A Abertura do Caminho – Isha Schwaller De Lubicz

A Abertura do Caminho
Um guia prático para os Ensinamentos da Sabedoria do Antigo Egito
Isha Schwaller De Lubicz


isha lubicz - opening - capa

Figura 1 Abertura do Caminho -

.

——————————————————————————————

.

conteúdo:

1   Liberdade de Busca Individual

2   A grande Questão

3   A Constituição Humana

4   Alma e Consciência

5   O Alvo [The Aim]

6   O Duelo

7   O Caminho do Coração

8   A Fonte

9   Conhecimento

10   o Discernimento do Discernimento

11   O Milieu [O Meio]

12   A visita à Caverna

13   O Problema Sexual

14   O Pêndulo

15   Vigilância e Mediação

16   Conduta

17   As Sete Realizações

18   Os Sete Obstáculos

19   Reencarnação e Karma

20   Os Mestres

21   A Elite

22   Segunda Visita à Caverna

23   Paz

24   Alegria [Joy]

25   “Filho do Homem” e “Filho de Deus”

26   Assinatura

.

Apêndice I: As Relações Funcionais de Órgãos Corporais

Apêndice II: Estados Psicoespirituais em Diferentes Tradições

.

——————————————————————————————

.


Introdução


,

O homem moderno é o produto de vários séculos de cultura cerebral; ele tem ensinado a si mesmo tanto que ele imagina que pode progredir sem ajuda, simplesmente considerando a evolução como o desenvolvimento lógico e adaptação mútua de células, órgãos e faculdades.

Este estado de espírito professa explicar o universo e o homem pela razão e pela razão somente, sem supor que haja qualquer causa criativa. Isso tem, é claro, reforçado a noção de livre-arbítrio [free will]; pois se o homem não tem nenhuma outra causa para considerar além de si mesmo, se ele é supremo na natureza e a faculdade racional suprema no homem, então, obviamente, ele não pode admitir a existência de quaisquer outras leis ou forças naturais além daquelas que a sua faculdade de raciocínio pode analisar; e esta faculdade lhe parece existir como um meio lógico de submeter as forças naturais para seu controle. A investigação sobre a natureza humana, desta forma, tomou uma direção biológica, química, e altamente mecanicista, com uma visão puramente analítica e Cartesiana da ciência, e não tem chegado a quaisquer respostas construtivas para a questão de como a vida deve ser vivida.

Mas a ciência, orientada assim para o aumento do conforto material, criou novas necessidades, e estas por sua vez, têm desenvolvido no homem um senso de inveja e uma terrível sensação de pressa. A Inveja tornou-se uma doença social e o sentimento de pressa é tão tirânico que muito pensamento é gasto na tentativa de satisfazer a sua necessidade. Daí a busca febril por qualquer coisa que vá saciar os sentidos e as emoções, até que, no final um estímulo emocional seja avaliado apenas por sua violência; mas quer o efeito de sua indulgência seja bom ou prejudicial, ninguém sabe ou se importa.

A vida dos sentidos, quando indulgida tão longe, torna-se extremamente exigente. É bastante simples para se despertar apetites físicos, mas não tão fácil para controlá-los. Nervos treinados para excitação sentem um desejo doentio por esta, e quando a vida do cérebro e sentidos tem sido acostumada a ser alimentada continuamente a partir de fora por um fluxo interminável de pensamentos e imagens de segunda mão, de melodias cativantes e ritmos contorcentes [catchy tunes and twitching rhythms], ela clama por essas coisas porque elas tornam o esforço individual supérfluo, e abalam em pedaços qualquer noção de valores reais. Esse é o nosso mundo moderno, a dançar a ciranda infernal da pressa, cada vez mais profundamente envolvido na busca por variedade e novidade.

Uma mente treinada para essas ginásticas frenéticas apresentará claramente duas características: Vai ser insaciável, sempre preferindo quantidade à qualidade, e vai sofrer com a necessidade por velocidade. A mentalidade quantitativa tem já feito muito para transformar o padrão social, produzindo uma perda de interesse em termos de qualidade; e a necessidade por velocidade tem estado transformando a vida de toda a humanidade, abolindo as distâncias, trazendo nações e raças perigosamente perto juntas sem lhes dar qualquer princípio de concórdia.

Mas o pior efeito de todos estes novos impulsos tem sido o desequilíbrio nervoso que não pode tolerar o silêncio ou a inatividade. Estes dois pilares da meditação, sem os quais não se pode ter nenhuma verdadeira intuição ou experiência espiritual. Pode-se objetar que muitas inspirações, invenções, e até mesmo conversões espirituais aconteceram de repente, sem qualquer meditação anterior; mas a objeção é infundada porque, por mais súbito que seja um lampejo de intuição, este só pode ser percebido por alguém em um estado receptivo, isto é alguém capaz de capturar o momento de inspiração e deixá-lo gestar em silêncio atencioso [attentive silence].

Não é difícil demonstrar que esta condição de prontidão que é a quietude dos nervos e do cérebro e do coração é dificilmente compatível com um apetite impaciente que no homem moderno é exagerado para uma necessidade imperiosa dos nervos e sentidos. Pois uma necessidade demanda satisfação, e o esforço para satisfazê-la tem desorientado nosso senso moral e nossa inteira consciência.

No nível mais profundo, consciência [consciousness] é a percepção de nosso ser interior [inner being] de todas as experiências que vêm a nós. Consciência física pode ser involuntária, como quando uma queimadura produz em alguma parte do corpo uma súbita percepção [awareness] e retração a partir do fogo; mas a nossa consciência cerebral é sempre a servente de nossos vários apetites. A ilustração mais comum é quando o coração e a cabeça concordam em favorecer um ao outro por ambos obedecendo os apetites; eles encontram desculpas um para o outro, e entre eles criam um padrão de consciência, a origem secreta do qual se professa ignorar. Esta desorientação de consciência tem nos levado à negação de três qualidades essenciais;

Primeiro, nós negamos a intervenção constante da Palavra Criativa [Creative Word], tanto quanto a mente moderna descobre, tanta Causa Primeira [First Cause] ela requer na atividade de nossas células, suas faculdades, e seu progresso lógico para adaptação mútua.
Em Segundo lugar, a inspiração e animação espirituais são negadas, na medida em que a aceitação dessa idéia seria reduzir o escopo da razão pura e privá-la da virtude de ser auto-criada.
Em Terceiro lugar, há a negação da relação harmoniosa de todas as partes do nosso universo; pois o entendimento disso não está para ser atingido através de busca intelectual por si só, mas somente pelo caminho do silêncio e meditação verdadeira.

No entanto, graças à nossa maior facilidade de contato com outras culturas, nós agora temos muitos registros da percepção direta das realidades abstratas, ou da influência psíquica exercida sobre os seres vivos e objetos naturais. Os Europeus, quando testemunham tais fenômenos entre os povos a quem eles chamam de bárbaros ou atrasados, se surpreendem ao descobrir que existe um fundo metafísico tradicional, que é transmitido por iniciação. E embora os métodos de aplicação desse conhecimento sejam diferentes em cada tribo e cultura, a condição essencial é a mesma em toda parte: à saber, a comunhão dos iniciados com o grande princípio espiritual cujo nome é diferente dependendo de religião ou doutrina.

O desenvolvimento das faculdades mentais do homem é a tarefa característica do Ocidente, mas esta tem sido mal orientada [misdirected] fazendo de um meio um fim; e o desenvolvimento intensivo dessas faculdades na última fase de nossa evolução tem nos dado hoje uma noção distorcida sobre a extensão dos nossos poderes humanos. Informação Racional tem usurpado o trono do Conhecimento [Knowledge], e tem declarado como sem valor a herança da sabedoria antiga, o que pode fazer com que perca seu trono.
O racionalista erudito quer acima de tudo evitar encontrar-se, onde a dúvida e o conhecimento se encontram, o único poder que poderia limitar o seu próprio, um poder “divino” o qual ele não possa nem analisar nem verificar. E o nosso homem erudito está em algum perigo de encontrar esse poder “divino”, o Espírito, como ele poderia chamá-lo adequadamente dentro de si mesmo. Pois aquilo que encarnou em seu nascimento recebeu a impressão de um impulso espiritual, que tem um significado universal, embora colorido por sua natureza individual. Tivesse seu entendimento sido despertado de forma a desenvolver este primeiro impulso espiritual, ele teria sido capaz de impedir a sua analítica faculdade de raciocínio de agir como um anjo da morte para evitar o nascimento de seu eu “divino” [“divine” self] das profundezas do paraíso original [primal paradise].

Que isso seja possível tem sido provado pelo aparecimento, em várias crises na história humana, de um sábio que, por não permitir que o seu julgamento racional interferisse, era capaz de se manter em contato com a Palavra Criadora [Creative Word] que viria a expressar e, assim, revelar ao mundo alguma centelha [spark] da sabedoria divina. Se eles estão dispostos a recebê-la, essa centelha da verdade dá um momento de inspiração para aqueles que toca; mas eles devem, em seguida, passar pela mesma experiência que acontece após o nascimento: Se a centelha é recebida e meditada [brooded over] pelo ser imortal encarnado no corpo, então, esta faz com que ele cresça e aumente o seu poder; mas se ela é recebida apenas pela faculdade de julgamento racional, então o intelecto vai apoderar-se dela e alterá-la para proveito próprio, de acordo com seus preconceitos [preconceptions]. E este intelecto, agindo como de costume como um anjo de separação, organiza seu código arbitrário de bem e mal, de modo a promover o seu próprio controle.
Esta interferência da faculdade de raciocínio do corpo resulta em esterilidade; a percepção total [total awareness] não pode mais se desenvolver. Como um pedaço de terra desprovida de seus fertilizantes naturais, o racionalista não recebe nenhum outro alimento além dos argumentos entregues por seu intelecto; e este último se desenvolve apenas lentamente, sendo influenciado por nada além das dolorosas tensões e acidentes da vida normal.

Alguém pode supor que essa consequência deveria ter colocado os homens em sua guarda e induzido-os a procurar um remédio. Mas não em todos. Lúcifer é um anjo de luz, e sua aparição [appearance] irá sempre enganar o mundano.
Além disso, a serpente que semeou a discórdia entre Adão e Eva é a própria encarnação daquela cobiça que cria no homem a fome por quantidade e, então, para satisfazer esta, a sede infernal por atividade.
E se qualquer um, seja ele Buda, Cristo, ou sábio, se atreve a denunciar esse erro, ele é imediatamente suspeito de um assalto à “felicidade” da raça humana, Isto é, sobre sua liberdade para perpetuar sua escravidão na terra.

 

 

.

——————————————————————————————

.

 

 


RUMO À VERDADE ÚNICA

[TOWARD THE ONE TRUTH]

 

        As invenções modernas tem trazido o Oriente e o Ocidente mais próximos juntos, e nos dado de volta algum contato com os sábios dos tempos antigos. Muitos textos sagrados foram traduzidos para línguas Europeias. Seu significado interno, é claro, não foi revelado, pois este exige um conhecimento perfeito não só da língua e letras, mas também do simbolismo. Ainda assim, bastante luz foi derramada da antiga sabedoria para despertar interesse entre as pessoas modernas.

A arquitetura do Egito e do Oriente testemunha conquistas inegáveis em geometria, matemática e cosmogonia. Daquelas civilizações, a mais antiga e duradoura parece ter sido o período dos faraós; pois as mais antigas culturas Grega e Chinesa foram seguidas por cataclismos geológicos e inundações, e não deixaram restos.

Por volta de 3000 A.C. os Textos das Pirâmides [Pyramid Texts] estavam já falando com autoridade sobre a constituição do homem, sua sobrevivência à morte, e sua relação com a vida do cosmos. Muito mais tarde, Moisés, que “foi instruído em toda a ciência dos Egípcios” (Atos 7:22), incluíu no Pentateuco tanto daquela quanto era adequado para o seu povo; e a partir desta tradição veio o Cristianismo. Enquanto isso Lao-Tse iluminou o caminho da sabedoria pura com os preceitos fundamentais do Tao, e o Buda deu aos seus discípulos a lei e o exemplo da não-violência e compaixão.

Durante estes milênios as dinastias dos faraós desenvolveram em termos simbólicos a evolução do princípio real (isto é, da super-humanidade [superhumanity]) no indivíduo. Desta, o próprio faraó era o protótipo, primeiro em seu desenvolvimento Osiriano, em seguida, em sua maior evolução como Horus. E essa evolução também era relacionada a períodos astronômicos.

Até a vinda do Cristo, os sábios Egípcios levaram à perfeição o seu ensino em textos escritos e em seus monumentos; e, finalmente, eles recapitularam no templo ptolomaico de Philae todo o simbolismo de Ísis e Osíris em relação ao homem e a Natureza, e também aquele de Horus, que até então tinha sido reservado para os iniciados do templo e agora tornou-se o fundamento da missão de Cristo.

Depois disso, as iniciações dos Essênios foram o elo entre a sabedoria do Egito, a metafísica de São João, o puro misticismo dos três primeiros séculos da Igreja Cristã na Ásia Menor, África e Europa, e, finalmente, o simbolismo filosófico dos Bizantinos. No século IV começou a afirmação do poder temporal da Igreja, e sua atividade política, com as intermináveis disputas dos teólogos e dos sínodos. O cisma de 1054 entre Bizâncio e Roma não impediu aos Cruzados trazer de volta para a Europa o conhecimento do simbolismo Bizantino, que é a base daquele de nossas grandes catedrais. Assim, apesar das diferenças teológicas, as igrejas Copta e Abissínia, que foram os primeiros Cristãos na África, bem como as igrejas Ortodoxa e Romana, foram todas unidas pelo simbolismo que haviam recebido do Egito, e que tem sido passado adiante na escultura e arquitetura, na liturgia e ritual.

Esta unidade de tradição, mostrando todos eles como sendo fundados sobre o mesmo entendimento original, foi a melhor evidência da sua solidez [soundness] essencial. É lamentável que uma estrita ditadura, inspirada pelo desejo de poder temporal, devesse usar a ameaça de excomunhão para colocar mandamentos práticos e às vezes até indefensáveis em pé de igualdade como dogmas inquestionáveis. As consequências foram os cismas Luterano e Calvinista; e a reação violenta do Catolicismo, por todo o seu derramamento sangue, não impediu o sucesso do Protestantismo nem corrigiu seus próprios abusos. A causa do Catolicismo foi mais impedida do que ajudada pelo martírio dos sábios templários, e pela tortura infligida pela Inquisição sobre homens que praticavam uma busca individual por conhecimento.

No entanto, isso não nos dá o direito de atacar a mensagem Cristã, que veio ao mundo na data exigida pela harmonia cósmica, e deu à humanidade prova de que a união é possível entre o divino e o humano. Pois todas as grandes tradições têm falado do homem na terra como em uma condição transitória entre o seu estado original de não-separação e seu retorno consciente final à união com o divino. O problema veio do desejo do homem para possuir, dominar, e conhecer, por meio de seu cérebro e sentidos, todos os poderes que ele conhecia em si mesmo antes de ser separado dele. É por isso que o Evangelho declara que para entrar no reino dos céus é preciso tornar-se como uma criancinha; isto é, deve deixar a mente obedecer aos impulsos que vêm do coração e espírito.

Todos os grandes mensageiros do Espírito, e os mestres do misticismo, declararam em uníssono que o objectivo supremo da humanidade é a reunião com o seu princípio divino. Como meios para esse fim todos eles mencionam simplicidade de coração e mente e a abolição de ódio, violência e vingança, mesmo quando a estes são dados o pretexto de corrigir a consciência humana. Aqueles professores nunca foram culpados de contenda teológica ou ditadura teocrática, nem pode o seu ensino ser impugnado por aqueles que foram. Mas, atacar o último e expor as razões para seu fanatismo seria apenas mais um erro e daria origem a vã acrimônia.

Ataque implica um desejo de estar certo para superar um adversário. Onde a conveniência mundana é o objetivo ele pode ser eficaz, mas, na propagação da iluminação da consciência humana ele só pode dificultar, porque sua interferência arbitrária impede que os erros provem-se ser erros.

Lao-Tse define sabedoria como “disposição total para ser o joguete de circunstâncias fortuitas.” [“complete willingness to be the plaything of chance circumstances.”]
Isso, diz ele, é o motivo porque o sábio é capaz de realizar os grandes projetos de não-atividade. E esses “grandes projetos de não-atividade” [“great projects of nonactivity”] são a vontade de nosso Pai no Céu, cuja vontade deve ser feita na terra assim como no céu.
O ensino é o mesmo em ambos os casos, e ambos os professores insistem em simplicidade de coração e mente.
“A menos que vos tornardes como criançinhas, não haveis de entrar no reino dos céus”, disse o Cristo. Lao-Tsé disse: “A mente do homem de virtude estabelecida pode ser comparada com a de uma criança recém-nascida. Ele não parece suspeitar que insetos venenosos mordem ou picam, que as garras de animais selvagens podem estraçalhar, e as garras de aves de rapina podem rasgar . . . . Tais homens podem expressar verdades luminosas na linguagem mais comum.”

O Buda da mesma forma pregou a abolição de ódio e discórdia, e rejeitou complexidade de doutrina. Ele fez verdadeiro entendimento consistir na visão direta daquilo que não pode ser posto por escrito , e na comunhão do espírito.
O Cristo disse: “Ai de vós, legisladores, pois vos apoderastes da chave da ciência: vós mesmos não entrastes, e impedistes os que estavam entrando” (Lucas 11:52).
E, embora Jesus tenha nascido em Israel, e vindo para cumprir a Lei e os Profetas, foi para uma mulher Samaritana, e inimiga dos Judeus, que ele ensinou a única verdadeira maneira de adoração: “Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai.”(João 4:21). “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito; e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade” (João 4: 23;24).

Este dizer, nenhuma outra sabedoria pode contradizer, porque, sendo universal, ele traz paz a todos aqueles que estão buscando em espírito e em verdade. Todo buscador sincero tem em seu coração essa “vontade rumo a luz” [“will toward the light”], e se ele a escuta, ele não vai procurar em vão. Pois ele vai saber que por trás de todas as religiões existe apenas uma Verdade, e a revelação desta verdade através de seus diferentes mitos e símbolos traz harmonia em vez de discórdia. Esta clarificação só será rejeitada por aqueles que querem obscurecer o ensinamento original, a fim de assegurar seu próprio controle sobre as mentes e consciências dos homens. A dificuldade da Era atual é causada pela variedade confusa de crenças e opiniões. A inquietação de nossa vida diária, e a falsidade de convencionais normas artificiais de moral e estética, têm corrompido a nossa visão, até parecer que nada menos que uma catástrofe possa nos despertar para uma percepção [awareness] mais verdadeira.
Nós confundimos discernimento da realidade com nossa opinião pessoal, e juízo intelectual com reconhecimento da verdade.

O reconhecimento da verdade significa discernir o verdadeiro do falso e o puro do impuro, e deve sempre estar relacionado com o nosso objetivo em fazer tal distinção.

Deve o nosso objetivo ser rejeitar o impuro por completo, ou discernir o quanto daquilo pode ser transmutado no puro?

Neste último caso, quem quer que decida deve ter em sua natureza algo do impuro bem como do puro.

Para dar um exemplo, o chumbo, que é usado para purificar o ouro é retirado com as impurezas, enquanto o ouro permanece; e assim, a mente utilitarista diria que nesta operação o ouro é o verdadeiro juiz da pureza.

A sabedoria dos Egípcios, no entanto, pensava o contrário; pois o nome de “juiz” [“judge”] era dado à coisa imperfeita que se utiliza para separar o puro e o impuro. Esta coisa imperfeita é a natureza humana, e o corpo físico é o veículo da consciência construído pelas experiências de vida.

Mas para essa consciência mediar e discernir de forma eficaz, deve ser livre para submeter, incorrupta de noções artificiais e regras convencionais, as suas experiências. Caso contrário, a coisa imperfeita irá rejeitar o puro ao invés de ser transmutada por ele.

O “puro” é o elemento imortal no homem, sua alma divina ou, em termos Egípcios, seu Ka superior [higher Ka]; *
É o elemento tipo-Cristo [Christlike] ou tipo-Horus [Horuslike] que, por sua união com o homem corpóreo, torna este último uma consciência completa e ensina-o a distinguir valores reais de valores relativos.
Esta noção enche de medo a nossa personalidade mortal, e esta luta até a última trincheira. É por isso que a pedra angular – o Cristo manifestado – será sempre uma pedra de tropeço para o intelecto humano; pois a Realidade deve sempre aparecer como um julgamento sobre o erro que se recusa a reconhecê-la.

Porque os nossos valores tem sido corrompidos, o nosso mundo mortal está envolto em uma tempestade acumulada. Devem, obviamente, ocorrer na vida na terra crises de tempos em tempos, quando todos aqueles elementos da natureza humana que podem, possivelmente, parecer possuir livre arbítrio estouram ou irrompem como prisioneiros de uma prisão e todos atacam violentamente uns aos outros com ódio mútuo, cada um culpando o outro pelo tumulto que nenhum deles entende.
Em tal momento a voz de um sábio não será ouvida; a fúria primeiro deve diminuir. Mas, se depois da tempestade esperamos que a calma seja restaurada, nós temos de reconhecer que a serenidade só pode ser estabelecida pela sabedoria fundada sobre o verdadeiro entendimento [wisdom founded upon true understanding].

E essa sabedoria nunca foi negada à humanidade, embora ela só tenha sido manifestada no momento e lugar apropriados.
O Espírito, sendo universal, nunca revelou-se através de um intérprete exclusivo. Todas as raças e todas as épocas produziram os seus grandes [great ones] que mostraram que a sabedoria e poder podem ser alcançados pelo homem que sabe como cultivar em si mesmo esses dons sagrados.

No entanto, assim como um cristal não pode formar-se exceto em uma solução de sua própria natureza, mas, irá aí formar outros cristais semelhantes em torno de si, assim também o mundo não pode ser iluminado pela encarnação de um único espírito eleito; pois este mundo não será transformado a menos que existam outros elementos presentes capazes de receber a mensagem e trazê-la à fruição.
Estes elementos nunca serão mais do que uma minoria, um grupo de elite. Consciência [Consciousness], na massa da humanidade, ainda é demasiado vaga para a experiência de um chamado espiritual individual, e tais elementos, portanto, sempre permanecerão em rebanhos e manadas, prudentemente na procura.

Mas qualquer homem que não deseja ser levado pela instabilidade tempestuosa da massa deve ter a coragem hoje em dia para buscar a luz por si mesmo, de forma livre e sem restrição. Pois hoje é uma nova fase de desenvolvimento, e existe já um abismo entre ontem e hoje. Os distúrbios de nossa Era caótica tem, pelo menos, tido a vantagem de que eles derrubaram as barreiras e sacudiram os valores que a sociedade ousou alterar. Em vez de esperar esta velha construção cair em colapso em cima de nossas cabeças, nós devemos ser sábios para cavar rapidamente e encontrar os indestrutíveis fundamentos da sabedoria antiga. O objetivo deste trabalho é auxiliar nessa redescoberta.

 

.

——————————————————————————————

.

                           1

 Liberdade de Busca individual
Freedom of Individual Search

 

Temos nós o direito de clamar a liberdade de busca individual?
Seria insensato dar uma resposta tão absoluta, pois a resposta deve depender do estágio de evolução da consciência do indivíduo, de suas convicções, e muitas vezes, de sua coragem.
Nunca se deve jamais tentar forçar o entendimento sobre aqueles que não podem ou não querem ouvir. Igualmente, a carne de uma fruta deve ser distinguida de seu caroço [kernel], e a massa da humanidade distinguida da elite que pode tornar-se o seu ponto de crescimento. Estes últimos são os “escolhidos” naquilo em que eles estão preparados para desenvolver a si mesmos para o estado supra-humano; eles são “chamados” para a reconstrução do Homem Cósmico consciente, cada um sendo uma célula de seu corpo [um “Número-entidade”].

Entre os escolhidos existem duas categorias. Primeiro, são aqueles que já não estão totalmente satisfeitos com as explicações do dogma Ocidental, e no entanto ainda estão profundamente ligados a certas observanças religiosas. Estes nunca devem ser instados a abandonar a prática de seu culto, pois o ritual e oração comunitária são um forte apoio moral, e sem eles o homem “libertado” está em algum perigo de confundir liberdade de experiência com a mera ausência de moralidade.
Em Segundo lugar, há aqueles que sentem uma necessidade imperiosa de procurar a Luz fora de proibições dogmáticas e obrigações rituais. A estes deve ser dito a verdade que os místicos Budistas ensinam a seus discípulos: Até aqui você precisava de rituais, cultos, e imagens para consolá-lo em sua vida terrena, para canalizar as suas paixões e direcionar sua mente para um mundo superior. Mas se você quiser encontrar libertação e criar em si mesmo as condições de vida eterna, você deve abandonar obrigações doutrinárias sempre que estas interferiram na liberdade de sua busca.

O Cristo também teve uma resposta para esses candidatos, quando disse que Deus deve ser adorado “em espírito e em verdade.” Contudo, nós precisamos saber o que se entende por “em espírito e em verdade.”
O Budismo ensina muito certamente que a ignorância é um obstáculo para a libertação, e ignorância inclui crenças erradas que impedem a experiência individual através de doutrinas rígidas ou restrições intelectuais e morais.

Nada incentiva amoralidade egoísta mais do que a desculpa da crença cega e com a certeza do perdão, especialmente quando não se precisa nem mesmo cumprir sinceramente as condições para obter o perdão. As idéias de culpa, pecado, condenação e perdão têm apenas um valor muito relativo, a menos que olhemos para a realidade por trás delas. Faltas cometidas contra uma convenção estabelecida são uma questão para a comunidade ou a ordem social; mas no que diz respeito a pecados “reais”, qual homem pode julgar os pecados de outro, não sendo capaz de ler a sua consciência e ver seus verdadeiros motivos?

O mal que faz do homem um pecador, na realidade, não reside no ato em si, mas na ofensa contra a própria convicção da pessoa. E isso continua sendo verdade, quer ou não a condenação se justifique. Pois a covicção, a menos que seja uma construção intelectual artificial, é o produto da consciência atual do indivíduo, e em obedendo esta, ele está obedecendo o que é verdade para ele no presente; e mesmo que o resultado seja lamentável, ele permanecerá essencialmente inocente, embora ele tenha que aguentar as conseqüências temporais. Em outras palavras, a experiência vai ampliar sua consciência, sem retardar sua unificação final.
Se, por outro lado, sua convicção for baseada em argumentos racionais, as infelizes consequências de erro podem iluminar sua consciência, se ele compreendê-las; se não, um escurecimento da consciência irá resultar até que ele aprenda a eliminar racionalizações de seus julgamentos.

A falta de convicções – Isto é, de consciência vigilante – É um estado não de inocência, mas um estado de estupidez em que um homem perde tanto o seu sentido de responsabilidade quanto seu sentimento para a experiência humana.
Igualmente, a submissão cega à autoridade denominacional é uma desculpa para matar o senso de responsabilidade, e impedir o crescimento do discernimento.
Pois só se aprende com o que se sofre na própria pessoa e experiências próprias dentro de si mesmo. E a única ajuda que pode ser dada são avisos sobre a justeza da finalidade e a eficácia dos meios.
Ninguém pode ser transformado pela experiência de outro.
Aquele que deseja realizar sua Unidade supra-humana deve deixar o rebanho e partir em frente para explorar seu próprio eu, e, através de si mesmo, o universo.

.

.

——————————————————————————————

.

2

A Grande Questão

Existem momentos em que, por todas as distrações da vida diária, alguém chega a um impasse, e com um atordoado sentimento de pânico ou desânimo, coloca para si mesmo a pergunta fatal: “Qual é a utilidade?” ou “De que Adianta?” [“What’s the use?”]
Por agora, deixe-nos parar e ouvir em silêncio a angústia desta questão. O silêncio que ela evoca é terrível, como o silêncio da noite, com um relógio marcando o fim de mais uma hora. É uma questão tão fria quanto um túmulo de mármore, e dá a alguém um arrepio da solidão. Pois quem pode respondê-la? Todos sabemos que, para escapar este momento de pânico, nós aceitamos qualquer resposta que possa ser oferecida; e há muita gente disposta a oferecer uma.
Para a multidão, para as pessoas normais, o silêncio é intolerável; algo deve ser dito, não importa o que, para preencher o vazio, e esconder este aviso [warning] da existência de algo infinito e outros.

Esta atitude distingue o Ocidente do Oriente mais claramente do que uma fronteira.
O Ocidental, para acalmar sua ansiedade, explora o reino do pensamento, lê livros, compara opiniões, questiona outros pensadores, e de fato procura a resposta fora de si mesmo.
O Oriental, mais contemplativo, começa, fechando seu próprio circuito; ele cruza as mãos e os pés, e, em seguida, no pequeno mundo dentro ele ouve a ressonância do mundo maior fora, em uma contemplação que é mais sonho do que pensamento. E isso não é mera metáfora literária; é como o sonho acordado de um animal selvagem que, enquanto se encontra relaxado, capta as mais sutis pulsações e reações da vida em torno dele. O objetivo é ouvir dentro de si mesmo os apelos, os arrependimentos, e as advertências [warnings] que normalmente são sufocados pela atividade da vida diária; e explorar e esclarecer com coragem a própria percepção secreta [secret awareness] de certezas e incertezas, desejos e insatisfações, que na rotina normal da vida não conseguimos formular claramente por causa do hábito, vergonha ou medo do que os outros vão pensar. E contudo as opiniões dos outros são a pior desculpa que podemos ter. Pois eles, na medida em que nos arrastam ao longo da ronda diária, estão simplesmente reagindo, de acordo com seu padrão pessoal, aos cuidados do momento.
Ao enfrentar o drama de sua própria alma um homem está sempre sozinho.

Na verdade, esta grande questão nos envolve em um drama real.
A vida é apenas uma farsa lúgubre [dismal farce] se o fim de todas as nossas lutas incoerentes é nada além da sepultura.
Mas se há uma resposta sensata, se a vida na terra tem um motivo e um propósito maior do que a mera existência banal, então este motivo e propósito tem, certamente, sido discernido através dos séculos da história humana.

Por que então esta questão excita tanto ódio e derramamento de sangue, tantas controvérsias absurdas?

Camponeses não discutem sobre a estação adequada para colher ou semear; a necessidade de comer os fez obediente às leis da natureza. O homem poderia encontrar uma lei semelhante, uma lei de estações cósmicas e épocas humanas, se ele estudasse as leis de seu próprio devir [his own becoming], e suas expressões nas sucessivas tradições de diferentes raças.

Quem poderia afirmar que a temporada de colheita é mais sábia do que a de semeadura, ou condenar a dormência da semente no inverno como um desperdício deplorável de tempo?

Mas não menos absurdas são as nossas disputas sobre os meios utilizados pelo céu ou pelos sábios para despertar a consciência da humanidade, quando tentamos julgar através de nossas noções de entendimento atuais o ensino conveniente para um outro dia [outra época].

Se quisermos encontrar a resposta para a nossa ansiedade, nós devemos primeiro esclarecê-la tentando distinguir o real nela do meramente relativo. E isto significa que nós devemos deixar de comparar e condenar os pontos de vista de épocas que tinham um fundo mental diferente do nosso. Devemos, primeiramente saltar fora todas as doutrinas quaisquer que sejam e, francamente, colocar para nós mesmos as duas questões que nos interessam diretamente:

“Qual é o valor e objetivo da vida humana?”

“Existe um Poder cuja vontade fixou este objetivo e os meios de sua realização?”

Em caso afirmativo, por que ele nos deixa na ignorância do objetivo, manipulando-nos como marionetes?
Mas, em caso negativo, o homem é simplesmente o joguete de forças naturais e do egoísmo dos outros, obrigado, como eles, a proteger o seu próprio ser [his own self].

E em ambos os casos, por que é que às vezes nos revoltamos contra este eu [self], que nunca pode ser satisfeito com a aspiração a um grau acima do seu próprio?

Pode este eu [self] estar em revolta contra si mesmo [itself]?

Em caso negativo, então o Que nele mesmo está opondo-se a ele?

Pode a resposta a estas perguntas ser descoberta dentro de nós mesmos, ou devemos procurá-la fora?

Se procurarmos por ela em algum ensinamento ou outro, qual critério devemos usar para julgar o valor do ensino?

Se a nossa própria consciência está para julgar, o que é essa consciência para a qual nós solicitamos uma decisão?

Na maioria dos homens o que eles chamam de consciência [conscience] é um registro de idéias, impressões e convicções reunido pelo pensamento e educação deliberados; mas a percepção [awareness] assim formada é tão rápida quanto a reflexão das nuvens em um espelho. Nem é ela também realmente a nossa própria, uma vez que pode ser modificada por várias influências. Nada desse efeito composto vai sobreviver à dissolução do nosso corpo físico com seus componentes emocionais e mentais. Esta é uma consciência cerebral, e não uma parte de nosso ser imortal.

Mas quantos homens na terra tem conscientemente despertado sua consciência real, a qual iria torná-los verdadeiramente conhecedores e responsáveis?
A fim de falar “conscientemente”, precisamos primeiro concordar em palavras, então, investigar os meios para despertar essa consciência.

.

AUTO-CONHECIMENTO

Para evitar confusão, deixe nós concordarmos sobre o significado de palavras como “alma”, “consciência”, “autoconhecimento” [“soul, “consciousness”, “selfknowledge”], sobre as quais as múltiplas interpretações provocam disputas tão infrutíferas quanto aquelas da Torre de Babel. E a menos que queiramos fazer do ser humano nada além de um animal inteligente que decai na sepultura, o nosso estudo da constituição humana terá de incluir uma consideração de seus elementos imortais, por qualquer nome que eles forem chamados.

E assim como a ciência moderna admite que a energia pode existir em diferentes estados, alguns mais degradados do que outros, assim também o homem deve tentar reconhecer em si mesmo esses estados de energia sutil que são o seu elemento imortal.

Se ele não sabe nada deles, ele rebaixa si mesmo à condição de um animal inteligente, e atribui a seu cérebro fenômenos que na verdade dependem de suas faculdades superiores. Mas se ele aprende a reconhecê-los, ele se torna consciente de seu eu imortal [immortal self], e alcança os privilégios de um reino superior àquele do homem animal.

Nesta obra, o homem animal, com as faculdades intelectuais dependentes de seu cérebro mortal, é chamado de o Autômato [Automaton], ou Eu Automático [Automatic Self].
A fim de mantê-lo funcionando harmoniosamente, o primeiro requisito é um conhecimento das leis que o governam.

Os estados mais sutis do homem são estudados no Capítulo 4,
“Níveis de Consciência”, e suas correspondências com as grandes tradições espirituais são dadas no Apêndice II, sob o título “Estados Psicoespirituais”.

.

                   3

A Constituição Humana

AS DUAS VONTADES

Que um ser humano possa aspirar a um estado mais elevado mostra que ele está insatisfeito com seu estado atual; e tal insatisfação revela, latente dentro dele, uma forma de consciência além da mera consciência animal.
Mas, independente se um homem ignora esta oportunidade de progredir ou tenta segui-la, e independente se ele tem sucesso ou não,isso demonstra a existência de duas vontades divergentes, correspondentes a dois níveis diferentes de ser.

Um nível é aquele do homem animal, que chamarei de Autômato [Automaton], porque este depende da interação dos seus constituintes físicos, mentais e emocionais.
O outro, a ser descrito no Capítulo 4, demonstra uma percepção maior e mais sutil do que aquela do Autômato [Automaton].
As duas vontades podem ser chamadas de a Vontade Pessoal [Personal Will] e a Vontade para a Luz [Will to the Light].

Quando o Vontade para a Luz [Will to the Light] começa a se fazer sentir, segue-se inevitavelmente uma luta com a Vontade Pessoal [Personal Will], porque as duas têm objetivos diferentes e, ainda mais importante, não entendem uma à outra.

A Harmonia só pode ser estabelecida se elas puderem ser levadas a concordar, e isso requer autoconhecimento [selfknowledge].

O Autômato [Automanton] é a base [foundation] de nossos estados mais elevados de ser [higher states of being], por isso, a sua constituição deve ser o primeiro objeto de estudo e observação.

Psicologia e Fisiologia, como classicamente ensinadas, têm infelizmente complicado a si mesmas com uma multiplicidade de teorias e uma detalhada análise de cada elemento constitutivo e cada aspecto de cada função, enquanto que de fato, apenas uma visão sintética pode revelar as leis de seu desenvolvimento e de sua interação vital.

Em uma outra direção, muitos estudantes têm tentado ampliar seus conhecimentos sobre a constituição humana, observando suas correspondências com os planetas e os elementos.

É claro que, como um habitante do planeta Terra, o homem tem em si mesmo todas as correspondências do sistema solar em que o planeta se move; e as correspondências planetárias de todas as partes do corpo tem sido definidas na astrologia.

Essas relações são interessantes porque tratamento terapêutico pode basear-se nas analogias entre planetas, plantas, e metais, sempre que o praticante tenha um conhecimento profundo de todas as funções vitais e como elas podem afetar os diferentes estados de consciência.
Por esta razão, este estudo muito complicado tem um lado esotérico que não pode seguramente ser tornado público.

O conhecimento de lei cósmica sobre o qual esse conhecimento foi baseado faz parte de uma tradição de sabedoria que foi ensinada somente em genuínos centros de iniciação. Sem este conhecimento, as ciências ocultas serão perigosamente subjetivas, com apenas um vago reflexo da tradição autêntica.

Felizmente o seu estudo não é indispensável para a obtenção de consciência plena [full consciousness]. Pois esta realização plena é a “única coisa necessária”, e à esta, tudo o mais será acrescentado.
Os obstáculos mais perigosos para esta são: curiosidade a partir do conhecimento [curiosity after knowledge] (pois esta dispersa a atenção), complexidade de sistemas e opiniões, e o método de análise por dissociação.

Existe, é claro, uma grande tentação para interpretar “autoconhecimento” [“selfknowledge”] como uma observação analítica das reações psíquicas, separando as fontes físicas, emocionais e mentais do sentimento, a fim de controlar as suas origens e interdependência. Estrito treinamento pode efetuar esse resultado, mas seu melhor fruto (já muito difícil de atingir) só pode ser o controle total do Eu Automático [Automatic Self], isto é, da inteira vida física, emocional e mental. Tal controle pode dar a alguém certos poderes psíquicos sobre si mesmo e os outros, mas só influencia os níveis mais baixos humanos [lower human levels]; pois o método de dissociação é hostil a qualquer contato com a natureza espiritual, cujo método é síntese e união.
Em tal caso, a voz do Eu Espiritual [Spiritual Self], nas raras ocasiões em que pode fazer-se ouvir, irá despertar nada além de vaga inquietação, uma ansiedade causada pela impossibilidade de estabelecer contato entre dois estados de ser tão totalmente diferentes.

A Dissecação, ou mesmo a vivissecção, pode mostrar a constituição física de um organismo, mas nunca irão revelar o funcionamento ou operações secretas [secret workings] daquelas energias vitais cujo curso normal esta [dissecação] tem alterado ou mesmo interrompido.
Ela [a dissecação] nunca revelará o poder magnético pelo qual cada órgão tira seu alimento particular a partir do sangue arterial, o qual fornece a mesma irrigação para todo o corpo.
Como então podemos explicar a afinidade misteriosa que faz com que diferentes tipos de células especializem o sangue em sua própria natureza? A transmutação e assimilação da mesma matéria em diferentes energias próprias de cada órgão permanecerá um segredo para o anatomista, assim como a transmutação de energia vital, sexual, ou nervosa, para forças espirituais nunca pode ser entendida por qualquer método baseado em qualquer dissociação ou força de vontade.

Se quisermos adquirir a “única coisa necessária” em nosso conhecimento da constituição humana, nós devemos estudá-la de tal forma a revelar a interdependência dos seus diferentes elementos, e mostrar como eles podem ser conscientemente controlados.

Ao estudar o Autômato humano [human Automanton] a partir do ponto de vista da síntese, devemos considerar em primeiro lugar a relação dos vários órgãos para a corrente sanguínea e para as fontes de energia vital; em seguida, atribuí-las corretamente aos grupos funcionais em que se inserem; e, finalmente, também agrupá-las em suas regiões de influência mútua, sem a qual nenhum verdadeiro diagnóstico é possível.

Este estudo, sendo muito técnico para estar no texto, foi dado no Apêndice I.
O objetivo aqui é apresentar uma visão simples mas compreensiva da unidade da constituição humana e da interação [interplay] de suas funções vitais. Com este conhecimento, devemos nos tornar cientes [aware] da harmonia que os governa e os relaciona com as funções correspondentes no universo. Devemos também aprender a como mantê-los em equilíbrio agindo em um por meio de outros.

Doenças são frequentemente agravadas por um tratamento dissociativo que ataca as consequências mórbidas e não toca na causa.
O Homem é um universo em que as condições mais elevadas podem influenciar as menores se apenas elas forem permitidas fazê-lo.

Mas em medicina, como em psicologia, distúrbios orgânicos devem ser curados definindo-se direito o “milieu” [o “meio”];
a ação local deve ser não mais do que provisória.

Estudaremos conforme prosseguimos as maneiras de colocar os vários ‘meios’ [‘milieus’] do homem em condições favoráveis; mas, primeiro, deixe que nós aceitemos em nosso ‘meio’ intelectual [intelectual milieu] as poucas noções essenciais que irão direcionar o nosso pensamento de acordo com o nosso ponto de vista sintético.

.

CONSTITUIÇÃO DO AUTÔMATO [AUTOMATON]

O corpo físico do Homem é composto de cinco corpos, quatro dos quais são materialmente perceptíveis; o quinto só pode ser reconhecido pela sensibilidade de seus pontos de contato. Os cinco são:

1. Um corpo ósseo, o esqueleto.

2. Um corpo de carne, consistindo dos envoltórios de pele, e os tecidos musculares, fibrosos, e conjuntivos.

3. Um corpo de vasos e reservatórios, com rios, córregos, e reservatórios

4. Um corpo de estações e canais generativos para a força nervosa, ou seja, o sistema nervoso com a medula, encéfalo, e nervos da espinha.

5. Um corpo de “linhas de força” ou “meridianos, exteriorizados na pele como pontos sensitivos que revelam por reflexos o estado dos órgãos aos quais eles diversamente correspondem.

Estes cinco corpos estão tão harmoniosamente associados que eles são mutuamente dependentes, cada um tendo sua própria natureza, ritmo, e função; Juntos eles constituem um universo completo de estações operacionais, que trabalham juntas para criar, manter, e transformar as substâncias requeridas para a existência do corpo animal.

Os estados de ser mais sutis, que dão ao homem sua vantagem sobre os animais, têm seus pontos de contato físicos em certos centros vitais através dos quais o Autômato [Automaton] é capaz de abrir uma conexão com eles.

O nosso mundo individual [individual world], feito na semelhança do mundo maior [greater world], é inferno e paraíso e limbo. Se um homem realmente aprendesse a conhecer a si mesmo, ele poderia descobrir para qual destes a sua atitude atual o levará para ocupar no outro lado da morte.

A mais tangível manifestação do Mundo das causas está nas funções que regulam a nossa existência. Estas funções estão encarnadas em nossos corpos na forma de órgãos que são formas específicas de consciência. Nós podemos chamá-los de órgãos ou de planetas, falar do coração ou do sol; em ambos os casos estamos apenas referindo-nos a uma particular manifestação funcional da vida única. Nosso sistema solar tem um centro ativo, o sol, cujo globo é o corpo visível animado pelo verdadeiro sol invisível, o centro de todo o seu poder. Assim também o coração é o vaso central de intercâmbio que regula o fluxo do sangue e carrega a vida animada [carries animate life]. Mas o fogo animador, sede da vida espiritual e fonte da “Inteligência do Coração” é o coração oculto ou espiritual. Centrado entre o coração físico e o plexo solar, a inteira área cardíaca é sua esfera de radiação.

A atividade dos planetas é análoga à dos órgãos do corpo, e todas as estações do zodíaco celeste têm os seus representantes vivos nas estações metabólicas de energia no corpo. Existem, portanto, três manifestações da energia que nos anima: o sistema nervoso, anatomicamente reconhecido; o exterior sistema longitudinal de “meridianos”; e o circuito de centros zodiacais do “fogo secreto”, vitalizado pela tripla serpente de fogo na coluna vertebral. É importante entender como o inteiro organismo colabora na manutenção deste fogo, cuja fonte inesgotável é Espírito cósmico. Os pulmões insuflam-no com o ar que purifica e anima o sangue; os órgãos digestivos, vitalizados pelo sangue, transformam-no em calor animal pela dissolução e transmutação dos gêneros alimentícios; e o produto final da digestão, o quilo sublimado [the sublimated chyle], traz para o sangue e daí para a medula espinhal as energias específicas criadas pelos processos de assimilação. Em seguida, o fogo secreto na coluna vertebral realiza a última transmutação, em que o fogo final da gênese humana é reunido com o Fogo de sua origem.
A única coisa ainda requerida nesta obra é um elo final [final link], e isso depende não de automatismo animal, mas da decisão espiritual do indivíduo. Este elo [link] é a derradeira ‘infusão da alma’ [ensoulment] por aquele anseio que pode extrair diretamente da Fonte Divina todas as coisas; e, por este milagre do Amor, o “eu-mesmo” [“Myself”] exterioriza-se para o “o Ser” [“the Self”] e alcança a fusão que rompe o círculo fechado de seu egocentrismo.

Devemos tentar sentir a síntese viva de todos estes multiplos circuitos concentrantes que combinam as suas funções em incessante cooperação. Pois os mesmos processos generativos se repetem incessantemente em todas as fases das transformações do ser, tanto no universo quanto em nós mesmos. Nós podemos estudá-los separadamente, e tentar experimentá-los diversamente, somente se lembrarmos que, apesar da sucessão de fases em qualquer transformação, ainda assim os diferentes estágios do processo vital trabalhoam simultaneamente e não podem ser propriamente separados.

O próximo aspecto sintético a ser considerado é a sua orientação do corpo comparável àquela da Terra. O corpo tem um eixo, a coluna vertebral [the spine], e dois pólos: o sul, que emite, e o norte, que recebe. Estes dois pólos são os locais dos dois mundos procriadores: no sul o procriador sexual, e no norte do procriador mental. Dentro do corpo, os dois pólos estão indicados por duas glândulas complementares: no norte a tiróide, pertencente ao princípio branco, e no sul as supra-renais, pertencente ao princípio preto. Estas regulam a ação e equilíbrio dos três princípios Enxofre, Mercúrio e Sal, e são o elo [link] entre o corpo e os dois procriadores. Além disso, a tiróide, como pólo norte do sistema glandular do tronco, atua como intermediária entre as supra-renais e a glândula pituitária no cérebro.

O lado e mão direitos são ativos e “doam”,
enquanto o lado e mão esquerdos são passivos e “recebem”.

A parte de trás é passiva e sensível, como são os nervos posteriores da medula espinhal.

Todos os órgãos, que trabalham em conjunto na absorção, transformação, e assimilação da matéria necessária para a vida física estão situados na parte anterior do corpo.

Os quatro membros são símbolos vivos de dualização,
as pernas para movimento, os braços e mãos para ação.

A cabeça é em si mesma um epítome do homem, uma vez que todas as funções do nosso organismo, tanto aparentes quanto ocultas, têm suas estações de sinal, ou postos de comando, no meio do cérebro [in the milieu of the brain].

Pode-se dizer que se o corpo é o mundo dos tipos, especificados como cada órgão e seus componentes, a cabeça é a semelhança do mundo dos arquétipos, os princípios do “Devir” (“Tornar-se”) [“Becoming”].

A parte da frente e de trás da cabeça são tão diferentes como parte da frente e de trás do corpo, pois a nuca continua a atividade energética da coluna vertebral, com pontos vitais essenciais nas vértebras cervicais, na medula oblongata, e no cerebelo. É o ápice do Pilar de Osíris.

O rosto é o menor de Horus (o Verbo ou Logos), com os órgãos dos cinco sentidos, que são os cinco modos de expressão da Palavra [the Word]. Nele estão os dois luminares, o solar olho direito e lunar olho esquerdo, dois globos cujas pálpebras criam o dia e a noite; e a íris é um pequeno zodíaco em cujas divisões se inscreve o estado de todos os órgãos do corpo.

No feto, os dois luminares (os olhos) aparecem em primeiro lugar; em seguida, os planetas (os órgãos) começam a aparecer um após o outro.

.

OS HUMORES

Quatro rios regavam o jardim de Éden, e no meio estava escondida a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
O jardim do nosso corpo é regado semelhantemente por quatro humores. Dois são perfeitos em sua origem, e suas cores são aquelas das duas perfeições da Natureza: Um é branco, a Linfa, de caráter lunar, o elemento que dá substância. O outro é vermelho, o sangue, de caráter solar, o elemento que anima e vitaliza. Estes são os primeiros elementos da transsubstanciação.

Os outros dois humores são imperfeitos porque eles são elementos de fixação e separação: Um é verde, a bile, o elemento de separação e dissolução. O outro é preto, a atrabile, o elemento de contração.

Estes quatro humores estão em dois casais, como dois rios cada um com dois córregos, tendo diferentes qualidades, mas a mesma origem.

Não foi sem razão que os antigos os chamaram de “humores”, pois segundo a sua predominância no organismo do homem eles colorem e influênciam o caráter do indivíduo.

A bile é corrosiva e tende à agressividade e amargura;
a atrabile é adstringente e tende à melancolia, ansiedade e dúvida. Estes dois servem a vontade egoísta.

O sangue e a linfa são mais altruístas. O sangue vermelho [red blood] é um poderoso regenerador, e seu humor é confiante e generoso. Ele é o veículo da “alma sensível” menor [lower “sensitive soul”], que corresponde à nefesh hebraica e ao Ba animal dos Egípcios, a força vital animal ou “alma animal”, cuja partida significa a morte do corpo. A branca linfa é a enfermeira do corpo. Ao menor perigo ela sacrifica seus leucócitos [glóbulos brancos], que correm para o ponto ameaçado e usa-os na construção de uma barragem contra a infecção.

Estes são os transmissores da vida animada.
O trabalho dos quatro humores podem e devem ser mantidos em equilíbrio, pois qualquer distúrbio irá resultar em conflito inútil.

.

SINTESE E COORDENAÇÃO DAS FORÇAS VITAIS

A tabela de grupos funcionais (ver Apêndice I) mostra que os órgãos cooperam na ação criativa no plano físico. As mútuas relações e dependência dos vários órgãos convidam-nos a estudar a possibilidade de controlá-las e de trabalhar uma terapia que possa mantê-los em equilíbrio.

A coisa mais importante para observar e compreender é a relação física e psíquica dos órgãos, especialmente na medida em que eles influenciam nossos diferentes estados psíquicos e espirituais; também, é claro, a sua relação com os dois mundos procriadores [procreative worlds], o cerebral e o sexual.

O fígado e o baço formam um equilíbrio de forças psíquicas, como pode ser visto a partir de seus modos específicos de reação.
O fígado contém as características da personalidade física e sua hereditariedade, e estas colorem as características da energia sexual, da qual ele é o reservatório.
Embora pertencente ao sistema solar central do coração, o fígado, como Júpiter, atua como um sol pessoal; e como o sol no zodíaco, ele tem doze funções (fabricação de sangue e de glicose, a destruição de toxinas, a purificação do sangue, e assim por diante).
Semelhante a Júpiter, o pai de Marte, ele gera a bile Marciana [Martian bile]. Ele governa o seu pequeno universo exterior, que consiste do cérebro e do sexo. Qualquer atividade inoportuna [illtimed] da bile estimula imediatamente a atividade cerebral e configura uma reação de drenagem de associações de idéias, levando a irritação e sentimentos de obstinação pessoal [personal willfulness], e tão rápido é o circuito que este dá a impressão de ser simultâneo (bile-cérebro-fígado-baço-bile, etc.).

Júpiter é chamado no Egito de “a estrela do sul”, o que é perfeitamente correto, pois Jupiter-Amon-Min é a energia procriadora [procreative energy]; o fígado é o sol energético do mundo sexual e do ego. Nele reside a “semente” da Consciência Pessoal permanente [permanent Personal Consciousness], que, se despertada, pode mantê-lo em equilíbrio.
O fígado é o autocrata do corpo, e pode ser um agente de paz ou de ira, de acordo com a forma como ele obedece as sugestões do sol central, o coração, ou as dos três agentes da vontade pessoal, que são, a vontade pensante [the thinking will], a paixão sexual, e o egoísmo do “L” inato [the egoism of the innate “L”].

.
O Baço

Ao contrário do fígado, o baço está em contato direto com o sol central do organismo, o coração físico e espiritual. Em relação ao coração físico seu papel é terrestre e Saturnino [earthly and Saturnian], transformando e harmonizando os glóbulos brancos e vermelhos e mantendo-os em equilíbrio.
Ele tem uma conexão peculiar com o pâncreas, e os dois, com o estômago, têm uma influência de proximidade sobre o coração.

Psiquicamente, como sede da forma etérica (astral) que transporta a hereditariedade materna, ele está em contato com o mundo ou estado astral, isto é, o Akasha, no qual é registrada a idéia imaginativa de tudo o que acontece em nosso universo. Assim, ele é, como os Chineses ensinam, a sede do poder imaginativo [imaginative power], e reage fisicamente a emoções pessoais.
Ele é também, com o coração espiritual, a região que reage à Consciência Espiritual [Spiritual Consciousness], e, portanto, pode ser a sede oculta do discernimento consciente, e da consciência individual ou Maat, estando em contacto tanto com esta realidade quanto com os poderes de imaginação e emoção.

Se a emoção e a função Saturnina prevalecem contra as sugestões da Consciência Espiritual, a discórdia resultante produz comportamento esplenético ou colérico, assim como a discórdia nas funções do fígado produz raiva ou lágrimas.

.

O CORAÇÃO

A natureza e função do coração não pode ser entendida separadamente da região cardíaca que fornece a sua força motriz [driving force]. O sol que vitaliza o coração físico é o coração espiritual, que é um centro de fogo espiritual que pode ser estimulado e fortalecido pela atenção e meditação.

[The sun that vitalizes the phisical heart is the spiritual heart, which is a Center of spiritual fire which can be stirred up and strengthened by close attention and meditation].

O coração espiritual é a sede da Presença [the seat of the Presence], o ímã do nosso Ka divino [the magnet of our divine Ka], e sua expressão é aquele amor impessoal que sozinho pode prevalecer contra todos os fogos da paixão. Ele forma, juntamente com o baço, a área que reage à Consciência Espiritual. Por concentração amorosa ele pode tornar-se um centro radiante da vida indestrutível.

O coração físico é o seu servo, o “ministro do senhor e mestre”, como os sábios Chineses o chamam. Seu ativador é “o mestre do coração.” Este é um posto de comando funcional, e tem o seu meridiano de energia e seus pontos sensíveis detectáveis justamente como se fosse um órgão.

O “mestre do coração” é o agente para transmissão de energia entre o coração espiritual e o coração físico, e como tal, ele está relacionado tanto com a mente consciente quanto com o Autômato [Automaton].
Ele governa o batimento cardíaco e a energia de toda a região sexual, que inclui não só as glândulas e órgãos sexuais, mas também, neste contexto, os rins.
Os Chineses igualmente chamam-no de “a mãe do sangue”, porque ele regula o fluxo do sangue, em conjunto com o intestino delgado, que refresca e nutre o sangue com seu quilo [chyle].

Graças a este ativador, o coração físico é o centro e governador do inteiro organismo. Pois, embora os pulmões sejam ativados pelo ar e fogo que respiram, o coração é o centro e motor do circuito que regenera o sangue neles.

Juntamente com a sua região (o estômago, o baço e o pâncreas) * o coração é o agente de combustão do alimento terrestre, que irá tornar-se alimento assimilável. Ele recolhe o sangue, que transporta os líquidos fornecidos pelos rins e fígado, e também o quilo nutritivo [nourishing chyle] destilado no intestino delgado. Mas ambos, o intestino delgado e os rins, são regulados em seu aspecto enérgico pelo “mestre do coração”.

Esta dependência mútua torna compreensível que o funcionamento dos órgãos pode ser melhorado por intermédio do coração; e, inversamente, o estado do coração depende do equilíbrio dos órgãos o servindo.

.

CONTROLE DOS CIRCUITOS

Para além da interdependência dos órgãos segundo a sua relação em tipo de energia, em proximidade, e em função, nós temos que considerar os circuitos.

Toda distribuição de líquidos é feita por circuitos cujo equilíbrio depende do coração. Assim, são distribuídos energia, o sangue, e os produtos da digestão.

Estes circuitos são controlados pelos Três Aquecedores [Three Heaters] (respiratório, digestivo, e sexual), que, por sua vez, são regidos pelo mestre do coração.

Em última análise, portanto, tudo depende do mestre do coração. E uma vez que este é o intermediário entre o coração e a consciência superior [higher consciousness], através dele a consciência superior pode atuar. Além disso, uma vez que o circuito que regenera o sangue (coração-pulmões-coração) está sob o controle do mestre do coração, é possível deliberadamente influenciar a própria respiração, seja para acalmar a si mesmo ou para estimular atividade intensa.

O circuito “mestre do coração-rins-sexo” torna possível transmutar força sexual pela ação consciente do mestre do coração. Igualmente, o circuito “fígado-bílis-cérebro” pode ser controlado pela Consciência Pessoal [Personal Consciousness], *a qual pode observar as reações pessoais do Autômato [Automaton] e impedi-las, cortando o circuito entre a bílis e o cérebro.

Esses breves exemplos são dados a fim de mostrar a possibilidade de controlar as reações impulsivas do Eu Automático [Automatic Self] por meio de uma consciência desperta [awakened consciousness].

.

AS FONTES DE ENERGIA E CALOR ANIMAL

Um conhecimento das relações funcionais no corpo na verdade não explica a atividade dos órgãos, pois esta depende de um poder imponderável visível apenas em seus efeitos, que variam de acordo com os graus de sua sutileza. É geralmente chamado de “energia”, significando a fonte de todos os fenômenos essenciais de calor, movimento, e estímulo vital, sem os quais as funções orgânicas não poderiam realizar seu trabalho.

A Fisiologia clássica reconhece-o como a força conduzida ao longo das conhecidas rotas do sistema nervoso, pela qual o corpo é capaz de movimento e sensação.
As principais fontes orgânicas de calor animal são três: os pulmões, o estômago com o intestino grosso, e o fígado.
Os pulmões servem para aumentar ou diminuir a temperatura interna e a velocidade dos batimentos cardíacos. O estômago e intestino grosso produzem energia e calor animais a partir da digestão dos alimentos. Uma das doze funções do fígado é energizar o sangue, e a força sexual depende de seu bom funcionamento. O intestino delgado, por outro lado, é chamado no Egito de “aquele que refresca aos seus irmãos” [“he who refreshes his brothers”], porque ele resfria o sangue, alimentando-o com o quilo lunar [lunar chyle], que é de natureza fria. Por esta razão, a inflamação aqui pode ser perigosa para o coração se ele privar o sangue deste elemento refrescante por mudança na natureza fria do quilo [chyle].

A ”árvore energética da vida” [“energetic tree of life”] na coluna vertebral trabalha com a energia nervosa, assim como a “árvore distributiva da vida” [“distributive tree of life”] trabalha com a circulação do sangue adicionado para o qual existem os plexos do sistema simpático e as energias ainda mais sutis que correm ao longo da coluna vertebral e são chamadas em Sânscrito de Ida, Pingala e Sushumna.

O mais misterioso dos circuitos vitais é um até então não reconhecido no Ocidente, embora ele forneça uma chave para o equilíbrio das funções corporais. A energia desta fonte flui imperceptivelmente ao longo dos “meridianos de acupuntura” conhecidos em medicina Chinesa; ela estimula a atividade dos órgãos e, ao mesmo tempo, obtem energia a partir deles. A energia fluindo ao longo destas linhas de força é derivada do que os Chineses chamam de os “três poderes de aquecimento” [“three heating powers”], pelos quais ela afeta, respectivamente, as funções respiratória, digestiva, e sexuais.

Finalmente, a fim de compreender a função oculta do coração, deve-se lembrar também da quarta fonte de energia, o mestre do coração [the master of the heart], que, em conjunto com o coração espiritual [spiritual heart], constitui a região cardíaca, da qual o coração físico é a manifestação visível.

.

O FOGO DA VIDA

Assim, ao estudar as funções orgânicas somos levados a considerar a sua força motriz [motive force], que é o Fogo da Vida que vitaliza-as em suas maneiras diferentes e é de fato o agente essencial de todas as funções vitais.

Pois, embora as manifestações são muitas, há apenas uma fonte de todos elas, à saber, o fogo vital que anima o mundo, a Luz fundamental e princípio causal de tudo o que existe, chamado pelo evangelista João de “o Verbo” [“the Word”], e pelo antigos Egípcios de “Horus” (ou, em sua conotação universal, Horus o Velho [Horus the Elder], Hor-wer).
Em sua encarnação humana foi chamado de o Cristo pelos Evangelistas, e pelos Egípcios de “Horus dos Homens” [“Horus of Men”], ou “o Horus que se levanta dos membros do corpo.” [“the Horus who rises out of the limbs of the body.”].

O princípio é um só, embora o nome difira em cada língua; ele continua sendo o Espírito, a Luz brilhando na escuridão [the Light shining in darkness], o “Fogo” de todos os sábios.
O Fogo, em seus vários aspectos de calor, luz, e destruição, é sua manifestação [manifestação do princípio da Luz]. Aprisionado na matéria, ele é chamado de o Dragão na China, e de Ptah no Egito. Quando dualizado por sua queda na Natureza, seu aspecto concretizante é chamado de Satânico, ou Sethiano [Sethian] no Egito, e seu aspecto libertador é chamado de Luciférico [Luciferic], ou Horiano [Horian].
Ele [o princípio da Luz] produz todos os aspectos da energia, e o aspecto reativo que desperta em tudo o que existe é chamado de vida.

No corpo humano, ele se mostra como a vida nos órgãos e sangue, e como a energia na medula espinhal e no sistema nervoso. Em um plano mais sutil ele é Ida e Pingala, a dupla corrente de vida que flui nos lados direito e esquerdo da parede curvada da coluna vertebral e que, se ela funciona corretamente, estimula a corrente espiritual da Shushumna a subir a partir do centro da medula. Esta corrente tripla é a “serpente-fogo” da yoga, e esta leva até o “centro coronal” [“coronal center”], que é sutil e não físico. Ele é simbolizado pelo conhecido diadema de Tutankhamon, no qual uma serpente dourada sobe da parte de trás do pescoço até a testa, onde se levanta a partir de uma con: convolução representando o centro de força.

As duas correntes do Fogo vital, Ida e Pingala, foram chamados no Egito de a “alma de Ra” e a “alma de Osíris.”
O uraeus na testa do faraó (‘uraeus’ de iár, aquilo que sobe) representa o Fogo vital subindo para o centro frontal na testa. Este Fogo é a única fonte de energia, e seus dois aspectos são chamados na China de yin e yang, referindo-se de forma geral aos aspectos complementares da natureza.
Sob o nome de ch’i a medicina Chinesa representa a energia vital como fluindo ao longo de linhas imperceptíveis chamadas de meridianos, e no envoltório cutâneo do corpo e membros estes meridianos formam uma rede de linhas de força; sua existência é comprovada pelos muitos pontos sensíveis a ser encontrados ao longo de todos eles [ao longo de todos os órgão e membros], e eles agem como reflexos exteriores do de todo o organismo interior.

Por todas as variedade dessas manifestações, nunca se deve esquecer que há apenas uma fonte de energia, à saber, o Fogo vital, motor e agente de todas as operações da Natureza, realizando quer seja as transmutações de geração e a coloração das diversas substâncias, ou energizando o corpo e todas as suas partes com engatados circuitos de força vital [interlocking circuits of vital force].

.

                   4

 Alma e Consciência
Soul and Consciousness

Nossa habitual inexatidão no uso superficial de tais palavras como “alma” e “consciência” tem feito com que agora elas realmente signifiquem muito pouco para aqueles que as usam, lêem ou ouvem. Mas uma nova Era terá uma linguagem renovada, se apenas no sentido de restaurar o “espírito” original, a Palavra ou Verbo vivo, para palavras que tem perdido o seu significado por muita repetição.

Para alguém alerta para o seu significado essencial, a palavra apropriadamente escolhida tem uma efetividade mágica; mas se o significado essencial é distorcido, o inteiro comportamento de um homem pode ser distorcido em consequência.

Poucas palavras tem sido mais perigosamente distorcidas em seu sentido do que palavras como “alma” e “consciência” [“soul” and “consciousness”].
Isso ocorre porque as realidades que elas expressam são os elementos básicos que constituem o homem imortal – e que podem iluminar o propósito de sua existência.

Onde quer que a instrução de uma escola de iniciação tenha sido suprimida em favor de dogmas criados pela argumentação teológica, o significado de palavras como “alma” e “consciência” tem sempre sido alterado para se adequar à moda vigente na doutrina religiosa e pensamento filosófico. Nos primeiros séculos do Cristianismo homens falaram da tríade de corpo, alma e espírito. São Paulo não hesitou em ensinar que, enquanto o corpo de Cristo estava “no túmulo” sua alma desceu “para o inferno”, mas seu espírito estava “nas mãos do Pai.” Esta tríade humana foi discutida abertamente por Orígenes e Heraclides, mas mais tarde, após inúmeras disputas entre teólogos, foi reduzida para a simplificação obscura no catecismo Romano, que afirma que o homem é composto de dois elementos, alma e corpo.

Quando Orígenes e outros teólogos falam da alma como impura, má, ou viciosa, eles não podem possivelmente se referir à “centelha divina” [“divine spark”] que é a “alma espiritual.” [“spiritual soul”]. A alma espiritual não é o mesmo que a “alma carregada pelo sangue”, a qual Moisés proibiu os Hebreus de comerem com a carne de animais. Outros textos falam da alma como situada entre o espírito e a carne, e capaz de gravitar quer seja para o espírito ou para a carne; assim, mais uma vez há três elementos: corpo, alma e espírito. Isto é reconhecido também na Cabala Hebraica [Hebrew Kabbalah], que distingue nefesh, a alma sensível [sensitive soul] cujo veículo é o sangue, de ruah, o espírito ou alma espiritual [spirit or spiritual soul]. Em todas as tradições de iniciação os estados imateriais do homem receberam nomes para distinguir o grau de sua sutileza e a extensão da sua imortalidade; mas no Catolicismo todos esses estados psico-espirituais são cobertos por uma palavra, perigosamente vaga e confusa: a “alma” [the “soul”].

Para expressar aqueles vários estados cada tradição naturalmente escolheu palavras e símbolos adequados ao gênio e estágio de evolução de cada raça e Era particular.
Tentar alterar ou intercambiar esses significados só pode levar à interpretação errônea.

Dois outros princípios essenciais precisam ser levados em conta:
1. As leis do passado nunca podem ditar para o presente; pois a experiência que a humanidade necessita só pode vir a ela no momento presente.
2. A Sabedoria pode trabalhar para melhorar as massas, mas sua instalação em uma alma humana só pode ser realizada individualmente.
A partir destas duas leis duas conclusões se seguem
Primeiro, que, em relação às realidades básicas do universo, devem haver duas formas diferentes de ensino, respectivamente adequadas para o indivíduo e para as massas.
Em Segundo lugar, a escolha de termos técnicos deve ser feitade acordo com o entendimento dos povos modernos. A exatidão do significado de uma palavra diminui em proporção direta à sua utilização de forma demagógica para agradar a todos; pois a mente superficial, não tendo nenhum respeito pela palavra certa ou a resposta correta, faz de todas as noções vagas, e torna impossível a discriminação devido a sua aceitação habitual do “próximo-o-suficiente” [“near-enough”].

Discriminação depende de se ser capaz de distinguir entre o relativo e o real; mas o real só será reconhecido por aquilo que é real no homem, que é indestrutível.
Os diferentes estados de nosso ser imortal podem ser descritos por uma palavra “consciência” [“consciousness”]; mas esta deve ser entendida em sua essência. Tentaremos deixar claro as diferentes conotações desta palavra.

.

A ORIGEM DA CONSCIÊNCIA
THE ORIGIN OF CONSCIOUSNESS

“Aceitando-se que há uma Primeira Causa do universo, essa Primeira Causa é de necessidade individual. Mas embora a razão nos obriga a aceitar essa idéia de uma unidade indivisível, desprovida de quantidade, a compreensão dessa unidade está além de nossos poderes criaturais como partes do universo e dos efeitos da Causa única. Esta Unidade, na verdade, só existe para nós se podemos compará-la com alguma coisa; e comparação implica consciência e dualidade. Portanto, a criação ocorre entre os números um e dois; e dualidade deve ser a característica fundamental do universo criado. ”

“O dualismo da natureza implica comparação e a sucessividade dos fenômenos. A Unidade cria por observar a si mesma. Esta Unidade, considerada como indivisível, pode ser chamada de Deus ou Energia Não-Polarizada, e considerada como Unidade auto-consciente pode ser chamada de Deus ou Energia Polarizada.”

“Consequentemente o universo consiste de consciência [consciousness], e não é nada mais que a evolução da consciência, desde o seu início até que esta retorna finalmente à sua causa. Em outras palavras, ele [o universo] é a evolução de uma ‘consciência inata’ em direção a uma consciência psicológica, que é a percepção da consciência inata [the awareness of ‘innate consciousness’].
Esta é a primeira etapa rumo à consciência libertada das contingências físicas, isto é, a consciência permanente e imortal.”

“O homem é uma manifestação individual de todas as funções, poderes e afinidades no universo, e sua consciência é a medida de sua individualização, o seu poder para tornar realidade aquilo que ainda é apenas virtual na harmonia cósmica.”

“A Individualização dá forma corporal no organismo do homem para as funções da gênese, separando o pensamento criativo no tempo e espaço; a tarefa da nossa consciência é reuni-los.”

“A consciência se desenvolve com o conhecimento dos vários elementos da gênese e do vínculo espiritual que os une. Em outras palavras, existe conhecimento do bem e do mal, e também o conhecimento do Uno [One]; o primeiro [o conhecimento do bem e do mal], vem de nossa inteligência mortal, que separa como uma foice, e o último [o conhecimento do Uno], vem de nossa inteligência imortal, que unifica.” *

.
CONSCIÊNCIA E O UNIVERSO
CONSCIOUSNESS IN THE UNIVERSE

No princípio era o Verbo [Word], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. O mesmo estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; e sem ele nada do que foi feito se fez; Nele estava a vida; e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas. João 1: 1-5]

[ * – Nota do Tradutor: devido a problema no arquivo há uma pequena interrupção no texto aqui entre estes dois parágrafos.]

Em direção à consciência racial humana, a qual inclui as várias formas de consciência evoluídas na natureza. Esta explicação simplista não dá nenhuma idéia dos estados de consciência de nossos eus imortais reais [our real immortal selves]; mas, embora dirigida apenas para o cérebro, esta pode servir para reduzir a resistência da nossa inteligência racionalizante mostrando-a como observar como espectadora a aquisição de um tipo de conhecimento que vai além dela.

Um truque? Sim, sem dúvida; mas um truque que pode impor um armistício [uma trégua] na combatividade da nossa razão, para que, no silêncio subsequente, possamos ouvir o chamado de nossa própria ansiedade e procurar os meios para despertar a nossa consciência real.

.

 

A Tríade Humana
The Human Triad

O Homem tem três níveis de consciência:
o Autômato [Automaton],
a Testemunha Permanente [Permanent Witness],
e a Testemunha Espiritual [Spiritual Witness].

O autômato é o ser mortal, físico, emocional e mental.
Quando as faculdades mentais se tornam desenvolvidas, a consciência inata ou instintiva é geralmente posta para dormir, e deixa de ser perceptível por seu proprietário; neste caso ele é controlado pelo trabalho de suas funções orgânicas e pelas reações nervosas, emocionais e cerebrais que provocam os seus apetites.
A criatura é um Autômato [Automaton] porque é controlada pelas reações mútuas de suas partes e pelas influências exteriores, que agem sobre ele a cada momento de sua existência – Influências tais como país, família, parentes, educação, leis, costumes, e muitos outros. Normalmente, quando um homem não passou por um treinamento metódico, com vista a tornar-se consciente de seus estados de consciência, eles desenvolvem ou atrofiam despercebidos, exceto, é claro, sua consciência-cerebral [brain-consciousness], que nunca permite a si mesma ser esquecida. Assim, ele é controlado por suas reações físicas, mentais e emocionais, sobre as quais ele não tem nenhumas outras explicações além das oferecidas a ele pelos cinco sentidos e o cérebro.

Existem, no entanto, duas testemunhas da existência deste inteligente Autômato [Automaton], e estas são os dois estados não-mortais da consciência [the two nonmortal states of consciousness]. Estas duas testemunhas registram, geralmente despercebidas pelo Autômato [Automaton], as impressões que o afetam, e ambas provocam reações cuja origem e valor são desconhecidas para o Autômato [Automaton]. Que haja dois pode ser visto a partir da qualidade pessoal ou impessoal que distingue a evidência que elas oferecem, e os propósitos para os quais elas a oferecem.
Podemos então falar de duas testemunhas [two witnesses].

A Testemunha Permanente [Permanent Witness] tem o aspecto da personalidade; ele tem o mesmo ciclo e ritmo pessoal, reforçado pelas suas características herdadas e astral; pois as condições de sua encarnação foram determinadas por afinidade de ritmo e pelas necessidades cármicas de sua evolução.
Esta testemunha é o elemento de Osiriano no homem, e deve passar por renovação através dos ciclos do Devir [cycles of Becoming]. Como tal, deseja a continuação da experiência pessoal.

A Testemunha Espiritual [Spiritual Witness] tem o aspecto espiritual do ser encarnado, seu Nome espiritual, sua mais alta forma de consciência. Ela representa sua alma divina, ou em termos Egípcios seu Ka divino [divine Ka], durante todo o curso de suas encarnações. Esta é o elemento de Horus em sua evolução, porque quer libertá-lo das correntes cármicas do Devir [carmic chains of Becoming], através da unificação de seus níveis de consciência.

Estas duas testemunhas imortais correspondem aos dois anjos que a tradição Cristã dá a um homem para aconselhá-lo, o bom ou anjo da guarda e o “anjo mau.”

O anjo mau é a Testemunha Permanente [Permanent Witness], a percepção permanente do “Eu” [the permanent awareness of the “I”], que testemunha as reações de um homem para as experiências de vida e conforme ele resiste ao controle de sua consciência superior [higher consiousness]. O seu centro físico no corpo humano é o fígado, e o sua estação de escuta [listening post] é no cérebro.

A segunda é a Testemunho Espiritual [Spiritual Witness], que é imparcial porque totalmente independente da personalidade. A personalidade é apenas o seu veículo de encarnação, e o objeto da transmutação necessária para realizar a tarefa da redenção Cristã e Horiana [de Hórus], pois essa redenção é alcançada através da união do divino com o humano. Seu centro de reação física é o baço, e sua estação de escuta [listening post] é o centro oculto chamado de o coração espiritual [the Spiritual Heart].

Estes dois níveis imortais da consciência dão ao homem a sua vantagem sobre os animais, e distinguem a qualidade de indivíduos diferentes de acordo com como uma ou outra predomina e de acordo com as relações de ambas com o Autômato [Automanton]. Na maioria dos seres humanos, infelizmente, o Autômato é o agente ativo, e nem sequer nota a existência de um fio condutor contínuo.

Este fio condutor é a Testemunha Permanente do Eu imortal [Permanent Witness of the immortal Self].Esta testemunha registra, com ou sem a cooperação do Autômato, e em um meio mais sutil do que a consciência do cérebro [brain consciousness], os resultados das experiências de vida.
Assim, enquanto o Autômato está a sofrer as impressões que ele pensa que criou, este fio condutor exerce a sua intenção de aperfeiçoar o tipo de homem que ele representa, através do desenvolvimento de todas as possibilidades de seu verdadeiro Eu [real Self].

O Autômato [Automaton] tem a ilusão de dirigir sua própria existência, porque ele tem cultivado a percepção [awareness] das faculdades de seu cérebro, várias das quais já foram desenvolvidas nos animais superiores. Esta consciência cerebral [cerebral consciousness], pela comparação e associação de idéias, leva-o a acreditar que ele pode julgar, decidir e escolher.

Assim, o Autômato mortal e o Eu imortal perseguem seus objetivos diversos ao lado um do outro, mas com a diferença de que o Autômato é ignorante da presença do Eu [Self], e às vezes serve-o, mas mais frequentemente o obstrui por inércia. Nesta condição o homem abdica do seu direito de ser o senhor da Natureza e dos animais, pois estudo e razão nunca irão revelar-lhe o segredo da vida ou conceder-lhe o acesso aos reinos sobrenaturais [supernatural realms].

Que um animal deve ser sujeito às tendências de suas espécies, e todos os seus efeitos, é natural. Ele cumpre o seu destino simplesmente seguindo sua consciência instintiva, pois a consciência do grupo [group consciousness] de seu tipo é o único fio de continuidade que passa de um indivíduo para outro nos genes; não há nenhuma forma mais elevada de consciência que possa melhorar a qualidade do indivíduo. Ele pode ter as qualidades, ou propriedades, de seu tipo acentuadas mais ou menos de acordo com as potencialidades dos genes a partir dos qual ele cresceu, mas ele não será capaz de adicionar quaisquer outras propriedades aos seus próprios elementos genéticos. Qualquer coisa que ele adquira por treinamento, fora das suas qualidades específicas, será artificial e não serão repassados a seus descendentes. Pelo contrário, a vida em um estado de Natureza, e as dificuldades que ele terá que encontrar nesse estado, só servirão para desenvolver as qualidades instintivas de suas espécies.

Nesse sentido o Autômato humano [human Automaton] é prejudicado por sua educação artificial e pela resistência mental que distrai sua atenção da sua consciência instintiva; e assim, esta última [a consciência instintiva] atrofia por falta de uso.

Se, no entanto, o Autômato permite a si mesmo ser guiado por sua Testemunha Permanente, seu estado se torna superior ao de um animal, uma vez que suas faculdades cerebrais agem apenas como um espelho e um transcritor de experiência e não interferem fomentando interpretações racionalizantes. Assim, a Testemunha Permanente, que é enxertada na consciência instintiva, pode transformar o Autômato em um homem responsável por sua conduta, e capaz de aprender a compreeder suas possibilidades.

Este é o primeiro passo no âmbito humano mas supranatural; pois o homem natural, quando iluminado por esta consciência supranatural que, sendo imortal, torna-se capaz por meio dela de identificar-se com as coisas e seres na natureza e, assim, conhecê-los e tornar-se seu mestre.

Este poder, e o conhecimento que ele dá, deve ser incentivo suficiente para fazer com que qualquer um que tenha vislumbrado sua possibilidade decida controlar seu Autômato [Automaton] através da disciplina de sua consciência desperta.

Não estamos discutindo aqui os meios de fazer isso, mas apenas a possibilidade de fazê-lo; deve-se meditar sobre a possibilidade antes de se tornar convencido de que esta existe. Mas a possibilidade tem um outro lado, que deve ser enfrentado porque contém um sério perigo, isto é, que, apesar da vantagem de despertar a Testemunha Permanente de um ser humano, o objetivo desta consciência [Testemunha Permanente] é, contudo, um objetivo egoísta, uma vez que tende a aumentar a atitude “pessoal”. Este Testemunha Permanente, embora imortal na medida em que ela sobrevive à nossa existência presente, ainda assim é apenas a consciência de um ser pessoal específico, um exemplar do dualismo da Natureza. Mesmo supondo que ela deve crescer até que possa identificar-se com as coisas e seres da natureza e, assim, controlá-los, ela não poderia por seu próprio poder estabelecer contato com condições mais elevadas do que a sua própria. Um homem que tenha adquirido todos os poderes deste nível de consciência [da Testemunha Permanente], e tem o controle sobre seu Autômato [Automaton], ainda seria mantido no ritmo Osiriano, que é a continuação do seu ciclo pessoal, o seu ritmo pessoal, independente de quais forem seus projetos para ajudar a humanidade.

Existe, portanto, uma evidente oposição recíproca entre as duas testemunhas. A Testemunha Espiritual é essencialmente impessoal e indiferente às contingências da vida terrena, e por isso não pode colocar-se a serviço de um homem controlado por sua Testemunho Permanente, não que ela tenha um alvo diferente ou uma vontade diferente; o que chamamos de alvo e vontade não existem para o Espírito – mas tão grande é a diferença de condição e de ritmo, que a Testemunha Permanente não pode influenciar, modificar ou sequer fazer contato com a Testemunha Espiritual [Spiritual Witness].

Por outro lado, se um homem é suficientemente simples, se ele não faz nenhuma oposição mental para ser imbuído com ela, então sua Testemunho Espiritual pode encarnar-se nele e agir através dele, a tal ponto que sua Consciência do Ego [Ego-Consciousness] vai parecer não existir, exceto nas manifestações do instinto. Isso acontece com certas pessoas que são chamadas de “simples” ou “inocentes”, ou mesmo “idiotas”, porque sua inteligência racional não interfere com o seu comportamento, e em conseqüência, elas às vezes têm momentos de surpreendente intuição.

Na verdade, é claro, as duas testemunhas são os dois aspectos de uma única consciência, como os dois aspectos do arcanjo decaído: Satanás, que representa a natureza como separando em forma, fixando e possuindo, e Lúcifer, cuja natureza luminosa é atraída para sua Fonte luminosa.
A redenção do aspecto Satânico só pode ser alcançada pela “Descida de Cristo ao Inferno”, isto é, pela experiência da Testemunha Espiritual descendo para a humanidade. Nesta experiência, os dois aspectos se tornam conscientes um do outro e se unem.

Por essa razão, não importa quão grande o controle obtido por uma ou outra das duas testemunhas – seja pela Testemunha Pessoal ou Permanente controlando o Autômato [Automaton], ou seja pela Testemunho Espiritual mantendo o corpo sob controle sem levar em conta a Testemunha Permanente – não pode haver nenhuma libertação derradeira desde que um dos fatores de redenção tenha sido omitido.
No primeiro caso, a Testemunho Espiritual não estará lá para tirar o Ego para fora de suas limitações pessoais e impedi-lo de tornar-se inflado. No segundo caso, Em ignorar o Ego abre-se a porta para desajustamentos físicos e mais particularmente para enganos emocionais de um tipo imaginativo (astral) ou sentimental, e estes, sob uma aparência de amor divino, podem produzir fenômenos ilusórios que são obstruções no caminho da realização espiritual.

Em qualquer caso, não pode haver liberação final para qualquer ser humano sem a realização unidade da consciência, em que a Testemunha Permanente reconhece e aceita a orientação da Testemunho Espiritual. Esta aceitação, obviamente, altera o tipo de controle ou poder visado pelo Ego, uma vez que o (superior)Eu [Self] sendo essencialmente impessoal, não pode ser restrito a fins egoístas.
O procedimento para a realização plena deve ser o seguinte: em primeiro lugar, o controlo do Autômato [Automaton] pela Testemunha Permanente. Isto acabará por produzir um ser humano consciente da fonte de seus impulsos, consciente de seus instintos e seus órgãos, e capaz de ver suas correspondências na Natureza. É um pré-requisito de sucesso que a mente racional deve limitar-se estritamente a notar os resultados sem interpretá-los.
O segundo passo é o alargamento da Testemunha Permanente para a consciência do verdadeiro Eu [true Self], e para isso a colaboração das duas é essencial. A Testemunha Espiritual está lá o tempo todo; Isto de fato é o que ela tem estado a esperar. Mas o esforço deve ser feito pela Testemunho Permanente, a fim de eliminar através de vigilância contínua os vários obstáculos que impedem a Testemunha Espiritual de manifestar-se ao homem agora plenamente consciente de sua Testemunha Permanente.

Os obstáculos a serem eliminados são, objetivos egoístas e persistência obstinada em pontos de vista pessoais. Se estes puderem ser removidos, o homem torna-se livre para olhar para dentro [look inward] e observar realidades de uma ordem universal.

.

                                           5

                                     O Alvo

O nosso alvo é realizar o estado suprahumano por despertar e unir a Testemunha Permanente com aquela do Eu mais elevado [highest Self].

O caminho é a reanimação consciente do inteiro o corpo, a confirmação da interação entre suas funções e todas as suas reações vitais. É, finalmente, o reconhecimento dos diversos papéis das duas Testemunhas.

Assim, será formado o meio [milieu] em que o “núcleo espiritual” irá crescer até preencher o inteiro homem e gerar o Corpo Incorruptível, do qual o corpo físico será apenas o envoltório aparente e o instrumento obediente.

Para prosseguir este caminho sem ser desviado, a primeira exigência é a destruição gradual do comportamento automático, aprendendo a reconhecer o drama que é travado em um ser humano, conhecer os combatentes e suas armas.

Este drama é o duelo entre as duas vontades, a Vontade Pessoal [Personal Will] e a Vontade para a Luz [Will to the Light].

Muitos seres humanos não sabem nada sobre este drama: aqueles cuja consciência-do-cérebro [brain consciousness] faz tanto barulho que as duas testemunhas não podem ser ouvidas. Nestes, que são legião, o Eu Automático [Automatic Self] reina descontrolado, não tendo nada para contê-lo além de um sentido moral atávico e as convencionais regras sociais ou religiosas de sua educação. Problemas morais, para tais pessoas, só podem ser uma escolha entre obedecer seu código moral estabelecido e quebrá-lo à mando de interesse ou instinto próprios [self-interest or instinct].

Esta maioria não está interessada em angústias espirituais ou no Caminho [the Way] que o presente trabalho tenta abrir.

Os poucos, a quem os sábios dirigem-se, estão cientes de uma ansiedade causada pelos apelos mais ou menos freqüentes de suas consciências mais elevadas, a Testemunha Permanente e a Testemunha Espiritual.

Se a Testemunha Permanente é a única a se manifestar, ela cria um desejo de obter a maestria sobre o Autômato [Automaton] e agir “sabidamente” [“knowinlgy”] em vez de estar à mercê de seus pensamentos e impulsos. Em tal caso, a maestria que pode ser alcançada nunca será mais do que a realização do Ego como uma entidade em si mesmo, sem qualquer tentativa de união com o Ser Impessoal [Impessoal Self]. O drama é, então, simplesmente uma luta para reduzir o Autômato a um escravo obediente, e ganhar poderes pessoais de vários tipos.

O verdadeiro drama [real drama] começa quando a Testemunha Espiritual tenta dominar o Autômato (o que leva à abnegação do Ego e um ascetismo místico), ou então quando a Testemunha Permanente é convidada pela Testemunha Espiritual para cooperar na realização do estado suprahumano através da supremacia do divino elemento impessoal no homem. Este é o início do duelo, a luta entre a Vontade Pessoal [Personal Will] e a Vontade para a Luz [Will to the Light].

Se você permitir que esse duelo aconteça, você deve perceber que o seu inteiro corpo será o campo de batalha. O núcleo espiritual é divino em essência, mas, a fim de se redescobrir o seu poder ele deve gerar-se no coração humano e passar pelos processos de “mortificação”, “renascimento” e “ressurreição”.

É um erro desastroso considerar a alma como uma inteligência etérea entronizada em algum lugar alto acima de si mesmo ou do mundo, e achar que se tem que “atingi-la” elevando a si mesmo nas asas do idealismo e aspiração acima do seu corpo e da terra. Nenhum homem terreno pode perceber o Espírito exceto em sua própria carne. E isso não é mera metáfora literária, mas sim uma mais positiva realidade. Você só pode encontrar o seu Deus, gerando Ele em si mesmo, na escuridão de seu próprio corpo.

Pois quando Ele toma conhecimento de uma substância, então Ele torna-se seu Deus. Esta substância não pode ter nenhum Deus além de seu próprio, quando, uma vez que tornou-se Seu berço e Seu templo. “Não há nenhum Deus além de Deus”, e nenhuma Luz além do Verbo [Word]; mas cada criatura pode conhecer apenas o seu próprio Verbo; e o Pai da Luz é desconhecível e inacessível para aqueles que não aprenderam a participar de Sua unicidade [His oneness].

A Altura [Height]deve penetrar a Profundidade [Depth], se você deseja que a Profundidade torne-se como a Altura, “para realizar o milagre da Coisa Única”, como diz a Tábua de Esmeralda. Mas uma vez que existem Profundidade e Altura, nenhuma pode ser movida sem a outra, e elas dependem uma da outra.

“E a Luz [do Verbo] resplandece nas trevas.”
Certas pessoas tímidas renegam sua Presença em lugares abjetos e esterco como uma idéia sacrílega. Mas a blasfêmia encontra-se em tal dúvida.
Para o Espírito nada é impuro a não ser aqueles que O rejeitam.
A sujeira mais vil pode aceitar o Espírito, mas o pensamento racional e a Testemunha-do-Ego [Ego-Witness] podem rejeitá-lo porque cada um deles pode imaginar que ele próprio é a Luz.

Se você deseja a Luz, esteja certo de que você nunca vai encontrá-la a não ser gerando-a em sua própria escuridão.
Não blasfeme chamando-a de incompatível com a escuridão da matéria; pois a matéria não existiria se a Luz já não estivesse formada dentro dela. E esta Luz, tão logo quanto desperta, irá se tornar o vosso Mestre, cheio de poder, o Deus habitando em vós, que transforma todo o esforço em alegria, todas as tempestades em exaltação, todos os mistérios e dúvidas em conhecimento.

Só tenha cuidado para não permanecer na indecisão. Tenha a coragem para soar suas profundezas [sound your depths] e escolher o seu caminho. Timidez de coração e de compromisso só podem levar à sofrimento inútil.
[halfheartedness and compromise can only lead to useleff suffering]

.

                                              6

                                         O Duelo

 
Para entender os dois atores no duelo é necessária uma grande dose de pensamento. Pois um ator é simples, imaterial, e só pode ser reconhecido pela “inteligência do coração”; mas o outro é tão complicado que somente a mais minuciosa introspecção pode analisá-lo.

Por “inteligência do coração” devemos entender aquele tipo de atividade mental que começa com o redespertar [reawakening], deliberado ou não, do centro oculto entre o coração e o plexo solar. Este centro é o Coração Espiritual.

O primeiro ator a aparecer em nós como uma vontade em direção à Luz é o nosso próprio Logos espiritual, a voz de nosso Ka divino [divine Ka], o observador espiritual da nossa experiência humana. Sua função aparente é fornecer o impulso que nos obriga a determinar nossa conduta a partir de um motivo mais elevado do que mero egoísmo. Quando esse impulso for aceito, a sua função real será a de ativar nossos centros ocultos, intuitivos e espirituais. O resultado será o sentido de uma verdadeira Presença [real Presence] que acalma ansiedades e remove a nossa dolorosa sensação de incerteza e de impotência.

O segundo ator, que causa a verdadeira luta por resistir ao Eu impessoal [impersonal Self], é a Personalidade como um todo, isto é, o Autômato [Automaton] com os seus componentes físicos, emocionais e cerebrais, além da Consciência-do-Ego [Ego-Consciousness], sua Testemunha Permanente [Permanent Witness].

Deve ser claramente entendido que tudo em nós que não é nem a Testemunha Permanente nem a Testemunho Espiritual é parte do Autômato [Automaton].

Os movimentos do organismo pertencem a ele, tanto voluntários quanto autônomos, assim como os pensamentos, atos e decisões dirigidos pela vontade e consciência do cérebro; pois estes dependem do organismo (o físico, emocional e mental) e são, portanto, mortais, assim como ele [o autômato] é.

Para despertar-se do estado de sono e dar o primeiro passo em direção à libertação, deve-se atingir um entendimento completo do significado da Testemunha Permanente (ou Consciência-do-Ego) e ver em que ela difere da mera consciência-do-cérebro [brain consciousness].

Devemos, então, ser capaz de entender como essa consciência pessoal, embora precise ser despertada, é, no entanto, uma parte da Personalidade, cujos objetivos são, em geral, opostos àqueles do Eu Espiritual.

A Personalidade quer:
ou Continuidade na terra
ou Os valores relativos desta existência temporária
ou Informação Intelectual colocada ao serviço dos interesses mundanos (uma carreira social, científica ou comercial)
ou Mediocridade uma vez que extremos precipitados nunca podem esperar obter a aprovação pública e ganhar vantagens sociais e mundanas,
ou Utilitarismo, ou seja, tudo o que se encaixa com cálculos mundanos e razão lógica.

A Testemunha Espiritual, por outro lado, deseja:
ou Unir-se com o ser humano e, assim, transformá-lo em um ser imortal
ou valores Absolutos, que são indestrutíveis
ou Abrir o “coração” para o conhecimento intuitivo
ou O senso de excesso, como um trampolim a partir do qual transpor as limitações humanas e converter a queda do homem em uma oportunidade de evolução
ou Inalterável amor da Realidade
ou Amor da vida por si mesma
ou Amor do Amor Impessoal.

A Personalidade deseja apenas a si mesma, e cada uma de suas partes constituintes defende apenas a sua própria existência. Quando o Autômato [Automaton] não é controlado pela Testemunha Permanente, ele é guiado por nada além de sua própria consciência-do-cérebro [brain-consciousness], e esta, como já vimos, é apenas uma projeção mental do que ele supõe de si mesmo ser e querer; em consequência, esta é governada pelos vários impulsos despertados por seus instintos dominantes, ou por influências externas, e essa anarquia leva a desordens psíquicas e orgânicas. Se não receber nenhumas sugestões da Testemunha Permanente, ela atribui-os a sua própria decisão intelectual, sem saber como diferenciar.

A maior dificuldade é distinguir entre o Ego do animal inteligente Autômato e o Ego consciente da Testemunha Permanente. Pois mesmo em ações altruístas, a menos que inspiradas pela Testemunha Espiritual, os objetivos de ambos são pessoais; O Autômato os conduz para satisfazer seus impulsos animais, sentimentais, ou racionais, e a Testemunha Permanente os planeja a fim de obter seus fins pessoais. Pois o Ego nunca é altruísta, por conta própria; ele não pode buscar perder a si mesmo. A abnegação e o anseio pelo impessoal vêm da Testemunha Espiritual. A astúcia do Ego em desviá-los em proveito próprio é positivamente diabólica.

A armadilha mais comum é uma questão das palavras “eu” e “mim” [“I” and “me”], as quais criam confusão entre o “eu” automático com seus vários eus, e o “eu” consciente.

Para penetrar nesse falso Ego temos de aprender o repertório completo de seus disfarces, o seu ego profissional, o seu ego social, o seu ego sexual, seu ego piedoso ou cético, e seu ego para uso familiar; todos eles têm diferentes rostos, carácteres, e comportamentos, de acordo com as suas várias idades, circunstâncias e paixões secretas. Mas cada uma destes [cada um dos egos] “mim’s” dizem “Eu quero” e “Eu prometo”, fingindo não saber que um dos outros “Eus” podem contradizê-lo. Para ser mais preciso, isto não é um mero desacordo sobre significados de palavras; antes, a pessoa deve tornar-se o seu próprio confessor, a fim de não ser enganada por essa miragem não-detectável de um personagem, o múltiplo “Eu” da vida diária. Primeiro, um de seus disfarces aparece, em seguida, outro, de acordo com o papel que tem que ser desempenhado, mas todos são registrados no espelho do Akasha, * que é o espelho do julgamento.

Agora julgamento pressupõe um juiz e uma coisa julgada, e aqui indica duas condições, a consciência original [original consciousness] e a consciência recém-adquirida. Esse julgamento não é um evento temporal; mas ele acontece a cada momento, sempre que o Eu consciente [conscious Self] se torna ciente das imagens projetadas pela sua personalidade, e não pode mais consentir ser identificado com a personalidade. Esse é o momento da verdadeira contrição, o momento em que uma expansão da consciência torna possível avaliar o verdadeiro valor de um ato. A Liberação final ocorre somente quando as duas consciências tornam-se unidas, e, então, o passado torna-se uma parte do Devir [Becoming].

O primeiro passo para a libertação é livrar-se da confusão, e isso significa medir palavras contra seus significados, e as aparências contra as realidades. Devemos, no entanto, evitar os métodos de psicanálise e dissociação, que são novas armadilhas inventadas pelo ego intelectual para aumentar sua própria importância.

Se o nosso objetivo final é simples, o caminho para ele deve ser simples também. Por isso, vamos fazer uma pergunta simples: “Eu” [“I”] é a palavra que existe para especificar o agente que fala, pensa, ou age, mas será que esta sempre se refere ao mesmo “Eu” ou agente? Não, refere-se apenas a um dos aspectos do “ser” [“Self”]. Sendo assim, é melhor concordar que, no presente estudo, a palavra “Eu” [“I”] deve ser utilizada para significar o “ser” total do Autômato [total “self” of the Automaton], que, sob qualquer aspecto, passa por aquilo que ele supõe a si mesmo fazer ou querer livremente pois ele não possui nenhuma consciência além da consciência-do-cérebro [brain-consciousness], a consciência do verdadeiro eu ainda não estando ativa ou desperta.
[the consciousness of the real self being not yet active or awakened.]

O significado dado aqui às palavras “Eu”, “Si mesmo” e “Ego” [“I”, “Self”, and “Ego”] não é simplesmente uma escolha pessoal entre os diferentes conceitos filosóficos de seus significados, e o grau de realidade e permanência que esses conceitos concedem ou negam ao Ego. Pelo contrário, as palavras são usadas aqui de uma forma estruturada para distinguir os diferentes aspectos do Autômato humano [human Automaton] de nossa consciência permanente [permanent consciousness] que é a testemunha de nossas experiências de vida sucessivas.

A palavra “Eu” [“I”] não assume facilmente esse duplo significado. Sua comum utilização irracional torna difícil para lembrar uma distinção, que em qualquer caso, nós estamos aptos a negligenciar [overlook].

No uso comum, “Eu” [“I”] representa a pessoa falando de si mesma no momento, referindo-se aos estados, atos e funções de seu Autômato [Automaton]; necessariamente portanto implica-se a totalidade destes [estados, atos, funções, etc, do Autômato], e refere-se indiferentemente a qualquer um deles.
Este, portanto, é o significado a ser dado a ela [à palavra “Eu”] aqui.

A palavra “Si mesmo” [“Self”] tem aqui duas aplicações:

1. Pode referir-se aos vários aspectos individuais da personalidade que se descreve como “Eu”. Estes diferentes ‘si mesmos’ [different selves] são papéis representados pelo Autômato [Automaton] em resposta à sugestão dos personagens impermanentes do momento, cada um dos quais pensa de si próprio ter o direito de dizer “Eu sou o si mesmo” [“I am the self”].

2. Nós chamamos de o Eu Consciente [Conscious Self], por outro lado, a Testemunha Permanente [Permanent Witness], individual e imortal, representando uma realidade inata e permanente, que, no entanto, pode evoluir. Esta é inata, porque é encarnada em nós no nascimento, e é permanente porque é a consciência que temos adquirido pela experiência através da longa série de fases do nosso devir [becoming]; mas esta pode evoluir porque se enriquece com cada nova experiência de vida.

Uma vez que esta Testemunha Permanente pode evoluir, ela não é inalterável; esta qualidade só pode ser atribuída ao elemento espiritual, “alma divina”, ou “Ka divino” [“divine Ka”], do qual temos conhecimento apenas através dos impulsos daquela mais elevada consciência [Higher Consciousness] que é a Testemunho Espiritual [Spiritual Witness]. Este é o verdadeiro Ser [the true Self], mas aqui não é o lugar para vã discussão sobre sua realidade e sobrevivência, sobre a qual os metafísicos têm muitos pontos de vista.

Aqui vamos falar daquela consciência que é “da” Consciência Universal, mas inata e particularizada em cada ser humano, dormindo em alguns, mas despertada em outros que a enriquecem pela sua experiência e pela sua especificidade. Esta é chamada aqui de a Testemunha Permanente [Permanent Witness], ou Consciência Pessoal [Personal Consciousness].

Falaremos também da mesma Consciência Universal em seu estado impessoal e, portanto, divino, mas esta é a Testemunha Espiritual, que deseja iluminar a Testemunha Permanente e, por unir-se com ela, redimi-la de seu contato com o dualismo da Natureza e restaurá-la ao seu estado original.

Estas são as realidades; chamem-nas pelos nomes que vocês quiserem, uma coisa é certa: Esta forma dupla da consciência é o nosso elemento imortal, o assunto sobre o qual todos os “emissários do céu” pregaram, o tesouro único que dá valor à existência humana, a única posse imperecível a ser preservada. Estas realidades, proclamadas por unanimidade pelos sábios, certamente serão suficiente para decidir por nós o objetivo da vida humana; e escolher um caminho que esteja de acordo com as possibilidades humanas é melhor do que a busca arriscada de um ideal ineficaz.

De que vale especular sobre estados de bem-aventurança suprema ou de meditação extática no mais elevado samadhi, se o nosso atual estado de consciência não pode nos oferecer nenhum conhecimento deles. A Terra é apenas uma etapa da nossa peregrinação, e devemos reunir a nossa experiência com os meios à nossa disposição na terra. Se seres sublimes alcançaram a comunhão extática com o incognoscível, as suas evidências só confirmam a possibilidade de tal coisa, e mostram que beatitude divina pode ser conhecida por sua Testemunha Espiritual, que retornou para dizer dela.

Este testemunho é confirmado por sua certeza serena, pelo brilho ou radiância de sua realidade, que pode despertar a fome espiritual de outras pessoas e mostrar-lhes vislumbres do caminho. A sua experiência [a experiência dos santos], no entanto, não pode ser usada como um padrão para os outros seguirem; experiência deve ser sempre individual, e auto-conhecimento, que é o fundamento indispensável, só pode ser alcançado através do esforço individual.

.

AS DUAS ETAPAS DO DUELO
THE TWO STAGES OF THE DUEL

O duelo é travado, antes de tudo, entre o Autômato e a Testemunha Permanente, esta última tentando impor ao “Eu” automático um estilo de comportamento que lhe permitirá trazer sua natureza inerente [da Testemunha Permanente] à realização [fulfillment].

Isto pode ser exemplificado por controle consciente das funções, gestos, e reações psicológicas orgânicas; recusa em seguir padrões herdados, hábitos e preconceitos; observação de quais tendências são genuinamente suas próprias; e controle consciente sobre o subconsciente e inconsciente.

O programa destes requisitos da Testemunha Permanente é quase que uma tarefa em si mesmo, e será analisado mais adiante. O objectivo da luta entre o “eu” automático [automatic “I”] e o Eu Pessoal [Personal Self]é trazer o cumprimento desse programa. Pois este “si mesmo” [“self”] mostra o que quer, colocando adiante sugestões e impulsos para o Autômato [Automaton], que contesta a sua adequação e tenta evitá-los. Então, a Personalidade deve pleitear as atrações de vantagem pessoal, os poderes espetaculares, impressionante superioridade, ou simplesmente uma grande reputação profissional. Este cultivo do ‘eu pessoal’ [personal self] pode ter um certo valor, mas isso só vai servir para exaltar o Ego, até que o Ego tenha o controlo exclusivo.

Esta, no entanto, é a primeira vitória que temos de ganhar, a fim de submeter o “Eu” automático [automatic “I”] para o controle do “eu” consciente [consciouss “I”], e colocar a consciência-do-cérebro [brain-consciousness] a serviço da Testemunha Permanente, para que esta última, fora de sua experiência anterior, possa retificar os dados fornecidos pelas computações do pensar [thinking].

O primeiro resultado será despertar o Autômato de seu sono, e o segundo será dar um interesse insuspeito para os problemas da vida diária, o interesse que um treinador tem em controlar uma besta selvagem, ou que um alpinista em escalar picos inacessíveis, o interesse que vem de conhecer as inclinações e objetivo secreto da personalidade, e como trabalhar para a sua realização através de métodos de sua escolha.

Aqui nós temos duas possibilidades: ou podemos desfrutar de um interesse desportivo na luta, perspicaz intento sobre a glorificação do Ego, ou então podemos considerar o resultado como um primeiro despertar do sono, e a aquisição da técnica que mais tarde irá nos permitir sujeitar a Consciência Pessoal ao controle pela Testemunho Espiritual.

Da mesma forma um alpinista, tendo escalado um pico perigoso, em vez de deleitar-se com o orgulho de um desportista, pode encontrar na exaltação das alturas a oportunidade de esquecer suas limitações pessoais e fazer contato com o impessoal. Mas aquilo que parece fácil nas alturas luminosas torna-se mais cansativo nas condições banais do cotidiano. E a Testemunha Permanente exige a justa recompensa de sua vitória.

Por esta razão, é imprudente empurrar longe demais este cultivo do Eu Pessoal [Personal Self], ou deixá-o no comando único da situação. Tão logo quanto os primeiros sucessos tenham sido obtidos, este deve ser sujeitado à concorrência da Testemunho Espiritual.

Nesta segunda fase do duelo, o Autômato estará apto para estar ao lado de seu mestre, o Eu Pessoal [Personal Self], e ajudá-lo a resistir às sugestões do Eu Espiritual [Spiritual Self].

Este último, no entanto, não usa os métodos práticos do Eu Pessoal; ao contrário, ele age por insinuação, alternando entre flashes de luz e silêncio escuro, até que a pessoa se torne insatisfeita e anseia urgentemente pela sua presença.

A batalha agora já não é entre o cérebro, o fígado, o sexo, e seus aliados; mas o coração sozinho deve intentar [undertake] por sua própria serenidade resistir a suas revoltas [as revoltas do cérebro, do fígado, do sexo, etc].

Se a Vontade para a Luz [Will to the Light] pode alcançar a transferência da autoridade para o coração físico e espiritual, o coração irá provar que pelo seu poder pacificador ele pode estabelecer o equilíbrio no organismo e levar a um estado de paz em que as reivindicações agressivas da Personalidade irão gradualmente diminuir.

A possibilidade deste segundo tipo de controle será estudada quando descrevermos os meios práticos de alcançar o primeiro, que é o controle pela Testemunha Permanente.

O coração extrai sua força a partir participação no Impessoal, para o qual ele abre, doando-se, por expansão e não-resistência.

Parece ilógico que a cooperação do Ego consciente possa ser obtida no trabalho de regeneração que irá destruir o seu egoísmo. O que torna isso possível é a alegria contagiante que emana da presença da Testemunha Espiritual; pois sua presença desperta a “Inteligência do Coração”, e o Conhecimento que resulta tem uma atração para o Eu Pessoal [Personal Self], porque este se compromete a utilizar a sua capacidade cada vez mais no serviço do Impessoal, ele será capaz, em troca de seu sacrifício, de compartilhar esse Conhecimento e desfrutar de união imortal com a Testemunha Espiritual.

.

AS DUAS CHAVES PARA O REINO SUPRAHUMANO
THE TWO KEYS TO THE SUPRAHUMAN REALM

O Acesso ao Reino dos Céus [Kingdom of Heaven] é simbolizado na igreja Cristã por duas chaves, a chave de prata e a chave de ouro [the silver key and the golden key].
No Egito, este foi simbolizado pelas duas coroas, a coroa branca e a coroa vermelha.

Este símbolo duplo da perfeição representa a mais elevada condição da humanidade, o estado suprahumano, que é acessível ao homem na terra através do despertar de seus níveis mais elevados de consciência, seguido por regeneração gradual do ser humano através do divino.

A chave de prata representa o poder temporal sobre os seres e estados de ser que são parte da Natureza. Ela é temporal no sentido de ser condicionada pelo tempo e pelas circunstâncias de seu devir [becoming].

A chave de ouro representa o poder da Testemunho Espiritual aliada ao seu princípio divino universal.

As duas chaves juntas representam a união indissolúvel do conscientemente divino e do conscientemente humano, o que é a realização do Cristo [the realization o Christhood].

A diferença entre os dois poderes é mostrada pelas palavras de Cristo a Pedro: “… Não compreedes as coisas que são de Deus, mas das que são dos homens” (Marcos 8:33).

A chave de prata corresponde à coroa branca de Osíris, o Neter (ou princípio) do devir existencial [existential becoming], pelo qual a vida desaparece na morte apenas para renascer em outra forma. Osíris é o Senhor da Natureza [Lord of Nature] e governa suas funções, que são as inumeráveis encarnações da consciência.

De acordo com o ensinamento Egípcio, o Osíris no homem é a Consciência Pessoal [Personal Consciousnee], a sua Testemunha Permanente [Permanent Witness], e na vida após a morte permanece no reino de Osíris, que durante a sua vida na terra aprendeu a governar.

Esta vida após a morte, note-se, é uma imortalidade relativa, e não uma imortalidade final. É um estado póstumo correspondente ao que poderia ser chamado de “paraíso terrestre” transitório [transitory “earthly paradise”], como sugerido pela palavra Grega paradeisos, significando um parque, jardim, ou pomar; pois, embora não sujeito às contingências da existência física, este representa um estado psiquicamente vegetativo, e foi apresentado como tal na mitologia antiga (os Campos Elísios da Grécia, o Campo de Juncos [Field of Reeds] Egípcio [também conhecido como Aaru], o Jardim do Paraíso de Maomé, e assim por diante).

Estas imagens se referem às ligações terrestres [terrwstrial attachments] contraídas através de desejos e objetivos pessoais.

O estado é transitório porque a sua duração é determinada pela exaustão mais ou menos rápida de suas atrações (da sede por ele, em termos Egípcios), ou então pela necessidade de uma nova encarnação.

A Consciência Osiriana [Osirian Consciousness] é aquela da Testemunha Permanente, e dá ao homem na Terra a chave para controlar seus três estados inferiores do ser (o físico, psíquico, e mental) e os três correspondentes mundos ou estados em seu próprio universo.

Mas este grau de maestria [mastery] é apenas o nível mais inferior do reino suprahumano [suprahuman kingdom]; ele ainda se refere às “coisas dos homens”, e não absolutamente às “coisas de Deus.”

O espiritual não pode ser alcançado pela Consciência Pessoal [Personal Consciousness] até que esta se permita ser transcendida pela Testemunho Espiritual.

A chave de ouro corresponde à coroa vermelha e ao poder espiritual que é conferido pela consciência do divino. Esta chave dá o que é necessário para atingir o grau mais elevado do reino suprahumano, ou seja, o esplendor ou radiância do coração espiritual.

Quando a coroa vermelha, ou consciência espiritual, é unida à coroa branca, ou consciência pessoal purificada de seu egoísmo, ela é chamada de “duplo poder” (sekhemti), e este é o poder supremo da consciência completada, que dá a imortalidade final [ultimate immortality].

No corpo humano, o coração espiritual e seu ministro, o coração físico, seguram a chave de ouro para o reino divino, onde a Testemunha Espiritual está em casa.

O Ouro como um símbolo significa a perfeição do reino mineral, os ingredientes complementares estando indissoluvelmente combinados, daí a cessação dos antagonismos e a perfeição de um reino [kingdom].

Assim como o coração físico recebe o sangue com seus glóbulos brancos e vermelhos, puros ou viciados, e controla o circuito em que eles são regenerados, assim também, se observarmos com cuidado e submetermos ao controle do coração espiritual as decisões do Ego e as impressões dos estados inferiores da consciência, o coração espiritual será capaz de alterar o caráter e tendência deles assim como o sol amadurece a cor e o sabor da fruta.

Ele [o coração espiritual] será capaz de fazer isso desde que nós não permitamos que o Ego fique no caminho com o seu egocentrismo exclusivo.

As duas chaves são adquiridas de diferentes maneiras.
A Maestria da Testemunha Permanente [Mastery of the Permanent Witness] é obtida pelos métodos práticos a serem descritos nos capítulos 15 e 16.

Despertar o esplendor ou radiância do coração espiritual depende da nossa disposição interior [inner disposition] e da purificação do nosso ambiente interior [inner environment].

O programa para realizar isso pode ser chamado de o Caminho do Coração [the Way of the Heart].

.

                                       7

                 O Caminho do Coração
The Way of the Heart

Ao considermos o Duelo nós decidimos que os combatentes eram dois aspectos de si mesmo [two aspects of oneself], o “Eu” consciente [consciouss “I”] ou Testemunha Permanente e o “Eu” automático [automatic “I”], que se recusa a ser controlado.

Mas a submissão do “Eu” consciente às fugazes sugestões da “Vontade para a Luz” [“Will to the Light”] logo desperta
a Testemunha Espiritual, mas temos de aprender a conhecer o caminho conduzindo a ela.

Este Caminho, nós temos chamado de “o Caminho do Coração” [“the Way of the Heart”], porque nele, o coração, em sua totalidade física e espiritual, é senhor e mestre.
Esta é a estrada real [the royal road], porque dá todo o poder para a Testemunha Espiritual do rei dentro [Spiritual Witness of the king within], o Ka divino [the divine Ka].

Este é o Caminho dos “pequeninos” [the way of the “little children”] a quem o Reino dos Céus é prometido, porque é o caminho simples [the simple way], sem complicações intelectuais ou métodos artificiais, que desperta a nossa consciência inata [innate consciousness] e amplia-a para uma consciência suprahumana [superhuman consciousness], por seguir obedientemente as sugestões do coração.

No entanto, esta simplicidade não significa o fim do Duelo, e nem o fim da necessidade do despertar da Testemunha Permanente. Mesmo a última fase de nossa evolução na Terra não nos permitirá pular esta etapa, pois esta deve ser alcançada a fim de realizar a plenitude da experiência terrena humana, sendo este o objetivo da nossa encarnação.

E as condições de encarnação nunca colocam obstáculos intransponíveis no caminho dessa realização. Os obstáculos são para serem usados sem rancor como oportunidades providenciais para quebrar nossas correntes.

Nós podemos, é claro, nos esforçar para melhorar as nossas condições, e nós teremos sucesso na medida em que nossos esforços forem guiados por nossa Vontade para a Luz [Will to the Light].

Nossa Testemunho Espiritual não pode sentir pena pelas provações de nossa Personalidade; em vez disso, ela irá aumentá-las, a fim de acelerar a nossa libertação, a menos que nós deliberadamente a silenciemos, neste caso ela nos deixaria para sempre e perderíamos a nossa verdadeira imortalidade.

Por outro lado, quando o nosso objetivo final é claramente visto e aceito, geralmente nos surpreendemos ao ver as circunstâncias da vida alterarem-se espontaneamente como se para encaixarem-se com a nova direção.

.

O CAMINHO DO MEIO
THE MIDDLE WAY

O Caminho a ser estudado aqui é um meio-termo [middle way] entre a busca pela maestria humana na parte do “Eu” Consciente, e o puro caminho místico, que já não mais preocupa-se com esse “Eu” [“I”] [“L”].

Quando um homem treinou seu “Eu”, ou Testemunha Permanente, para controlar seu Autômato [Automaton], ele pode desenvolver sua consciência física, emocional e intelectual tão bem que ele adquire vários poderes, nos três reinos; mas estes, apesar de úteis em um sentido terreno, constituem um obstáculo à realização espiritual, porque eles conduzem à exaltação do Ego pessoal [personal Ego], que irá assumir o controle inteiro se a Vontade para a Luz [Will to the Light] não for desenvolvida ao mesmo tempo; e, então, quando surgir qualquer sentimento de desejo por um tipo de vida mais elevado, não haverá maneira de responder a este desejo, e a confusão resultará.

Se, por outro lado, a pessoa mergulha em uma busca por experiência mística sem a precaução de estudar o Eu Pessoal [Personal Self] e de controlar o Autômato [Automaton], ela irá involuntariamente se tornar escrava deles [escrava de seu Eu Pessoal e de seu Autômato] e irá se expor a distúrbios orgânicos, bem como delírios intelectuais e emocionais. Ela também estará rejeitando a maior experiência que a humanidade pode atualmente conhecer, isto é, o conhecimento completo do self [‘si mesmo’] ou microcosmo, o qual através do alargamento da consciência leva ao estado suprahumano.

O objetivo ou alvo [aim] do caminho do meio é, primeiro,  despertar o ser consciente que dorme no Autômato, e, em seguida, colocar na sua mão as duas chaves do reino, que são primeiramente o controle dos três estados inferiores [three lower states], e, em seguida, a sua utilização no serviço do Eu Espiritual.

Nenhuma chave deve ser utilizada sem a outra, e nisto o coração atua como mediador, uma vez que ele é tanto o regulador do organismo físico e quanto o ministro da Testemunho Espiritual.

Se alguém deseja que o coração predomine, é preciso conhecer a força e os métodos de seu antagonista, e, então, em vez de um duelo haverá uma competição entre os poderes do coração e do fígado. Pois o coração não luta; ele dá sugestões e tenta estabelecer a paz e a harmonia, coisa que o fígado, com a sua vontade de controle exclusivo, resiste.

Como foi dito acima, o caráter e as funções do fígado são complexas. Ela tem três lóbulos com três funções diferentes, e, assim, ele forma com a vesícula biliar um grupo quádruplo de órgãos tão importante quanto o outro grupo quádruplo que consiste do estômago, baço e pâncreas em conjunto com o coração, que trabalha com eles na distribuição de energia.

O grupo do lado esquerdo [left-side group] pode ser chamado de o grupo cardíaco, e o grupo do lado direito [right-side group] o grupo hepático, e suas funções são paralelas, mantendo-os assim em equilíbrio uns contra os outros.

A ação do fígado sobre os glóbulos do sangue é pareada com aquela do baço, e existe um paralelo entre os caracteres emocionais dos dois órgãos e os efeitos morais da sua atividade. O fígado detém a semente do Ego, com as suas características inatas herdadas do pai.  O baço é a sede dos impulsos e do corpo etérico, herdados da mãe, e é o órgão que responde à Testemunha Espiritual.

O fígado, a despeito de sua amabilidade Jupiteriana, produz a bile, que é amarga e separativa. O efeito moral da atividade da bile é ou coragem e ousadia ou raiva e agressão, de acordo com se ela age corretamente ou defeituosamente.
Da mesma forma, a emoção derivada do baço pode ser exaltante ou depressiva, de acordo com se ela deriva a partir de um impulso espiritual ou de uma deficiência orgânica.

Em ambos os casos, por conseguinte, existem duas reações possíveis, uma reação automática ou uma reação consciente.
Com o fígado a reação é ou instintiva, envolvendo o cérebro e a bile, ou então uma reação deliberada da Testemunha Permanente.
Com o baço [spleen], há igualmente uma reação instintiva, violenta, impulsiva e
colérica [splenetic], ou uma reação deliberada pela Testemunho Espiritual.

Se o baço for irritado pelo circuito bile-cérebro, emoção desagradável resultará, a qual irá reagir no plexo solar, em seguida, retornar para a bile, e assim por diante.

No grupo cardíaco, o coração nunca está do lado do Autômato [Automaton]. Se o circuito de bile não foi cortado, o coração será mecanicamente afetado por distúrbios, mas ele responde à agressão de seus inimigos com não-resistência [nonresistance], apenas restaurando o equilíbrio e reparando o dano.

É como se dois reis estivessem compartilhando o governo de um reino, cada um exercendo as funções para as quais ele está equipado, mas usando a sua influência de maneiras exatamente opostas.

No “governo hepático” o fígado é o ministro-chefe para o Autômato e, por vezes, também para o Eu Consciente [Conscious Self], caso no qual este muitas vezes se torna um campo de batalha entre os dois.
Ele também estende o seu domínio sobre os dois pólos do corpo humano, o cerebral e o sexual.

No “governo cardíaco”, por outro lado, o coração nunca é um instigador de problemas. Ao contrário de seu antagonista egocêntrico, ele subserve a harmonia geral, sendo o ministro do coração espiritual, que é a sede do amor espiritual.

.

O PODER DO CORAÇÃO

Assim, mesmo em suas funções físicas, o coração é verdadeiramente o órgão da paz. Mas, não estando sob o controle da Vontade Pessoal [Personal Will] e das faculdades intelectuais, seu papel decisivo é geralmente mal-interpretado e a maioria das pessoas considera-o apenas uma máquina, privando-o, assim, de suas oportunidades.
Sem conhecer o seu poder extraordinário a pessoa não pode dar ao coração a influência preponderante que ele deveria ter.

Um cardiologista experiente, escreve:
O reino do coração [kingdom of the heart], incluindo os seus canais de distribuição nos vasos sanguíneos, abrange a extensão completa de qualquer ser vivo, ambos em tempo e espaço. O coração está envolvida no misterioso trabalho de manter todo o organismo em equilíbrio, o que é mais do que uma questão de vasos sanguíneos e alterações de pressão. Para corrigir os efeitos de injúria ou desequilíbrio ele possui métodos notáveis de compensação justificados por milhares de anos de experiência. Esta Sabedoria do Coração [Wisdom of the Heart] veio a nós pela hereditariedade, como uma qualidade de nossa espécie. O coração possui uma capacidade para reparar danos que afetem a si mesmo sem em momento algum interromper o fluxo de energia que ele proporciona. Assim, ele é justamente um símbolo de generosidade infalível.
Na prática da cardiologia tivemos de reconhecer que o poder do coração para manter a vida é quase ilimitado, contanto que ele seja permitido usar seus próprios métodos e tenha acesso irrestrito aos seus recursos naturais.
[Aqui, o autor (cardiologista) faz uma reserva em relação a “situações que estão além do controle mecânico, tais como uma embolia maciça da artéria pulmonar, quando o coração falha porque a tarefa é praticamente impossível.]
Apenas demasiado frequentemente, porém, a intervenções infelizes da psique, especialmente sob a forma de ansiedade, transformam o curso dos acontecimentos para catástrofe.
Um coração forte, muito pouco danificado, tem sido, muitas vezes, conhecido por falhar em algumas horas sob a influência de ansiedade aguda.
Uma tempestade emocional pode destruir completamente a estrutura admirável das defesas homeostáticas que, com a Sabedoria do Coração [Wisdom of the Heart], tem chegado até nós a partir das profundezas do tempo.’
*

A experiência deste experiente cardiologista confirma nossa demonstração da força de reação do coração quando atacado por moléstia [illness], e também da sua capacidade para reparar lesões vasculares, se uma disposição serena e confiante permitirem-lhe agir sem entraves.

Além disso, em estreita associação com os órgãos de sua própria região (o baço, pâncreas, e estômago), ele pode compensar os distúrbios funcionais deles ou então tornar-se vítima deles, de acordo com a atitude mental e emocional da pessoa.

Se a pessoa puder alcançar o relaxamento físico e moral completo, e realizar uma calmante “mediação” na região do coração, então o coração vai ser capaz de exercer o seu poder curativo livremente.

Mas seu poder pode ser ameaçado através de tais drogas como impedir o organismo de se defender por suas reações naturais, ou igualmente por uma ansiosa análise mental de sintomas patológicos.

Para praticar o caminho do meio é indispensável conhecer os poderes do coração, uma vez que a sua influência deve predominar. Este Caminho é um equilíbrio contínuo entre o egoísmo do Eu Pessoal [Personal Self] e o altruísmo do Eu Espiritual [Spiritual Self].

Somente o coração pode conseguir este maravilhoso ato de equilíbrio, por sua posição mediadora entre o temporal e o extratemporal, entre o organismo mortal e seu arquétipo imortal. Seu movimento alternado de dilatação e contração é uma imagem completa deste equilíbrio entre os dois poderes, dos quais o pessoal [personal] deve tornar-se consciente, a fim de então ser transcendido pelo impessoal [impersonal].

Devemos, portanto, sempre relembrar estes dois objetivos: Primeiro, por uma vigilância constante, temos que despertar a nossa Consciência Pessoal [Personal Consciousness], a fim de que esta por sua vez possa iluminar nossa consciência-do-cérebro [brainconsciousness] sobre a origem de nossos impulsos, no reino do pensamento não menos do que no do sentimento.
Em segundo lugar, e, ao mesmo tempo, temos de nos tornar cientes [aware], através da prática da “mediação”, da interação de nossas funções orgânicas, sendo cuidadosos, no entanto, para evitar qualquer padrão de pensamento médico ou psicanalítico.

Todavia, assim que o “Eu” consciente [consciouss “I”] é despertado, ele deve ser colocado sob o controle da Consciência Espiritual [Spiritual Consciousness], e não ter permissão para usar o seu poder para fins egoístas.
Como um cão de caça, ele deve ser treinado para nivelar o jogo, mas não para caçar por sua própria diversão.

Se o Ego for fazer este sacrifício, a ele deve ser oferecido algum tipo de compensação, e a compensação só pode ser uma satisfação superior à suas próprias pequenas satisfações egoístas; esta [compensação] irá, de fato, ser a Luz aumentando [increasing Light] que cada novo passo ao longo do caminho. Será o entusiasmo que vem com cada despertar do verdadeiro Conhecimento [true Knowledge]; com a quebra sucessiva de cadeia após cadeia até que finalmente a própria concha do Ego seja quebrada, quando a presença contínua do Espírito vence sua última resistência e o atrai para a Luz [drawn it into the Light].

A maneira mais rápida de conseguir isso é a prática frequente de “mediação” no coração.
[The quickest way of attaining this is the frequent practice of “mediation on the heart.]

.

MEDIAÇÃO DO CORAÇÃO

Esta consiste em concentrar calmamente a atenção sobre o coração e a região entre o coração e plexo solar, que é a correspondência física do Coração Espiritual [Spiritual Heart]; pois ali está o verdadeiro tabernáculo da Presença Divina cujo templo é o corpo humano. Este deve ser o foco de nossa atenção, a fim de que possamos ser capazes de ouvir a voz da nossa Testemunha Espiritual, e manter o Fogo vital.

Este sentimento da Presença se tornará uma força ajudando-nos a superar todos os tipos de obstáculos, se nós o intensificarmos constantemente por “mediação”.

Esta “mediação”, ou meditação sobre o Coração Espiritual [meditation on the Spiritual Heart], deve começar com um intenso esforço para identificar o próprio coração com o Coração do Cosmos, que é a nossa fonte de luz e vida, o foco e princípio de toda afinidade.

Em seguida, é preciso deixar-se penetrar pela força pacificadora do próprio coração físico e espiritual, e por confiança nele permitir que ele tenha pleno efeito.
Isto não é de nenhuma maneira uma questão de auto-sugestão ou imaginação, mas sim de identificação ou comunhão direta com a realidade.

Em Terceiro lugar, é preciso deixar de lado todos os sentimentos de ansiedade, rancor, e pessimismo, que impediriam tal comunhão.
Isto é essencial porque não pode haver comunhão entre ritmos ou tendências que se opõem um ao outro. A tendência do coração é criar paz através do estabelecimento de um tal ritmo que irá compensar qualquer desequilíbrio; e a causa desta tendência é o Coração Espiritual [Spiritual heart], do qual o órgão físico é a expressão física.

Qualquer disposição para obstruir esta tendência é um obstáculo para o aparecimento da Presença, porque cria discórdia em vez de comunhão.

Assim, cada vez que um sentimento de agressividade ou ansiedade é superado, o coração ganhou uma útil vitória sobre seus adversários; útil porque este é o caminho para a Luz.

Graças a esta prática, as complicações da vida cotidiana perdem sua importância, problemas tornam-se mais simples, e as dificuldades derretem-se na proporção em que uma pessoa se torna mais capaz para distinguir [know] o real do aparente e discernir as poucas coisas que realmente necessárias.

Esta mediação no coração é a chave-mestra ou pedra-angular do caminho do meio [middle way], o único método que podemos oferecer como verdadeiramente eficaz, e que não exige, como outras práticas fazem, um instrutor para se certificar de sua correta execução.

Além disso, este caminho do meio não requer nenhum dos exercícios complicados de Yoga, que são perigosos senão praticados no âmbito de um professor experiente.
Como para os métodos destinados a desenvolver a supremacia do Ego, ganhar poder e afirmar a vontade, eles são muito piores.

No Caminho do Coração [Way of the Heart] a primeira dificuldade é a simplicidade do método, pois nossas mentes modernas, sendo treinadas em complicação, não podem acreditar que um método simples será eficaz. Por esta razão, muitos candidatos preferem os procedimentos duvidosos de métodos mais espetaculares.

Mas “simples” não significa “fácil”, mesmo quando, como aqui, isso implica simplicidade-de coração [simple-heartedness] e uma técnica simples.
Simplicidade de instrução é destinada para manter o objetivo claro, para evitar desvios e envolvimentos desnecessários. Simplicidade de pensamento é a exclusão do irrelevante. Simplicidade de coração significa desapego do que não é essencial para o nosso objetivo, desapego de nossas anteriores riquezas intelectuais, preconceitos, opiniões e crenças, deixando-nos, assim, livres para empreender a busca da realidade com a ingênua simplicidade-de-coração-aberto de uma criança [ingenuous open-heartedness of a child] olhando para o mundo com novos olhos.

Por que deveria esta abnegação nos encher de ansiedade? Quanto mais o coração for um ávido vazio, mais abundantemente irá a Luz brilhar nele.
E, quanto ao conhecimento científico que nós deixamos de lado temporariamente, os seus princípios essenciais só serão clarificados pelo nosso mais elevado discernimento.

Mas ninguém nos obrigará a realizar esses atos de renúncia. Não há nenhuma lei, nenhum mandamento, nenhum “Tu não farás” [“Thou shalt not”].
A voz interior [inner voice] irá sugerir-nos quais sacrifícios são necessários.
Não pode haver nada de não-espontâneo neste caminho.
Somente o limite de nosso desejo será o limite de nosso progresso.

.

.

.
                                             8

                                      A Fonte

                                  The Fountain

Há apenas uma fonte, a Sabedoria eterna
e seu mensageiro é o Espírito, com seus sete dons.
Esta é a ponte do arco-íris entre o céu e a terra, que revela as sete cores da Luz única.

Cada homem pode receber essa luz, na cor que o seu próprio prisma refrata.

E só há um Conhecimento, o conhecimento das leis da gênese.

[There is only one fountain, the eternal Wisdom
and its messenger is the Spirit with its seven gifts.
This is the rainbow bridge between heaven and earth,
which reveals the seven colors of the one Light.]
Every man can receive this light, in the color that his own prism refracts.
And there is only one Knowledge, the knowledge of the laws of genesis.]

Este conhecimento pode ser entendido sob diversas formas e divide-se em diferentes ramos: a ciência dos números, entidades e funções universais; a ciência das fases, ou transformações, em qualquer tipo de gênese; a ciência das naturezas, caracteres e suas assinaturas. Cada um destes ramos pode ser a fonte de várias ciências humanas, mas todos são aspectos de um Conhecimento [Knowledge], que é aquele da gênese [genesis].

Este é o fundamento [foundation] do primeiro livro de Moisés, bem como de todos os livros sagrados.

Conhecimento místico, ou a ciência da gênese do Ovo místico [mystical Egg], não é diferente; é o conhecimento do devir ou ‘tornar-se’ [becoming] do homem celeste dentro do homem terrestre, e da regeneração do homem terrestre pelo homem celeste.

Nós dizemos Conhecimento [Knowledge] ao invés de ciência [science] porque não é indispensável ter estudado suas leis antes de alcançá-lo em si mesmo; uma iluminação súbita pode despertar a semente espiritual em alguém que esteja disposto. E aquele que é absolutamente dócil à orientação que recebe pode trazer essa semente até a maturidade em plena consciência [full consciousness], por um circuito perpétuo de comunhão entre a semente e a sua Causa.

A fundação [foundation] não deve ser procurada nessas teologias complicadas que em uma época posterior foram enxertadas sobre as revelações originalmente genuínas.
Quanto mais próximo da frente, mais breve é o ensinamento da verdade; pois as leis que ele é vitalmente necessário saber podem ser expressas em poucas palavras.

De verdades essenciais, há mais embrulhadas no Livro do Gênesis do que em todo o resto do Antigo Testamento. Mais esplêndida talvez, porque ainda mais condensada, é a ‘Tábua de Esmeralda’ de Hermes, que ensina em poucas palavras a grande lei unitária da identidade do “que está em cima” com “o que está embaixo”; e este é todo o ensinamento do Antigo Egito.

Da mesma forma as primeiras linhas do Evangelho de João dizem a um homem tudo o que ele precisa saber para encontrar o seu caminho. Pois quando um homem reconheceu e provou a si mesmo que, no início de qualquer coisa, há sempre o Verbo [the Word], que todas as coisas vivem por ele, que a Sua vida é Luz [a Vida do Verbo é Luz], e que a gestação desta Luz está na escuridão [darkness], então ele sabe que seu verdadeiro objetivo ou alvo [aim] é despertar e portar esta luz na escuridão de seu corpo, até que a sua ressurreição esteja completa.

Mas, Revelar a verdade para outro é uma coisa que ninguém pode pretender. O único instrutor é ‘si mesmo’ [One’s only instructor is oneself].

Um livro ou um Mestre podem apontar as predisposições necessárias a fim de encontrar a Verdade; mas explicá-la é matar a compreensão com antecedência.
Nenhum Mestre digno desse nome pode enganar-se com a pretensão de impor uma nova crença. Tudo o que ele pode fazer é ajudar os buscadores a entender os ensinamentos dos sábios, tanto quanto possível na atual fase da sua consciência.

Nenhumas novas verdades esperam ser descobertas; tudo já foi dado. Mas foi tudo espalhado e disperso, deturpado [misrepresented] por análise, entorpecido por repetição de rotina. As palavras essenciais foram prostituídas.
Temos de recuperar o sentido vital dessas idéias.

.

 

 

                                                9

                                    Conhecimento

                                       Knowledge
Conhecimento não é uma ciência mas sim um estado, o estado de identificação.
Ser identificado com alguma coisa é ser unido com esta e feito um com ela.

Identificação só pode ter lugar entre estados de ser do mesmo tipo, mas estes, como líquidos da mesma densidade, irão se interpenetrar naturalmente; pensamento se comunica com pensamento, emoção com emoção, e paixão com paixão do mesmo tipo, e é por isso que, entre indivíduos ou grupos, pensamento, emoção, e paixão podem ser comunicados sem palavras.

Nenhum indivíduo pode comunicar-se com outro em um “comprimento de onda” que este último não possua. Por exemplo, um homem não pode transmitir uma emoção moral, intelectual, ou religiosa,  a um animal, uma vez que este último não pode vibrar, por assim dizer, neste comprimento de onda.

Uma criatura selvagem, quando encontra um viajante, sabe por instinto se suas intenções para com ele são amigável ou agressivas, porque esta [criatura selvagem] possui em si própria tais sentimentos; mas ela irá captar a condição emocional ou passional do homem, e não o seu pensamento ou raciocínio ou plano de ataque.
O homem, por outro lado, pode usar seu poder de raciocínio para adivinhar as intenções do animal, mas ele raramente irá entender seus sentimentos, porque sua própria atividade mental o impede de se comunicar com ele neste nível.

Conhecimento [Knowledge] é, assim, o estado de identificação com uma condição ou uma função.

Este conhecimento direto é diferente do aprendizado intelectual do conhecimento erudito ou aprendido, o qual vem do exercício de observação, memória, dedução, e técnica.
O gatinho recém-nascido, embora cego, amamenta-se pela luz da natureza [suckles by the light of Nature]; ele é identificado com uma função de seu tipo, e isso ele sabe diretamente, porém, mais tarde, o lugar onde a tigela de leite é colocada terá que ser aprendido.

Os limites do conhecimento [knowledge] são muito mais amplos no homem, porque ele possui os elementos, ou, pelo menos, as estações ou postos de escuta [listening posts], de estados mais elevados do que o físico, emocional, e mental.
Pois estes estados mais elevados são a projeção no ser humano dos mesmos estados de ser no Cosmos.

Identificação, no entanto, é mais difícil para o homem do que para um animal, porque o egocentrismo de sua Consciência Pessoal [Personal Consciousness] (a Testemunha Permanente) impede-o de querer ser identificado com qualquer coisa além de si mesmo, e igualmente porque a mente racional restringe o Autômato [Automaton] ao modo racional de usar a mente, e não permitirá que ele sintonize [tune] com qualquer modo de pensamento superior ao seu próprio. (Por “modo de pensamento”, poderíamos dizer “vibrações”; Tudo isso é metáfora.)

A identificação mais comumente em vigor é aquela do Autômato [Automaton] com seus estados inferiores (físicos, emocionais, e intelectuais), enquanto que a Testemunha Permanente permanece inativa, exceto por um desejo geral por qualquer coisa que possa inflar o Ego. Quando isso acontece, as impressões derivadas de cada um dos três estados inferiores são vagamente sentidas pelos outros dois, de modo que dores físicas e outras sensações tornam-se confundidas com emoções, e julgamentos ou opiniões são dados sob a influência de uma hilaridade (euforia) ou depressão, que é de origem física ou emocional. Esta confusão controla o comportamento do indivíduo.

Nenhuma das duas formas reais de consciência (a Pessoais ou a Espiritual) podem lançar alguma luz sobre isso porque ele não iria ouvi-las se eles falassem, e ele não tem nenhum princípio estudado pelo qual classificar impressões de acordo com as suas causas.

Nem a Testemunha Permanente nem a Testemunha Espiritual podem interferir com este caos de impressões porque os seus princípios (ou seu “comprimento de onda”) são diferentes daqueles das impressões.

Elas [as duas Testemunhas] não podem, isto é, a não ser provocando algum choque violento que irá surpreender o Autômato em contato com uma das duas Testemunhas antes que a mente racional tenha tempo para reagir. Este contato dá ao Autômato uma impressão de luz e força vital, a qual, vitalmente, ele vai querer encontrar novamente; e é por isso que uma súbita transformação moral ou espiritual por vezes ocorre após uma violenta emoção, uma doença grave, ou uma experiência de quase morte [an escape from death].

Esses choques são um meio frequentemente utilizado por uma ou outra testemunha-consciência para agitar o Autômato da letargia e tomar a mente racional de surpresa.
Não se deve esquecer que este processo, pela repetição de choques adequados, pode, eventualmente, manter o Autômato sob o controle de uma das suas testemunhas.
A escolha entre estas, e de fato a possibilidade de tal coisa absolutamente, serão ilustradas no presente trabalho.

Seu objetivo é despertar o homem de seu sono mortal e colocar seu Autômato a serviço das duas testemunhas de tal maneira e medida como é exigida para a obtenção da libertação final. O resultado deve ser uma aquisição do verdadeiro conhecimento, que naturalmente será proporcional à qualidade da consciência desperta e ao grau de identificação.

Todas as funções e estados de ser podem se tornar objetos de Conhecimento [Knowledge].

A consciência humana inata[innate human consciousness] inclui todas as consciências funcionais [functional consciousnesses] que constituem a estrutura da Natureza; pois sendo o homem o microcosmo do macrocosmo, todos os estados de ser no Cosmos estão projetados nele.

Em outras palavras, ele tem em si todas as possibilidades de Conhecimento [Knowledge], e é em si mesmo que ele deve procurar por elas.

Nem mesmo o melhor professor pode presentear alguém com consciência [consciousness], ou preencher alguém com Conhecimento [Knowledge]; mas em um homem adequadamente disposto, é possível despertar reações que conduzirão na direção certa.

Muitas vezes é útil preparar o terreno através do esclarecimento de idéias essenciais, a fim de livrar-se de preconceitos.
Mas a instrução mais eficaz é aquela que leva o buscador a colocar seus problemas claramente para si mesmo, para que, em seguida, ele possa encontrar a resposta para si mesmo na meditação.

Aqui vamos tentar praticar alternadamente os dois métodos,
explicação e estimulação, confiando que o leitor irá acolher nossas reflexões meditativas como o método um tanto simples, na verdade o mais simples método possível, de aproximar-se gradualmente da simplicidade de coração e mente para a qual o Reino do Céu foi prometido.

Aqui já não há qualquer autor ou leitor; mas há, ou esperamos que haja, apenas Consciência [Consciousness]. E a Consciência do Eu e Você é, esperamos, um pequeno pedaço da Consciência Universal, a menos que na verdade seja apenas uma elucubração do meu cérebro pensante, que finge ser eu Mesmo [Myself]. Como posso Eu dizer?

Aquilo que Eu acho que sei é aquilo que o meu pensamento reconheceu como evidencial; mas por vezes tem acontecido que certas evidências têm sido impugnadas por posterior descoberta científica. Este “eu mesmo” [“Myself”] que pensa que entende é uma atividade do cérebro. O “eu mesmo” [“Myself”] que pensa que quer pode ser o impulso de algum impulso de paixão ou de alguma sugestão mental não reconhecidos. E o “eu mesmo” [“Myself”] que acha que ama já amou tantas coisas diferentes que Eu duvido se ele é sempre o mesmo em si próprio.

“Eu” [“I”] posso duvidar. Quem é esse “Eu”? Quem faz esta pergunta? Quem está falando agora? Será que é “Eu”que têm dúvidas sobre “Mim Mesmo” [“Myself”], ou será que o “Eu” duvido “disto”? Sou “Eu” [“I”] “Eu mesmo? Se fosse, como poderia ser ignorante das intenções do “eu mesmo” [Myself]? E se “eu mesmo” [“Myself”] morresse agora, estaria o “Eu” ainda estar perguntando: “Quem sou Eu?”

Discussão não pode resolver este problema.
O “Eu” [“I”] acusa o incoerente “eu mesmo” [“myself”] de não revelar os motivos do seu comportamento. Às vezes ele pensa como “Eu” penso, às vezes ele faz o que “Eu” não gosto, e seus atos são inconsistentes, como se houvesse vários “Mim’s” [“Me’s”] agindo em seus próprios caprichos ou sob alguma influência externa.

Mas, ser capaz de tomar nota disso parece dar ao “Eu” [“I”] uma vantagem sobre o multifacetado “eu mesmo” “Myself”, a vantagem de que pode concordar ou recusar, para ser identificado com os impulsos que se elevam no “eu mesmo” [”Myself”]. Isto significa que este [“Eu”] é um ser consciente; e ser consciente de si mesmo [Self] é conhecer a si mesmo.
[to be conscious of Self is to know oneself.]

Pode o “Eu” [“I”] conhecer a si mesmo [itself]?

E se sou Eu quem fala, quem são vocês que ouvem?
São vocês o seu “eu mesmo” [“Myself”]? Ou são vocês o seu “Eu” [“I”]?

Onde me levará toda esta análise se eu continuar nessa linha? Por que, minha personalidade parece tão rica e complexa, meu cérebro vai ser preenchido com uma riqueza de novas noções e o “eu mesmo” [“Myself”] irá tomar a glória dele!
Eu poderia, sem dúvida, tomar o “eu mesmo” [“Myself”] de surpresa, se eu fosse insistir em analisar o meu mecanismo físico, meus impulsos emocionais, e o irrequieto turbilhão dos meus pensamentos e imaginações. Mas qual papel o “Eu” [“I”] desempenha em toda essa dissecação?

E, novamente, se esse “Eu” [“I”] fosse uma unidade, uma consciência com um modo inalterável de expressão, seria de se esperar que todas essas análises revelariam no final sua presença.

Mas não é preciso muita experiência para se convencer de que existe uma dualidade em seus impulsos orientadores: alguns são sem piedade pessoal, e parecem intensificar o egoísmo do indivíduo, e alguns mostram um espírito de altruísmo que irá sacrificar o “eu mesmo” [“Self”] por um ideal puro.

Existe alguma esperança de descobrir em ‘si mesmo’ [in ‘oneself’] um fator de estabilidade permanente, um “diretor de gestão” [“managing director”] de sua encarnação, consciente do seu objetivo e capaz de nos esclarecer a respeito da rota em direção a ele?

Isso nos traz de volta ao ponto inicial da nossa ansiedade original; mas em relação ao objeto de nossa busca nós fizemos um pequeno progresso: tivemos um vislumbre do real significado de consciência [consciousness] e da
sua imanência em todos os seres. Os animais são controlados por esta [imanência], mas o homem, quando a vida automática não o satisfaz, quer algo mais. Seu legítimo orgulho, como um candidato para reinos mais elevados, procura instintivamente por algum elemento de segurança [certainty] em si mesmo que pudesse colocar um fim ao duelo entre suas duas tendências contraditórias. Isto, infelizmente, é um sonho impossível na dualidade do mundo natural.
No entanto, o que é impossível para o homem “natural” é possível aquele que despertou em si a Testemunho Espiritual.

Pois, embora a sua presença não exclua aquela da Testemunha Permanente, ela [sua presença] é o meio para a promover evolução para a última [Testemunha Permanente], e, onde ela [Testemunha Permanente] predomina, o estado suprahumano pode ser alcançado; e pode-se então falar de uma consciência única, permanente e imortal [single consciousness, permanent and immortal], na qual a luta não é mais discórdia, mas simplesmente a experiência buscando através da escolha aumentar o Conhecimento [Knowledge].

Até que isso seja alcançado, temos de admitir nossa dualidade, e não sufocar a nossa ansiedade por uma aceitação covarde do nosso próprio automatismo. Afinal de contas, a causa da nossa ansiedade é a ignorância, e a incoerência da orientação que podemos dar a nós mesmos. E nenhuma teorização vai resolver a dificuldade.
Então, seguindo fielmente a via traçada, temos de eliminar toda a complexidade, fixar a nossa atenção sobre o coração do problema, e redescobrir a simplicidade de uma criança.

Tentemos por alguns momentos estabelecer algum tipo de mediação entre o “Eu”, “Você”, e “os Outros”.
Seja quem for que esteja falando ou ouvindo, o “Eu” [“I”] será aquele que fala, o “Você” [“You”] será aquele que ouve.
Não façamos nenhumas outras distinções, e tentemos estabelecer um meio de mediação.

Quando uma criança amamenta-se [suckles], o leite é a mediação.

Entre o céu que dá, e a flor que recebe, a luz é a mediação.

O mistério é a assimilação do que é recebido e absorvido.

Mas a criança não pensa do mistério, ela simplesmente mama [sucks], e a flor não pensa sobre o mistério, ela simplesmente abre-se, em qualquer hora que ela possa receber o que ela exige.

Isto é Sabedoria, sabedoria que conhece o gesto necessário para executar a função necessária no momento necessário.

Se não houver nenhuma oposição ou dissociação, então, gesto, função, e sabedoria são um em doador e receptor.

Uma criança tem esse Conhecimento inato enquanto ela não tenha deixado o Reino dos Céus.

Uma criança não está na excpectativa do reino dos céus; enquanto ela não tenha deixado o estado de inocência, o qual é não-diferenciação [nondifferentiation], ela está no Reino dos Céus.

Ao sair deste, ela dolorosamente terá que aprender a discriminação, o que fazer e o que não fazer, de fato, a difícil tarefa do homem com duas vontades que não podem distinguir entre as vozes das duas testemunhas quando elas sussurram-lhe conselhos contraditórios. Mas depois, é claro, as coisas serão mais simples; a Testemunha Permanente será a única que ele escuta.

Mas Você e Eu conhecemos este drama, e estamos cansados de nos submeter cegamente. Por isso, vamos tentar agora descobrir conscientemente a chave do reino que perdemos.

Vamos tentar ouvir, como uma criança ouve, àquela vibração nas profundezas do peito que corresponde à concepção de uma realidade. Vamos tentar, como uma criança tenta, até que “isso acontece.” Tentar é em si mesmo libertar-se da vontade presa-ao-hábito [habit-bound will], e ampliar o alcance dos próprios poderes intuitivos.

Ouça então, ouça incessantemente. Observe a flor abrir-se apenas quando ele precisa do sol. Observe o desejo dela. Observe isto em você mesmo que busca, a fim de descobrir quem o buscador é, e o que você procura. Observe o invisível, e, lentamente, sua visão interior se abrirá, assim como seus olhos se habituam a ver na escuridão.

Nossa resistência principal é o medo de ser enganado, de escapar do controle de nossas faculdades intelectuais. Mas pode-se responder a este que percepção-sensorial e raciocínio falso também podem causar delírios. Isso, no entanto, é parte do mundo você conhece, e sua verificação deve ser estudada em outros lugares. Por agora, queremos entreabrir uma porta para um mundo que você não sabia que existia dentro de você mesmo [within yourself]. Ela tem, por vezes, oscilado aberta um pouco sem o seu conhecimento, mas isso foi mais chocante do que aberto deliberadamente.

Conhecimento [Knowledge] não é aprender e arquivar em algum lugar nas noções do cérebro que desaparecerão quando as células do cérebro [neurônios] morrerem.
Conhecimento é abrir os olhos para a natureza de uma coisa como se fosse nascido nela, de modo que esta percepção desperta consciência [awareness] daquilo em nós mesmos que é análogo a ela.

Se eu me coloco em um estado de relaxamento físico e mental completo, se eu não tento acreditar ou professar conhecer, então eu posso ouvir em mim mesmo os sobretons [the overtones] (a conotação) daquilo que eu gostaria de saber, assim como uma harpa soa todos os sobretons [overtones]da nota que se toca.

A experiência tem demonstrado que o médico que em imaginação pode identificar-se com o seu paciente irá prescrever um tratamento eficaz, assim como o alpinista, o explorador, e o domador de leões podem evitar os perigos que eles sentiram aproximando-se e experimentaram na imaginação.
Mas, para chegar a essa condição conscientemente, deve-se deliberadamente abandonar as discussões infrutíferas causadas por uma variedade de doutrinas e opiniões; é preciso renunciar a controvérsia e brigas, e marchar pela estrela única que paira sobre o berço da criança.

E esta é a sua própria estrela, aquela da criança que dorme em você, à espera de seu despertar. Para descobrir a via direta, que é a sua própria e não a de uma outra outra pessoa, você deve estabelecer simples na mente, a cabeça e memória vazias, e o coração em fogo com desejo de abrir-se sem constrangimento [unconstraingedly]; e os olhos tão facilmente maravilhados como os de uma criança ignorante, para quem o mundo é novo.

Como uma criança, vocês eram arrebatados por excitações de emoção [thrills of emotion], por deleite no maravilhoso [delight in the marvelous]. Vocês não dissecavam o mundo como um corpo morto, ou anestesiavam a sua percepção em pequenos compartimentos estanques de materialismo e espiritualismo e monismo. Vocês se submetiam ao charme de lendas e mistérios, e eram felizes, em ser pequenos, para admirar potências superiores a si mesmo.

O que vocês ganharam por todo esse ceticismo suspeito?
São vocês tão grandes que a idéia do suprahumano parece impossível?
Ou estão vocês tão envergonhados de sua mediocridade que a noção de suprahumanidade lhes ofende?

Chega destas tergiversações! Se vocês estão satisfeitos com a vida, não peçam mais nada. Mas se vocês buscam a Luz, partamos juntos como peregrinos através da luz e sombra do mistério.

O que é o “mistério”? Você já olhou para ele em você mesmo? Estar diante de um espelho, e desvendar, se você puder, o mistério da sua imagem. Quem é esse olhando para você?
É esse você mesmo? Você mesmo, olhando para você mesmo? Não, esse é o reflexo, e os reflexos são um efeito de luz e sombra sobre algo que reflete a luz projetada sobre ele, ou melhor, que se projeta por parar a luz.

[Stand vefore a mirror, and unveil, if you can, the mystery of your image. Who is that looking at you? Is it yourself? Yourself, looking at your self? No, it is the reflection, and reflections are an effect of light and shadow on something which reflects the light projected on it, or rather, which projects itself by stopping the light.]

E o que é você mesmo? Luz? Sombra? Ou coisa?
De que luz você é a sombra? De que forças você é a forma?
Do que é você a projeção?

Observe o seu reflexo [reflection], e o contorno do seu corpo, que, aparentemente, delimita sua vida. Este, o corpo, é a coisa pela qual você faz tudo; por ele você deseja a sua vida diária, por ele você trabalha, por ele você ama, por ele você tem medo, e você luta para preservar a sua vida física, para satisfazer os seus sentidos, gostos e apetites.

Olhe para ele. Alguma vez lhe ele disse quem ele é?
Ou o que ele vai te dar por todos os seus problemas?
Pergunte a ele! Tente extorquir seus segredos daqueles olhos que expressam tão pouco da luta de uma alma que é a sua própria! Descubra o seu significado, se você puder.

“Quem é você, meu corpo, você tem um pequeno mundo ao seu serviço durante toda a vida? De onde vem tua forma, Ó forma responda-me! Você é eu [me], você deve saber de mim! E eu [me], quem sou Eu? Eu mesmo, ou Você ? É impossível! Se você fechar esses olhos meus, Eu ainda posso ver você, dentro de mim mesmo; mas você, o reflexo, não pode estar ciente de mim. Portanto há um eu mesmo, que sabe, e uma reflexo?”

[“Who are you, my body, you have a little world at your service all through life? Whence comes thy form, O Form Answer me! You are me, you must know me! And me, who am I? Myself, or You? It’s hopeless! If you shut those eyes of mine, I can still see you, within myself; but you, the reflection, cannot be aware of me. So there is a Myself, which knows, and a reflection?”]

Ouça agora. Em seu peito há algo em movimento.
Seus impulsos controlam o fluxo do seu sangue, o qual ele recebe de volta e envia sem descanso ou pausa, e ele tem estado a bater desde que existe; mas ele tem estado batendo sem o seu conhecimento. Ele bate a cada segundo de sua existência, mas que conhecimento sobre ele você tem?
Tente pará-lo. Você não pode, sua vontade não sabe nada sobre ele. Apenas a sua emoção pode acelerá-lo.

O quê! Um impulso imaterial age sobre um objeto físico?
Deixe o intelecto explicar isso!
Sem ser controlado por você, este seu coração bate o tempo da sua vida,
e, seja este rápido ou lento, o que você pode fazer sobre isso?

Este é o tempo [ritmo] da sua vida, seu ritmo, seu próprio;
todo mundo tem o seu próprio.

Que ritmo cósmico tem regulado este pêndulo?
Será que você sabe, Ó mais inteligente homem?
Quem obrigou você a ser o joguete deste mistério?

Talvez, então, você possa entender como o seu alimento se transforma em sua própria substância, sua e não a de um animal?

Ou como a matéria, quimicamente transformada por sua digestão, pode ser finalmente transmutada em uma viva substância personificada, de fato animada pela mesma energia que seu corpo?

Não adianta responder em termos químicos, pois a ciência deve parar aqui; em última análise ela só pode notar que a transmutação ocorre, sem explicar a última fase da mesma.

Nem pode ela explicar como a quantidade minúscula de matéria nutritiva que o corpo não elimina é suficiente para mantê-lo.

Em uma criança isso é ainda mais impressionante; tão grande é a desproporção que o seu crescimento, evidentemente, não pode ser explicado exceto pela recepção de alguma substância externa porém não material [nonmaterial]que incentiva a multiplicação das células e glóbulos. Este crescimento é um mistério real, do qual a explicação biológica é inadequada.

Mas o que é um mistério?

Podemos dizer que um mistério é a manifestação de uma lei causal que não pode ser penetrada por nossas faculdades sensoriais ou racionais. Mas essa definição não sugere a sensação de santidade em um mistério. Para entender que há mistérios no sentido sagrado da palavra, é preciso perceber que vivemos em um mundo de aparências, e que, neste mundo, como em um espelho, a imagem é um reflexo invertido da realidade.

A imagem pertence ao mundo da forma, através do qual nós nos movemos com nossos corpos, pensamentos e sentidos.
A realidade é o mundo dos movimentos do Espírito, e nós vivemos neste também, mas sem saber.

A arte da pintura, como ensinado na China, começa com este axioma:
“O movimento da vida é criado pelas revoluções do Espírito. Se este princípio não tiver sido seu desde o nascimento, você não pode esperar aprendê-lo.”

Isso pode parecer duro, mas não mais do que São Paulo sustentando que “Cristo foi oferecido uma vez para tirar os pecados de muitos” (Hebreus 9:28). Ou os Evangelhos: “O Filho do Homem veio para dar sua vida em resgate por muitos” (Mc 10:45). E mais adiante: “Este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado por muitos” (Marcos 14:24).
E o Cristo diz: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo” (João 17: 9).
E ainda: “A vós é dado conhecer o mistério do Reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas são feitas em parábolas: para que vendo, eles vejam, e não percebam; e ouvindo, eles ouçam, e não entendam; de outro modo, poderiam converter-se, e seus pecados serem perdoados” (Marcos 4: 11-12).

Em linguagem mais clara e moderna, poderíamos dizer:
Se o mistério só pode ser percebido pelos eleitos, isto é, por indivíduos que tiveram desde o nascimento a faculdade de perceber “as revoluções do Espírito que criam o movimento da vida,” como você pode esperar que este seja compreendido pelo público, e especialmente por pessoas que são inteligentes demais para aceitar qualquer percepção diferente de seus sentidos materiais e sua razão?

Devemos concluir que a percepção do mundo das causas está sempre fechada para a humanidade?? Por meios meramente humanos, está. Mas todos os verdadeiros iniciadores vieram à Terra para indicar expressamente os meios sobre-humanos [superhuman].
E quer o mundo das causas seja chamado de “Tao” ou de “O Reino do Céu,” os meios essenciais para alcançá-lo são os mesmos: simplicidade de coração e mente.

.

 

 

                                          10

               O Discernimento do Discernimento

A palavra “discernimento” será usada aqui para significar o poder de discriminar entre a realidade percebida e a possibilidade de que a percepção pode ser ilusória.
Discernimento não é o mesmo que fé, porque fé pode ser uma criação pessoal, mental ou emocional, mas discernimento é um reconhecimento absolutamente certo da realidade ou verdade de algo, e é adquirido pela consciência superior [higher consciousness].

Toda segurança [certainty] é o resultado de uma experiência. Se a experiência vem através dos sentidos, das emoções, ou do intelecto, então, a certeza não é mais que relativa;
ela está acima de dúvida somente quando ela é o fruto de uma genuína experiência espiritual de identificação.

Identificação é a união de uma parte do ser com o objeto contemplado, independente se esse objeto está ou não no campo da percepção sensorial.

Verdadeira identificação é comunhão entre o perceptor e o percebido, e esta comunhão não permite a intromissão de quaisquer noções estrangeiras para a realidade do objeto contemplado. Ela exige, consequentemente, a exclusão de todas as noções ou impressões decorrentes da personalidade daquele que percebe, pois estas podem corromper a integridade de sua percepção; isto é, ela exige neutralidade absoluta, quer esta seja obtida acidentalmente por um momento ou por controle perfeito.

Perfeito controle de nossas faculdades mentais, mantendo-as estáveis e reduzindo-as ao papel de um observador absolutamente neutro, torna a identificação possível, e identificação consciente obtida nessas condições eleva-se a um certo conhecimento [knowledge]. `

Identificação também pode acontecer acidentalmente através de momentâneo vazio [emptiness] da mente; mas, nesse caso, esta é sem o controle consciente que coordena as percepções espirituais, e é, portanto, uma identificação inconsciente.
A maioria das percepções intuitivas são dessa ordem e não podem ter o valor de certezas por falta de “discernimento” necessário; elas permanecem probabilidades que devem ser avaliadas mais e mais intimamente por um processo de verificação estritamente purificado de preconceito pessoal.

A possibilidade de distinguir sem erro entre a certeza e a mera probabilidade de uma experiência de identificação pode ser chamada de
“o discernimento de discernimento.” [“the descernment of discernment”]

O valor de um clarão [flash] de discernimento não pode ser medida em tempo; é um momento de sabedoria, de conhecimento verdadeiro. Um sábio pode desfrutar de tais momentos mais ou menos frequentemente, mas eles nunca são contínuos enquanto ele é obrigado a submeter-se aos acidentes e relativismo da vida na terra.

O discernimento de um verdadeiro discernimento exige no homem que o pratica um conhecimento experimental de seus próprios estados diferentes de consciência e do valor da evidência que eles lhe oferecem. Somente em tal caso pode o nosso discernimento ter o valor de realidade e, assim, permitir-nos encontrar nossas respostas em nós mesmos.

.

 

 

                                                11

                                          O Milieu
[O Meio]

 

Para a gênese de qualquer coisa, a primeira necessidade é a formação de um meio [milieu] adequado.

Isto é provocado pela influência espiritual. Pois, se você não tem em si mesmo a Vontade rumo a Luz [Will to the Light], você é como um ímã [magnet] que perdeu o seu magnetismo, ou um pássaro que perdeu suas asas, incapaz de se mover e obrigado a submeter-se passivamente às leis de seu ambiente.

Se você deseja libertação, você deve se tornar seu próprio “meio” [“milieu”] e gerar [bring forth] a sua própria Luz, completando o seu ciclo em si mesmo.

Mas este ciclo deve genuinamente corresponder a seu destino inicial. Se você quiser gerar a Luz divina da Sabedoria [divine Light of Wisdom], não provenha para ela o ambiente instável de sua personalidade desajustada. E se acautele de que poderes você atrai por seus desejos e orações!

Como são poucos aqueles que podem sacar o poder divino direta e simplesmente, sem fórmulas e nomes, “em espírito e em verdade.” Eles são os verdadeiros “pobres de espírito” que desejam “na Verdade” [“in Truth”], e deles é o único desejo que merece ser assim chamado, pois anseia apenas por Isso, vive para Isso, une si mesmo a Isso, tal como uma flor bebe a sua vida a partir da luz; pois este Desejo é nelas uma necessidade vital, e a necessidade é aquela de sua própria centelha divina [divine spark] exigindo o seu sustento.

Para tais, o Reino dos Céus está de fato dentro deles porque eles estão nele; pois aquilo que não é separado é um, e este Desejo é não-separação [nonseparation].

As obstruções a este Desejo são todas aquelas coisas que os homens chamam de desejos. Os desejos do mundano [earthly] estão ligados a tudo o que não é Aquilo, porque Aquilo o Espírito parece-lhes o Vazio [the Void]; e os homens temem o Vazio [Void]. Assim, para escapar a ele, eles escutam todos os seus desejos, e estes desejos não são o Desejo [Desire], mas apenas anelos [wishes] (que são mentais) ou então afinidades criadas pela necessidade de encontrar um complemento.
Assim é o trabalho da Natureza contínuo; e este é o Reino da Terra.

Muitos são aqueles que projetam suas imaginações fora de si mesmos e criam deuses “à sua imagem e semelhança.” Os poderes que eles adoram são aqueles que podem conceder-lhes todas as bênçãos que eles anseiam neste mundo e no próximo. Eles são respondidos pela palavra de Cristo: “Vós não sabeis o que pedis” (Marcos 10:38).

O desejo deles é por um ídolo para protegê-los e favorecê-los, ou então por um ser divino que possa ser amado possessivamente. Mas paraísos, como deuses, são feitos por homens de acordo com os seus desejos, e sua desgraça [misfortune] (infortúnio) será que muitas vezes eles vão encontrar o que eles imaginaram. Mas o que podemos imaginar não é nenhuma parte do Divino inexprimível.

Um desejo onipotente é aquele que anima as próprias células do seu ser e o torna capaz de apreender e compreender o objeto de sua afinidade. Tal desejo tem poder mágico, e, como o aprendiz de feiticeiro, o homem usa-o imprudentemente. Pois o deus, ou poder, que lhe responde é da mesma natureza que o seu desejo. Um indivíduo avaro (pão-duro) [money-grabber] invoca os poderes do dinheiro, o alpinista social os poderes da ordem social, e o pensador invoca poderes intelectuais. Assim, o buscador [seeker] é governado e restringido por sua afinidade. Este é o seu inferno, ou purgatório, no qual ele já está confinado na vida presente.

Quanto aos então-chamados “desejos espirituais”, a potência do “Desejo” [the potency of “the Desire”] não devem ser confundidos com esses desejos anêmicos por espiritualidade, ou anseios emocionais em direção a algum Deus ou outro que é esperado para retribuir, para mostrar boas intenções, e para fornecer todos os efeitos cênicos que embalam os piedosos em uma ilusão de bem-aventurança.

O que Eu ganho se Eu enganar a mim mesmo? Somente o meu ser mortal pode ser enganado. Quando o ilusório desaparece, a realidade aparece. A experiência necessária é reconhecer o real no meio do mundo de ilusão.

Para fazer isso Eu tenho que limpar o meu próprio chão, eliminar tudo o que não é o meu verdadeiro eu [true self], e criar em mim mesmo o meio [milieu] que pode atrair o Espírito.

Somente o Eu imortal [immortal Self] pode eliminar desejos pessoais e assim servir ao verdadeiro Desejo único, o desejo do Eterno. E, então, a Testemunha Permanente irá submeter-se, sem reservas, à supremacia da Testemunha Espiritual.

O Meio [Milieu] é aquele em que os opostos complementares se encontram e são ajustados juntos. Os Meios (as Maneiras) [the Means] é o que os traz juntos [brings them together] (o que os une).

E esses Meios (Maneiras) [Means], essa possibilidade de concórdia, é o conhecimento de como criar um meio harmonioso [harmonious milieu].

Todo meio [milieu] que é puro, e maduro para receber sementes, irá facilmente carregar o fruto de seu próprio rei. Pureza, no entanto, não consiste na ausência de sujeira, física ou moral, como o mundo pensa erroneamente. A pureza de uma coisa é a sua homogeneidade, de acordo com seu próprio tipo particular. Um homem é perfeitamente puro em qualquer momento em que ele é totalmente identificado com o caráter cósmico do seu ser. Um escorpião também pode ser perfeitamente puro, e o é, na medida em que é perfeitamente fiel à sua natureza. Qualquer concessão que enfraquece o ritmo essencial de um ser coloca-o em uma condição heterogênea e, portanto, impura. Pois, como Hipócrates disse, “o homogêneo vai se juntar com o homogêneo, mas o heterogêneo luta, resiste, e separa.”
Assim, qualquer mistura de sangue, ou de tendências divergentes, cria um campo de batalha. E, igualmente, a criação forçada de um meio [milieu] para algum ideal arbitrário, ou para qualidades estranhas à sua natureza, só pode dar à luz a monstros e ser uma fonte de conflito desnecessário.

Para o fruto ser saudável [to be sound], o ambiente [milieu] deve estar em harmonia com a natureza da semente.

Assim, para a criação de um tal meio [milieu] em si próprio, o primeiro requisito é o conhecimento de todas as tendências mais profundas do próprio ser real.

A segunda condição é despertar e reeducar as percepções internas.

O terceiro é cultivar e intensificar a Vontade rumo a Luz [the Will to the Light].

.


BUSCANDO TENDÊNCIAS

Se, na luz reveladora de algum momento de cataclismo, você encontrasse o seu duplo, não vestido com seus alegres trapos mundanos, não armado com aquele escudo de desculpas que a hipocrisia convencional usa para cobrir nossos desejos secretos, mas em toda sua nudez moral, mostrando suas tendências e impulsos, sua destreza impiedosa e sua covardia, você tem certeza de que o reconheceria?

Quantos sábios existem nesta terra que poderiam e calmamente chamariam por seus nomes reais os motivos secretos de suas ações? Isso, no entanto, seria a maior vitória que um homem poderia ganhar sobre si mesmo, e a primeira prova de seu domínio, uma visão clara de todas as tendências que governam seu ser interior.

Se você quiser desfrutar da simpatia da multidão, se você quiser que as pessoas normais façam desculpas para você, não entre no labirinto para o qual essa busca destemida o levará. Permaneça na sombra disfarçadora, onde a mediocridade reconfortante desce e encobre qualquer verdade que ameace mostrar seu rosto e, para desencorajar inquéritos, cobre-a com um rótulo bem conhecido. Pois, possivelmente, a revelação de seu mundo secreto pode confundir sua calma aceitação das opiniões, valores e preconceitos que governam sua vida ordinária. Mas se seu objetivo é alcançar a Maestria e o Conhecimento, então ilumine um dia de sua vida com a luz fria do julgamento impessoal; Observe os pontos mais finos de todos os seus impulsos, escave sem piedade e sem desculpas, até que você descubra suas raízes e origens. Você será surpreendido, às vezes, ao reconhecer a assinatura de seus ancestrais em determinados modos atávicos do comportamento, aprendidos ou herdados de sua família. Outros impulsos, aos quais você deu valor moral sem examinar seu direito a ele, serão mostrados como meros reflexos habituais da mente ou da emoção, impressionados sobre você pela educação ou pela sugestão diária de suas circunstâncias religiosas e sociais.

Ambas estas classes de impulso são estranhas a você, e impedem que sua verdadeira natureza se manifeste. Uma terceira classe é sua própria; Observe-a, porém, mas não a julgue! Ela consiste de impulsos apaixonados, marcas de sua natureza mais profunda, que podem revelar-lhe por suas analogias com as mesmas forças na Natureza (nos planetas, animais, plantas, e metais) as características do seu verdadeiro Ser e ajudá-lo a identificar-se com este.

Vamos começar juntos sobre esta introspecção. As tendências atávicas que são a assinatura de uma família ou de uma raça são o ritmo ou tipo impresso pelo contágio, e como por uma espécie de imitação, em todas as células do corpo e em todos os corpúsculos do sangue; E o sangue, como veículo dessa alma animal, transfunde suas características e tendências superficiais de geração em geração até serem apagadas por novas impressões. Este efeito será o mais profundo, quanto mais estreito for o círculo em que a família ou raça esteja vivendo. As conformações de caráter familiar, embora possam ser trazidas à luz ou ocultadas por relacionamentos com o mundo exterior, foram enraizadas por gerações sucessivas e não podem ser removidas exceto pelo tempo ou ruptura violenta.

Os Emigrantes, transplantados para uma raça e tradições radicalmente diferentes da sua própria, muitas vezes demonstram maior flexibilidade de hábito e julgamento, e são muitas vezes mais prontos para a aceitação de novas idéias.

Quem olha com indulgência o temperamento violento que herdou ou sorri para reconhecer em seu espelho algum gesto familiar em seu avô ou pai, deve tentar romper essas cadeias de servidão e dar atenção ao grande objeto de sua jornada. Para a grande massa de seres humanos, a família, o país e a denominação religiosa são um refúgio indispensável. Mas para aqueles que desejam tomar o caminho estreito e alcançar as mais altas possibilidades humanas, o Evangelho mostrou a exigência incondicional: “Se alguém vem a Mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser Meu discípulo” (Lucas 14:26).
A palavra “odiar” [“hate”] não significa, no Evangelho do Amor, aquela fúria que envenena a sociedade moderna, mas sim a exclusividade que dá precedência à conquista da Realidade, contra todos os outros deveres e relações sociais.

Aqui, novamente, a escolha deve ser feita de todo o coração. Se você ainda está ligado aos grilhões da memória, se você ainda é controlado pelo instinto para continuação na terra, então é melhor você aceitar submissamente os deveres do seu mundo escolhido, suportar seus costumes e tradições até mesmo em excesso, e observá-los tão intensamente e tão conscientemente que, em contraste, o seu “senso da eternidade” será despertado e irá convocá-lo para o dever mais sagrado da busca individual. Mas se este desejo pela Realidade predomina em você, então siga os mandamentos de libertação; Abandone tudo o que o passado escreveu em sua substância: procure seu verdadeiro Nome; Separe-se da alma-de-grupo de qualquer grupo; E aprenda que você pode servir os seus companheiros de viagem de forma mais eficaz, tornando-se, você mesmo, um sol que brilha com a sua própria luz, em vez de ajudá-los a arrastar as antigas cadeias de escravidão.

O mesmo se aplica às tendências gravadas em suas células pela educação que vocês foram obrigados a sofrer. Desde que sua vida começou, todos os seus reflexos intelectuais, toda sua maneira de julgar as coisas e de expressar seus sentimentos foram esculpidos e moldados pelas vontades dos outros e inibiram o desenvolvimento de sua consciência individual. Agora você pode livrá-los deste peso morto, derrubar o muro de proibições e preconceitos que impediram que você faça suas próprias descobertas.

O que você sabe do Bem e do Mal?
Seu valor relativo varia de uma raça ou clima para outro; E seu valor absoluto você só pode aprender identificando-se com a Fonte de todas as coisas. Mas, para fazer isso, você deve abandonar todas as opiniões preconcebidas, todos os julgamentos ditados pela conveniência, todas as convenções necessárias à vida social.

Muitos dos então-chamados pecados dificilmente pesam como tais na balança cósmica; Mas muitos atos ostensivamente inocentes colocarão sobre vocês um pesado fardo de carma.

Considerando que você incorre em uma dívida para com qualquer um que você prejudique pela recusa de cumprir um dever reconhecido; Considerando que você é responsável quando você quebra as leis da ordem social; Considerando também que você tem deveres para com sua família, mas apenas na medida em que você os aceitou livremente e, por isso, as obrigações de casamento e paternidade são mais vinculativas do que aquelas de deveres filiais ou fraternais.

Mas um dever de interesse geral será sempre mais importante do que outros, e o primeiro de todos é o dever de fazer crescimento espiritual; Pois uma sábia ação de um homem de percepção [man of insight] pode fazer mais pela humanidade do que toda uma vida de virtude convencional.
Quem quer que dê o seu livre consentimento para ser membro de um grupo é obrigado a aceitar as suas regras e sanções terrenas. Mas nenhum grupo, nem mesmo um grupo religioso, pode ter o direito de frustrar a evolução de um indivíduo, quer seja por invalidação de sua consciência ou por professar substituir sobre o julgamento de seu próprio Destino verdadeiro a sua própria condenação “eterna”, ou por conceder um perdão que, na ausência de verdadeira contrição, é ineficaz.

Para a conquista do reino suprahumano existem certas exigências inexoráveis, e não podem haver desculpas, nem concessões sentimentais aos valores relativos do mundo meramente humano. Pois, como disse o Cristo: “Eu não oro pelo mundo” (João 17: 9).
Assim, o dever pode assumir formas estranhas quando o seu motivo é a busca sublime da Luz, por exemplo, a obrigação de certas dinastias Chinesas de destruir as obras de seus predecessores, a fim de reconstruir com um novo espírito. Assim também certas escolas de arte revolucionárias, e as tendências destrutivas de tais noções de “revolução permanente”, mal expressas hoje por teorias sociais baseadas em intuições pervertidas. Tudo isso testemunha esse desejo de se destruir valores impermanentes e no choque do vazio descobrir a verdadeira Luz.

É, naturalmente, imprudente confiar aos sonâmbulos [unawakened] meios de destruição que só o sábio deve exercer. No entanto, nenhum dos eleitos encontrará seu “reino” senão pela destruição impiedosa de tudo o que não faz parte da vida indestrutível de seu próprio ser. E este só pode ser a Consciência desenvolvida nele pela experiência da vida.

A obediência cega é para o rebanho, e a mediocridade é seu refúgio. Uma ousadia que aceita sua responsabilidade é a virtude do conquistador que encontraria as chaves de seu reino.

Feliz é aquele que ousa destruir os fantasmas de seu passado a fim encontrar sua própria semelhança eterna. Três vezes feliz aquele que está enamorado pelo vazio, que não teme mergulhar no abismo onde a fé criativa não pode perder nada além de sua sombra, e a Alma Viva [não pode perder] nada além de seu fantasma morto. Você que não deseja morrer com seu corpo, corte e lance no fogo, de entre seus hábitos e idéias, tudo o que pode ser destruído. O indestrutível se revelará de si mesmo. Suas tendências profundas, suas tendências apaixonadas, são forças tirânicas ligadas ao seu destino assim como a necessidade de cantar está ligada à garganta de um rouxinol. Suas necessidades são forças elementares nascidas da necessidade para um órgão físico desempenhar sua função.

O estômago vive para comer, e para fazer isso ele forma sucos que atacam sua comida; Mas se o alimento falhar, estes ácidos atacam a sua própria substância, e cria um sentimento de dor, que é um grito de socorro. A dor torna-se uma sensação de necessidade tirânica e obriga o animal a matar para satisfazê-la. Das bactérias (a forma mais primitiva do estômago) até o animal humano, esse impulso se expressa cada vez mais perfeitamente; Mas, quer este ensine emboscada à aranha, ousadia à raposa, ou violência ao carnívoro, ainda é a mesma obediência a uma necessidade elementar.

Em um ser orgânico cada função vital é a expressão de uma necessidade correspondente; Mas as diferentes necessidades se expressam com diferentes ritmos, de maneira sutil ou grosseira, de acordo com o estágio de evolução do indivíduo e da espécie. No leão, a voracidade é retida por alguns momentos pelo orgulho de conquista, e no gato, pelo seu amor ao jogo. Onde a delicadeza da percepção vai de mãos dadas com o desenvolvimento da consciência, seus modos de expressão podem ser distinguidos pelas sete qualidades que são as assinaturas dos sete planetas; E estes sete modos são eles próprios derivados de combinações das quatro qualidades fundamentais: Quente, Fria, Húmida e Seca. Os “humores” do corpo animal (sangue, linfa, bílis e atrabile) são a materialização dessas qualidades, e sua proporção determina o temperamento físico de cada indivíduo; Ou seja, controla a expressão de seus instintos e influencia suas reações psicológicas: o tipo bilioso é colérico; O linfático, preguiçoso; O sanguíneo, impaciente [eager]; E o atrabillioso, ansioso. Mas esses temperamentos só modificam, por sua cor e intensidade, as paixões próprias de toda a vida animal. Obviamente, portanto, as tendências passionais, sendo forças elementares da Natureza, não podem ser suprimidas por um ato de vontade. Mesmo o engenheiro mais habilidoso não pode impedir que um fluxo subterrâneo flua; Ele pode selar a fonte, mas isso só desviará o seu curso, e ela irá atingir a superfície novamente através da primeira fissura que encontrar. A paixão deve ser classificada com os instintos, mas a Consciência pode usá-la como um instrumento na luta em direção á Luz.

 

.

 

 

                                                 12

                                   A Visita à Caverna

 

Havia um homem que tinha tudo o que a aprendizagem, o amor, e a riqueza podem dar, e ainda assim uma ansiedade cruciante incomodava seu coração insatisfeito.
Ele procurou alívio em viagens, mas parecia apenas andar em círculos em torno de sua ansiedade, e cada estágio levava de volta ao seu infeliz ponto de partida.
Ele escalou os picos das montanhas, mas só encontrou perigo neles e nenhuma fuga. Ele chorou, enquanto cruzava os desertos nevados e os encontrou vazios de vida: “Onde está o Espírito?”
Ele atravessou os mares e observou o oceano consumir-se na praia, mas nada lhe revelou o mistério de seu fluxo.
O céu estrelado dos Magos [Magi] Caldeus o lançou num paroxismo de cálculos desesperados. As areias do deserto agravaram sua febre, pois ele não tinha entendido sua voz e não podia suportar o silêncio.
Finalmente ele voltou para o seu país, tão insatisfeito quanto tinha partido.
Numa noite de primavera, ele estava vagando sem rumo em um velho bosque de carvalhos e, enquanto parou, cansado de tudo, sonhando ao lado de um tronco quebrado, lembrou-se de uma caverna profunda onde morava um velho e sábio eremita. Ele a encontrou, toda cinza de fumaça, e entrando, viu um velho que o mandou sentar-se diante de um fogo de madeira seca.

Ele disse ao velho: ‎ – “Eu estive em todo o mundo, mas não encontrei ‘a resposta.’
“O que está procurando?”

‎–  ‘A Verdade. ”

“Você não pode ler?”

‎–  “Eu estudei todas as filosofias.”

“O que é que livros tem a ver com a Verdade?”

‎–  “O que mais há para se ler? ”

“Você é cego?” Perguntou o eremita. “Se você não pode ler a verdade que é a assinatura da Natureza no céu e na terra e em seu corpo, como é que você pode esperar descobrir seus segredos nos escritos dos homens?”

‎”O que é a Verdade?”, Disse o homem.

“Aquilo que é.”

“Como um homem pode saber isso?”

“Conhecendo a Natureza e a si mesmo.

‎– “Conheço-me muito bem.”

“O que é que você sabe de si mesmo?”

“Eu conheço meus vícios e virtudes, meus gostos e desgostos, minha vontade.”

“É tudo isso você mesmo? “Você confunde a multidão com o indivíduo.”

‎–  “Então quem sou eu?”

“Ninguém pode dizer a você, exceto a sua própria consciência. Quando você explorou o exterior da terra, você não encontrou nada. Tente explorar o interior do seu mundo. Você ficará surpreso.”

‎–  “Eu não sei como. – Você pode me guiar?”

“Tudo o que posso fazer”  ‎–  respondeu o sábio ‎–  “é afastar as nuvens, e isso só se você quiser.”

O eremita veio e sentou-se em frente ao buscador. Após um silêncio ele disse: “Reflita a si mesmo” [“Reflect yourself”].

O homem olhou para os olhos do eremita e observou sua imagem, e disse ao sábio: ‎–  “Eu vejo o Outro. Ele está examinando seus pensamentos atentamente, elaborando uma lista de perguntas inteligentes para descobrir seus segredos … . Não, esse não sou eu! Isso não é o que eu quero.”

“Como você sabe? Ainda assim, não importa, continue olhando. O que ele está fazendo agora?”

“Fórmulas mágicas! Ele está invocando poder, ele quer controlar os homens, obrigar o amor, está forjando sua vontade como o aço para vingar uma injúria. É terrível, ele quer. . .”

“Deixe-o! Sua vontade voltará sobre sua própria cabeça.”

“Detenha-o!” ‎–  exclamou o homem. ‎– “Ele enlouquecerá!”

“Eu não posso, só você pode renunciar a esses ‘poderes’ malditos.” Você realmente quer?”

‎–  “Eu renuncio a eles.”

O eremita apagou a visão com um gesto.

“Se eu posso apagá-lo”, disse ele, “isso significa que esse não é você mesmo. Agora procure em si mesmo.” E colocou os dedos nas têmporas do homem.

“Aqui está eu mesmo … meus pensamentos.”

“De fato?” O eremita sorriu.

O homem ponderou por um momento, com os olhos fechados. “Não”, ele concluiu, “eu estava errado, eles são apenas uma multidão, um fandango louco de idéias confusas, um seguindo outro descontroladamente. Quando um se derrete, outros chegam, um sugere outro, eles são transpostos, multiplicados, divididos. Eu não posso segui-los, é uma corrida maluca!”
Irritado, o buscador se tornou envolvido no jogo; ele viu-se face a face com a confusão e tentando em vão parar seu curso. Idéias iam e vinham em todas as direções, crenças lutavam juntas, dúvidas o puxavam, todo tipo de opiniões lhe eram imputadas, tentando subjugá-lo. Ele fez um grande esforço, tentou lutar por um caminho, empurrou-los na esperança de lançar um olhar para trás, mas outros continuavam acudindo.
“Pare!” ele chorou. – “Isso é pura confusão!”

O eremita fez um gesto, e os movimentos se tornaram mais lentos, e como em um filme em câmera lenta foram vistos detalhes que antes tinham passado despercebidos. As complicações intrincadas tornaram-se mais claras, e revelaram a cadeia de sua causação.

O buscador ficou surpreso. Todas as suas idéias inteligentes pareciam estranhamente falhas. O que ele chamara de “lógico” foi de repente demolido por uma consequência imprevista. Ele viu que cordas intricadas levaram a um ato que ele pensara espontâneo. Ele podia seguir seus pensamentos de volta às suas origens, e ficou espantado com sua diversidade. O que? Todas essas inspirações, que ele julgara próprias, vinham-lhe de fora?
Sua realização profissional mostrou-se como um grupo compacto de noções estranhas. Sua idéia mais soberba tinha vindo de um rival! Outras [idéias], em longas cadeias entrelaçadas, tinham vindo de sua tradição familiar.
Mas a maioria tinha sido arrebatada de passagem a partir de mil outras influências, e arduamente trabalhadas com extravagâncias da leitura e de seus estudos pessoais.
Como ele poderia afirmar ser o pai de tudo isso?
– “Quanto tempo esta dança horrível continuará?” – exclamou ele.

“Até a morte do seu cérebro.”

– O que restará depois disso?”

“Vagas formas flutuantes tais como você vê, sem objetivo ou ordem.”

– “O que acontecerá com essas formas?”

“Elas se tornarão propriedade de outros cérebros, que elas tocarão despercebidos.”

– “Mas o que vou obter de tudo isso?”

“Nada, porque seu instrumento não existirá mais.”

– “Não estou perdendo muito, estou? ele suspirou. “Tão pouco disso era eu! Mas então onde está o meu Eu?”

“Você deve continuar a busca.”

O eremita tocou o plexo solar do homem. Ele estremeceu, e ondas de emoção o varreram como uma maré crescente. Esperança, amor, e maldade fluíam sobre ele, tal como os conhecera há muito tempo, e ele tremia.

– “Eu conheço todos esses,” – exclamou ele. “Por que você os traz de volta?”
Mas ansiosamente ele os vivia novamente, tentando em vão captar as idéias que amava e afastar os sofrimentos que eram muito intensos. Cansadamente ele tentou expurgá-los, mas eles apenas mudavam, e eram substituídos por outros mais velhos; Como um filme mostrado de trás pra frente, memórias inundaram, invertendo o curso do tempo. Ele as observou sem compreender. Nas aventuras apaixonadas em que sua reflexão estava envolvida, ele não sentia nenhuma emoção; inteiramente imperturbado ele observou-a afundando em desespero ou subindo a paroxismos de alegria; no máximo, um sorriso indulgente por um ou dois excessos. Ele ficou espantado com as ondas de felicidade que tinham enchido certas cenas, e rejeitou as tempestades de raiva que já não pareciam ter qualquer significado.

E onde estava ele mesmo, o Eu de hoje, nesta longa história sobre o passado? Aquilo nele que ainda podia responder a esses ecos tinha agora vibrações tão diferentes! Havia ali, em todas essas ondas de movimento, apenas algumas que compunham sua própria harmonia verdadeira? Se sim, como poderia reconhecê-las?

O eremita, respondendo a seu pensamento secreto, disse: “Para saber isso, você deve explorar ainda mais.”
E ele colocou sua mão na parte de trás do pescoço do buscador.
Por um momento o homem ficou em silêncio, então um violento tremor o atravessou, e o sangue avermelhou seu rosto.

Revoltado, ele exclamou: “Que tenho eu a ver com esses horrores, rejeitei todas essas obsessões, não me preocupam!”

“Se você foi libertado deles, por que eles o incomodam?”

O homem tremeu, tentando em vão escapar do que tinha sido evocado; Mas gradualmente e apesar de si mesmo, ofegando e suando, ele sucumbiu ao seu aperto. Imagens ardentes fluíam sobre ele, insensatez sensual brincava com tentações e perversões tortuosas, enquanto a raiva possessiva confundia erotismo vívido com sadismo grosseiro. Este era o sabbath das bruxas dos seus sonhos.

O eremita deixou a tempestade morrer e o homem perguntou: – “Eu vim em busca da paz, por que você despertou meus demônios?”

“Você veio em busca da Verdade, a Paz é o seu fruto, devemos primeiro reativar suas raízes mais profundas.”

– “Estão elas enterradas naquela multidão?”

“O vício vem de um desvio das tendências naturais de seu ser. Ele funciona como oposição ao seu verdadeiro destino.”

‎– “Deve-se permitir que essas oposições se tornem fortes?”

“É indispensável para a ampliação da consciência que você as reconheça como tais.”

‎– “É a consciência encontrada no monturo?” ‎– perguntou o homem com um sorriso amargo.

“Isso é mais verdadeiro do que você pensa! As forças contraditórias mostram sua verdadeira natureza quando entram em conflito: a qualidade específica encarnada em você será revelada pelo choque do contraste. Por exemplo, a natureza Marciana, feita toda de violência, será facilmente escravizada por Vênus. A Venusiana, em busca da beleza, mergulhará na sujeira para aumentar sua consciência da beleza.

O tipo Solar, que é dominador, pode ser um masoquista. E o Saturniano, que ama a solidão e o mistério, muitas vezes procura seu complemento no exibicionismo.”

“Poderia o Espírito renascer no homem sem esses problemas?”

“Antes da ressurreição vem a descida ao inferno.”

– “Onde está o inferno? Você sabe?”

“Nas entranhas da terra de seu corpo! Mas o seu fogo é também o que causa a ressurreição!”

“Como pode o mesmo princípio produzir efeitos opostos?”

“Quando sua alma se encarnou na matéria, ela se casou com a vileza da matéria; ela só pode libertar-se sutilizando o que se tornou ligado à esta [matéria] por atração.”

– “Isso não responde à minha pergunta.”

“Porque você não consegue ver o duplo movimento da vida. A separação resultou da necessidade de se ver refletido; A Atração é o resultado da necessidade de reunificação. Mas a reunificação não pode acontecer até que cada complemento tenha se tornado perfeitamente si mesmo. E como isso poderia ser realizado senão pelo reconhecimento de todas as suas tendências?”

– “Então a regeneração só é possível através do mergulho em toda essa imundície?”

“Eu não disse isso! Nenhum sábio aconselharia um homem a pôr em prática toda a imundície que ele encontra em si mesmo. Mas nenhuma realização é possível se você apagar a luz por medo de ladrões e fogo. O único caminho, e você deve encará-lo, é deixar que todas as suas impressões subam à superfície, com todos os seus impulsos e estímulos, e lá observá-las sem dizer-se mentiras sobre elas, e assim aprender a jogar sobre seus contrastes, a fim de despertar sua consciência de sua tendência cósmica , Que é fonte principal [mainspring] delas.

O homem ponderou, e perguntou: “Brincar com fogo, não é?”

“É o fogo mais seguro escondido debaixo de suas cinzas? Certamente você não é mais a vítima dessas obsessões?”

– “Não . . . a menos que seja em sonhos.”

“Seus sonhos são o espelho de sua realidade. Quando você escapa no sono da prisão de seu intelecto, então seus instintos mostram-se em suas cores verdadeiras e provam que a força que você pensou extinta estava apenas mantida em cheque”.

O buscador comentou com raiva: – “Tão pouco bem eu vi conforme andava pelo mundo, e tanto mal, que eu condenava qualquer pecado que ofendesse minha dignidade!”

O eremita sorriu. “Vós sereis julgados pelo que julgardes, e condenados pelo que condenardes”.

– “Eu não entendo.”

“Que, para alguém, é pecado aquilo que ela julga ser um pecado. Assim, sem o saber, você faz sua própria lei, a seu próprio risco e perigo.”

– “Mas isso é perfeitamente amoral! Muito melhor se recusar a reconhecer o mal absolutamente!”

“Sua conclusão é errada, o objetivo, lembre-se, é alcançar o conhecimento do princípio essencial por trás do Bem e do Mal, e depois entender como ele se relaciona com a experiência de cada indivíduo”.

– “O que é a Lei então?”

“Aprender a conhecer a si mesmo, à profundidade de seus instintos mais profundos. Assim como um domador de leões experimenta um animal até que ele conheça todos os seus truques, assim você deve enfrentar seus reflexos mais escondidos, e então, fazer o que sua consciência recém-desenvolvida vai deixar você fazer.”

– “Essa lei parece muito flexível, e muito arbitrária.”

“É mais rígido do que você pode imaginar. Percepção de perigo é o melhor dos guias.”

– “E se eu cair no caminho?”

“Eu não aconselho você a pôr em prática todos os seus instintos, mas apenas para descobri-los e reconhecê-los.
O que mais você poderia ter para temer além do que você tem agora? Hoje, sua alma é uma selva, muito inexplorada. Você deve lançar luz em todos os seus cantos escuros, procurar todas as suas perigosas bestas e répteis, aquela coleção heterogênea que você ainda esconde atrás da pequena palavra “Eu”. Aprenda a reconhecê-los pelos seus apetites, para tomar consciência de seus truques. Alguns serão estranhos para você, outros são parte do teu reino. Quando eles forem todos dóceis a suas ordens, você saberá em que consiste seu verdadeiro Eu [true Self].

“Quando você tiver aprendido isso, volte para mim. Quando o milho estiver maduro e as uvas estiverem começando a corar, então se eu achar que você está disposto, tentarei ampliar seu horizonte”.

 

.

                                              13

                               O Problema Sexual

O sexo apresenta um problema que não pode ser evitado se alguém deseja usar seu poder de desenvolvimento para o suprahumano; mas a mera satisfação do instinto retarda o desenvolvimento. Certas doutrinas pregam o uso da excitação sexual como um meio de despertar faculdades superiores e poderes extraordinários, mas esses métodos são realmente perigosos e devem ser evitados. O que eles evocam não são as faculdades superiores, mas as forças mórbidas [unhealthy forces] das quais é então quase impossível libertar-se. Este é um dos maiores perigos em que um homem pode se envolver, pois ele se torna escravo desses poderes e corre o risco de um completo desequilíbrio nervoso e mental. Por outro lado, a repressão do instinto sexual é igualmente um perigo. A psicologia demonstrou que uma paixão violentamente frustrada é abafada ao invés de superada. A conquista só é real quando o adversário é desarmado por uma expressão mais poderosa da força vital. Enquanto existimos em corpos físicos, estamos sujeitos à lei da natureza da dualização, pela qual a afinidade é criada entre opostos complementares que estão separados. Esta dualização, que é o fundamento da Natureza e seu mal básico, é também o fundamento da experiência terrestre, cujo objeto é transcender a Natureza e retornar à união com o Um. É também o fundamento do nosso cultivo da consciência, uma vez que nos dá a possibilidade de escolha entre qualidades opostas, entre o real e o relativo, entre o que é bom ou mau para nós no momento. Esta dualização, sendo a causa da afinidade entre opostos complementares, é a causa da sexualidade e do desejo que os homens chamam de amor. O erro é confundir amor, desejo e necessidade. Necessidade é um apetite, e só diz respeito ao corpo físico. As necessidades são, portanto, da natureza animal, o resultado de funções fisiológicas estimuladas no ponto apropriado do ciclo natural. Desejo, quando despertado pela necessidade ou instinto, é um impulso puramente animal. Mas, independente dos impulsos animais, o desejo pode existir no homem como uma afinidade por qualidades ou estados de ser de um tipo mais sutil. Em regra, no entanto, não somos conscientes de sua causa mais profunda, e assim pervertemos o caráter de tal desejo, confundindo-o com meros anseios, ou mesmo necessidades, e usando-o como uma desculpa para gratificá-los, e assim a idéia do amor é vulgarizada.

Ainda assim, a idéia de amor, embora aplicada ao desejo sexual, é um símbolo do Amor absoluto que não tem um único objeto e que é o fruto da consciência da solidariedade mútua.
A seleção sexual por afinidade é uma manifestação presente desse amor cósmico. O perigo consiste em confundir as origens das várias emoções do amor, físicas, sentimentais, “ideais” ou até mesmo supostamente espirituais, pois elas geralmente têm uma base sexual, consciente ou inconsciente. Pois a relação do sexo com o cérebro e o fígado é esquecida ou desconhecida. Estes três fatores, a grande tríade da Personalidade, afetam-se tão intimamente que muitas vezes é difícil distinguir qual deles é responsável por uma súbita agitação de paixão, desejo, ou pensamento. Se um deles está sobreexcitado ou em inatividade temporária, os outros dois são afetados, e produzem sentimentos que o homem, ignorando a interação, leva a sério, sem suspeitar de sua origem fisiológica. Além das agitações sexuais produzidas pelos ciclos da natureza e da vida humana, cada indivíduo é influenciado por seus próprios instintos particulares, que o fazem reagir sexualmente a determinadas ações ou circunstâncias. Essas características instintivas são registradas no fígado, mas produzem reações nas glândulas sexuais e no cérebro, e esses dois [as glândulas sexuais e o cérebro], estando sempre em aliança, oferecem um ao outro desculpas para explicar e satisfazer os anseios resultantes. O homem não desperto [unawakened man] é ultrapassado por esses impulsos e torna-se facilmente seu escravo, gastando sua energia neles mas não se iluminando. Mas aquele que deseja escapar de sua natureza animal tentará sinceramente descobrir seus instintos e observar seu funcionamento. Ele naturalmente perderá o efeito excitante de ser tomado de surpresa, mas ganhará em troca a oportunidade de usar seus instintos conscientemente para aumentar seu “fogo vital”, em vez de prostituir a idéia de amor confundindo-a com a satisfação de um instinto.

A energia sexual tem a mesma origem que o fogo sutil que dá vida. É para o homem usá-la sabiamente ou então gastá-la irrefletidamente. Aquele cujo objetivo é a satisfação se recusará a aprender o controle, preferindo estar à mercê das surpresas e receber seu prazer sem esforço. Mas o homem que tem em si, mesmo inconscientemente, um sentido do verdadeiro Amor, ficará envergonhado da sexualidade animal, exceto ao serviço de perpetuação da espécie. Isto vem de seu senso moral, a voz da consciência, que é o nosso juiz. Então surge o problema, o que fazer com o fogo vital? Deve-se sufocá-lo, ou pode ele ser usado para nos elevar a uma vida superior?

Negar ou sufocar a excitação sexual é um ato de supressão ditado pela vontade, e resulta com demasiada frequência em reorientação da energia para imaginações intelectuais ou sentimentais, com problemas psicológicos como conseqüência freqüente. Alternativamente, a supressão contínua pode levar à flacidez, que é o caminho da morte e não da vida; Pois impotência não é o mesmo que maestria! A verdadeira maestria, sem conseqüências infelizes, só é alcançada quando uma alegria inferior é substituída por uma superior.

Se a escravidão ao prazer sensual é uma escravidão animal, por outro lado o desejo consciente é do reino humano; De fato, ele [desejo consciente] é a chave da vida e da libertação, uma vez que ele for esclarecido, ou seja, despojado de desculpas artificiais. Esse desejo, que é a chave da vida, procura aumentar o fogo vital, e pode ser agitado ou exaltado pela excitação sexual ou pela Vontade para a Luz [Will to the Light].

A excitação sexual torna o desejo hipócrita se ela tiver de se desculpar com esteticismo, sentimentalismo, e imaginações eróticas intelectuais. Pois todas as formas de erotismo são basicamente a busca por choque emocional. E a causa desse choque emocional é um ato que repentinamente altera o equilíbrio de nossos sentimentos; ele viola nosso padrão normal de sentimentos sobre moralidade, ou sobre amor e amizade, sobre reputação ou segurança.

Independente se o choque dado pela dor ou alegria ou angústia, é sempre uma perda de equilíbrio que perturba a nossa inércia natural. O choque é desejado para o bem da excitação; E se o objetivo da excitação é satisfação sexual, nada será ganho a não ser o único prazer sensual. Um ser mais consciente, que procura uma alegria maior, desejará o choque para fortalecer seu fogo interior. Em qualquer caso, portanto, desejar um choque emocional é desejar uma perda de equilíbrio. Qualquer excesso pode fazer isso, mas o excesso erótico faz isso para aumentar o calor do sentimento sexual.

As perversões eróticas são sempre uma compensação pela tirania do Ego. Masoquismo é autoritarismo invertido, e o chafurdar na degradação é a inversão, ou mortificação, do esteticismo sensual.

Se o objetivo deles for apenas prazer e satisfação animal, os impulsos eróticos podem degradar; Mas igualmente, se a intenção é o oposto, eles podem servir como outros choques emocionais para aumentar a consciência e a vida.
A diferença reside no objetivo e no modo de aplicação.
Um homem que arrisca sua vida por uma causa impessoal pode encontrar uma exaltação no medo do perigo por causa da alegria de sacrificar sua segurança puramente egoísta. Se você pode escolher à vontade entregar deliberadamente a sua natureza animal, sem dar desculpas para ela, ou então controlá-la e encontrar no fazê-lo a exaltação do sacrifício, então você encontrou uma das chaves da vida, a chave para a transmutação do fogo vital.
A alegria de superar-se transforma o desejo por um prazer fugitivo em desejo por alegria infinita [infinite joy]. Isso não pode ser repetido com muita freqüência.

.

 

                                             14

                                      O Pêndulo

O Espírito é a fonte substancial das “coisas”; Mas as “coisas” se tornam opostas ao Espírito; “Coisas” são passivas e reagem.
O homem, em seu Eu Automático, é uma “coisa”; Ele não discerne a fonte de seus impulsos, mas submete-se a eles passivamente como um caniço no vento; Ele é o seu brinquedo quando inconsciente deles, e se ele se revoltar contra eles, deve sofrer pela resistência deles.
Assim, pela lei da alternância, ele balança de um lado para outro como um pêndulo: esforço-impotência; esperança-desespero.
E a lei da reação significa que quanto maior a ascensão, mais grave é a queda. Ao invés disso, pode-se aprender a “viver” o pêndulo; E aí pode ser encontrada a Sabedoria. Pois a alternância é inevitável. Reconhecê-lo é abolir a ansiedade que vem da ignorância; Ter a sua medida é poder dominá-la [to master it]; Não resistir é alcançar a paz; E usar seu ímpeto é aumentar sua força vital.

O movimento tem quatro fases:

Primeira fase: Vontade de poder e maestria [Will to power and mastery]
Segunda fase: Falta de equilíbrio
Terceira fase: Ausência de vontade
Quarta fase: Serenidade equilibrada.

A vontade de poder [will to power] dá o impulso para montar, e lamentável de fato é o homem tímido que não se atreve a usá-la. A falsa humildade mantém sua alma escravizada, tendo uma satisfação mórbida em sua miséria. Esta é a virtude pútrida da mediocridade.

O objetivo de toda tradição de sabedoria é obter a posse do “reino interior” [“inner kingdom”], pois possuir isso é chave do “Reino dos Céus” [“Kingdom of Heaven”], que é um reino que não é desta terra. Mas o homem que o procura tem seus pés no chão, e seu corpo é seu instrumento. Sua forma pessoal é o obstáculo que ele deve superar, mas a Vontade para a Luz [Will to the Light] revela de vez em quando o Ser Secreto dentro dele. O verdadeiro Nome desse Ser, embora desconhecido de seu portador, é o fio que une todas as suas existências, e sua consciência é o “reino divino” no qual a Personalidade humana se torna serva de seu Eu Imortal [Immortal Self].

Esta vitória do supra-humano, sendo o objetivo mais elevado que podemos ter na terra, não é ganha sem desferir um golpe; E o Eu Inferior [Lower Self] é tanto a arma a ser usada quanto a vítima pretendida. Sua resistência, portanto, é inevitável, e seu instinto de auto-preservação classifica a Individualidade como seu oponente.
Mas a perspectiva de poder o atrairá como uma isca. O poder é perfeitamente real. A maestria do corpo físico dá saúde e força; A maestria das emoções impede que alguém seja controlado por outros, e abre o ouvido interno; A maestria da mente, pela qual os pensamentos que surgem podem ser formulados ou abolidos à vontade, torna possível a visão intuitiva.

A perspectiva de tal poder como este deve certamente ser suficiente para superar a inércia. E seremos sábios para usá-lo, pois nos dará o ímpeto para montar. Somente devemos permanecer alertas para substituir a vontade de poder [will to power] pela Vontade para a Luz [Will to the Light]; Pois assim, a cada passo ascendente, a qualidade do poder será menos pessoal e mais altruísta, pois provém do domínio [mastery] sobre o instinto ávido de nossa natureza egocêntrica.

O objetivo de toda a operação é dar energia ao pêndulo.
O momento do sucesso é crítico, pois a noção de alcançar o limite restringe o esforço e leva a uma queda para trás. É aqui que a sabedoria deve intervir; Pois, percebendo a instabilidade do sucesso obtido, se aceitaria o limite como o pré-requisito de um novo impulso criativo, que surgirá, mas não antes do seu próprio tempo. Esse é o segredo!

Pessoas mundanas tem aversão intensa por este jogo, pois se elas fazem um esforço, esperam desfrutar dos frutos dele; Então, para evitar a queda para trás elas usam sua força de vontade para insistir em um resultado e o pêndulo quebra.

A terceira fase do pêndulo é, misticamente falando, a compensação pelo orgulhoso esforço de poder, ou seja, ausência de vontade, que significa aceitação, não de impotência, mas da lei vital de alternância. Aceita-se a fase de descida sem resistência, estando seguro que uma nova fase de energia seguirá. E, de forma semelhante, nossa compreensão da ação do pêndulo pode ser ampliada do campo meramente pessoal para o universal.

O momento decisivo é quando o movimento ulterior do pêndulo é ou rejeitado pelo homem orgulhoso que se recusa a aceitar a descida, ou justificado naquele que o aceita.
Pois a humildade do sábio é entender que o poder é apenas conhecimento da lei.
Aquele que aceita a descida encontrará no fundo dela o fruto de sua consciência dela, ou seja, serenidade e equilíbrio.

Assim, é alcançada aquela paz que dá um novo ímpeto para uma nova ascensão por meio de uma legítima vontade de poder [will to power].

A amplitude do balanço do pêndulo é determinada pelo próprio estágio de consciência; Mas sem um novo impulso ela [amplitude] tende a diminuir. Esta é a justificação dos meios sugeridos para colocá-la em andamento, ou seja, a excitação de um instinto pessoal para iniciar o jogo que, no final, vai destruir a atitude pessoal, obrigando-a a reconhecer a lei da alternância.

A cessação absoluta da alternância só poderia ser o resultado da universalização da consciência. Este caminho, que faz uso das contradições na natureza de um indivíduo, é o contrário daquele que tenta abolir as fraquezas negando sua existência; Que só cria inibições. O movimento pendular é continuamente exemplificado na alternância de dilatação e contração, e devemos aprender a usá-lo.

O ar penetra nos nossos corpos pelo duplo movimento da respiração; E, assim como os nossos pulmões, a própria terra se expande e contrai. Todas as coisas que vivem na terra participam dessa alternância entre dilatação e contração, inspiração e expiração.

Dilatação é o momento feliz de expansão para a unidade. Contração é a função satânica da materialização.
Ambas são necessárias, mas para usá-las sabiamente deve-se entender suas forças motrizes. A dilatação é um gesto de união, de absorção no Cosmos, sem seleção, oposição, ou separação. Sua tendência é à expansão, à quebra de limites, à fusão de tudo em Tudo [all in All]. É a ausência de vontade pessoal, a abertura do coração sem reservas, a tentativa de escapar para o Abismo além das fronteiras da matéria. É o movimento ascendente do pêndulo; Mas o pêndulo cai inevitavelmente para trás, já que seu ponto de ligação está na terra.
Sua descida é o movimento de expiração e contração.
Todas as coisas, exceto a Unidade Absoluta, estão sujeitas a essa alternância; É o movimento mais inexorável no devir do universo. Por isso a Sabedoria não busca a paz em contínuo “Bem”, sem feiúra e sem recaída, mas sim no uso hábil de oposições.
A dilatação é inevitavelmente seguida pela contração e, portanto, todo progresso, toda expansão generosa é imediatamente seguida por uma reação. Se você deseja saber qual será a reação, considere seus motivos particulares de resistência, pois isso trará o caráter deles; E eles serão suas críticas intelectuais, suas dúvidas e rebeliões, seu ceticismo e pessimismo.

Se você não está ciente desta reação, ela irá controlá-lo, e você pode infelizmente concluir que o progresso que você fêz no período da expansão foi todo aniquilado no período da contração. Assim, homens de boa vontade, se são vítimas ignorantes desta lamentável gangorra, prosseguem com a sua evolução espiritual à velocidade de uma tartaruga.

Para alcançar a vitória rapidamente, deve-se tomar consciência do ritmo contrário e aprender a aproveitar seu movimento na direção antagônica, assim como um ferreiro usa o rebote de seu martelo para diminuir seu peso morto; A bigorna, por sua resistência, atira o martelo, e o ferreiro exige menos esforço para derrubá-lo novamente. O rebote aumenta com repetição até um certo número de golpes, determinado pela fadiga do metal, que também precisa de seu intervalo de repouso. Considere esta lei cuidadosamente, e tire a conclusão.

A fase de contração é um mal necessário; Como você pode fazer uso dela? Cada ação aumenta em amplitude se incentivada por uma reação. A contração é um aperto satânico do músculo para sustentar o que se tem agarrado; É a avareza da Matéria que armazena seu alimento em si mesma. É o medo de perder-se a si mesmo, o voltar-se sobre si mesmo, a necessidade de conhecer os próprios limites a fim de encerrar o ego numa concha impenetrável.

A Contração condensa e concretiza. Quando você a sentir vindo sobre você, traga seu progresso até o nível material; Aja, execute, escreva o que você aprendeu no período de exaltação. Isto é exatamente o oposto do que o Autômato faz; eles submete-se à fase de depressão [descida] como uma fase de impotência, e deixa a tristeza e o ressentimento torturá-lo em vão. A fase expansiva, por outro lado, o Autômato usa em ação exuberante, distraindo e dispersando a si mesmo, de fato desperdiçando e espalhando a vitalidade que ele recebe nessa fase.

Deve-se observar este fluxo e refluxo atentamente, e usar o ritmo pendular para aumentar a força. No período de expansão, deve-se buscar o silêncio, alongar as meditações e ficar quieto o máximo possível para ouvir, aquecer o fogo interior. Você desperdiça seu tesouro se ceder à tentação de externalizar sua alegria em conversa e ação. Seu ardor não deve se expandir para fora, mas para dentro. Pois só a calma e o silêncio podem dar todo o poder às fases de impulso, expansão, e auto-doação, que revitalizarão o seu ser.

A ação externa deve ser reservada para o período escuro de contração. Nesta fase de dureza e frio afirme suas conquistas, materialize seus sonhos, e traga à expressão concreta o que você compreendeu e assimilou na fase de alegria. Como o ferreiro, use a reação para auxiliar a ação, para dar forma ao que você concebeu.

O lado adstringente da própria natureza pode ser usado para dar clareza e forma ao novo conhecimento. E se o humor combativo prevalecer apesar de tudo, configure-lo como uma absorvente tarefa intelectual ou manual; Isso é muito melhor do que deixá-lo impedir o seu progresso.

.

 

                                             15

                           Vigilância e Mediação
Watchfulness and Mediation

Quando o Eu Automático e sua consciência-cerebral foram trazidos sob controle consciente, então chegamos ao estágio em que o poder pertence à Testemunha Permanente. A aliança dos dois cria um ser desperto que é livre para fazer uso de seu equipamento físico, emocional, e mental. Mas alcançar até mesmo essa fase de domínio exige um esforço disciplinado ininterrupto. Nossas descrições anteriores da constituição do homem e da coordenação de suas funções orgânicas foram apenas explicações do que é preciso saber para tratar distúrbios e deficiências funcionais. Mas conhecer não é por si só compreender, e auto-conhecimento requer uma consciência aguda de todos os nossos elementos constituintes, mentais, emocionais, e físicos. Estes são os três aspectos do “Eu” automático, e há a maior dificuldade em resolver qual é o principal motor de qualquer impulso dado.

Mas tentar desenredar os motivos de cada impulso causaria mais problemas do que vantagem, e a tentativa de dissociação não nos daria nada além de uma análise intelectual, o que é o oposto do que queremos.

O aumento da consciência deve ser alcançado pela vigilância, mas sem tensão. E vigilância não significa introspecção.

Vigilância significa não estar dormindo. No entanto, as preocupações da ronda diária são capazes de nos manter tão absorvidos, em detrimento da nossa vida interior, que muitas vezes o despertar da nossa consciência é a última coisa em que pensamos. E assim, por falta de vigilância, estamos realmente em estado de sono, por mais intensa que seja nossa atividade intelectual ou profissional; Pois sem prestar atenção não podemos ter qualquer contato com as duas testemunhas, que nos dão a evidência de nosso ser real. Se quisermos que nossa Testemunha Permanente nos faça verdadeiramente conscientes de nossos estados físicos, emocionais, e mentais, devemos prestar atenção constante e observar cuidadosamente o comportamento de nosso Autômato. Esta vigilância logo se tornaria tediosa se não houvesse interesse animador para justificá-la. Por esta razão é freqüentemente necessário dar um pouco de tempo à “mediação”, pelo que se entende um estado de meditação destinado a despertar-nos de nossa inconsciência sonolenta. O termo “mediação” é usado em vez de “meditação” para evitar o erro de interpretar esta última no sentido de reflexão mental, ou igualmente de meditação espiritual.

O estado a ser visado é um estado de mediação entre o Autômato e a Testemunha Permanente, e apela a esta última para observar e regular prudentemente a harmonia das funções orgânicas do primeiro. Trata-se de uma mediação porque é um estado que medeia entre pensamento e intuição, concentrando-se a atenção naquela parte do ser de que se deseja tomar consciência. Esta “mediação” requer calma física e mental e relaxamento. Ela começa com o pensamento, que deve chamar a atenção para os órgãos na área em consideração; Mas se a “mediação” for bem administrada, o pensamento gradualmente cederá espaço e permitirá que a intuição revele o conhecimento vital que ela descobre. Este conhecimento é simplesmente o despertar de uma consciência inata, provocado pela concentração da atenção em uma dada região.

Os assuntos sobre os quais será útil praticar a mediação são os descritos no Capítulo 3. Em resumo, eles são estes,

Primeiro, os quatro corpos físicos (os ossos, a carne, os vasos, os nervos); É uma boa prática visualizar estes freqüentemente para entender a parte que cada um desempenha na harmonia do todo.

Em segundo lugar, os grupos orgânicos, os quais estabelecem uma interação de influência entre seus membros constituintes. Estes são:
‎– a Árvore da Troca [Tree of Exchange], que, através da inalação e exalação do que Hipócrates chama de “os ares e as águas” [“the airs and waters”], estabelece uma relação entre a vida orgânica e animal do ovo humano e a do Ovo Cósmico.
‎– As sete funções essenciais , cada qual regendo um grupo de quatro órgãos que têm uma relação de simpatia devido à sua identidade funcional.
‎– As quatro regiões, cuja orientação afeta o caráter dos órgãos que incluem. Finalmente, Há os quatro princípios funcionais dessas regiões: ‎
Na região superior, os pulmões, que revitalizam o sangue e são a sede dos espíritos vitais e do impulso vital inconsciente das células e do Autômato;
No intestino delgado, que é o alimentador principal do corpo, uma vez que ele seleciona os ingredientes nutritivos do alimento e os torna assimiláveis.
Na região esquerda, o estômago, que “abre caminho” [“opens the way”] às funções de digestão (cujo produto final será enriquecer o sangue) e que por esta razão é chamado no antigo Egito de “a boca do coração” [“the mouth of the heart”].
Na região direita, o fígado, no qual as características pessoais são registradas, a sede do impulso vital Pessoal [Personal vital urge], o órgão que responde à Testemunha Permanente.

A mediação diária pode ser realizada sobre qualquer um desses assuntos, e o resultado será um aumento progressivo do domínio do “Eu” consciente sobre o Autômato.
O sucesso dependerá da assiduidade.

Embora essa mediação tenha um objeto físico, ela ainda influencia os estados mais sutis, pois não há portas estanques entre matéria e energia. O quadro analítico só existe em nossos cérebros; a vida funciona como uma síntese, e torna-se clara para o buscador que não dissecar seus trabalhos e os dissociar.

Há três vantagens, então, para este tipo de mediação: primeiro, é um treinamento gradual no despertar dos estados mais sutis, usando um ponto de referência física e, assim, evitando o risco de ilusões psíquicas; em segundo lugar, os brilhos da consciência superior que ela desperta facilitarão a distinção das intuições verdadeiras das fantasias; e em terceiro lugar, o buscador que aplica essa mediação à suas funções orgânicas se elevará acima de seu eu animal e se tornará um ser consciente.

O principal obstáculo para se obter esse grau de controle é que a Personalidade o resiste com crítica intelectual e com toda a agressividade da bile, e por isso é preciso aprender a romper o circuito entre o cérebro e a vesícula biliar.

A maioria dos problemas orgânicos são causados pela emoção, apreensão, humilhação e, em geral, por pensamentos e atos que ofendem a vontade pessoal e os impulsos da paixão. A reação é agravada pelo aperto [compressão] dos plexos nervosos, mas o ponto de partida orgânico desses problemas é quase sempre no funcionamento da bile ou do cérebro. A bile pode ser perturbada por um pensamento vexatório ou por um impulso de irritação que surge no fígado (que é o assento da personalidade), mas o resultado de qualquer forma é o mesmo; O circuito bile-cérebro entra em ação instantaneamente, a bile irritando o cérebro e o cérebro excitando a bile, e a corrente de duas vias resultante desencadeia uma reação em cadeia através do sistema: bile-cérebro -bile-estômago-baço-bile, e assim por diante. Algumas gotas de bile no estômago podem ser o início de dores e problemas, que poderiam ter sido evitados por uma intervenção rápida.

A primeira coisa a fazer é quebrar o circuito entre a bile e o cérebro, afastando resolutamente os pensamentos do sujeito vexatório. Isso não significa encontrar argumentos convincentes, mas simplesmente romper o contato, por exemplo, forçando-se a observação cuidadosa de algum objeto ou outro. Quando a corrente de pensamento foi assim redirecionada, alguns momentos de mediação impedirão que a reação da bile continue. Este pequeno ato de controle tem a maior importância, pois garante que quando o Autômato anárquico ataca o eu consciente, a vitória irá para o segundo.

 

 

                                             16
                                       Conduta

É importante discernir quais dos vários elementos da vida e da composição são relativos e quais são reais. Este é o conhecimento necessário para não morrer completamente.

O importante é despertar-se do sono e não ser mais vítima dos impulsos e ações habituais do Autômato, mas permitir que o Eu consciente os controle constantemente. Em outras palavras, nada pode nos salvar da perda do livre arbítrio a menos que a Testemunha Permanente seja despertada e continuamente vigilante. Isto, no entanto, nos libertará para controlar nossos pensamentos e ações de acordo com o objetivo sugerido pela Testemunha Espiritual. Tal controle é evidência da presença do Espírito, e sem ele nossa experiência na terra perderá seu objetivo.

A primeira etapa em assumir o controle do Autômato é parar a tirania do hábito e o desperdício da força vital. A força vital é preciosa e não deve ser gasta irrefletidamente. Pode-se economizá-la evitando conversas e argumentos inúteis, preocupações inúteis e movimentos violentos desnecessários. As ações devem ser cuidadosamente observadas para evitar que se tornem automáticas, e deve-se ter a coragem de alterar sua maneira de fazê-las temporariamente e de vez em quando. Os membros devem ser treinados para movimento independente, de modo que eles possam executar diferentes ações simultaneamente.

Da mesma forma, os muitos e vários aspectos do ego não devem ser autorizados a impor suas vontades e preconceitos incoerentes. Observe a si mesmo atuando, e ouse decidir em seu “eu” consciente qual tipo de pensamento e comportamento está mais de acordo com seu objetivo real no momento.

Se o seu objetivo final é o resultado de uma decisão em princípio, o seu objetivo imediato vai mudar gradualmente à medida em que o alargamento de sua consciência derrama mais luz sobre ele. Nisto consiste a experiência, e por esta razão a vigilância constante é indispensável, pois você deve estar continuamente ciente de como o Duelo está indo e da condição dos combatentes.

Observe as fases de sua libertação e recuse ser o escravo de seus gostos e desgostos, ou do que você pensa impossível, pois quebrar um hábito é libertar-se de um vínculo. Mas também não se deve tornar um escravo da vigilância! Auto-análise não é a resposta, nem é um paroxismo de força de vontade hiperatrofiada pelo medo do fracasso.

Vigilância [Watchfulness] significa observância verdadeira dos motivos de nossas ações. Significa permanecer em contato constante com o Coração Espiritual, que é a sede da Testemunha Espiritual e a fonte do discernimento.

Há três domínios sobre os quais devemos vigiar: o físico, o emocional, e o mental. Os métodos já descritos trabalharão juntos para controlar o pensamento e a emoção. As funções orgânicas devem ser consideradas como forças animais e tratadas como um treinador habilidoso que trata animais selvagens, sem violência, mas sem descuido, e sem permitir que elas tenham caprichos. Para treiná-las sem risco de revolta, o treinador deve ter certeza absoluta da superioridade do ser humano sobre a força animal; Pois a menor dúvida disso o colocará em perigo. Ele deve saber, entretanto, que ele se comunica com seus animais não por força de vontade sob a direção do intelecto, mas por sua consciência instintiva inata das próprias naturezas inferiores. Esta é a única maneira de controlá-los sabiamente e não pela violência.

E este é exatamente o método que o homem deve usar para controlar seu próprio organismo animal. A Consciência Pessoal deve governar as funções orgânicas e realmente controlá-las, não ser seu escravo; Pois a escravidão miserável é tudo o que o ego recebe em troca de sua ansiedade e preocupação com “minha má digestão,” “meu coração fraco,” “meu pobre estômago,” e assim por diante.

Nossos órgãos físicos (e isso não pode ser repetido suficientemente) são forças animais, que naturalmente obedecerão a um homem que está preparado para comandá-las. Eles estão lá para servi-lo, não para escravizá-lo. Mas o ego é tão preguiçoso que o faz muito feliz abdicar desse poder em troca da satisfação secreta de compadecer seus próprios sofrimentos ou de atrair a atenção para seu caso patético. A maioria de nossas condições patológicas são agravadas por essa indulgência não confessada. O mesmo se aplica aos nossos dramas pessoais e preocupações cotidianas; devemos ter a coragem de admitir que eles se alimentam em grande parte da piedade dos outros, e por conta própria. Na maioria dos casos, o que restaria deles se os passássemos em silêncio total?

Mas os dois Egos, o Pessoal e o Automático, quando querem atrair atenção e desculpar seu egoísmo, têm a astúcia da serpente.

A força centrípeta do Ego é imensurável. É simplesmente uma força centrípeta, e todo ser humano permanecerá seu escravo até que seu próprio sol o atraia para a luz.
Por esta razão, o Caminho do Coração [Way of the Heart] é o único caminho para a libertação final.

O segundo estágio é despertar a consciência intuitiva que torna possível para um homem unir-se com a alma cósmica. Aquele que deseja alcançar isto não gastará tempo com os detalhes da cor, do cheiro e da forma, que tão agradavelmente satisfazem os desejos dos sentidos, mas escutará dentro de si a reverberação das forças vitais da Natureza.

O vinho do outono desenvolve uma espécie de febre na primavera, quando a seiva está aumentando em seu estoque original, e diz-se que “chorar as lágrimas da videira,” [“weep the tears of the vine”] e também “ter consciência de sua mãe”[“be aware of its mother”]. O homem também, sem o saber, tem consciência de sua mãe, a Natureza instintiva, sendo sujeita às suas temporadas [estações] e impulsos, seus ciclos e acidentes.

A pessoa pode ser sujeitada a essas instintivamente ou conscientemente. Nesse sentido, “instintivamente” significa obedecer à consciência instintiva inata, sem permitir que a consciência- cerebral a sufoque com as noções convencionais e a prudência tradicional. Seguir esta linha é seguir o curso natural da experiência de vida, através do qual um homem evolui para sua meta, lentamente, talvez, mas sem se desviar. A prudência mental impede essa experiência e atrasa consideravelmente sua evolução.
A pessoa submete-se  conscientemente, entretanto, se ela desenvolve simultaneamente a consciência dupla de ambos o Eu pessoal e o Eu espiritual.

Para conseguir isso, deve-se tomar cuidado todos os dias, como o Ritual Egípcio tão belamente expressou, para “dar a casa ao seu mestre” [“give the house to its master.”] Isto significa que, depois de despertar a consciência funcional dos órgãos pela concentração sem tensão, deve-se praticar uma intensa “mediação do coração” para dar à Consciência Espiritual o controle total sobre o Autômato e o “L” Consciente [the Conscious “L”].

Este é um caminho rápido de desenvolvimento pelo qual o instinto leva ao conhecimento intuitivo, o comportamento automático é substituído pela vigilância, e assim o homem descobre a possibilidade de um estado superior. Este estado superior é aquele de serenidade em que a vontade pessoal não resiste mais aos impulsos do coração e onde esse “livre arbítrio”, do qual o ego autoconsciente é tão orgulhoso, será substituído pela discriminação entre o relativo e o real, com a liberdade de escolha que isso confere. Assim termina o conflito entre o intelecto e a percepção intuitiva. Segue-se um silêncio atento, no qual o homem se pergunta: “O que Eu realmente sei?” Assim, ele se torna capaz de reconhecer seu Mestre.
Quem é o seu mestre?

Ele só pode ser aquele que conhece o plano de seu destino e pode infalivelmente levá-lo à sua realização. De fato, ele não pode ser outro senão a Testemunha Permanente de seu destino, sua própria consciência imperecível, isto é, sua Testemunha Espiritual enriquecida pela experiência da Testemunha Permanente. Ela é o elemento de Cristo em vós, que unicamente pode ser o mediador entre vós como um ser humano e o motivo divino, poder que o vosso intelecto não pode compreender. Esta testemunha é o seu Mestre porque ela é a sua Verdade, o que você realmente é, o seu próprio Caminho verdadeiro e Vida indestrutível. O que mais pode ser o significado das palavras de São Paulo: “Até que Cristo seja formado em vós” (Gálatas 4:19)?

Se você ouviu o chamado dos Mestres, não cometa o erro de buscar a luz nas nuvens e recusar-se a olhar para a escuridão de onde ela nasce. Ela nasce nas trevas através do desenvolvimento da consciência, o que torna a escuridão capaz de reconhecê-la. Há, no entanto, o perigo de que alguém possa sufocá-la sob falsas iluminações e ilusões sobre si mesmo.
A pessoa deve explorar a sua própria escuridão a fim de descobrir quais choques farão a luz brilhar dela [da escuridão]. Mas se você tem medo de mexer a lama que você realmente é, você vai ficar preso nela. E se você tem medo de enfrentar seus hábitos e ilusões enraizados, você perderá o caminho para o Mestre e terá que suportar as colisões do caminho que você escolheu.

Se você tem medo de quebrar seus obstáculos, você nunca vai atingir o estado suprahumano. Mas essa ruptura não significa renúncia e resignação; a qual não produziria vida, mas inércia e morte.

A força de um desejo reprimido pode voltar a assombrá-lo em sonhos, pois ele está apenas contido, e não redirecionado; Mas se a busca pela alegria superior se torna bastante intensa, você esquecerá a inferior. Nunca se resigne! Isso é apenas um sinal de impotência. Tenha a coragem de aumentar seu sofrimento até que ele se sublime em um ardor de realização. Sempre evite a mediocridade, com suas pequenas virtudes anêmicas, seus lamentos árduos e seus esforços tão logo esgotados. As boas intenções são inúteis em horas de crise; Para avançar, a pessoa deve saltar diretamente! Nossos diferentes estados de consciência são evocados ao acaso pelo movimento da vida, mas, não desejando separá-los de forma rígida, tentaremos despertá-los por métodos apropriados a cada um. Os sujeitos serão os mesmos, mas olhados de um ponto de vista diferente, como se fossem observados em uma atmosfera diferente e fossem lembrados não tanto compreendidos como experimentados.

Então, vamos agora começar a falar uma língua diferente. Nós fizemos o nosso melhor para a compreensão no nível racional, mas agora chegou a hora de uma comunicação direta entre dois seres vivos, sem preocupação com o “Eu”, “você” ou “o outro”. Toda comunicação, afinal, é Consciência despertando outra consciência. Então, enquanto observamos juntos, deixe “você” ouvir a si mesmo [So as we watch together let “you” listen to yourself].

O grande mágico neste caminho é a nossa própria atitude interior, mas ela só pode realizar milagres se for colocada em prática em vez de permanecer um sonho e um ideal.
Não há muito a se fazer, mas muito a se evitar.
Não há crenças para se adotar, mas muitas para se abandonar.
O objetivo é ver a Realidade, ouvir com o ouvido interno e agir com consciência.
Há sete obstáculos a serem eliminados, e sete realizações a serem atingidas.

,

 

                                             17

                               As Sete Realizações

SENSO DE PRESENÇA

A primeira das realizações essenciais é o “senso de presença.” A maioria dos homens hoje não sabe nada do seu corpo, exceto suas necessidades e doenças, e restringe sua consciência ao cérebro. O intelecto, ocupado com cuidados diários, exige o direito de decidir todas as ações, mesmo em questões físicas, emocionais e espirituais, e nunca pensa em saber se essa demanda é justa ou meramente arbitrária. A cabeça está em tal turbilhão de pensamentos que não pode atender a nada mais, e se ela toma qualquer conhecimento do resto do corpo, este é apenas por razões de saúde, vaidade ou sensualidade. O ser superior do homem é considerado um intruso, excluído de qualquer contato vital, e [é] solicitado a restringir sua presença às raras ocasiões reservadas para isso, se houver alguma!

Quais são as conseqüências desse erro?

Quando a atenção é fixada em qualquer parte do corpo, essa parte torna-se um ímã para a energia. Mas a atenção intelectual traz de volta toda sensação ao terminal no cérebro, deixando o resto do corpo esvaziado de consciência; pois a energia mental não pode animar os outros centros vitais, então eles permanecem flácidos e incapazes de atrair sua parte adequada da energia sutil, ou fogo vital. É essa energia, no entanto, que revitaliza. Só ela pode dar a vitalidade para superar a doença e até mesmo despertar nossas percepções mais elevadas. O maior obstáculo para a sua penetração em todo o corpo é a “fábrica de pensamento,” cujo mecanismo infernal afoga nosso senso de Presença.

Esta Presença é a imanência do nosso ser verdadeiro; então, nesse sentido, não se pode falar de Presença senão em uma criatura que tem nela algo imortal, que é, no homem, a consciência superior. Uma vez que a Consciência tem dois aspectos, a Consciência do “Eu” ou Testemunha Permanente, e a Consciência Espiritual, ou Testemunha Espiritual. também podemos falar de dois aspectos da Presença. E, portanto, ter o senso de Presença significa estar ciente de qualquer um dos dois, a Presença Pessoal ou a Presença Espiritual. Se ambas estiverem unidas sob o controle da Testemunha Espiritual, então temos uma presença real do divino, a realização de nosso ser indestrutível (o Cristo ou Horus em nós).

Todo este estudo tem sido uma preparação para a realização desta união, e todo o esforço que lhe é dado agora pode encontrar uma resposta direta no conforto desta Presença, a qual, logo que começa a se manifestar, é a melhor resposta à grande questão: “De que adianta?” (“Qual é a utilidade?”) [“What’s the use?”]

Aprenda a ouvir a sua voz e ela resolverá os problemas de sua vida. É a sua única Realidade, mas você a sufoca por racionalizações e pequenas preocupações.

Esta é a Presença a que os sábios e os evangelistas se referem quando falam da necessidade de se estar vigilante (atento) [watchful], para que o Mestre quando chegar não encontre a lâmpada apagada.

Aprenda a observar, em vez de aceitar as ilusões criadas pela agitação do cotidiano e a atividade do cérebro, pois, apesar das aparências, elas vão deixá-lo em um estado de sono a menos que sua consciência superior seja despertada. Mas essa vigilância não depende da vontade ou da razão. O objetivo é experimentar a vida como uma energia quente que preenche todo o corpo assim como a água preenche uma esponja. O objetivo é estar ciente de todo o organismo e conhecê-lo como obediente à disciplina imposta pelo Eu Consciente.

O objetivo é aceitar o arbitramento do coração em todos os problemas causados ​​por impulsos da personalidade. O objetivo é manter o olho na bússola e manter o leme firme, seja qual for a violência dos elementos.

Aprenda primeiro a ser a consciência de sua própria maquinaria. Então sinta em si mesmo a confiança da equipe na vigilância dos capitães. Finalmente, torne-se a consciência dos capitães, detectando silenciosamente as menores reações do navio e da tripulação.

Então, finalmente, você conhecerá a alegria da libertação. Certo de sua direção daqui em diante você pode ver sua rota desaparecer no horizonte, e o horizonte se perde no céu, e você se tornará a consciência do infinito.

,

 

CONCENTRAÇÃO

Por mais grande que seja a inteligência de uma pessoa, sua eficácia sempre será proporcional ao seu poder de concentração. Se sua energia se dispersa em vários objetivos, nunca produzirá uma grande realização.

Mas a realização do estado supra-humano é a maior de todas as realizações; portanto, se esta não for a maior de todas as preocupações, também não se pode tentá-la.

No presente ensinamento, o princípio tem sido agrupar as tendências e direcioná-las com o objetivo de se concentrar nesse ponto. Um retorno tão constante ao essencial deve ser útil, e deve-se resistir à inércia que tenta se desculpar com uma variedade de distrações. O principal aliado da inércia é aquele desregramento do pensamento que incessantemente aproveita cada impulso como uma oportunidade de distração, para satisfazer seu “amor pela variedade,” e assim enfraquece sua força interior. Até que esta alegria possa ser controlada, não há esperança de resultados de longo alcance. Devemos ser capazes de superar a tendência errante do pensamento, mantendo a direção apesar dela, e se ela parece incorrigível, pode-se seguir com facilidade o curso do pensamento para trás e descobrir sua origem. Este esforço de atenção aumenta o poder de concentração e mostra à mente quem é o seu mestre.

Isso, no entanto, é apenas um procedimento mecânico que usa o pensamento para o controle do pensamento. No entanto, é melhor do que um esforço tenso de vontade, ou uma concentração mais ou menos hipnótica em alguma imagem ou objeto.

Deve-se evitar técnicas para concentrar a força de vontade [willpower]. A força de vontade é uma força natural, e sua faculdade é impor sua própria autoridade, por compulsão, se necessário. Com um forte esforço de concentração, um homem pode até mesmo exteriorizar sua força de vontade e fazer com que ela aja nos outros. Mas tal ação pela força está em oposição ao Caminho do Coração. Pois a vontade é apenas um agente da Personalidade.

O agente do Coração é o poder magnético que atrai e mantém as forças vitais de um homem na esfera e no ritmo de seu próprio sol interior. Na verdade, é sua afinidade com o seu Eu Espiritual que pode dar-lhe coragem para superar as resistências da Personalidade. Quando seus impulsos estão em sintonia com a harmonia física e espiritual de seu ser, isso é a Sabedoria do Coração. E se as suas sugestões são aceitas, o resultado é um desejo de se transcender, de ceder a essa atração tão temida pelo Ego, de ser levado para um destino mais elevado e converter o desejo contínuo e não formulado de uma força efetiva.

Para esta força se tornar real, ela deve ser o objeto em que a concentração é focada. Todas as outras atrações e vontades pessoais são distrações e diminuem sua potência. A concentração é bastante diferente da força de vontade; as duas não devem ser confundidas. A concentração a ser visada é uma convergência de todas as energias vitais no objetivo ideal, transformando-o em um poderoso ímã, assim como os raios de luz focados por uma lente transformam seu ponto focal em uma fonte de fogo. Quando essa concentração geral da vida foi alcançada, uma pessoa poderá concentrar a atenção de maneira semelhante em cada ato e gesto, sem necessidade de empregar a vontade. A concentração é uma arma de dois gumes. Usada com um esforço tenso de vontade, ela nos distrai do Caminho do Coração; mas usada com o desejo de seguir esse caminho, leva à simplicidade de coração e de pensamento e de ponto de vista.

Tente, portanto, simplificar o caminho.

O objetivo está diante de você; aborde-o sem olhar para trás. Revirar-se no passado é transformar-se em um pilar de sal.

Por isso, remova os detalhes supérfluos e não habite lembranças inúteis. Recuse-se a responder às preocupações e aos vãos arrependimentos, e evite palavras inúteis, pensando sobre o verdadeiro significado da palavra. Concentração requer simplificação; assim a concentração ajudará a alcançar a simplicidade de coração.

,

SERENIDADE

O clima é chamado de sereno quando nenhuma nuvem escurece o céu e nem vento nem nevoeiro perturbam a transparência do ar. O céu no homem é a esfera sutil ou aura que o rodeia e o penetra, e no qual seus próprios luminares realizam suas revoluções. É a atmosfera criada pelas emanações de seus órgãos e outros elementos constituintes, que irradiam e recebem suas sutis influências fluídicas.

O Coração é o sol que ilumina a esfera do homem. A serenidade de seu céu vem da harmonia de suas forças internas, e a transparência de sua Luz é o resultado da não-resistência.

Para adquirir a serenidade, primeiro é preciso eliminar algumas fraquezas do animal humano, nomeadamente a impaciência nervosa, a pressa instintiva e a instabilidade. Esses três defeitos são o resultado de uma noção errônea de valores, que por sua vez é derivada de uma consciência híbrida e mal dirigida, meio animal e meio humana.

Um homem ainda não esclarecido por sua Testemunha Espiritual sobre valores reais e relativos permitirá que seu intelecto defenda os desejos instintivos de seu eu inferior e que suas demandas desordenadas criem correntes cruzadas de impaciência, pressa e capricho incoerente. Ao ceder a esses impulsos, o Autômato humano se assemelha a certos tipos de animais. O cão, por exemplo, estremece com impaciência à vista de um osso suculento. O macaco, com suas distrações perpétuas, tipifica instabilidade e dispersão do pensamento. A mosca por sua agitação se joga na teia da aranha. A pressa é exemplificada no cuidado da abelha pelo seu dever social e a ansiedade da formiga, que sempre tem algo a fazer, mas, ao fazê-lo, se apressa em desvios desnecessários, sabendo a direção certa, mas sem saber como superar os obstáculos. Outros animais nos dão uma lição de autocontrole: o gato, por exemplo, cuja sabedoria é um modelo porque combina a paixão mais intencional com a mais ínfima indiferença. Imóvel ele planeja seu salto, e executa-o exatamente; a força de seus músculos é acompanhada pelo relaxamento no repouso; no sono, ele tem o abandono de um bebê, porém, seu instinto está sempre alerta; ele pode cair sem perigo porque não resiste; caçar e lutar são jogos de puro prazer para ele, ele caça com rancor e brinca sem um objeto; está sempre pronto para atacar sem animosidade e se defender sem apreensão; sendo indiferente à vitória, ele não pode sentir derrota. A Serenidade vem da independência.

Essa independência, a ser criada em si mesmo, não é indiferença, mas a neutralidade em relação às impressões recebidas de fora, sejam bonitas ou feias, boas ou más, felizes ou tristes, agradáveis ou desagradáveis. Uma coisa é observar essas qualidades e outra bem diferente é deixar que elas afetem nosso humor. Se a nossa avaliação delas é baseada em preferências pessoais, não podemos discernir o real. Devemos praticar a discriminação dos valores reais e relativos por meio da neutralidade, que é o primeiro passo para a “transparência.”

Concentrar-se sobre os valores essenciais abrirá a porta para essa discriminação. E a obtenção do sensoo de Presença fechará a porta para valores ilusórios. Esta purificação gradual é a chave para a transparência. A transparência é a qualidade de deixar passar a luz através de si, a neutralidade límpida que permite que os objetos sejam vistos através dela não deformados.

A mesma definição descreve o estado do homem que é transparente para a Luz e aberto à Presença.

Esta transparência torna-se iluminação dentro e radiância fora. Isso não impede os assaltos egoístas do Ego, mas os enfraquece.

Paz na terra não pode significar a supressão das forças opostas, mas a reconciliação em trabalhar para um objetivo comum, que é uma vida indestrutível.

Conforme você luta consigo mesmo por sua independência, você não pode erradicar suas próprias resistências, mas pode evitar as condições que as favorecem. Evite, portanto, todas as condições que perturbem a serenidade do seu céu. Nunca deixe que esta seja perturbada: nem pela turbulência do cérebro, que abre a porta para o seu anjo mau; ou pelo pessimismo e a dúvida, que extinguem o fogo da lâmpada; ou por medo sob qualquer nome, ansiedade, escrúpulos, cautela. pois isso seca o coração e extingue a chama do Amor.

,

O GESTO APROPRIADO

A quarta realização é o conhecimento do gesto apropriado. Mais uma vez, o senso de Presença nos ensinará como alcançá-la; e este deve ser nosso cuidado em cada ação. A ausência dele corresponde ao estado descrito comumente como “falta de presença de mente.” Realmente, deve-se pensar mais frequentemente sobre o significado dessa expressão; pois qual será a utilidade de um ato realizado sem a mente estar presente? A distração tornou-se uma desculpa muito fácil para o comportamento impensado; Ela deve ser considerada porém como a perda de um momento de sua vida. Nosso “Eu” consciente deve ser uma testemunha sempre alerta de todos os nossos atos e gestos, pois ele tem a memória imortal da consciência que adquirimos ao realizá-los, enquanto que nossa memória intelectual não é confiável e não pode ultrapassar o cérebro. Assim, qualquer ato nosso que passa despercebido por essa testemunha está perdido em nossa experiência vital; mas se o realizarmos com consciência, este enriquece o nosso verdadeiro Conhecimento. Não se pode esperar encontrar o Conhecimento e, ao mesmo tempo, ignorar a matéria; e a base do conhecimento da matéria é o gesto apropriado. Conhecer o gesto apropriado em qualquer atividade é saber como um determinado material pode ser trabalhado. Conhecer o gesto apropriado de um animal ou planta é conhecer seus apetites, sua assinatura astral e suas qualidades particulares. Conhecer o gesto apropriado de qualquer gênese é conhecer as leis de Devir [Becoming] do mundo.

O primeiro grau de habilidade é praticar o gesto mais direto e exato para produzir o efeito necessário. Se alguém está abrindo uma fechadura ou cultivando uma planta, moldando ferro ou fazendo um bolo, o gesto apropriado é sempre igualmente importante porque obriga a entender a natureza do material em que se trabalha. A natureza não deve ser entendida por um conhecimento teórico de química, geologia ou mecânica; ela deve ser estudada nos materiais reais, por suas afinidades, por suas analogias formais e condições de transformação, eles revelarão seu lugar no sistema terrestre e os segredos de seu devir. Nenhuma quantidade de aprendizagem intelectual produzirá esse resultado; deve-se fazer contato com cada substância única e experimentar em si mesmo suas transformações, resistências e fraquezas. Um ferreiro experiente pode dizer sem qualquer sinal exterior o ponto em que o metal vai quebrar; e um esmaltador deve ser capaz de dizer o estado de fusão do esmalte sem tirá-lo do forno para olhar, ou o trabalho dele será desperdiçado.

A menor experiência direta, assim adquirida, é mais do que toda aprendizagem teórica do assunto. Assim, seja qual for sua profissão, veja e experimente os “gestos apropriados” de vários profissionais, para ver como os diferentes materiais reagem. Afie a sua sensibilidade tentando encontrar a maneira mais perfeita de trabalhar o material como desejar. E não se arrependa do tempo dado a este trabalho auxiliar, pois este tempo “desperdiçado” será de valor inestimável. Não tente dar-lhe um interesse utilitário; esqueça o sentido burguês dos valores terrenos. Tenha prazer em refinar sua sensibilidade e abrir seus sentidos internos para aquilo que sua faculdade pensante não pode penetrar. Você logo notará que essa mudança já está abrindo para você a primeira porta do Conhecimento. A prática assiduosa em busca do gesto apropriado ensina-nos o ritmo e o caráter das coisas, e o grau supremo é a identificação, ou a perfeita comunhão com a coisa em questão. Isto, de acordo com Lao-tse, é o Conhecimento de Tao, a união do conhecedor com o conhecido. Existe uma bela imagem taoísta que dá uma noção do progresso de alguém. O nadador que pode nadar calmamente através do rio é um bom nadador: o nadador que pode nadar através das corredeiras é um nadador muito bom: mas o nadador perfeito, o praticante de Tao, é aquele que pode pular no rio e deixar que os redemoinhos agarrem-no e joguem-no sem perder a serenidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

[Em Construção]

Anúncios

Sobre https://estahorareall.wordpress.com/

https://estahorareall.wordpress.com/
Esse post foi publicado em A Abertura do Caminho - Isha Schwaller de Lubicz, Isha Schwaller De Lubicz e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s