Anatomia da Alma: Livro dos Mortos 42 – Ilha do Fogo: Parte Sete

Book of the Dead of Hunefer sheet 3

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Anatomy of the Soul – Book of the Dead 42 <

– Anatomia da Alma: Livro dos Mortos 42 –
– Ilha do Fogo: Parte Sete –

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book of the dead british museum

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Book of the Dead of Hunefer sheet 5

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20120215-Bookofthedeadspell17

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Book_of_the_dead_egypt

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anatomia da alma

,

Ilha do Fogo: Parte Sete

 

Eu sou o supremo deus, compreendendo dentro do meu ser total todas as outras divindades. Eu sou invulnerável em cada parte do meu corpo.
Meu cabelo flui em ondulações, ele é as Águas-Caóticas de Num;
Minha face resplandecente é o nascente Ra;
meus olhos são claros como o próprio céu-diurno, que é Hathor;
meus ouvidos aguçados são o deus chacal Wepwawet;
meu nariz preside sobre minha face, ele é Amun presidindo sobre a cidade Kasew;
meus lábios são o deus chacal de boca ampla Anubis;
meus dentes afiados são a deusa escorpião Sereqet;
meu pescoço é a bela Isis;
meus braços são Knum, senhor da cidade Djedet, quem esculpiu o mundo para existência;
minha garganta é Neith da cidade de Saïs, guerreira esposa de Seth, e minha espinha é o próprio Seth;
meu pênis é o ressuscitante Osiris;
meu tronco é o inteiro panteão honrado na cidade de Hery-Aha;
meu peito é o deus chamado “o mais radiante”;
minha barriga e costas são a vigorosa deusa leão Sekmet;
minhas nádegas são redondas e perfeitas como os olhos de Horus;
minhas cochas e panturrilhas são Nut, o céu noturno;
minhas pernas [lower legs] são Ptah o criador, estas sustentam o inteiro cosmos que Eu sou;
meus dedos das mãos e pés são viventes cobras sagradas de real autoridade.
Eu não tenho nenhum membro que careça sua divindade, mas Thot ele próprio, o deus da Escrita e Conhecimento, é a palavra [the spell] que protege meu inteiro corpo.

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anatomia da alma 2

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Nn a2t jm.j s2wt m nt2r, D2h2wty m sa jwf.j tm.

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Eu sou Ra, sol de cada dia. Eu não serei apanhado por braços ou agarrado por mãos. Não há nenhum homem ou deus, espírito transfigurado ou alma perdida, nenhum
nobre, plebeu ou sacerdote que possa roubar nada de mim; Eu emerjo seguro, porque ninguém sabe o meu nome secreto.

Eu sou Ontem, Eu vejo os incontáveis ​​anos que se passaram, porque Eu sou um que tem viajado a estrada cujos guardas são julgadores dos mortos. Eu sou Osiris, Eu possuo a eternidade. Eu conheço o desejo de existir novamente no tempo, para mudar e tornar-se! (linha ininteligível)

Eu sou Wedjat, o olho fechado do criador adormecido nas águas do Caos, o grande ovo a partir do qual toda a existência chocou. Um com Wedjat, embora sem luz Eu estou vivo. Wedjat me protege. Eu tenho saído como o sol sai, para brilhar, tenho posto novamente em trevas, mas eu continuo vivo.

Eu sou um com Wedjat, entronizado. (linha ininteligível)
Eu sou tornado um Horus que caminha através dos tempos; que eu devo reger, assim entronizado, foi ordenado para mim. Quer eu esteja acordado e fale ou esteja eu calado e dormente, eu reino com justiça precisa.

Eis que o meu modo de ser foi invertido, transformado!
Eu sou Osiris Wenen-Nefer, o amável [the kindly one],
generoso senhor da terra-subterrânea [underearth],
cuja riqueza é inesgotável, temporada após temporada, quem descobre seus presentes um por um.

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.

figura 3 anatomia da alma

,

Eu existo dentro do Wedjat. Nada de ruim ou errado irá me acontecer, nada irá me atrapalhar.

Eu sou Wedjat, o olho do sol, Eu abro os portões do céu, Eu governo a partir do trono solar, Eu decido quem deve nascer neste dia. Ontem é uma porta fechada. Hoje, o portal do presente, é o único portão através do qual uma criança pode vir ao mundo. Eu sou este Hoje, através de todas as gerações. Eu sou seu protetor, humanidade, para todos os tempos.

Vocês existem, criaturas do céu e da terra, do sul e do norte, do leste e do Oeste? Isto é porque meu poder assustador está ativo em seus corpos. Eu sou aquele cujo olho é o sol, quem cria com um olhar. Eu não vou experimentar a morte novamente, antes, minha atividade irá sempre sustentar suas formas e Eu vou causar minha própria continuidade. (linha ininteligível)

Onde você está agora, céu? terra? Deitados juntos na noite do Tempo, o primeiro nascer do sol separou vocês, fazendo Nut (deusa do céu noturno)
empalidecer e subir, enquanto Geb (o deus da terra) foi deixado estendido verde abaixo. Eu sou aquele sol. Eu sou chamado “Aquele-Que-Supera-Todos-os-Perigos-e-Danos” [“He-Who-Overcomes-All-Danger-And-Harm”] porque minhas palavras têm poder sobre todos vocês.

Eu sou aquele que se levanta e ilumina parede após parede, cada coisa em sucessão. Não haverá um dia que não tenha sua devida iluminação. Passem, Ó criaturas, passe, Ó mundo! Ouça! Eu Ordenei-lhes! Eu sou o lótus cósmico que subiu brilhando das negras águas primordiais de Nun, e
minha mãe é Nut, o céu noturno. Ó você que me fez, Eu já
cheguei, Eu sou o grande regente do Ontem, o poder de comando está em minha mão.

Ninguém que tentar me conhecer vai me entender, ninguém que tentar me agarrar vai me tocar. Ó ovo de luz a partir do qual eu choquei, Eu realmente sou o falcão Hórus que rege sobre todos os tempos, o ressuscitado pássaro solar cujo fogo queima os rostos dos meus inimigos maliciosos. . .

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h3nty h2h2, hh.j r h2rw.sn, s2ryw-jbw.sn r.j (. . .)

.

figura 4 anatomia da alma hieróglifos

 

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figura anatomia alma parte 8 - mythscape

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                        Texto do Sarcófago 335a
Coffin Text 335a bare

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Eu sou Atum enquanto ele ainda estava submerso em Nun (as águas do caos), quando ele era potencial todo-inesgotável, antes que qualquer possibilidade tivesse sido limitada ao que é.

Eu sou Ra no momento em que seus raios primeiro brotam do horizonte, quando ele retoma seu brilhante governo de tudo o que ele criou.

Eu sou aquele grande e auto-criado deus que inventou todos os nomes para o que ele próprio é, mestre dos nove deuses, que não cede a nenhuma outra divindade.

Eu possuo o Ontem, Eu sei o Amanhã.

Eu ordenei que o navio de guerra dos deuses fosse construído. Eu sei o nome do grande deus que está nele.

Eu sou esse deus. Eu sou Osíris, e o navio é Neshmet, ele me leva ao meu reino entre os mortos.

Eu sou Osíris. Eu estou morto como o ontem, e estando morto Eu posso ver o futuro.

Eu sou a Fênix, a grande garça-real,
o pássaro de emergência, primeira criatura a aparecer no monte primordial que surgiu do (águas) caos de Nun. Eu olho sobre tudo o que vai ser, Eu supervisiono cada detalhe.

Eu sou Min (o deus da colheita), quando ele emerge da terra. Eu coloquei sobre seu cocar, duas penas altas, rijas e eretas, como novos brotos.

Eu deixei minha cidade e país, desci para o oeste, o local das sepulturas, com meu pai Atum, o sol poente, a cada dia,
pois meus pecados e erros são escorraçados pra fora, expulsos de mim,
qualquer crime meu é removido. Eu sigo uma estrada que Eu reconheço,
aquela que leva à ilha dos mortos bem-aventurados.
Eu viajo para o horizonte da existência, para a terra das almas brilhantes, transfiguradas,
Eu Venho através do portal santo. Ó meus ancestrais,
me alcancem suas mãos, vocês que me trouxeram à existência!

.

Jnk Jtm m wnn.j wa2.kwj m Nnw.
Jnk Ra2 m h3aw.f tpyw, wbn.f m ah3t,
s2aa2.f h2qa jrt.n.f.
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jr.n.tw a2h2at nt2rw h3ft wd2.j, jw.j rh3.kwj nt2r pw a2a jm.s.
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.

figura anatomia hieróflifos 5 - parte 8

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Jmyw bah2, jmj n.j a2wy.tn. Jnk pw h3pr jm.tn.

,

1 = nj jnk

2 Jwnw é o local da pedra bnbn [ben-ben]; o pássaro bnw [benu] está associado a este lugar tanto mitologicamente quanto etimologicamente através da raiz comum bnn, “destacar-se, manter-se.”

3 variante de jwt.

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,

Eu ajudei a restaurar o olho de Horus quando Seth o tinha ferido, no dia que esse par lutou pelo reinado.

Aquele olho é a lua, atacada todo mês por Seth e as forças das trevas;
a lua, cujas alterações mímicam eternamente como Osíris morreu e Horus o restaurou.

Eu desobstrui as nuvens de tempestade que obscureciam o sol, que é o olho direito de Horus.

Eu removi as nuvens carregadas como se fosse um irritante cabelo de cílio.

Eu vi o nascimento do Ra nascente, o amanhecer [aurora], filho de Ontem,

Eu o vi emergir de entre as coxas de Hathor:
Hathor, a grande ‘que-caminha-sobre-as-águas’ [the great wader], que subiu fortemente das águas do Caos para se tornar o nosso céu, como uma vaca rasando para fora do Nilo [wading out of the Nile].
Ela cavalga o nosso mundo, uma perna descansando em cada ponto cardeal,
sua barriga salpicada com a lua e as estrelas.

Ra está bem e assim também estou Eu. Assim como Eu sou, assim também ele é. Nosso ser coincide,
pois Eu sou contado entre os guerreiros de Horus . . . .

Eu sou o gato que divide a árvore santa na cidade de Ra.

Ra é este gato. Assim como gatos atacam cobras, Ra combate a serpente Apophis a cada amanhecer.

(A deusa-do-céu) Nut é uma árvore no horizonte, uma árvore que mantém os inteiros céus em seus ramos.

Todo dia quando Ra renasce, ele corta o seu caminho livre daquela árvore.

Eu sou o gato Ra cujas garras matam Apophis, quem corta seu caminho livre da árvore da noite.

Assim como é cada aurora [amanhecer], assim foi na primeira
quando soberano Ra aniquilou as forças das trevas. . . .

.

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(30 linhas de obscuridades envolvidas)

Jnk mjw pw ps2n js2d m Jwnw
grh2 jm.f PWY n h2tm h3ftyw nb-r-d2r. . .

(breve brilho omitido)

.

figura anatomia hieróflifos 6 - parte 8

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                  O Caso de Horus contra Seth

O Texto e o Conto

Horus contra Seth é um manuscrito do século XII AEC [cerca de 3200 anos atrás], escrito em Egípcio tardio [Late Egyptian].
Esta é a simplificada língua vernácula que substituiu o Egípcio Clássico, até mesmo como um meio literário, no Império Novo [New Kingdom] (do século XVIII ao século XVI AEC).
Ele é um texto particularmente bom para estudantes do Egípcio tardio por causa de seus excelentes manuscrito, sintaxe básica, e conteúdo de entretenimento.

Eu acredito que este foi o texto de um drama de um templo popular, realizado na época da colheita na cidade de Saïs, lar da deusa da fertilidade Neith, senhora das enchentes.
Ela, e não Ra ou Osíris, é a divindade suprema neste conto.
Para ela, os deuses vão duas vezes para a arbitragem final do caso. Mesmo Osiris não faz mais do que reforçar a decisão dela.
E o julgamento final dos deuses se dá em Xoïs, a cidade ao lado de Saïs, na época da colheita “quando os campos brilhavam brancos com grãos.” A peça provavelmente teve um narrador e atores mascarados, e performance com fantoches não é de forma para ser descartada.
Para entender nosso conto, temos de começar deixando de lado a histérica ‘afetação-de-virtude’ [histerical prudery] que até agora descartou qualquer discussão aprofundada. A adequação [appropriateness] para se tratar isso como um documento sério da mitologia, e não como um conto jocoso ou cético, é obvia de uma vez pelo estilo da escrita, a qual é, apesar de sofisticada, bastante sem ironia. Esta impressão é reforçada pela própria tipografia do documento. O definitivo [determinative] para “deus”, a flâmula-do-templo [temple-pennant] que normalmente segue o nome de qualquer divindade, tem sido em quase todos os casos substituído com o definitivo-Falcão de Horus [Falcon-determinative of Horus]. Isso é verdade mesmo com o nome de Seth. Os escribas que copiaram este trabalho sentiram claramente que as descrições das lutas de Horus com Seth continham energias perigosas. Estas forças tinham de ser controladas por uma insistência gráfica de que Horus devia de fato triunfar. Evidentemente, os Egípcios levaram o documento muito a sério, e à opinião deles a nossa deve submeter-se.

Além disso, o conto começa com a afirmação inequívoca de que este é um conto de “enormes seres, grandes e antigas divindades da época do início.” Não há nenhuma razão para não tomar o narrador em sua palavra. O caso de Horus contra Seth diz respeito às leis da natureza, os ciclos da morte e renascimento sobre os quais a vida depende. Encontramos isto expresso no trocadilho do título da peça. Wepet, o “Julgamento”, do caso de Horus contra Seth, é a mesma palavra na expressão para “Ano Novo”, a Wepet Renpet, literalmente a “abertura” ou “divisão” do ano. Todos estes significados vêm do verbo wepey que pode significar (variadamente) abrir, inaugurar, partir, separar, dividir, julgar, discernir ou distinguir.
Para transmitir plenamente o significado do título, nós provavelmente teríamos que traduzi-lo como algo bastante embaraçoso, como “O Julgamento de Horus contra Seth do Dia do Ano Novo” [“The New Year’s Day Judgement of Horus versus Seth.”]

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                        Águas de Renovação

No Egito, o principal ritmo da vida é a inundação anual do Nilo.
O Jovem Horus deve suceder seu falecido pai para garantir a continuidade deste ciclo. Desde o próprio início da estória, Ra refere o caso às divindades que supervisionam a inundação anual, Ba-Neb-Djedy e Ptah-Ta-Tenen. Eles, por sua vez submetem a decisão à Neith. Neith é a força da vida em suas origens líquidas: as águas de seu ventre eram o caos-oceano a partir do qual surgiram as primeiras coisas. Evidentemente, este é um caso cujo veredicto deve ser declarado pela própria natureza. Se o reinado [kingship] for para o requerente certo, as inundações virão. Caso contrário, o cosmos é destruído, ele retorna ao caos pré-criação. Como Neith afirma na secção V, “Eu me tornarei irada e o céu vai desabar para a terra.” Em uma questão tão momentânea, o sucesso deve ser uma conclusão antecipada, conforme os deuses em conselho reconhecem na seção III, quando eles dizem que o caso já foi decidido na sala do tribunal nomeada “Assim-O-Mundo-É-Ordenado” [“Thus-The-World-Is-Ordered”].

A significância da água como uma força da renovação do mundo não é específica ao Egito: descobre-se esta em todo o mundo nos mitos do dilúvio (de Noé, de Deucalião, de Utnapishtim) a partir do qual a terra re-emerge purificada e nova. O simbolismo do renascimento do Batismo é uma versão tardia e sofisticada do motivo [motif] (tema).

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Um Tempo Fora do Tempo

A ação do conto torna-se plenamente inteligível somente quando vista em relação com a celebração do Ano Novo em sociedades arcaicas. O Ano Novo, neste contexto, não é uma questão de mero cálculo de calendário [calendrical calculation], mas sim o ponto de viragem no ano agrícola [the turning point in the agricultural year] quando o tabu [taboo] sobre a nova colheita é levantado e esta pode ser colhida e comida com segurança. Dois exemplos bem conhecidos são o Rosh Hashaná Hebraico e o Akitu babilônico.

O Dia de Ano Novo Egípcio, Wepet Renpet, “a Abertura do Ano”, começava em um ponto de dramática importância agrícola: o aparecimento da estrela Sírius, que marcava a colheita final do ano, e o início da estação das cheias [inundação], da qual a irrigação e fertilização dos campos para o próximo ano dependiam. (Note que o Ano Novo do moderno Ocidente é uma exceção à regra, e veio à existência apenas como resultado de muitas reformas do calendário, particularmente a de Júlio César, que passou o ano novo de seu lugar normativo, em Março, para Dezembro. Um vestígio do velho calendário agrícola dos Romanos sobrevive no feriado da Quaresma, que é, em origem, como a Páscoa e o Yom Kippur Judaicos, uma tabu [taboo] ou prescrição sobre grãos até que a primeira colheita chegue.)

A nossa história depende, em detalhe muito considerável, do calendário e do ciclo das estações do Egito, por isso devemos olhar para estes ainda mais de perto. O ano Egípcio era dividido em doze meses de trinta dias cada. Estes 360 dias eram então aumentados com cinco dias intercalares para trazer o total para 365. Os dias extras recebiam uma explicação lendária, a qual Plutarco fornece na íntegra em seu ensaio On Isis and Osíris [Sobre Ísis e Osíris].

Nut, a deusa do céu, dormiu com o deus da terra Geb contra a vontade de Ra. Ele a amaldiçoou a não carregar sua prole “nem em qualquer mês nem em qualquer ano”, isto é, nunca. Thoth jogou com a Lua (que sempre tinha medidas fragmentadas de tempo útil) e ganhou tempo suficiente para compensar os cinco dias que estão fora do calendário normal e completam o ano. Em cada um destes dias intercalados Nut deu à luz a uma divindade: primeiro Osíris, depois Hórus, Seth, Isis, e Nephthys.

Isto é o que é aludido por Ba-Neb-Djedy na secção VIII, descrevendo Seth como o irmão, e não o tio, de Horus. Uma vez que a história se passa nos dias intercalares pouco antes do Ano Novo, a variante tradição está tecnicamente em vigor.

Este também é um não-tempo [a non-time], quando a ordenação normal do cosmos (a separação do céu e da terra, Nut e Geb,) é anulada, e às forças outrora freadas são dadas rédeas livres.

Assim, nós temos aqui as lutas entre Horus e Seth. Eu discutirei o tema [motif] da “abreviação da ordem” [“abridgment of order”] com mais detalhes abaixo. Aqui é suficiente notar como esta ajuda a determinar a configuração do conto nos dias intercalares.

Seth alude ao mito dos cinco dias também, na seção XIII. A frase que eu traduzi ali como “parente mais velho” [“Elder kinsman”] por uma questão de simplicidade, na realidade entende-se “irmão mais velho” [“older brother”].

A competição que Seth propõe, o concurso de submersão, também confirma a locação dessa história no Ano Novo. Cada ano Egípcio consistia de três estações ou temporadas, Aket, “Inundação”, quando o Nilo transbordava; Peret, “Emergência”, quando as águas se retiravam, e Shemew, “Falta-d’água”, os meses de primavera-verão. O desafio de Seth para Horus é de permanecer debaixo d’água por pelo menos três meses. Isto parece ser uma clara referência para a primeira temporada do novo ano, “Inundação”, quando uma inundação que cobria inteiramente a terra por um total de três meses faria uma irrigação muito bem sucedida.

.divindade: primeiro Osíris, depois Hórus, Seth, Isis, e Nephthys. 
Isto é o que é aludido por Ba-Neb-Djedy na secção VIII, descrevendo Seth como o irmão, e não o tio, de Horus. Uma vez que a história se passa nos dias intercalares pouco antes do Ano Novo, a variante tradição está tecnicamente em vigor.

Este também é um não-tempo [a non-time], quando a ordenação normal do cosmos (a separação do céu e da terra, Nut e Geb,) é anulada, e às forças outrora freadas são dadas rédeas livres.

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[em construção]

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