Entrevista com Dr. Yosef-ben Jochannan – BLACK WORLD, Fev. 1974

Revista BLACK WORLD, Fev. 1974, pp. 62-72
Entrevista com Dr. Yosef-ben Jochannan –

 

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Passos fundamentais para Análise Histórica

Yosef ben-Jochannan é um notável estudioso e professor respeitado particularmente por sua investigação meticulosa sobre as raízes da história Africana. Nascido na Etiópia, ele cresceu no Caribe e viajou muito com seus pais através de Cuba, Porto Rico e América do Sul. Ele começou sua educação superior, a qual incluiu a Universidade de Porto Rico e de Cambridge, com a idéia de se tornar um engenheiro civil, mas ao invés disso recebeu um diploma de Direito e finalmente decidiu-se por de uma carreira em antropologia cultural. Ele veio para os EUA em 1945, e fez de Nova York sua base desde então.

Como um Africano Oriental [East African] especialista em antropologia cultural com a UNESCO, Dr. Ben-Jochannan realizou pesquisas na África, assim como na Índia e na Europa. Ele é bem versado em Hebraico, Espanhol, Português, Agu (uma língua Etíope antiga), Árabe, Grego e tem um conhecimento de leitura de Italiano e Árabe Clássico. Seu apartamento no Harlem possui uma biblioteca de cerca de 12.000 livros, manuscritos e mapas raros (alguns que datam do século 15).

O Dr. Ben-Jochannan atualmente divide a maior parte de seu tempo entre lecionar na área de Nova York e escrever. Ele atualmente leciona na Marymount College, Universidade de Cornell, e Malcolm-King College, uma escola livre do Harlem para a qual instrutores doam seu tempo. A maioria de seus livros foram publicados por sua própria organização sem fins lucrativos, a Fundação Alkebu-lan, Inc. (209 W. 125 St., Suite 218-218A, New York City). Eles incluem: Black Man of the Nile [Homem Preto do Nilo], African Origins of the “Major Western Religions” [Origens Africanas das “Principais Religiões do Mundo”, Africa: Mother of “Western Civilization” [Africa: Mãe de “Civilização Ocidental”], e Cultural Genocide in the Black and African Studies Curriculum [Genocídio Cultural no Currículo dos Estudos Negros e Africanos] (com George E. Simonds).
– CAROLE A. PARKS

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Entrevista:

[Black and White] BW: Ao longo dos anos, você desenvolveu sua própria abordagem em “seis pontos” [ou “seis passos”] para a análise histórica. Curiosamente, os passos um (cultivar sua consciência Preta ou “quadro Africano de referência”), cinco (perguntar a si mesmo constantemente: “Para quem e para que propósito o meu trabalho sobre a ‘Mãe Alkebu-lan’ [África] e seus filhos serve? “), e seis (firmeza à sua integridade como pessoa Africana) indicam que você acredita que as atitudes do historiador são tão importantes para o seu trabalho quanto as técnicas que ele usa. Quais os fatores que contribuíram para a sua ênfase sobre a atitude?

[Yoseph-ben Jochannan] Yb-J: Em primeiro lugar, depois de ler alguns dos materiais em mão sobre o assunto, Eu descobri que esses materiais, como eles foram escritos – as interpretações – estavam em conflito com os documentos originais (sobre os quais eles estavam supostamente baseados). Quando você via as documentações – quando você via de onde eles vieram, ou você via algum tipo de figura, e você olhava para a imagem que a firgura transmitia – e, em seguida, comparava-a com o comentário por um escritor particular, você descobria que havia uma total distorção.
Como um Africano – um homem Preto, percebendo que este material estava lidando comigo – eu tinha de apresentá-lo por uma perspectiva diferente, e a perspectiva era: como isso afeta as pessoas Pretas; qual o papel que o homem Preto desempenha nisso? Isto necessitava mais estudos, mas também necessitava um certo tipo de integridade. Eu tive que me perguntar: “Se eu perpetuar este tipo de história como ela tem sido escrita, e usar o padrão acadêmico ‘estabelecido’ da sociedade em que vivo, posso eu fazer isso e ainda ser honesto comigo mesmo e honesto para meus leitores?” “Estou eu escrevendo para receber algum tipo de prêmio pela excelência do meu uso do idioma Inglês? Ou estou eu escrevendo para dar informação ao povo Africano – o povo Preto do mundo?”
Agora, se você escrever por dinheiro ou prêmios, então você tem que escrever para agradar a um determinado público.
O meu ponto é escrever o que quer que a informação declara, quer seja essa informação positiva ou mesmo se for negativa – o que eu posso considerar negativo – enquanto que a partir do ponto de vista Africano.

BW: O segundo passo em sua abordagem é a aprendizagem de outras línguas, tanto Européias quanto “Africanas”. . .

Yb-J: Eu descobri que este ponto é de extrema importância, na medida em que durante os últimos 400 anos, em algumas áreas e um pouco menos em outras, você verá que é o Europeu, o Asiático e outros que estavam registrando a história Africana principalmente. Havia Africanos que também estavam fazendo alguns registros, mas em grande parte, por causa da conquista da África e de seus intelectuais por esses povos [Europeus e Asiáticos], tornou-se necessário aprender a ler as várias escritas [scripts] Européias e Asiáticas envolvidas.
Quando você lê as traduções do hieróglifo por certos historiadores, se você não souber hieróglifo, você não verá que existe um monte de falsas interpretações nessas traduções. Tome [J.H.] Breasted, por exemplo, que costumava estar na Universidade de Chicago. Ele inseriu a palavra “Negro” com relação aos Núbios, apesar do fato de que quando a sociedade Núbia existia, o termo “Negro” ou nada parecido sequer existia. Assim, isto [‘segundo passo’: aprender outras Línguas] permite automaticamente que você saiba que, se ele inserisse isso [a palavra ‘Negro’], você tinha que, então, ser capaz de verificar a obra original, a fim de descobrir a verdade.
A história dos Mouros [Moors] é outro exemplo. Quando eu li sobre os Mouros [Moors], baseado na maioria dos acadêmicos Europeus Ocidentais do passado e do presente – se eu fosse para parar por aí, eu iria dizer que os Mouros [Moors] não tinham nada a ver com pessoas como os Africanos-Americanos. A apresentação do Mouro [Moor] naquela literatura [Européia Ocidental] não tinha qualquer menção para o Norte da África; ele [o Mouro] é descrito como sendo Hamítico, Semita e todos esses tipos de coisas. Mas quando eu li através da escrita original [original writing], eu notei que os termos Hamítico e Semítico [Hamitical and Semitical] eram uma identificação da linguagem, identificação do grupo, que não tinha nada a ver com características físicas. Hoje, se você ver o mesmo tipo de termo [Semítico, Hamítico], você vai achar que este este é suposto por referir-se a aspectos físicos; como: “Semitas são supostos por serem os Árabes e Judeus, mas principalmente os Judeus”. Então, quando você diz “Judeus” [“Jews”], você automaticamente exclui os Pretos [Você acha que o termo não se refere aos Pretos]. Mas se você ler as obras originais, você descobre que não havia nenhuma diferença na maioria dos casos entre o que vocês chamariam hoje de um “Negro”, uma pessoa Preta, uma pessoa de cor, [ou qualquer outro rótulo], e aquela pessoa chamada Judeu [Jew].

BW: A sua determinação em prosseguir “condução ao conhecimento histórico escrito e tradicional (oral)” (passo 3) levou-o à aldeias, museus, sítios arqueológicos, e assim por diante em todo o mundo. Você sente que todos os nossos historiadores Africanos devem – ou podem mesmo permitir-se – realizar isso?

Yb-J: Eu penso que é necessário para os historiadores Africanos – Pretos – de todo o mundo – e as pessoas Pretas com dinheiro vão ter de apoiar os seus educadores – eles devem ser capazes de fazer pesquisas de campo independentes, para autenticar alguns dos trabalhos que estão sendo feitos e que tem sido sido feitos sobre o povo Africano. Eu não penso que podemos “tomar por dado” [ou “por aceito] [“take for granted”] nada escrito sobre nós por outros [I don’t think we can take anything written about us by others for granted]. Sim, em certos casos, temos de ser capazes de re-conferir [backcheck] e verificar a maioria dessas coisas por nós mesmos, porque as distorções são tão difundidas.

BW: O passo que não discutimos ainda, o passo quatro, é ‘construir uma biblioteca pessoal de livros e manuscritos, principalmente por autoridades Africanas’. Quem, na sua opinião, poderia se qualificar como uma “autoridade Africana”?

Yb-J: Bem, você sabe, eu uso o termo “Africano”, significando o povo Preto em geral em todo o mundo. Eu penso que temos um bom número deles. Eu vou citar apenas alguns, e os outros que eu não citar não são necessariamente menos importantes. Eu diria: Carter G Woodson, [N. Monroe] Work, Joel A. Rogers, W. E. B. Du Bois, Richard B. Moore em Nova York, John Henrik Clarke, John G. Jackson, que escreveu Introduction to African Civilization [Introdução à civilização Africana]. . .

BW: Chancellor Williams?

Yb-J: Ah. Claro, Chancelor Williams. Há um outro Williams no século 19 [George Washington Williams] – Eu acho que ele foi um dos primeiros, mesmo antes de Du Bois e outros, a começar a escrever sobre história Africana. Eu incluiria C. L. R. James, Wilson Amistead, que, por volta de 1848, escreveu A Tribute to the Negro [um tributo ao Negro]. Paul Bohannan não é ruim, e há Essien-Odom da Nigéria. Então você tem este colega Senegalês, [Cheikh Anta] Diop. Uma série de suas obras foram finalmente traduzidas [do francês] para o Inglês. [J. C.] deGraft-Johnson, que escreveu African Glory [Glória Africana], não fez um mau trabalho. Você pode adicionar Dr. J. B. Danquah de Gana, George Padmore, Dr. Edward W. Blyden. . .

BW: Você também inclui pessoas que podem não ser necessariamente “acadêmicos” de história? Por exemplo, você inclui material popular [folk material]?

Yb-J: Oh, com certeza. Eu penso que Frederick Douglass é uma autoridade sobre as condições de escravidão; Booker T. Washington; e o companheiro que escreveu tão extensivamente sobre a igreja Negra [Black Church], E. Franklin Frazier. Paul Laurence Dunbar, Langston Hughes – eles conheciam a América através da poesia. Rosamond Johnson e seu irmão, James Weldon Johnson – que fizeram um amplo estudo dos “Negro Spirituals” e seu valor histórico, com relação à luta. . .

BW: Eileem Sul. . .

Yb-J: Ah, com certeza. . .

BW: Bem, em nossa edição de música Negra, ela assinalou que poucos estudiosos vão além das fontes menos óbvias, como jornais Negros, ficção. . .

Yb-J: Ela está mais do que correta. Há aquela irmã no Mississipi – a romancista notável, Margareth Walker, e a poetisa de Indiana Mari Evans. Eu poderia prosseguir [citando nomes]. . .

BW: Eu queria ter uma idéia de o quão grande você significa o termo “autoridade” para ser.

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Os símbolos acima, que Yosef ben-Jochannan incluíu na capa de seu livro African Origins of Major “Western Religions” [Origens Africanas das Principais “Religiões Ocidentais“], são representativos daqueles comumente utilizados ​​por Europeus e Europeu-Americanos, mas que foram “adotados a partir dos filhos e filhas de Alkebu-lan (“Mãe África”).
De acordo com o Dr. Ben-Jochannan, “CADA SÍMBOLO DESTES É, PELO MENOS, 4000 ANOS MAIS VELHO DO QUE O JUDAISMO E CRISTIANISMO [Judaeo-Christianity].”

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Yb-J: Isso é o que eu quero dizer por “autoridade” – Pretos que decidiram para si mesmos ser originais, original em termos de seus próprios eus [their own selves], sua própria história, e a sensibilidade que tiveram para com o registro de sua própria história. E quando eu digo “história”, isso não significa um livro de história por si só, mas o registro do que acontece com os Pretos. Eu penso que Sam Yette fez um belo trabalho; The Choice [A escolha] não pode ser ignorado como uma importante contribuição no contexto do que Yette estava fazendo.
Você pode olhar para a posição do [Rev. Albert] Cleage e a posição do [Honorável Elijah] Muhammad. Não é uma questão de se eu concordo ou não com eles; é uma questão de o que eles estão dizendo. Muhammad seria uma autoridade em sua forma de Islão, e eu preferiria ler o que ele diz sobre isso do que o que outro alguém diz. Se eu tivesse uma escolha entre [a revista] BLACK WORLD [MUNDO PRETO] e Olhar alguma outra revista quanto a algo Preto, eu tenderia a tomar a [revista] BLACK WORLD como autoridade.

BW: Obviamente, você concorda com a declaração de Chancellor Williams, em seu Destruction of Black Civilization [A destruição da Civilização Preta], de que os “Africanistas Ocidentais conhecem a verdade da nossa grandeza”, mas ignoram e se recusam a publicar quaisquer fatos da história Africano que perturbem ou mesmo que tendam a perturbar a sua filosofia racial.”

Yb-J: Eu concordo plenamente [I agree wholeheartedly].

BW: No entanto, uma vez que a maior parte do material na área foi escrito por estas mesmas pessoas, você tem que dedicar uma grande quantidade de espaço em seus livros para dissecar e refutar os seus “fatos”.

Yb-J: tão verdade [So true].

BW: Você se arrepende de ter tido que passar tanto tempo batalhando contra historiografias racistas, ou você achou que esse esforço é, de alguma maneira, estimulante?

Yb-J: Há tanta distorção, e isto força-o a escrever tanto, que eu me pergunto se eu não tivesse tanto para refutar, se teria eu produzido tanto trabalho quanto eu tenho. Eu poderia ter me tornado um pouco relaxado. Isto mais do que estimula; é um desafio constante que me faz sentir que Eu não posso parar de escrever. Eu poderia me aposentar a partir de um trabalho ou algo assim, mas eu não poderia me aposentar de utilizar a caneta para mudar alguns desses mitos. A maioria dos livros sendo utilizados ​​em Estudos Negros [Black Studies] ainda não são escritos por Negros. Em outras palavras, nós ainda olhamos para outras pessoas em nossos cursos de Estudos Negros [Black Studies] para o material sobre nós mesmos, e elas ainda, a meu pesar, são consideradas as principais autoridades.
Tome a posição sobre família desenvolvida por Talcott Parsons, que acabou de se aposentar de Harvard como, penso eu, presidente do Departamento de Estudos sociais. Mesmo Andrew Billingsley utilizou o gráfico e escala de valores morais de Parson, e adaptou-os para pessoas Pretas, em seu livro, The Black Family in White America [A Família Preta na América Branca]. Billingsley – um bom escritor, um estudioso Preto muito honesto e competente – ainda não desenvolveu uma escala de sua própria autoria. Ele fez a suposição de que ele poderia usar uma escala, valor e moralidade, etc., desenvolvidos a partir de uma posição da classe-média branca e aplicá-los para a comunidade Negra. Isto é o que eu quis dizer que os Pretos terão de fazer seus estudos independentes.

BW: Você coloca, em seu trabalho, uma grande ênfase sobre a rotulagem correta [correct labeling]. Em Black Man of the Nile [Homem Preto do Nilo], você fornece argumentos devastadores contra o uso de tais concotações Européias como “Bosquímano [Bushman], Camita [Hamite], Bantu, Danakill, Fuzzy Wuzzy, Pigmeu [Pygmy], Negro. . . .” No começo de nossa conversa, você mencionou como, se você não traçasse exatamente qual a terminologia era utilizada durante um determinado período, você naturalmente não iria encontrar “Negros” na Etiópia ou no Egipto, porque “Negros” não existiam até que eles foram criados pelos Europeus, principalmente os Portuguêses.

Yb-J: Certo. Antes do século 16, você nunca iria encontrar a palavra [“Negros”] em qualquer literatura.

BW: Bem, nós sabemos que isso teve um enorme impacto sobre a nossa imagem de nós mesmos. Usando a palavra “Negro” como um exemplo, você poderia mostrar outras maneiras em que a perpetuação de tais termos incorretos tem efeitos muito práticos sobre a nossa busca da verdade.

Yb-J: Tomemos aquela área onde nós, como povo como um todo estamos envolvidos – religião, quer seja Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Voodoo ou qualquer outra. Por causa da terminologia “Negro”, nós temos sido cortados para fora [excluídos] de nossas contribuições – não apenas contribuições, mas as nossas origens, as origens que nós criamos nessas religiões. Moisés é um Africano. Toda a base de Gênesis e Êxodo é retirada de histórias Africanas. No entanto, termos como Hamítico e Semítico fizeram com que os Africano-Americanos, Africanos em casa e no Caribe, se sentissem cortados para fora [excluídos] desta história e [nos levaram a pensar] que nós não temos absolutamente nada a ver com isso.
Escritores muito antigos, como [o filósofo Grego] Heródoto, declararam especificamente que estes eram povos Pretos: Ethiops ou Etíopes, Núbios – estes eram os termos pelos quais nós fomos então chamados. Hoje – dentro dos últimos 200 anos – historiadores Europeu-Americanos tentaram fazer de algumas das pessoas, aquelas que eram escravas, para serem “Negros”. Quando isso não funcionou, eles fizeram dos escravos “Camitas” [“Hamites”] – a partir daquela estória mitológica e alegórica sobre Noé e seu filho [Cam ou Ham], que foi amaldiçoado – a maldição, é claro, ser Preto.
Mesmo quando você percorre as histórias pictóricas e olha para as pinturas de Cristo na Europa, você encontra a transformação da Madona e Criança Pretos, que era comum através da Europa, mas que finalmente mudou com as várias pinturas de Michelangelo e outros – quando Cristo, então, de repente se torna branco.

BW: Você também mencionou a maneira sutil em que [o termo] “raça” tem sido utilizado para distinguir entre a “raça Negra”, a “raça Africana”, e a “raça Caribenha”. . .

Yb-J: Sim, isso é outra coisa, embora o novo termo que está sendo sabiamente emperrado ultimamente seja “étnica” [“ethnic”]. Você vê como eles utilizaram isso sobre a “raça Biafra” [“Biafran race”] sendo assassinada: É genocídio, porque eles estão matando a ‘raça’ Biafra” [Biafran race] Isso é exatamente como os [então-chamados] “distúrbios raciais” [“race riots”] no Harlem; você não tem ninguém nos tumultos, ninguém sendo morto além de pessoas Pretas, mas [ainda assim] isso é [então-chamado] um distúrbio racial. Como você pode ter um distúrbio racial e nenhum homem branco se machucou? Quem são as “raças”? A raça da rua 116th Street contra a raça da rua 125th Street? A raça da India Ocidental contra a raça Preta Norte-Americana? E eles desenvolveram isso até o ponto onde muitos de nós acreditamos nisso agora. Muitos de nós têm aceitado que nós somos raças diferentes: o Negro de-pele-clara contra o Negro de-pele-escura, e esse tipo de coisa.

BW: Uma outra forma de divisão. . .

Yb-J: Exatamente! [Righto!] Tudo isso vem dessas coisas que foram forçadas sobre nós, e quando nós adotamos o uso, torna-se perigoso para nós. Tão grande como Du Bois e outros foram, o fato de que eles adotaram o termo “Negro” causou-lhes problemas, bem como para aqueles de nós que os seguiram. “Negros” não têm história antes que eles foram criados pelo Portuguêses por volta do século 15. Desta forma, agora quando nós lemos sobre Cartagineses, Mouros [Moors], Etíopes, Ganenses e assim por diante, estes termos não são supostos por envolver a nós – “Negros”. Você sabia que livros sendo escritos hoje – no ano passado – são publicados declarando que os líderes dos impérios da África Ocidental eram Semitas brancos, enquanto que as pessoas eram Mandingos Pretos? Agora, isso é atroz. Esta é a altura do genocídio cultural, quando dizer, em outras palavras, que os responsáveis ​​por planejar Gana e Mali antigos, etc., foram Semitas brancos. Eles não dizem como esses Semitas brancos chegaram lá. Eles apenas surgiram de repente lá por osmose espontânea.
Sempre que possível, em vez de Egito, eu uso Ta-Merry ou Sais – qualquer um dos nomes antigos que os povos indígenas usaram para suas áreas. Em vez de Pigmeu [Pygmy], eu uso Twa. E eu gostaria de salientar que em um ponto [da história], os brancos chamaram uma parte da África de “Negrolândia” [“Negroland”], quando que essa mesma área era conhecida como Songhai. Como [o termo] Bantu [por exemplo] – o que significa isso? Ou Mau Mau? Os Africanos nunca chamaram a si mesmos por esses nomes. Eu penso que o Presidente Mobutu [Sese Seko] do Zaire, antigo Congo – está fazendo um trabalho muito bom lá; ele fez a África re-Africanizar os nomes. Não há nada de errado com um nome Europeu, mas, então, ninguém deve negar ao Africano o direito, a integridade de ter suas próprias etiquetas [rótulos] [his own labels].

BW: É muito evidente que você escreve para o povo Preto e, por essa razão, como você diz em Black Man of the Nile [Homem Preto do Nilo], “Nenhuma tentativa é feita para afirmar que esta obra é baseada sobre apresentaçãoes imparciais [unbiased presentations].” É particularmente refrescante como seus livros desmistificam a imagem do grande acadêmico branco registrando a partir das alturas de algum elevado Olimpo de “objetividade”. In Black Man of the Nile [Homem Preto do Nilo] você cita um historiador Inglês que diz que, antes que as pessoas possam entender a África moderna, eles têm de “livrar suas mentes dos preconceitos Europeus” promovidos pela abundância de material “apresentado a partir de um ponto de vista Europeu.” A citação termina: “Nós provavelmente vamos ter que esperar um pouco até que a verdadeira história da África seja escrita por estudiosos Africanos para um público leitor Africano“. Porque você acha que tantas pessoas Pretas ainda persistem em desconfiar do nosso próprio taco e em acreditar que nós devemos escrever para brancos para que eles nos entendam melhor?

Yb-J: Porque nós ainda não temos realmente olhado para a beleza de nós mesmos e eu não quero dizer necessariamente, as características faciais da pele, mas a beleza nas tradições e as contribuições que nós temos dado para o mundo. Agora, porque nós ainda não vemos isso – além de olhar-se no espelho e dizer que somos fisicamente bonitos – nós não entendemos que existe aquela beleza intrínseca dentro de nós, que inclui o que nós temos feito. E somente nós podemos falar dela como ela é, e nós temos de falar um com o outro.
Um Italiano e um Sueco na América são brancos, mas eles ainda querem mostrar um certo aspecto de seu etnocentrismo cultural, o que eles têm contribuído para a economia branca. E eles se certificam de que isto é contado a partir do ponto de vista Italiano ou um ponto de vista Sueco. Agora, o Africano-Americano tem de perceber quepor mais que ele possa querer dizer que a América é um caldeirão [ou cadinho] [melting pot] – este pode ser na medida da mistura de povos que vivem aqui – todas as pessoas, incluindo os Europeus, são separadas por grupos e classes, e têm interesses particulares. Nós, como um povo, temos interesses particulares, quer gostemos ou não, e o escritor Preto tem de escrever a partir desses interesses.
Se você notar, eu não disse: “Eu sou um bom escritor porque eu tenho sido endossado por um escola em particular.” Não. Eu penso que sou um bom escritor porque eu fiz a pesquisa: Eu examinei os fatos e vi-os a partir de um ponto de vista Africano. E se eu estou escrevendo contra Tom ou contra algo que Tom fez para mim, eu não posso pedir a Tom para me validar. Isso é como o escravo e o senhor-de-escravos decidirem escrever uma história, e ambos verem-na com os mesmos fatos e a mesma interpretação: algo está errado; isso tem de estar errado, porque o interesse do escravo deve ser sempre sua liberdade, se ele é humano. Eu não acho que eu posso viver em uma sociedade – em qualquer sociedade hoje – e estar em um vácuo e dizer que eu estou escrevendo a partir de uma mente totalmente livre que não tenha de forma alguma qualquer preconceito. Não. Meu é um relato como visto por um Africano para outros Africanos.

BW: Isso nos leva a algo que você escreveu em The Black Man’s North and East Africa [O Norte e Leste da África do Homem Preto], que nós temos que “estabelecer os nossos próprios valores de certo e errado” Você passou a enfatizar mais tarde que, “é a interpretação da história que faz a diferença entre o que é ‘certo’ ou ‘errado’, ‘piedoso’ ou ‘ímpio’, ‘moral’ ou ‘imoral’.” Parece que o seu estilo um tanto didática de apresentação é projetado tanto para incutir valores como para ensinar história.

Yb-J: Isso está correto. Você vê, eu não quero um livro de história óbvio de datas e eventos monótonos, e eu não me importo sobre como as pessoas classificam meus livros. O que eu estou tentando dizer é que o que aconteceu historicamente nos afeta até hoje. O que aconteceu a 10.000 anos atrás nos leva até mesmo em 1974. Eu quero ser capaz de relacionar o nosso passado com o presente, a fim de tornar possível para nós utilizar os dois para fazer um futuro melhor para nós mesmos. Por exemplo, não podemos continuar a ver a pintura que Michelangelo fez de seu sobrinho como sendo a nossa divindade [godhead]. Não podemos continuar dizendo que Jesus não tem cor, e ainda assim, em cada culto dominical está este homem branco que Michelangelo criou. Na realidade, sabemos que uma imagem vale por mil palavras.
O próximo ponto em conjunto com este é que a verdade é relativa ao local onde você está. Se a nossa condição econômica é como é, então, o nosso valor moral vai será baseado sobre. . . . Você não pode esperar que a mulher Preta e e homem Preto operem sobre o mesmo valor moral quando o seu nível econômico neste país, por opção própria, está abaixo de todos os outros. Portanto, o seu status moral terá de ser relacionado ao efeito. Se os Pretos têm praticado um tipo de família alargada [extended family], então, a moral Preta deve ser baseada sobre esse conceito. Devemos estabelecer nossos valores nesse contexto, porque nenhum outro grupo étnico na América permite que outro grupo étnico estabeleça os seus ‘certos e errados’ dentro de seu próprio etnocentrismo.

BW: Eu me lembro de uma carta de rejeição que você me mostrou uma vez, de uma editora, na qual eles não se opunham tanto por causa de seu estilo de escrita mas sim por causa de suas interpretações, e eles disseram que eles tendiam a duvidar de seus fatos, mesmo apesar de você ter uma grande dose de comprovação [substantiation]. Você já encontrou tal resistência da parte de estudiosos Pretos para o que você está tentando fazer?

Yb-J: Sim, eu conheci alguns estudiosos Pretos com medo. O livro, Cultural Genocide in the Black and African Studies Curriculum [Genocídio Cultural no Currículo dos Estudos Negros e Africanos], gerou alguma reação da parte de estudiosos Pretos de que ele é um ataque contra eles pessoalmente. Mas o que eu estou tentando dizer a eles é que não é um ataque pessoal, mas um ataque à sua perpetuação de mitos. Eu penso que se você é um estudioso Preto, o que quer que você leia, você deve fundamentá-lo [substantiate it] antes de passá-lo adiante. Você é obrigado a verificá-lo. Se voçê depende da validação que você obtém da fonte branca, então quem quer que desafie essa fonte desafia você automaticamente.

BW: Há algo que você gostaria de acrescentar ao que já discutimos?

Yb-J: Bem, só que eu tenho um amor de ser o que sou. Eu não tenho nenhum remorso sobre ser o que sou. Uma das coisas básicas que me motiva é a beleza que eu vejo na mulher Preta – além do físico. Quando eu olho para ela, eu vejo a mãe da humanidade, que é a minha mãe. Lembro-me de onde o berço da humanidade é – Eu estou apoiado nisso pelas conclusões dos Leakeys e outros arqueólogos. (Mesmo que alguns arqueólogos modernos estejam dizendo que os Caucasianos precederam os “Negros” na África. Eu nunca pensei que eu iria ouvir isso hoje, mas eu estou vendo em livros como o Horizon History Book [Livro de História Horizon] que acabou de ser lançado, pelo colega Desmond Clark) E eu tomei Alkebu-lan no mesmo contexto – como a mãe da humanidade. Isso me dá uma sensação de orgulho que nenhuma quantia de dinheiro pode negar. Eu ainda estou para ganhar o primeiro dólar a partir de qualquer um dos meus livros: na realidade, custa dinheiro do meu bolso para disponibilizá-los aos preços que fazemos. Este é um trabalho de amor, e o amor é algo que não pode ser expresso em palavras. Não há prêmio por isso.

 

 

 

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