Bantu.*

[ * — Pericot-Garcia, Luis and John Galloway, Andreas Lommel, Prehistoric and Primitive Art, Harry Abrams, Inc., New York, 1967, p. 15.]

A Mãe Primordial na Escultura
Pequenas estatuetas de argila de mulheres foram recuperadas de túmulos na Núbia, 3.500 a.C., e também túmulos Badarianos no Egito pré-dinástico, período I de Nakada.

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A fertilidade é personificada como mulher com curvas voluptuosas, enormes nádegas e coxas, cintura e pernas pequenas, seios grandes, a estética almofadada da esteatopigia. Algumas tinham amplos desenhos de escarificação no corpo. Algumas adicionaram abstrações zoomorfas sobre a forma antropomórfica: o rosto termina em uma ponta na boca e os braços são transformados em asas. Os vestígios esqueletais descobertos também eram de mulheres. Bumgartel observa que algumas delas eram mulheres notáveis, o túmulo de uma princesa ou sacerdotisa, cheio de contas, pano, jóias, pentes, etc., e ao lado desses objetos, as figuras de argila de mulheres.

Qual era o propósito de enterrar estatuetas de mulheres nas sepulturas pré-dinásticas? O motivo mais provável é que elas eram “cartas para os mortos.” A alma do falecido iria fazer uma viagem, ela poderia agir como mensageiro informando os deuses dos desejos por filhos dos vivos.*

[ * — Baumgartel, Elise J., The Cultures of Prehistoric Egypt, Oxford University Press, New York, 1960, pp. 66, 68, 71.]

No Museu de Berlim, pode-se encontrar a estatueta de uma mulher do Primeiro Período Intermediário segurando uma criança, sobre a [estatueta] qual ela escreveu seu desejo. Estatuetas femininas também foram encontradas em túmulos de homens e também eram petições por filhos à Grande Mãe. A subjugação do homem à Grande Mãe era uma percepção de que ela tinha uma deidade masculina como companheiro, seu amante e filho. Isso enfatizou a expressão idiomática no Egito, Ka-mwt, que significa “o touro de sua mãe” [“the bull of his mother”].

As raízes do Egito e Núbia pré-dinásticos e do Saara pré-histórico atingem profundamente a África, e são essas raízes que transmitiram para períodos posteriores e outros locais uma orientação mental específica própria das pinturas rupestres e esculturas. Em alguns casos, existe uma forte semelhança de forma, mas significados diferentes, e vice-versa — estilos diferentes, mas orientação mental e função semelhantes. Os símbolos e formas do Saara pré-histórico são encontrados em continuidade em outros lugares — leste, oeste e sul. O folclore da Líbia, como o do Egíto pré-dinástico, fala da deusa primordial Tefnut, a personificação da umidade do céu e seu irmão gêmeo, Shu, que personificava o calor e a secura da luz solar com a atmosfera seca que se pensava existir entre Terra e céu. Tefnut é representada na forma de uma mulher, com cabeça de leoa e juba sobre a qual estão o disco solar e o uraeus. A juba arbustiva [bushy] é feita para se parecer como a peruca de uma mulher, a textura do cabelo crespo com giros. Ela segura um cetro de mão e o ankh.

Shu e Tefnut foram os pais de Isis. Isis eventualmente absorveu os atributos de seus predecessores que formam o grande panteão pré-dinástico, Nekhebet, Uatchet, Net, Bast, Hathor e outros. Ela até foi identificada como a contraparte feminina do abismo primordial de água, do qual brotou toda a vida. Ela compartilhou com seu companheiro masculino Osiris o atributo de “Doador da Vida” e forneceu comida para os mortos e os vivos. Como Ament, ela se tornou a mãe de Ra. Ela possuía os poderes de uma deusa da água, um deusa da Terra, uma deusa do milho, uma deusa da estrela, e uma rainha do submundo.*

[ * — Budge, E. A., Wallis, The Gods of the Egyptians, Vol. 2, Dover Publications Inc., New York (first edition 1904), 1969, p. 216.]

O abutre e os chifres associados a ela estão associados a outras mulheres em pinturas rupestres e depois escultura em outras partes do continente.

O culto de Isis mais tarde se espalhou para a Europa Ocidental e ela foi identificada com Perséfone, Tethys, Atena, etc. A deusa Grega da sabedoria era Atena, uma mulher Africana, que entrou na mente do deus principal Zeus enquanto ele estava na Líbia.

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A mitologia diz que ela [Atena] nasceu da cabeça dele [Zeus]. Budge diz que uma forma anterior do nome Isis é As ou Ast e o nome era originalmente um nome Líbio do período pré-histórico do Saara.*

[ * — Ibid., p. 202.]

Um grande número de túmulos pré-dinásticos eram de mulheres e estes eram maiores em tamanho do que os túmulos de homens e tinham estatuetas femininas neles. “Portanto, temos que perguntar, se o nswt [‘Governante dos Dois Senhores’] talvez fosse originalmente uma mulher?” *

[ * — Baumgartel, The Cultures of Prehistoric Egypt, p. 142.]

 

 

Akan, Benin, Mãe Criadora

Nyame é o nome do Deus Supremo entre os Akan e ele é pensado por ser forte o suficiente para englobar ambos os sexos, masculino e feminino, ou então concebido como além da idéia abstrata de identidade sexual. No entanto, mais antiga do que este [nome] de Nyame e [do que] a crença no domínio masculino é a crença dos Akan em uma Mãe Suprema. *

[ * — Meyerowitz, Eva, The Divine kingship in Ghana and Ancient Egypt, Faber & Faber Limited, London, 1960, p. 30.]

Seu nome era Atoapoma, e eles próprios disseram que ela era auto-gerada e auto-produzida, eterna e infinita. Ela criou o firmamento com suas estrelas e sol e ela fez isso sem a ajuda de um parceiro masculino. Ela é personificada como a lua. Seus títulos incluem o termo “A Atiradora Sempre Pronta” [“The Ever Ready Shooter”] porque ela concedia vida atirando os raios doadores-de-vida da lua, fogo, para os homens e animais (mais tarde consideraremos a imagem simbólica da mulher-arqueira no ritual). O próprio sangue-vital [Life-blood] é o fogo de Atoapoma, um fogo lunar chamado kra. Ela foi venerada não só como “a Doadora da Vida,” mas também como “a Doadora da Morte.” Ela era Odiawuono, literalmente” a Mãe Assassina,” mãe dos vivos, mãe dos mortos, do céu e da terra. Sua referência do submundo era imaginada como o solo estéril no qual os mortos estavam enterrados.*

[ * — Ibid., pp. 26, 27.]

Não só os Akan, mas os Fon do Benin (Daomé) também acreditavam em uma mãe criadora original como suprema. O nome dela era Nana-Daho e seu símbolo de reconhecimento era chamado Tokpodoun, os seios multiplicados. Placas em relevo de seios sozinhos com marcas de escarificação são encontradas na antiga Núbia e também no Chade. Os tambores Akan podem ter de um a sete seios, em relevo. Outro nome para Nana-Daho é Minonna, aquela que criou gêmeos primordiais; e, assim como a mãe Akan Atoapoma, estes eram a lua (feminina) e o sol (masculino). Os gêmeos deram à luz sete pares de gêmeos que foram os ancestrais deificados dos Fon. No Benin, na Nigéria, do século 14 ao século 18, o Obá, durante os ritos comemorativos “Ugie Iye Oba” para sua mãe falecida, usava em torno de sua cintura o retrato de marfim de sua mãe. Ela era, portanto, uma mãe do estado.*

[ * — Jeffries, Rosalin, “The King’s Ivories,” Images of Power Art of the Royal Court of Benin, Grey Art Gallery, New York University, New York, 1981, p. 41.]

Rainha Mãe do Estado

O papel da Rainha mãe ou líder do clã também foi importante entre os Akan. O Estado da Anciã [Elder Woman] era uma confederação de sete clãs, cada um tendo uma cidade e várias aldeias. A Anciã [Elder Woman] tornou-se o Ohemmaa, literalmente “rei do sexo feminino” [“rei feminino”] e possuía o Estado como uma “mãe possui um filho.” Mais tarde ela foi conhecida pelo título de “Rainha Mãe” e, como antes, foi considerada divina, uma fundadora do Estado capaz de “dar vida” e manter a vida em seu Estado. Em “Des Clans Aux Empires” de Moret, ele diz:

Originalmente, parece que as cidades-Estado eram cada uma governada por uma mulher divina ou rainha mãe e um Saru, um conselho de homens, liderados por um ancião cujo ofício pode ter sido de muitas maneiras semelhante ao do Korontihene dos Akan. O Korontihene no passado era o governante dos homens e o administrador do Estado; ele não era divino, pois ele não tinha o poder doador-da-vida que a rainha-mãe tinha, a qual pode ou não ter compartilhado seu ofício com um sacerdote-chefe doador-da-vida, seu irmão ou filho, mas que originalmente não tinha poder secular.” *

[ * — Meyerowitz, The Divine Kingship in Ghana and Ancient Egypt, pp. 38, 39.]

O antigo cetro da rainha-mãe se chamava Nyansa Pow, um bastão com um “nó da sabedoria” [“wisdom knot”] amarrado em seu centro. Estes são vistos hoje em pesos de ouro mais antigos. É interessante que a deusa Grega Atena fosse a deusa da sabedoria e ela também nasceu em solo Africano e um nó foi associado à sua sabedoria. A deusa Líbia da sabedoria tem as mãos simbolicamente veladas e o pano desenhado em um nó com longos fios que fluem do nó. As mulheres Tuaregue e alguns descendentes dos Garamantes continuaram com o costume de velar as mãos com pano nodado [knotted cloth] nas cerimônias de casamento, onde eles cantam para os recém casados atados ou amarrados em matrimônio. *

[ * — Lhote, Henri, The Search for the Tassili Frescoes, Dutton Press, New York, 1959, pp. 73, 144.]

fig. van sertima -  5a e 5b  - cabeças de argila  - tumulos.jpg

 

A Rainha Mãe Akan foi frequentemente retratada na escultura sentada sobre um banquinho real [royal stool]. Figuras de mãe e filho seguiram a mesma estética estilística. As mulheres na antiguidade faziam cerâmica de terracota funerária chamada Abusua Kuruwa, * um vaso usado em túmulos, em santuários, para conter medicamentos, se despejar libações, etc.

[ * — Rattray, Robert Sutherland, Religion and Art in Ashanti, 1st pub. 1927, London, rev. 1959, pp. 164-66.]

Uma píton, muitas vezes mostrada envolvendo o pescoço do vaso, é uma possível referência ao provérbio “o arco-íris da morte envolve o pescoço de cada homem” [“the rainbaw of death encircles every man’s neck.”]. *

[ * — Cole, Herbert and Doran Ross, The Arts of Ghana, University of California Press, Los Angeles, 1977, p. 120.]

Entre os Senufo da Costa do Marfim, a píton é um símbolo da mulher de poderes que os mantém por grande fidelidade, pureza sexual absoluta. *

[ * — Glaze, Anita, Art and Death in a Senufo Village, Indiana University Press, Bloomington, 1981; and “Woman Power and Art in a Senufo Village,” African Arts Journal VIII, Spring 1975.]

Além da píton, os Akan incluiriam [a representação de] outras criaturas da terra na cerâmica: caracóis, lagartos, sapos e crocodilos. As criaturas da terra inscritas na cerâmica de terra saudariam o falecido, que eventualmente entra na terra mãe, o domínio de Odiarouono, “a mãe assassina” [“mother killer”]. Eles [os falecidos] ainda não deixaram o domínio de Atoapoma, “a doadora da vida.” Os topos de numerosos potes colocados no chão eram moldados à semelhança de líderes políticos ou personagens familiares ou então mantinham conceitos abstratos. O Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Gana tem uma cabeça esculpida de Kwahu, e é dita ser um retrato real de Adua Adwesawa, a Rainha Mãe da aldeia de Asakraka. A data é do início ou metade do século 18.*

[ * — Sieber, “Kwahu Terracotas, Oral Traditions and Ghanaian History,” in African Art and Leadership, ed. by Herbert Cole and Doublas Fraser, University of Wisconsin Press, 1972, p. 180.]

Esta cabeça é um disco achatado [flattened disque], outras são mais redondas como as cabeças de Fomena. *

[ * — Preston, George Nelson, The Akan: The Style and Importance of Their Terracota Funerary Art, unpubl. M.A. thesis, COlumbia University, New York, 1967.]

A forma de disco achatado é encontrada não só na escultura da Rainha Mãe sentada no banquinho real [enstooled] e vasos funerários, mas também na nótavel boneca de madeira Aqua’ba, que se assemelha na forma ao ankh Egípcio, ambos sendo uma cruz sobreposta por uma forma oval. A boneca Aqua’ba e a escultura funerária elevam o senso de beleza ideal Akan — brincos, penteados, seios, barba, pescoço longo, e anéis gordos para indicar prosperidade. Sieber relaciona a cabeça em forma de disco nesses vasos e a boneca Ashanti Aqua’ba com a forma de cabeça Akan mais desejável. “Após o nascimento, as cabeças dos bebês Kwahu são massageadas ao amanhecer por três dias para assegurar uma testa alta e achatada.” *

[ * — Sieber, “Kwahu Terracotas, Oral Traditions and Ghanaian History,” pp. 176, 180.]

A forma da cabeça de mulheres durante a 18ª Dinastia do Egito e a das filhas de Akhenaton era de moldagem semelhante. Minha teoria é que, uma vez que a cabeça de disco abstrato nas esculturas Akan alterna em intervalos convexos e côncavos, sua função provavelmente é similar à escultura funerária dos Bakota. Essas relíquias funerárias refletem o poder da lua, que é a personificação da Atoapoma Akan. Atoapoma também é Odiarouono, doadora e tomadora da força vital.

Bleek registrou como as mulheres Kun fazem cerâmica, * e Stow chama a atenção para pinturas de cerâmica em ambientes domésticos com pedras de moagem, roupas e outros itens domésticos. *2 Trabalhos mais antigos que mostram cerâmica em Sefar no Sahara, existem. *3

[ * — Bleek, W. H. l., Specimens of Bushman Folklore, George Allen & Co., London, 1925, p. 323.]
[ *2 — Stow, George W., and Dorothea Bleek, Rock Paintings in South Africa from Eastern Province and Orange Free State, Methuen & Co., Ltd., London, 1930, pl. 4.]
[ *3 — Lhote, The Search for the Tassili Frescoes, pl. 55.]

 

 

           Female with Horns and Masks

           Mulheres com Chifres e Máscaras

Uma das imagens mais reproduzidas do Saara pré-histórico, 8000-6000 A.C. é de Aouanrhet e é chamada de “A Deusa com Chifres” [“The Horned Goddess”] ou “A Senhora Branca” [“The White Lady”]. Ela é chamada de branca por causa da extensa chuva de grãos claros de trigo que cobriram sua pele escura.*

[ * — Ibid., p. 89.]

Esses grãos que caem de cima formam uma massa de pontos, um padrão disperso que contrasta muito com os pontos de escarificação mais permanentes em longas filas de três e quatro na pele da mulher, nos ombros, nos seios, em uma longa faixa que se estende nos lados de seu corpo rodeando sua parte inferior do abdômen e também nas pernas abaixo dos joelhos. Ela é ágil e graciosa, representada em passos ativos (um arco-íris arqueado entre as pernas). Ela usa longos chifres sobre sua cabeça encimada por um chapéu em forma de pote que tem curtas, mal visíveis, franjas. (A mãe primordial pintada com serpentinas [streamers] que vêm da cabeça já foi discutida.) Sua saia curta e braceletes também são feitos de franjas. Franjas, borlas e nódulos muito mais elaborados são destaques de moda no vestuário da côrte da 25ª Dinastia Núbia. Essa deusa Saariana de Aouanrhet, como a Atena da Líbia, tem ambas as mãos veladas em pano que termina em nós com longas serpentinas [streamers]. Seu chapéu é tão básico, mas se parece com os chapéus em forma de ‘pote virado pra baixo’ das máscaras capacete Mende Bundu. Essas máscaras são usadas pelas mulheres da poderosa Sociedade Sande. Eles têm penteados de alta moda, e se uma forma de ‘pote-de-cabeça-pra-baixo’ é vista sobre o penteado é uma referência às oferendas de colheita, um vaso virado [em libação] oferecendo sacrifício aos ancestrais, em Serra Leoa. Os chifres na pintura rupestre de Aouanrhet são semelhantes ao conceito de chifres sobre a imagem de Hathor e Isis, deusas da vegetação, agricultura e fertilidade (em relação à criação de animais).


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[em construção]

 

 

 

 

 

 

 

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2 respostas para Mulheres Pretas Na Antiguidade – Ivan van Sertima

  1. Pingback: 10 REFERÊNCIAS SOBRE O MATRIARCADO AFRICANO E O PAPEL DA MULHER EM ÁFRICA – pensamentosmulheristas

  2. Obrigado pelas obras traduzidas, tenho impresso algumas p ler tem me ajudado muito

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